Padre Nazareth contara discretamente o prodigio na loja do Burjaca, palavras simples, sem paixão e sem commentarios. Não lhe convinha muito tornar-se heroe do caso. Velhaco como era, tinha fé em que os animos se accenderiam por versões mais escandecidas e pelos exageros e mentirolas que na bocca da gentalha usam acompanhar os episodiosde força, como aquelle. Effectivamente corria já na villa que a Escholastica cahira de cama, faniquitos a cada instante, um esbracejar de endemoninhada debatendo-se nos pulsos de dois sapateiros vorazes, que a tinham de olho havia muito.
Ao mesmo tempo, o sacrista referira na venda doSalta-Pocinhas, á malta que alli se juntava para beber fiado, a historia circumstanciada da velha, as suas peregrinações a Lourdes, a sua grande fé e a sua caridade, uma carinha de santa, muitas esmolas... E transfigurado, tinha descripto a imagem do Senhor dos Passos, chagado e de olhos abertos, de cujas pupillas fixas parecia sahir a claridade de além-tumulo, o quer que era que dava terror e fazia arrebentar de paixão. E as opiniões começaram a desfilar através das conversas, fuzilando, luctando, fazendo contraste. Uns criam no milagre, impondo condições. Outros andavam perplexos. Alguns riam.
—Pode lá ser!
Já se contava que o chôro do idolo, não era de hoje. Até alli ninguem reparára. Inda se o santo désse berros!... Mas calado como era, não attrahira as attenções de ninguem.
—Quem havia de dizer!... ponderava a D. Maria do Juiz. Um Senhor de pau como outro qualquer! E havia quem tivesse já desconfiado.
Algumas velhas até, sonhavam todos os dias com a imagem, resplandor na cabeça, cruz ás costas ea fazer-lhes signaes. E as outras escutando, ganiam de olhinhos piscos:
—Tambem a mim! Tambem a mim!
Mas o carreiro das Silvas, que ouvira tudo muito calado, largou esta de chofre:
—Ponho a mão n’umasHoras, em como é pouca-vergonha dos padres!
Ameaçaram-no logo. Pedaço de bebedo, grandissimo traste, que já queria ter opinião nas conversas das suas amas, o malcriado!
E em quanto ellas ralhavam da petulancia do moço, a mais gente nos seus carros e nos seus jumentos, ria maganamente, pondo uma nota rutilante na pratica escura de sacristia, das senhoras devotas imbecilisadas e seccas.
Assente pois que a lagrima de sangue, segregada directamente por Deus, e escorrida da palpebra ossea do idolo, mantinha particulas divinas, gemeas das que ficavam no calix, durante a missa e á invocação do celebrante, toda a gente estranhou que o prior da villa não mandasse repicar os sinos, marchando logo com a irmandade sob o pallio rico, a buscar em procissão solemne o Senhor dos Passos.
Ao subir para o carro, paramentada de sêda roxa e toda de véo pela cara, a D. Maria do Juiz dando com o parocho a passear na praça, inda lhe perguntou o que tencionava fazer.
O velho olhou-a por um bocado muito serio, e disse:
—E a senhora?
—Ora essa, senhor padre! Cumprir com o meu dever de christã. Vou penitenciar-me diante de Nosso Senhor. E seraphicamente:
—Que estão chegados grandes dias!
—Pois felicidades.
E sem mais amens, o velho continuára a passear, batendo na caixa de rapé. Era homem de cincoenta e tantos, calado e grave, com a bondade rude que nasce da misanthropia aldeã em perpetua contemplação do mesmo horisonte e das mesmas arvores. Velho leitor daRevoluçãoe liberal de tempera, viam-no sempre prompto a bramir contra os escandalos que manchavam o sacerdocio, violencias, seducções, roubos, toda a casta de vicios. Intimamente rosnava contra a penitencia, a confissão e essa idolatria das imagens, que torna mais alvar ainda o povo das freguezias.
Em geral vivia recolhido, longe dos fócos de opinião da terra, dizendo missa na matriz ao romper do sol, percorrendo á tarde as fazendas entre um cajado e um cão amarello, e passando as noites em casa do medico, no seu interminavel voltarete.
Quando lhe fallaram no milagre, o prior bateu na mesa iracundo e tremulo, exclamando rudemente:
—Nunca se viu pouca-vergonha maior!
E logo todo pallido, receoso de ter concorrido para o descredito da batina, agitava o lenço vermelho trovejando:
—Homem, é melhor que me não façam fallar!
Aquella violencia alastrou-se de bocca em bocca, espicaçada por commentarios mordentes e velhacas interpretações. Era opinião que o prior detestava padre Nazareth, e sentia atrozes ciumes do seu talento oratorio e da sua fama de rico. Havia annos que os dois se não fallavam, por caturrices de eleição. Além d’isso, as preferencias da fidalga pelooutrohaviam sido consideradas na terra como humilhantes para o parocho—um rustico! como se dizia em casa das Silvas. Durante toda essa manhã, muita gente fôra consultal-o sobre se deveria acreditar no milagre. E no intuito mesmo de sondar a opinião de sua reverencia sobre o ponto melindroso, varios pediam uma interpretação logica para a terrivel lagrima do deus.
O velho todo se torcia a cada ataque, e de mil côres derivava na palestra para episodios pueris, colheitas, calores da quadra e preços do vinho. Mas as devotas voltavam á carga de prompto, insistindo se seria verdade, se não seria verdade, se o santinho chorara e seria sangue do legitimo...
Ao mesmo tempo os finorios da terra, proprietarios ociosos farejando escandalos em que entreter tempo, egoistas promptos a gozar, pela espectativa dos contratempos alheios, espicaçavam-no cruelmente e de caso pensado, vontadinha de apanhal-o bem na rede, para lhe pôrem em evidencia alguma lugubre contradicção de crenças profissionaes.Mas o prior permanecia sombrio, suando nas fontes sem dar palavra, um fremito de impaciencia nos hombros.
—Isto de crêr ou não crêr, é da consciencia de cada um, observava elle, apertado.
E pitadeando:
—Cada qual que se consulte e proceda como melhor lhe convier.
Mal a romaria chegou á ladeira que afrontava o convento, os carros fizeram alto, por conselho de D. Maria do Juiz, que era authoridade entre as devotas. As Silvas lançaram-se logo de joelhos. Algumas velhas tinham-se descalçado, e magoando os pés nas asperezas da vereda abrazada de sol, seguiam desfiando rosarios, as offrendas em taleigas de ramagens, chales pela cabeça.
Ao mesmo tempo, o povoléo pressuroso, faminto de assombros e sem paciencia para esperar que os carros passassem na azinhaga, extravasára da estreiteza do caminho, espraiando-se pelas terras ceifadas, aos pulos por vallados e alvercas. Uma febre podre de superstições e pavores dilatava os olhares e enlividecia as epidermes bronzeas, alagadas em suor. De todos os lados choviam promessas, alqueires de azeite, saccos de trigo, milagres de cêra, cabellos, mortalhas, uma infinidade de coisas. Uns promettiam para que o Senhor lhes livrasse os filhos de soldados, outros querendo triplicada seára, em quanto varios desalentados pela doença, sezonaticos e tristes, vinhamsimplesmente solicitar a cura immediata, mediante o valor de uma fogaça. Era pensamento de todos engodar o idolo com dadivas chinfrins, como fariam a um selvagem por meio de missangas e estamparias. E no intuito de um bom negocio premeditado, vinham chancellar ao convento o contracto, mentalmente e sem escrupulos. Á entrada no templo, foi uma berraria infernal, prantos, latinorios, desmaios... Á frente as velhas descalças, mãos postas e olhos no céo, faziam um clamor de ladainhas e preces, com vozes esganiçadas e lamentosas. A D. Maria do Juiz, que gostava de figurar nas festas e era aia de Santa Catharina, levára de casa um Santo Lenho de prata, que ergueu á frente da multidão.
Desgrenhadas e cheias de espinhas carnaes, as Silvas vinham-se arrastando nos joelhos, de braços abertos, e a cada passo pendiam de canceira com delirios de virgens flatulentas. A. D. Maria do Juiz chegava-se então, e solemnemente, como vira fazer em Beja ao bispo, dava o relicario a beijar, bolsando esquirolas de oração.
For detraz d’ellas accumulava-se a gente esfrangalhada, obtusa n’um pasmo irracional. E batendo nos peitos, muitos diziam n’uma especie de uivo somnolento, entre caudaes de pranto:
—Misericordia! Misericordia!
Eram Trindades quando padre Nazareth appareceu em casa do sacrista. Desde manhã que não sahia de casa. O calor trazia-o morto, suores salvoseja, de jumentinho podre, uma seccura diabolica. Que ia pela cidade?
Manoel do Cabo pôz-se a dizer—o prior tinha zurrado:pouca vergonha! na loja do Burjaca não tinhamcomido a pantominice, o mulherio fôra em chusma ao convento, havia tres mil e tanto de esmolas, afóra azeite e pães alvos. Padre Nazareth sacudia o pó das mangas, um fremito jubiloso de narinas e o olho nadando em fluidos de victoria. E commovido exclamou:
—Grande povo este!
Depois, muito confidencial:
—Despejou a cabeça?
—Logo. Por esse lado não ha perigo.
O seu receio era Beja porém. Que o vigario não era para graças, segundo ouvia dizer. Pelos modos suspendia padres com sem-ceremonia excepcional. Pequenino como era, voz aflautada e gestos de alcoviteira, tornava-se nos lances serios, de uma rispidez temerosa. Não lhe conheciam empenhos, nem amigos, nem actos de benevolencia no julgamento de qualquer melindrosa questão.
—Espirra-canivetes! resumia o sacrista.
Aquella ponderação fez porém sorrir padre Nazareth, que esboçando attitudes de poderoso, de trunfo politico, exclamou:
—Ora adeus! Todos os grandes tem uma perna de pau.
E distrahidamente, em ar de commentario:
—Pois senhores, estão as eleições á porta!
Sorria-se com finura velhaca, mirando o outro pelos cantos dos olhos, contente de fazer presentir a sua importancia occulta e inabalavel.
—Emfim, proseguiu a meia voz, a primeira cunha está mettida. E bem mettida que está!
O resto, com vagar e geito. Domingo, rica festa no convento, alli a missinha cantada, sermão de endoidecer os peixes...
—Eia, o que ahi vai!
—Vossê verá, tornava envaidecido o padre.
E batendo na testa:
—Tenho aqui o sermão todo. É d’um effeito!...
—Ah! prégador com’ó primeiro! Que não se apanha segundo por estas redondezas.
Padre Nazareth exultava de lisonjeado.
E oleoso de gloria, o fascias ridente das consciencias repousadas, ia aventurando ao sacrista pequenas confidencias, que espumavam de humor como um bom champagne crepitando n’um copo.
Pouco a pouco, a voz que se lhe abafára cautelosa desenrolando segredinhos, foi subindo. E ouviu-se distinctamente o padre dizer:
—D’aqui a conego, meu amigo, é um trote.
—Sendo a besta boa..., ponderou o outro sem o encarar.
Um anno depois, estavam realisadas todas as esperanças do senhor capellão do convento. A fidalga morrera com fumos de santa, legando rendosos bens ao templo e ao padre, ao mesmo tempo que a fama dos prodigios da imagem rebentava para lá da pequena área das povoações circumvisinhas, e nos dominios da lenda corria a provincia toda, avassallando crentes e colhendo esmolas avultadas.
Todos os dias agora passavam por Villa Alva ranchos de romeiros, que bem providos de offrendas, ante a imagem do convento vinham fazer penitencia.
O tosco madeiro que primitivamente só chorava sangue, fazia agora no dizer das gentes rudes, toda a casta de maravilhas. Os cegos recuperavam a vista limpando á fimbria das tunicas bentas a ramella dos olhos assolapados. Paralyticos, que em cadeirinhas e macas abalavam dos seus lugarejos nataes aos hombros de carregadores, desandavam a passear sem detenças, mal punham os olhos na igreja. Para expellir o demo dos esqueletos da pobre gente, que exhibindo carantonhas e soltando berros, era trazida em colletes de força até ao santuario, bastava muitas vezes um sopapo teso de padre Nazareth, algum latim quando muito.
Contava-se de lavradeiras estereis que se punhamfecundas como marrãs, mediante alguns dias de residencia na horta, dietas mysticas e certas rezas adequadas. E era infinito o numero de rapagões do campo roubados á recruta, panellas de dinheiro descobertas em rochedos lendarios, e jumentinhos alegres que depois de roubados vinham dar ás portas dos donos, fazendo signaes maçonicos com o orelhame. Desde que no Alemtejo, a qualquer familia se afigurava insuperavel um problema economico, um caso pathologico mais grave, ou um casamento menos licito de realisar, as opiniões voltavam-se logo para o Senhor do Convento, na certeza de um exito prospero e immediato—o que punha em banca-rota os curandeiros, as mulheres de virtude, os procuradores, os alveitares e os medicos. D’esta cegueira absorvente de crenças, foi-se pouco a pouco originando toda uma engrenagem de pequeninas industrias devotas. E a villa tão pobre e tão reles, tomou de subito a importancia de um centro activo e florente, em que se fallava com respeito. A junta geral votou estradas que ligassem Villa Alva com os mais sertões, a camara, por seu turno, fez abrir poços publicos e arborisar os largos. Ao mesmo tempo, em quanto duas lojas abriam com estantes de vidraça, e um latoeiro de Beja vinha fixar residencia na arteria principal do povoado, as senhoras começaram a ir á missa de chapelinho e luvas, dando-se pelintramentedome fazendo os pés pequeninos. Villa Alva, como se dizia nos serões das Silvas, estava dandosota e azásterras proximas. Construiu-se um chafariz com botareos e tanques, onde até bipedes vinham mitigar-se das calmas alemtejanas. A Escholastica assumiu a direcção de uma officina de bentinhos, medidas e retabulos mais ou menos garridamente compostos, onde em lithographia e em pintura, o Senhor dos Passos ostentava as physionomias mais estranhas, barba toda ou simplesmente bigode, de corôa ou sem corôa, marchando pela rua da amargura ou quedando-se simplesmente immovel, na posição carrancuda de um photographado. Dando largas á sua vêa elegiaca, Chico Praça até alli incredulo, desandou a vender pelas festas hymnos bentos de sua composição, cantatas em pomposas estancias, no fim das quaes se repetiam estribilhos plangentes:
E os judeus jogando os dadosViam-lhe os cravos pregados...
E os judeus jogando os dadosViam-lhe os cravos pregados...
E os judeus jogando os dadosViam-lhe os cravos pregados...
E os judeus jogando os dados
Viam-lhe os cravos pregados...
Por seu lado, a D. Maria do Juiz que tivera um tio medico, inventou aUntura santa, que vendia em latas de pinto com uma carta de padre Nazareth, attestando que não havia segunda esfregação para borbulhagens. E como o commercio prosperava, as rivalidades desencadearam-se entre os vendilhões, o que determinou a falsificação nos productos e a intriga nas familias. As Silvas fizeram apparecer um licôr para flatos; o Burjaca oppôz a suaFomentação do Hortoao unguento da D. Maria;outra familia determinou supplantar as estampas da Escholastica confeccionando pequeninos Senhores dos Passos em barro, trapo, cortiça ou faia, com resplendor ou sem resplendor, conforme os preços. A esse tempo, inaugurava padre Nazareth uns bellos oculos de oiro para se dar ares de homem importante. Construira além d’isso, uma bella casa com terraço e adegas de luxo, alargando ao mesmo tempo a cifra dos seus milheiros de vinha e deitando carros de parelhas nedias. Estava cada vez mais fona, lia Vieira e Mont’Alverne para vernaculisar os sermões, usava corrente de berloques e deitára criada roliça. A sua idéa era a conezia, o poderio, muita gloria.
Desde que o viu rico, Villa Alva entrou a respeital-o, a servil-o, a lamber-lhe a poeira das botas. Era elle quem fazia as eleições na terra, quem orientava a opinião, quem fomentava a intriga. Ia frequentes vezes a Beja.
—Fallar com os trunfos! cochichava-se ás noites, na loja do Burjaca.
E com veneração, referia-se aos quatro ventos a sua alliança com as notabilidades politicas, deputados que lhe offereciam jantares, lhe mandavam cartas de amostras,Diarios da Camaracom discursos e as minutas de preços do vinho, nos mercados de Lisboa.
Aquella preponderancia fazia-o temido, e andava nas palminhas, dificultando a sua intimidade aos menos favorecidos.
No intuito de surprehender alguma informação relativa ao negocio, os proprietarios procediam com elle por pequenas sabujices, grande interesse pela azia de sua reverencia, um esmero de palavras e rodeios servis, como se fallassem a um senhor. Villa Alva queria em elle querendo, ria em elle rindo e basofiava em elle basofiando. E a conezia não chegava nunca! Emfim, uma tarde correu que o velho cura ia ser transferido a exigencias da politica, para Sant’Anna, lugarejo de algumas casas, sem recursos, sem agricultura e sem rendas, torpemente esquecido na aridez da serra. Em casa das Silvas, padre Nazareth mostrou-se penalisado do pobre homem, que ficava a morrer de fome. Mas intimamente dava-se os parabens. Conseguira afastar finalmente o pulha que se atrevia a humilhar com sessenta annos de honrada labuta, a sua florente carreira de homem sagaz, em tirocinio para conego.
Sobre o caso, Manoel do Cabo architectou logo o seu tratado pratico de moral caracteristica, por este modo formulada, sempre que um mendigo se arrastava para lhe pedir esmola:
—Grande cavalgadura!
—Porque, meu bemfeitor?
—Inda o pergunta! Aposto que é homem de bem!
—Saiba o meu bemfeitor que sim.
—Pois amigo, se vossê tem feito canalhice em quanto era forte, estava agora rico. Pedaço d’alarve!E exemplificando, estendia o braço para o fundo da praça, onde d’um lado sorria a casa nova do capellão, ampla, clara e toda alegre das tintas frescas, e a miseravel vivenda empardecida e deserta, que pertencia ao parocho velho, e desde a sua partida se não abrira mais!