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Joannatinha já dois pequenos.—O Ricardo de cinco annos, fulvo como um novilho e o João, pequerrucho de peito. Era uma rapariga alta, musculo duro e sobrancelha espessa, cujos punhos podiam amassar sem cansaço alqueires e alqueires de pão, e cujos quadris agitados na marcha sob as saias de baetilha, avivadas de azul, revelavam a solida enformatura montanheza das primitivas mulheres, tostadas e laboriosas. Casára havia seis annos com o Jerolmo, por uma vindima mais fertil. E ambos pobres, ella filha mais nova de um maioral do conselheiro e elle ganhão da herdade de Valparaiso haviam gostado um do outro, bailando depois nas romarias do verão, procurando-se instinctivamente nas ceifas e mondas e aos domingos á hora damissa conventual. Não estava arrependida de haver casado, não. O Jerolmo era trabalhador incansavel e sadio; Joanna começára por namorar-lhe o peito cabelludo e trigueiro e a forte caixa de pulmões dilatada a cada esforço de trabalho; captivára-a além d’isso depois, a sua mansa maneira de dizer as coisas, sem notas altas na voz e sem impaciencias nervosas de bilioso, a sua vida toda regulada por habitos e a condescendencia tida para os velhos.
De uma vez vira-o erguer-se de punho cerrado e olho torvo a desancar n’uma malta que primeiro o espicaçara de bestialidades. Até alli, todos de boa saude, louvado Deus! Seis annos de ventura decorrida sem attritos e sem nuvens. E os dois rapazitos!... Lembrava-se dos terrores do primeiro parto e das alternativas de humor caracteristicas, os suores dorsaes e frios, a dôrzinha vaga primeiro e intensa depois, em toda a região dilatada.
Em certos momentos, um mundo de phantasias projectando-se-lhe do phantoscopio da mente, innundava-a de photospheras de luminosa essencia—se seria um pequeno, valentão capaz de ajudar o pai se seria uma rapariga de calcanhar quadrado e dentes solidos que enchesse de cantigas e de actividade o ninho!... Todas as noites á hora da cêa, o casal accumulava e destruia planos, fazendo e desfazendo receios—perdidas evocações d’esse primeiro tempo de esposa!... Mirando a casita e as cadeiras de Evora dacasa de fóra, as prateleirasde louça e as quatro garrafas de vidro branco postas em symetria, olhando no quintalorio a méda de azinho para os lumes do inverno e o bacoro para a fartura do anno, Joanna sentia, no meio dos filhos e dos labores constantes da sua vida azafamada, um bem estar de consciencia satisfeita, um como jubilo intimo. O seu trabalho caseiro luzia: viam-lhe sempre o ladrilho varrido e as cadeiras arrumadas, um esteirão algarvio ao canto para as visitas, cobertas de retalhos lançadas sobre a mesa e dorsos dos bahús, o pequeno espelho redondo pendendo ao lado de um Francisco José, d’Epinal, brancas as paredes com rodapé de almagre em torno, e a cinza do lume constantemente varrida do lar. Dando largas á sua iniciativa de negociante creára além d’isso no quintal um exercito de gallinhas e gansos, cujos ovos o Ricardo ia vender todas as manhãs em altos pregões, pelas ruas da villa.
Manhã clara, era a primeira a erguer-se na rua e a encetar a labuta inquebrantavel e voluntariosa.
Paredes meias vivia a Francisca, casada com oEstragado, um bebedo.
Joanna tinha amizade a essa pobre mulher macilenta e soffredora, semanalmente espancada pelo marido, que para mais lhe impunha o sacrificio de fomes e farrapos.
Dissera muitas vezes, vendo-a passar para o pégo com trouxas de roupa á cabeça, envelhecida e estupida pelo contagio das miserias e brutalidadessoffridas, com o filho semi-nú agarrado ás saias e o engeitadinho ao peito:
—Nem sei como vossemecê póde, coitadinha! A outra não se queixava; tinha as miseraveis resignações d’uma cadella expulsa; com um geito de hombros e a voz sumida retrucava sempre:
—Então, paciencia! Deus não quiz...
E Francisca era reconhecida á visinha, que bastantes vezes a livrára das brutalidades do bebedo e das frequentes penurias da casa.
A Joanna, comparando a sua sorte á da pobre engelhada, sentia da comparação, exaltar-se a sua felicidade, abençoando a hora em que lhe nascera o primeiro impulso para o Jerolmo. Quando este chegava do trabalho, com o largo e velho chapéo braguez deitado para a nuca, a manta e a enxada ao hombro, ceifões já pellados pelo convivio dos asperos attritos, o burro e o borrego atraz, fartos de herva e alegres da jornada, Joanna não se continha sem lhe referir os soffrimentos da pobre mulher e a pancadaria doEstragado.
O marido então encolhia egoistamente os hombros, farto da eterna lamuria e repetindo:
—Deixa-os lá. Que se avenham.
OEstragadoera dos seus tempos de rapaz, pudera seguir-lhe a vida ponto a ponto e observar-lhe a predisposição fatal para a vadiagem e para o vicio. Aquella indole de desordeiro repugnava-lhe, que sentia um tedio pelos que não tinham como elle a infatigavel actividade productiva e a repousadaconsciencia dos deveres cumpridos. Ãquella hora os trabalhadores recolhiam em bandos dando santas noites; uma poeirada suffocante erguia-se na ladeira sob os grossos sapatos cardados dos cavadores e das patas dos jumentos carregados de alforges e feno; a tarde morria enlaivecendo de um ouro fulvo o poente; pelos campos fóra os grillos, as rãs, os ralos e os mochos preludiavam a longa sonata nocturna, em quanto defronte da casa o Ricardo mais o filho da visinha, descalços e ferozes, jogavam os touros, rolando na relva com um vasto prazer inexhaurivel.
—Sabes o que me convinha? disse d’uma vez o Jerolmo para a mulher.—Ir p’ra feitor d’uma casa. Não anda uma pessoa a estragar-se pr’áhi a cavar desde manhã á noite, e sempre ganha algum vintem melhor.
—Pois está visto que era o que te convinha! Um homem de trabalho como és...
—Diz que o conselheiro precisa. Fui-me a fallar com elle, mas ha pretendentes. Mal sabes quem, mulher?
—Algum alma ruim... disse a Joanna.
—Aqui o nosso visinhoEstragado, nem mais nem menos. Oh senhores, que eu ri de maior quando o Galante me contou!
—Aquillo, que nem lhe chega o tempo para as tropelias que arma á pobresinha da mulher... Excommungado, o Senhor me perdôe! Mas é só esse que pedincha?
—Só! Fiquei de ir ter esta noite com o conselheiro. Talvez se arranje a cousa.
—Era grande fortuna, homem. Casa farta, boa paga, elle uma bella pessoa. Mas oEstragado!... Ora não vi!
Estavam na cozinha. O Jerolmo á cancella, limpava da lama as polainas de saragoça e o ferro da enxada, em quanto a Joanna de avental, refogava a cêa e ia pondo a mesa, ao fresco, no quintal. Sentiram passos na casa de fóra, a Joanna foi vêr. Era oEstragadoque sahia surrateiramente.
—O visinho é bem confiado, não ha duvida, disse a Joanna toda zangada. Não ha maior atrevimento! Quem escuta de si ouve, e é bem certo.
—Diga ao seu marido que m’as não fica a dever.
—Deixa-o lá, disse pachorrentamente o marido.—Está bebedo, coitado. Deixa-o ir!
Cearam; o Jerolmo á cabeceira da banca vigiava o filho, advertindo-o a cada partida do garoto. Entre os dois ficava o cão.—Da outra banda a Joanna, com o pequenito adormecido no regaço, migava sopas na malga.
Por cima, o céo um pouco escurecido e todo picado d’estrellas, tinha um arfar de penumbras profundas, em que os olhos se perdiam, divagando. Um ventinho fresco, impregnado de fenos, fazia agitar com murmurios finos as folhas metallicas da figueira verdeal. O bacoro no chiqueiro resonavaespapaçado no charco. Tempo das eiras. Puzeram-se a fallar nos trigos; as searas tinham fundido bem, mas os tremezes menos. Então o Jerolmo contou as suas esperanças no trigo ribeirinho que semeara na courella das Taypas—um palmo de terra que valia um milhão, segundo elle.
—E estava lindo, ahi pelo tempo da fava! disse a Joanna.
—Do que precisavamos era de uma vinhita—tornou o Jerolmo após um momento de pausa.—E partia o pão trigueiro em grandes pedaços.
—Nada como a vinha p’ra render.
—Apesar das molestias.
—Com algunssobranostinhamos ahi um ou dois milheiros. Estava a calhar.
—Ou mesmo bacello que puzesses...
Elle então enumerou projectos de futura prosperidade—comprar um carro com parelha de mulas na feira de Villa Viçosa, ter vinhas e olivaes, a abundancia de uma horta com aguas correntes e nóras rumorosas, n’um pedaço de valle profundo, com a sua barraquita sob nogueiras verdes.
E para se animar citava de memoria os casos de fortuna accumulada pinto a pinto por homens activos e poupados; o snr. Joaquim das Nogueiras que estavapôdre de rico, oFandangoque seu pai conhecera a carregar estrume, oBaleizãoque fôra da tropa e até estivera preso. Não havia muito que visitára o monte do compadre Nazareth.
—O meu padrinho! gritou Ricardo.—E a cado passo interrompia:
—Elle é meu padrinho, não é, pai?
—Pois senhores, continuava Jerolmo, aquillo é que é lavoura, aquillo é que se chama seara!—E dilatado accumulava pormenores—quarenta moios nos celleiros, roças de palha do tamanho das torres da igreja, juntas de bois mais gordos que eu sei lá! E as carretas da vindima, as tapadas, a casa dos arados, o moinho sobre rochas e dependurado no Guadiana—um encanto!
—Casa que é um ovo! argumentava Joanna embalando o pequerrucho nos joelhos.
—Pois mulher, ha trinta annos não passava d’um ganhão do Francisco do Cabo. E honrado, honrado como Deus!
—O que se quer é saude, deixa lá. Deus ajuda quem trabalha, resumia a mulher.
E entre risos:
—Muito me havia de rir se ainda vinha a ser asenhora lavradora!
—E eu cá hei-de ter uns sapatos e andar a cavallo, exigiu o Ricardo, que molhava os punhos da véstia de cotim na malga ratinha da cêa.
—A dizer a verdade não temos sido dos mais infelizes.
—Está de vêr que não, apoiou Joanna. E deixa correr! Este anno talvez se peça pouco emprestado. Para o anno que vem já se pede menos,para o outro nada, e depois toca a ajuntar p’r’á fazendinha.
—Pois vou-me ao conselheiro, a vêr o que decide.
—Até logo.
à porta voltou-se e disse a rir:
—O que tinha graça era agora o amigoEstragadofazer-me uma espera e armarmos de garreia.
—De tudo quanto ha ruim elle será capaz, o carga d’ossos. Peste!
Apenas sahiu, o Ricardo pulou logo a parede para o quintal da visinha á cata do Manel, que tasquinhava pão secco de pansa para o ar.
—Vamos pró adro, o pai abalou.
Não foi preciso mais.
Foram ambos ás carreiras. No quintal, a Francisca roÃa o seu pão secco e negro, de semanas. A amassadura por pagar, uns fiados na loja do Vieira, trapos por toda a banda... Ao chegar a casa, oEstragadoatirára-lhe um sôco ao vazio, pedindo o jantar para que não tinha dado feria. E cobrira-a de injurias obscenas diante dos filhos, exprobrando-lhe a fealdade e fraqueza.
Puxára-lhe até pelos cabellos, gritando com voz avinhada de cobarde:
—Grandessissima porca! grandessissima bebeda!
Dera-lhe bofetadas com a aspera mão ignobil de assassino, clamando que estava farto, que seria até capaz de a matar a punhadas. A pobresinhaabatida e com o gesto errante, nem podia chorar. Aquella vida de vilezas e insultos roubára-lhe até o refugio das lagrimas, embotando-lhe pouco a pouco a razão. Abria os olhos sobre o bebedo n’um pasmo tremulo, dizendo baixinho:
—Não me batas mais, pelo amor de Deus, não me batas mais!
Resumia-se para ella tudo na sova e na escravidão muda do martyrio. Não tinha já mãi nem pai, haviam-lhe morrido os parentes.—Sua irmã fôra assassinada pelo marido n’uma azinhaga sinistra e de noite para os lados do Moinho Branco. Era a ultima representante d’uma raça de vergastados incapazes de resistencia e não sabendo na vida outro fim mais que a obediencia ao algoz e a procreação animal das marrãs de montado.
—Visinha, gritou a pobre mulher do quintal, para a Joanna que acabava de levantar a mesa.
A outra subiu á lenha para debruçar-se na parede, sobre o quintal doEstragado.
—Que é?
A esse tempo já a Francisca trepára do outro lado, com o chale de baetilha pela cabeça.—E disse n’um tom choroso:
—Perdôe-me pelo amor de Deus, que não me esqueço de quem me faz bem. É a minha desgraça, aquelle homem, a minha vergonha...
—Houve pancadaria de moiro, aposto!
—O costume, Nosso Senhor nos ajude. E se fosse só isso...
—Então que mais temos?
—O meu homem não entrou na sua casa ha pouco?
—Entrou, para escutar o que cada um está dizendo na sua casa; foi pró que elle entrou! Mas ouviu-a toda!
—Ai filha! Veio de lá como uma féra. Puxou-me pelos cabellos, quebrou os cantaros da agua, bateu no rapaz com uma corda; que eu é que tinha a culpa, que ia tudo a tiro, que haviam de saber quem era Joaquim Antonio. Perdôe-me pelo amor de Deus, perdôe-me tanta mortificação. Pelos modos ouviu fallar no lugar de feitor do conselheiro... E está com a pinga!
—Sempre gostava de saber se é peccado cada um agenciar a sua vida! O meu homem vai fallar com o fidalgo; o seu quer o lugar—que vá tambem. O outro escolhe, e ninguem tem de que se ficar queixando. Esta é arezão!
—Tudo lhe disse, visinha, tudo lhe disse! Homem, o visinho Jerolmo não lhe parece mal que tu queiras ser feitor e pretendas o mesmo nicho que elle! Vai e fallas. Fallando é que uma pessoa se entende. Agora o vereis! Ainda me deu mais. Visinha, perdôe-me pelo amor de Deus, mas eu queria dizer-lhe... é que... Olhe, estou a tremer que nem varas verdes, nem me tenho nas pernas, veja lá. Mas é que elle sahiu com más intenções, que se havia de pagar, que ia dar cabo d’elle... Perdôe-me, filha, perdôe-me por alma de seu pai, maselle é mau e capaz de fazer alguma, em estando bebedo. Não deixe sahir seu marido esta noite, não o deixe sahir.
—Mas se elle se foi agora mesmo! disse a Joanna, de subito abalada.
D’um pulo saltou da lenha, deitou pela cabeça a pobre saia de chita azul, sem mais pensar no Ricardo que brincava no adro, e com o pequeno ao collo deitou a correr para casa do conselheiro. Eram mais de nove horas. Os homens estavam nas eiras, fóra da villa; aqui e além, deitados ao fresco junto das portas escancaradas e escuras, alguns vultos dormiam. A penumbra da noite picada de estrellas, errava nas embocaduras, em cones movediços de uma indecisão phantastica. O campo dormia, e sómente a espaços, no como silencio absorto dos restolhos, latia um cão, ou tilintava a esquilla d’algum jumento de trabalho. A casa do fidalgo ficava no outro extremo da villa, isolada dos casebres por uma alameda de freixos enormes. à roda era a horta, e por detraz dos laranjaes o olival sem fim. Joanna corria quanto lhe era possivel, arrastada por presentimentos funestos e cheia da idéa do seu homem que era o seu deus.
Nos casinholos d’aquella banda tudo dormia já; a alameda em frente, escancarava a bocca de trevas, que á menor lufada de vento parecia ficar ruminando alguma cousa penivel, n’um segredar entrecortado. A casa do conselheiro mal apparecia ao fundo, com a sua linha de grandes janellas morgadias,cujas pesadas cimalhas avultavam n’uma facha confusa de granito. Em outra occasião Joanna não teria ousado atravessar o caminho áquella hora—que errava por alli o vulto do doutor Soiza á procura do seu inimigo. Muita gente lhe tinha já ouvido os brados roucos, depois de corrido o sino da camara[4], e contava-se que um homem o encontrára havia annos, perdendo a falla no mesmo instante.
[4]Conforme uma antiga usança, ainda agora nas villas do Alemtejo, toca a recolher, nove horas dadas, o sino da camara.
[4]Conforme uma antiga usança, ainda agora nas villas do Alemtejo, toca a recolher, nove horas dadas, o sino da camara.
à entrada do arvoredo Joanna deteve-se a escutar junto de um tronco. Estalavam as ramas por cima, com ruidos seccos. Applicando o ouvido, sentia-se na horta o correr da agua no tanque. Ninguem estava ainda em casa do conselheiro. Joanna resfolegou mais tranquilla: não tinha havido nada! E rapida, aconchegando a criança, percorreu a alameda e foi puxar a sineta do portão, que deu um som vibrante no silencio do edificio. Perguntou pelo marido; não tinha lá ido ainda. Fecharam-lhe a porta com fracasso sem mais resposta. Joanna então ficou hirta e muda, encostada á hombreira, com as fontes latejando.
Onde estava então o Jerolmo, não estando a fallar com o fidalgo? Não era homem de sucias, nunca fôra visto em tabernas, não trabalhava naseiras, não era cantador noctivago... Era a primeira vez que ella ignorava o seu destino; que fazer? Então relanceando a vista á roda sentiu um calafrio, dos rins á nuca; á forca de perscrutar a sombra as imagens falsearam-lhe, deslocando-se lhe á vista desvairada; parecia que os troncos iam e vinham rojando caudas de folhagens como espectros evocados de campas; os estalidos abriam um murmurio de risinhos sofreados; ondulavam sem nexo bandos de fórmas estranhas e o rumor da agua era de uma conspiração sinistra...
Joanna sentia no peito o coração em sobresaltos e um zumbido perfido enchia-lhe os ouvidos. E cheia de um medo algido, olho atraz olho adiante, como se legiões de genios maus a seguissem, percorreu a alameda arrumada aos troncos e cozida com a sombra. A meio caminho deteve-se. Vira da outra banda um corpo mover-se. Escondeu-se por detraz d’um tronco, com os olhos fitos no ponto em que a fórma bulira. Julgava já ter-se enganado. Mas o vulto tornou a apparecer, cortando em transversal o caminho. Bem depressa passou por diante de Joanna, que tomada de pavor não fazia um movimento, de collada ao freixo.
Viu um homem de barrete preto e em mangas de camisa caminhar aos solavancos. Bebedo por força; fallava só, com palavras entrecortadas e torvas.
—Outro que fosse, regougava, outro que fosse... quero lá saber! Tudo se paga. Arre!
Mais além já, parou um instante cantarolando:
N’esta rua cheira a sangue,Alguem n’ella se sangrou:Dizem que foi meu amor,D’uma sova que levou.
N’esta rua cheira a sangue,Alguem n’ella se sangrou:Dizem que foi meu amor,D’uma sova que levou.
N’esta rua cheira a sangue,Alguem n’ella se sangrou:Dizem que foi meu amor,D’uma sova que levou.
N’esta rua cheira a sangue,
Alguem n’ella se sangrou:
Dizem que foi meu amor,
D’uma sova que levou.
Essa voz rouca e difficil como coada por uma garganta sem cordas, fez tremer Joanna. Era oEstragado. Vinha do conselheiro? Mas se o Jerolmo não fôra lá, que recear? O bebedo ia já longe quando a pobre mulher se resolveu a abandonar o escondrijo. Apressou o passo; era tarde e talvez que o Jerolmo estivesse em casa já... se estivesse, bom Deus! Esta esperança dissolveu-lhe um pouco os terrores, que era animosa como uma filha de herdade. Mentalmente prometteu logo uma missa á Senhora da Boa Morte se nada tivesse havido. Saltou do vallado para a estrada e receosa de magoar o pequenito apoiou-se n’um pedregulho, mas a mão teve um contacto humido e molle que cedeu, ao pousar. Joanna agarrou n’aquillo: era um farrapo de lenço; puxou, e uma cousa dura cahiu dando na pedra um som metallico.
Era uma navalha cheia de sangue. Perdeu completamente a cabeça; o seu coração dilatou-se effervescente de agonias e ourada de lugubres evocações a sua imaginação bolsou presentimentos funestos. Poz-se a correr sem destino pelas ruas da villa, clamando em altos gritos contra oEstragado, contra Deus, contra a sua desgraça! Na caladado povo adormecido a sua voz resoava com uma sonoridade alta e rapida a que o desvairamento imprimia uma nota febril e sincera, que commovia.
Alguns postigos abriram-se, por onde cabeças somnolentas e avidas escutaram. Depois, sapatos ferrados bateram as pedras e os balcões das casas, e os vultos embuçados nas mantas foram seguindo Joanna. Ella contava a quem vinha, que o seu homem estava morto, que os filhos estavam sem pão, que fôra oEstragado. Começava trinta vezes a narrativa ao ultimo que chegava, com a voz velada de choros e estrangulada de soluços. Mas onde estava o Jerolmo? Um trabalhador que recolheu tarde dera nas escaleiras do adro, com o Ricardo e o filho da visinha Francisca, adormecidos um ao lado do outro. Vira a porta aberta e luz na casa de fóra.
Então foram todos vêr a casa do Jerolmo, batendo fortemente os sapatos de trabalho. Algumas mulheres atemorisadas, de chale pela cabeça e em grande abatimento, seguiam Joanna resmungando lamentações. Em breve a terra estava em alvoroço, e quando a pobre rapariga chegou á soleira a rua ia já cheia. A casa estava vazia. Recomeçaram os gritos e os commentarios, o prior veio saber o que era, com o largo capote nos hombros e o chapeirão descido. Todos contavam; a algum pormenor menos fielmente emittido, vozes diziam:
—Não foi assim! A coisa começou...
E punham-se a dizer como tinha sido.
—Mas lá por se encontrar a navalha suja de sangue não se segue que haja mortes, objectou o prior.—E a sua voz de um timbre ingrato e cheia de authoridade fazia peso na roda. Muitos eram da opinião de sua senhoria, concordando:
—Está bem de vêr, está bem de vêr.
—O que devem é ir rebuscar bem a alameda e os meloaes que ficam á roda da horta do conselheiro. Talvez até o Jerolmo esteja nas eiras.
—De lá venho eu agora, disse um.—Não dei noticia d’elle.
Varios trabalhadores então, partiram a esquadrinhar a alameda.
—Se passarem lá por casa digam á senhora Magdalena que lhes dê uma lanterna, disse o prior.—A Joanna quiz tambem ir, mas as mulheres oppuzeram-se. E sentadas na casa de fóra, embiocadas nos chales ou com saias pela cabeça, jaziam silenciosas e curvadas, como se um vento de assolação as vergasse. No silencio lugubre, os soluços da Joanna vinham a espaços como um estribilho magoado. A um canto discutia-se oEstragado, com pormenores recentes. Segundo muito boas opiniões, enforcado devia elle estar havia muito tempo—peste ruim! Algumas tinham palavras de dó para a Francisca—que tinha o corpo como um fungão, da pancadaria. Ao fundo da rua, a voz avinhada ouviu-se:
N’esta rua cheira a sangue,Alguem n’ella se sangrou...
N’esta rua cheira a sangue,Alguem n’ella se sangrou...
N’esta rua cheira a sangue,Alguem n’ella se sangrou...
N’esta rua cheira a sangue,
Alguem n’ella se sangrou...
Ao mesmo tempo a calçada soou do outro lado sob os pés de muitos homens. E pela porta da Joanna quatro moços do campo entraram carregando uma escada, onde vinha estendido o corpo do Jerolmo. Toda a gente se tinha erguido fazendo um ruido indescriptivel de prantos; uma rapariga cahiu com um flato, algumas fugiram para o quintal, aterradas do cadaver. Joanna só, estendida nos ladrilhos e resistindo a todos os empuxões que lhe davam para a afastar d’alli, Joanna só não tinha medo. Passára os braços ao pescoço do homem, enchendo-lhe de beijos a cara e a bocca aberta, de que um sangue viscoso corria. Uma enorme paixão rebentava d’ella sobre aquelle corpo que arrefecia pouco a pouco, retesando-se, com um sinistro desenho, anguloso e livido. Fóra, o regedor conseguira agarrar oEstragadopor um braço. Vozes clamavam rudemente:
—Está preso! em quanto retiniam nas pedras, com pompa de entremez, as espadas dos senhores cabos de policia. A Francisca que se interpuzera de cabellos soltos, arrastava-se abraçada aos joelhos do marido, pedindo clemencia com a voz arrastada e baixa, em que havia um fundo de miseria e de dôr. Os pulsos sahiam-lhe das mangas da roupinha tisicos e inabalaveis; por mais que fizessem não lhe arrancavam as mãos das calças doEstragado. Os maus tratos, as bestialidades e as fomescom que aquelle homem a trucidára desde o primeiro dia de casados, haviam enraizado no seu coração uma cega obediencia, uma necessidade fatal d’aquelle imperio torpe; mesmo assim gostava d’elle, pai de seu filho, o que partilhava o seu catre e lhe déra esse primeiro beijo, que é como a annunciação da maternidade á mulher virgem.
Das escadas do adro então, as duas crianças ergueram ao mesmo tempo as cabeças, despertando ao alarido dos prantos.
—O que é aquillo? disse o Ricardo.
—Olha, é muita gente. Não ouves a chorarem? notou o Manel.
—Oh vamos a vêr! insistiu o mais novo.
E como o Manel cambaleava estremunhado de somno, o outro passou-lhe o braço ao pescoço a segural-o.
E com ares protectores dizia-lhe:
—Vê se partes as ventas, vê...
Todo abafado no casacão, o senhor prior saciado das novidades fresquinhas sahia de casa da viuva, pensando que era ainda uma rica moçoila.
Por outro lado, a morte do Jerolmo irritava-o: fôra depois de cinco annos o mensageiro das suas labutas vinicolas, o que lavrava a seu gosto, o que faziauva á sirandacom mais desembaraço.
Não bebia, não fumava, não era exigente nos preços... Assim pensava sua senhoria quando deu com os pequenos, que iam a passinhos preguiçosos e esfregando os olhos com os punhos, em direituraao tumulto. E ao vêl-os tão unidos cresceu-lhe uma raiva de dentro, biliosa e vingadora. Separou-os com um safanão furibundo.
—Sucia de marotos, que os enforco!
E dirigindo-se ao Ricardo:
—Vossemecê não tem vergonha em andar com o filho do ladrão que matou o seu pai, hein?
E para o Manel que chorava aterrado d’aquella aggressão:
—A minha vontade era frigir-te, podengo!
E deu-lhe um puxão de orelhas teso.
No dia seguinte foi o enterro. Era d’esses dias ardentes em que, nos troncos das oliveiras as cigarras cantam, e as rôlas se abatem por dezenas sobre as ultimas poças verdenegras dos ribeiros. Apenas o sino chamou a padres e o prior appareceu precedido do sacrista de cruz e caldeirinha, viu-se sahir de casa da Joanna o cortejo. Adiante o sacrista ia de cruz alta e campainha na mão—velho marau de sapateiro, de olho patife e calva luzidia, dos que sabem quantos escandalos usam acompanhar toda a gente do berço ao sepulchro.
Fôra noviço de capuchos, adquirira habitos de glotão e de bebedo, aprendendo a negar a mulher decente. Rosnava-se um pouco das suas relações com a snr.ª Magdalena do prior, e temia-se em geral do seu cynismo correlacionado, segundo se affirmava, com o do diabo, pelo desfastio com que pisava rosarios bentos e fatias de pão torrado. As beatas fulminavam contra elle exorcismos temerosos,porque á sahida de uma missa de finados ourinára na pia da agua benta, estando bebedo. De cruz alçada e opa escarlate, Zé do Ó caminhava piscando o olho ás mulheres, que em saia de estamenha e sapatos de couro crú viam da soleira marchar a procissão da morte, lacrimosas e trocando lamentos. A partir d’elle, duas filas de homens do campo seguiam com os fatos de aspera saragoça dos domingos, chapéos de Braga nos olhos, ornados de uma borla redonda, e os capotes de baetão das mulheres nos hombros. Alguns ainda novos, que tinham sido amigos do Jerolmo e como elle destinados sem resistencia ou vacillação, de pequenos, para cavadores, iam com os olhos vermelhos voltando a cara, envergonhados de serem vistos em pranto pelas mulheres que vinham ás portas e ás esquinas das ruas, rodeadas dos filhos descalços. Viam-se os altos pescoços curtidos pelas calmas do estio e pelas ventanias do inverno, no convivio dos trabalhos de picareta, de arado e de fouce.
As mãos de enormes dedos coreáceos e palmas rugosas de callos, tinham curvas unhas, disformes de martelladas e entalões. Nos dorsos, as vêas de uma espessura consideravel ramificavam-se-lhes em arvore saliente, pondo em pregas a epiderme de poros largos, de que sahiam cabellos. Alguns eram já velhos e curvados, contando trinta, quarenta e cincoenta annos de labuta em charneca, nas lavouras, nas ceifas, nas ferras do gado, no córte dos azinhaes e na recovagem de noite por caminhos terriveis,de matagal em matagal. Tinham as cabeças brancas e o passo vago, e olhavam com esse olhar vazio de quem nunca teve esperança e de quem jámais teve fortuna. Haviam ganho toda a vida o mesmo salario, cobrindo-se de filhos constantemente e fazendo da fecundidade uma distracção, a unica, que lhes era dada, e que ainda assim caro pagavam. Dois ou tres nunca haviam possuido um fato novo. Quasi todos tinham andado descalços e rotos até aos vinte annos.
Havia n’essas faces, mesmo fóra dos enterros, o mesmo ar lugubre e suspenso que alli mostravam; pareciam seguir como se aguardassem alguma cousa retardada de ha muito, boçaes e emparvoados, não dando pela carie dos dentes e pelo espasmo de humildade que os ia bestificando. Proximo á tumba os irmãos da Joanna e os tios do Jerolmo iam affectando grande mágoa com as golas dos capotes erguidas, cabeças baixas e amarradas em lenços. Depois o padre: era alto, possantes hombros de tambor-mór, a barba de cinco dias negrejando de espessa, um carrancudo alarve na face. Como a volta era apertada, o seu pescoço extravasava gordurento fazendo uma rosca de carne, que pendia reflectindo um rubor sobre a pelle do queixo e da cara, d’onde o suor borbulhava. Tinha as orelhas de um guardião, ar imperativo e voz grossa, em que a nota surda dos desejos que se refreiam, dominava. Era um pouco agricultor e um pouco musico e nas recitas da terra fazia papeis de tyranno,esbracejando com furia para todos os lados. A tumba ia por fim, aos hombros de quatro mendigos, e um rapaz após levava o banco de pinho para a fazer descer, nos responsos.
Era um esquife de pau preto com balaustres delgados, tendo o ar d’um berço. Na villa causava horror. Era com que mettiam medo ás crianças: via-se-lhe pregada na cabeceira uma cruz preta, e um Christo de ferro com resplendor de lata que tremia, agonisava pessimamente fundido, mostrando os olhos vazios. No fundo via-se a enxerga coberta de paninho preto em farrapos, onde deitavam os cadaveres, havia muito. Esse pano tinha nodoas gommosas, á altura da cabeça. Osva-nu-piedsabatidos para a valla durante os ultimos quinze annos haviam alli impresso o seurememberde mucus sanguinolento, de que tresandava um fetido em baforadas. Era onde ia o Jerolmo, vestido no seu fato de saragoça, com sapatos de bezerro enormes nos pés, os dois pulsos unidos por uma tira de chita negra a premir as mãos cruzadas no peito, na attitude de uma imploração derradeira.
—Ainda hontem a estas horas estava são e vivo! era o pasmo da villa.—E vinha todo um volume de ponderações sobre a fraqueza da creatura de Deus.
Aos solavancos dos velhos que tinham desiguaes alturas, o corpo pendera mais para uma banda; á menor anfractuosidade do caminho então, os sobrecarregados rogavam surdamente as pragas maistorpes,—que nem valia a pena levar um boi d’aquelles pelos seis vintens da esmola.
O mais ratão dos quatro era um velhito baixo, que mostrava escarlate uma orbita sem olho e já cahira numa contramina de horta. Dizia elle com bella emphase, todo serio:
—Como estas bestas morrem sem derreterem os toucinhos, senhores!
O garoto do banco escandalisou-se e resmungou:
—Vossemecê não tem vergonha em fazer mangação dos defuntos?
Os outros riram, e o mais alto:
—Caluda, filhote! Que ainda te havemos de levar adiante.
Mas o prior voltou-se, e da frente o sacristão veio correndo de cruz ao hombro, em ar de clavina, com a caldeirinha estendida para o responso. Os quatro da tumba pararam, o garoto estendeu o banco.
—Abaixo! ordenou o prior enfastiado.
O esquife desceu. Uma vida fecundante de atomos impalpaveis vibrava na luz, metallica na irradiação da cupula amplissima. O enterro tinha parado e todos se voltavam para traz, olhando o prior que espargia agua benta sobre o corpo do Jerolmo. Estava-se quasi fóra da villa, ao meio da rua ultima d’aquella banda, que entre filas de casebres caiados corria, corcovando-se bruscamente depois sobre a azinhaga.
Como o sol batia de chapa, os trabalhadores faziam tecto com as mãos em arco, á altura das sobrancelhas, abrindo a bocca e premindo as palpebras, por uma contracção inconsciente de musculos faciaes. Sobre os balcões das portas, as mulheres olhavam alongando saudosamente os grandes olhos pretos, humidos de lagrimas. Abaixo da orla das saias de chita viam-se os tornozêlos de algumas, calçados em meias de linha azul. Muitas faziam meia, com os cabellos oleosos de azeite e a marrafa separando as madeixas em duas pastas symetricas e alisadas. Na terra das soleiras as crianças seminuas rolavam-se rindo; um fumo raso subia das chaminés. Na ultima porta tinham acabado de jantar e via-se a malga na mesa baixa, os garfos de ferro com tres dentes apenas, restos do enorme pão da amassadura da semana, e em torno inda sentada a familia, onde o chefe, velho pastor de polainas altas e ampla calva, rezava de mãos postas e labios mexendo, com o chapeirão nos joelhos.
O Jerolmo era muito estimado. Todos diziam —coitadinho!—lagrimejando. E enumeravam as suas virtudes, o seu bom genio, a sua economia, a sua temperança. Os bons leva Deus, que são do céo, dizia uma velha. Mas a voz do prior ouviu-se imperativa e cheia de sabedoria em ruminação de latins, e fez-se um silencio piedoso. Toda a gente ajoelhou, que ninguem ouvia latim n’outra postura na villa. A recitação grave e n’uma lingua estranhadava aos espiritos simples a profunda emoção de um fim proximo e a lembrança de almas que partem para as regiões serenas da bemaventurança com o seu peculio de graças adquiridas e azas brancas da innocencia. O prior ia dizendo:
—De profundis clamavit ad te Domine. Domine exaudi vocem meam; nec aspiciat me visus hominis.
Kyrie eleison, Christe eleison, Kyrie eleison! Pater noster...
E as vozes rezavam baixo n’um côro murmurado, que ia como o som do vento n’uma fenda, alternadamente agonisando e subindo até se perder, á ultima aspersão de agua benta do prior. De pescoço estendido as mulheres brancas de pavor, olhavam ao meio da rua o esquife envolto na luz, onde ia o corpo do trabalhador, retesado na rigidez que antecede a podridão. Descahira-lhe a cabeça para traz por haver escorregado um pouco a cabeceira da enxerga, e o bordo da queixada, de uma linha parabolica, repuxava-lhe angustiosamente os tendões do pescoço esverdinhado, em que fazia corcova o nó da guela inutil.
Corria-lhe das ventas um fio de sangue negro que os moscardos vinham beber zumbindo, e por entre os dentes a espaços, na bocca que se abrira na convulsão da ultima hora, gotas de gaz podre faziam crepitar globosinhos, da intima fermentação que progredia.
Os amigos d’outro tempo tiravam então o lençodo bolso das véstias e sahiam aos dois e aos tres do seu lugar, para piedosamente virem limpar a cara e os labios do Jerolmo.
—Bemdito seja Deus! diziam, apavorados pelo fervilhar da corrupção cadaverica que a torridez do sol activava prodigiosamente.
O prior tinha acabado o responso e abrira o seu enorme chapéo de sol.
—Carreguem, ordenou sua reverencia aos quatro homens. E o enterro entrou na azinhaga que ia dar ao cemiterio.
Cada qual sentindo-se um pouco á vontade no campo, teve a necessidade de fallar na sua vida, cousas alegres e capazes de afugentar os maus pesadêlos da cova.
—Quem teve seara guapa foi cá o mariola!—ia dizendo um homemzarrão, e depunha os grossos dedos no hombro de um secco, de olho desconfiado.
—É p’ra que saiba. E ainda temos hoje um calcadouro de tremez.
—E quando chega esse casorio? quiz saber um rapazola louro, riso boçal de pobre diabo.
—Está p’ra tarde. Antes da vindima não, diziam.
O de olho desconfiado não dava palavra, deixando que respondessem por elle.
—E moça de estimação. Desenxovalhada e mais branca!... Seio de encher olho e golpelha, c’os diabos!
—Pódes lá com uma vacca d’aquellas, meu poeta!—diziam-lhe. Aquillo é mulher p’ra te bater, ó Rato!
O de olho desconfiado ria, e disse pachorrentamente:
—Quatro mil cruzados em terras, está dourada que nem uma princeza, rica saude e vinte e quatro annos. Um sobr’olho preto; que mais quero?
O louro conhecia-a e o seu riso abria-se sensualisado, com uma reminiscencia gulosa.
—Está bem de vêr! Está bem de vêr!
A calma picava. Sentia-se zumbirem os insectos, e ao longe nas oliveiras o ciciar das cigarras punha um ruido secco. Do outro lado discutia-se a Joanna, ainda frescalhona; apesar dos dois filhos aquillo vinha a casar ainda.
—Não seria eu que casasse com ella. Entrando só com o corpo e ter de aturar dois diabos! Olha a fortuna!
—Cá p’ra mim, dizia um barbado, mulher que casa duas vezes é capaz de pregal-os ao marido.
—É aminhasystema! Mulher só p’ra um homem! O mais, cabras!
—Homem, que hão-de ellas fazer? perguntava um benevolo.
—Mas a Joanna fica mal, coitadita. Elles não tinham fazenda. Teem o burro, as casitas, uma geira de terra além ás Taypas...
—Demais, o irmão do Jerolmo quer partilhas.
—Qual! tornou um viuvo, entendido.—Ha filhos. Só se levar a cinza da lareira, que é boa p’ra barrelas.
—Como ha-de a pobresita governar os pequenos?
—Ora! Como? Como as mais, no campo. E a Rita Santinha e a Thereza do Mudo, não vivem? à monda, á empa, á vindima, á ceifa. Pois onde? Avezada a tudo como está, póde bem fazel-o.
—E nada má, fazia surdamente um amarellento, com certo riso.
Os vallados prolongavam agora a facha da rua que findára, e eram alli altos os silvados e tão robustos os cachos de amoras, que os rapazes mais novos sahiram do renque para fazer provisão. Estavam ao cimo da collina. O cemiterio ficava a meia encosta, cintado em muros brancos, com uma cruz de ferro na fachada. Do ponto do caminho em que iam, a paizagem era da mais plena largueza de horisonte e da mais bella disposição de promenores. Convergiam de ambos os lados as courellas ceifadas, sobre a garganta do valle, que ia perder-se a pouca distancia junto do ribeiro e aos pés de uma antiga orla de choupos e faias. Das ouvielas dos ferragiaes e das vinhas irrompiam seccos os pastos, cammomillas, malmequeres, grizandas, maravilhas e enormes cardos de calices espinhosos. Para a esquerdaondulava n’um mar verde vivo, quasi sem gradações, fatigante e sadia, a região das vinhas. Figueiras gigantes abriam até ao chão parasoes metallicos de largos folhedos, sobre que revoava a pardalada. Aqui e além as hortas abriam na grande symphonia chromatica, uma cadencia graciosa de tons bronze e verde salsa; as nogueiras junto dos tanques ensombravam sofregamente as nóras e cisternas, usurarias da frescura. à direita era olival, tristonho e abrazado. No ribeiro á sombra dos canaviaes, as lavadeiras batiam as roupas, cantando. O fio d’agua era tenue como de uma vida que pouco a pouco se desprende, e serpeando por baixo do arco da ponte, onde um tufo de eucalyptos novos bolia, ia expirar lentamente na arêa, sob as raizes sequiosas das junças e escalrachos.
Era junto dos eucalyptos mesmo, que o Ricardo mais o Manel estavam á pesca das rãs, quando o enterro appareceu em cima. De entretidos nem deram por tal. Haviam conseguido de manhãsinha logo, escapulir-se de casa em quanto as mães soluçavam e as comadres iam prodigalisando lamentações e consolos de momento.
—Não sabes o que a mãi disse, ó Manel?
—Que foi?
—Que em ella me vendo andar comtigo me havia de dar sova.
—É mentira, deixa fallar, é mentira.
—Olha, o pai morreu, tornou o Ricardo. Já não ralha, pois não?
—Nada que não! Em fazendo trovões.
—Oh vamos brincar?
—Eu cá dispo a véstia. Peço um pedaço de pão á minha mãi e não appareço senão ás Trindades, expoz o Manel todo resoluto da idéa.
—E eu cá tambem.
—Olha, disse o Manel abrindo os olhos espertos, que um embevecimento clareava. Vamos ás rãs?
—Oh vamos.
As rãs eram a paixão dos dois, o seu sonho, a sua coisa mais ambicionada na vida. Tinham construido sobre ellas as lendas mais extraordinarias e feito, por copia do que ouviam ás mães, uma quantidade de promessas aos santos se um dia conseguissem apanhar uma viva, das grandes.
à tardinha, quando os olhos vigilantes da Joanna por um instante os largavam, corriam logo para o ribeiro. à chegada dos dois as rãs saltavam de todos os lados, da espessura dos juncos e mentrastes, sobre a agua dos charcos com um sonoroplhau! na profundeza dos pégos. Calavam-se logo agachados no tufo de eucalyptos, esperando pacientemente a occasião. N’uma circumvolução do regato, pensando-se sósinhas algumas das rãs coaxavam á flôr d’agua, erguendo acima do nivel tranquillo as chatas cabeças verdes, olhos estourados de iris côr de ouro, a enorme bocca semi-elliptica aberta ao ar n’uma especie de sorriso extatico, e a fila de pequeninos dentescorneos um pouco curvos, dispostos para a apprehensão dos animalculos. Erguiam-se então com grandes precauções e subtilezas, acautelavam extraordinariamente o ruido das passadas, promettendo baixinho na febre do desejo, duzias de padre-nossos a Santo Antonio sefosse servidoentregar-lhes algum dos animaesinhos que faziam a sua paixão e o seu desespero. Mas precipitados como eram não conseguiam jámais aprisionar os elegantes anuros, e cahindo a noite das montanhas azues alinhadas em decoração ao fundo da paisagem ridente, voltavam cheios de tristeza e cansaço para as cêas da familia, acabando por adormecer um ao pé do outro. Na volta sentiam com surda raiva o côro de rãs unisono e forte, magnificamente instrumentado de ironias, que parecia de proposito erguido para lhes saudar a retirada e escarnecer do desalento e pouca arte que empregavam na pescaria. Tal côro, na penumbra mysteriosa e vasta dos campos, tinha a concentração harmonica e a poesia nubigava de um threno—hymno de liberdade de uma colonia que de subito readquire a sua independencia. O Manel, especialmente, embirrava com a troça. E com mão rapida, fazia chover nas poças d’agua mais sonoras, grandes pedras talhadas em cunha e seguidas de pragas adequadas ao caso e á solidão do lugar.
Tinham ouvido aos rapazes que as pernas das rãs tinham uma carne excellente e branca, tenra e fina como a de gallinha. Nenhum d’elles comera ainda:mas era magnifico! Tinha-lhe contado oCoxo, um idiota da terra, que uma vez apanhara uma rã muito grande. E vai abriu-a, e tinha na barriga um canivetinho de duas folhas, muito bonito. Para os dois pequenos, ter um canivete de duas folhas era uma opulencia inestimavel. Em qualquer d’elles, nos dias de desavenças ou amuos, querendo fazer sombra ao outro, já dizia:
—Deixa estar que eu hei-de ter um canivetinho de duas folhas e tu não!
—Ha-de, uma figa torta! dizia logo o outro.
Porque traziam as rãs canivetesinhos na barriga? Não sabiam. Mas traziam, traziam!
O Manel que era o mais imaginoso, entrava a explicar que as rãs faziam buracos pelo chão, furavam, furavam... e iam ter á loja do Vieira para roubarem as navalhinhas. Então o Ricardo ria.
—Mentira!
E com a vózita gaguejada, phantasiava por seu turno uma theoria sobre os canivetes. E ambos á borda das poças se interrogavam de vez em quando, surprezos:
—Mas como será que ellas teem canivetes lá por dentro? Aquillo é cousa que os engolem.
—Qual!
Como o calor era intenso, os anuros andavam no fundo da agua, por baixo de limos reticulados com a delicadeza de frócos. O tufo d’eucalyptos lançava porém sobre o pégo mais proximoda ponte uma sombra alongada: alli sentia-se coaxar. As duas crianças agachadas quedavam-se, á espreita:
—Que cantoria que fazem! dizia baixinho o Ricardo.
—Deixa! resmungou o outro com ares fanfarrões. Eu dou cabo d’aquelles diabos.
Piscava os olhinhos com intenção, tirando do bolso um pedaço d’arame aguçado.
—Ellas apparecem, eu vou com isto estendido e tancho-as por uma perna.
E com profundo desdem:
—Hojenão é cá precisopadre-nossos!...
Foram-se aproximando do pégo, de gatinhas. Viam-se os tornozêlos do Ricardo, grossos e de ligamentos inabalaveis, e o pé polpudo e forte, bom para firmar o corpo. Devia ser de estatura mediana e muito robusto, de rico sangue. Pela camisa aberta e rasgada via-se o contraste da carne branca do tronco com a epiderme fulva da cara e das mãos. Solido como um novilho devia ter a indole ingenua e boa do Jerolmo, como lhe herdára a enformação animal. O Manel era esguio e secco, anguloso de ossatura. Tinha os cabellos corredios e as mãos estreitas, com unhas que revestiam quasi o dorso das phalanges terminaes. Era já teimoso e de nervos susceptiveis. A sua organisação sensibilissima, presentida, daria mais tarde o typo physicamente inhabil para a labuta da enxada e em construcção perpetua de estratagemas. Tinha os olhos grandes elucidos como dois onyx molhados, e a linha do nariz sem proeminencia, fazendo lembrar na caraolivatree comprida o que quer que era demasqueegypcia. Ãquelle tempo, o sino da Misericordia mandava o ultimo dobre de finados. E o som badalado de quebrada em quebrada chegou ás crianças.
O Ricardo parou, erguendo a cabeça. Alongava os olhos com essa tristeza vaga dos que de outra fórma não conseguem formular uma commoção interior. Lembrava-lhe o pai morto que iam metter na cova. Como essas naturezas que a musica enche de soluços e de invencivel angustia, o sino com aquella toada grave e preguiçosa—Tlão! Tlão!—Tlão! Tlão!—dava-lhe como uma reminiscencia lugubre.
A esse tempo o Manel erguera-se tambem, esquecido da pesca. E os seus olhos deram com o enterro. O Zé do Ó ia entrando já pelo cemiterio, a opa escarlate parecia de longe uma papoila cortada que o vento impelle.
Na meia-laranja da porta depois, os homens de escuro apinhavam-se para deixar passar a tumba, muito alta aos hombros dos velhos, em que o Jerolmo de mãos postas oscillava penetrando os muros brancos.
—É o teu pai! fez o Manel.
—Vai pró céo, então não vai?
—Está visto!
—Elle não gostava do teu, então gostava?
—Não gostava! O meu anda sempre bebedo. É tão mau!... Dá com a corda.
—Ó Manel! Manel!
—Que é?
—Agente havemosde ser amigos sempre, então não havemos?
—Havemos.
—E brincar sempre, então não havemos?
O outro não respondeu. Em quanto o Ricardo de gatas se adiantava para o pégo com o arame na mão, os olhos do filho da visinha acompanhavam de longe os movimentos da massa de gente negra que viera ao enterro. Toda a noite a mãi chorára, miseravelmente abatida sobre a enxerga que servia tambem para albardar o burro.
O pai fôra levado entre cabos de policia para a cadêa de Evora, com as mãos atadas nas costas e o fato roto. No puxão de orelhas e nas palavras desprezivas do prior sentira que estava filho de um assassino. Ouvia n’uma toada fatidica os signaes da Misericordia. Então as suas narinas palpitaram, sentiu na garganta como um novello que se engrossava para o estrangular. Uma cousa abateu-o todo, percorrendo-o de uma estranha galvanisação de mágoas.
Entrou a chorar alto, com profundos soluços que n’um jogo brusco lhe alevantavam as pobres costellas esburgadas.
—Deixa, dizia o Ricardo puxando-lhe as calças, deixa lá. A mãi não ralha, não.
E esquecidos, innocentes, recomeçaram a pescaria. Do outro lado da ponte as lavadeiras tinham cessado de bater roupa. As suas vozes cobriam de pragas oEstragado, assassino, bebedo e ladrão, que Deus confundisse na outra vida e as justiças degredassem n’esta, para cà sa do inferno.