The Project Gutenberg eBook ofContos d'AldeiaThis ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.Title: Contos d'AldeiaAuthor: Alberto Leal Barradas Monteiro BragaRelease date: May 23, 2007 [eBook #21581]Language: PortugueseOriginal publication: Porto: Companhia Portugueza Editora, 1916Credits: Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the OnlineDistributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS D'ALDEIA ***
This ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.
Title: Contos d'AldeiaAuthor: Alberto Leal Barradas Monteiro BragaRelease date: May 23, 2007 [eBook #21581]Language: PortugueseOriginal publication: Porto: Companhia Portugueza Editora, 1916Credits: Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the OnlineDistributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net
Title: Contos d'Aldeia
Author: Alberto Leal Barradas Monteiro Braga
Author: Alberto Leal Barradas Monteiro Braga
Release date: May 23, 2007 [eBook #21581]
Language: Portuguese
Original publication: Porto: Companhia Portugueza Editora, 1916
Credits: Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the OnlineDistributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net
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Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
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2.^a EDIÇÃO
PORTO COMPANHIA PORTUGUESA EDITORA 1916
Logo abaixo dos açudes, ficava de uma banda do rio a azenha do Euzebio moleiro, e da margem opposta, um pouco mais abaixo, a azenha do tio Anselmo.
Eram dous velhotes viuvos, de bons sessenta annos, e amigos desde creanças. Para contradicção do anexim popular, estes dois moleiros queriam-se como dois irmãos, a despeito de serem do mesmo officio.
Parece que o rio, n'aquelle sitio, era até mais pittoresco! Por detraz das azenhas descia a enfesta de uma cerrada deveza de carvalhos e sobreiros, com o atalho aberto ao meio, que era por onde seguiam os machos carregados com os taleigos da fornada. Mesmo á ourela havia alguns amieiros e choupos, que se debruçavam sobre o rio. As aguas cahidas nos açudes, vinham costeando uma gandara, escondiam-se em meio de um canavial, e surgiam depois mais limpidas até ás rodas do moinho, que as marulhavam e batiam constantemente.
No verão, quando a levada era minguada, os dois velhotes visitavam-se a miudo, atravessando destemidamente pelas poldras; mas, quando as chuvas do outomno principiavam a tornar o rio caudaloso, limitavam-se então a falar d'um lado para o outro. Era triste! Já tão velhotes! E depois dizia o Euzebio:
—Anselmo, fala mais alto, que te não oiço.
—O que é?—perguntava o outro, inclinando o pavilhão da orelha.
O Euzebio fazia um porta-voz com as mãos, e gritava:
—Não te intendo.
Quando chegavam a falar, concordavam sempre que era o barulho das rodas do moinho, que os não deixava ouvir. Isso sim! Era o peso dos annos que os tinha quasi surdos de todo. Pobres velhos!
O Euzebio tinha um filho, que era um rapagão de vinte e dois annos, como um castello! Ainda o dia vinha longe, já elle estava a trabalhar, que era um regalo a gente vel-o.
—Lida como um moiro!—diziam os conhecidos.
E se havia esfolhada, ou espadellada, quem lá não faltava era elle.
O pae, que, n'outros tempos, tinha sido um folião, dizia-lhe, á bôcca da noite:
—Simão, se tens de ir a algures, parte, que eu cá fico, para aviar os freguezes.
—Estava arranjado!—respondia o moço a rir.—Vocemecê já deu o que tinha a dar. Agora coma e beba, e deixe-me cá com a vida!
Primeiro que tudo estava a sua obrigação. O rapaz assim que não tinha mais freguezes a aviar, fechava a ucha do moinho, e partia então para a brincadeira.
E o velhote do pae, quando alguem lhe contava as diabruras do filho, parece que até a alma se lhe ria na menina dos olhos.
O Anselmo tinha uma filha. Chamava-se ella Margarida, e era formosa, d'aquella formusura campesinha, sem artificio, jovial e expansiva. Em dotes do coração—que é a principal belleza!—nem as mais virtuosas a excediam.
Desde pequenina foi Margarida creada com Simão. Se não ficasse mal estabelecer agora parallelos já sabidos e repetidos, estava em dizer que os dois se queriam e estimavam comoPauloeVirginia.
Quando os quinze annos de Margarida, que era mais nova dois do que Simão, vieram pôr termo aos brinquedos d'infancia, então principiou elle a olhal-a com aquelle respeito com que se olha para uma irmã mais velha.
Mas vá-se desde já sabendo que esse respeito não estorvava, antes acrysolava um outro sentimento, que principiava a exercer e a avultar no generoso coração do rapaz.
Margarida, quando Simão lhe falava na sua tristeza e no seu amor, fingia-se contrariada, carregava o sobr'olho e mudava de conversa. D'estas esquivanças repetidas ateou-se o fogo da paixão na alma do moleiro.
—Margarida—dizia-lhe elle d'uma vez—se não quizeres casar comigo, hei de morrer solteiro.
—Não te faltam mulheres, Simão.
—E se te vejo ser d'outro—protestava o rapaz com as lagrimas nos olhos—não sei que faça, que me não mate.
E Margarida era tão cruel, que assim despresasse o seu amigo e companheiro d'infancia?!
Nós veremos já até onde vae a dedicação de uma mulher.
* * * * *
Isto passava-se no tempo em que se guerreavam os partidos de D. Pedro e de D. Miguel.
Quando ás aldeias chegavam noticias aterradoras, as mães estremeciam ao contemplar os filhos afadigados na lavoura.
—De mortos nem a conta se sabe!—diziam os mensageiros. Vae por ahiafim do mundo!
—Jesus, Senhor! E então diz que é guerra d'irmão contra irmão!Valha-nos Deus!
De uma vez, oito soldados e um furriel pararam á porta da azenha do Euzebio. Passado um instante, a gente da aldeia chorava com brados afflictivos, vendo o Simão do moleiro atravessar no meio da escolta com os braços presos, como um degredado! O velho, assim que lhe arrebataram o filho, ainda tentou abraçal-o; mas—coitadinho!—como já lhe custava a andar, quando chegou á porta, ia o rapaz a subir a encosta.
Aos gritos da visinhança acudiu Margarida ao postigo da azenha. Perguntou o que tinha acontecido da outra banda; e, quando lhe disseram que o Simão tinha sido levado para a guerra, a pobre rapariga soltou um grito agonisante e cahiu desfallecida nos braços do pae.
As aguas tinham engrossado com as ultimas chuvas, e os dois velhos, quando se avistavam de longe, desatavam a chorar, como duas creancinhas!
Decorridos oito dias, a gente da aldeia acordou sobresaltada com o tiroteio, com o rufo das caixas e o som dos clarins. Feria-se uma batalha a pequena distancia.
Quando a tropa alli passou, todos viram o Simão moleiro, que parecia outro! Ia magro, esfalfado, com os sapatos rotos, coberto de pó, a espingarda ao hombro, a mochila ás costas e a chorar! Ao passar rente das casas ia saudando os conhecidos, e dizia ás raparigas que pedissem a Deus por elle.
Sahiu do povoado sem ter visto o pae nem Margarida. Levava o coração retalhado!
Assim que a filha do Anselmo o soube, quiz logo ir ter aonde podesse falar-lhe.
—Isso, Deus te livre!—disse-lhe do lado uma visinha.—Se lá vaes, lá ficas! E, de mais a mais, teres de falar com soldados! credo!
—Lá isso—atalhou a moça—tambem o Simão é soldado, tia Joaquina!
Ao fim da tarde principiaram a chegar as ambulancias dos mortos e feridos. Vinham apinhados, uns com as cabeças ligadas, com as faces empastadas de sangue, outros com os braços ao peito, mutilados, outros com as pernas partidas, quasi todos moribundos!
Nunca se tinha visto uma cousa assim! Aos gemidos dos feridos reuniam-se os clamores da gente que se agglomerava para os vêr. Destacavam-se algumas phrases das ambulancias:
—Ai! minha pobre mãe!
—Ai! meus ricos filhos!
E as mulheres, quando isto ouviam, de cada vez choravam mais.
Alguem d'entre o povo ouviu gemer de uma das carretas da ambulancia:
—Meu… pae! Marga… rida! Eu morro!
E viu-se que um dos feridos, que ia reclinado, deixou pender a cabeça sobre o peito, e descahir um braço fóra do carro.
Os artilheiros que levavam pela camba dos freios os cavallos insoffridos, voltaram-se para uma formosa rapariga que os interrogava afflicta. O retinir das molas da carreta, rodando nas lagens irregulares de uma vereda, não os deixou ouvir. Mas, de repente, a moça aproximou-se mais de um carro, pegou no braço que bambaleava, estendido fóra da ambulancia, á mercê dos solavancos, reparou attentamente n'um annel que o morto levava, e principiou a gritar:
—O Simão! Morreu! morreu!
E debatia-se angustiada nos braços das amigas que a seguravam.
Quando um visinho entrou na azenha do Euzebio, para lhe dar a noticia da morte do filho, encontrou o moleiro sentado na ilharga da cama, a resar, com os olhos postos n'um crucifixo, e um rosarío entre os dedos.
—Rese-lhe por alma!—disse o visinho a chorar.
O velhote, que estava muito mais surdo, ergueu-se, e perguntou espantado:
—O que é?—e applicou os quatro dedos da mão direita ao ouvido correspondente.
—Morreu!—gritou-lhe o outro.
O Euzebio empallideceu subitamente, aprumou-se, fitou os olhos no visinho; e, sem pestanejar, dirigiu-se apressadamente á cabeceira da cama, e tirou detraz uma espingarda.
—Isso para que é, tio Euzebio?—perguntou-lhe o outro ao ouvido.
—Vou matal-os!—respondeu o moleiro com uma voz convulsa.—Vou matal-os!
Mas quando ia, com a espingarda ao hombro, a transpôr a soleira da porta, cambaleou, e cahiu fulminado para a outra banda…
Na madrugada do dia seguinte, um moço de lavoura chegou afflicto a casa, a esbofar, dizendo que, pouco abaixo da azenha, vira um corpo de mulher levado na corrente do rio, a fugir, a fugir!…
* * * * *
Ainda conheci, ha muitos annos, o pae de Margarida.
Era por uma formosa manhã de abril.
O velho estava fóra da azenha, sentado n'uma cadeira de entrevado, com os pés estendidos a uma restea de sol. Em volta d'elle, chilreavam os passarinhos na ramaria frondente do arvoredo.
Referia-me, ao certo, a morte do Simão e do seu amigo Euzebio; e, depois, quando chegava ao lance de ter perdido a filha, voltava a cabeça para o rio, e perguntava baixo, de si para si:
—E a Margarida?!…
E ficava como mentecapto, com os olhos turvos a contemplar as aguas do rio, que derivavam mansamente entre os salgueiros!
Ficava no beiral do meu telhado o ninho das andorinhas. Quando o trolha vinha remedear os estragos da invernia (e então, no Minho, quando o vento sopra do Gerez, oh! Pae do céo! por mais bem construida que seja uma casa, as telhas vão todas pelo ar, como se fosse um pobre telhado de levadia!) eu tinha sempre o cuidado de lhe recommendar:
—Se ainda lá topar o ninho, mestre, deixe-o ficar.
Imagine-se quanto custaria aquillo a um trolha, a um trolha que guarda sempre contra um passarinho o mesmo odio que um velho lobo de mar conserva implacavel contra um rato! Ter de remendar um telhado inteiro—façam ideia!—sem destruir um ninho fôfo, pendurado n'um beiral!
Como eu habitava só, aquelle ninho, ali, era quasi como um outro andar da casa, onde vinha passar o verão uma familia minha conhecida. E eu tinha tanto zelo e canceira em conserval-o no mesmo sitio, muito arranjado e prompto, como se fosse o caseiro d'aquelles alegres inquilinos!
As pessoas da cidade não dão valor nenhum a estas coisas, e até se riem d'ellas; mas nós, os que vivemos na aldeia, temos um grande affecto pelas andorinhas, pelos melros, pelas toutinegras, pelos pintasilgos, pelos rouxinoes, emfim, por toda a passarada.
Os pardaes, esses então, é que não gostam nada dos figurões da cidade. E a gente do campo, que lhes conhece o fraco, assim que elles espreitam cubiçosos as searas, d'entre os ramos folhudos dos carvalhos, dizem logo:
—Esperae, que já vos arranjo.
E espetam no meio do campo um pinheiro muito alto, penduram-lhe uma vestia e põem-lhe por cima, d'um modo arrogante, um pouco para o lado, como se aquillo fosse um grande janota—um enorme chapeo alto! Oh! fica admiravel!
Poucos pardaes, por mais audaciosos que sejam, se atrevem com o figurão.
E a gente, vendo-os, á tardinha, todos a chilrear na copa frondente do arvoredo, até parece que os ouve dizer:
—Ainda lá está o espantalho?
—E estará, compadre, e estará!
—Se ainda se conservar até ámanhã—accode o mais atrevido—diabos me levem, se lhe não prego uma peça!
—Sempre queriamos vêr isso!—desafiam os outros.
—Pois então…
No dia seguinte, quando o sol radiante innundava todo o trigal, ás onze horas da manhã, estava tudo a postos, tudo silencioso, para vêr a partida.
O arrojado observou attentamente pelos atalhos—que não fosse vir a rapaziada da escola—e voou rapido d'entre um sobreiro, como se o tivesse desferido o arco d'uma setta. Foi poisar direito na copa do chapéo alto do espantalho, e voltou-se depois para os amigos, a chilrear com uma grande troça.
Por toda a deveza estalou então uma gargalhada frenetica dos outros, que observavam, cheios de alegria, a immobilidade do janota!
D'ahi por meia hora—é sabido!—estava a sementeira desvastada!
Uma bella manhã, em meado de março, quando abri a janella do meu quarto, ouvi pipilar em cima. Debrucei-me no peitoril, olhei para o beiral, e lá vi a andorinha, que tinha chegado na vespera, á bocca da noite, emquanto eu andava por fóra.
—Bem!—disse eu comigo—já sei que tenho d'ir fazer uma visita.
Ao cabo de meia hora, peguei no meu bordão, e puz-me a caminho pelo meio de uma bouça, que ia dar á estrada.
Eu ia visitar a sr.^a viscondessa, uma gentil viscondessa minha amiga, que chegava sempre quando chegavam as andorinhas e floresciam as amendoeiras.
Ao atravessar o pateo lageado, que precedia o velho sollar da fidalga, estavam ainda os criados, vestidos com blusas de riscadinho azul, atarefados na limpeza da carruagem e dos cavallos. As janellas da casa estavam todas abertas. Sentia-se que havia lá dentro uma creatura delicada, sequiosa dos perfumes balsamicos dos pinheiraes, do ar puro, da luz, como aquellas plantas aquaticas, asnympheas, que sobem do fundo escuro dos lagos á tôna d'agua para receber os raios quentes do sol do meio dia!
Apenas entrei no pateo, deparou-se-me a sr.^a viscondessa; e era mesmo uma pintura vel-a, como eu a vi então, com a cabeça lançada para traz, os braços muito erguidos, os seios afflantes, a aprumar-se, a subir, fincada no bico dos pés, para lançar o painço na gaiolla doirada d'um canario, que estava pendurada, em cima, entre os cortinados da janella!
Era lindo! lindo!
Quem primeiro apparecia a cumprimentar a fidalga era o sr. abbade. E, então, conhecia-se logo que havia novidade na terra, porque o viam sair da residencia todo aceiado, de chapéo alto, cabeção de renda, a sua antiga sobrecasaca muito comprida a bater-lhe no canno das botas, e apanhado na mão direita, d'um modo solemne, o enorme lenço de sêda da India com ramalhoças amarellas.
Feitos os cumprimentos do estylo, o sr. abbade sacava da algibeira a sua caixa de tartaruga, e offerecia-a respeitosamente á viscondessa, como signal da maxima etiqueta.
E depois, ia falando e cheirando alternadamente.
—Pois minha senhora…
E fungava pela venta esquerda uma pitada de simonte, continuando:
—Este anno, o inverno, minha senhora, correu mal! E Jesus! muito mal!
Depois, ao outro dia, vinha a sr.^a morgada do areial flanqueada das suas duas filhas. Aquillo é que era luxo! chapéos de plumas, vestidos de nobreza com tres folhos, mantelletes demoir antique, e então o bonito era a profusão de pulseiras, de broches, de brincos, tudo oiro antigo, oiro de lei, massiço, mas muito feio!
As meninas não tiravam os olhos da viscondessa; e, como ficavam uma junto da outra, acotovelavam-se ás vezes, e segredavam:
—Vê, mana?…
—O que é?—perguntava a mais velha por entre dentes.
—Agora já se não usa cuia! Ora repare.
A morgada falava do amanho das terras, do pezo da derrama, e ás vezes para variar, dizia:
—Ora não estar cá pelo Santo Amaro! Havia de gostar. É uma festa como poucas! Faça ideia, viscondessa: ha arraial tres días, ha fogo preso, missa cantada, sermão…
E arregalando os olhos, e meneando pausadamente a cabeça, exclamava:
—Sermão! mas que sermão!…
Quando chegava a vez da minha visita, já a sr.^a viscondessa sabia todas as grandes novidades da terra. Era assim castigada a minha preguiça!
—Então já sabe—principiava eu—o commendador Antunes este anno despica-se!
—Ah! já me disseram—atalhava logo a viscondessa—é elle o juiz da festa.
—É isso, minha senhora, é isso…
Vêem? Sabia sempre tudo aquillo que eu tinha para lhe dizer!
Ora succedeu, que de uma vez, indo lá passar a noite, encontrei a viscondessa sentada n'umavoltaire, com a cabeça reclinada no espaldar, as pernas estendidas e os seus pés graciosos poisados no rebordo de um brazeiro.
—V. ex.^a contradiz as tradições da primavera!—principiei eu, sentando-me ao seu lado.
—Não contradigo, meu caro—respondeu ella, removendo com a pá o rescaldo esmorecido—a primavera é que está agora conspirando contra os poetas, que lhe attribuem doçuras que não tem! Se o kalendario me não desmentisse, estava em jurar que o janeiro d'este anno augmentou, pelo menos, mais sessenta dias!
—Mas não está tanto frio, que se não prescinda do fogão!
—Não está calor que o dispense.
—Pois não é das melhores coisas para a saude!
—Ora que ideia!—oppoz ella, a rir—Não me consta que o fogão tenha sido o assassino de ninguem, tirante nos velhos dramas, em que a heroina ludibriada pelo amante, procurava no acido carbonico a solução do problema.
Supponham como eu fiquei radiante de jubilo! Até que se me deparava ensejo de contar á sr.^a viscondessa uma historia que ella desconhecia!
—Pois, minha senhora,—principiei eu com desvanecida firmeza—Filippe III, de Hespanha, foi victima do calôr d'um fogão! E, se v. ex.^a me permitte, eu vou referir-lhe como o caso se passou.
Approximei a minha cadeira do brazeiro, expuz os meus pés ao calor do rescaldo, para contradizer com a postura o que affirmava com a palavra, e prosegui:
Estava el-rei, assistindo a um conselho de ministros. Como fazia muito frio, diante de Sua Magestade tinham collocado umbrazeroenorme. Passado pouco tempo, principiou el-rei a transpirar, a transpirar cada vez mais e as faces a tornarem-se-lhe? muito vermelhas. O conde de Pobar, que viu no rosto de Sua Magestade a afflicção que elle sentia, dirigiu-se ao duque d'Alba, gentil-homem, e disse-lhe baixo que mandasse retirar obrazero.
—É contra a etiqueta—respondeu serenamente o duque d'Alba.—Isso compete ao duque d'Uzeda.
—Filippe III voltava para o lado os olhos supplicantes; mas não se atrevia a quebrar as regras da etiqueta atirando um ponta-pé aobrazeroe aos cortezãos que o cercavam.
Mandou-se chamar á pressa o duque d'Uzeda; mas, por fatalidade, o duque d'Uzeda n'esse dia não estava no palacio!
—E depois?—perguntou afflicta a sr.^a viscondessa, afastando-se do brazeiro.
—Depois—continuei eu pausadamente estirando mais as pernas—quando o duque d'Uzeda chegou ao palacio…
—Hein?—perguntou de subito a fidalga, pondo-se de pé.
—El-rei estava morto!—conclui eu com voz sinistra.
Apenas proferi esta phrase, abriu-se de repente a porta e entrou na sala o criado com a bandeja do chá.
A sr.^a viscondessa ordenou logo:
—André, amanhã não accenda o brazeiro.
E eu, offerecendo-lhe uma chavena, disse-lhe então baixinho:
—Já vê que se devem apagar os fogões, quando voltam as andorinhas!
Ha quatro dias, vejo todas as tardes, quando chego á janella, o meu visinho a passeiar em frente da casa, amparado ao braço da nétinha.
O avô é já muito velho, muito velho, com a face coberta de rugas, os olhos pequenos, as mãos encarquilhadas, as pernas tremulas, e a dobrarem-se nos joelhos. E a neta, que se chama Izaura, e é linda como os amôres, tem doze annos, os cabellos loiros, como fios de ouro, e os olhos muito azues, como duas saphiras.
Elle chama-se Macario; mas eu, quando lhe falo, dou á minha voz um tom marcial e digo-lhe alto ao ouvido:
—Como vae o nosso bravo capitão? Como passa o meu valente capitão?
E então, na visinhança é mais conhecido pelo capitãoFeroz, que foi a alcunha que lhe ficou, por ter sido um militar valente e corajoso como poucos!
Quando os francezes vieram a Portugal…—Ai!—disse-me elle um dia, referindo-me as façanhas da guerra—quem me cassara n'aquelle tempo! Eu tinha então desoito annos, umas pernas rijas, o ôlho fino!… Olhe, só d'uma vez me falhou a pontaria. Eu lhe conto. No convento de Santa Clara, de Thomar, estava recolhida uma menina, de que eu gostava muito e com a qual depois casei. Um official francez, passando-lhe debaixo da grade, disse-lhe um galanteio, e piscou-lhe o ôlho direito. Ora eu, que estava ao longe a observar tudo, disse commigo: espera, que já t'arranjo. E metti a espingarda á cara, fiz pontaria para o ôlho direito do francez, e…
—E, truz! metti-lhe a bala no ôlho esquerdo! Errei d'essa vez!
E ainda lhe fulguravam os olhos e o rosto se lhe illuminava, quando contava d'estas coisas.
Depois proseguiu:
—A final, chegou-me a vez de ser vencido! Eu, que nunca tremi na guerra, a primeira vez que falei á minha santa, que Deus tenha, dei em tremer como varas verdes! Mas aquillo sim! Era formosa d'uma vez! O senhor vê a minha filha! É a cara da mãe.
O capitão não se enganava. A filha era realmente formosa; mas duma formosura, que é menos dos contornos do rosto, do que da graça interior da alma.
Havia um anno que era viuva d'um industrial trabalhador, honesto e intelligente. Ficára a viver na companhia do pae e com dois filhos:—a Izaura, e o mais pequenino, o Abel, que tinha pouco mais d'um anno e uma cabecinha loira de cherubim.
Que santa vida a d'aquella familia obscura!
A viuva repartia pelos tres todo o generoso affecto do seu coração; e, até, como o pae era tão velhinho, quasi que já carecia dos cuidados d'uma creança. Que os bons velhos, coitadinhos! são faceis de contentar! Basta-lhes uma restea de sol, uns carinhos de filha e umas historias da neta!
Quando perguntei ao Macario, porque passeiava depois do jantar, respondeu-me:
—O somno é bom para a noite. Quando durmo depois de jantar, tenho sonhos maus.
E, beijando a cabeça de Izaura, accrescentou:
—Quero antes passeiar com a minha neta, que me conta historias muito lindas.
E continuaram os dois, o velho pelo braço de Izaura, arrastando vagarosamente os pés nas lagens do passeio.
* * * * *
Depois do jantar, o velho arrastava-se até á poltrona, que tinha ao canto da janella; e, bem refastellado, com os pés estendidos, as mãos cruzadas sobre o ventre e a cabeça encostada no espaldar, dormia patriarchalmente a boa sonata da sésta.
De uma vez, era em julho, e, ás duas horas da tarde, fazia um calor insupportavel. Até parece que a natureza tambem dormia a sésta! Lá fóra, no quinteiro, as folhas das arvores pendiam desfallecidas. Ouvia-se o murmurio monotono da bica d'agua a cahir, como uma lagrima, sobre uma pia de pedra, debaixo d'uma latada. As portas das janellas estavam entre-abertas para deixar entrar na sala uma fita de sol, que se estendia aos pés do velhinho, como uma esteira de luz.
No outro canto da sala, a filha do capitão, sentada n'uma cadeirinha de pau, pospontava uma camisa de creança, mas tão pequenina, que parecia uma camisa de boneca! Ouviam-se até uns pequenos estalidos secos da agulha, atravessando a gomma do morim novo e em folha. O Abel!… Era um regalo vel-o sentado no chão, em camisa, com as pernas roliças á mostra, um ventre redondinho de abbade feliz, e os pésinhos côr de rosa!
Aos pés do avô, na restea do sol, tremia a sombra d'umas folhas do platano do jardim. A creança engatinhou para lá. Como uma pequenina féra, atirando-se de golpe sobre a presa, o Abel lançou-se rapidamente sobre a sombra tremula das folhas; mas—que ludibrio!—ficou triste, espantado, com os olhos muito abertos, a contemplar a palma da mão vasia!
Ao lado estavam os grandes pés do avô, mettidos nos dois grandes chinellos de tapete. Oh! eram duas colinas! E as pernas? As pernas pareciam dois enormes castellos roqueiros.
No espirito bellicoso da creança surgiu a ideia terrivel de os assaltar. Fincou as mãositas nos chinellos do avô, levantou-se valentemente nos pés, e upa! upa! arriba!
N'essa occasião o velho sonhava:
Tinha remoçado cincoenta annos! Os francezes invadiam Portugal! Quando elle estava na tenda de campanha, a dormir no dia seguinte ao de uma batalha, viu entrar inesperadamente o exercito de Bonaparte. As paredes de lôna da tenda iam recuando, recuando, para dar entrada ás hostes immensas do inimigo. Os esquadrões insoffridos da cavallaria corriam sobre elle. Em volta da tenda levantou-se rapidamente—como nas magicas do theatro!—uma bateria, com as boccas dos canhões apontadas para o leito. Os piquetes de infanteria corriam a marche-marche, de bayonetas caladas, para o surprehenderem no somno. Ao fundo, no viso de um outeiro, Bonaparte, o terrivel Bonaparte, com as suas botas de escudeiro e o seu chapeu de bicos posto de travez, como o chapeu de um estudante de Salamanca, assestava sobre elle o oculo de alcance, sorrindo alegremente da victoria!
O capitão Macario via tudo aquillo, ouvia o estrepito dos cavallos, o tropido da infanteria, as gargalhadas de Bonaparte, e sentia-se preso ao leito, impotente, inerme, anciado, sem poder gritar!… Façam ideia!
De repente, todo aquelle exercito enorme se transformou n'um gigante, que lhe prendeu brutalmente as pernas com dois grilhões de ferro!
O capitão esforçou-se ainda por se levantar; mas conseguiu, apenas, depois de muito custo, soltar este brado afflictivo, com uma voz convulsa:
—Ás armas!
E despertou, ouvindo as gargalhadas de… Bonaparte!
O velho abriu desmesuradamente os olhos, volveu-os espantado em torno de si; e, quando um instante depois, se sentiu completamente acordado, deu com o nétinho, que lhe puxava pelas pernas, para lhe subir ao collo!
A creancinha estava com os olhos levantados para o avô, a sorrir, muito alegre, porque julgou que tinha sido para ella, como brincadeira, aquelle grito suffocado—Ás armas!
Havia d'antes em Penajoia—terra que ninguem é capaz de ver no mappa geographico de Portugal—uma aula regia de primeiras letras.
A aula era n'uma casa de um só andar, rente do chão. Ficava no meio de uma clareíra, e tinha ao lado dois grandes sobreiros, que a abrigavam do sol, no estio, e que rangiam, no inverno, quando sopravam as rajadas do nordeste.
Os alumnos entravam ás oito horas da manhã, saíam ao meio-dia, para jantar; e voltavam depois ás duas horas, para sairem ás cinco da tarde. Alguns d'elles vinham de longe, meia legua, tres quartos de legua de distancia. Eram todos pequeninos e pobres. Saíam ao romper da manhã de suas casas, com o livro debaixo do braço, e a louza das contas pendente de um cordão, lançado a tiracollo. No caminho, os que vinham de mais longe, iam-se reunindo aos condiscipulos que encontravam; jogavam o botão, ou, se era tempo, trepavam aos castanheiros para cruelmente roubarem os ninhos dos melros e verdelhões.
O mestre, que tinha sido um valente cabo de milicianos, era um velhote rabujo, de pellos nas orelhas, e que pouco mais sabia do que os alumnos, que ensinava.
Um dia perguntei-lhe eu:
—Diga-me cá, sr. Joaquim, que methodo adopta?
—Que methodo?!—exclamou elle, estranhando a pergunta. E depois, levantando as sobrancelhas, e com as sobrancelhas os oculos, fitou-me desconfiado, e respondeu com ar solemne:
—Adopto o methodo do Achiles (doAxiles, foi como elle dísse).
Mas, a despeito de tudo isto, era um tyranno, como o são quasi todos os ignorantes.
A aula, como já disse, ficava ao rez do chão. A luz entrava por duas frestas, que ficavam acima dois palmos da cabeça de um homem; porque assim era preciso—explicava o mestre—para que os rapazitos se não distrahissem, a olhar para fóra. Ao fundo da sala ficava uma meza de pinho e uma cadeira, que era o logar do mestre. Depois seguiam-se bancadas de pau, collocadas como uma platéa, duas a duas, deixando ao meio um intervallo, por onde entravam os alumnos; e, quando todos tinham entrado, por onde passeiava gravemente o professor, com o livro n'uma das mãos, e na outra um junco.
Os pequenos, assim que se aproximavam da aula, impallideciam.
E antes de entrarem, quem ali passasse, via-os muitas vezes ainda a repetirem a lição, trémulos, enfiados e com a mesma coragem de quem tem de subir a uma forca!
O Gabriel era ainda um pequenote de sete annos. Morava ao pé do abbade. E o abbade, que era um santo velhinho, é quem muitas vezes lhe ensinava a lição. Por isso, e como o pequeno era esperto—ui! diziam os conhecidos, o Gabriel? esperto como um alho!—era o Gabriel que quasi sempre ensinava a lição aos outros.
—Como se lê esta palavra, Gabriel? dizes-me?—pedia-lhe de uma vez oJoão do moleiro.
—Soletra lá.
E principiou o outro:
—P-h-i,pi.
—Qualpi! Tambem eu cuidava!P-h-i,fi—emendou o Gabriel.
—Fi!—exclamou o João,—Fi! Pêta! Tu enganas-me, Gabriel.
—Não engano, João; lêfi, que foi como me ensinou o sr. abbade.
N'isto, chegou á porta da aula o mestre.
Vinha a palitar-se, e com a face e orelha direita mais vermelhas, porque tinha dormido a sésta.
Chegou á porta e gritou:
—Canzuada, salta para dentro!
E lá entram todos de chapeusinho na mão, cheios de medo, como um rebanho de ovelhas a entrar para um matadouro.
Assim que o mestre tirou o livro da gaveta, em seguida a palmatoria, e depois o lenço escarlate, de chita, fez-se um silencio lugubre na sala.
—Lê tu, João—principiou elle.
O João do moleiro foi lendo, mas cada vez que se ia aproximando da terrivel palavra, ia-lhe faltando o animo.
Dizer queP-h-idizfi, que temeridade! Emfim continuou írremediavelmente:
—E como a sciencia chama…chama…
E ergueu supplicante os olhos para o verdugo.
O mestre tossiu para se dar ao respeito, e bradou:
—Lê para bai-xo, me-ni-no—accentuando as syllabas com um sorriso ameaçador.
—Chamada—continuou o pequeno indeciso—chamada… e terminou em tom mais baixo, com a incerteza de quem não sabe o que diz—Philosophia.
—Como?—bradou o mestre, descarregando-lhe com o junco pelas orelhas.—Como?
O pequeno fechou os olhos, encolheu os hombros, e emendou a chorar:
—Pi-lo-so-pi-a.
O professor descarregou segunda juncada, e berrou:
—Pilosópia, burro,pilosópia!
—Pilosópia,—repetiu o pequeno.
Apenas o João do moleiro disse a palavra, levantou-se o Gabriel do seu logar e declarou com a voz serena e com as lagrimas a saltarem-lhe dos olhos:
—Snr. mestre, quem ensinou a dizer assim ao João do moleiro fui eu.
Oh! que escandalo, Santo Deus! O mestre ergueu-se de golpe. Os discipulos tremiam como varas verdes; e os mais pequeninos até choravam! Podéra! O que iria acontecer, Nossa Senhora! O mestre ia correr tudo a bolaria, não ha duvida.
—O que é lá?—gritou o mestre Joaquim com uma voz convulsa.—O que é?
E ficou a olhar para o Gabriel, inclinando com o indicador o pavilhão da orelha direita.
—Fui eu que ensinei assim—repetiu o Gabriel assustado.
—Vem cá—chamou de afogadilho o mestre—já aqui, seu atrevido. E bateu com a palmatoria na mesa. O Gabriel poisou o livro no logar e aproximou-se.
—Aqui já.
O mestre descarregou-lhe nas mãosinhas tenras meia duzia de furiosas palmatoadas.
Foi muito bem feito! Apre! Offender a sabedoria do seu mestre!
* * * * *
De uma outra vez, de tarde, aconteceu passar o abbade pela aula do mestre regio. Fóra ouvia-se uma gritaria, que eu sei lá! parecia que o mundo ia acabar.
Á porta da aula estavam tres pobres mulheres, cada uma com um filhinho ao collo.
—Ahi vem o sr. abbade—disse uma d'ellas.—Vamos pedir-lhe, mulheres.Aquillo foi Nosso Senhor que o trouxe por aqui.
Abeiraram-se do abbade, e imploraram-lhe que fosse elle pedir ao mestre que perdoasse por esta vez aos rapazinhos.
—Então o que aconteceu?—perguntou o reitor.
—Quem sabe lá, sr. abbade! Elles berregam, que parece que os matam!
—Se eu já até ouvi o meu Manoel, que é tam fraquinho!
—E o meu João, sr. abbade, que tam doentinho tem andado.
—E o meu José! aquelle que foi este anno á primeira confissão, sr. abbade; sabe?
O abbade dirigiu-se á porta e bateu.
—Quem é?—perguntou de dentro a voz aspera do mestre.
—Abra, mestre Joaquim, faz favor?
O abbade entrou. Para os pequenos foi como se vissem a Providencia.
—Então o que lhe fizeram estes mariolas, sr. Joaquim?—perguntou o abbade, olhando em roda para os alumnos.
—O que me fizeram? Roubaram-me dois lapis!
—Oh! que grande peccado!—exclamou o abbade, arregalando os olhos.
—E é que nenhum confessa—explicou o mestre. E bradou, voltado para os pequenos—nenhum confessa, mas eura a i xo-os, aqui, todos.
O abbade poz-lhe a mão no hombro e serenou-o, dizendo-lhe:
—Pois se nenhum confessa, é o mesmo; que vamos já saber quem foi.Espere ahi que volto já.
Saíu o abbade, e, passados instantes, entrou na aula, precedido de uma rapariga.
Aproximou-se da mesa e disse:
—Põe tudo aqui em cima, Josephinha. Assim. Agora vai-te embora.
A pequena poisou uma panella de folha, e tirou debaixo do avental um gallo preto. O abbade metteu o gallo dentro da panella, cobriu-a com o testo, e principiou assim:
—Fez-se um grande peccado! Roubaram um lapis! Quem rouba um lapis, é muito capaz de roubar tudo! Meus filhos, um de vós commetteu o crime; e não o confessa por vergonha. Ora, por causa d'aquelle que roubou os lapis, vão padecer todos os mais. Ahi teem! Em vez de só fazer um peccado, que Nosso Senhor lhe perdoava, se o confessasse e se arrependesse, vae commetter muitos: faltar á verdade, que é tão feio, e depois deixar que os outros soffram injustamente.
Os pequeninos ouviam o abbade com religiosa veneração.
O abbade proseguiu:
—Hão de vir todos, cada um por sua vez, pôr a mão sobre esta panella. O gallo preto ha de cantar logo que sinta sobre o testo a mão criminosa do que roubou o lapis. E fica assim conhecido o ladrão; o sr. mestre Joaquim ha de castigal-o, e eu não o quero ver mais. Ora, torno a dizer, se confessar está perdoado.
Na aula, silencio profundo.
—Nenhum se accusa?—disse o abbade.—Venha o numero 1.
Foi o numero 1 e poisou a mão sobre o testo. O gallo não cantou.
Foi o numero 2, foi o numero 3 e chegou até ao numero 4.
Antes de chegar a vez ao numero 5, todos os olhares convergiram para um canto da aula, d'onde partiam uns soluços afflictivos.
—Quem chora ahi?—perguntou o abbade.
Ergueu-se o Eusebio daEntrevada.
Era um pequenino de oito annos, muito pobresinho, com um palmito de cara que estava mesmo a pedir pão.
Era um cinco reis de gente, o Eusebio.
—É o daEmprégada—explicou o do Moleiro.
—Anda cá, menino—chamou o abbade—anda cá. Tu porque choras?
O pequeno aproximou-se para justificar as suas lagrimas, mostrou ao reitor os dois lapis roubados.
—Ah! foste tu, Eusebio?!
E Jesus! O pequeno chorava que era um dó do coração! E nem podia responder; apenas acenava.
—Então foste tu. E, olha, para que os tiraste?
—É que o sr. mestre—balbuciou o criminoso—disse-me que trouxesse eu um lapis, e eu não quiz pedir o dinheiro á minha mãe, que estáemprégadinhana cama, e nem tem dinheiro para o caldo. E depois com medo de que o sr. mestre me batesse…
—Pegaste n'um lapis. Foi assim?—concluiu o parocho.
—Foi, sim, senhor.
—Mas tu tiraste dois!
O pequeno desatou a chorar.
—Para que tiraste dois?—insistia o padre.
—Era—explicou o Eusebio—para quando se acabasse um!…
O mestre estava já de palmatoria prompta.
O Eusebio estendeu resignado a mãosinha trémula.
—Basta—terminou o abbade.—Eu prometti que se perdoava a quem confessasse. Para outra vez, querendo alguma coisa, vae-me pedir, ouviste? Que eu não tenho tempo de saber o que vos falta. Ora vae para o teu logar, e promette que não tornas a fazer outra.
O mestre Joaquimsentiu muitonão applicar o correctivo.
—Deixe lá, sr. Joaquim—dizia-lhe o abbade.—É preciso muita misericordia para tratar as creanças. Lembre-se do que dizia Jesus:Sinite parvulos venire ad me.
O mestre, que não sabia latim, mas que diante do curso quiz occultar a ignorancia, respondeu a sorrir com ares de quem percebia:
—Et cum spiritu tuo!
Um sargento de atiradores, que, desde a madrugada, tinha percorrido oito leguas, a pé, sem descançar, entrou n'uma taberna que ficava á beira da estrada, e perguntou se era por ali que morava Maria La Courdaye.
O taberneiro descobriu-se respeitosamente deante do soldado, e, saindo á porta, estendeu o braço, e indicou-lhe:
—É ali, do lado direito. Abra uma cancella e entre.
—Obrigado! Boa noite—agradeceu o militar. E dirigiu-se apressadamente para lá.
* * * * *
No muro da estrada havia uma cancella de pau; e aberta a cancella, atravessando-se por um caminho assombreado de algumas arvores frondentes, via-se ao fundo a modesta casinha branca, escondida entre a verde ramaria de uns carvalhos.
Tinha ao lado uma leirita plantada de horta; e, á sombra de um choupo, mais no fundo, uma pia de pedra, onde murmurava uma veia de agua muito crystalina. Do esgalho de uma arvore prendia-se ao tronco de outra uma corda, estendidas na qual alvejavam, expostas á luz perpendicular do sol do meio-dia, umas roupinhas brancas de creança. No cunhal da casa havia uma parreira, que subia encostada á parede, com as suas largas folhas de um verde accentuado d'entre as quaes pendiam os cachos escuros com os bagos cobertos de pó luzente e subtil das estradas. Da chaminé desenrolava-se serenamente uma espiral branca de fumo, que se expandia pelo ar. A casinha branca, de um só andar, apparecia encastoada no fundo escuro de uma collina. E no cabeço do outeiro, a espessura immovel e macia de um pinheiral fechava o horisonte, como um largo reposteiro de velludo verde.
N'essa casa vivia uma formosa mulher na companhia de dois filhos.
Coitadita da pobre! Ficava viuva aos vinte e cinco annos e com dois filhinhos que eram o seu encanto. O mais velho tinha sete annos e chamava-se Miguel, que era o nome do pae; o mais pequenino contava apenas onze mezes, e tinha nascido pouco depois que o pae partiu para a terrivel guerra da Criméa.
De uma vez, depois de cearem, a mãe, para que o Miguel não fizesse bulha e acordasse omenino, chamou-o para ao pé de si, abriu a carta geographica, e disse-lhe:
—Olha, meu filho, onde está o teu querido papá?
O pequenino abriu muito os olhos, e respondeu a sorrir:
—Na guerra! Pum! Pum!
—Anda vêr onde elle está.
E, pegando-lhe na mãosinha, fechou-lhe os trez dedos mais pequenos, estendeu-lhe o indicador, e foi-lh'o levando por todas as terras por onde o pae tinha seguido. O dedo da creança ia subindo montanhas, descendo aos valles, atravessando as planicies, costeando pelo litoral e cortando o mar. O pequeno balbuciava todos os nomes que a mãe proferia. Quando chegou á Criméa parou. Ergueu a sua cabecinha loura, e levantou os olhos para a luz do candieiro, a vêr se elle lhe fazia a mercê de o alumiar bem. Depois levou a mão aoabat-joure tirou-o para o lado.
—Deixa o candieiro, meu filho.
—Ora, ora—exclamou o Miguel, fazendo biquinho.
—Deixa, meu filho—pedia a mãe.
—Eu quero vêr o papá.
E debruçou-se outra vez sobre a carta, a procurar com o olhar investigador um ponto qualquer.
A mãe, n'esse instante, com o mais novinho adormecido nos braços, olhou para o crucifixo, que tinha pendurado á cabeceira, e principiou a rezar baixinho, com duas grossas lagrimas a tremerem-lhe á flôr das palpebras.
—Está aqui o papá?—perguntou o Miguel.
—Está, meu filho, está.
—Na guerra?
—Sim, meu rico amor, na guerra.
O Miguel ficou pasmado a olhar para a Criméa, e exclamou:
—Eu quero ir á guerra dar um beijo ao papá.
—Oh! meu filho!
—O que é a guerra, mamã?
—Não sei, Miguel. O teu papá, quando vier ha de contar-nos, sim?
No dia seguinte, logo depois da ceia, quando omeninojá dormia no regaço da mãe, o Miguel pediu:
—Eu quero ver outra vez o papá.
E foi procurando, pouco a pouco, pelo mappa. Assim que apontou a Criméa, exclamou radiante:
—Ah! aqui está elle!
E depois, no outro dia, logo á bocca da noite, bateram apressadamente á porta. Quem seria, Jesus! A mãe do Miguel até tremeu. Pegou na creancinha e foi vêr quem era. O Miguel—aquillo era já um homem ás direitas!—ía ao lado da mãe, segurando-se-lhe a uma das prégas do vestido.
—Ha-de ser o papá—disse elle.
Abriu-se a porta, e no fundo estrellado da noite, sobresaiu a elevada corpolencia de um soldado. A claridade do luar batia-lhe em cheio no rosto avincado da fadiga e queimado do sol, com grandes bigodes espessos. Os botões da fardeta reluziam.
—É aqui que móra a sr.^a Maria La Courdaye?—perguntou elle, enxugando ao canhão o suor copioso que lhe escorria na testa.
—Sou eu—respondeu a mãe de Miguel.
—É a mulher do Miguel La Courdaye?
—É o papá—disse do lado o pequenito, fitando o soldado com os seus grandes olhos azues.
—Pois, senhora…
O soldado olhou em redor, peturbado, afflicto, e continuou:
—Pois o Miguel, o 26 dos atiradores, o meu querido e bravo camarada…
—Hein?—balbuciou a pobre mulher.
O sargento apontou com o indicador para o céo, e, approximando-se da porta, terminou:
—Morreu!
E deitou a correr pela estrada fóra, porque não tinha coragem de assistir áquelle lance angustioso. Não tinha animo, elle, que no calor da refrega, affrontára os maiores perigos!
Depois da ceia, o Miguel quiz ainda ver o seu papá. Abriu o mappa, e quando chegou á Criméa, disse:
—Eh! aqui está elle!
—Já não está, meu filho—respondeu-lhe a mãe a chorar.
O pequenito olhou para ella, e perguntou:
—Então?
—Está no céo!
—Está no… céo? Então vou procurar o céo.
E ficou, por muito tempo, debruçado sobre o mappa, a procurar onde ficaria o céo para ver o seu papá, até que deixou pender a sua loira cabecinha sobre o livro, e adormeceu.
A mala-posta, que seguia do Porto para Braga, passava, ás 7 horas da manhã, defronte da Izabellinha—aldeola obscura, que fica emboscada n'uma deveza cerrada de carvalheiras, entre Santiago da Cruz e a estrada de Barcellos.
Como era subida, os cavallos iam a passo, de redeas bambas, com as cabeças pendentes, saccudindo com as caudas os moscardos teimosos, que lhes afferretoavam nos ilhaes. Na imperial do tejadilho os passageiros cabeceavam com somno. O cocheiro, com o chapéo desabado cahido para o sobr'ôlho esquerdo, por causa do sol, e com as redeas entaladas nos joelhos, petiscava lume da pederneira e acendia pachorrentamente no morrão um cigarro de Xabregas.
—Ainda não enxergo o manco—disse o conductor, com os olhos fitos n'um atalho, que vinha sahir á estrada.
—Toque-lhe a busina, homem—alvitrou do lado o cocheiro, com a voz rouca da aguardente—toque-lhe a busina; que, se não apparecer, adeus! a culpa é d'elles.
O conductor limpou com a palma da mão o boccal da corneta, que levava ao tiracollo, applicou-o aos beiços, inchou as bochechas d'ar, e soprou de rijo, tirando um som roufenho, prolongado, com intermittencias, que se ouvia de longe.
O manco, que estava encostado no cunhal do muro, á sombra d'um castanheiro, sahiu a meio da estrada.
Ao passar a mala-posta, o conductor atirou-lhe d'alto com uma sacca de brim, surrada, suja e fechada com uma vareta de ferro, em cuja extremidade pendia um aluquete triangular. O manco estendeu os braços para a suspender no ar. Assim que a aparou, sopesou-a duas vezes, com os braços esticados, e observou:
—Hoje pesa!
—Hoje ha paquete—explicou succintamente o conductor.
E, como a estrada principiava a descer n'uma ladeira ingreme, volteou com força e á pressa a manivella do travão, e disse para o manco:
—Adeus.
A mala-posta seguiu a trote largo pelo meio da estrada, aos solavancos, levantando nuvens densas de poeira, com grande ruido das rodas, fremito das vidraças e o tilintar constante dos guisos das colleiras.
O manco atirou para o hombro com a mala das cartas, fincou o braço concavo da mulêta no sovaco direito, e desandou pelo atalho fóra, a coxear, para casa do Bento do correio.
Ao fundo do atalho, em continuação do muro tosco dos campos, ficava uma estacada já velha, combalida, esverdengada das chuvas da invernia a resguardar uma leira hortada de couves e cebollinho. Tinha dentro uma casita de telha vã com porta e postigo sem vidraça. Dirigiu-se o manco á cancella da palliçada, correu-lhe o ferrôlho pêrro na armella, e gritou:
—Ó tia Anna! tia Anna!
Abriu-se a porta da casa, e appareceu no limiar uma velhinha tremula, curvada para diante, com uma roca enfiada á cinta, a fiar estopa.
—Que é lá, manco?—perguntou ella, inclinando-se para fóra, com a mão fincada na humbreira.
—Correio!—gritou o manco com um grande berro.
A velha fez-lhe com a mão signal de que esperasse. Poisou dentro a roca e o fuso, e sahiu á horta ageitando com os dedos as farripas brancas do cabello, que lhe espreitavam por debaixo do lenço. O rapaz transpoz a cancella, foi ao encontro da tia Anna, e gritou-lhe com a bocca muito aberta:
—Correio! ouviu?
A mulher fitou-o com os olhos espantados, e perguntou:
—Que é? Não oiço.
O manco sorriu-se resignado; collando então a bocca ao ouvido da tiaAnna, repetiu com maior brado:
—Correio! correio! ouviu agora?
—Ah!—exclamou a velhinha, esfregando as mãos de jubilo radiante—ouvi, meu filho, ouvi:—é correio!
—É correio, é—confirmou elle com um aceno affirmativo.
E, pondo-lhe a mão no hombro, disse-lhe adeus até logo, correu de novo o ferrôlho, e tomou á direita, pelo carreiro de um milharal, caminho do correio.
* * * * *
Não se imagina o que é a chegada do correio a uma aldeia qualquer doMinho! Cartas dos filhos ausentes!
Que anciedade em vêr realisadas as esperanças e…
Deixemos estas considerações, e relatemos os factos.
D'aquella mesma porta, vinte annos antes, sahira uma vez a tia Anna, ainda forte, robusta e sadia, para acompanhar ao Porto o seu querido e unico filho, que teimou em embarcar para o Brazil. O homem da tia Anna não se oppoz.
—Deixa-o lá, mulher—disia-lhe elle—se o rapaz tem inclinação, em Deus o ajudando, melhor amanhará a vida por lá do que por cá. Elle sabe lêr, elle sabe escrever, elle sabe contas, está mesmo a calhar.
—Ai! meu rico filho—soluçava a pobre mãe, a chorar, com o rosto escondido no avental.
—Não chores, mulher. Partir, tinha elle de partir, mais hoje, mais ámanhã. Eu que o mandei ao mestre, não foi para ficar na lavoura. Assim com'assim tanto monta estar o rapaz n'uma loja no Porto, como no Brazil. Vem a dar na mesma.
Estas e outras razões do marido venceram as saudades da mãe.
Foi preciso vender dois grilhões e um par d'arrecadas, venderam-se; foi preciso vender tambem uns novilhos, que se engordavam para embarque, venderam-se na feira de Villa-Nova; e apuradas sete moedas e meia, impoz-se o rapaz para o Brazil. No Porto, a tia Anna tomou passagem para o filho, á prôa, na galeraConstancia, da casa dos Pennas; mercou-lhe uma caixa de pinho nova; vestiu-o com dois fatos baratos n'um algibebe da Ponte-Nova; escolheu-lhe um par de chinellas nas sapateiras das Carmelitas; guardou-lhe e ageitou-lhe tudo na arca, e poz-lhe a um canto, com a maior devoção, o registo do Bom Jesus do Monte.
Pobre mulher! Liquidou as parcas economias, que representavam privações e sacrificios, afadigou-se de trabalho, ralou-se de saudades, chorou muito; e, quando viu de terra a galeraConstanciaseguir lentamente rio abaixo, com as vellas enfunadas pelo nordeste e a prôa inclinada á barra, cahiu de joelhos e de bruços no caes de Massarellos, com as mãos tremulas atadas na cabeça, a soluçar afflictivamente pelo filho da sua alma, que lhe acenava com o lenço, debruçado na amurada do navio, a chorar!
* * * * *
Chegou a primeira carta a Izabellinha decorridos tres mezes da partida do rapaz. Foi um alegrão que os paes tiveram! A carta era escripta em papel paquete, muito fino, pautado; e até como os portos do Brazil estavam suspeitos de febre amarella, vinha o papel todo golpeado. Foi lida a carta pelo Bento do correio, foi lida pelo boticario, foi lida pelo snr. cura, antes de ser delida pelo calôr do seio da mãe, que a guardava junto do coração, como reliquia; e, de cada vez que ella ouvia as palavras do filho, era um chorar copioso, que retalhava o coração. O brazileiro da Granja, que indusira o rapaz a embarcar, esse sorria-se, e consolava-a d'este modo:
—Deixe lá, tia Anna! Ali é que um home se faz gente. Está aqui, está um brazilêro como a mim. Lhi garanto, tia Anna, que o rapaz se tiver tento na boia, hem? arranja pátácária gorda, e, em pouco tempo, átiça baixella em casa.
Nenhumas d'estas consoladoras esperanças, nem até a deátiçar baixella em casa, leniam as saudades d'aquelle coração attribulado da tia Anna.
—Ora!—oppunha ella com a voz nazal e soluçante de quem suspende as lagrimas para falar.—Em um homem tendo saude e a graça de Nosso Senhor, em toda a parte do mundo é Brazil! Riquezas são o demonio.
—Não diga pátácuádas, mulher—contestava o brazileiro azedo e carrancudo—não diga pátácuádas.
Depois, passados mais annos, á proporção que as saudades da aldeia se desvaneciam no animo do rapaz, as cartas iam rareando.
De quatro em quatro mezes escrevia para a terra, dizendo que o trabalho lhe roubava o tempo de o fazer amiudadas vezes. Que não tivessem cuidado, que ia bem de saude e que esperava ser feliz em poucos annos.
A tia Anna, quando não tinha carta no correio, ia da Izabellinha a Braga, a pé, entrava no Carmo, ajoelhava á beira da campa do milagroso Frei Joãosinho da Neiva; e, com as mãos postas em supplica junto da bocca, implorava com ancioso fervor pela saude e prosperidade do filho ausente. Ao passar pela caixa das esmollas, á entrada da egreja, lançava algum dinheiro no gazufilacio. Pedia a Nossa Senhora da Conceição dos Congregados pelo filho do seu coração. Entrava em Santa Cruz, ajoelhava em frente do altar do Senhor dos Passos, e rezava uma estação e um rozario com as faces de rojos; subia a beijar os pés da sagrada imagem; e benzendo-se tres vezes com a corda d'esparto puido e lustrosa, que cingia a tunica do Senhor, retirava-se ás recuadas, rezando a meia-voz, até sahir do templo!
* * * * *
Seis mezes antes do manco annunciar á tia Anna que tinha chegado o correio, recebeu ella uma carta do filho, dando-lhe parte de que ia casar com menina rica, de nascimento—dizia elle—prendada. Queria o retrato dos paes, e enviava-lhes dez moedas para as despezas necessarias.
Quando isto constou na Izabellinha, houve geral regosijo.
—Eu não lhe dizia, tia Anna—lembrava-lhe uma visinha.—Se eu logo vi!Aquelle seu Joaquim nunca me enganou. Eu futurei aquillo!
—Pois isso bastava uma pessoa olhar para elle—acudia outra, aleitando um filhinho gordo, que tinha no regaço—Aquelle ôlho d'elle, lembra-se, tia Josepha?
—Pois não alembra? O rapaz era fino, que nem um alho! Se aquelle não se arranjava por lá, então—bôa te vae!—não sei o que ha-de ser d'outros que foram depois. Olhe vocemecê, tia Anna, aquelle filho da moleira, o zerôlho; aquillo é um morcão, que não serve para nada.
A tia Anna, sem attentar no confronto, que lhe realçava as qualidades do filho, ria e chorava simultaneamente. E não se sabia dizer se aquellas lagrimas serenas illuminavam o sorriso, se o sorriso mais entristecia as lagrimas!
Dois dias depois da recepção da carta, resolveram-se, ella e o marido, a ir a Braga para tirarem o retrato. Vestiram-se com a melhor roupa domingueira, que servia para a romaria do Espirito Santo, no Bom Jesus do Monte. Ella ia toda sécia de saia escura de serguilha, com tomado e muitas pregas miudas no coz, collete de chita amarella salpicada de florinhas verdes, camisa branca de linho com mangas enfunadas e abotoadas no pulso, meias finas, e sóquinhas de panno azul com ponteiras de verniz.
Atou na cabeça um lenço branco de cambraia bordado, lançou aos hombros o capotilho novo de baeta escarlate debruado de fita larga de velludo preto com as pontas cahidas á frente, até á cintura, e tomou na mão enrugada e secca um lenço engommado de franja e entremeios de renda.
O marido enfiou as melhores calças de panno, avincadas, com abertura em baixo a apolainarem o tamanco, collete de fostão amarello com duas ordens de botões de vidro, niza azul de abas curtas, golla alta, botões amarellos, as mangas justas de canhão até á raiz dos dedos, e collarinho muito engommado e teso apontado ao lóbo das orelhas.
Poz na cabeça chapéo de feltro de copa afunilada, e sobraçou o guarda sol de panninho escarlate com espigão de metal lustroso e um cabo de ôsso representando um punho, toscamente esculpido nos torneiros da Bainharia do Porto.
Atravessaram assim o Arco da cidade em Braga; e seguiram pelo meio da rua do Souto, um ao lado do outro, radiantes, em busca do retratista.
Adiante da galeria do paço episcopal, deparou-se-lhes pendurado na humbreira de uma porta um quadro grande de caixilho doirado com muitas photographias em exhibição.
Perguntaram na loja de pannos, que havia ao lado, onde se tiravam os retratos; e, devidamente encaminhados, subiram ao segundo andar, onde ficava oatelier.
O photographo retratou-os em grupo, um junto do outro, ambos de pé, o marido com a mão direita espalmada assente sobre a espadoa descahida da mulher.
Ficaram com as cabeças muíto levantadas, os olhos arregalados e espantadiços, os beiços franzidos, os membros hirtos e constrangidos, n'uma attitude lôrpa, grotesca e ridicula!
* * * * *
Logo que o manco partiu, a tia Anna seguiu-lhe no encalço para procurar carta do filho.
No dia em que chegava a mala do Brazil, iam as mulheres da Izabellinha pedir ao Thomé boticario, que deixasse ir o filho ao correio para lhes lêr as cartas.
Se não havia freguezes a aviar, o pae mandava-o, e o Andrésinho partia alegre, porque gostava da brincadeira.
Era lindo vêr aquelle quadro!
O rapaz sentava-se no espigão d'um muro baixo, á sombra d'um sobreiro. Em volta d'elle, mulheres e homens apinhados, com as bôccas abertas, escutavam-no com religioso silencio.
O filho do boticario ia lendo uma por uma, muito vagarosamente, as cartas que lhe entregavam.
Não havia segredos para ninguem.
Como o rapaz lia d'alto e bom som ouviam todos as cartas uns dos outros, como se fossem uma só familia. E alguma noticia triste ou noticia alegre era egualmente sentida e commentada por todo o auditorio.
A tia Anna, como já lhe custava a andar, chegava no fim de todas.
Cediam-lhe logo passagem.
—Deixae, que eu tenho tempo—dizia ella, com a carta do filho apertada na mão.
Por fim, chegou-lhe a sua vez.