A sua porta abriu-se de feito, pouco depois, e pareceu-lhe aperceber dous vultos na escuridão. Deixou-os adiantar, seguiu-os, e quando um se debruçava sobre o leito vasio, e o outro, assoprando n'um buzio tirava d'elle sons roucos e medonhos, caiu ás pranchadas sobre o musico do Averno, ao qual o instrumento escapou dos dedos, e que, amedrontado, principiava a revolver-se pela casa, gritando como um simples mortal derreado por uma sova. O outro phantasma volveu logo em auxilio do agredido, mas uma cutilada de D. Pedro, aparada no braço ao que pareceu, deitou-o pela porta fóra como um vendaval, em quanto o companheiro tomava o mesmo caminho, mas de rastos e gemendo.D. Pedro, decorridos instantes, feriu lume, accendeu a vela do castiçal e a candeia, e examinou attentamente o campo de batalha. Jaziam no chão um buzio dos usados pelos ranchos da apanha da azeitona, um lençol com lagrimas de tinta encarnada, e uma caveira de papelão pintada de amarello.O mancebo sorriu-se. Aquelles despojos eram o corpo de delicto e ao mesmo tempo documento vivo da conspiração tramada. Algumas gôtas de sangue, caidas no pavimento desde metade da casa até á porta, provaram-lhe que um dos actores do drama nocturno retirara ferido e assignalado. D. Pedro pegou{108}no castiçal, e seguindo o rasto de sangue pelo corredor, notou que parava no topo, aonde só existia uma parede grossa, sem nenhuma saida apparente. Informado do que desejava verificar, voltou atraz, e encaminhou-se ao camarim de Romão Pires. Á porta viu duas figuras brancas ajoelhadas. Deteve-se um pouco até se affirmar. A velha aia e o dorido escudeiro, ambos de joelhos, e ambos transidos de medo e de frio, esgotavam um defronte do outro todo o vocabulario de rezas e de interjeições atribuladas, sem se atreverem a volver aos aposentos. D. Pedro, não podendo suster o riso, fallou-lhes, animou-os, e, mandando-os acabar de vestir, passou a visitar a camara de Fr. João.O frade ainda jazia na mesma posição. Conservava-se quasi exanime na ampla cadeira. Vendo entrar o sobrinho com o castiçal em uma das mãos e a espada nua debaixo do braço, estremeceu, e esbugalhou os olhos, mas não se moveu.D. Pedro aproximou-se da mesa, accendeu a outra vela, e sem proferir palavra examinou cuidadosamente o aposento. Nenhum indicio! O inimigo triumphante não deixára despojos. Terminado o exame, poz o castiçal em cima do velador, collocou a espada ao pé do castiçal, e, volvendo para junto da cadeira, d'onde o tio, como paralysado, observava tudo silencioso, disse-lhe:—Mas o que foi isto?!..{109}Fr. João respondeu com um suspiro, e, correu a mão pela testa ainda inundada de suor.—Estas pistolas disparadas, estas balas no chão!.. Não me dirá o que succedeu?!...»Outro suspiro mais alto.—Por onde entraram elles?...O dominicano, que a vista do sobrinho ia reanimando a pouco e pouco, meneou a cabeça com tristeza, fez um esforço para levantar meio corpo da cadeira, e apontou com o dedo para o quadro, cuja figura vira minutos antes soltar-se da moldura, e encaminhar-se para elle.—Ah!... Foi por esta porta?... observou o sobrinho, pegando no castiçal e correndo a luz por todo o quadro de cima abaixo. De repente exclamou: Olhe?!—O que? disse o frade, pondo-se de pé, mas tão abatido e tremulo, como se acaso se levantasse convalescente de longa enfermidade.—Venha meu tio, e veja!De feito um dos enfeites de talha mais elevado movia-se como um botão debaixo dos dedos do mancebo, e a pesada moldura, cedendo á pressão, abriu-se lentamente.—Ah!.. exclamou fr. João.—Aqui tem a porta!... e o segredo de tudo.—Velhacos! bramia o dominicano irritavel, recuperando repentinamente as côres, a elasticidade dos{110}membros, e a viveza dos olhos. Mas abaixando a vista, deu com as duas balas das pistolas ainda no chão, e uma nuvem torrou-lhe outra vez o rosto. Mostrando-as ao sobrinho narrou-lhe o que succedera e ouviu da boca do mancebo a historia da sua lucta com os duendes. Fr. João ficou mudo e suspenso por momentos, semelhante a um immenso ponto de interrogação.—Saiu d'aqui depois de carregar as armas?... perguntou D. Pedro.—Cinco minutos quando muito. Cheguei ao camarim de Romão Pires.—Foi o que bastou. Não mexeu na espingarda? Está certo?—Como de te estar vendo.—E metteu-lhe uma bala de calibre?—Seguramente.—Muito bem, quer vêr?E D. Pedro, pegando na vareta, descarregou a arma, tirando as buxas e a polvora. Da bala não achou noticia.—Ah! tratantes!.. rugiu o frade, fechando os punhos, e rangendo os dentes, plectorico de colera.—Podiam atirar-lhe com tres balas aos pés em vez de duas! Tinham tido o cuidado...—De mas empalmar?! Sobrinho! Juro que hão de pagar-m'o caro!... Só atazanados!{111}—Dá licença que lhe dê um conselho?...—Dize, rapaz. Estás um homem, e tens mostrado valer mais, do que nós todos.—Se quer apanhar o rato na ratoeira, não faça bulha.—Bem! Bem!Do manus!Qui nescit dissimulare nescit regnare, acudiu fr. João, esfregando as mãos. Ah! patifes! O que elles se terão rido á minha custa!...—Deixe! Riram-se hoje? Amanhã chorarão! Bôas noites meu tio. Socegue, que bem o precisa.{112}{113}A CAMISA DO NOIVADOIAssi que bem podem dizer deste rei D. Pedro, que nom sairom em seu tempo certos os ditoos de Solon, filosopho, e d'outros, alguns dos quaes disserom, que as Leis e justiça erom como teias de aranha nas quaes os mosquitos pequenos, caindo, são reteudos e morrem em ella, e as moscas grandes e que som mais rijas, jazendo em ellas rompem-as e vão-se.Fernão Lopes. Chron. de El-rey D. Pedro. Cap. IX.Houve tempo em que o monte hoje esquecido de Algoço, na provincia de Traz-os-Montes, erguia a cabeça soberba acima dos outros logares. As muralhas de cantaria grossa e as torres quadrangulares do antigo castello, debruçadas sobre um precipicio despenhado, concordavam com a melancolia{114}do sitio e com as sombrias tradições, de que as memorias do povo o entristeciam. Dos altos eirados, como do cimo de um ninho de aguias, a vista, relanceando, abraçava toda a campina, mosqueada aqui de arvoredos e soutos, rasa de urzes e charnecas além, e empolada mais adiante em collinas, que ligadas, e mais ou menos suaves, se seguiam até beijarem o cinto de cabeços alpestres, ultima barreira dos horisontes. Ao sopé da montanha, aonde se abria o valle mais fundo, estrepitava uma torrente. Era o Angueira bramindo entalado na bronca penedia do leito. Mais ao longe, na coroa dos cerros, os pinheiros meneavam as copas verde-tristes, e os ciprestes solitarios balouçavam ao vento as pontas esguias. Por ultimo, ao largo, já quasi aonde não enxergavam os olhos, recortavam-se de um lado os topes cinzentos da serra de Seabra na fronteira castelhana, e do outro as cristas dentadas das alturas de Nogueira, toucadas de gelos eternos.De tarde, quando começava a escurecer, o nevoeiro, trepando das margens do rio em cóllos deseguaes, enroscava-se como fumo nas quebradas, e envolvia n'uma cortina de vapores os mais elevados cumes. Este veu caprichoso, cujas dobras sacudia a briza, ora se despregava, deixando entrever confusamente os vultos, ora condensado cerrava tudo em volta do solar.Affirmavam os velhos, que as horas de crepusculo{115}e de nebrina eram tambem as horas dos feitiços. Uma princeza encantada junto da fonte de S. João guardava os thesouros enterrados de certo magico. Linda como as estrellas, a maldade do encantador condemnara-a a arrastar-se todo o anno em figura de serpente. Só na vespera do festejado santo, á meia noite, quando as follias riam mais alegres na aldeia, é que o fado mau se quebrava até ao alvorecer. Mal repicava a sineta do campanario, a moura, banhando-se tres vezes na ribeira, e depondo sobre uma penha as escamas luzentes, volvia ao antigo ser, resplandecendo n'ella a formosura rara de uma belleza admiravel.Assim a tinham visto alguns mais felizes assentada debaixo dos velhos e copados ulmeiros á beira do tanque, meiga, contemplativa, e vestida de branco, desnastrando as tranças com um pente de ouro, e cantando aos espiritos do ar com tão maviosa voz, que se cortava o coração de a ouvir.Accrescentavam ainda, que da aldeia alguem a vira já inclinada sobre o espelho da fonte, caindo-lhe as lagrimas em fio na agua. Uma corsa da côr da açucena, esbelta, e veloz como a seta, acompanhava-a. Se áquella hora qualquer lograsse fallar á moura antes de tornar á fórma de serpente, alcançaria da bella captiva, que era fada, as primeiras tres cousas que lhe pedisse; mas os acasos ditosos são raros, e em cem annos pelo menos não havia{116}lembrança de nenhum. A corsa velava, ao menor ruido batia os pés, e desatava a carreira, e n'um instante desapparecia tudo, como sonho, sem outro signal mais, do que certo fervor ligeiro nas aguas, e uma leve nebrina por entre as arvores.{117}IINos dias d'esta veridica historia governava el-rei D. Pedro, chamado oJusticeiro, e tres annos depois o reino parecia outro. Poderosos e humildes, ricos e pobres, todos eram tratados do mesmo modo, quer punisse, quer premiasse. Os bons sabiam que o rei os amava como filhos, os maus tremiam diante da sua face, porque o castigo de suas mãos seria vingador como a ira de Deus, e rapido como a impaciencia dos opprimidos. No seu tempo a lei era de um só rosto e a pena não coxeava atraz da culpa. Entre o crime e a expiação não se interpunham annos, promessas, ou favores. Devedor honrado,{118}o principe ajustava logo a sua conta a cada um, e pagava-a immediatamente. Só aos moradores de Algouço, coitados! é que ainda não chegára a boa sombra do justiceiro, mas assim mesmo sentiam sua fé tão viva n'elle, que nas maiores afflicções a voz de todos era sempre: «Valha-nos aqui el-rei D. Pedro!» Por fim valeu, e o caso devia ser escripto com lettras de ouro pela penna d'aquelle honrado e singelo chronista Fernão Lopes, mais poeta do que toda uma arcadia, e grande pintor de vultos e de cousas.Ainda então se aninhava a povoação de Algouço em volta do castello, construido para a defender, e da egreja, que estendia sobre as campas a sombra misericordiosa dos braços da sua cruz. Por ambas as encostas até á corôa da montanha, aonde se erguiam as torres do solar com os engenhos armados nos eirados, e as ameias sempre vigiadas, subiam as casinhas da aldeia, pendurando-se, umas cingidas de verdura, outras negras e arruinadas de velhice, estas mudas e desertas a desabar, aquellas alvas e remoçadas dissimulando a pobreza com os ares quasi festivos!! «Deus nos livre de tão mau senhor!» era o voto dos burguezes de Miranda, compadecidos da escravidão dos moradores de Algouço, e ainda não diziam desgraçadamente toda a verdade. Ali o suor de sangue regava os banquetes da sala de armas e as pompas quasi regias do rico-homem.{119}O pranto da viuva e as lagrimas dos orphãos molhavam suas mãos, sempre alçadas contra a miseria dos desditosos para destruir o tecto, que lhes abrigava o berço, e revolver ás vezes até o chão sagrado do cemiterio aonde repousavam seus paes, avós, e irmãos.O mordomo trazia de cór os sulcos de cada arado, e o pezo de cada rez. A vontade do amo e a cubiça dos servos deixavam mendigos á noite os que tinham amanhecido remediados!D. Sueiro descendia dos senhores de Biscaya. N'aquella raça o sangue nobre confundia-se com a chamma infernal do espirito das trevas desde o casamento de Diogo Lopes com a Dama-pé-de-Cabra. Verdadeira, ou fabulosa, a alliança dos altivos barões com os demonios tinha sido fertil em crimes. N'uma epocha, em que a lança e a espada cortavam as contendas, calando as leis, e calcando os direitos, os cavalleiros de Algoço excediam os mais ferozes na braveza, e na crueldade ferina. Vêr correr prantos, e derramar sangue, para elles era um deleite. Pizar aos pés dos cavallos as searas maduras, ou atassalhar nos dentes das matilhas o rebanho, unica riqueza do lavrador, parecia o verdadeiro objecto das estrondosas caçadas, em que talavam campos e vinhas a pretexto de montear lobos e javardos. D. Sueiro foi o ultimo d'esta familia impia. Tres esposas, em seis annos, haviam passado do leito{120}nupcial para o tumulo, sem nenhuma lhe deixar penhor de tão mal agourada união. Rosas pallidas, a melancolia d'aquelles muros, desbotando-as em flor, fanava-as logo? O segredo não transpirou dos labios gelados das victimas; mas sabia-se que os sorrisos do amor nunca lhes tinham alegrado a vida. Desceram ao sepulcro, tristes e silenciosas como existiam d'esde o dia em que haviam entrado aquellas sombrias portas. D. Sueiro não soltára um suspiro! Se uma lagrima congelada n'aquelle coração de marmore veio tremer na palpebra, essa lagrima fundia-se queimada pelo orgulho. O povo accusava-o. A nodoa do homicida estampava-se na fronte maldicta. O crime das tres esposas fôra a esterilidade. O ferro, ou o veneno, rompera o laço conjugal. A sepultura quebrára o vinculo apertado no altar! Era calumnia? Era verdade? Quem sabe! Mas as noites de Sueiro Lopes podiam espantar os mais ousados.{121}IIITinha fama de grande monteiro o castellão. Mál o dia despontava, saltava logo no cavallo, e a galope, por sarças e estevaes, por montes e campinas, no meio dos caçadores, entre risos, juras e brados, corria até á noite. Uma tarde, na primavera, levantou-se-lhe um veado quasi nas terras de um colono, e a despeito das supplicas do velho, cães e corseis, salvando valados, e calcando pavêas, arrazaram em minutos o trabalho de mezes. Sobre as vozerias, latidos, e relinchos soavam, sem cessar, os gritos de cavalleiro: Avante! Sus! Aboca! Tocavam buzinas, estalavam lategos, o tropel, ennovelado desappareceu{122}atraz da pista. Garcia de Marnel, o dono do campo, fôra o melhor besteiro dos sitios. O mais rijo arco dobrava-se, como vime, em suas mãos, e a seta da sua aljava atravessara sempre o alvo. De avôs a netos esta robusta e laboriosa raça lançára raizes profundas no solo, remido pelo seu braço. Os mais fundos affectos prendiam-a á terra rôta e lavrada com o suor do trabalho. Na choupana do pequeno casal tinham-lhe nascido viçosas as primeiras esperanças, tinham-lhe alvorecido os castos amores da esposa e dos filhos. No altar da egreja haviam sido abençoadas as promessas de mutua ternura; e agora debaixo da cupula frondosa dos álamos, á sua porta, o avô, no inverno dos annos, sentia-se renascer nas graças infantis da neta, mimosa e unica vergontea, que sobrevivia dos ramos decepados pela morte no velho tronco da familia. Garcia amava tudo isto com o ardor calado, mas intenso das almas viris, retemperadas pelo infortunio.A pobreza honrada nunca lhe curvara a cabeça, nem o peso da enxada lhe desfallecera o braço. A dor, ferindo-o tres vezes no mais vivo do coração, a dor mesmo não lhe prostrára o animo. A esposa, por tantos annos alegria e conforto de suas fadigas, tinha-o deixado a meio caminho da vida para ir esperal-o na mansão de paz. Dois filhos, amparo da sua velhice, orgulho da sua alma, ceifados em flôr seguiram a mãe, em quanto o ancião desgraçado,{123}só e de joelhos não via a seu lado no desterro da vida, êrmo de consolações, senão a infancia fragil e graciosa de Silvaninha, duas vezes filha, por que duas vezes era o sangue do seu sangue. Inclinado sobre tres tumulos, e trazendo sempre diante de si as sombras da morte, converteu-se-lhe a ternura, com que amava a neta, em um extremo louco e quasi delirante. Só esta saudade, só este amor o prendia ainda ao mundo, mas com tal encanto, que muitas vezes pedira a Deus que lhe dilatasse os dias para não se unir aos que o chamavam do ceu, senão depois de a ver mulher e feliz.Quando Sueiro Lopes lhe pisou aos pés dos cavallos os fructos de um anno, o sangue do velho, remoçado pela ira, pulou nas veias; as faces cavadas coráram de subito, e os olhos despediram dois relampagos. Saindo ao encontro do cavalleiro, a voz e o corpo tremiam, mas não de mêdo.Aquelle campo era o dote da neta, e só por causa d'ella é que supportava o peso aborrecido de setenta annos de fadigas. «Senhor! Senhor! dizia elle correndo e clamando, tendes o atalho da esquerda! Ruim caçada contra um velho e uma donzella!» O rico homem não respondeu. As matilhas e os cavallos, precipitando-se, partiam á róda d'elle, envoltos em nuvens de pó, e o afflicto lavrador, de pé e coberto, tinha lançado mão das redeas do corsel.{124}Um brado rouco denunciou a raiva do senhor. Depois o látego, silvando, cingiu o corpo do velho, em quanto o ginete fogoso empinando-se-lhe ameaçou o peito com ás patas «Fóra! rugiu o cavalleiro. Eis a paga do conselho!» Garcia desviou-se quasi cego de dôr, e Sueiro, cravando as esporas nos ilhaes, voou á redea larga por cima das hortas e ceáras, bradando: «Sus! Abóca!»O açoute infamante não cortou o corpo, cortou a alma ao desgraçado. Recuando para a porta, como o tigre, e medindo a distancia com as pupilas inflammadas, poz os olhos com ancia no arco e na aljava. Um rujido surdo expirava ao mesmo tempo á flôr dos labios. A vida do homem orgulhoso e máu estava á mercê d'aquelle arco. Tomou-o e encurvando-o ajustou a seta. O que no intimo peito diziam o desespero e a colera era medonho. O rosto não o encobria. Ao apontar o tiro a vista ardente elevou-se ao ceu. Pedia perdão, ou auxilio?De repente baixou-a magoada sobre a casinha humilde. Uma voz fresca e melodiosa cantava dentro. Duas lagrimas rebentaram então dos olhos seccos do velho; os braços descairam. Quiz vencer-se e resistir, não pôde. O arco fugiu-lhe das mãos, e a bocca murmurou:«Fôra matal-a tambem a ella!» Enxugando depois as palpebras entregou a Deus o castigo do oppressor.{125}Mas a desgraça entrára no seu campo com Sueiro Lopes.O mordomo do castello veiu depois, e consumou a ruina. Desde que fôra aviltado, Garcia não parecia o mesmo homem. A ferida occulta minava-o. Falecia-lhe a alma e com ella os brios para o trabalho. Os visinhos, acudindo ao choro da neta, vieram encontral-o morto debaixo de uma oliveira plantada pelo mais novo dos filhos. A terra, dote da pobre orphã, confiscada caiu nas mãos de um sobrinho do mordomo, e Silvaninha, sem parentes, e protectores, teria morrido de frio e de fome se lhe não valesse a caridade dos amigos do besteiro. Um deu-lhe a casa e o sustento; outro vestiu-a; e muitos, captivos de sua gentilesa, soccorreram-a, cada qual com o que podia. No entanto crescia a donzella em edade e formosura; mas á medida que os annos corriam, o rosto pallido e os olhos verdes entristeciam-se. Muitas vezes deslisavam-se-lhe pelas faces as lagrimas e não as entendia. É que o pão da esmola, mesmo dado com amor, sempre tráva na bocca do infeliz! Ao declinar do dia, olhando para o tecto da casinha, de que fôra desherdada, apertava-se-lhe o coração por medo tal, que tinha pena de viver, e que sentia saudades da sepultura, aonde seu avô descansava, aonde todos os seus dormiam!{126}{127}IVSete annos eram passados desde a tarde em que os moradores de Algoço tinham lançado sobre o corpo de Garcia do Marnel os ultimos punhados de terra. Sueiro Lopes, n'esse intervallo, tres vezes casado, e outras tantas viuvo, cada vez se havia feito mais aspero e cruel.Mal raiava a manhã as buzinas acordavam logo as solidões. Assim que a noite se fechava, as frestas ponteagudas da torre de menagem, illumminando-se, reverberavam o clarão das tochas do festim. Os gritos, as risadas, as blasphemias da alegria ebria espantavam os que vinham perto do castello. Os{128}vicios do senhor avivaram-se com os annos. Os deleites pareciam-lhe mais doces regados de lagrimas e de sangue. O abutre já não empolgava só a vida e os bens dos villãos; abrazado em ardor impuro cevava a sensualidade na honra das filhas da aldeia. Rindo-se do temor de Deus, arrastava sem piedade pelo lodo de amores infames a innocencia das mais formosas e a virtude das mais honestas. Um sorriso, um olhar d'elle era como a fascinação do reptil. Por onde passava, as flores mais frescas, e mais puras caiam desmaiadas.Silvana contava deseseis annos. Mimosa e esbelta, o setim das faces realçava a terna pallidez, que revestia de tanto enlevo a brandura contemplativa dos olhos verdes e transparentes, aonde a alma retratava os mais suaves affectos. O vivo carmim dos labios abotoando as rosas da bocca, redobrava os encantos ao sorriso meigo, tornando irresistivel o requebro e a graça virginal da phisionomia namorada. A voz, fresca e melodiosa, insinuando-se no coração, era o seu maior attrativo. Recolhida pela caridade da aldeia, e desvalida, para quem havia de levantar a vista ou a quem podia confiar o segredo, que a fazia palpitar de esperança, quando se mirava no cristal da fonte? Vel-a e cubiçal-a foi tudo a mesma cousa para o rico-homem. Elle, que a um aceno imperioso sujeitava as mais isentas, podia suppor acaso que Silvaninha lhe desse o não fugindo{129}a suas caricias? Mas ás primeiras palavras o rubor do pejo incendiou em chammas o rosto da donzella e nas pupillas de esmeralda fuzilou a ira. Soltando as mãos envergonhada e offendida, furtou-se ás garras do açor. A raiva enlouqueceu o cavalleiro. Um juramento saltou-lhe da bocca por entre sorrisos lividos.—Não serás esposa sem primeiro seres amante! Pedirás de joelhos o que hoje engeitas! Sei atalhar os rodeios á corsa. Sei aonde o golpe fere seguro!Deus do ceu compadecei-vos de Silvana! Ella mal o escutou. Tremula e soffocada não suspendeu a carreira senão á porta da cabana aonde morava a velha Aldonça, conselho e consolação de toda a aldeia. As linguas maldizentes affirmavam, que a velha não era decrepita, nem mendiga, mas fada, e que sabia ler nos astros e adivinhar nas aguas. Contavam prodigios do seu poder! Alguns chegaram a asseverar até, que ella e a serpente encantada tinham nascido irmans, e se juntavam em colloquio á meia noute. Quando a donzella appareceu, Aldonça, sentada em um penedo diante da porta, acabava de espiar a roca; viu-a e sorriu-se. Enrolou depois a estriga, puxou o fio, e á medida que o fuso girava, e que a linha se enrolava, meneava a cabeça, como se estivesse vendo, ou ouvindo, a muito longe dos sentidos cousa de seu gosto.—Deus vos salve, filha! exclamou por fim. Sei o que vos traz assim assustada. O açor cubiçou a rolinha?{130}Havia de ser! Estava escripto lá em cima, e o que ha de acontecer muita força tem. Conta-me tudo. O que te disse? O que lhe respondeste?Quando Silvana terminou, redarguiu a velha:—Louvado Deus! Vem perto a hora e o dia. O destino pode mais que o homem. A aguia real já a estou vendo voar. Dentro em pouco temos grandes novidades, filha! Apesar de agudas, as garras do açor não hão de ferir-te. Vai d'aqui á fonte da moura e dize que sim a quem lá encontráres. Não te demores. D'onde se não espera vem o remedio. Has de ser feliz!Ditas estas palavras, abysmou-se em tão profundo scismar, que parecia morta. Não quiz saber mais a donzella. Voou á fonte com a fé viva dos quinze annos e da esperança. Ao pé do primeiro álamo parou e tremeu. Não vira a serpente, nem a corsa encantada, mas vira um mancebo robusto e gentil, filho do mais abastado cavalleiro villão das cercanias. Porque lhe esmorece a ella de subito a vermelhidão das faces affrontadas da corrida? porque lhe bateu o coração no peito tão atropellado? Tello Vasques, o melhor besteiro depois da morte de Garcia do Marnel, era o noivo que as raparigas das cinco aldeias visinhas disputavam com mais inveja. Debalde! A vista d'elle não se baixára para nenhuma, nem a sua bocca se abrira para dizer uma palavra terna á mais galante. Silvaninha fôra a sua{131}primeira e unica paixão. Combateu-a e calou-a por muito tempo, com receio dos pais, mas por fim, não se podendo conter, decidiu-se, e veiu ao logar pedir-lhe a mão. Ninguem sabia o segredo do mancebo senão Aldonça, porque d'essa nada se escondia. E a donzella?... Tinha-o adivinhado nos olhos, que buscavam os seus, e no proprio coração, que, alvoroçado, lhe dissera pela primeira vez o que era amor. Quando parou, Silvana sentira mais, do que vira, que Tello estava alli. Sem forças para se adiantar ou para retroceder, subiu-lhe ás faces o rubor em ondas, e a vista não ousou despregar-se do chão. O tremor convulso que a agitava fazia-lhe arfar o seio.{132}{133}VTello Vasques não estava menos enleado. Corou tambem, e a vivesa natural dos olhos pretos esmoreceu meio offuscada pela sombra das pestanas. Encobrindo que a esperava, quiz saudar Silvana; mas a voz negou-se-lhe, e uma especie de deslumbramento turvou-lhe a vista. A mão suspensa, a cabeça inclinada, o gesto cheio de timidez retratavam a vontade presa do enlevo sem força para dissimular, e ainda menos para combater. Assim ficaram por minutos. Immoveis, calados, contemplando-se, e fallando só com o coração. A felicidade era tão grande, que não achavam termos que a pintassem. Quem encostasse{134}a mão ao peito do robusto besteiro, sentindo-o pulsar agitado, logo conhecia que o amor o fizera seu. Quem escutasse o palpitar ancioso do seio de Silvaninha não precisava perguntar-lhe se tambem amava!Em redor d'elles tudo era paz e serenidade. Por cima o ceu puro recortando-se por entre a cupula frondosa das arvores. Ao lado a agua, sussurrando preguiçosa, saltava em arroios mansos, ou sumia-se nas relvas que aveludavam o chão. Mais longe, a pequena levada afundava-se com estrepito pelas fendas musgosas dos penhascos debruçados sobre o valle. Em baixo, no fim da encosta, uma verdadeira alcatifa de hortos, de pomares, e de campos viçosos, contrastando com o arvoredo sombrio, que entristecia ao largo a paisagem. Depois, a perder de vista, a côr arida e melancolica das charnecas desatando-se até aos cabeços da serra, cujos cimos o sol dourava despedindo-se entre nuvens. Uma brisa louca, mas amena, doudejáva na campina, ramalhando as folhas, brincando com os arbustos, empolando e acamando as ervas dos prados. Os rouxinóes nas moutas rompiam em trinados os deliciosos gorgeios. A cigarra casava a voz estridula com o coaxar das rãs. As sombras, delgadas ainda, começavam a fechar-se sobre o valle, emquanto os raios do dia amorteciam a pouco e pouco no viso dos outeiros, escurecendo o fino{135}azul do firmamento e o verde fresco das arvores e plantas.Quando a ternura mutua os deixou respirar, a donzella, volvendo em si primeiro, e desabotoando o meigo sorriso, ergueu o dedo em ar de travessa ameaça e disse:—Vós aqui, Tello! A esta hora, em sitio por onde poucos passam! Que quereis que digam da pobre Silvana, que não tem senão o seu nome?...A voz era queixosa, e não irada. O timbre harmonioso avivou no peito do mancebo o ardor da paixão. Depois os olhos sorriam animados de malicia tão innocente, que Tello leu n'elles mais do que esperança, leu amor. De repente ficou outro. Pegando-lhe na mão, e beijando-a, a voz soltou-se-lhe, e a vista, cobrando valor na vista d'ella, tornou-se tão eloquente, tão avida de ternura, que ella baixou outra vez as palpebras.—Silvana! exclamou arrebatado. Quiz Deus que nos amassemos, e que um não podesse viver sem o outro. Meus paes consentem. Dás-me o sim?O jubilo transformou a phisionomia da donzella. Depois o carmin das faces sumiu-se, e as lindas pupillas, um momento radiosas, molhando-se de lagrimas, lançaram sobre o rosto as sombras da mais resignada tristesa. Sem retirar, ou entregar a mão, que o mancebo prendia nas suas, a neta de Garcia{136}do Marnel, esquecido o conselho de Aldonça, respondeu singelamente:—Tello, não vos darei já o sim; não quero arrepender-me. O filho de Ayres Vasques, do mais abastado morador da terra de Miranda, não deve escolher a sua noiva entre as donzellas mais pobres e desvalidas de Algoço. Amo! Porque hei de negal-o? Mas pelo muito amor é que receio acceitar. O que ha de trazer em dote a orphã sustentada pela caridade dos visinhos senão lagrimas e saudades d'aquelle chão, aonde dorme sem vingança, porque ninguem lh'a deu, ou pode dar, o velho que duas vezes foi seu pai, e que por ella morreu de dôr? Não, Tello! Não pode ser!Fallando assim, tremula e consternada, mal reprimia o pranto. O mancebo admirava-a silencioso. As lagrimas deslisando-se, os olhos que a dôr fazia irresistiveis, e a voz procurando encobrir com dissimulada firmesa a magoa intima, por tal modo lhe realçavam a formosura, que o besteiro não sabia se era anjo, ou fada, a que estava adorando ali captivo de mil attractivos. Attraindo-a, depois, com impeto, e unindo-a ao peito, elle, o homem forte, o filho de uma raça leal e rude, como o seculo em que vivia, sentiu rebentar o pranto, e não se envergonhou de o deixar correr.—A tua vontade, Silvana, será a minha! disse por fim. Mas por amor te quero, e não é justo que{137}por amor te perca. O que vale dizer a bocca não, se os olhos, mau pesar teu, estão dizendo sim? Dizes que o dote que me trazes é de lagrimas e pobresas? Nunca fui mais rico. Estas lagrimas piedosas da filha promettem venturas ao marido. E a puresa d'esse coração é o teu maior thesouro. Hontem não podia viver sem ti, hoje morria se te perdesse. Silvana!... Não n'o escondas! O senhor tentou-te de amores, e jurou vingar-se dos despresos? Socega! Deus será comnosco. O meu arco não erra. A seta vae sempre aonde a mando!Não cedeu ainda a donzella, mas Tello não se enganára: o coração desmentia a bocca. Afinal deu o sim, cobriu o rosto, e accêsa em pejo desappareceu como se toda a aldeia a estivesse vendo. Ficou ajustado, que no seguinte dia iria Tello ao solar pedir licença a Sueiro Lopes. Os noivos sem ella não podiam receber-se na igreja de Algoço, e Silvana desejava tanto que seus amores fossem abençoados, aonde o tinham sido os de seu pai e seu avô, que o besteiro não ousou contrarial-a. Altos juizos de Deus! Mal previa o orgulhoso descendente dos senhores de Biscaia que por causa dos olhos verdes de uma donzella pagaria todas as culpas da sua geração, todos os crimes da sua vida.{138}{139}VIEra domingo. Tudo repousava na aldeia. Sobre a tarde um cavalleiro, correndo a redea larga, subia a ladeira torcida por entre os penhascos que findava á porta do castello. Atraz, mas longe, uma vistosa quadrilha de monteiros, de guarda-coz verde e cintos de couro, passou rindo e folgando, em quanto os moços de monte sustinham das tréllas as matilhas impacientes, cujos saltos e latidos formavam condigno acompanhamento aos alaridos dos caçadores. No meio do prestito jovial uma azemola conduzia atravessado em duas varas o corpo de um javardo, victima enorme e cerdosa sacrificada depois de aturada{140}fadiga e renhido combate, segundo attestavam os golpes, com que suas navalhadas presas tinham descosido os mais valentes e fugosos cães.Soavam as buzinas a brava alegria das florestas, e o tropel ruidoso, trotando, recordava as proesas dos sabujos mais atrevidos, e resava, entre chufas e galhofas, a oração funebre do pingue eremita, que todos haviam corrido sem parar desde a madrugada até ao pôr do sol.D. Sueiro, que se apartára d'elles ao pé da fonte da moura, era o unico serio e silencioso. Contra o seu costume, a trompa de prata pendia muda, e nem o ardor da carreira, nem as iras do javali, varado pelo seu venabulo, lhe arrancavam os sons festivos, que era sempre o primeiro a levantar. Que magoa, ou que remorso entristecia o senhor de Algoço? Nas trevas, nas horas atormentadas das noites sem somno, apparecera-lhe a visão terrivel, com que na raça de Biscaia a sombra de Diogo Lopes avisava a cabeça da familia de estar proximo o dia dos ultimos e tardios arrependimentos? Ao pé da fonte apeiou-se, e, com a cabeça entre as mãos, alongou a vista até aos montes fronteiros. O olhar vago e perdido dizia que o espirito não se achava ali. De repente rangeram e estalaram os ramos junto d'elle, e do meio dos loureiros saiu uma figura. Ao ruido o rico-homem levou a mão ao punho da espada, inculcando sobresalto sem receio. O mêdo{141}nunca entrára n'aquelle peito inaccessivel á piedade.—Quem és? O que buscas? bradou irado, medindo com os olhos torvos o robusto e esbelto mancebo, que de arco frouxo na mão, e frechas passadas no cinto, se lhe descobria subitamente.Este não se alterou. Vendo perto de si o homem, que tantas lagrimas accusavam, assomou-lhe ás faces morenas um leve rubor e as pupillas negras faiscaram duas chispas. Sueiro Lopes apertou com mais força os copos da espada.—Sou o filho de Ayres Vasques, o de Miranda, e a vós buscava!A firmesa do tom e a concisão da resposta desagradaram ao cavalleiro. Brilharam os olhos mais sombrios, e um sorriso mau encrespou-lhe os beiços.—O que vem pedir o filho de Ayres Vasques ao senhor de Algoço, fóra do seu castello, n'este logar deserto?A ironia salpicava de escarneo as palavras pronunciadas com desprezo.—Venho dizer-vos, redarguiu o besteiro, aspero e frio, que vive em vossas terras a donzella que ha de ser minha mulher.—Ah! Só isso?! E é bonita e moça a tua noiva? Por força a conheço então. Como se chama?Fallando assim, o tom e os modos de Sueiro estillavam tal veneno, que as furias do ciume se levantaram{142}no peito do mancebo. Conteve-se, porem, e retorquiu:—A mais formosa da aldeia. É a Silvana do Marnel.—A Silvaninha? A perola de Algoço? Dal-a a um javardo de Miranda?! Pões alto o pensamento, villão. Muito alto! Manjares de senhor não se dão a servos.Foi Deus, ou o anjo custodio, que suspendeu o braço a Tello. A mão procurou a seta mais aguda no cinto, e os olhos chammejantes apontaram no peito do rico-homem o logar do tiro. O cavalleiro percebeu, mas disfarçou. Continuando a pungir o mancebo com mofas, proseguiu:—Sabes, Tello, que pelos olhos verdes de Silvaninha dera eu o melhor cavallo e o melhor arnez, e que um beijo d'aquella bocca pagaria o resgate de um barão? Cuida o villão que eu havia de enterrar na sua posilga a roza dos nossos sitios?—Senhor! bradou o besteiro, tremulo de colera e de ciume.—Fora! exclamou Sueiro Lopes, mettendo o pé no estribo e sacudindo o látego no ar. Arreda! ajuntou vendo-o adiantar direito e pallido, com mil ameaças nos olhos e no gesto. Arreda, ou por meu bisavô te juro, que tantas noutes dormirás na cisterna do meu castello, que de lá te arranquem cego e doudo!{143}—Veremos! articulou o besteiro retesando o arco. Só Deus sabe aonde vós dormireis hoje!O cavalleiro ja tínha cravado esporas no corsel, e começára a levantar o galope, quando lhe chegaram aos ouvidos estas palavras. Escutando-as, parou o cavallo de repente, e voltando rijo sobre Tello, sem baixar a vista sobre elle, disse-lhe rindo affrontosamente:—Villão! Não has de ir queixoso, olha bem! No dia em que Silvana tecer de fios de ortigas, nascidas na sepultura do avô, duas camisas para mim, dou licença que se chame tua mulher. É uma joia por um ceitil! uma das camisas será o meu brinde de noivado, a outra desejo-a para me enterrar com ella no dia seguinte. Até lá que não vos torne a ver a ambos!A esperança acabou de fallecer no peito ao mancebo. Fez-se branco, fugiu-lhe a luz da vista, e sentiu-se tão prostrado, como se o sangue se lhe esvaisse todo. Quiz fallar e correr, mas os pés arraigavam-se ao chão. A mão inerte não se erguia. A dor immensa tinha-lhe quasi suspendido a vida. Quando volveu a si para olhar em roda, avistou ao longe na planicie o vulto do cavalleiro maldito, e pareceu-lhe ouvir estalar ainda as risadas do seu escarneo. Tello elevou então ao ceu a vista toldada de lagrimas e caiu em um scismar profundo. Desceu a noute sem elle dar por si; soprou o vento da serra nas{144}arvores sem elle o sentir; e as primeiras gotas da chuva, nuncias da tempestade, orvalharam-lhe a cabeça nua, sem o despertarem da amargura. Ao rebombo dos trovões é que acordou, e que principiou a afastar-se com passos vagarosos do sitio, aonde o amor cercado de illusões lhe sorrira alegre, e aonde deixava calcadas e desfeitas as melhores esperanças da existencia.{145}VII—O açor encontrará a aguia. Sinto-a já voar! Não chores, Silvana, serás feliz. Diz-to quem o sabe! Tello!.. A frecha do teu arco pode descansar na aljava. Esta noite, á meia noite, ide ambos ao cemiterio da igreja. Ajoelhai e rezai sobre a sepultura de Garcia. Como as ortigas crescem e estão n'ella viçosas! Quando sair o luar, Silvaninha, colhe-as a duas e duas, e traz-m'as no regaço á fonte da Moura. Vespera de S. João ha de torcer-se o fio. As duas camisas não hão de faltar. A semana que vem será a do noivado e a do enterro. Ouvis dobrar o sino? A aguia não tarda. Enxugai os olhos.{146}E a velha Aldonça, dizendo isto, ria-se com aquelle ar que fazia da feiticeira a amiga de todos os afflictos. D. Sueiro puzera por condição, que só daria o sim, se a donzella lhe fiasse e tecesse de ortigas da sepultura do avô duas camisas.—Queres acompanhar-me, Tello? atalhou a donzella suspirando.—Por que não fugimos nós? acudiu elle a meia voz.—Por que ninguem foge á sorte! tornou a velha, erguendo-se e sustendo a mão alva e breve de Silvana entre as suas. Não vos demoreis. Á meia noite, ao romper da lua, todos tres na fonte da Moura!Era já escuro, e as estrellas começavam a scintillar. Suspirava a viração por entre as folhas das arvores, que no cemiterio cobriam de sombra as sepulturas. As relvas altas ensurdeciam os passos. A roza silvestre entrelaçava-se com as verbenas e com os goivos. Ao lado da egreja, entre rosmaninhos, erguia-se uma cruz de pau; tinha entalhado um arco no topo. Ali repousava de setenta annos de edade e de fadigas o avô da donzella. Segundo afirmára Aldonça, uma seára de ortigas vestia o chão. Como o pranto se corre pelas faces de Silvana ajoelhada! Como a oração sobe pura e fervorosa de seus labios ao regaço dos anjos, que vão depor aos pés do Senhor! Mais afastado, Tello, tambem de joelhos, orava com ardor; mas aquelle peito, menos brando,{147}mistura com as preces vozes de vingança. Por fim levantou-se a donzella, e beijando a terra aonde o pó dos que amára se volvera ao pó, principiou a cumprir as ordens de Aldonça. A duas e duas foi apanhando as ortigas. Quando acabava chispou no outeiro mais proximo a labareda da primeira fogueira, e soou na voz de bronze do sino o primeiro repique. A lua rompia de traz da serra, e o seu clarão branco allumiava toda a campina. Era a hora aprazada. O mancebo deu a mão a Silvana. Tinham ambos tantas cousas dentro d'alma, que nenhum fallou em todo o caminho.Quando chegaram não viram senão uma serpente, fugindo por cima dos penhascos, e uma corsa branca pulando por entre as arvores. A velha Aldonça appareceu de repente ao pé da fonte, e acenou-lhes. Recebendo das mãos da donzella as tres regaçadas de ortigas, banhou-as outras tantas vezes na agua encantada, pronunciando algumas palavras a meia voz. Passados minutos tirou-as do tanque reduzidas a feveras finas, como o fio que tece a aranha. Tres dias decorreram. Em todos elles não cessou de girar o fuso da velha.No quarto dia dobou-se a linha; no quinto metteram-se as meadas no tear.Quando a semana pendia só de poucas horas, Sueiro Lopes passou a cavallo pela choupana, olhou, e viu Aldonça á porta, cozendo com Silvana{148}uma tela tão branca e transparente, que deslumbrava.—Guarde-vos Deus! disse detendo-se. Que estais cosendo com tanta pressa?E o cavalleiro não tirava a vista dos dedos afilados da donzella que voavam sobre a costura.—Estamos cumprindo um voto! redarguiu a velha sem levantar a cabeça. Aquella é a camisa do noivado, esta é a camisa do enterro. Ortigas do cemiterio nos deram o fio, e boas fadas nos teceram o panno. Em tres dias estarão acabadas e em tres dias veremos tambem a noiva no altar e o morto no caixão.Ouvindo-a, o rico-homem mudou de côr e largou as redeas ao cavallo. A velha, vendo-o correr, exclamou, meneando a cabeça:—Corre! Que mais corre o destino! Ao que ha de ser ninguem escapa!{149}VIIIOs sinos do presbyterio repicam depois da missa. O povo acotovela-se á saida do estreito portal, e mais de um moço airoso, de rosto bronzeado, distrahe a vista furtiva e faz corar de jubilo a donzella, cujos olhos cheios de reticencias recordam os juramentos da vespera. O ruido dos pés, o borburinho e os alaridos das creanças, saltando pelo adro, animam de ar festivo a scena popular. Em quanto o Reitor, curvo e triste, se encaminha de vagar para a sua morada, estendendo a benção pelos aldeãos,{150}Silvana, sempre pallida, ampara no braço delicado o corpo de Aldonça. Os villãos desbarretam-se diante d'ellas, como diante do pastor; as mulheres acodem a saudal-as; e os rapazes, suspendendo as travessuras, tomam-as por intercessoras de suas petições. Encostado a uma oliveira antiga, Tello, de braços crusados, e com o arco a tiracollo, não desprega a vista namorada da neta de Garcia.Mas antes das duas trilharem o sitio onde ella as está esperando, um homem de estatura elevada, semblante jovial, e gestos impetuosos, apressando o passo, adianta-se, e chega primeiro. É simples o seu trajo. Guarda-coz de ipre verde desenha o corpo robusto, e a monteira do mesmo estofo, sem plumas, assenta com desgarre fragueiro sobre os cabellos pretos, cujos anneis se debruçam sobre o cabeção da golla. Era de villão o vestido, mas o garbo e o porte inculcavam condição mais nobre. Nas pupillas inquietas, e por vezes desvairadas, retrata-se a indole ardente, prompta na ira, facil nos arrebatamentos.As sobrancelhas, densas e arqueadas, a nuvem que tolda a espaços a serenidade da phisionomia, a par da tristeza, que lhe sobe em ondas rapidas ao semblante, denunciando saudades intimas e incuraveis, avivam as feições de um caracter afeito a dominar, de um coração ferido de golpe irreparavel, de uma mão que no combate das paixões{151}nem sempre ha de conservar-se lucida, resultado de passados soffrimentos.Afagando com a mão direita as compridas barbas, e concertando com a esquerda o cinto, de que pende a adaga e uma trompa, este homem, que não póde contar ainda quarenta annos, e que entrára na egreja sem nenhum dos fieis se lembrar de o ter visto nunca, começou á saida a fallar com uns e com outros, fazendo perguntas aos mais velhos. Rompendo depois por entre o povo veiu collocar-se no sitio, aonde o descobrimos diante de Aldonça e Silvana, tão proximo de Tello que este não perdeu palavra do que disse. Sem saber porque, o besteiro, de ordinario cioso e assomado, em logar de se affrontar, estimou quasi a ousadia do monteiro. Parecia que um presentimento occulto lhe insinuava, que se decidia n'este momento a sua sorte. Era tão grande n'elle a tranquillidade de animo, como se a noiva adorada estivesse debaixo da protecção d'aquelle que duas vezes chamára pae. A velha Aldonça, apenas divisara o hospede, exclamou como rejuvenescida de repente:—Filha! Não t'o affirmei? A aguia real saiu do ninho. A hora vem perto. Ouve o que te disser, obedece ao que te mandar, succeda o que succeder. Muita fé em Deus e na justiça de Elrei D. Pedro.—Não é a fé que me falta, redarguiu melancholica{152}a donzella, é a esperança, mãe!... Elrei está longe e tão alto, que não podem vencer de certo metade do caminho as queixas da orphã.—Quem sabe, donzella? atalhou o monteiro, adiantando-se, e admirando a formosura de Silvana. Pegando-lhe na mão, ajuntou:—El-rei D. Pedro, filha, vê e ouve de longe. Conta-me tuas magoas.Fallando assim, o tom da voz era brando. Tello, que o contemplava, sentiu renascer a esperança, e insensivelmente socegou do maior cuidado. Ora pallida, ora córada, a neta de Garcia narrava no emtanto a morte dolorosa do avô, as lastimas da sua infancia, e os amores infames que a perseguiam. As palavras pintavam a sua alma. Mais compadecida, do que vingativa, procurava atenuar as crueldades do senhor. Quando terminou, o desconhecido, sorrindo-se, e soltando-lhe a mão, disse:—Descansai! Está perto El-rei D. Pedro. É como se vos ouvisse. Mandai a Sueiro Lopes a camisa da mortalha, não a pediu de balde! Se o cavalleiro fôr desleal, ou se vos quizer tirar por força, enviai-me este signal. Deus e El-rei serão comvosco!Ao mesmo tempo entregou-lhe a trompa de prata e virando-se para Tello, accrescentava:—É o vosso noivo?.. Merece-vos? Escolhestes bem?!... Não córeis, Silvana! Se o besteiro fôr o que mostra em pouco ha de fallar-se d'elle em Miranda.{153}Adeus! Não vos esqueça!... Ao primeiro perigo, um recado e o signal. O mais fica para mim.Dito isto o monteiro sumiu-se por entre as arvores, e Tello estava aos pés da noiva, que Aldonça animava, annunciando-lhe proximo o termo de seus pezares.{154}{155}IXQuando Tello, ao cair da tarde do outro dia, trepava a pé a ladeira do castello de Algoço, vinha descendo o mordomo, seguido dos homens d'armas escolhidos. O mordomo era o cego executor da vontade de Sueiro Lopes; alma negra do senhor, aonde alcançára com o braço deixára sempre vestigios dolorosos. Passando pelo besteiro de Miranda, que o aborrecia, o villico (era o seu titulo n'aquelle tempo) não pôde conter o sorriso, rosnando por entre dentes: quantos vão que não voltarão! O noivo de Silvana desprezou o riso, e continuou o caminho; mas á porta despediram-o asperamente, respondendo{156}que Sua Mercê repousava, e que ninguem o despertaria para dar audiencia a um villão. A principio Tello pôde sopear a ira, mas a pouco e pouco a altercação irritou-o, e levantou a voz. Sueiro Lopes assomou de repente á porta. Inteirado do motivo da disputa, virou-se para o besteiro, e perguntou:—A que vens aqui?—Trazer o que mandastes e pedir o cumprimento da promessa! redarguiu elle friamente.O senhor empallidiceu. Um estremecimento, que não soube vencer, sacudiu-lhe os membros. Lembrou-se da tela alvissima e transparente, que vira na choupana de Aldonça, e tremeu pela primeira vez da sua vida. Depressa se recobrou e medindo o mancebo com indizivel escarneo, replicou:—Pedi-te duas camisas fiadas e tecidas com os fios das ortigas da sepultura de Garcia, uma para o teu noivado, outra para a minha mortalha. Palavra de cavalleiro não quebra! Se cumpriste, não hei de faltar. As camisas?...—Eil-as! acudiu o besteiro. Ortigas deram o fio e fadas teceram o panno.Era o mesmo que já lhe respondera Aldonça. A maravilhosa tela, que o noivo de Silvana desdobrou diante de seus olhos, na finura admiravel bem mostrava não ser obra de mãos humanas. Pegando na mortalha D. Sueiro tremia. Sobre o peito, em lettras côr de sangue, viu as iniciaes de seu nome e pondo{157}o estofo contra a luz, retrataram-se-lhe as feições das tres esposas que tinham passado ao tumulo do seu leito.—Bem! exclamou. Silvana é tua se a achares. Quanto á mortalha.... Veremos esta noite quem a veste!Não esperou por mais o besteiro, e partiu, apressando o passo, caminho da choupana de Aldonça. Um presentimento vago advertia-o de perigo incerto. A tristeza opprimia-lhe o peito; e todavia, a bôa nova, que levava, devia alegral-o. A noite fechou-se escura. O tempo tinha mudado. Rugindo no pinhal o vento arrancava por entre as ramas das arvores gemidos lugubres. No céu apagavam-se as estrellas umas apóz outras debaixo do pesado toldo de nuvens, e a lua encobria-se de todo por cima do ultimo outeiro. Sem saber porque, sentiu-se Tello desalentado. Elle, o melhor caminheiro dos arredores, o besteiro mais destro dos contornos, deu por si mais de uma vez arrastando os passos e tremendo. Quando chegou á choupana, achou a casa êrma e a porta arrombada, e acabou de crer que os pressagios não mentem. Bastava olhar para dentro para adivinhar uma scena violenta. A lampada ardia ainda junto do lar, e luz mortiça deixava ver os escanhos partidos, os vasos de barro pisados, as arcas espedaçadas. O pobre catre de Aldonça, despido de roupas, jazia em um feixe. O mancebo parou, e de balde quiz ligar{158}as ideias. O golpe inopinado tinha-lhe quebrádo as forças. Nem o animo, nem a razão se prestavam a ajudal-o.Fôra rapto? Fôra vingança mais atroz? A mudez da cabana não respondia! Saltaram-lhe então as lagrimas, e a dôr foi tão penetrante, que a não se encostar caíra desfallecido. Occorreram-lhe as palavras de Sueiro Lopes, e percebeu-as tarde. Silvana tinha sido roubada pelos servos do Castello, e áquella hora entrava talvez as portas do Alcacer, que para ella eram as portas do sepulchro.É tua se a achares!dissera o roubador. A quem iria Tello pedir justiça? Luctando com a agonia sentiu que ia enlouquecer. Mas, louco, o que restava á donzella senão a morte depois da infamia? No auge da desesperação, erguendo as mãos, bradou atribulado: «Senhor! A vingança é mais vossa, do que minha! Não embainheis a espada da justiça!»No meio d'estas vozes pousou-lhe de leve a mão de uma mulher no hombro. Olhou. Viu Aldonça. Um signal imperioso atalhou em seus labios o grito que iam soltar. Guiando-o calada, a protectora de seus amores chegou a um logar deserto, e apontando para um cavallo ajaezado, preso ao tronco de uma arvore, disse-lhe rapidamente:—Monta!O besteiro obedeceu. Entregando-lhe então a trompa de prata, a velha ajuntou:{159}—O mordomo de Sueiro Lopes entrou aqui e leva roubada a tua noiva. Corre, que por tua felicidade corres, e não pares senão na villa de Miranda. Busca os Paços do conde e apeia-te. Se te perguntarem quem és, dize que procuras o senhor. Já o viste. É o monteiro d'esta manhã. Dá-lhe a trompa, conta-lhe o succedido, e faze o que te mandar. Antes de sol nado estaremos todos juntos outra vez. As duas camisas terão cumprido o seu fado.O mancebo, atonito, viu-a desapparecer, e largando as redeas, partiu direito á villa.{160}{161}XComo o Douro vae fundo e impetuoso! Como se arremessa irado contra os penedos do seu leito! Que trovões rebramam as aguas despenhadas em cascatas contra as penhas, que lhe opprimem a furia da corrente! Como a noute se cobre de luto quasi de repente de minuto para minuto! Aos bramidos do vento responde o estampido longinquo da tempestade. Os relampagos fuzilam sobre as eminencias.Lá em cima, nos penhascos fragosos, que villa é aquella, cujas torres negras estrellam vivas luzes pelas frestas ponteagudas? Seguindo a margem do{162}rio, Tello Vasques não sente fadiga; o brioso corsel devora a distancia. Batia a hora de se alçarem as levadiças, quando o mancebo atravessa pontes e estradas, enfia ruas e villas, e pára no terreiro, defronte dos Paços do conde e da torre de menagem. Apeia-se, e sobe os degraus a dois e dois até ao portal da primeira sala. Os guardas intentam detel-o; mas sem voltar a cabeça, e continuando, responde: busco o senhor! Ninguem o suspende. De corredor em corredor, de aposento em aposento chega á sala de armas. Entre os cavalleiros, que passeiam, divisa o monteiro desconhecido com o mesmo guarda-coz ainda.Grossas tochas em armeis de ferro illuminam a vasta quadra. Corpos de armas brunidas, achas, montantes, lanças e adagas entrelaçadas em caprichosos ornatos enfeitam as columnas, cujos capiteis lavrados sustentam os fechos da abobada. O monteiro, apercebendo Tello, encaminhou-se para elle. O mancebo vinha tão soffocado, que pôde dobrar apenas o joelho e offerecer-lhe a trompa. Foi preciso que elle sorrisse para o besteiro narrar o successo, que o trazia áquella hora. Concluindo, o moço ergueu as mãos, e com a vista inflammada bradou:—Levai-me aos pés de El-rei D. Pedro. Dizem que não conhece grandes, nem pequenos. A donzella, que roubaram, é pura e santa como a mais pura e nobre de vossas filhas. Não deixeis sem castigo{163}o rico-homem por ella ter nascido no berço de um villão!Á medida que o besteiro fallava, a phisionomia do desconhecido mudava de aspecto. Os olhos pretos dilatados chammejavam, e o semblante, rosado e jovial, empallidecia, torvo de severidade. Arquejava-lhe o peito. O gesto infundia medo até nos que se achavam distantes. Quando Tello poz termo a suas queixas, e levantou a vista, recuou assustado. A expressão dos olhos do seu protector era terrivel. Ensanguentados e delirantes mais se assimilhavam ás pupillas encandeadas do tigre, do que a olhar humano. A voz cheia, mas presa, gaguejando, fallava tão convulsa, que pouco se entendia. Adiantando-se, o desconhecido clamou em grandes brados:—Lourenço Gonsalves! Acudi! Um rico homem furtou a mais linda de minhas filhas!O brado, e a immensa colera, revelaram tudo ao mancebo. Lourenço Gonsalves era o corregedor da côrte. Ninguem ousaria chamal-o assim senão el-rei. Tello prostrou-se cheio de esperança.—Segue-me! Affonso Madeira! o meu cavallo enfreado á porta! A minha capellina de aço! Gonsalo Vasques de Goes, escrivão da Puridade! Chamae os desembargadores, relatae-lhes o feito, e lavrae a sentença. Por alma de Ignez de Castro!... Pelo seu amor! murmurou mais baixo. Antes de{164}nascer o sol haverá um criminoso de menos no meu reino, e mais uma justiça de minhas mãos no livro de suas chronicas!Fallando assim enlaçava a capellina, calçava as luvas de gamo, e com o açoute cingido, desprendia a acha de armas mais pesada.O besteiro seguiu-o sem proferir palavra. Os cavalleiros montavam, e uns apoz outros galoparam para o alcançar. El-rei ia deixando atraz do cavallo o proprio Tello Vasques, e cego de ira mettia-se pelas terras de Algoço. Por cima d'esta vertiginosa carreira a chuva cahia em torrentes. A procella abria os ceus em clarões lividos, desarraigando as arvores annosas. Quando D. Pedro assomava diante da porta do castello, um vulto surgiu, que tomou-lhe as redeas, convidando-o a apeiar-se. De um salto estava em terra e levantando a cabeça via as frestas da torre illuminadas. O vulto travou-lhe do braço, e disse:—É ali!—Vamos! redarguiu o principe, e seguiu-o sem desconfiança.Uma entrada falsa, além do fosso, cedeu á chave e ao impulso.—Ide agora e Deus seja comvosco! disse a mesma voz.Ouvindo vozes e risadas no andar superior, o amante de Ignez de Castro subiu. No topo da escada{165}de caracol, a scena que se lhe representou excitou-lhe ainda mais a colera. Perderia o terror salutar do nome Justiceiro se perdoasse aquelle crime.Era espaçoso o aposento. Um lampadario allumiava parte d'elle; o resto mergulhava-se em meia escuridão. No centro da sala, em um leito, com as mãos ligadas, jazia Silvaninha. Duas voltas de lenço sobre a bocca até os ais lhe suffocavam! Só os olhos, os lindos olhos, banhados de lagrimas pediam a Deus a morte, remedio extremo da infamia. Sueiro Lopes, defronte, sorria-se medindo com a vista a queda lenta da areia d'uma ampulheta. A seu lado o villico silencioso corria os dados sobre a mesa. A tela da mortalha, fiada e tecida com as ortigas do tumulo, estava nas mãos do cavalleiro, e suas palavras, ironicas como punhaes, atravessavam o peito da infeliz. Estranho ao remorso, o neto dos senhores de Biscaia cevava na formosura captiva o furor dos zelos.—Porque choras, Silvana? Dera hontem o melhor arnez e o melhor cavallo por um sorrir de teus olhos. Pedi-te amor e respondeste não. A tua prenda foi esta mortalha! Que te acudam agora as fadas, que a teceram, e os anjos porque chamavas! Brada pelo besteiro villão, que preferiste ao rico-homem! Grita por el-rei D. Pedro! Por forte que seja o seu braço as portas chapeadas d'este castello ainda são{166}mais fortes. Em esta areia, que está por instantes, cahindo toda...Faltou-lhe a voz. A mão erguida do villico deixou tambem rolar o ultimo dado. Ao limiar estava el-rei D. Pedro, e nos olhos d'elle brilhava um clarão terrivel. A pesada acha reluzia em suas mãos.—Traidor! bradou o principe. Mentes! O braço de D. Pedro quebra e rompe todas as portas. Vais ver!... Villão! ajuntou fallando ao villico. Solta as mãos e a boca a essa donzella. Ninguem se mova! Sueiro Lopes, conta bem os grãos de areia da tua ampulheta. É o tempo que te dou. Vais comparecer na presença de Deus!O orgulho indomito do cavalleiro não cedeu. Empunhando a adaga, e posto que pallido, sempre firme e seguro, voltou-se para D. Pedro e redarguiu:—Quem dá aqui ordens e ameaça? O verdugo de Pero Coelho e de Alvaro Gonsalves? O rei carrasco, falso á sua alma e á alma de seu pae? Imaginas que farei como os outros cavalleiros? Estou no meu solar, e a quem entra de noite e á má fé chamo-lhe inimigo! Villico! Aperta os laços da captiva. No alto e no baixo, irado e pagado, não entrego o castello senão a Deus. A mim, homens d'armas!—Deus é justo! clamou el-rei, cuja furia não conhecia limites. O matador de tres mulheres levanta-se{167}contra o seu rei. O perseguidor cruel de donzellas nega-me o preito e menagem. Bem! Morrerás como villão ás mãos dos teus villãos. Não mancho em tal sangue o ferro da minha acha. Villãos! bradou imperioso aos servos do senhor que tinham acudido. Sou D. Pedro! Sou o rei! Esse que ahi está, rebelde e traidor, prendei-m'o em quanto os meus não chegam!A presença e a voz do filho de Affonso IV infundiam terror. Os homens d'armas temiam, mas não amavam Sueiro Lopes. A ordem foi cumprida. Depois de curta e desesperada resistencia, o cavalleiro ficou á mercê de el-rei.—Passae um laço na cadeia do lampadario, ponde um escanho para elle subir, e cingi-lhe o nó na garganta! proseguiu o soberano indignado.—Sou rico-homem por foro de Hespanha. A afronta da morte vil, caírá sobre vós e sobre todos os filhos d'algo. Pedir-te-hão contas d'ella, verdugo! gritou o cavalleiro estorcendo-se.—A Deus as darei, e a mais ninguem! O desleal que violenta donzellas não é cavalleiro. Quebro-te a espada e o foro com o meu sceptro.Momentos depois, D. Sueiro estava em cima do escanho, e o villico enrolava-lhe o laço. Commovida e tremula, Silvana lançou-se supplicante aos pés do rei. Debalde! D. Pedro, desviando-se, perguntou ao paciente:{168}—Pedes perdão a Deus e ao teu rei?—Não!O pé do principe tombou o escanho e a morte cortou as ultimas palavras do cavalleiro.{169}XIA tropeada de muitos cavallos, soando a par do alarido e vozes do castello, annunciou á aldeia alvoroçada a vinda do monarcha. Tello Vasques apparecia á porta quando Sueiro Lopes expirava.—Besteiro! Por teus olhos vês que me não chamam em vão o Justiceiro. Corrias como noivo e como esposo... apesar d'isso cheguei primeiro! A justiça do rei ainda andou mais veloz do que o amor!Horas depois, a camisa do enterro servia de mortalha a Sueiro na capella, e os noivos recebiam a benção nupcial, tendo el-rei D. Pedro por seu padrinho.{170}Fallou-se muito no besteiro de Miranda, mas o que não esqueceu nunca foi a justiça que fizera em Algoço a severidade do monarcha.O castello devolveu-se á corôa, e parece que fôra doado depois ao primogenito de Tello e de Silvana. Pelo menos assim se disse, e se foi verdade ou fabula, não sei. El-rei D. Pedro era tão capaz de fazer cavalleiro um villão, como de justiçar como villão um cavalleiro.{171}
A sua porta abriu-se de feito, pouco depois, e pareceu-lhe aperceber dous vultos na escuridão. Deixou-os adiantar, seguiu-os, e quando um se debruçava sobre o leito vasio, e o outro, assoprando n'um buzio tirava d'elle sons roucos e medonhos, caiu ás pranchadas sobre o musico do Averno, ao qual o instrumento escapou dos dedos, e que, amedrontado, principiava a revolver-se pela casa, gritando como um simples mortal derreado por uma sova. O outro phantasma volveu logo em auxilio do agredido, mas uma cutilada de D. Pedro, aparada no braço ao que pareceu, deitou-o pela porta fóra como um vendaval, em quanto o companheiro tomava o mesmo caminho, mas de rastos e gemendo.
D. Pedro, decorridos instantes, feriu lume, accendeu a vela do castiçal e a candeia, e examinou attentamente o campo de batalha. Jaziam no chão um buzio dos usados pelos ranchos da apanha da azeitona, um lençol com lagrimas de tinta encarnada, e uma caveira de papelão pintada de amarello.
O mancebo sorriu-se. Aquelles despojos eram o corpo de delicto e ao mesmo tempo documento vivo da conspiração tramada. Algumas gôtas de sangue, caidas no pavimento desde metade da casa até á porta, provaram-lhe que um dos actores do drama nocturno retirara ferido e assignalado. D. Pedro pegou{108}no castiçal, e seguindo o rasto de sangue pelo corredor, notou que parava no topo, aonde só existia uma parede grossa, sem nenhuma saida apparente. Informado do que desejava verificar, voltou atraz, e encaminhou-se ao camarim de Romão Pires. Á porta viu duas figuras brancas ajoelhadas. Deteve-se um pouco até se affirmar. A velha aia e o dorido escudeiro, ambos de joelhos, e ambos transidos de medo e de frio, esgotavam um defronte do outro todo o vocabulario de rezas e de interjeições atribuladas, sem se atreverem a volver aos aposentos. D. Pedro, não podendo suster o riso, fallou-lhes, animou-os, e, mandando-os acabar de vestir, passou a visitar a camara de Fr. João.
O frade ainda jazia na mesma posição. Conservava-se quasi exanime na ampla cadeira. Vendo entrar o sobrinho com o castiçal em uma das mãos e a espada nua debaixo do braço, estremeceu, e esbugalhou os olhos, mas não se moveu.
D. Pedro aproximou-se da mesa, accendeu a outra vela, e sem proferir palavra examinou cuidadosamente o aposento. Nenhum indicio! O inimigo triumphante não deixára despojos. Terminado o exame, poz o castiçal em cima do velador, collocou a espada ao pé do castiçal, e, volvendo para junto da cadeira, d'onde o tio, como paralysado, observava tudo silencioso, disse-lhe:
—Mas o que foi isto?!..{109}
Fr. João respondeu com um suspiro, e, correu a mão pela testa ainda inundada de suor.
—Estas pistolas disparadas, estas balas no chão!.. Não me dirá o que succedeu?!...»
Outro suspiro mais alto.
—Por onde entraram elles?...
O dominicano, que a vista do sobrinho ia reanimando a pouco e pouco, meneou a cabeça com tristeza, fez um esforço para levantar meio corpo da cadeira, e apontou com o dedo para o quadro, cuja figura vira minutos antes soltar-se da moldura, e encaminhar-se para elle.
—Ah!... Foi por esta porta?... observou o sobrinho, pegando no castiçal e correndo a luz por todo o quadro de cima abaixo. De repente exclamou: Olhe?!
—O que? disse o frade, pondo-se de pé, mas tão abatido e tremulo, como se acaso se levantasse convalescente de longa enfermidade.
—Venha meu tio, e veja!
De feito um dos enfeites de talha mais elevado movia-se como um botão debaixo dos dedos do mancebo, e a pesada moldura, cedendo á pressão, abriu-se lentamente.
—Ah!.. exclamou fr. João.
—Aqui tem a porta!... e o segredo de tudo.
—Velhacos! bramia o dominicano irritavel, recuperando repentinamente as côres, a elasticidade dos{110}membros, e a viveza dos olhos. Mas abaixando a vista, deu com as duas balas das pistolas ainda no chão, e uma nuvem torrou-lhe outra vez o rosto. Mostrando-as ao sobrinho narrou-lhe o que succedera e ouviu da boca do mancebo a historia da sua lucta com os duendes. Fr. João ficou mudo e suspenso por momentos, semelhante a um immenso ponto de interrogação.
—Saiu d'aqui depois de carregar as armas?... perguntou D. Pedro.
—Cinco minutos quando muito. Cheguei ao camarim de Romão Pires.
—Foi o que bastou. Não mexeu na espingarda? Está certo?
—Como de te estar vendo.
—E metteu-lhe uma bala de calibre?
—Seguramente.
—Muito bem, quer vêr?
E D. Pedro, pegando na vareta, descarregou a arma, tirando as buxas e a polvora. Da bala não achou noticia.
—Ah! tratantes!.. rugiu o frade, fechando os punhos, e rangendo os dentes, plectorico de colera.
—Podiam atirar-lhe com tres balas aos pés em vez de duas! Tinham tido o cuidado...
—De mas empalmar?! Sobrinho! Juro que hão de pagar-m'o caro!... Só atazanados!{111}
—Dá licença que lhe dê um conselho?...
—Dize, rapaz. Estás um homem, e tens mostrado valer mais, do que nós todos.
—Se quer apanhar o rato na ratoeira, não faça bulha.
—Bem! Bem!Do manus!Qui nescit dissimulare nescit regnare, acudiu fr. João, esfregando as mãos. Ah! patifes! O que elles se terão rido á minha custa!...
—Deixe! Riram-se hoje? Amanhã chorarão! Bôas noites meu tio. Socegue, que bem o precisa.{112}
{113}
Assi que bem podem dizer deste rei D. Pedro, que nom sairom em seu tempo certos os ditoos de Solon, filosopho, e d'outros, alguns dos quaes disserom, que as Leis e justiça erom como teias de aranha nas quaes os mosquitos pequenos, caindo, são reteudos e morrem em ella, e as moscas grandes e que som mais rijas, jazendo em ellas rompem-as e vão-se.Fernão Lopes. Chron. de El-rey D. Pedro. Cap. IX.
Assi que bem podem dizer deste rei D. Pedro, que nom sairom em seu tempo certos os ditoos de Solon, filosopho, e d'outros, alguns dos quaes disserom, que as Leis e justiça erom como teias de aranha nas quaes os mosquitos pequenos, caindo, são reteudos e morrem em ella, e as moscas grandes e que som mais rijas, jazendo em ellas rompem-as e vão-se.
Fernão Lopes. Chron. de El-rey D. Pedro. Cap. IX.
Houve tempo em que o monte hoje esquecido de Algoço, na provincia de Traz-os-Montes, erguia a cabeça soberba acima dos outros logares. As muralhas de cantaria grossa e as torres quadrangulares do antigo castello, debruçadas sobre um precipicio despenhado, concordavam com a melancolia{114}do sitio e com as sombrias tradições, de que as memorias do povo o entristeciam. Dos altos eirados, como do cimo de um ninho de aguias, a vista, relanceando, abraçava toda a campina, mosqueada aqui de arvoredos e soutos, rasa de urzes e charnecas além, e empolada mais adiante em collinas, que ligadas, e mais ou menos suaves, se seguiam até beijarem o cinto de cabeços alpestres, ultima barreira dos horisontes. Ao sopé da montanha, aonde se abria o valle mais fundo, estrepitava uma torrente. Era o Angueira bramindo entalado na bronca penedia do leito. Mais ao longe, na coroa dos cerros, os pinheiros meneavam as copas verde-tristes, e os ciprestes solitarios balouçavam ao vento as pontas esguias. Por ultimo, ao largo, já quasi aonde não enxergavam os olhos, recortavam-se de um lado os topes cinzentos da serra de Seabra na fronteira castelhana, e do outro as cristas dentadas das alturas de Nogueira, toucadas de gelos eternos.
De tarde, quando começava a escurecer, o nevoeiro, trepando das margens do rio em cóllos deseguaes, enroscava-se como fumo nas quebradas, e envolvia n'uma cortina de vapores os mais elevados cumes. Este veu caprichoso, cujas dobras sacudia a briza, ora se despregava, deixando entrever confusamente os vultos, ora condensado cerrava tudo em volta do solar.
Affirmavam os velhos, que as horas de crepusculo{115}e de nebrina eram tambem as horas dos feitiços. Uma princeza encantada junto da fonte de S. João guardava os thesouros enterrados de certo magico. Linda como as estrellas, a maldade do encantador condemnara-a a arrastar-se todo o anno em figura de serpente. Só na vespera do festejado santo, á meia noite, quando as follias riam mais alegres na aldeia, é que o fado mau se quebrava até ao alvorecer. Mal repicava a sineta do campanario, a moura, banhando-se tres vezes na ribeira, e depondo sobre uma penha as escamas luzentes, volvia ao antigo ser, resplandecendo n'ella a formosura rara de uma belleza admiravel.
Assim a tinham visto alguns mais felizes assentada debaixo dos velhos e copados ulmeiros á beira do tanque, meiga, contemplativa, e vestida de branco, desnastrando as tranças com um pente de ouro, e cantando aos espiritos do ar com tão maviosa voz, que se cortava o coração de a ouvir.
Accrescentavam ainda, que da aldeia alguem a vira já inclinada sobre o espelho da fonte, caindo-lhe as lagrimas em fio na agua. Uma corsa da côr da açucena, esbelta, e veloz como a seta, acompanhava-a. Se áquella hora qualquer lograsse fallar á moura antes de tornar á fórma de serpente, alcançaria da bella captiva, que era fada, as primeiras tres cousas que lhe pedisse; mas os acasos ditosos são raros, e em cem annos pelo menos não havia{116}lembrança de nenhum. A corsa velava, ao menor ruido batia os pés, e desatava a carreira, e n'um instante desapparecia tudo, como sonho, sem outro signal mais, do que certo fervor ligeiro nas aguas, e uma leve nebrina por entre as arvores.{117}
Nos dias d'esta veridica historia governava el-rei D. Pedro, chamado oJusticeiro, e tres annos depois o reino parecia outro. Poderosos e humildes, ricos e pobres, todos eram tratados do mesmo modo, quer punisse, quer premiasse. Os bons sabiam que o rei os amava como filhos, os maus tremiam diante da sua face, porque o castigo de suas mãos seria vingador como a ira de Deus, e rapido como a impaciencia dos opprimidos. No seu tempo a lei era de um só rosto e a pena não coxeava atraz da culpa. Entre o crime e a expiação não se interpunham annos, promessas, ou favores. Devedor honrado,{118}o principe ajustava logo a sua conta a cada um, e pagava-a immediatamente. Só aos moradores de Algouço, coitados! é que ainda não chegára a boa sombra do justiceiro, mas assim mesmo sentiam sua fé tão viva n'elle, que nas maiores afflicções a voz de todos era sempre: «Valha-nos aqui el-rei D. Pedro!» Por fim valeu, e o caso devia ser escripto com lettras de ouro pela penna d'aquelle honrado e singelo chronista Fernão Lopes, mais poeta do que toda uma arcadia, e grande pintor de vultos e de cousas.
Ainda então se aninhava a povoação de Algouço em volta do castello, construido para a defender, e da egreja, que estendia sobre as campas a sombra misericordiosa dos braços da sua cruz. Por ambas as encostas até á corôa da montanha, aonde se erguiam as torres do solar com os engenhos armados nos eirados, e as ameias sempre vigiadas, subiam as casinhas da aldeia, pendurando-se, umas cingidas de verdura, outras negras e arruinadas de velhice, estas mudas e desertas a desabar, aquellas alvas e remoçadas dissimulando a pobreza com os ares quasi festivos!! «Deus nos livre de tão mau senhor!» era o voto dos burguezes de Miranda, compadecidos da escravidão dos moradores de Algouço, e ainda não diziam desgraçadamente toda a verdade. Ali o suor de sangue regava os banquetes da sala de armas e as pompas quasi regias do rico-homem.{119}O pranto da viuva e as lagrimas dos orphãos molhavam suas mãos, sempre alçadas contra a miseria dos desditosos para destruir o tecto, que lhes abrigava o berço, e revolver ás vezes até o chão sagrado do cemiterio aonde repousavam seus paes, avós, e irmãos.
O mordomo trazia de cór os sulcos de cada arado, e o pezo de cada rez. A vontade do amo e a cubiça dos servos deixavam mendigos á noite os que tinham amanhecido remediados!
D. Sueiro descendia dos senhores de Biscaya. N'aquella raça o sangue nobre confundia-se com a chamma infernal do espirito das trevas desde o casamento de Diogo Lopes com a Dama-pé-de-Cabra. Verdadeira, ou fabulosa, a alliança dos altivos barões com os demonios tinha sido fertil em crimes. N'uma epocha, em que a lança e a espada cortavam as contendas, calando as leis, e calcando os direitos, os cavalleiros de Algoço excediam os mais ferozes na braveza, e na crueldade ferina. Vêr correr prantos, e derramar sangue, para elles era um deleite. Pizar aos pés dos cavallos as searas maduras, ou atassalhar nos dentes das matilhas o rebanho, unica riqueza do lavrador, parecia o verdadeiro objecto das estrondosas caçadas, em que talavam campos e vinhas a pretexto de montear lobos e javardos. D. Sueiro foi o ultimo d'esta familia impia. Tres esposas, em seis annos, haviam passado do leito{120}nupcial para o tumulo, sem nenhuma lhe deixar penhor de tão mal agourada união. Rosas pallidas, a melancolia d'aquelles muros, desbotando-as em flor, fanava-as logo? O segredo não transpirou dos labios gelados das victimas; mas sabia-se que os sorrisos do amor nunca lhes tinham alegrado a vida. Desceram ao sepulcro, tristes e silenciosas como existiam d'esde o dia em que haviam entrado aquellas sombrias portas. D. Sueiro não soltára um suspiro! Se uma lagrima congelada n'aquelle coração de marmore veio tremer na palpebra, essa lagrima fundia-se queimada pelo orgulho. O povo accusava-o. A nodoa do homicida estampava-se na fronte maldicta. O crime das tres esposas fôra a esterilidade. O ferro, ou o veneno, rompera o laço conjugal. A sepultura quebrára o vinculo apertado no altar! Era calumnia? Era verdade? Quem sabe! Mas as noites de Sueiro Lopes podiam espantar os mais ousados.{121}
Tinha fama de grande monteiro o castellão. Mál o dia despontava, saltava logo no cavallo, e a galope, por sarças e estevaes, por montes e campinas, no meio dos caçadores, entre risos, juras e brados, corria até á noite. Uma tarde, na primavera, levantou-se-lhe um veado quasi nas terras de um colono, e a despeito das supplicas do velho, cães e corseis, salvando valados, e calcando pavêas, arrazaram em minutos o trabalho de mezes. Sobre as vozerias, latidos, e relinchos soavam, sem cessar, os gritos de cavalleiro: Avante! Sus! Aboca! Tocavam buzinas, estalavam lategos, o tropel, ennovelado desappareceu{122}atraz da pista. Garcia de Marnel, o dono do campo, fôra o melhor besteiro dos sitios. O mais rijo arco dobrava-se, como vime, em suas mãos, e a seta da sua aljava atravessara sempre o alvo. De avôs a netos esta robusta e laboriosa raça lançára raizes profundas no solo, remido pelo seu braço. Os mais fundos affectos prendiam-a á terra rôta e lavrada com o suor do trabalho. Na choupana do pequeno casal tinham-lhe nascido viçosas as primeiras esperanças, tinham-lhe alvorecido os castos amores da esposa e dos filhos. No altar da egreja haviam sido abençoadas as promessas de mutua ternura; e agora debaixo da cupula frondosa dos álamos, á sua porta, o avô, no inverno dos annos, sentia-se renascer nas graças infantis da neta, mimosa e unica vergontea, que sobrevivia dos ramos decepados pela morte no velho tronco da familia. Garcia amava tudo isto com o ardor calado, mas intenso das almas viris, retemperadas pelo infortunio.
A pobreza honrada nunca lhe curvara a cabeça, nem o peso da enxada lhe desfallecera o braço. A dor, ferindo-o tres vezes no mais vivo do coração, a dor mesmo não lhe prostrára o animo. A esposa, por tantos annos alegria e conforto de suas fadigas, tinha-o deixado a meio caminho da vida para ir esperal-o na mansão de paz. Dois filhos, amparo da sua velhice, orgulho da sua alma, ceifados em flôr seguiram a mãe, em quanto o ancião desgraçado,{123}só e de joelhos não via a seu lado no desterro da vida, êrmo de consolações, senão a infancia fragil e graciosa de Silvaninha, duas vezes filha, por que duas vezes era o sangue do seu sangue. Inclinado sobre tres tumulos, e trazendo sempre diante de si as sombras da morte, converteu-se-lhe a ternura, com que amava a neta, em um extremo louco e quasi delirante. Só esta saudade, só este amor o prendia ainda ao mundo, mas com tal encanto, que muitas vezes pedira a Deus que lhe dilatasse os dias para não se unir aos que o chamavam do ceu, senão depois de a ver mulher e feliz.
Quando Sueiro Lopes lhe pisou aos pés dos cavallos os fructos de um anno, o sangue do velho, remoçado pela ira, pulou nas veias; as faces cavadas coráram de subito, e os olhos despediram dois relampagos. Saindo ao encontro do cavalleiro, a voz e o corpo tremiam, mas não de mêdo.
Aquelle campo era o dote da neta, e só por causa d'ella é que supportava o peso aborrecido de setenta annos de fadigas. «Senhor! Senhor! dizia elle correndo e clamando, tendes o atalho da esquerda! Ruim caçada contra um velho e uma donzella!» O rico homem não respondeu. As matilhas e os cavallos, precipitando-se, partiam á róda d'elle, envoltos em nuvens de pó, e o afflicto lavrador, de pé e coberto, tinha lançado mão das redeas do corsel.{124}
Um brado rouco denunciou a raiva do senhor. Depois o látego, silvando, cingiu o corpo do velho, em quanto o ginete fogoso empinando-se-lhe ameaçou o peito com ás patas «Fóra! rugiu o cavalleiro. Eis a paga do conselho!» Garcia desviou-se quasi cego de dôr, e Sueiro, cravando as esporas nos ilhaes, voou á redea larga por cima das hortas e ceáras, bradando: «Sus! Abóca!»
O açoute infamante não cortou o corpo, cortou a alma ao desgraçado. Recuando para a porta, como o tigre, e medindo a distancia com as pupilas inflammadas, poz os olhos com ancia no arco e na aljava. Um rujido surdo expirava ao mesmo tempo á flôr dos labios. A vida do homem orgulhoso e máu estava á mercê d'aquelle arco. Tomou-o e encurvando-o ajustou a seta. O que no intimo peito diziam o desespero e a colera era medonho. O rosto não o encobria. Ao apontar o tiro a vista ardente elevou-se ao ceu. Pedia perdão, ou auxilio?
De repente baixou-a magoada sobre a casinha humilde. Uma voz fresca e melodiosa cantava dentro. Duas lagrimas rebentaram então dos olhos seccos do velho; os braços descairam. Quiz vencer-se e resistir, não pôde. O arco fugiu-lhe das mãos, e a bocca murmurou:
«Fôra matal-a tambem a ella!» Enxugando depois as palpebras entregou a Deus o castigo do oppressor.{125}
Mas a desgraça entrára no seu campo com Sueiro Lopes.
O mordomo do castello veiu depois, e consumou a ruina. Desde que fôra aviltado, Garcia não parecia o mesmo homem. A ferida occulta minava-o. Falecia-lhe a alma e com ella os brios para o trabalho. Os visinhos, acudindo ao choro da neta, vieram encontral-o morto debaixo de uma oliveira plantada pelo mais novo dos filhos. A terra, dote da pobre orphã, confiscada caiu nas mãos de um sobrinho do mordomo, e Silvaninha, sem parentes, e protectores, teria morrido de frio e de fome se lhe não valesse a caridade dos amigos do besteiro. Um deu-lhe a casa e o sustento; outro vestiu-a; e muitos, captivos de sua gentilesa, soccorreram-a, cada qual com o que podia. No entanto crescia a donzella em edade e formosura; mas á medida que os annos corriam, o rosto pallido e os olhos verdes entristeciam-se. Muitas vezes deslisavam-se-lhe pelas faces as lagrimas e não as entendia. É que o pão da esmola, mesmo dado com amor, sempre tráva na bocca do infeliz! Ao declinar do dia, olhando para o tecto da casinha, de que fôra desherdada, apertava-se-lhe o coração por medo tal, que tinha pena de viver, e que sentia saudades da sepultura, aonde seu avô descansava, aonde todos os seus dormiam!{126}
{127}
Sete annos eram passados desde a tarde em que os moradores de Algoço tinham lançado sobre o corpo de Garcia do Marnel os ultimos punhados de terra. Sueiro Lopes, n'esse intervallo, tres vezes casado, e outras tantas viuvo, cada vez se havia feito mais aspero e cruel.
Mal raiava a manhã as buzinas acordavam logo as solidões. Assim que a noite se fechava, as frestas ponteagudas da torre de menagem, illumminando-se, reverberavam o clarão das tochas do festim. Os gritos, as risadas, as blasphemias da alegria ebria espantavam os que vinham perto do castello. Os{128}vicios do senhor avivaram-se com os annos. Os deleites pareciam-lhe mais doces regados de lagrimas e de sangue. O abutre já não empolgava só a vida e os bens dos villãos; abrazado em ardor impuro cevava a sensualidade na honra das filhas da aldeia. Rindo-se do temor de Deus, arrastava sem piedade pelo lodo de amores infames a innocencia das mais formosas e a virtude das mais honestas. Um sorriso, um olhar d'elle era como a fascinação do reptil. Por onde passava, as flores mais frescas, e mais puras caiam desmaiadas.
Silvana contava deseseis annos. Mimosa e esbelta, o setim das faces realçava a terna pallidez, que revestia de tanto enlevo a brandura contemplativa dos olhos verdes e transparentes, aonde a alma retratava os mais suaves affectos. O vivo carmim dos labios abotoando as rosas da bocca, redobrava os encantos ao sorriso meigo, tornando irresistivel o requebro e a graça virginal da phisionomia namorada. A voz, fresca e melodiosa, insinuando-se no coração, era o seu maior attrativo. Recolhida pela caridade da aldeia, e desvalida, para quem havia de levantar a vista ou a quem podia confiar o segredo, que a fazia palpitar de esperança, quando se mirava no cristal da fonte? Vel-a e cubiçal-a foi tudo a mesma cousa para o rico-homem. Elle, que a um aceno imperioso sujeitava as mais isentas, podia suppor acaso que Silvaninha lhe desse o não fugindo{129}a suas caricias? Mas ás primeiras palavras o rubor do pejo incendiou em chammas o rosto da donzella e nas pupillas de esmeralda fuzilou a ira. Soltando as mãos envergonhada e offendida, furtou-se ás garras do açor. A raiva enlouqueceu o cavalleiro. Um juramento saltou-lhe da bocca por entre sorrisos lividos.
—Não serás esposa sem primeiro seres amante! Pedirás de joelhos o que hoje engeitas! Sei atalhar os rodeios á corsa. Sei aonde o golpe fere seguro!
Deus do ceu compadecei-vos de Silvana! Ella mal o escutou. Tremula e soffocada não suspendeu a carreira senão á porta da cabana aonde morava a velha Aldonça, conselho e consolação de toda a aldeia. As linguas maldizentes affirmavam, que a velha não era decrepita, nem mendiga, mas fada, e que sabia ler nos astros e adivinhar nas aguas. Contavam prodigios do seu poder! Alguns chegaram a asseverar até, que ella e a serpente encantada tinham nascido irmans, e se juntavam em colloquio á meia noute. Quando a donzella appareceu, Aldonça, sentada em um penedo diante da porta, acabava de espiar a roca; viu-a e sorriu-se. Enrolou depois a estriga, puxou o fio, e á medida que o fuso girava, e que a linha se enrolava, meneava a cabeça, como se estivesse vendo, ou ouvindo, a muito longe dos sentidos cousa de seu gosto.
—Deus vos salve, filha! exclamou por fim. Sei o que vos traz assim assustada. O açor cubiçou a rolinha?{130}Havia de ser! Estava escripto lá em cima, e o que ha de acontecer muita força tem. Conta-me tudo. O que te disse? O que lhe respondeste?
Quando Silvana terminou, redarguiu a velha:
—Louvado Deus! Vem perto a hora e o dia. O destino pode mais que o homem. A aguia real já a estou vendo voar. Dentro em pouco temos grandes novidades, filha! Apesar de agudas, as garras do açor não hão de ferir-te. Vai d'aqui á fonte da moura e dize que sim a quem lá encontráres. Não te demores. D'onde se não espera vem o remedio. Has de ser feliz!
Ditas estas palavras, abysmou-se em tão profundo scismar, que parecia morta. Não quiz saber mais a donzella. Voou á fonte com a fé viva dos quinze annos e da esperança. Ao pé do primeiro álamo parou e tremeu. Não vira a serpente, nem a corsa encantada, mas vira um mancebo robusto e gentil, filho do mais abastado cavalleiro villão das cercanias. Porque lhe esmorece a ella de subito a vermelhidão das faces affrontadas da corrida? porque lhe bateu o coração no peito tão atropellado? Tello Vasques, o melhor besteiro depois da morte de Garcia do Marnel, era o noivo que as raparigas das cinco aldeias visinhas disputavam com mais inveja. Debalde! A vista d'elle não se baixára para nenhuma, nem a sua bocca se abrira para dizer uma palavra terna á mais galante. Silvaninha fôra a sua{131}primeira e unica paixão. Combateu-a e calou-a por muito tempo, com receio dos pais, mas por fim, não se podendo conter, decidiu-se, e veiu ao logar pedir-lhe a mão. Ninguem sabia o segredo do mancebo senão Aldonça, porque d'essa nada se escondia. E a donzella?... Tinha-o adivinhado nos olhos, que buscavam os seus, e no proprio coração, que, alvoroçado, lhe dissera pela primeira vez o que era amor. Quando parou, Silvana sentira mais, do que vira, que Tello estava alli. Sem forças para se adiantar ou para retroceder, subiu-lhe ás faces o rubor em ondas, e a vista não ousou despregar-se do chão. O tremor convulso que a agitava fazia-lhe arfar o seio.{132}
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Tello Vasques não estava menos enleado. Corou tambem, e a vivesa natural dos olhos pretos esmoreceu meio offuscada pela sombra das pestanas. Encobrindo que a esperava, quiz saudar Silvana; mas a voz negou-se-lhe, e uma especie de deslumbramento turvou-lhe a vista. A mão suspensa, a cabeça inclinada, o gesto cheio de timidez retratavam a vontade presa do enlevo sem força para dissimular, e ainda menos para combater. Assim ficaram por minutos. Immoveis, calados, contemplando-se, e fallando só com o coração. A felicidade era tão grande, que não achavam termos que a pintassem. Quem encostasse{134}a mão ao peito do robusto besteiro, sentindo-o pulsar agitado, logo conhecia que o amor o fizera seu. Quem escutasse o palpitar ancioso do seio de Silvaninha não precisava perguntar-lhe se tambem amava!
Em redor d'elles tudo era paz e serenidade. Por cima o ceu puro recortando-se por entre a cupula frondosa das arvores. Ao lado a agua, sussurrando preguiçosa, saltava em arroios mansos, ou sumia-se nas relvas que aveludavam o chão. Mais longe, a pequena levada afundava-se com estrepito pelas fendas musgosas dos penhascos debruçados sobre o valle. Em baixo, no fim da encosta, uma verdadeira alcatifa de hortos, de pomares, e de campos viçosos, contrastando com o arvoredo sombrio, que entristecia ao largo a paisagem. Depois, a perder de vista, a côr arida e melancolica das charnecas desatando-se até aos cabeços da serra, cujos cimos o sol dourava despedindo-se entre nuvens. Uma brisa louca, mas amena, doudejáva na campina, ramalhando as folhas, brincando com os arbustos, empolando e acamando as ervas dos prados. Os rouxinóes nas moutas rompiam em trinados os deliciosos gorgeios. A cigarra casava a voz estridula com o coaxar das rãs. As sombras, delgadas ainda, começavam a fechar-se sobre o valle, emquanto os raios do dia amorteciam a pouco e pouco no viso dos outeiros, escurecendo o fino{135}azul do firmamento e o verde fresco das arvores e plantas.
Quando a ternura mutua os deixou respirar, a donzella, volvendo em si primeiro, e desabotoando o meigo sorriso, ergueu o dedo em ar de travessa ameaça e disse:
—Vós aqui, Tello! A esta hora, em sitio por onde poucos passam! Que quereis que digam da pobre Silvana, que não tem senão o seu nome?...
A voz era queixosa, e não irada. O timbre harmonioso avivou no peito do mancebo o ardor da paixão. Depois os olhos sorriam animados de malicia tão innocente, que Tello leu n'elles mais do que esperança, leu amor. De repente ficou outro. Pegando-lhe na mão, e beijando-a, a voz soltou-se-lhe, e a vista, cobrando valor na vista d'ella, tornou-se tão eloquente, tão avida de ternura, que ella baixou outra vez as palpebras.
—Silvana! exclamou arrebatado. Quiz Deus que nos amassemos, e que um não podesse viver sem o outro. Meus paes consentem. Dás-me o sim?
O jubilo transformou a phisionomia da donzella. Depois o carmin das faces sumiu-se, e as lindas pupillas, um momento radiosas, molhando-se de lagrimas, lançaram sobre o rosto as sombras da mais resignada tristesa. Sem retirar, ou entregar a mão, que o mancebo prendia nas suas, a neta de Garcia{136}do Marnel, esquecido o conselho de Aldonça, respondeu singelamente:
—Tello, não vos darei já o sim; não quero arrepender-me. O filho de Ayres Vasques, do mais abastado morador da terra de Miranda, não deve escolher a sua noiva entre as donzellas mais pobres e desvalidas de Algoço. Amo! Porque hei de negal-o? Mas pelo muito amor é que receio acceitar. O que ha de trazer em dote a orphã sustentada pela caridade dos visinhos senão lagrimas e saudades d'aquelle chão, aonde dorme sem vingança, porque ninguem lh'a deu, ou pode dar, o velho que duas vezes foi seu pai, e que por ella morreu de dôr? Não, Tello! Não pode ser!
Fallando assim, tremula e consternada, mal reprimia o pranto. O mancebo admirava-a silencioso. As lagrimas deslisando-se, os olhos que a dôr fazia irresistiveis, e a voz procurando encobrir com dissimulada firmesa a magoa intima, por tal modo lhe realçavam a formosura, que o besteiro não sabia se era anjo, ou fada, a que estava adorando ali captivo de mil attractivos. Attraindo-a, depois, com impeto, e unindo-a ao peito, elle, o homem forte, o filho de uma raça leal e rude, como o seculo em que vivia, sentiu rebentar o pranto, e não se envergonhou de o deixar correr.
—A tua vontade, Silvana, será a minha! disse por fim. Mas por amor te quero, e não é justo que{137}por amor te perca. O que vale dizer a bocca não, se os olhos, mau pesar teu, estão dizendo sim? Dizes que o dote que me trazes é de lagrimas e pobresas? Nunca fui mais rico. Estas lagrimas piedosas da filha promettem venturas ao marido. E a puresa d'esse coração é o teu maior thesouro. Hontem não podia viver sem ti, hoje morria se te perdesse. Silvana!... Não n'o escondas! O senhor tentou-te de amores, e jurou vingar-se dos despresos? Socega! Deus será comnosco. O meu arco não erra. A seta vae sempre aonde a mando!
Não cedeu ainda a donzella, mas Tello não se enganára: o coração desmentia a bocca. Afinal deu o sim, cobriu o rosto, e accêsa em pejo desappareceu como se toda a aldeia a estivesse vendo. Ficou ajustado, que no seguinte dia iria Tello ao solar pedir licença a Sueiro Lopes. Os noivos sem ella não podiam receber-se na igreja de Algoço, e Silvana desejava tanto que seus amores fossem abençoados, aonde o tinham sido os de seu pai e seu avô, que o besteiro não ousou contrarial-a. Altos juizos de Deus! Mal previa o orgulhoso descendente dos senhores de Biscaia que por causa dos olhos verdes de uma donzella pagaria todas as culpas da sua geração, todos os crimes da sua vida.{138}
{139}
Era domingo. Tudo repousava na aldeia. Sobre a tarde um cavalleiro, correndo a redea larga, subia a ladeira torcida por entre os penhascos que findava á porta do castello. Atraz, mas longe, uma vistosa quadrilha de monteiros, de guarda-coz verde e cintos de couro, passou rindo e folgando, em quanto os moços de monte sustinham das tréllas as matilhas impacientes, cujos saltos e latidos formavam condigno acompanhamento aos alaridos dos caçadores. No meio do prestito jovial uma azemola conduzia atravessado em duas varas o corpo de um javardo, victima enorme e cerdosa sacrificada depois de aturada{140}fadiga e renhido combate, segundo attestavam os golpes, com que suas navalhadas presas tinham descosido os mais valentes e fugosos cães.
Soavam as buzinas a brava alegria das florestas, e o tropel ruidoso, trotando, recordava as proesas dos sabujos mais atrevidos, e resava, entre chufas e galhofas, a oração funebre do pingue eremita, que todos haviam corrido sem parar desde a madrugada até ao pôr do sol.
D. Sueiro, que se apartára d'elles ao pé da fonte da moura, era o unico serio e silencioso. Contra o seu costume, a trompa de prata pendia muda, e nem o ardor da carreira, nem as iras do javali, varado pelo seu venabulo, lhe arrancavam os sons festivos, que era sempre o primeiro a levantar. Que magoa, ou que remorso entristecia o senhor de Algoço? Nas trevas, nas horas atormentadas das noites sem somno, apparecera-lhe a visão terrivel, com que na raça de Biscaia a sombra de Diogo Lopes avisava a cabeça da familia de estar proximo o dia dos ultimos e tardios arrependimentos? Ao pé da fonte apeiou-se, e, com a cabeça entre as mãos, alongou a vista até aos montes fronteiros. O olhar vago e perdido dizia que o espirito não se achava ali. De repente rangeram e estalaram os ramos junto d'elle, e do meio dos loureiros saiu uma figura. Ao ruido o rico-homem levou a mão ao punho da espada, inculcando sobresalto sem receio. O mêdo{141}nunca entrára n'aquelle peito inaccessivel á piedade.
—Quem és? O que buscas? bradou irado, medindo com os olhos torvos o robusto e esbelto mancebo, que de arco frouxo na mão, e frechas passadas no cinto, se lhe descobria subitamente.
Este não se alterou. Vendo perto de si o homem, que tantas lagrimas accusavam, assomou-lhe ás faces morenas um leve rubor e as pupillas negras faiscaram duas chispas. Sueiro Lopes apertou com mais força os copos da espada.
—Sou o filho de Ayres Vasques, o de Miranda, e a vós buscava!
A firmesa do tom e a concisão da resposta desagradaram ao cavalleiro. Brilharam os olhos mais sombrios, e um sorriso mau encrespou-lhe os beiços.
—O que vem pedir o filho de Ayres Vasques ao senhor de Algoço, fóra do seu castello, n'este logar deserto?
A ironia salpicava de escarneo as palavras pronunciadas com desprezo.
—Venho dizer-vos, redarguiu o besteiro, aspero e frio, que vive em vossas terras a donzella que ha de ser minha mulher.
—Ah! Só isso?! E é bonita e moça a tua noiva? Por força a conheço então. Como se chama?
Fallando assim, o tom e os modos de Sueiro estillavam tal veneno, que as furias do ciume se levantaram{142}no peito do mancebo. Conteve-se, porem, e retorquiu:
—A mais formosa da aldeia. É a Silvana do Marnel.
—A Silvaninha? A perola de Algoço? Dal-a a um javardo de Miranda?! Pões alto o pensamento, villão. Muito alto! Manjares de senhor não se dão a servos.
Foi Deus, ou o anjo custodio, que suspendeu o braço a Tello. A mão procurou a seta mais aguda no cinto, e os olhos chammejantes apontaram no peito do rico-homem o logar do tiro. O cavalleiro percebeu, mas disfarçou. Continuando a pungir o mancebo com mofas, proseguiu:
—Sabes, Tello, que pelos olhos verdes de Silvaninha dera eu o melhor cavallo e o melhor arnez, e que um beijo d'aquella bocca pagaria o resgate de um barão? Cuida o villão que eu havia de enterrar na sua posilga a roza dos nossos sitios?
—Senhor! bradou o besteiro, tremulo de colera e de ciume.
—Fora! exclamou Sueiro Lopes, mettendo o pé no estribo e sacudindo o látego no ar. Arreda! ajuntou vendo-o adiantar direito e pallido, com mil ameaças nos olhos e no gesto. Arreda, ou por meu bisavô te juro, que tantas noutes dormirás na cisterna do meu castello, que de lá te arranquem cego e doudo!{143}
—Veremos! articulou o besteiro retesando o arco. Só Deus sabe aonde vós dormireis hoje!
O cavalleiro ja tínha cravado esporas no corsel, e começára a levantar o galope, quando lhe chegaram aos ouvidos estas palavras. Escutando-as, parou o cavallo de repente, e voltando rijo sobre Tello, sem baixar a vista sobre elle, disse-lhe rindo affrontosamente:
—Villão! Não has de ir queixoso, olha bem! No dia em que Silvana tecer de fios de ortigas, nascidas na sepultura do avô, duas camisas para mim, dou licença que se chame tua mulher. É uma joia por um ceitil! uma das camisas será o meu brinde de noivado, a outra desejo-a para me enterrar com ella no dia seguinte. Até lá que não vos torne a ver a ambos!
A esperança acabou de fallecer no peito ao mancebo. Fez-se branco, fugiu-lhe a luz da vista, e sentiu-se tão prostrado, como se o sangue se lhe esvaisse todo. Quiz fallar e correr, mas os pés arraigavam-se ao chão. A mão inerte não se erguia. A dor immensa tinha-lhe quasi suspendido a vida. Quando volveu a si para olhar em roda, avistou ao longe na planicie o vulto do cavalleiro maldito, e pareceu-lhe ouvir estalar ainda as risadas do seu escarneo. Tello elevou então ao ceu a vista toldada de lagrimas e caiu em um scismar profundo. Desceu a noute sem elle dar por si; soprou o vento da serra nas{144}arvores sem elle o sentir; e as primeiras gotas da chuva, nuncias da tempestade, orvalharam-lhe a cabeça nua, sem o despertarem da amargura. Ao rebombo dos trovões é que acordou, e que principiou a afastar-se com passos vagarosos do sitio, aonde o amor cercado de illusões lhe sorrira alegre, e aonde deixava calcadas e desfeitas as melhores esperanças da existencia.{145}
—O açor encontrará a aguia. Sinto-a já voar! Não chores, Silvana, serás feliz. Diz-to quem o sabe! Tello!.. A frecha do teu arco pode descansar na aljava. Esta noite, á meia noite, ide ambos ao cemiterio da igreja. Ajoelhai e rezai sobre a sepultura de Garcia. Como as ortigas crescem e estão n'ella viçosas! Quando sair o luar, Silvaninha, colhe-as a duas e duas, e traz-m'as no regaço á fonte da Moura. Vespera de S. João ha de torcer-se o fio. As duas camisas não hão de faltar. A semana que vem será a do noivado e a do enterro. Ouvis dobrar o sino? A aguia não tarda. Enxugai os olhos.{146}
E a velha Aldonça, dizendo isto, ria-se com aquelle ar que fazia da feiticeira a amiga de todos os afflictos. D. Sueiro puzera por condição, que só daria o sim, se a donzella lhe fiasse e tecesse de ortigas da sepultura do avô duas camisas.
—Queres acompanhar-me, Tello? atalhou a donzella suspirando.
—Por que não fugimos nós? acudiu elle a meia voz.
—Por que ninguem foge á sorte! tornou a velha, erguendo-se e sustendo a mão alva e breve de Silvana entre as suas. Não vos demoreis. Á meia noite, ao romper da lua, todos tres na fonte da Moura!
Era já escuro, e as estrellas começavam a scintillar. Suspirava a viração por entre as folhas das arvores, que no cemiterio cobriam de sombra as sepulturas. As relvas altas ensurdeciam os passos. A roza silvestre entrelaçava-se com as verbenas e com os goivos. Ao lado da egreja, entre rosmaninhos, erguia-se uma cruz de pau; tinha entalhado um arco no topo. Ali repousava de setenta annos de edade e de fadigas o avô da donzella. Segundo afirmára Aldonça, uma seára de ortigas vestia o chão. Como o pranto se corre pelas faces de Silvana ajoelhada! Como a oração sobe pura e fervorosa de seus labios ao regaço dos anjos, que vão depor aos pés do Senhor! Mais afastado, Tello, tambem de joelhos, orava com ardor; mas aquelle peito, menos brando,{147}mistura com as preces vozes de vingança. Por fim levantou-se a donzella, e beijando a terra aonde o pó dos que amára se volvera ao pó, principiou a cumprir as ordens de Aldonça. A duas e duas foi apanhando as ortigas. Quando acabava chispou no outeiro mais proximo a labareda da primeira fogueira, e soou na voz de bronze do sino o primeiro repique. A lua rompia de traz da serra, e o seu clarão branco allumiava toda a campina. Era a hora aprazada. O mancebo deu a mão a Silvana. Tinham ambos tantas cousas dentro d'alma, que nenhum fallou em todo o caminho.
Quando chegaram não viram senão uma serpente, fugindo por cima dos penhascos, e uma corsa branca pulando por entre as arvores. A velha Aldonça appareceu de repente ao pé da fonte, e acenou-lhes. Recebendo das mãos da donzella as tres regaçadas de ortigas, banhou-as outras tantas vezes na agua encantada, pronunciando algumas palavras a meia voz. Passados minutos tirou-as do tanque reduzidas a feveras finas, como o fio que tece a aranha. Tres dias decorreram. Em todos elles não cessou de girar o fuso da velha.
No quarto dia dobou-se a linha; no quinto metteram-se as meadas no tear.
Quando a semana pendia só de poucas horas, Sueiro Lopes passou a cavallo pela choupana, olhou, e viu Aldonça á porta, cozendo com Silvana{148}uma tela tão branca e transparente, que deslumbrava.
—Guarde-vos Deus! disse detendo-se. Que estais cosendo com tanta pressa?
E o cavalleiro não tirava a vista dos dedos afilados da donzella que voavam sobre a costura.
—Estamos cumprindo um voto! redarguiu a velha sem levantar a cabeça. Aquella é a camisa do noivado, esta é a camisa do enterro. Ortigas do cemiterio nos deram o fio, e boas fadas nos teceram o panno. Em tres dias estarão acabadas e em tres dias veremos tambem a noiva no altar e o morto no caixão.
Ouvindo-a, o rico-homem mudou de côr e largou as redeas ao cavallo. A velha, vendo-o correr, exclamou, meneando a cabeça:
—Corre! Que mais corre o destino! Ao que ha de ser ninguem escapa!{149}
Os sinos do presbyterio repicam depois da missa. O povo acotovela-se á saida do estreito portal, e mais de um moço airoso, de rosto bronzeado, distrahe a vista furtiva e faz corar de jubilo a donzella, cujos olhos cheios de reticencias recordam os juramentos da vespera. O ruido dos pés, o borburinho e os alaridos das creanças, saltando pelo adro, animam de ar festivo a scena popular. Em quanto o Reitor, curvo e triste, se encaminha de vagar para a sua morada, estendendo a benção pelos aldeãos,{150}Silvana, sempre pallida, ampara no braço delicado o corpo de Aldonça. Os villãos desbarretam-se diante d'ellas, como diante do pastor; as mulheres acodem a saudal-as; e os rapazes, suspendendo as travessuras, tomam-as por intercessoras de suas petições. Encostado a uma oliveira antiga, Tello, de braços crusados, e com o arco a tiracollo, não desprega a vista namorada da neta de Garcia.
Mas antes das duas trilharem o sitio onde ella as está esperando, um homem de estatura elevada, semblante jovial, e gestos impetuosos, apressando o passo, adianta-se, e chega primeiro. É simples o seu trajo. Guarda-coz de ipre verde desenha o corpo robusto, e a monteira do mesmo estofo, sem plumas, assenta com desgarre fragueiro sobre os cabellos pretos, cujos anneis se debruçam sobre o cabeção da golla. Era de villão o vestido, mas o garbo e o porte inculcavam condição mais nobre. Nas pupillas inquietas, e por vezes desvairadas, retrata-se a indole ardente, prompta na ira, facil nos arrebatamentos.
As sobrancelhas, densas e arqueadas, a nuvem que tolda a espaços a serenidade da phisionomia, a par da tristeza, que lhe sobe em ondas rapidas ao semblante, denunciando saudades intimas e incuraveis, avivam as feições de um caracter afeito a dominar, de um coração ferido de golpe irreparavel, de uma mão que no combate das paixões{151}nem sempre ha de conservar-se lucida, resultado de passados soffrimentos.
Afagando com a mão direita as compridas barbas, e concertando com a esquerda o cinto, de que pende a adaga e uma trompa, este homem, que não póde contar ainda quarenta annos, e que entrára na egreja sem nenhum dos fieis se lembrar de o ter visto nunca, começou á saida a fallar com uns e com outros, fazendo perguntas aos mais velhos. Rompendo depois por entre o povo veiu collocar-se no sitio, aonde o descobrimos diante de Aldonça e Silvana, tão proximo de Tello que este não perdeu palavra do que disse. Sem saber porque, o besteiro, de ordinario cioso e assomado, em logar de se affrontar, estimou quasi a ousadia do monteiro. Parecia que um presentimento occulto lhe insinuava, que se decidia n'este momento a sua sorte. Era tão grande n'elle a tranquillidade de animo, como se a noiva adorada estivesse debaixo da protecção d'aquelle que duas vezes chamára pae. A velha Aldonça, apenas divisara o hospede, exclamou como rejuvenescida de repente:
—Filha! Não t'o affirmei? A aguia real saiu do ninho. A hora vem perto. Ouve o que te disser, obedece ao que te mandar, succeda o que succeder. Muita fé em Deus e na justiça de Elrei D. Pedro.
—Não é a fé que me falta, redarguiu melancholica{152}a donzella, é a esperança, mãe!... Elrei está longe e tão alto, que não podem vencer de certo metade do caminho as queixas da orphã.
—Quem sabe, donzella? atalhou o monteiro, adiantando-se, e admirando a formosura de Silvana. Pegando-lhe na mão, ajuntou:
—El-rei D. Pedro, filha, vê e ouve de longe. Conta-me tuas magoas.
Fallando assim, o tom da voz era brando. Tello, que o contemplava, sentiu renascer a esperança, e insensivelmente socegou do maior cuidado. Ora pallida, ora córada, a neta de Garcia narrava no emtanto a morte dolorosa do avô, as lastimas da sua infancia, e os amores infames que a perseguiam. As palavras pintavam a sua alma. Mais compadecida, do que vingativa, procurava atenuar as crueldades do senhor. Quando terminou, o desconhecido, sorrindo-se, e soltando-lhe a mão, disse:
—Descansai! Está perto El-rei D. Pedro. É como se vos ouvisse. Mandai a Sueiro Lopes a camisa da mortalha, não a pediu de balde! Se o cavalleiro fôr desleal, ou se vos quizer tirar por força, enviai-me este signal. Deus e El-rei serão comvosco!
Ao mesmo tempo entregou-lhe a trompa de prata e virando-se para Tello, accrescentava:
—É o vosso noivo?.. Merece-vos? Escolhestes bem?!... Não córeis, Silvana! Se o besteiro fôr o que mostra em pouco ha de fallar-se d'elle em Miranda.{153}Adeus! Não vos esqueça!... Ao primeiro perigo, um recado e o signal. O mais fica para mim.
Dito isto o monteiro sumiu-se por entre as arvores, e Tello estava aos pés da noiva, que Aldonça animava, annunciando-lhe proximo o termo de seus pezares.{154}
{155}
Quando Tello, ao cair da tarde do outro dia, trepava a pé a ladeira do castello de Algoço, vinha descendo o mordomo, seguido dos homens d'armas escolhidos. O mordomo era o cego executor da vontade de Sueiro Lopes; alma negra do senhor, aonde alcançára com o braço deixára sempre vestigios dolorosos. Passando pelo besteiro de Miranda, que o aborrecia, o villico (era o seu titulo n'aquelle tempo) não pôde conter o sorriso, rosnando por entre dentes: quantos vão que não voltarão! O noivo de Silvana desprezou o riso, e continuou o caminho; mas á porta despediram-o asperamente, respondendo{156}que Sua Mercê repousava, e que ninguem o despertaria para dar audiencia a um villão. A principio Tello pôde sopear a ira, mas a pouco e pouco a altercação irritou-o, e levantou a voz. Sueiro Lopes assomou de repente á porta. Inteirado do motivo da disputa, virou-se para o besteiro, e perguntou:
—A que vens aqui?
—Trazer o que mandastes e pedir o cumprimento da promessa! redarguiu elle friamente.
O senhor empallidiceu. Um estremecimento, que não soube vencer, sacudiu-lhe os membros. Lembrou-se da tela alvissima e transparente, que vira na choupana de Aldonça, e tremeu pela primeira vez da sua vida. Depressa se recobrou e medindo o mancebo com indizivel escarneo, replicou:
—Pedi-te duas camisas fiadas e tecidas com os fios das ortigas da sepultura de Garcia, uma para o teu noivado, outra para a minha mortalha. Palavra de cavalleiro não quebra! Se cumpriste, não hei de faltar. As camisas?...
—Eil-as! acudiu o besteiro. Ortigas deram o fio e fadas teceram o panno.
Era o mesmo que já lhe respondera Aldonça. A maravilhosa tela, que o noivo de Silvana desdobrou diante de seus olhos, na finura admiravel bem mostrava não ser obra de mãos humanas. Pegando na mortalha D. Sueiro tremia. Sobre o peito, em lettras côr de sangue, viu as iniciaes de seu nome e pondo{157}o estofo contra a luz, retrataram-se-lhe as feições das tres esposas que tinham passado ao tumulo do seu leito.
—Bem! exclamou. Silvana é tua se a achares. Quanto á mortalha.... Veremos esta noite quem a veste!
Não esperou por mais o besteiro, e partiu, apressando o passo, caminho da choupana de Aldonça. Um presentimento vago advertia-o de perigo incerto. A tristeza opprimia-lhe o peito; e todavia, a bôa nova, que levava, devia alegral-o. A noite fechou-se escura. O tempo tinha mudado. Rugindo no pinhal o vento arrancava por entre as ramas das arvores gemidos lugubres. No céu apagavam-se as estrellas umas apóz outras debaixo do pesado toldo de nuvens, e a lua encobria-se de todo por cima do ultimo outeiro. Sem saber porque, sentiu-se Tello desalentado. Elle, o melhor caminheiro dos arredores, o besteiro mais destro dos contornos, deu por si mais de uma vez arrastando os passos e tremendo. Quando chegou á choupana, achou a casa êrma e a porta arrombada, e acabou de crer que os pressagios não mentem. Bastava olhar para dentro para adivinhar uma scena violenta. A lampada ardia ainda junto do lar, e luz mortiça deixava ver os escanhos partidos, os vasos de barro pisados, as arcas espedaçadas. O pobre catre de Aldonça, despido de roupas, jazia em um feixe. O mancebo parou, e de balde quiz ligar{158}as ideias. O golpe inopinado tinha-lhe quebrádo as forças. Nem o animo, nem a razão se prestavam a ajudal-o.
Fôra rapto? Fôra vingança mais atroz? A mudez da cabana não respondia! Saltaram-lhe então as lagrimas, e a dôr foi tão penetrante, que a não se encostar caíra desfallecido. Occorreram-lhe as palavras de Sueiro Lopes, e percebeu-as tarde. Silvana tinha sido roubada pelos servos do Castello, e áquella hora entrava talvez as portas do Alcacer, que para ella eram as portas do sepulchro.É tua se a achares!dissera o roubador. A quem iria Tello pedir justiça? Luctando com a agonia sentiu que ia enlouquecer. Mas, louco, o que restava á donzella senão a morte depois da infamia? No auge da desesperação, erguendo as mãos, bradou atribulado: «Senhor! A vingança é mais vossa, do que minha! Não embainheis a espada da justiça!»
No meio d'estas vozes pousou-lhe de leve a mão de uma mulher no hombro. Olhou. Viu Aldonça. Um signal imperioso atalhou em seus labios o grito que iam soltar. Guiando-o calada, a protectora de seus amores chegou a um logar deserto, e apontando para um cavallo ajaezado, preso ao tronco de uma arvore, disse-lhe rapidamente:
—Monta!
O besteiro obedeceu. Entregando-lhe então a trompa de prata, a velha ajuntou:{159}
—O mordomo de Sueiro Lopes entrou aqui e leva roubada a tua noiva. Corre, que por tua felicidade corres, e não pares senão na villa de Miranda. Busca os Paços do conde e apeia-te. Se te perguntarem quem és, dize que procuras o senhor. Já o viste. É o monteiro d'esta manhã. Dá-lhe a trompa, conta-lhe o succedido, e faze o que te mandar. Antes de sol nado estaremos todos juntos outra vez. As duas camisas terão cumprido o seu fado.
O mancebo, atonito, viu-a desapparecer, e largando as redeas, partiu direito á villa.{160}
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Como o Douro vae fundo e impetuoso! Como se arremessa irado contra os penedos do seu leito! Que trovões rebramam as aguas despenhadas em cascatas contra as penhas, que lhe opprimem a furia da corrente! Como a noute se cobre de luto quasi de repente de minuto para minuto! Aos bramidos do vento responde o estampido longinquo da tempestade. Os relampagos fuzilam sobre as eminencias.
Lá em cima, nos penhascos fragosos, que villa é aquella, cujas torres negras estrellam vivas luzes pelas frestas ponteagudas? Seguindo a margem do{162}rio, Tello Vasques não sente fadiga; o brioso corsel devora a distancia. Batia a hora de se alçarem as levadiças, quando o mancebo atravessa pontes e estradas, enfia ruas e villas, e pára no terreiro, defronte dos Paços do conde e da torre de menagem. Apeia-se, e sobe os degraus a dois e dois até ao portal da primeira sala. Os guardas intentam detel-o; mas sem voltar a cabeça, e continuando, responde: busco o senhor! Ninguem o suspende. De corredor em corredor, de aposento em aposento chega á sala de armas. Entre os cavalleiros, que passeiam, divisa o monteiro desconhecido com o mesmo guarda-coz ainda.
Grossas tochas em armeis de ferro illuminam a vasta quadra. Corpos de armas brunidas, achas, montantes, lanças e adagas entrelaçadas em caprichosos ornatos enfeitam as columnas, cujos capiteis lavrados sustentam os fechos da abobada. O monteiro, apercebendo Tello, encaminhou-se para elle. O mancebo vinha tão soffocado, que pôde dobrar apenas o joelho e offerecer-lhe a trompa. Foi preciso que elle sorrisse para o besteiro narrar o successo, que o trazia áquella hora. Concluindo, o moço ergueu as mãos, e com a vista inflammada bradou:
—Levai-me aos pés de El-rei D. Pedro. Dizem que não conhece grandes, nem pequenos. A donzella, que roubaram, é pura e santa como a mais pura e nobre de vossas filhas. Não deixeis sem castigo{163}o rico-homem por ella ter nascido no berço de um villão!
Á medida que o besteiro fallava, a phisionomia do desconhecido mudava de aspecto. Os olhos pretos dilatados chammejavam, e o semblante, rosado e jovial, empallidecia, torvo de severidade. Arquejava-lhe o peito. O gesto infundia medo até nos que se achavam distantes. Quando Tello poz termo a suas queixas, e levantou a vista, recuou assustado. A expressão dos olhos do seu protector era terrivel. Ensanguentados e delirantes mais se assimilhavam ás pupillas encandeadas do tigre, do que a olhar humano. A voz cheia, mas presa, gaguejando, fallava tão convulsa, que pouco se entendia. Adiantando-se, o desconhecido clamou em grandes brados:
—Lourenço Gonsalves! Acudi! Um rico homem furtou a mais linda de minhas filhas!
O brado, e a immensa colera, revelaram tudo ao mancebo. Lourenço Gonsalves era o corregedor da côrte. Ninguem ousaria chamal-o assim senão el-rei. Tello prostrou-se cheio de esperança.
—Segue-me! Affonso Madeira! o meu cavallo enfreado á porta! A minha capellina de aço! Gonsalo Vasques de Goes, escrivão da Puridade! Chamae os desembargadores, relatae-lhes o feito, e lavrae a sentença. Por alma de Ignez de Castro!... Pelo seu amor! murmurou mais baixo. Antes de{164}nascer o sol haverá um criminoso de menos no meu reino, e mais uma justiça de minhas mãos no livro de suas chronicas!
Fallando assim enlaçava a capellina, calçava as luvas de gamo, e com o açoute cingido, desprendia a acha de armas mais pesada.
O besteiro seguiu-o sem proferir palavra. Os cavalleiros montavam, e uns apoz outros galoparam para o alcançar. El-rei ia deixando atraz do cavallo o proprio Tello Vasques, e cego de ira mettia-se pelas terras de Algoço. Por cima d'esta vertiginosa carreira a chuva cahia em torrentes. A procella abria os ceus em clarões lividos, desarraigando as arvores annosas. Quando D. Pedro assomava diante da porta do castello, um vulto surgiu, que tomou-lhe as redeas, convidando-o a apeiar-se. De um salto estava em terra e levantando a cabeça via as frestas da torre illuminadas. O vulto travou-lhe do braço, e disse:
—É ali!
—Vamos! redarguiu o principe, e seguiu-o sem desconfiança.
Uma entrada falsa, além do fosso, cedeu á chave e ao impulso.
—Ide agora e Deus seja comvosco! disse a mesma voz.
Ouvindo vozes e risadas no andar superior, o amante de Ignez de Castro subiu. No topo da escada{165}de caracol, a scena que se lhe representou excitou-lhe ainda mais a colera. Perderia o terror salutar do nome Justiceiro se perdoasse aquelle crime.
Era espaçoso o aposento. Um lampadario allumiava parte d'elle; o resto mergulhava-se em meia escuridão. No centro da sala, em um leito, com as mãos ligadas, jazia Silvaninha. Duas voltas de lenço sobre a bocca até os ais lhe suffocavam! Só os olhos, os lindos olhos, banhados de lagrimas pediam a Deus a morte, remedio extremo da infamia. Sueiro Lopes, defronte, sorria-se medindo com a vista a queda lenta da areia d'uma ampulheta. A seu lado o villico silencioso corria os dados sobre a mesa. A tela da mortalha, fiada e tecida com as ortigas do tumulo, estava nas mãos do cavalleiro, e suas palavras, ironicas como punhaes, atravessavam o peito da infeliz. Estranho ao remorso, o neto dos senhores de Biscaia cevava na formosura captiva o furor dos zelos.
—Porque choras, Silvana? Dera hontem o melhor arnez e o melhor cavallo por um sorrir de teus olhos. Pedi-te amor e respondeste não. A tua prenda foi esta mortalha! Que te acudam agora as fadas, que a teceram, e os anjos porque chamavas! Brada pelo besteiro villão, que preferiste ao rico-homem! Grita por el-rei D. Pedro! Por forte que seja o seu braço as portas chapeadas d'este castello ainda são{166}mais fortes. Em esta areia, que está por instantes, cahindo toda...
Faltou-lhe a voz. A mão erguida do villico deixou tambem rolar o ultimo dado. Ao limiar estava el-rei D. Pedro, e nos olhos d'elle brilhava um clarão terrivel. A pesada acha reluzia em suas mãos.
—Traidor! bradou o principe. Mentes! O braço de D. Pedro quebra e rompe todas as portas. Vais ver!... Villão! ajuntou fallando ao villico. Solta as mãos e a boca a essa donzella. Ninguem se mova! Sueiro Lopes, conta bem os grãos de areia da tua ampulheta. É o tempo que te dou. Vais comparecer na presença de Deus!
O orgulho indomito do cavalleiro não cedeu. Empunhando a adaga, e posto que pallido, sempre firme e seguro, voltou-se para D. Pedro e redarguiu:
—Quem dá aqui ordens e ameaça? O verdugo de Pero Coelho e de Alvaro Gonsalves? O rei carrasco, falso á sua alma e á alma de seu pae? Imaginas que farei como os outros cavalleiros? Estou no meu solar, e a quem entra de noite e á má fé chamo-lhe inimigo! Villico! Aperta os laços da captiva. No alto e no baixo, irado e pagado, não entrego o castello senão a Deus. A mim, homens d'armas!
—Deus é justo! clamou el-rei, cuja furia não conhecia limites. O matador de tres mulheres levanta-se{167}contra o seu rei. O perseguidor cruel de donzellas nega-me o preito e menagem. Bem! Morrerás como villão ás mãos dos teus villãos. Não mancho em tal sangue o ferro da minha acha. Villãos! bradou imperioso aos servos do senhor que tinham acudido. Sou D. Pedro! Sou o rei! Esse que ahi está, rebelde e traidor, prendei-m'o em quanto os meus não chegam!
A presença e a voz do filho de Affonso IV infundiam terror. Os homens d'armas temiam, mas não amavam Sueiro Lopes. A ordem foi cumprida. Depois de curta e desesperada resistencia, o cavalleiro ficou á mercê de el-rei.
—Passae um laço na cadeia do lampadario, ponde um escanho para elle subir, e cingi-lhe o nó na garganta! proseguiu o soberano indignado.
—Sou rico-homem por foro de Hespanha. A afronta da morte vil, caírá sobre vós e sobre todos os filhos d'algo. Pedir-te-hão contas d'ella, verdugo! gritou o cavalleiro estorcendo-se.
—A Deus as darei, e a mais ninguem! O desleal que violenta donzellas não é cavalleiro. Quebro-te a espada e o foro com o meu sceptro.
Momentos depois, D. Sueiro estava em cima do escanho, e o villico enrolava-lhe o laço. Commovida e tremula, Silvana lançou-se supplicante aos pés do rei. Debalde! D. Pedro, desviando-se, perguntou ao paciente:{168}
—Pedes perdão a Deus e ao teu rei?
—Não!
O pé do principe tombou o escanho e a morte cortou as ultimas palavras do cavalleiro.{169}
A tropeada de muitos cavallos, soando a par do alarido e vozes do castello, annunciou á aldeia alvoroçada a vinda do monarcha. Tello Vasques apparecia á porta quando Sueiro Lopes expirava.
—Besteiro! Por teus olhos vês que me não chamam em vão o Justiceiro. Corrias como noivo e como esposo... apesar d'isso cheguei primeiro! A justiça do rei ainda andou mais veloz do que o amor!
Horas depois, a camisa do enterro servia de mortalha a Sueiro na capella, e os noivos recebiam a benção nupcial, tendo el-rei D. Pedro por seu padrinho.{170}
Fallou-se muito no besteiro de Miranda, mas o que não esqueceu nunca foi a justiça que fizera em Algoço a severidade do monarcha.
O castello devolveu-se á corôa, e parece que fôra doado depois ao primogenito de Tello e de Silvana. Pelo menos assim se disse, e se foi verdade ou fabula, não sei. El-rei D. Pedro era tão capaz de fazer cavalleiro um villão, como de justiçar como villão um cavalleiro.{171}