Alguns mezes haviam já decorrido depois do dia em que Angelo escapou, por milagre, de morrer ás mãos de D. Lucas.
Era por uma aprazivel manhã de primavera. A sala de jantar de D. João Quijano tinha uma janella, que olhava para o norte. Em quanto o banqueiro e sua mulher tomavam chocolate na sala, Angelo fôra para a varanda, e ali se conservava, com a vista immovel e fixa na direcção do seu paiz.
O pobre pequeno estava mais alto doque quando chegára das montanhas de Biscaya, porém tinha emagrecido consideravelmente. Cobria-lhe o rosto uma pallidez mortal, e nos seus bellos olhos, tão meigos e sympathicos, retratava-se-lhe a profundissima tristeza que lhe ia n'alma.
—O que fazes tu ahi, Angelo? perguntou carinhosamente D. Joanna.
O menino não respondeu.
—Oh! meu Deus! O que terá esta creança?! accrescentou a mulher do banqueiro, com verdadeira afflicção.
—Não sei o que elle tem, Joanna, mas ninguem me tira da cabeça que está doente desde que Lucas lhe bateu, apesar do medico dizer, passados quinze dias, que o considerava completamente restabelecido.
—Queira Deus que Lucas lhe não tornasse a pôr a mão.
—Não, filha; por isso fico eu. Mas vejo-o tão abatido e melancholico, que receio muito pela sua existencia.
—Ai! Nossa Senhora permitta que te enganes. Angelo se chama e foi elle na verdade um anjo que trouxe a paz e a harmonia á nossa casa; porque, desde que paraaqui veiu esse menino, nós que sempre andavamos de rixa, estamos inteiramente mudados, e tenho fé em que elle ha de acabar por abrandar e adoçar por uma vez este meu maldito genio.
—Assim é, Joanninha, exclamou o banqueiro commovido; sempre esperei que quando tivesses um filho, se operaria em ti uma grande mudança. Não quiz Deus conceder-nos essa ventura, mas enviou-te em compensação essa criança, a quem queres hoje quasi tanto como se fôras sua mãe.
—Quem sabe se o que tem o pequeno é um desejo ardente de voltar para a sua aldeia... suspirava tanto por isso, a principio...
—Tambem me não parece que seja essa a causa do seu soffrimento. Desde que os paes lhe disseram n'uma carta, que era elle o unico amparo com que contavam para a velhice, e que, se voltasse para a terra, nada poderia fazer em beneficio d'elles, não cessa de dizer que está satisfeito em Madrid, e até quando alguma vez se encontra de bom humor, costuma repetir o proverbio «de Madrid só para o céo».
—Pois é preciso mandar chamar o medico, porque se não cuidarmos d'elle váe cada dia a peior. Angelo, accrescentou D. Joanna, chamando novamente pelo menino.
Este deixou como assustado a immobilidade em que estava, olhou novamente com ineffavel languidez para o norte, e entrou na sala.
—Que tens tu, meu filho? perguntou-lhe com ternura D. Joanna, correndo-lhe a mão pela cara.
—Não tenho nada, respondeu Angelo.
—O que fazias na varanda?
—Nada; estava a vêr o sol.
—Vamos, senta-te aqui, e toma chocolate comnosco.
—Não me appetece.
—Mas o que é isso? O que te falta? Não te quero eu como se fôra tua mãe?
O menino não respondeu; arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas, e os de D. Joanna tambem.
—Olha, accrescentou esta, não vás outra vez para a varanda que te faz mal o sol; vae antes um bocado até ao escriptorio,não para trabalhar, mas para vêr se te distrahes com os teus companheiros.
Angelo saíu da sala, e desceu a escada.
Ás tres horas, subiram para jantar D. Lucas, e os dois caixeiros Manoel e Marianno.
—Onde ficou Angelo? perguntou D. Joanna.
—Não veiu cá para cima.
—Virgem santissima! Onde estará então a pobre creança?!
—Talvez se fosse deitar.
—D. Joanna correu pressurosa ao quarto de Angelo, e foi encontral-o na cama.
—O que quer isso dizer, filho? O que tens?.. Estás doente?
—Sim, minha senhora, respondeu Angelo com voz sumida.
—Então o que te dóe?
—Não me dóe nada, mas sinto-me doente.
—Toribio! Toribio! vae, corre chamar o medico, que está o menino doente, gritou da escada D. Joanna.
Pouco depois chegou o medico. Tomou o pulso a Angelo, e fez um gesto de mau agouro.
—É coisa grave? perguntaram a um tempo, e com anciedade, D. Joanna e o banqueiro.
—Gravissima, respondeu o medico... e observando-o novamente, accrescentou, em voz baixa, dirigindo-se ao dono da casa;—está quasi a morrer.
Angelo abriu por um momento os seus meigos olhos, cujo brilho estava já empanado pelo sopro da morte, volveu-os para a imagem do Senhor crucificado, como querendo expressar-lhe profunda gratidão, e fechou-os logo, para nunca mais os tornar a abrir.
Todos proromperam em amargo pranto, á excepção de D. Lucas.
—E de que morreu? perguntou este ao medico, que tinha antecipadamente interrogado a familia ácerca dos padecimentos de Angelo.
—Morreu, lhe tornou o medico, de uma affecção moral, para cujo desenvolvimento contribuiram por certo padecimentosphysicos. Os meninos são homens no sentimento, e creanças no vigor; por isso Deus amaldiçôa os seus oppressores. Este menino morreu da mais santa de todas as enfermidades; morreu deNostalgia.
FIM DA NOSTALGIA.
A grande montanha de Colisa, que se ergue entre as Encartações2de Biscaya, e a demarcação juridica de Castella, era na edade media uma especie de Thebaida, onde faziam vida penitente alguns anachoretas, aos quaes se attribue a edificação do santuario que a corôa.
Sendo eu creança, e caminhando com minha piedosa mãe por uma montanha das Encartações, paramos a descançar, ao descobrir o valle onde habitavamos.
Era por uma tarde aprazivel de verão. O sol escondia-se por detraz dos montes,que recortavam o horisonte, e nas quebradas das serras ouviam-se os chocalhos do gado, que descia ao valle; em baixo, na planicie, saíam as raparigas das herdades, e pondo á cabeça as suas bilhas, dirigiam-se, cantado, á fonte doCastanhal, para que seus paes e irmãos achassem em casa agua fresca, quando, ao soar o toque da oração, lançando ao hombro as enxadas, e resando as Ave-Marias, se encaminhassem para o logar.
Do cimo do outeiro coberto de fragrantes margaridas, brancas de neve, onde minha mãe e eu estavamos sentados, contemplando o nosso querido e formoso valle, em um de cujos extremos avistavamos, meia occulta por frondoso arvoredo, a nossa aldeia ainda mais querida e saudosa, descobria-se o santuario de Colisa.
Entramos a fallar d'aquella ermida, e minha mãe, que tinha uma fé santa e cega nas tradicções religiosas, que brotam e vivem á sombra dos santuarios das montanhas, sem que possam os seculos alterar-lhes o viço e a frescura, prendeu-me a attenção, e commoveu-me devéras a almacontando-me o que, a meu turno, vou contar-vos.
Vivia nas solidões de Colisa um santo ancião, chamado Cosme, que passava uma terça parte da sua existencia entregue á adoração e glorificação de Deus, e o restante guiando e soccorrendo os viajantes, que atravessavam aquellas montanhas; e isto pela razão de que, n'aquelle tempo, como as guerras de partidos ensanguentassem de contínuo os valles, fugiam d'elles os caminhantes, e transitavam pelos montes mais desertos, e afastados do commercio dos homens.
Sempre que Cosme soccorria algum viandante extraviado, ou extenuado de fome e cansaço, ao soar o toque de Trindades na egreja de Valmaseda, que se avistava lá em baixo, no pé da montanha, apparecia-lhe um anjo, que lhe sorria amorosamente, e que logo se remontava ao ceu, deixando-o immerso em mystica alegria.
Um dia, de manhã, estando os montes cobertos de mui densa névoa, saíu Cosme da miseravel choça, onde vivia vida penitente, e poz-se a divagar por aquelles bosquesespessos e fragosos, a vêr se encontrava alguns caminhantes, que n'elles se houvessem extraviado, e, de repente, deu de cara com uns poucos de homens, que levavam outro manietado.
—Porque vae preso esse infeliz? lhes perguntou elle.
—Porque é um grande criminoso, a quem a justiça condemnou á morte, lhe responderam.
—Quem as faz paga-as, disse o anachoreta, dando tregoas á sua compaixão.
Os executores da justiça de Valmaseda detiveram-se mais acima, n'uma encrusilhada, pegaram n'um grande madeiro secco, que, havia muitos annos, estava estendido ao lado do caminho, fixaram as extremidades d'esse madeiro secco nos primeiros galhos de duas arvores parallelas, lançaram um laço ao pescoço do criminoso, e suspenderam-n'o d'aquella forca improvisada, voltando a Valmaseda apenas se certificaram de que elle tinha expirado.
2Encartaciones, as terras de Biscaya, que gosam de fóros e regalias especiaes.
2Encartaciones, as terras de Biscaya, que gosam de fóros e regalias especiaes.
N'esse mesmo dia em que, por sentença do tribunal de Valmaseda, foi enforcado um grande criminoso, no caminho de Colisa, salvou Cosme da morte muitos viandantes, que, sem o seu auxilio, seriam devorados pelas féras, ou se teriam despenhado nos precipicios d'aquelles temerosos desvios, então mais temerosos do que nunca, por causa da espessura do nevoeiro.
Recolheu-se á sua morada, agradecendo a Deus o haver-lhe dado forças para soccorrer os seus irmãos, e, apenas chegou, feriu-lhe o ouvido o toque da oração, que soou, lento e solemne, na longinqua torre da egreja de Valmaseda.—O anjo porém não lhe appareceu n'aquella noite!
O santo ermitão encheu-se de terror, com a lembrança de que teria offendido a Deus, visto que o anjo se furtava aos seus olhos; mas por mais que pesou as palavras,que proferira, as suas obras e pensamentos de todo o dia, não lhe foi possivel atinar com o agastamento do Senhor.
Aquella noite passsou-a toda em continua oração; chorou, macerou o corpo, pediu a Deus perdão e misericordia para as suas faltas, e logo que raiou a aurora, como a montanha se conservasse coberta de d'espessa névoa, saíu em auxilio dos caminhantes.
De repente achou-se na encrusilhada, e ao vêr diante de si a forca, da qual pendia ainda o cadaver do criminoso, justiçado no dia antecedente, recuou cheio de repugnancia e movido d'espanto; e levantando a vista acima do cadaver, que estava preso da corda, viu o anjo poisado no madeiro da forca.
O anjo, longe de lhe sorrir então amorosamente, como de costume, olhava-o com semblante severo e carregado.
Cosme parou; e com quanto ignorasse qual fosse a sua culpa, lançou-se de joelhos, sobresaltado e cheio de terror, ergueu as mãos para o anjo, e implorou perdão e misericordia.
—Cosme! disse-lhe então o anjo, incorreste no desagrado do Senhor e precisas fazer grande penitencia para recuperar a sua protecção. Hontem, em vez de confortar e consolar o desgraçado, que está pendente d'esta forca, escarneceste-o, e olhaste com indifferença para a sua tribulação. Desprende o seu cadaver da forca, sepulta-o em sagrado, e lançando em seguida esse madeiro aos hombros, leva-o pelo mundo, e seja elle o unico travesseiro, em que descances a cabeça.
—E poderei eu ainda um dia obter o perdão da minha culpa? exclamou Cosme lavado em pranto de arrependimento.
—Sim, lhe tornou o anjo. Quando d'esse madeiro brotar um ramo verde, é que o Senhor te perdoou.
Dito isto, subiu o anjo ao ceu, cercado de musicas mysteriosas e de brilhantes resplendores.
Cosme acercou-se animosamente do cadaver suspenso da forca, desprendeu-o e deu-lhe sepultura; pegando em seguida no madeiro, cujos extremos se apoiavam nos primeiros galhos de duas arvores fronteiras,foi com elle aos hombros pelo mundo, segundo as indicações, que o anjo lhe havia dado.
Andava Cosme pelo mundo com o madeiro da forca ao hombro, e toda a gente o escarnecia e fugia d'elle horrorisada.
Uma noite, tendo perdido a esperança d'encontrar asylo entre os homens, penetrou n'um bosque, esperando encontral-o no meio das féras, e vendo uma luzinha atravez da espessura, encaminhou-se para ella, e deu comsigo á porta d'uma cabana, onde uma velhinha dormitava, junto do lume.
—Santinha, disse elle á velha, com voz supplicante, deixe-me, pelo amor de Deus, passar aqui esta noite.
—Não póde ser, lhe tornou a velha, porque tenho dois filhos, que são bandidos, e que devem chegar dentro d'uma hora;se aqui o encontrassem, com certeza o matavam.
Cosme confiava piamente na promessa, que o anjo lhe tinha feito de que o senhor lhe perdoaria, e como visse que o madeiro da forca não tinha signaes, que indicassem que estava para rebentar, d'onde se deprehendia que vinha ainda longe o momento da sua morte, insistiu em pedir á velha que lhe désse pousada, no que ella, por ultimo, conveiu, esperando conseguir dos filhos que o não assassinassem.
Estava Cosme exhausto de forças e, retirando-se para um canto da choupana, poisou no chão o madeiro da forca, e deitou sobre elle a cabeça.
Condoida a velha de o vêr descançar em travesseiro tão duro, offereceu-lhe um feixe de cheirosa herva do monte, mas Cosme o recusou, dizendo:—offendi o Senhor, dizendo a um criminoso a quem levavam á forca: «quem as faz, paga-as», e para que o Senhor me perdôe, vou pelo mundo carregado com este madeiro, que deve ser o unico descanço da minha cabeça, até que d'elle brote um ramo verde,que será o signal de que o Senhor me perdoou.»
—Ai! exclamou a velha, rompendo n'um choro inconsolavel, se é tão difficil para quem se arrepende e unicamente peccou por palavras o alcançar o perdão do Senhor, quanto o não será para esses infelizes, que, como os meus filhos, peccam todos os dias por palavras e obras, e não têm no coração um vislumbre sequer do arrependimento.
O ancião adormeceu com a cabeça deitada no madeiro da forca.
Uma hora depois, chegaram os bandidos, e ao verem-n'o, arrancaram dos punhaes para o assassinar.
A mãe, porém, contou-lhes a historia d'aquelle ancião, e pediu-lhes de joelhos que, longe de o matarem, se arrependessem, como elle, das suas enormes culpas.
—Pois bem, perdôe-se-lhe a vida, responderam os bandidos, fazendo entrar os punhaes na bainha, e accrescentaram, soltando uma gargalhada d'escarneo:
—Quanto ao arrependimento, havemosde o ter quando brotar o tal ramo verde d'esse madeiro secco.
Principiaram os bandidos a cêar. Quando acabaram, dirigiram a vista para o canto da cabana onde dormia o velho, e viram, com assombro, que do madeiro secco tinha brotado um ramo verde e mimoso! Romperam então em amargo pranto, rogando a Deus que lhes perdoasse as suas culpas.
Ao som de taes vozes acordou Cosme, e ao vêr que do madeiro secco tinha brotado uma vergontea verde e louçã, expirou de alegria; e o anjo baixou, sorrindo amorosamente, a tomar conta da sua alma, e a leval-a comsigo para o ceu.
FIM DO MADEIRO DA FORCA.
Ainda hoje existe, junto á confluencia de dois rios, um formoso castanheiro, a cuja sombra eu me sento, sempre que por alli passo, haja ou não haja calor, e isto pela razão muito natural de que, sendo eu creança, costumavamos sentar-nos, minha mãe e eu, á sombra d'aquella mesma arvore, quando iamos a uma aldeiasinha, que ficava perto da nossa. A pequena distancia do castanheiro vêem-se ainda as ruinas d'um moínho, taes quaes eram nos tempos saudosos da minha infancia; e a lembrança de minha mãe, do castanheiro e das ruinas, faz-me recordar d'um conto, que ella me contou, em uma tarde de verão, ao pé daarvore frondosa, a cuja sombra, graças a Deus! ainda posso sentar-me.
O ultimo moleiro, que habitou o moínho, era conhecido n'aquellas redondezas pelo appellido de Senéca; e vejam lá, não vão mudar para o primeiro o accento que puz sobre o segundo «e» d'este appellido, pois que o moleiro de quem estou fallando, e que minha mãe conheceu e tratou, era tão modesto, que ainda hoje no ceu se veria muito afflicto e contrariado, se o confundissem com o philosopho cordovez.
Não tinha Senéca pretenções a philosopho, mas era-o até sem querer, e a isto devia elle indubitavelmente o seu appellido, em cuja applicação não podemos deixar de reconhecer uma philosophia muito profunda; se não, reparem os leitores, e digam-me se não é bem admiravel a do povo, que, com a mudança d'um simples accento, marca o abysmo, que separa o philosopho da natureza do philosopho do estudo! Tinha eu que fazer, se quizesse referir os muitos rasgos d'engenho e sã philosophia com que Senécaillustroua sua trabalhosa e modesta vida, e portanto limitar-me-hei a referir umdos que mais captivaram minha pobre mãe, de quem herdei o gosto que tenho pelas recordações da infancia.
Senéca não tinha outra familia senão um filho de dez annos, nem outras cavallarias senão um burro de vinte. Morreu-lhe a mulher, que era quem ficava no moínho, curando das moagens, emquanto elle andava com o burro, levando e trazendo folles por aldeias e casaes, e o pobre Senéca viu-se então em graves embaraços, porque os seus ganhos lhe não permittiam tomar uma creada, que substituisse sua mulher no moínho, nem um creado, que o substituisse a elle no transporte dos folles.
—E como te has de tu arranjar agora? lhe perguntavam os visinhos, quando o viram viuvo, e sem outro auxilio mais que o do pequeno.
—Não me dá isso cuidado, respondia Senéca, não faltará quem me ajude.
—Isso é bom de dizer; mas quem te ha de ajudar?
—Quem?... A Necessidade.
Os visinhos punham-se a rir do bom humor de Senéca, porém sem comprehender o que elle queria dizer na sua.
Uma certa manhã apparelhou Senéca oburrico, poz-lhe em cima um sacco, que continha quatro alqueires de farinha, e chamando o pequeno, disse-lhe:
—Rapaz, toma o burro pela arreata, e leva-me esta carga á padaria de Somorrostro.
O pequenodesatoua chorar.
—Que é lá isso, homem? perguntou-lhe o pae.
—Que ha de ser de mim pelo caminho, se o burro cair, ou se espojar no chão! exclamou o rapazito, sem cessar de chorar.
—Não te dê isso cuidado, disse Senéca; se tal acontecer, não faltará quem te ajude a levantar o burro.
—E quem é que me ha de ajudar n'essas devezas tão solitarias, que não se encontra por ellas viva alma?!
—Quem? A Necessidade. Se o burrocaír, ou se deitar no chão e se não podér erguer, chama pela Necessidade, e verás como logo acode em teu auxilio.
—Está bem, disse o pequeno, limpando as lagrimas com a manga da jaqueta; e pegando na corda do burro, tomou pela margem do rio, caminho de Somorrostro, que distava uma legua do moínho.
—Ora, ora, ora! Sempre este Senéca tem coisas!... diziam os visinhos, ao verem o rapazito com o burro atraz de si. Com que então a Necessidade, com cujo auxilio contava Senéca, para levar e trazer os folles, era essa pobre creança?!... E o pequeno, quem é que o ha de ajudar?
Seguia o filho de Senéca com o seu burro á arreata ao longo dos carvalhaes, que assombram as margens do rio, que corre pelo valle profundo, que separa Somorrostro de Galdámes e Sopuerta, quando, ao chegar a um pequeno areal muito suave, fez o burro esta reflexão:
—Ai! que bella cama para eu descansar um pouco!... e então, se eu podesse soltar esta maldita carga, que me vae amolando as costellas!
E de repente, antes que o pequeno olhasse para traz, estirou-se ao comprido no meio do chão.
—Ai! minha mãe!... exclamou o rapazinho aterrado;—porque convém saber que em Hespanha, e com especialidade na Biscaya, não só aos pequenos como tambem aos grandes, o primeiro auxilio que lhes occorre invocar nas maiores afflicções, é sempre o de sua mãe, ainda mesmo que já a tenham no ceu.
E pegando n'uma vergasta começou a zurzir o burro sem dôr nem piedade; porém o animal, por mais esforços que fazia para se levantar, não o podia conseguir.
Estava já o pequeno quasi a chorar, quando se lembrou do conselho, que o pae lhe havia dado, e, em vez de dar largas ao pranto, começou a gritar:
—Necessidade! Necessidade! faz-me o favor de vir aqui ajudar-me a erguer este burro?!
O pequeno bem olhava para todos os lados, a vêr se apparecia a Necessidade, mas não via ninguem. Já cansado de chamar e de esperar pela Necessidade, desatou o arrocho, que prendia o sacco ao apparelho do burro, e alliviou-o da carga; em seguida deu-lhe uma vergastada e o animal ergueu-se d'um salto. Então o pequeno tomou o burro pelo cabresto, levou-o para junto d'uma ribanceira, e rolando o sacco até lá, pôde, a muito custo, collocal-o em cima do animal; apertou-o bem com o arrocho, montou-se sobre a carga, atirou uma pancada ao burro, e proseguiu no seu caminho, mais alegre que umas paschoas.
Passada uma hora chegava o rapaz ao moínho, cantando e fazendo trotar o seuginete.
—Olá, pequeno, disse-lhe o pae, apenas o avistou, como te foi pela tua viagem?
—Muito mal, meu pae.
—Então o que te aconteceu, homem?
—Deitou-se o burro no caminho, e, por mais pancadas que lhe dei, não foi capaz de se levantar.
—E então o que fizeste?
—Desprendi a carga, levei o burro para o pé d'uma ribanceira, fui rolando o sacco até lá...
—Bem, bem, já percebo. Quer isso dizer que chamaste pela Necessidade, não é assim?
—Chamei, chamei; fartei-me até de chamar; mas não appareceu...
—Rapaz, disse Senéca, vê como tu te enganas;—quem te levantou e carregou o burro não foi senão a Necessidade.
Tinha razão Senéca, e tambem eu a tenho para dizer aqui que a necessidade presta tanto auxilio e tamanhos beneficios ao homem, que não sei como ainda lhe não deram a cruz de beneficencia.
FIM DA NECESSIDADE.
O tio Paciencia era um pobre sapateiro remendão, o qual ganhava honradamente o pão de cada dia, mette que mette a sovella e puxa que puxa o fio, em um portal de Madrid, e devia o apellido por que era conhecido á resignação com que sempre tinha soffrido os muitos trabalhos, que o Senhor lhe havia dado.
Ao tempo da constituição de 1820, era já rapaz dos seus quinze ou dezeseis annos, mas tinha a innocencia de uma creança de oito, e como ouvisse a cada passo dizer que todos os homens eram eguaes, perguntou ao mestre se aquillo seria verdade.
—Não acredites n'essas cousas, lhe respondeu o mestre. Só no ceu é que os homens são eguaes.
Sentiu o rapaz que não acontecesse outro tanto na terra, mas consolou-se com a idêa de que o eram no ceu, e quando algum freguez da loja convidava o mestre para beber uma pinga na taberna proxima, dizia com os seus botões o pobre aprendiz:
—Pena é que não sejamos todos eguaes na terra, como succede no ceu, porque se assim fosse, por certo que o freguez me não differençaria do mestre, e, como elle, iria eu tambem agora á taberna beber a minha pinga; mas, acabou-se... paciencia... no ceu seremos todos eguaes.
Passados dois annos, coube-lhe a sorte do recrutamento; então mais do que nunca teve elle motivo para lamentar que os homens não fossem eguaes na terra como no ceu, por isso que na sua companhia havia soldados distinctos, e cabos, sargentos e officiaes, que provavam ser verdade aquillo que o mestre lhe tinha dito ácerca da egualdade humana; porém consolava-se ainda o pobre rapaz, pensando que no ceuse acabariam as distincções, e todos seriam eguaes.
Deixou de servir o rei, e aproveitando-se do pouco que sabia do officio de sapateiro, estabeleceu-se n'um portal, e alí passou o resto dos seus dias, conformando-se com as privações que soffria, na esperança de ir para o ceu e gosar então d'essa igualdade, que não encontrára na terra.
No andar nobre da casa, cujo portal occupava, vivia um marquez, que por certo muito o houvera magoado com o espectaculo da sua opulencia, se não fôra um excellente homem, e a não ser tamanha a sua paciencia, e sobre tudo tão arreigada no seu coração a esperança de lhe poder dizer um dia no ceu: «meu amiguinho, aqui todos nós somos eguaes.»
Não era porém só o marquez que lhe fazia sentir, que não fossem todos os homens eguaes na terra; até os seus amigos mais intimos queriam differençar-se d'elle. Estes amigos eram o tio Mamerto e o tio Macario, homens de tão boa conducta, que não podia o tio Paciencia viver sem a sua honrada companhia.
O tio Mamerto tinha uma paixão desenfreada pelos toiros, e passava por ser muito entendido em materia tauromachica.
Quando, no reinado de Fernando VII, se creou uma escóla para ensinar esta sciencia, esteve o bom do homem quasi a ser nomeadolente cathedraticoda faculdade, e este precedente era o bastante para que elle se considerasse superior ao tio Paciencia, o qual, reconhecendo esta superioridade, se consolava pensando que, se o seu querido amigo e elle não eram eguaes na terra, o seriam por certo no ceu.
O tio Macario era muito feio, mas casou com uma mulher lindissima, porém levadinha da breca.
Ao cabo de vinte annos d'um viver amargurado, morreu-lhe o demonio da mulher, e o pobre homem ficou tão descançado que lhe parecia ter entrado no ceu; passados tempos, enamorou-se d'outra rapariga, que não ficava a dever nada á primeira, e casou segunda vez, apesar de todos os esforços que o seu amigo, o tio Paciencia, fez para lhe tirar isso da cabeça. Ora, como o tio Paciencia nunca tinha conseguido queas mulheres se agradassem d'elle, ao passo que do tio Macario se agradavam aos pares, julgava este ter certa superioridade sobre o primeiro, que, da sua parte, não deixava tambem de a reconhecer, e que devéras se teria affligido com isso, se não fôra a lembrança de que o seu bom amigo e elle seriam eguaes no ceu, já que na terra o não podiam ser.
O tio Mamerto era capaz de ir até ao fim do mundo para assistir a uma corrida de toiros; tanto assim, que até costumava dizer: «Parece-me que trocava de bom grado a gloria eterna por uma boa tourada», ao que o tio Paciencia replicava sempre, agastado: «Homem, não digas heresias, que não vá Deus castigar-te.»
Um dia em que os passaros caíam das arvores, assados pelo sol, havia em Getafe uma corrida de garraios; o tio Mamerto, foi vêl-os,á pata, segundo o seu costume, e, de volta a casa, acamou com uma febre, que o levou d'esta para melhor vida.
No mesmo dia estava muito mal, na cama, o tio Macario, por causa d'uma tremenda coça que a mulher lhe tinha dado,porquanto se a primeira mulher lh'as dava grandes, a segunda não lhe ficava atraz. A mulher, que nunca perdia a occasião de lhe communicar uma boa noticia, deu-se pressa em lhe participar, que o tio Mamerto tinhaesticado a canella, e ouvindo isto, o pobre Macario, que já não estava para muitos sustos,esticoutambem a sua.
Como eu já disse, não podia o tio Paciencia viver sem os seus dois amigos, porque lhes queria muito. Estranhando que, em todo o dia, elles lhe não tivessem apparecido para palestrar um pouco e fumar um cigarro na sua companhia, quando á noitinha deixou o trabalho, foi procural-os, e soube então que ambos tinham morrido. Essa noticia causou-lhe um abalo enorme, e, n'aquella mesma noite, tomou atraz d'elles o caminho do outro mundo, com a grande consolação de que ia finalmente para onde todos os homens eram eguaes.
Toda a visinhança sentiu muito a morte do tio Paciencia, pois todos depositavam tamanha confiança na sua honradez e no seu caracter docil e serviçal, que, quando careciam de trocar algumas notas do bancod'Hespanha, encarregavam d'isso o tio Paciencia, que era capaz de morrer arrebentado, para dar conta da incumbencia.
Na manhã seguinte á morte dos tres amigos, o bruto do creado particular do marquez, quando entrou no quarto, teve a imprudencia de dizer a seu amo que o sapateiro do portal morrêra, ao saber que dois amigos seus tinham faltado quasi de repente. E como o marquez era um fidalgo muito apprehensivo, e corriam uns certos rumores de cholera em Madrid, assustou-se tanto com a saída de sendeiro do bruto do creado, que, poucas horas depois, era cadaver, com grande desgosto da pobreza do bairro. E por todas as partes se se ouvia dizer: «Estes homens, assim, nunca deviam morrer.»
O tio Paciencia emprehendeu a jornada do ceu, muito contente com a esperança de gosar da gloria eterna, de viver em um mundo onde todos os homens eram eguaes,e finalmente de encontrar ali os seus queridos amigos Mamerto e Macario. Com relação porém a este ultimo pensamento não deixava elle de ter suas duvidas, porque dizia lá para os seus botões:
—E se lhe não querem abrir as portas do ceu?! Elles foram sempre homens de bem ás direitas; mas o demonio da paixão de Mamerto pelos toiros, e a tolice do Macario de casar segunda vez, tendo-se saído tão mal da primeira, fazem-me receiar que lhes dêem com a porta na cara.
Para saír um tanto de duvida, perguntou a um viandante se tinha visto passar por alí dois sugeitos, com estes e aquelles signaes; e como elle lhe respondesse affirmativamente, proseguiu o tio Paciencia no seu caminho, mais alegre que umas paschoas.
O caminho do ceu era escabroso e áspero, e essa era por certo a razão porque n'elle se não encontrava senão gente pobre e habituada á fadiga.
Impressionado o tio Paciencia por não ver nenhumfigurão, entre tantos caminhantes, dizia, de si para si:
—Não admira que os homens ricos não façam esta viagem, porque teriam de fazel-a no cavallinho de S. Francisco. Se podessem emprehendel-a de carruagem, os diabos me levem, se não viamos por aqui mais trens do que no Prado e na Fonte Castelhana.
O tio Paciencia interrompeu as suas reflexões ao vêr approximar-se, vindo do lado do ceu, um homem, que chorava como um bezerro, e dava mostras da maior desesperação. Era nada mais nem nada menos do que o tio Mamerto.
O tio Paciencia sentiu uma pancada no coração, annunciando-lhe alguma desgraça, quando reconheceu o seu amigo.
—O que tens tu, homem? perguntou elle ao tio Mamerto.
—Que demonio hei-de eu ter! Se eu não fosse um bruto, como não ha segundo, não me fechavam para sempre as portas do ceu!
—Mas então como foi isso? explica-te com a bréca, que me tens o coração em talas. Aposto que não foi senão por causa da maldita paixão pelos toiros.
—Parece-me que concorreu.
—Vamos, por quem és, conta-me o que se passou.
—Cheguei á portaria do ceu, e encontrei alí uma porção de gente, que estava á espera de vez para entregar os passaportes para o outro mundo. O porteiro, que visava os papeis, com a sua grande calvaá mostra, e o seu mólho de chaves na mão, levava a coisa com toda a pachorra, e moía-os com perguntas, primeiro que permittisse a entrada. Eu, que, como é bem natural, estava morto por me vêr lá dentro, disse com os meus botões:—Este velho, com os seus vagares, é capaz de me conservar aqui de fóra até á noite. Pois deixa estar, que se te pilho distraído, atiro commigo lá para dentro, ainda que depois me cortes uma orelha, como fizeste ao pobre Malco. Estava eu a pensar n'este expediente, quando vejo o porteiro armar uma questão com um pobre diabo, a quem não deixava entrar, com o pretexto de ter sido apaixonado de toiros. Ahi temos nós os toiros! disse eu, ao vêr aquillo. O velhote é capaz de me fazer esperar uma eternidade,e por fim, se chega a saber que tambem fui affeiçoado ás toiradas, nega-me a entrada, como aconteceu com o outro. E que faço eu? Assim que o porteiro deu uma volta: zás!raspo-melá para dentro. Já dava graças a Deus pela minha resolução, e vae senão quando o porteiro, dá-lhe na cabeça contar quantos estavam na portaria, e conhece que lhe falta um.
«—Falta-me aqui um! grita enraivecido, e aposto uma orelha que não é senão o madrileno. Ou elle não fosse de Madrid, o maroto, que se escoou lá para dentro como um gato: deixa estar que já vamos ajustar contas!
«—Ó meu senhor, disse da banda um adulador, que tinha assim geitos de cortezão, quer que eu lh'o saque de lá para fóra por uma orelha?
«—Deixemos-nos d'orelhas, respondeu o velhote; e chamando uns musicos, a quem fallava com muito agrado, porque parece que lhe tinham sido recommendados por Santa Cecilia: Toquem lá a musica da saída do toiro!
«Os musicos começam de tocar, e eu(sempre sou muito bruto!) ao ouvir aquelle toque, julgo que ha corrida de toiros na portaria, e sáio muito lépido a vêl-a; de repente, o porteiro fecha a porta e deixa-me ficar de fóra, com uma cara de palmo e meio, dizendo-me:
«—Vá já para o inferno, seu meliante, que uma paixão por toiros como essa, não póde Deus perdoal-a.
«E aqui tens tu, querido Paciencia, como eu vou caminho do inferno por causa da minha maldita mania pelas toiradas!»
O tio Paciencia prorompeu em amargo pranto ao vêr a infelicidade do seu velho amigo, e esteve quasi a prégar-lhe um sermão, mas não o fez por se lembrar de que era prégar no deserto; ambos continuaram, por ultimo, o seu caminho; o tio Paciencia o do ceu, que era costa acima, e o tio Mamerto o do inferno, que era costa abaixo.
—Querem vêr que tambem me acontece alguma na portaria? O tal senhor porteiro tem um geniosinho endemoninhado!
Isto dizia o tio Paciencia, seguindo sempre o seu caminho, quando avistou outro homem, que vinha do lado do ceu. Estenão se carpia, nem se arrepellava; trazia porém a cabeça baixa, e denotava profunda tristeza.
—Esperem! disse o tio Paciencia. Os diabos me levem se aquelle não é o tio Macario! Pois que? Não é senão elle!
Com effeito, o tio Macario era o da cabeça baixa.
Os dois amigos abraçaram-se commovidos.
—Tu por aqui, Paciencia! disse o tio Macario. Para onde vaes, homem?
—Ora, para onde hei de eu ir? Vou para o ceu.
—Duvido muito que lá entres.
—Então porque?
—Porque é difficilimo entrar lá.
—E em que consiste a difficuldade?
—Consiste em ser o porteiro o velho mais caturra, que eu tenho visto. E para prova, basta o que se deu commigo.
—Conta depressa.
—Uma frioleira! Chegamos, eu e outro, á porta; chamamos, e apparece-nos o porteiro, com a sua grande calva e o competente mólho de chaves na mão.
«—Que é o que querem? pergunta elle.
«—Essa não está má! o que havemos nós de querer senão entrar?
«—Você é casado ou solteiro? pergunta o velho ao meu camarada.
«—Casado, responde o tal sugeito.
«—N'esse caso póde entrar, que basta essa penitencia para um homem ganhar o ceu; e isto por maiores que sejam os peccados, que haja commettido.
«E o meu companheiro entrou lá para dentro.
«—Caspite! disse eu com os meus botões; se aquelle ganhou o ceu por se ter casado uma vez, com mais razão o devo eu ter ganho por me haver casado duas. E larguei atraz do meu companheiro.
«—Onde vae o senhor? perguntou o porteiro, detendo-me por uma orelha.
«—Homem, o senhor deve estar farto de o saber! Vou para o ceu.
«—É casado ou solteiro?
«—Casado duas vezes á falta d'uma.
«—Duas vezes?!
«—Sim, senhor, duas vezes.
«—Pois vá para as profundas do inferno, que tolos d'esse lóte não têm entrada no ceu.
«E aqui vou eu, amigo Paciencia, caminho do inferno! São coisas que só a mim acontecem!...»
—É bem feito, disse o tio Paciencia, entre compadecido e indignado da parvoice do seu amigo. Não te dizia eu que não podia obter perdão de Deus quem duas vezes se casasse?
O tio Paciencia já não ia muito satisfeito e tranquillo, ao aproximar-se das portas do ceu, porque as noticias que recebera do geniosinho do tal porteiro, eram, na verdade, para intimidar o mais pintado.
—Vamos, tio Paciencia, dizia elle, é preciso que não desmintas, n'esta occasião, o appellido que te puzeram, porque, se consegues catechisar o porteiro, cólas-te lá dentro, e depois é que já ninguem te dá volta. O velhote é exquisito de genio, caturra e curioso como todos os porteiros... Mas tambem, deve a gente lembrar-se de que o pobre do homem é tão velho, que já não póde com os calções, e devemos ser indulgentespara com os velhos como para com as creanças, porque os extremos tocam-se. Demais, a paciencia é uma virtude, que o proprio Jesus recommendava ao apostolo S. Pedro, como se vê da seguinte cantiga:
Era S. Pedro na calvaperseguido do mosquito,e o Mestre lhe dizia:—Tem paciencia,Periquito!