CAPITULO II.
Das boiadas, que ordinariamente se tirão cada anno dos curraes, para as cidades, villas, e reconcavos do Brazil, assim para o açougue, como para o fornecimento das fabricas.
Para que se faça justo conceito das boiadas, que se tirão cada anno dos curraes do Brazil, basta advertir que todos os rolos de tabaco que se embarcão para qualquer parte, vão encourados. E sendo cada hum de oito arrobas, e os da Bahia, como vimos em seu lugar, ordinariamente cada anno pelo menos, vinte e cinco mil arrobas, e os das Alagôas de Pernambuco, dous mil e quinhentos arrobas; bem se vê quantas rezes são necessarias para encourar vinte e sete mil e quinhentos rolos.
Além disto, vão cada anno da Bahia para o Reino até cincoenta mil meios de sola; de Pernambuco quarenta mil; e do Rio de Janeiro (não sei se computando os que vinhão da nova Colonia, ou só os do mesmo rio, e outras capitanias do Sul) até vinte mil meios de sola: que vem a ser por todas, cento e dez mil meios de sola.
Outro he, que não sómente a cidade, mas a maior parte dos moradores do reconcavo mais abundantes se sustentão nos dias não prohibidos da carne do açougue, e da que se vende nas freguezias e villas: e que commummente os negros, que são hum numero muito grande nas cidades vivem de fressuras, bofes, e tripas, sangue, e mais fato das rezes: e que, no sertão mais alto, a carne e o leite he o ordinario mantimento de todos.
Sendo tambem tantos os engenhos no Brazil, que cada anno se fornecem de bois para os carros, e os de que necessitão os lavradores de canna, tabaco, mandioca, serrarias, e lenhas; daqui se poderá facilmente inferir, quantos haveráõ mister de anno em anno, para se conservar este trabalhoso meneio. Portanto deixar isto á consideração de quem ler este capitulo, julgo, que será melhor acerto, do que affirmar precisamente o numero das boiadas: porque nem os mesmos marchantes, que são tantos, e tão divididos por todas as partes povoadas do Brazil, o podem dizer com certeza, e dizendo-o temo que não parecerá crivel, e que se julgue encarecimento fantastico.