João Baptista Vico, remontando-se á infancia poetica das sociedades humanas, vai encontrar a origem dacuriosidade, filha da ignorancia e mãi da sciencia, n'um phenomeno natural que effectivamente devia de impressionar profundamente os sentidos e a imaginação dos homens primitivos.Acceitando da tradição biblica o facto do diluvio, e dando á terra o tempo sufficiente para enxugar da inundação universal e para exhalar os vapores seccos proprios a formarem o raio, descreve a impressão que no espirito dos gigantesvigorososerobustos, que então povoavam a terra, causára o coriscar d'aquelle meteóro através do ether, e o interesse com que ficaram olhando para o céo que desde logo consideraram como um{6}immenso corpo animado, o qual alguma cousa queria decerto exprimir por meio d'essa estranha linguagem de fogo.Personificando toda a immensidade do céo no grande deus chamado Jove, que tinha por sceptro o raio, e que por toda a parte os seguia, por isso que toda a terra era coberta pelo céo, o que, segundo Vico, explica a phraseJovis omnia plena, que Platão julgou dever traduzir por ether, os gigantes da terra renderam o primeiro culto á curiosidade, d'onde, como de uma semente abençoada, devia brotar o fructo precioso de todos os conhecimentos humanos.Quer acceitemos a tradição religiosa do diluvio universal, determinado por Deus para refundir toda a humanidade com a familia salva na arca de Noé, quer consideremos essa inundação geral como uma simples phase geologica, caracterisada por phenomenos glaciarios, o facto poeticamente narrado pelo philosopho napolitano subsiste em essencia, e, a nosso vêr, é de todo o ponto provavel, e quasi certo, que fosse um phenomeno meteorologico o primeiro estimulo da curiosidade humana.Vico lembra, afim de fazer acceitar a sua asserção, que ainda hoje os phenomenos naturaes lançam uma profunda impressão no animo de muitas pessoas, e cita especialmente, entre todos esses phenomenos, o da apparição de um cometa.Despertada a imaginação do homem pelo sentimento{7}da curiosidade, entrou elle no periodo mais laborioso e ao mesmo passo poetico da infancia da humanidade. Era até ahi como um pobre cego lançado na vastidão de um mundo desconhecido e mysterioso. Mas a chamma electrica do raio veio, para assim dizer, rarear as trevas da sua immensa cegueira; essa luz estranha converteu-se para elle, como se não fosse movel e fugitiva mas fixa e duradoura, n'uma como estrella de guia, que o obrigou a altear o pensamento para além das brenhas da terra em que como selvagem vivia.Assim como a criança tem deante de si, sem o presentir, sem o suspeitar, uma tarefa enorme a cumprir, o peso d'uma responsabilidade immensa, porque chegará um dia em que ella devera crear, permitta-se-nos a expressão, o mundo da sua existencia, construindo um ninho como as aves, organisando uma familia, norteando-a, como piloto, através dos mares aparcellados da vida; assim a humanidade era, n'esse periodo da sua infancia, chamada a cumprir a grandiosa missão de adaptar o mundo inteiro, como um ninho enorme, ás necessidades da sua existencia, de desbravar os caminhos por onde devia fazer a jornada dos seculos; de aproveitar todas as forças da natureza e as suas proprias, de as harmonisar, de as educar convenientemente para um fim commum; de pegar dos elementos creados e fundir com elles a gigantesca estatua da humanidade, com toda a perfeição relativa de contornos e relevos que hoje tem, porque a humanidade não era mais na sua infancia{8}que um esboço que importava accentuar, um molde que cumpria encher, uma força que tinha de desenvolver-se a si propria.Mas assim como a criança lentamente e quasi inconscientemente enceta a obra do seu futuro, carreando uma pedra dia a dia, dando hoje um passo, outro ámanhã, refundindo o seu espirito com o auxilio da primeira instrucção; assim tambem a humanidade se foi transformando por successivos esforços e progressos, fazendo hoje uma conquista, ámanhã uma creação, enchendo a pouco e pouco o molde vazio em que, estatua, tinha de fundir-se e completar-se.Pelo desenvolvimento da humanidade no momento actual é-nos facil avaliar a grandeza do seu trabalho através dos seculos, desde a origem do mundo até hoje. Religião, linguagem, agricultura, governo, industrias, commercio, artes, sciencias, tudo isso ella foi creando por um trabalho lento, que principiou por elementos simples, como se póde por exemplo ver na linguagem, onde o monosyllabo veio finalmente a converter-se nas linguas de flexão; na religião, onde a primeira elevação da alma para as forças da natureza, que foram encarnadas em symbolos grosseiros, veio a transformar-se na concepção grandiosa da divindade immaterial e absolutamente perfeita; no estabelecimento dos estados, onde o poder theocratico veio a parar nas modernas fórmas de governo que se pódem variar segundo o interesse geral; na agricultura, onde a rude cultura da terra, a{9}que o instincto impellia, se desdobrou na agronomia moderna, sciencia complexa, a que as invenções dos Dombasle, Fowler e Howard servem de diadema auriluzente; nas industrias, onde a vida pastoril exercida pelas tribus nómadas, e a da pesca, exercida pelas povoações costeiras, vieram a multiplicar-se na immensa diversidade de profissões e officios a que se dedicam as classes contemporaneas; no commercio, onde a simples troca de productos, n'uma área muito limitada, veio a metamorphosear-se nas grandes operações commerciaes que se alargam por todo o mundo, graças á invenção da moeda, aos progressos da navegação, aos rapidos meios de transporte; nas artes, onde os instrumentos de silex se transmudaram nos mais completos processos mechanicos, e os megalithos, que tanto se teem estudado hoje[1], vieram a converter-se nos grandiosos monumentos de nossos dias; nas sciencias, onde, por exemplo, a astronomia caminhou desde os pastores da Chaldéa, que contemplavam os astros, sentados nas eminencias penhascosas, pelo silencio da noite, até que essa sciencia celeste terminou com Newton, como diz Larousse, a sua evolução historica.Durante esta obra de seculos, emquanto as bellas instituições da humanidade se fixavam na terra tão nova{10}como ella, ao mesmo tempo que as plantas enraizavam no solo e bebiam os succos nutritivos n'uma exuberancia caudal, os homens, como a criança, só poderam olhar para deante, para o futuro. O seu berço ficava ainda tão perto que não havia tempo de ter brotado d'elle esse doce sentimento que as lagrimas purificam, e que não poucas vezes conduz á reconstrucção do passado pela memoria,—a saudade; ou antes, como diz Cantu[2],os antigos tinham ainda muito poucas ruinas deante de si, phrase que Edgar Quinet repetiu[3],—e sendo o passado o campo aberto ás investigações da historia, onde quasi não havia passado não podia haver historia.Sim. Dai um montão de ruinas ao homem, e conseguireis fazer d'elle um historiador. Uma vertebra, que no fim de contas é uma ruina do vasto edificio zoologico, bastou a Cuvier para a reconstrucção do passado. É pelo esqueleto das gerações que nos antecederam que os sabios de nossos dias teem realisado as mais assombrosas conquistas da sciencia moderna.Mas havia transcorrido o tempo e as nacionalidades tinham sahido recentemente do berço, porque a humanidade gastára longo periodo da sua infancia na vida errante e rude primeiro que podesse constituir-se em tribu, e que da tribu nascesse a nação. Como acontece com as grandes obras d'arte, as instituições humanas foram modeladas{11}por um esboço, e aperfeiçoadas depois. O esboço da nação foi a tribu.Parece-nos, porém, questionavel a fixação do periodo de desenvolvimento humano em que se constituiram as primeiras sociedades.«Na verdade, diz Cantu, como podiam os laços do matrimonio e da paternidade tomar-se deveres antes do homem comprehender o bem que d'isto deriva e os meios de o alcançar? Como conceberia as vantagens da sociedade o que nunca as tivesse experimentado? Para que os homens se unam entre si, e façam um pacto social, é forçoso que possuam uma linguagem commum para se entenderem uns aos outros, e fórmas de convenção, de assembléas, e de representação; isto é, que estejam reunidos já em sociedade.»Não concordamos, a este respeito, com a opinião de Cantu, pelas razões seguintes.As relações naturaes a que o auctor daHistoria universalallude na primeira interrogação, e que, segundo elle, importam a comprehensão dos deveres que d'ellas derivam, annullam, assim encaradas, a idéa de instincto, facto comprovado em todas as especies animaes, e até nas vegetaes. Para as aves, por exemplo, os laços d'essas relações naturaes convertem-se em deveres, e todavia nós não podemos suppôr nas aves a noção moral de dever. Emquanto, entre algumas familias aladas, a mãi acalenta o ovo, o pai divaga procurando alimento para a femea, e muitos naturalistas citam o facto de certas aveseducarem{12}seus filhos no que chamaremosarte do vôo, antes de os abandonarem a si mesmos.Quanto á segunda interrogação, convem distinguir entre o facto de constituir sociedade e o conhecimento das vantagens que d'ella resultam. Tambem poderemos suppôr nas aves, que se agremiam em grandes bandos, o conhecimento das vantagens que d'essa aggremiação resultam? As formigas, que vivem e trabalham em commum, obedecerão simplesmente ao instincto de conservação, ou serão impellidas pela elevada idéa da utilidade de associação?Quanto á terceira interrogação, isto é, á necessidade de uma linguagem commum para que os homens possam reunir-se por um pacto social, desejamos accentuar mais largamente a nossa maneira de pensar.Não somos da opinião dos que affirmam que haja tribus completamente privadas de linguagem, mas entendemos com sir John Lubbock[4]que essas tribus possuem todas uma linguagem, comquanto muito imperfeita e complicada de signaes.Bastará citar em abono d'esta asserção o facto de entre os indios kiawa-kaskaia as tribus communicarem diariamente entre si, segundo o testimunho de James[5], ignorando completamente a linguagem umas das outras. «Pelo que não é raro, diz James, vêr dous individuos,{13}pertencentes a tribus differentes, sentados no sólo, conversando facilmente por signaes. São muito habeis em exprimir por este modo as suas idéas, e apenas interrompem o jogo das mãos, a longos intervallos, por um sorriso ou por uma palavra pronunciada no idioma dos indios crow, o mais espalhado ainda entre elles.»Por onde nos é licito vêr que sobre a mais imperfeita e rudimentar linguagem, a dos signaes, estabelecem os indios kiawa-kaskaia as mais cordeaes relações de sociabilidade com as tribus visinhas. Finalmente, a theoria de Vico, dospovos mudos, exprimindo-se por meio de corpos ou de imagens, que tinham alguma relação natural com as idéas que queriam exprimir, por exemplo,tres espigaspara significarem a idéa abstracta detres annos[6], é manifestamente muito mais acceitavel do que a de Cantu, porque se funda na propria natureza humana, e destroe a opinião de que sem uma linguagem, no estado de perfeição em que Cesar Cantu parece suppol-a, a associação humana é inadmissivel.O dr. Luiz Büchner[7]confirma a opinião de Vico. Crê, segundo Westropp, que o homem primitivo foi necessariamente um sêr mudo, e a linguagem articulada uma acquisição lenta e gradual; que ella teve por origem os gritos espontaneos de prazer e dôr, a que succederam{14}os sons imitativos (onomatopéas), razão por que na grande variedade de todas as linguas (cerca de tres mil) ha um numero consideravel de sons equivalentes, e até mais ou menos analogos. Cita uma observação de William Bell, a respeito do monosyllaboloh, empregado em muitas linguas para designar a luz, a chamma, e que procede da simples exclamaçãooh!precedida de umlou de uma vibração da lingua. Crê que a pouco e pouco se foram formando os polysyllabos, pela repetição de um som simples, como nas palavrasmamã,papáou pela agglutinação das syllabas. «Depois, observa finalmente, o simples grito, correspondente a um sentimento, foiimitado pelos companheiros d'aquelleque o soltou, e acabou por tornar-se um signal representativo fixo servindo a designar o proprio sentimento.»Aqui temos nós a linguagem, não como base de sociedade, mas, ao contrario, tomando a sociedade como base da sua perfeição.Estabelecida a procreação pelo instincto, força irresistivel da natureza humana, que principiou a manifestar-se no homem desde os seus primeiros passos na terra, achando-se ainda embryonarias todas as forças moraes e intellectuaes, que por um lento progresso permittiram depois as mais elevadas concepções, e as mais assombrosas conquistas, foi ainda o instincto que levou a humanidade a lançar mão das primeiras industrias, da vida pastoril, da caça, da pesca, do commercio, segundo as condições naturaes dos paizes. «Assim as diversas industrias, diz Cantu, nasceram{15}e cresceram na razão dos lugares; porém a agricultura foi a que introduziu maiores mudanças na constituição moral. O homem, querendo, quando cultivou um campo, seguir com a vista as esperanças que lhe dava, construiu junto d'elle uma habitação; então aquelle sentimento tão imperioso, que chamamos amor da patria, apparece, e a estabilidade do lar domestico dá origem á associação civil.» Mas olar domesticoa que se refere Cantu está longe de ser a moralidade pela familia, pela familia que a monogamia santificou. O agricultor vivia rodeado dos seus escravos, e dos filhos; de procedencias diversas, escravos tambem. O pai era osenhor; governava pela força. A mulher era simplesmente umacousa, um instrumento de reproducção; e as mais das vezes era arrebatada á sua tribu por violencia. Portanto, as primeiras familias foram uma reunião de escravos dominados por um chefe, só muito tarde, como mostra Lubbock[8], baseando-se nos trabalhos de Bachofen, M. Lennan e Morgan, é que se reconheceu que os filhos eram parentes de seu pai e de sua mãi. Mesmo em Roma, a palavra familia significava—escravos.—A mulher e os filhos só por serem escravos eram considerados familia.Vico mostra, por uma observação philologica, a verdade d'estas affirmações. Sustentando, como na formação da linguagem, osverbosvieram depois dosnomes, e como os primeiros verbos foram certamente aquelles que{16}são como que osgenerosou osradicaesde todos os outros, exemplo,sum, que contémtodas as cousas metaphysicas,—sto, que exprime a immobilidade, eeo, que significa o movimento, observa por ultimo que estes verbos apenas tiveram a principio o modoimperativo, porque noestado de familia, e na excessiva pobreza de linguagem que então havia, só ospaesdavam ordens a seusfilhos ou a seus criados, ao passo que estes,submettidos ao terrivel imperio do chefe de familia, obedeciam sem murmurios ás suas ordens[9]. Ainda hoje, entre os kalmuckos do Volga, o azorrague é o sceptro e o symbolo do poder domestico[10].Foi certamente com esta mesma força de auctoridade que nasceu o chefe de tribu. Se a reunião de algumas pessoas carecia de uma que a regesse, a reunião de algumasfamilias, por maioria de razão, carecia de um magistrado que a governasse. Os chefes defamiliaousenhoresreuniam-se para se entregarem, em condições de segurança, ao exercicio da caça. Escolhiam certamente d'entre elles, para os dirigir, o que mais se assignalava pela destreza e certeza de caçador. Reconhecida a sua superioridade natural, ficava sendo o dominador da tribu. E esta authoridade devia ser tanto mais respeitada e temida, quanto era certo que se baseava n'um facto indestructivel e inevitavel, revestido de caracter divino,{17}porque a força era um attributo que não dependia da vontade do homem.Da agglomeração das tribus nasceu a nação, como da agglomeração dasfamiliashavia nascido a tribu.Sendo, porém, maior o numero de governados na nação do que na tribu, era preciso que o chefe escolhido para governal-os dispozesse de qualidades physicas ainda muito mais consideraveis. A mais importante de todas essas qualidades era a força, que, n'uma raça de valentes, não podia deixar de considerar-se um direito hereditario para governar. Cesar Cantu observa que o vocabulodynastia(dedynamis, força) indica a origem de um tal poderio.Temos, finalmente, fixada a nação, a nacionalidade, sob o imperio da força, origem dos grandes como dos pequenos estados, em todos os paizes e tempos. Citemos dous exemplos, ao acaso. «Romulo e os seus successores, diz Montesquieu[11], estiveram quasi sempre em guerra com os povos visinhos para ter cidadãos, mulheres ou terras; voltavam a cidade com os despojos dos vencidos; eram feixes de trigo e rebanhos: o que causava uma grande alegria. Eis-aqui a origem dos triumphos que foram no futuro a principal causa das grandezas a que esta cidade chegou.» A origem da moderna e pequena monarchia portugueza encarna-se, para assim dizer, na{18}athletica figura de Affonso Henriques, o terrivel perseguidor dos mouros, o guerreiro de estatura agigantada.A propria origem das primeiras nacionalidades as impelliu á guerra, que, segundo Victor Cousin[12], é o instrumento terrivel mas necessario da civilisação. «A hypothese de um estado de paz perpetua na especie humana—diz elle—é a hypothese da immobilidade.» Comquanto não nos exalte em favor da guerra esta opinião de Victor Cousin, somos todavia levados a acreditar que a vida das primeiras nacionalidades se fortaleceu pela guerra, como o corpo de uma criança se fortalece pela gymnastica. Além do que, a victoria, lisonjeando o orgulho dos povos, nobilitava, para assim dizer, as suas aspirações de grandeza, e arrastava-os a assignalarem a si mesmos uma origem divina, aspiração que é a primeira fonte das tradições poeticas d'esses mesmos povos[13].Acordada, portanto, a imaginação popular, cerca-se o berço das nações das brumas do maravilhoso.Os quatro livros sagrados de Confucio, reconstruidos de memoria, depois de haverem sido queimados, e acrescentados com tradições, fazem remontar a historia da China, especialmente o ultimo livro, a um passado fabuloso. Na mais antiga parte dosVedas, oRigveda, os indios agradecem a intervenção do poder celeste nos seus combates. Indra protege a carnificina, como nós, quando{19}procurámos uma origem maravilhosa, fizemos intervir Christo na batalha de Ourique.Por um lado as tradições poeticas, as narrativas fabulosas geraram a Historia. Por outro lado os factos reaes, especialmente os combates, misturados com as legendas phantasticas, desenvolveram-na.Como para haver Historia é preciso que haja ruinas, a guerra foi o maior elemento da Historia, porque produz cadaveres, e os cadaveres são as ruinas da humanidade. Os seculos não passavam impunemente, sem fazer destroços. Na China, a monarchia dosHia, que durou quatrocentos annos, acabou acompanhada de graves perturbações. Eis-aqui como foram augmentando os materiaes da Historia: ruinas e destroços.Foi assim que, semelhante ao sol que nasce velado pelos vapores coloridos da manhã, surgiu, na successão dos tempos, a historia de cada nação, envolta nas tradições maravilhosas da sua origem poetica.Que interessado enthusiasmo não devia de ser, porém, o dos primeiros homens que puderam quebrar imaginariamente o sello sagrado da sepultura das gerações que os precederam no perimetro da sua nação, e soprar-lhes vida nova, imitando a fabula de Pygmalião, o estatuario divino, e dar-lhes pensamento e voz, e ouvil-as, e collocal-as á volta de si mesmos, vendo-as passar em turbilhões phantasticos como na formosa ballada da dança dos mortos! O historiador, por uma arrojada abstracção, collocava-se fóra do seu paiz, e com uma poderosa{20}alavanca, muito semelhante á que o sabio Archimedes pedira ao rei Hieron, levantava a terra que lhe fôra berço com o peso enorme das gerações que a povoaram, mostrando-a suspensa aos olhos do mundo. Era realmente assombrosa esta nova conquista do pensamento humano, tanto mais que podia o homem transmittil-a aos seus successores por meio da tradição escripta. Sentiu-se decerto orgulhoso de si mesmo o homem que pôde legar aos seus descendentes essa preciosa cadêa de ouro que o prendia ao passado, á vida de seus avós, á gloria da antiguidade; fez, para assim dizer, um presente de seculos aos seus descendentes, que, por sua vez, arremessaram para a immensidade do futuro a outra extremidade da corrente de ouro, a que as gerações subsequentes haviam de encadear novos anneis.Chegado á grande conquista do que chamaremosfaculdade historica, isto é, ao desenvolvimento intellectual que permittiu transpor os limites da vida individual para se internar no estudo da vida nacional, apossou-se o homem de um poder verdadeiramente superior, que lhe permittia reconstruir o passado.Se é attribuido a Christo o poder de ter resuscitado um só homem pelo milagre, o homem logrou resuscitar a nação pela Historia.Mas os primeiros historiadores deveram forçosamente de assemelhar-se a estas arvores que, exuberantes de seiva na primavera, se cobrem totalmente de flôres, como a amendoeira. A imaginação, excitada pela tradição poetica[14],{21}estava n'elles em pleno vigor, pompeava as suas galas luxuriantes, á maneira das florestas virgens que se enredam em labyrinthos de phantasiosas ramarias.Sendo certo que o ardor da imaginação arrasta á excessiva credulidade, os primeiros historiadores foram profundamente credulos, e bordaram as suas narrações com todas as tradições, legendas e fabulas, que a imaginação acceitára com prazer ou até com enthusiasmo.Herodoto é um historiador poeta, que divinisa a Grecia; Tito-Livio dá largas á imaginação para descrever e declamar; Suetonio contenta-se com colleccionar anecdotas, que, por via de regra, tanto costumam lisonjear os espiritos frivolos, porque são um brinco para a imaginação.Na successão dos tempos o christianismo, com o seu cortejo de legendas piedosas, com as exagerações proprias da exaltação da fé, contribuiu por sua vez, e não pouco largamente, para prolongar o predominio da imaginação na Historia, e retardar o advento do criterio philosophico e independente.Toda a gente sabe como a imaginação dos povos occidentaes se exaltava com a posse das reliquias de um santo, n'uma época ainda relativamente proxima de nós. Sicard, duque de Benevento, declarava guerra a Amalfi só para obter os restos mortaes de Santa Triphomena.{22}Theodoro, bispo de Metz, preava em Roma, na presença do papa, a cadêa de S. Pedro, e jurava que não a largaria sem que primeiro lhe cortassem as mãos, porque a desejava possuir[15]. Jerusalem, a cidade celeste, apparecia ás imaginações christãs como um sagrado jardim rociado pelas lagrimas de Maria e pelo sangue de Jesus, e povoado das rosas de Engaddi, dos cedros do Libano, das oliveiras de Gethsemani, para nos servirmos de uma expressão alheia.A cavallaria, em que o elemento christão se accentuou de modo a gerar as ordens militares religiosas, veio ainda inçar a Historia com as aventuras dos paladinos, com os matizes d'essa vida de imaginação, tão futil mas tão pittoresca. A febre da cavallaria chegou a ser tamanha, que bastará citar um só facto para comproval-a. Quando CarlosVfoi coroado em Bolonha, tocou com a espada na cabeça dos que desejavam ser cavalleiros, dizendo a cada um:Esto miles.Mas como todos gritassem em volta do rei:Sire, sire, ad me, ad me, CarlosV, estendendo a espada sobre a multidão, viu-se obrigado a dizer:No puedo mas. Estote milites, estote milites, todos, todos[16].Na época a que nos vimos referindo, os historiadores engrinaldavam as suas lucubrações com as flôres colhidas pela mão do amor e com as rosas cortadas nos{23}hortos de Jerusalem, pois que tanto valiam umas como outras, como claramente demonstra o annel nupcial com que S. Luiz brindou Margarida de Provença, o qual era formado de margaritas e de lizes alternados, tendo no meio um cruciflxo circuitado por esta inscripção:Hors cet anel pourrions-nous trouver amor[17]?Na historia portugueza andaram por muito tempo dous episodios, que tiveram por origem o maravilhoso da tradição religiosa e o maravilhoso da tradição cavalheiresca. Referimo-nos ao milagre de Ourique, refutado por Herculano, e á instituição da ordem de S. Miguel da Ala, refutada por fr. Francisco de S. Luiz.Quando havia de soar, porém, a hora em que o maravilhoso, o predominio da imaginação, devia ser banido da Historia? em que essa especie depeccado originaldevia desapparecer batido pelo criterio philosophico?Coube aos tempos modernos a gloria de refundir a Historia, de lhe dar um novo rumo, de alargar as suas vistas espraiando-as por sobre toda a humanidade. A primeira idéa da Historia universal nasceu no seculoXVII, época relativamente muito recente, mas esta nova e grandissima conquista do pensamento humano só tarde podia chegar. Era preciso deixar accumular ruinas sobre ruinas, destroços sobre destroços, dar tempo a que os imperios desabassem, a que as religiões desapparecessem, a que os cadaveres dos homens e das instituições{24}se amontoassem, para que de cima de todos esses enormes escombros se levantasse sereno e altivo o pensamento humano, semelhante a uma grande aguia, e alçasse o vôo até pairar n'uma esphera superior e poder medir, com segura agudeza de vista, a profundeza dos destinos da humanidade na successão dos seculos.Victoria immensa foi essa, triumpho assombroso o que permittiu que o homem alargasse por todo o mundo o dominio do seu espirito, que reconstruisse a humanidade como os primeiros historiadores haviam reconstruido a nação; que zombasse da morte animando as cinzas dos cadaveres e povoando com elles, por um poder maravilhoso do espirito, os imperios que tinham apparecido e desapparecido á face da terra, como plantas marinhas que ora surgem fluctuando no dorso da onda, ora se escondem nos sulcos profundos do oceano!Desde o momento em que o homem pôde realisar esta synthese estupenda, o maravilhoso, as tradições fabulosas fugiram espavoridos do dominio da Historia. Outr'ora, como observa Edgar Quinet, «cada nação se fazia o centro e o fim do universo, e se impunha á adoração do genero humano[18]»; agora era o genero humano que se impunha á admiração de cada nação. Perante o enorme conjuncto dos povos, já não podia pensar-se em assignalar a origem de cada um singularmente; desapparecia o orgulho nacional, o excessivo sentimento de{25}amor patrio que procurava revestir essa origem de ouropeis poeticos; agora era preciso procurar a filiação da humanidade, estudar a sua apparição na terra, as suas divisões e evoluções, e tomando a peito a resolução de tamanhos problemas não havia tempo para estar a inventar fabulas, que ficavam esmagadas, como flôres inuteis, sob o carro da nova idéa, ou antes da nova sciencia vencedora. Como flôres inuteis, dissemos nós, e todavia devemos reflectir, avisados por Victor Cousin[19], que os primeiros erros são inevitaveis e ao mesmo passo uteis, porque fornecem a base de todo o progresso. De feito, não se póde entender a idéa de progresso senão á vista de primordios que se tornam defeituosos quando comparados com trabalhos posteriores. «Sem as attrahentes chimeras da astrologia, sem as energicas decepções da alchimia, por exemplo, onde teriamos nós haurido, pergunta Augusto Comte, a constancia e o ardor necessarios para recolher as longas series de observações e de experiencias que, mais tarde, teem servido de fundamento ás primeiras theorias positivas de uma e outra classe de phenomenos[20]»?Até agora tinhamos diante de nós a Grecia, Carthago ou Roma, e feita a historia separada de cada uma d'essas nações, julgavamos que tudo estava feito. Pelo contrario,{26}tudo principiará agora a fazer-se, tomando por elementos de trabalho as ruinas d'esses emporios. Desde o momento em que nos collocamos n'um plano superior a todas as nações, creamos a Historia universal, e, conhecendo pela Historia universal os factos da vida dos povos, salteou-nos o desejo de averiguar as relações que poderiam existir entre os factos e as idéas, de conhecer se todos esses factos seriam obra do acaso, ou se cada povo teria sido impellido por um mobil secreto para o cumprimento de determinada lei e encarregado de desempenhar uma missão no grande conjuncto da civilisação geral.De tal desejo nasceu, no seculoXVIII, a Philosophia da historia.Assim como a medicina seria uma sciencia imperfeitissima, destinada a caminhar ás cegas, se a physiologia não houvesse podido penetrar na vida interior do corpo humano, assim a Historia universal ficaria condemnada a contemplar tão sómente o enorme vulto do gigante que se chama humanidade, se a philosophia, desempenhando missão semelhante a da physiologia no campo das sciencias medicas, não perscrutasse o que ha de intimo e de secreto no seio d'esse colosso, se, por outras palavras, não habilitasse a escrever a verdadeira historia da humanidade[21].Uma nação constitue-se, florece e cahe. No fim de contas, pergunta um philosopho[22], o que é uma nação de{27}mais ou de menos na humanidade? E tem razão. A Historia não passa além do tempo marcado á existencia d'essa nação, quer dizer, acompanha-a até ao seu ultimo dia, mas a Philosophia da historia procura estudar a influencia que essa nação extincta imprimiu na sorte da humanidade, qual o papel que representou no grande concerto dos destinos da civilisação.Os povos são individualidades conscientes. Ora todos os factos praticados por individualidades conscientes, embora hajam sido determinados por causas variadas, representam uma idéa.A Historia estuda os factos; a Philosophia estuda a idéa que cada um d'esses factos envolve.Portanto a Philosophia completa a Historia.Bossuet, o sabio prelado de Meaux, foi quem primeiro executou a idéa de uma Historia universal. Dedicando o seu vasto trabalho ao Delphim,—vasto, sobretudo, em relação a época—procura lançar a vista sobre a successão dos seculos, afim de que no espirito do principe permaneçam gravados os traços geraes da vida da humanidade se por ventura se lhe desluzirem da memoria os episodios das historias particulares.«Esta maneira de historia universal—diz elle[23]—é, a respeito da historia de cada paiz e de cada povo, o que uma carta geral é para as cartas particulares. Nas cartas particulares estudaes miudamente um reino ou uma provincia{28}em si mesmos; nas cartas universaes aprendeis a situar todas as regiões do mundo conjunctamente; vêdes o que Paris ou a ilha de França é para o reino, o que o reino é para a Europa, e o que a Europa é para o universo.»Realmente, este espectaculo offerecido por Bossuet ao Delphim era assombroso, mas não se póde considerar como propriamente uma invenção do prelado de Meaux. Por isso dissemos anteriormente que foi elle quem primeiroexecutoua idéa de uma Historia universal.Bossuet, traçando o plano da sua obra, antepõe a tudo o mais a historia do povo de Deus,que foi o fundamento da religião. Escreve, portanto, sob o ponto de vista religioso, ou antes faz-se um echo da Igreja. A sua obra é, para assim dizer, um desdobramento da Biblia, e toda a originalidade que revela está, como observa Cousin, na execução. Vendo caminhar o povo de Deus á face da terra, sempre guiado pelo milagre, que faz, por exemplo, com que a vara de Moysés aparte as aguas do mar Vermelho, Bossuet vê em todos os passos d'esse povo a mão de Deus, o espirito do Senhor. O plano descoberto por Bossuet na mobilidade dos acontecimentos humanos é traçado pela Providencia. «Mas lembrai-vos, meu senhor—conclue o prelado de Meaux[24]—que esta longa cadêa das causas particulares que fazem e desfazem os imperios, depende das ordens secretas da divina{29}Providencia.» Embora arrastado pelas convicções profundamente religiosas do seu tempo e do seu espirito, e até pelo dever da sua posição social, Bossuet tem um ponto de vista exclusivo, unico, intransigente; mas em todo o caso imprime á Historia um caracter philosophico, porque determina um mobil e um fim a todos os acontecimentos humanos.O exclusivismo de Bossuet é seguramente, pelo menos á luz da sciencia moderna, o maior defeito da sua obra. Havendo elle comparado a Historia universal a um mappa-mundi, onde se póde vêr o que Paris é para a França, a França para a Europa, e a Europa para o universo, esquece-se comtudo, perante o espectaculo da Providencia, embevecido em extasis religiosos, de estudar as relações dos povos entre si para se elevar até á humanidade. Elle preoccupa-se com o povo de Moysés como se esse povo constituisse por si só a humanidade. Na historia dos imperios, a que consagra a terceira parte da sua obra, procura systematicamente a ligação, que reputa necessaria, com a historia do povo de Deus. Não só o Oriente falta no grande livro de Bossuet,—pondera Cousin[25]—assim como a historia das artes, da industria e da philosophia; mas tambem as religiões e as instituições politicas dos differentes povos são algumas vezes tratadas de modo um pouco superficial, se bem que de longe a longe, e por exemplo na historia romana, haja{30}relampagos de uma sagacidade superior e paginas que lembram Machiavel e antecipam Montesquieu.»Lançada a primeira pedra no vasto edificio da Historia da humanidade, uma de duas cousas havia fatalmente de acontecer: ou a obra de Bossuet ficaria esquecida e, portanto, perdida, ou novos obreiros viriam continuar a fabrica gigantesca. Felizmente, um homem verdadeiramente superior, um «d'estes genios descobridores que alcançam as verdades na sua maior generalisação»[26], appareceu em Italia, illuminando com os relampagos do seu genio a grande obra da historia das idéas humanas, porque, já o dissemos, a historia dos povos não é outra cousa, ou antes creando elle proprio uma sciencia nova,scienza nuova, arainha das sciencias, «porque as sciencias devem começar onde a materia e o objecto de que tratam principiam, e esta começará de feito com os primeiros pensamentos dos primeiros homens, e não com as primeiras reflexões dos philosophos sobre as idéas humanas[27].É claro que nos referimos a João Baptista Vico.O immortal philosopho napolitano, cujas obras despertam a mais sympathica admiração e o mais profundo interesse, extrahe danoite profunda e tenebrosa que envolve a antiguidade, uma affirmação completamente nova e surprehendente:O mundo civil foi certamente feito pelos homens{31}ou, n'uma phrase mais synthetica ainda,a humanidade é obra de si mesma.Remontando-se á origem do mundo das nações, ou mundo civil, João Baptista Vico acceita a tradição biblica de que a terra fôra repovoada pelos descendentes de Noé, os quaes, rompendo os laços de familia por ligações passageiras e arbitrarias, se espalharam nagrande floresta da terra.A infancia da humanidade é semelhante, segundo Vico, á infancia do homem.Os homens são mudos na sua origem. Vivem apenas porque o instincto os leva a conservarem-se. Mas o primeiro trovão e o primeiro raio lançaram no seio da humanidade nascente uma luz nova, a primeira noção da divindade, como já mostramos no principio d'este trabalho.A commoção que o primeiro phenomeno meteorologico produziu no homem, desprende-lhe a lingua: póde, finalmente, pronunciar o primeiro monosyllabo.O desenvolvimento da palavra faz-se lentamente na humanidade como no homem. A insufficiencia da linguagem é supprida por signaes, por gestos ou pela grosseira representação dos objectos na casca das arvores, origem dos hieroglyphos. Para facilitar a articulação das primeiras palavras, os homens fallam cadenciadamente: é a origem dos cantos, dos versos, da pantomima e da dança. Desenvolvidos os orgãos da voz, as primeiras palavras são a copia dos sons da natureza. Depois as palavras perdem a significação natural e tomam uma significação{32}convencional; o mesmo acontece na escriptura, a partir dos hieroglyphos.O homem, assustado pelo trovão e pelo raio, escondeu-se nas cavernas da terra, receando d'um poder superior a elle; e ahi occultou tambem a sua companheira. D'esta juncção nasceu a familia, a que o homem teve de procurar alimentos, tendo de sahir, para encontral-os, dos recessos das cavernas. Do accordo dos deveres e das necessidades, a que esta primeira sociedade deu origem, nasceu o direito natural.Segundo a formosa theoria de Vico, vêmos, pois, como o homem é um producto de si mesmo, e o mundo civil é feito pelo homem.Na existencia de cada povo, Vico encontra a idade dos deuses, ou a época em que a imaginação e o medo divinisam as forças da natureza; a idade dos heroes, ou a época em que os homens, imaginando que tudo é obra dos deuses, attribuem a si mesmos uma origem divina; finalmente, a idade historica, em que o heroe se humanisa, e em que a natureza humana se torna intelligente, modesta, dôce e razoavel, obedecendo por consequencia á lei da consciencia, da razão e do dever, como diz o proprio Vico[28].Dentro do circulo fatal d'estas tres idades ou naturezas, é que a vida dos povos se desenvolve e completa. Chegado ao grau de perfeição que fica assignalado, cada{33}povo extingue-se como uma flôr que attingiu o seu maximo desenvolvimento. Outro povo, como outra flôr, o ha-de vir substituir dentro do mesmo circulo fatal.Toda a theoria de Vico se póde representar graphicamente por uma serie de linhas parallelas, que a nosso vêr exprimem perfeitamente o seucorsiericorsi, o progresso e retrocesso dos povos. Segundo esta theoria, os governos começam pelaunidadenas monarchias de familia; pelomenor numero, nas aristocracias heroicas; pelomaior numero, nas republicas populares, e acabam pelaunidade, como principiaram, nas monarchias civis. A successão d'estes periodos abrange a vida de cada povo.Assim, Vico, traçando, nos tempos da primeira barbarie, a longa linha decorsi, encontra os paes de familia exercendo um governo, cuja authoridade pretende derivar dos deuses. Esse é o periodo do mutismo; a expressão do pensamento é gesticulada, hieroglyphica (Monarchias de familia). Os homens errantes refugiam-se junto dos paes de familia, que lhes não querem reconhecer direito algum. Os adventicios revoltam-se. São vencidos pelos paes de familia. Revoltam-se de novo. Os paes de familia procuram fortificar-se formando uma classe e regulando os direitos dasgentes minores, dos adventicios (Aristocracias heroicas). Segue-se o periodo em que a continuação das revoltas por parte dasgentes minoresobtem concessões que produzem finalmente o governo humano, isto é, do maior numero (Republicas populares).{34}A estas épocas de agitação succede naturalmente um periodo de repouso, a monarchia. Mas cumpre notar que por isso que as monarchias e as republicas populares são ambas uma expressão dogoverno humano, podem succeder-se alternadamente.Tracemos agora, segundo Vico, parallela á linha decorsi, a linha dericorsino periodo da segunda barbarie.Voltam os tempos divinos. Os reis são os defensores da religião, magestades sagradas. Revestem a dalmatica dos diaconos. A corôa é encimada pela cruz. Fundação das ordens religiosas armadas. Os signaes dos brazões correspondem á linguagem hieroglyphica.—Regressam os tempos heroicos pelo feudalismo. Os barões são os heroes; os servos são asgentes minores.—Finalmente, os esforços dos vassallos para conquistarem a liberdade, em virtude da lei de que a potencia livre de um estado deve passar ao acto, vencem os esforços dossenhorese dão origem ao governo domaior numero, isto é, aos governos democraticos modernos.Vico, encontrando o parallelismo doscorsiericorsina linha d'extensão, não o pôde comtudo achar na duração e intensidade dos periodos, porque o da segunda barbarie foi muito menos longo e profundo que o da primeira.A theoria de Vico tem sido mais ou menos impugnada, sem que da impugnação se possa deduzir menospreço pela elevada concepção do philosopho napolitano,{35}que evidentemente se baseia na divisão dos tempos, feita pelos egypcios e pelos chinezes. Cantu acha que a theoria daScienza nuovatem o inconveniente de sobrepôr a razão á liberdade; de inutilisar todos os esforços tendentes a realisar um progresso continuo; finalmente, que ella é desmentida pela constituição da sociedade americana, que se organisou sem deuses, sem heroes e sem feudatarios, á custa da industria e da concorrencia[29]. Cousin encontra na theoria de Vico o vicio da preponderancia do elemento politico, da omissão quasi completa da arte e da philosophia, e sobretudo do estudo da civilisação oriental, dominada pela religião; finalmente, da omissão relativa aos destinos da humanidade em geral na sua marcha de refluxo em refluxo[30]. O snr. dr. Theophilo Braga acha que se ha erro n'aquella divisão dos tempos consiste em fazer o computo de tal modo, que os periodos subsequentes sejam excluidos dos primeiros[31].Mas Cantu, como Cousin, faz justiça ao talento brilhantissimo de Vico, cuja arrojada intuição, em pleno seculoXVIII, espanta realmente. Comquanto Vico fique hoje muito atrazado em vista do estado actual da sciencia, sobretudo pelo que toca aos modernos debates sobre a origem das especies, distribuição geographica das raças humanas, pluralidade dos mundos, suspeitada já por{36}Giordano Bruno, e á questão da influencia dos meios, não póde deixar de reconhecer-se que não só previu muitos dos mais transcendentes problemas da sciencia moderna, taes como o da origem da linguagem, cuja resolução antecipou, mas tambem que deixou na sua obra os germens de muitas sciencias novas[32], e que foi o fecundador da maior parte das theorias modernas, entre as quaes a Philosophia da Historia.A obra de Vico foi continuada por Montesquieu n'um plano igualmente superior. Como Vico, Montesquieu occupa-se da relação do direito com os costumes, mas introduz na sciencia da Historia um elemento novo, que todavia já Hippocrates, Platão, Aristoteles e outros sabios da antiguidade haviam suspeitado: a influencia dos climas no caracter e vida dos povos. Bossuet havia introduzido na Historia universal o elemento religioso: Vico, o elemento racional; Montesquieu introduziu o elemento climatologico.O auctor doEspirito das Leis, fanatico pela sua doutrina, exagera os effeitos do clima, comquanto devesse attender a totalidade dos meios cosmologicos como Herder, mas o que é certo, e a sciencia moderna o tem demonstrado, é que o homem, e mais adeante nos demoraremos n'este ponto, quando tratarmos de Herder, nasce{37}e vive sob a influencia da natureza que o rodeia. O clima produz as sensações habituaes, que, no decurso dos tempos, constituem a sensibilidade definitiva[33]. Nas obras d'arte, e de litteratura, que são as que mais profundamente caracterisam a civilisação de um povo, como mais de espaço veremos, importa considerar, segundo Taine[34], tres forças primordiaes, a raça, omeio, e o momento. Estabelecida a verdade da influencia climatologica nohomo duplex, Emilio Deschanel[35]procura no estylo de cada escriptor a caracteristica do temperamento, doclima, dos habitos, etc. Pelletan, considerando o sólo como um collaborador forçado do destino d'uma raça, reconhece a necessidade de se escrever ageographia do progresso[36].Não se póde levar tão longe, porém, a fatalidade exclusiva do clima, sob o ponto de vista da temperatura, que haja de se fechar os olhos a contradicções flagrantes, a que os proprios factos historicos dão relevo, embora Montesquieu veja ainda no fundo d'essas contradicções a influencia climaterica. Assente que os climas frios são os que dão o vigor, a energia, e os climas quentes a molleza e a indolencia, o proprio Montesquieu[37]foi{38}obrigado a notar contradicções nos caracteres de certos povos do Meio-dia. «Os indios são naturalmente faltos de coragem, diz elle; os proprios filhos dos europeus, nascidos nas Indias, perdem a do seu clima.» Esta ultima affirmação acha-se plenamente confirmada no precioso livro de um viajante hollandez[38], o qual, tratando da maneira de viver dos portuguezes na India, faz notar a ociosidade a que se entregavam, a ponto de explorarem a honra de suas proprias mulheres[39]. Pois não obstante a indolencia peculiar ao clima da India, onde a luz e o calor parece conservarem-se n'uma primavera ininterrompida, os costumes indianos são violentos e barbaros: os homens submettem-se a males incriveis, as mulheres lançam-se ao fogo. Montesquieu explica ainda este facto pela preguiça do espirito dos indios, a qual é devida á indolencia do corpo, produzida pelo clima. A preguiça do espirito traz, realmente, a immobilidade nas leis e nos costumes; sem embargo, como observa Voltaire, a influencia dos climas é algumas vezes desmentida pelos factos historicos: em resposta á asserção de que os povos dos paizes quentes são timidos como os velhos, lembra Voltaire que os arabes conquistaram em oitenta annos maior territorio do que aquelle que o imperio romano possuia.{39}Um philosopho allemão, que Edgar Quinet vulgarisou na Europa, levanta sobre a theoria de Montesquieu um edificio tão brilhante como arrojado; segundo Montesquieu, o homem é influenciado pelo clima; segundo Herder, a natureza é o molde d'onde a humanidade sahe conformada. Herder, cuja largueza de vistas abrange todos os elementos da humanidade, estudados desde a origem dos tempos, no seu desenvolvimento harmonico e progressivo, o que lhe dá uma incontestavel vantagem sobre os philosophos que o precederam, parte da geographia physica para chegar a uma synthese assombrosa. «É com um admiravel instincto—diz Quinet—que Herder segue o contorno dos rochedos e dos rios, que se perde nos desertos, que penetra com um olhar o interior de um paiz, para encontrar na natureza externa o primeiro mobil das tendencias e determinações dos povos[40].» A theoria de Herder é muito mais complexa do que a de Montesquieu, e é claro que, lançando mão de todos os elementos offerecidos pela natureza, abrange maior numero de verdades. Herder, como observa Quinet, estuda até os contornos dos rochedos e dos rios, as linhas da natureza; os perfis das montanhas e as sinuosidades do alveo dão-lhe a idéa das tendencias dos povos que vivem n'essas paragens. Com effeito, o scenario de um theatro fornece a primeira concepção das paixões que se irão desenvolver{40}no drama. No grande palco do mundo acontece o mesmo. O aspecto da natureza torna o germano dotado de uma tempera robusta[41]. Em Portugal, os povos nascidos nas duas montanhosas provincias da Beira sahem aptos para as maiores rudezas do trabalho; são principalmente elles os que executam a tarefa das ceifas no Alemtejo, onde vão todos os annos, arrostando um sol canicular, abrazador, chegando a morrer n'um só estio e n'uma só comarca, a de Elvas, quatrocentos ceifeiros, de fouce em punho, como verdadeiros heroes do trabalho[42]. Os povos do Algarve nascem marinheiros pela fatalidade da situação geographica, arrojam-se ás maiores ousadias da navegação, como a que no principio d'este seculo realisaram, indo dous homens n'um cahique ao Rio de Janeiro. Herder tinha razão. Um só rio, o sinuoso e extenso Douro, basta a caracterisar a vida da maior parte dos habitantes d'uma provincia. O conhecimento pratico, a observação de algumas povoações portuguezas leva-nos a estabelecer o principio de que a fórma geometrica dos rios determina os costumes dos povos circumpostos. As correntes em linha recta são as que produzem menor pureza de vida; pelo contrario, os rios meandrosos, difficeis, occasionando um trabalho continuo e perigoso santificam, para assim dizer, os costumes. Estudemos{41}esta theoria no rio Douro. Os barqueiros d'este rio entregam-se a um trabalho por tal modo intenso e ininterrompido, que chega a ser uma religião. Pendurados das fragas afim de tirarem os barcos á sirga, empenhados em vencerem os perigos dospontos, verdadeiras cataratas, havendo previamente, de barrete na mão, confiado as suas vidas a Deus, são completamente absorvidos pela preoccupação do trabalho. Extenuados, quando recolhem ao lar domestico, dedicam-se á vida de familia, ao descanço patriarchal da lareira; regulando ainda assim o tempo por modo que muitos d'elles cultivam a sua vinha, a sua pequena horta, no intervallo das viagens. Mas nos rios placidos, rectilineos, a navegação não é um trabalho, é, pelo contrario, um pretexto de ociosidade. A propria corrente leva o barco, os barqueiros não bebem para fortalecer-se; bebem para embriagar-se, pordeboche. Quando chega a noite, procuram as casas devassas, as rameiras do caes.Herder, desenvolvendo a theoria de Vico, abrangeu todos os meios cosmologicos; não se preoccupou só, como Montesquieu, com os agentes astronomicos, e deu a devida importancia á acção geral da natureza. No estado actual da sciencia é preciso tambem ter em vista os modificadores sociologicos, posto que muitas vezes nos pareçam sujeitos aos cosmologicos. As profissões industriaes, por exemplo, não raro dependem de uma influencia puramente local. Jacques de Boisjoslin confirma esta opinião, avisando de que as aptidões profissionaes{42}podem enganar sobre as verdadeiras disposições das raças, por isso que frequentemente derivam do clima, da pressão da natureza[43].Edgar Quinet lança-se com vivo enthusiasmo na theoria de Herder: «A figura dos continentes, dos rios, dos mares, das montanhas,—escreve elle com o seu bello colorido poetico—, quasi por toda a parte ha determinado a das sociedades; de modo que cada continente é um molde onde a Providencia vasa as raças humanas para que ahi tomem a fórma eterna dos seus designios; e o primeiro propheta escreveu o seu livro nas linhas mudas dos continentes ainda deshabitados[44].»Cousin, depois de haver prescripto ao movimento geral da Historia tres épocas, ligadas não só por uma relação de successão mas tambem de geração, tres épocas baseadas sobre as tres unicas idéas que o pensamento humano póde conceber, oinfinito, ofinito, arelação do finito com o infinito, sendo que estes tres elementos podem coexistir n'uma mesma época posto que seja o predominio de um o que a caracterisa; Cousin liga tambem uma alta importancia á situação geographica e chega á conclusão de que paratres épocas differentes, tres theatros differentes.A theoria de Herder tem sido, porém, accusada por alguns philosophos de imprimir ao homem um caracter{43}de passividade, que o reduz á condição de escravo da natureza que o rodeia, e elle proprio, como lhe é censurado, não póde explicar pela geographia physica todos os desenvolvimentos da civilisação. Para elle, a linguagem humana é uma instituição divina, posto que até certo ponto nos pareça que, reproduzindo os primeiros homens as vozes da natureza pela onomatopea, segundo Vico, podia Herder explicar por esse mesmo facto a origem da linguagem, e pela situação geographica a euphonia ou a aspereza de certos dialectos.Uma outra accusação consiste em não se haver Herder remontado á origem ethnica das raças, encarando-as apenas no estado em que as encontrou, quando estudou o caracter de cada uma como elemento da Philosophia da historia; pelo que calumniou toda a raça aryana, e portanto os germanos, a que pertencia, quando representou como rebeldes a toda a cultura os celtas e os slavos, que foram a guarda-avançada da colonisação europêa[45].Como quer que seja, Herder accendeu a esplendida aurora que devia illuminar, principalmente em nossos dias, o estudo de todos os grandes problemas da sciencia e da humanidade, a que, depois d'elle, se tem dedicado grande numero de espiritos luminosos e fortes, cujas theorias não podemos mencionar n'um trabalho que, como este, tem de ser realisado n'um periodo fatal e curto.{44}O ponto de vista religioso de Bossuet e o ponto de vista politico de Vico ficaram desde Herder offuscados pelo conjuncto synthetico de todos os elementos da civilisação humana: as raças, as linguas, as religiões, as artes, as litteraturas, os systemas de governo e de philosophia, etc. Duchinski achou vinte e oito elementos de critica historica: 1. Hydrographia; 2. Plasticidade do sólo; 3. Physionomia dos habitantes; 4. Hygiene, doenças; 5. Climatologia; 6. Mythos; 7. Tradições peculiares a cada raça; 8. Faculdades musicaes e poeticas; 9. Tendencia dos povos á vida sedentaria agricola ou a vida nómada mercantil; 10. Lugar da mulher na sociedade; 11. Faculdades religiosas, desenvolvimento das seitas; 12. Vestuario; 13. Alimentos, e bebidas; 14. Desenvolvimento da vida provincial e das idéas federativas; 15. Maior ou menor predisposição para a adoração do principio do mal; 16. A geologia e sobretudo a geologia agricola; 17. A botanica; 18. A zoologia; 19. As linguas sob o ponto de vista lexicographico; 20. As linguas sob o ponto de vista euphonico; 21. As linguas sob o ponto de vista dos caracteres da civilisação; 22. As linguas sob o ponto de vista das tradições historicas que apresentam; 23. Pureza e impureza relativa dos costumes; 24. Grau do poder creador do espirito; 25. Grau de parentesco entre os povos sob o ponto de vista das relações historico-politicas; 26. Estatistica; 27. Encadeamento dos factos historicos. 28. Grau de parentesco com relação ás origens. E certamente não se poderia Duchinski gabar de{45}ter enumerado todos os materiaes que sabe aproveitar a Philosophia da Historia, em cujo campo o menor elemento fornece uma caracteristica, o que não deve admirar depois que se conheceu que uma alga microscopica, aTrichodesmium erythræum, produz certa coloração particular do mar Vermelho.Afim de estudar todos estes elementos, para chegar á synthese da humanidade, era preciso desenvolver, refundir e até crear um grande numero de sciencias correlativas a elles. É o que se tem feito até hoje. Cada sciencia especial acode a offerecer ao investigador uma poderosa alavanca que ha-de ajudar a levantar a humanidade á altura precisa para receber de frente toda a luz da Philosophia. A Historia, que fôra outr'ora simplesmente a narração de factos, tornou-se, portanto, a mais complexa de todas as sciencias. Foi uma transformação assombrosa. Atearam-se os grandes debates da sciencia moderna, os sabios lançaram-se á descoberta da verdade, tomando a Philosophia por instrumento. O nosso seculo tem assistido as mais brilhantes investigações. A Philosophia positiva metteu hombros ao colosso do passado, e iniciou um dos cyclos mais admiraveis da humanidade, se não o mais assombroso de todos elles.Parece-nos conveniente insistir n'este ponto, por isso que lavra ainda em alguns espiritos uma certa desconfiança sobre o estado de perfeição dos modernos trabalhos scientificos. O conhecimento d'esta desconfiança foi que nos determinou a escolhermos para dissertação{46}de concurso o vasto assumpto de que vimos tratando, seguramente muito superior ás nossas forças.Odysse-Barot é um d'esses espiritos desconfiados. «Vemos apparecer cada anno, diz elle[46]numerosas e interessantes monographias, obras especiaes de um incontestavel valor; mas não passam de uteis materiaes, que seria tempo de pôr em obra. A Historia está no ponto em que se achavam: a astronomia antes de Keppler, Copernico e Newton; a chimica antes de Lavoisier e Berzelius; a physica antes de Archimedes; a zoologia antes de Geoffroy Saint-Hilaire; a geologia antes de Cuvier; a physiologia antes de Harvey. A lei da attracção universal será mais difficil de formular do que a lei da attracção celeste? Sabemos como se movem os astros, e ignoramos como se movem os povos! Podemos determinar a curva que descrevem os mundos, e não sabemos absolutamente nada da orbita que percorrem as nações! Porque não descobrirão a lei da aggregação dos homens, como souberam achar a lei da aggregação das moleculas de um corpo? Não haverá uma chimica social do mesmo modo que ha uma chimica organica ou uma chimica mineral? Será que as forças chamadas cohesão e affinidade não possam actuar senão sobre os gazes, os liquidos ou os solidos? Acaso a humanidade ignora o que é uma combinação, uma liga? Não tem seus reagentes, suas decomposições, seus precipitados? Descobriu-se a{47}lei da circulação do sangue no homem: a historia espera o seu Harvey, para encontrar a lei da circulação do sangue nas sociedades. A historia espera o seu Archimedes, que nos dê a formula da dynamica e da statica politicas, etc.»Realmente, isto é querer desconhecer até onde teem chegado os progressos da actividade humana dentro do campo da possibilidade, e exigir da humanidade o impossivel.Com a sabia orientação da Philosophia positiva, o espirito humano caminha energicamente para as acquisições scientificas que as mais pacientes observações preparam todos os dias. Foi trabalhosa e demorada a jornada até esta conquista, porque o espirito humano teve de atravessar successivamente o estado theologico, base e estimulo de todo o progresso, porque é preciso um ponto de apoio qualquer para firmar os primeiros passos, e o estado metaphysico, transição do estado theologico para o estado positivo.Mas, chegados a esta nova conquista, o que podemos exigir da Philosophia positiva, sciencia que elevou a Historia á sua mais alta concepção? Que nos permitta encarar todos os phenomenos como sujeitos a leis naturaes invariaveis, e reduzil-as ao menor numero possivel, afim de simplificarmos a universalidade dos conhecimentos humanos; que nos permitta sujeitar a um systema claro e positivo todas as sciencias fundamentaes estudadas nas suas relações communs como elementos constitutivos de{48}um todo harmonico, e portanto tambem nas suas relações com esse mesmo systema, com esse todo. Esta grande, esta immensa obra de simplificação deve-se á Philosophia positiva. Mas para que a Philosophia positiva podesse constituir-se com o caracter de universalidade que lhe é proprio, era preciso abraçar todas as ordens de phenomenos. Por isso a Philosophia positiva teve de inventar uma nova sciencia, que se propozesse estudar uma especie de phenomenos, que não podia incluir-se na dos astronomicos, na dos physicos, na dos chimicos, nem finalmente na dos physiologicos, e creou aphysica social, que se trata de estudar com o vagar que a sua dependencia de todas as outras sciencias de observação exige, e que virá completar a constituição da Philosophia positiva.Mas todos estes grandes, estes grandissimos progressos do espirito humano, toda esta colossal obra de simplificação e generalisação poderá produzir o conhecimento exacto, certo das causas das leis estudadas ou da explicação universal de todos os phenomenos por uma lei unica? Responde o proprio Comte, o grande apostolo do positivismo: «Na minha profunda convicção pessoal, considero estas empresas d'explicação universal de todos os phenomenos por uma lei unica como eminentemente chimericas, ainda quando são tentadas pelas mais competentes intelligencias. Creio que os meios do espirito humano são muito fracos, e o universo muito complicado para que uma tal perfeição scientifica possa estar ao{49}nosso alcance, e até penso que se faz geralmente uma idéa muito exagerada das vantagens que de tal conquista resultariam necessariamente, se ella fosse possivel[47].» É o proprio Augusto Comte que nos vem dizer que considera defezos á razão humana todos os mysterios que a philosophia theologica procurava explicar facilmente; que o espirito humano deve reconhecer, no estado positivo em que se acha, a impossibilidade de obter noções absolutas, de conhecer as causas intimas dos phenomenos, a origem e o destino do universo[48].Estamos, pois, lançados na ampla estrada de uma sciencia toda humana, e havemos de chegar até onde os recursos humanos nos possam levar. É preciso tempo e trabalho para que a folha da amoreira se converta em sêda. A astronomia esperou o seu Keppler, como a historia espera o seu Archimedes. Odysse-Barot pede a formula da dynamica e da statica politicas: portanto, o que pede são duas theorias scientificas, que se devem considerar como factos logicos. Ora só por uma profunda observação d'esses factos se póde chegar ao conhecimento das leis logicas[49]. A Philosophia positiva, auxiliada pelas sciencias de observação já perfeitamente conhecidas, procura preencher a lacuna que respeita aos phenomenos sociaes para attingir o seu caracter de universalidade.{50}Segundo esta nova marcha do espirito humano, toda positiva e observadora, a Historia teve de estudar profundamente a natureza para chegar, finalmente, á exacta concepção do lugar que n'ella occupa o homem. A geologia tem, portanto, attingido um notavel estado de florecimento. A historia da terra desdobrou-se em capitulos com uma nitidez admiravel, desde a nebulose, que pelo resfriamento se converteu na esphera terrestre, até nossos dias. Excavando nas entranhas da terra, para extrahir, como um minerio precioso, a sua historia, a sciencia encontrou os destroços animaes e vegetaes que geraram a paleontologia. Nas camadas terciarias do globo appareceram os instrumentos de pedra, a que o vulgo chama ainda hojepedras de raio[50], e que effectivamente foram considerados como productos da natureza antes que Mercati os considerasse como armas defensivas do homem no estado da sua rudeza primitiva. O achado de alguns fosseis, que pareceram humanos, a par com os esqueletos de alimarias ante-diluvianas, veio depois, ao cabo de longos debates, e de novos achados, desfazer o erro anthropocentrico, confirmar a existencia prehistorica do homem e por conseguinte o emprego dos instrumentos de silex. Foi assim que do consorcio da geologia com a paleontologia nasceu a archeologia. Então, á luz do grande facho da archeologia, pôde a Historia{51}reconstruir as idades primitivas do homem. Chamou á primeira,de pedra, e subdividiu-a empaleolithicaou dos instrumentos de pedra lascada;mesolithicaou dos instrumentos de pedra lascada e de osso;neolithicaou dos instrumentos de pedra polida; e á segunda, idade dosmetaes, subdividindo-a em idade de bronze[51]e idade de ferro. A descoberta de fosseis humanos, e dos instrumentos prehistoricos, veio dar desenvolvimento a um grupo de sciencias que teem necessaria relação entre si.No primeiro plano d'este grupo, apparece a anthropologia, ramo da historia natural que trata do homem e das raças humanas, sciencia que se póde considerar originada pelo positivismo moderno, comquanto os gregos já designassem pelo vocabuloanthropologosaquelles que discutiam sobre o homem. O problema da origem do homem impoz-se á meditação dos sabios, como uma das mais importantes questões a resolver. Apartaram-se as opiniões, os campos. A primeira base de toda a discussão foi o Genesis. A opinião polygenista tirava argumento de serem os filhos de Deus representados como raças{52}provenientes de Adão, e os filhos dos homens como raças não adamicas[52]e de que a Biblia apenas se referia aos povos semitas, particularmente aos judeus[53]. A opinião monogenista contrapunha que todas as raças descendiam primitivamente de Adão e Eva, e consecutivamente dos tres filhos de Noé salvos do diluvio; que a influencia dos meios cosmicos produzira a variedade das raças. Esta discussão veio a generalisar-se, a emancipar-se da sua origem biblica, a diffundir-se pelo campo da sciencia, e até da politica[54].Otransformismoé uma phase nova d'esta grande questão, que envolve uma idéa antiga[55]. Lamarck sustenta que as especies se transformam passando de uma para outra, tanto no reino animal como no vegetal: o homem é uma transformação lenta do macaco. Procurando a origem dos sêres, Lamarck encontra os germens primordiaes ou mónadas, provenientes de geração espontanea. N'este systema, os meios de transformação{53}explicam-se pela adaptação dos orgãos ás condições da existencia. Cuvier, Geoffroy Saint-Hilaire e outros, sahiram em defeza das idéas orthodoxas, que parecia haverem triumphado quando appareceu Carlos Darwin, cuja theoria se póde definir:A selecção natural por a lucta pela existencia, applicada ao transformismo de Lamarck[56]. Segundo Darwin, todos os seres organisados se transformam incessantemente sob o imperio de uma lei de selecção natural (natural selection), e todas estas transformações têem por causa a lucta pela vida (struggle for life), isto é, o combate eterno dos sêres vivos entre si pelos meios de existencia. Todas as especies vivas descendem, segundo Darwin, de um pequeno numero de prototypos ou mesmo de um só. Em virtude da selecção natural todas as variações uteis são conservadas, e todos os desvios nocivos eliminados[57]. Comquanto Carlos Darwin se abstivesse de applicar a sua theoria á especie humana particularmente, os que a defendem fazem essa applicação como consequencia logica das asserções apresentadas por elle. A doutrina darwiniana foi o ponto de partida de um longo debate que ainda dura. Entre os allemães que se filiaram na escóla do transformismo, avulta Hæckel, que para explicar a origem do{54}homem parte das primeiras cellulas conhecidas,moneras, formadas por geração espontanea. Estas cellulas foram-se dispondo em orgãos e, depois de uma serie de transformações, que se podem classificar em vinte e dous graus, apparece o homem.Graças ao espirito de positivismo do nosso seculo, as sciencias biologicas chegaram a este grau de desenvolvimento, e como que sopraram vida nova á intelligencia humana cada vez mais ávida de saber. Desdobram-se na tela da discussão os mais graves problemas, como por exemplo o das gerações espontaneas, que tanto preoccupou a Academia das Sciencias de Paris, depois que em 1858 o professor Pouchet lançou o pomo da discordia ao seio dos quarenta immortaes[58]. Certo é que muitos d'esses{55}grandes problemas não estão ainda resolvidos, como por exemplo o do transformismo, mas não é menos certo que as modernas investigações vão cada vez produzindo novas acquisições, e que, pelo que toca ao transformismo, a doutrina da mutabilidade e da evolução morphologica dos seres organisados vai cada dia ganhando maior terreno.N'um curso regular de anthropologia, como aquelle que se professa no Instituto anthropologico de Paris, sob a direcção de Paulo Broca, a ethnologia, sciencia que se occupa da classificação, descripção, repartição, filiação e evolução das raças humanas, tem um logar importantissimo, e tanto se identifica esta nova sciencia com a Historia philosophica, que só pelo estudo das raças constituiram alguns historiadores uma Philosophia da Historia.
João Baptista Vico, remontando-se á infancia poetica das sociedades humanas, vai encontrar a origem dacuriosidade, filha da ignorancia e mãi da sciencia, n'um phenomeno natural que effectivamente devia de impressionar profundamente os sentidos e a imaginação dos homens primitivos.
Acceitando da tradição biblica o facto do diluvio, e dando á terra o tempo sufficiente para enxugar da inundação universal e para exhalar os vapores seccos proprios a formarem o raio, descreve a impressão que no espirito dos gigantesvigorososerobustos, que então povoavam a terra, causára o coriscar d'aquelle meteóro através do ether, e o interesse com que ficaram olhando para o céo que desde logo consideraram como um{6}immenso corpo animado, o qual alguma cousa queria decerto exprimir por meio d'essa estranha linguagem de fogo.
Personificando toda a immensidade do céo no grande deus chamado Jove, que tinha por sceptro o raio, e que por toda a parte os seguia, por isso que toda a terra era coberta pelo céo, o que, segundo Vico, explica a phraseJovis omnia plena, que Platão julgou dever traduzir por ether, os gigantes da terra renderam o primeiro culto á curiosidade, d'onde, como de uma semente abençoada, devia brotar o fructo precioso de todos os conhecimentos humanos.
Quer acceitemos a tradição religiosa do diluvio universal, determinado por Deus para refundir toda a humanidade com a familia salva na arca de Noé, quer consideremos essa inundação geral como uma simples phase geologica, caracterisada por phenomenos glaciarios, o facto poeticamente narrado pelo philosopho napolitano subsiste em essencia, e, a nosso vêr, é de todo o ponto provavel, e quasi certo, que fosse um phenomeno meteorologico o primeiro estimulo da curiosidade humana.
Vico lembra, afim de fazer acceitar a sua asserção, que ainda hoje os phenomenos naturaes lançam uma profunda impressão no animo de muitas pessoas, e cita especialmente, entre todos esses phenomenos, o da apparição de um cometa.
Despertada a imaginação do homem pelo sentimento{7}da curiosidade, entrou elle no periodo mais laborioso e ao mesmo passo poetico da infancia da humanidade. Era até ahi como um pobre cego lançado na vastidão de um mundo desconhecido e mysterioso. Mas a chamma electrica do raio veio, para assim dizer, rarear as trevas da sua immensa cegueira; essa luz estranha converteu-se para elle, como se não fosse movel e fugitiva mas fixa e duradoura, n'uma como estrella de guia, que o obrigou a altear o pensamento para além das brenhas da terra em que como selvagem vivia.
Assim como a criança tem deante de si, sem o presentir, sem o suspeitar, uma tarefa enorme a cumprir, o peso d'uma responsabilidade immensa, porque chegará um dia em que ella devera crear, permitta-se-nos a expressão, o mundo da sua existencia, construindo um ninho como as aves, organisando uma familia, norteando-a, como piloto, através dos mares aparcellados da vida; assim a humanidade era, n'esse periodo da sua infancia, chamada a cumprir a grandiosa missão de adaptar o mundo inteiro, como um ninho enorme, ás necessidades da sua existencia, de desbravar os caminhos por onde devia fazer a jornada dos seculos; de aproveitar todas as forças da natureza e as suas proprias, de as harmonisar, de as educar convenientemente para um fim commum; de pegar dos elementos creados e fundir com elles a gigantesca estatua da humanidade, com toda a perfeição relativa de contornos e relevos que hoje tem, porque a humanidade não era mais na sua infancia{8}que um esboço que importava accentuar, um molde que cumpria encher, uma força que tinha de desenvolver-se a si propria.
Mas assim como a criança lentamente e quasi inconscientemente enceta a obra do seu futuro, carreando uma pedra dia a dia, dando hoje um passo, outro ámanhã, refundindo o seu espirito com o auxilio da primeira instrucção; assim tambem a humanidade se foi transformando por successivos esforços e progressos, fazendo hoje uma conquista, ámanhã uma creação, enchendo a pouco e pouco o molde vazio em que, estatua, tinha de fundir-se e completar-se.
Pelo desenvolvimento da humanidade no momento actual é-nos facil avaliar a grandeza do seu trabalho através dos seculos, desde a origem do mundo até hoje. Religião, linguagem, agricultura, governo, industrias, commercio, artes, sciencias, tudo isso ella foi creando por um trabalho lento, que principiou por elementos simples, como se póde por exemplo ver na linguagem, onde o monosyllabo veio finalmente a converter-se nas linguas de flexão; na religião, onde a primeira elevação da alma para as forças da natureza, que foram encarnadas em symbolos grosseiros, veio a transformar-se na concepção grandiosa da divindade immaterial e absolutamente perfeita; no estabelecimento dos estados, onde o poder theocratico veio a parar nas modernas fórmas de governo que se pódem variar segundo o interesse geral; na agricultura, onde a rude cultura da terra, a{9}que o instincto impellia, se desdobrou na agronomia moderna, sciencia complexa, a que as invenções dos Dombasle, Fowler e Howard servem de diadema auriluzente; nas industrias, onde a vida pastoril exercida pelas tribus nómadas, e a da pesca, exercida pelas povoações costeiras, vieram a multiplicar-se na immensa diversidade de profissões e officios a que se dedicam as classes contemporaneas; no commercio, onde a simples troca de productos, n'uma área muito limitada, veio a metamorphosear-se nas grandes operações commerciaes que se alargam por todo o mundo, graças á invenção da moeda, aos progressos da navegação, aos rapidos meios de transporte; nas artes, onde os instrumentos de silex se transmudaram nos mais completos processos mechanicos, e os megalithos, que tanto se teem estudado hoje[1], vieram a converter-se nos grandiosos monumentos de nossos dias; nas sciencias, onde, por exemplo, a astronomia caminhou desde os pastores da Chaldéa, que contemplavam os astros, sentados nas eminencias penhascosas, pelo silencio da noite, até que essa sciencia celeste terminou com Newton, como diz Larousse, a sua evolução historica.
Durante esta obra de seculos, emquanto as bellas instituições da humanidade se fixavam na terra tão nova{10}como ella, ao mesmo tempo que as plantas enraizavam no solo e bebiam os succos nutritivos n'uma exuberancia caudal, os homens, como a criança, só poderam olhar para deante, para o futuro. O seu berço ficava ainda tão perto que não havia tempo de ter brotado d'elle esse doce sentimento que as lagrimas purificam, e que não poucas vezes conduz á reconstrucção do passado pela memoria,—a saudade; ou antes, como diz Cantu[2],os antigos tinham ainda muito poucas ruinas deante de si, phrase que Edgar Quinet repetiu[3],—e sendo o passado o campo aberto ás investigações da historia, onde quasi não havia passado não podia haver historia.
Sim. Dai um montão de ruinas ao homem, e conseguireis fazer d'elle um historiador. Uma vertebra, que no fim de contas é uma ruina do vasto edificio zoologico, bastou a Cuvier para a reconstrucção do passado. É pelo esqueleto das gerações que nos antecederam que os sabios de nossos dias teem realisado as mais assombrosas conquistas da sciencia moderna.
Mas havia transcorrido o tempo e as nacionalidades tinham sahido recentemente do berço, porque a humanidade gastára longo periodo da sua infancia na vida errante e rude primeiro que podesse constituir-se em tribu, e que da tribu nascesse a nação. Como acontece com as grandes obras d'arte, as instituições humanas foram modeladas{11}por um esboço, e aperfeiçoadas depois. O esboço da nação foi a tribu.
Parece-nos, porém, questionavel a fixação do periodo de desenvolvimento humano em que se constituiram as primeiras sociedades.
«Na verdade, diz Cantu, como podiam os laços do matrimonio e da paternidade tomar-se deveres antes do homem comprehender o bem que d'isto deriva e os meios de o alcançar? Como conceberia as vantagens da sociedade o que nunca as tivesse experimentado? Para que os homens se unam entre si, e façam um pacto social, é forçoso que possuam uma linguagem commum para se entenderem uns aos outros, e fórmas de convenção, de assembléas, e de representação; isto é, que estejam reunidos já em sociedade.»
Não concordamos, a este respeito, com a opinião de Cantu, pelas razões seguintes.
As relações naturaes a que o auctor daHistoria universalallude na primeira interrogação, e que, segundo elle, importam a comprehensão dos deveres que d'ellas derivam, annullam, assim encaradas, a idéa de instincto, facto comprovado em todas as especies animaes, e até nas vegetaes. Para as aves, por exemplo, os laços d'essas relações naturaes convertem-se em deveres, e todavia nós não podemos suppôr nas aves a noção moral de dever. Emquanto, entre algumas familias aladas, a mãi acalenta o ovo, o pai divaga procurando alimento para a femea, e muitos naturalistas citam o facto de certas aveseducarem{12}seus filhos no que chamaremosarte do vôo, antes de os abandonarem a si mesmos.
Quanto á segunda interrogação, convem distinguir entre o facto de constituir sociedade e o conhecimento das vantagens que d'ella resultam. Tambem poderemos suppôr nas aves, que se agremiam em grandes bandos, o conhecimento das vantagens que d'essa aggremiação resultam? As formigas, que vivem e trabalham em commum, obedecerão simplesmente ao instincto de conservação, ou serão impellidas pela elevada idéa da utilidade de associação?
Quanto á terceira interrogação, isto é, á necessidade de uma linguagem commum para que os homens possam reunir-se por um pacto social, desejamos accentuar mais largamente a nossa maneira de pensar.
Não somos da opinião dos que affirmam que haja tribus completamente privadas de linguagem, mas entendemos com sir John Lubbock[4]que essas tribus possuem todas uma linguagem, comquanto muito imperfeita e complicada de signaes.
Bastará citar em abono d'esta asserção o facto de entre os indios kiawa-kaskaia as tribus communicarem diariamente entre si, segundo o testimunho de James[5], ignorando completamente a linguagem umas das outras. «Pelo que não é raro, diz James, vêr dous individuos,{13}pertencentes a tribus differentes, sentados no sólo, conversando facilmente por signaes. São muito habeis em exprimir por este modo as suas idéas, e apenas interrompem o jogo das mãos, a longos intervallos, por um sorriso ou por uma palavra pronunciada no idioma dos indios crow, o mais espalhado ainda entre elles.»
Por onde nos é licito vêr que sobre a mais imperfeita e rudimentar linguagem, a dos signaes, estabelecem os indios kiawa-kaskaia as mais cordeaes relações de sociabilidade com as tribus visinhas. Finalmente, a theoria de Vico, dospovos mudos, exprimindo-se por meio de corpos ou de imagens, que tinham alguma relação natural com as idéas que queriam exprimir, por exemplo,tres espigaspara significarem a idéa abstracta detres annos[6], é manifestamente muito mais acceitavel do que a de Cantu, porque se funda na propria natureza humana, e destroe a opinião de que sem uma linguagem, no estado de perfeição em que Cesar Cantu parece suppol-a, a associação humana é inadmissivel.
O dr. Luiz Büchner[7]confirma a opinião de Vico. Crê, segundo Westropp, que o homem primitivo foi necessariamente um sêr mudo, e a linguagem articulada uma acquisição lenta e gradual; que ella teve por origem os gritos espontaneos de prazer e dôr, a que succederam{14}os sons imitativos (onomatopéas), razão por que na grande variedade de todas as linguas (cerca de tres mil) ha um numero consideravel de sons equivalentes, e até mais ou menos analogos. Cita uma observação de William Bell, a respeito do monosyllaboloh, empregado em muitas linguas para designar a luz, a chamma, e que procede da simples exclamaçãooh!precedida de umlou de uma vibração da lingua. Crê que a pouco e pouco se foram formando os polysyllabos, pela repetição de um som simples, como nas palavrasmamã,papáou pela agglutinação das syllabas. «Depois, observa finalmente, o simples grito, correspondente a um sentimento, foiimitado pelos companheiros d'aquelleque o soltou, e acabou por tornar-se um signal representativo fixo servindo a designar o proprio sentimento.»
Aqui temos nós a linguagem, não como base de sociedade, mas, ao contrario, tomando a sociedade como base da sua perfeição.
Estabelecida a procreação pelo instincto, força irresistivel da natureza humana, que principiou a manifestar-se no homem desde os seus primeiros passos na terra, achando-se ainda embryonarias todas as forças moraes e intellectuaes, que por um lento progresso permittiram depois as mais elevadas concepções, e as mais assombrosas conquistas, foi ainda o instincto que levou a humanidade a lançar mão das primeiras industrias, da vida pastoril, da caça, da pesca, do commercio, segundo as condições naturaes dos paizes. «Assim as diversas industrias, diz Cantu, nasceram{15}e cresceram na razão dos lugares; porém a agricultura foi a que introduziu maiores mudanças na constituição moral. O homem, querendo, quando cultivou um campo, seguir com a vista as esperanças que lhe dava, construiu junto d'elle uma habitação; então aquelle sentimento tão imperioso, que chamamos amor da patria, apparece, e a estabilidade do lar domestico dá origem á associação civil.» Mas olar domesticoa que se refere Cantu está longe de ser a moralidade pela familia, pela familia que a monogamia santificou. O agricultor vivia rodeado dos seus escravos, e dos filhos; de procedencias diversas, escravos tambem. O pai era osenhor; governava pela força. A mulher era simplesmente umacousa, um instrumento de reproducção; e as mais das vezes era arrebatada á sua tribu por violencia. Portanto, as primeiras familias foram uma reunião de escravos dominados por um chefe, só muito tarde, como mostra Lubbock[8], baseando-se nos trabalhos de Bachofen, M. Lennan e Morgan, é que se reconheceu que os filhos eram parentes de seu pai e de sua mãi. Mesmo em Roma, a palavra familia significava—escravos.—A mulher e os filhos só por serem escravos eram considerados familia.
Vico mostra, por uma observação philologica, a verdade d'estas affirmações. Sustentando, como na formação da linguagem, osverbosvieram depois dosnomes, e como os primeiros verbos foram certamente aquelles que{16}são como que osgenerosou osradicaesde todos os outros, exemplo,sum, que contémtodas as cousas metaphysicas,—sto, que exprime a immobilidade, eeo, que significa o movimento, observa por ultimo que estes verbos apenas tiveram a principio o modoimperativo, porque noestado de familia, e na excessiva pobreza de linguagem que então havia, só ospaesdavam ordens a seusfilhos ou a seus criados, ao passo que estes,submettidos ao terrivel imperio do chefe de familia, obedeciam sem murmurios ás suas ordens[9]. Ainda hoje, entre os kalmuckos do Volga, o azorrague é o sceptro e o symbolo do poder domestico[10].
Foi certamente com esta mesma força de auctoridade que nasceu o chefe de tribu. Se a reunião de algumas pessoas carecia de uma que a regesse, a reunião de algumasfamilias, por maioria de razão, carecia de um magistrado que a governasse. Os chefes defamiliaousenhoresreuniam-se para se entregarem, em condições de segurança, ao exercicio da caça. Escolhiam certamente d'entre elles, para os dirigir, o que mais se assignalava pela destreza e certeza de caçador. Reconhecida a sua superioridade natural, ficava sendo o dominador da tribu. E esta authoridade devia ser tanto mais respeitada e temida, quanto era certo que se baseava n'um facto indestructivel e inevitavel, revestido de caracter divino,{17}porque a força era um attributo que não dependia da vontade do homem.
Da agglomeração das tribus nasceu a nação, como da agglomeração dasfamiliashavia nascido a tribu.
Sendo, porém, maior o numero de governados na nação do que na tribu, era preciso que o chefe escolhido para governal-os dispozesse de qualidades physicas ainda muito mais consideraveis. A mais importante de todas essas qualidades era a força, que, n'uma raça de valentes, não podia deixar de considerar-se um direito hereditario para governar. Cesar Cantu observa que o vocabulodynastia(dedynamis, força) indica a origem de um tal poderio.
Temos, finalmente, fixada a nação, a nacionalidade, sob o imperio da força, origem dos grandes como dos pequenos estados, em todos os paizes e tempos. Citemos dous exemplos, ao acaso. «Romulo e os seus successores, diz Montesquieu[11], estiveram quasi sempre em guerra com os povos visinhos para ter cidadãos, mulheres ou terras; voltavam a cidade com os despojos dos vencidos; eram feixes de trigo e rebanhos: o que causava uma grande alegria. Eis-aqui a origem dos triumphos que foram no futuro a principal causa das grandezas a que esta cidade chegou.» A origem da moderna e pequena monarchia portugueza encarna-se, para assim dizer, na{18}athletica figura de Affonso Henriques, o terrivel perseguidor dos mouros, o guerreiro de estatura agigantada.
A propria origem das primeiras nacionalidades as impelliu á guerra, que, segundo Victor Cousin[12], é o instrumento terrivel mas necessario da civilisação. «A hypothese de um estado de paz perpetua na especie humana—diz elle—é a hypothese da immobilidade.» Comquanto não nos exalte em favor da guerra esta opinião de Victor Cousin, somos todavia levados a acreditar que a vida das primeiras nacionalidades se fortaleceu pela guerra, como o corpo de uma criança se fortalece pela gymnastica. Além do que, a victoria, lisonjeando o orgulho dos povos, nobilitava, para assim dizer, as suas aspirações de grandeza, e arrastava-os a assignalarem a si mesmos uma origem divina, aspiração que é a primeira fonte das tradições poeticas d'esses mesmos povos[13].
Acordada, portanto, a imaginação popular, cerca-se o berço das nações das brumas do maravilhoso.
Os quatro livros sagrados de Confucio, reconstruidos de memoria, depois de haverem sido queimados, e acrescentados com tradições, fazem remontar a historia da China, especialmente o ultimo livro, a um passado fabuloso. Na mais antiga parte dosVedas, oRigveda, os indios agradecem a intervenção do poder celeste nos seus combates. Indra protege a carnificina, como nós, quando{19}procurámos uma origem maravilhosa, fizemos intervir Christo na batalha de Ourique.
Por um lado as tradições poeticas, as narrativas fabulosas geraram a Historia. Por outro lado os factos reaes, especialmente os combates, misturados com as legendas phantasticas, desenvolveram-na.
Como para haver Historia é preciso que haja ruinas, a guerra foi o maior elemento da Historia, porque produz cadaveres, e os cadaveres são as ruinas da humanidade. Os seculos não passavam impunemente, sem fazer destroços. Na China, a monarchia dosHia, que durou quatrocentos annos, acabou acompanhada de graves perturbações. Eis-aqui como foram augmentando os materiaes da Historia: ruinas e destroços.
Foi assim que, semelhante ao sol que nasce velado pelos vapores coloridos da manhã, surgiu, na successão dos tempos, a historia de cada nação, envolta nas tradições maravilhosas da sua origem poetica.
Que interessado enthusiasmo não devia de ser, porém, o dos primeiros homens que puderam quebrar imaginariamente o sello sagrado da sepultura das gerações que os precederam no perimetro da sua nação, e soprar-lhes vida nova, imitando a fabula de Pygmalião, o estatuario divino, e dar-lhes pensamento e voz, e ouvil-as, e collocal-as á volta de si mesmos, vendo-as passar em turbilhões phantasticos como na formosa ballada da dança dos mortos! O historiador, por uma arrojada abstracção, collocava-se fóra do seu paiz, e com uma poderosa{20}alavanca, muito semelhante á que o sabio Archimedes pedira ao rei Hieron, levantava a terra que lhe fôra berço com o peso enorme das gerações que a povoaram, mostrando-a suspensa aos olhos do mundo. Era realmente assombrosa esta nova conquista do pensamento humano, tanto mais que podia o homem transmittil-a aos seus successores por meio da tradição escripta. Sentiu-se decerto orgulhoso de si mesmo o homem que pôde legar aos seus descendentes essa preciosa cadêa de ouro que o prendia ao passado, á vida de seus avós, á gloria da antiguidade; fez, para assim dizer, um presente de seculos aos seus descendentes, que, por sua vez, arremessaram para a immensidade do futuro a outra extremidade da corrente de ouro, a que as gerações subsequentes haviam de encadear novos anneis.
Chegado á grande conquista do que chamaremosfaculdade historica, isto é, ao desenvolvimento intellectual que permittiu transpor os limites da vida individual para se internar no estudo da vida nacional, apossou-se o homem de um poder verdadeiramente superior, que lhe permittia reconstruir o passado.
Se é attribuido a Christo o poder de ter resuscitado um só homem pelo milagre, o homem logrou resuscitar a nação pela Historia.
Mas os primeiros historiadores deveram forçosamente de assemelhar-se a estas arvores que, exuberantes de seiva na primavera, se cobrem totalmente de flôres, como a amendoeira. A imaginação, excitada pela tradição poetica[14],{21}estava n'elles em pleno vigor, pompeava as suas galas luxuriantes, á maneira das florestas virgens que se enredam em labyrinthos de phantasiosas ramarias.
Sendo certo que o ardor da imaginação arrasta á excessiva credulidade, os primeiros historiadores foram profundamente credulos, e bordaram as suas narrações com todas as tradições, legendas e fabulas, que a imaginação acceitára com prazer ou até com enthusiasmo.
Herodoto é um historiador poeta, que divinisa a Grecia; Tito-Livio dá largas á imaginação para descrever e declamar; Suetonio contenta-se com colleccionar anecdotas, que, por via de regra, tanto costumam lisonjear os espiritos frivolos, porque são um brinco para a imaginação.
Na successão dos tempos o christianismo, com o seu cortejo de legendas piedosas, com as exagerações proprias da exaltação da fé, contribuiu por sua vez, e não pouco largamente, para prolongar o predominio da imaginação na Historia, e retardar o advento do criterio philosophico e independente.
Toda a gente sabe como a imaginação dos povos occidentaes se exaltava com a posse das reliquias de um santo, n'uma época ainda relativamente proxima de nós. Sicard, duque de Benevento, declarava guerra a Amalfi só para obter os restos mortaes de Santa Triphomena.{22}Theodoro, bispo de Metz, preava em Roma, na presença do papa, a cadêa de S. Pedro, e jurava que não a largaria sem que primeiro lhe cortassem as mãos, porque a desejava possuir[15]. Jerusalem, a cidade celeste, apparecia ás imaginações christãs como um sagrado jardim rociado pelas lagrimas de Maria e pelo sangue de Jesus, e povoado das rosas de Engaddi, dos cedros do Libano, das oliveiras de Gethsemani, para nos servirmos de uma expressão alheia.
A cavallaria, em que o elemento christão se accentuou de modo a gerar as ordens militares religiosas, veio ainda inçar a Historia com as aventuras dos paladinos, com os matizes d'essa vida de imaginação, tão futil mas tão pittoresca. A febre da cavallaria chegou a ser tamanha, que bastará citar um só facto para comproval-a. Quando CarlosVfoi coroado em Bolonha, tocou com a espada na cabeça dos que desejavam ser cavalleiros, dizendo a cada um:Esto miles.Mas como todos gritassem em volta do rei:Sire, sire, ad me, ad me, CarlosV, estendendo a espada sobre a multidão, viu-se obrigado a dizer:No puedo mas. Estote milites, estote milites, todos, todos[16].
Na época a que nos vimos referindo, os historiadores engrinaldavam as suas lucubrações com as flôres colhidas pela mão do amor e com as rosas cortadas nos{23}hortos de Jerusalem, pois que tanto valiam umas como outras, como claramente demonstra o annel nupcial com que S. Luiz brindou Margarida de Provença, o qual era formado de margaritas e de lizes alternados, tendo no meio um cruciflxo circuitado por esta inscripção:Hors cet anel pourrions-nous trouver amor[17]?
Na historia portugueza andaram por muito tempo dous episodios, que tiveram por origem o maravilhoso da tradição religiosa e o maravilhoso da tradição cavalheiresca. Referimo-nos ao milagre de Ourique, refutado por Herculano, e á instituição da ordem de S. Miguel da Ala, refutada por fr. Francisco de S. Luiz.
Quando havia de soar, porém, a hora em que o maravilhoso, o predominio da imaginação, devia ser banido da Historia? em que essa especie depeccado originaldevia desapparecer batido pelo criterio philosophico?
Coube aos tempos modernos a gloria de refundir a Historia, de lhe dar um novo rumo, de alargar as suas vistas espraiando-as por sobre toda a humanidade. A primeira idéa da Historia universal nasceu no seculoXVII, época relativamente muito recente, mas esta nova e grandissima conquista do pensamento humano só tarde podia chegar. Era preciso deixar accumular ruinas sobre ruinas, destroços sobre destroços, dar tempo a que os imperios desabassem, a que as religiões desapparecessem, a que os cadaveres dos homens e das instituições{24}se amontoassem, para que de cima de todos esses enormes escombros se levantasse sereno e altivo o pensamento humano, semelhante a uma grande aguia, e alçasse o vôo até pairar n'uma esphera superior e poder medir, com segura agudeza de vista, a profundeza dos destinos da humanidade na successão dos seculos.
Victoria immensa foi essa, triumpho assombroso o que permittiu que o homem alargasse por todo o mundo o dominio do seu espirito, que reconstruisse a humanidade como os primeiros historiadores haviam reconstruido a nação; que zombasse da morte animando as cinzas dos cadaveres e povoando com elles, por um poder maravilhoso do espirito, os imperios que tinham apparecido e desapparecido á face da terra, como plantas marinhas que ora surgem fluctuando no dorso da onda, ora se escondem nos sulcos profundos do oceano!
Desde o momento em que o homem pôde realisar esta synthese estupenda, o maravilhoso, as tradições fabulosas fugiram espavoridos do dominio da Historia. Outr'ora, como observa Edgar Quinet, «cada nação se fazia o centro e o fim do universo, e se impunha á adoração do genero humano[18]»; agora era o genero humano que se impunha á admiração de cada nação. Perante o enorme conjuncto dos povos, já não podia pensar-se em assignalar a origem de cada um singularmente; desapparecia o orgulho nacional, o excessivo sentimento de{25}amor patrio que procurava revestir essa origem de ouropeis poeticos; agora era preciso procurar a filiação da humanidade, estudar a sua apparição na terra, as suas divisões e evoluções, e tomando a peito a resolução de tamanhos problemas não havia tempo para estar a inventar fabulas, que ficavam esmagadas, como flôres inuteis, sob o carro da nova idéa, ou antes da nova sciencia vencedora. Como flôres inuteis, dissemos nós, e todavia devemos reflectir, avisados por Victor Cousin[19], que os primeiros erros são inevitaveis e ao mesmo passo uteis, porque fornecem a base de todo o progresso. De feito, não se póde entender a idéa de progresso senão á vista de primordios que se tornam defeituosos quando comparados com trabalhos posteriores. «Sem as attrahentes chimeras da astrologia, sem as energicas decepções da alchimia, por exemplo, onde teriamos nós haurido, pergunta Augusto Comte, a constancia e o ardor necessarios para recolher as longas series de observações e de experiencias que, mais tarde, teem servido de fundamento ás primeiras theorias positivas de uma e outra classe de phenomenos[20]»?
Até agora tinhamos diante de nós a Grecia, Carthago ou Roma, e feita a historia separada de cada uma d'essas nações, julgavamos que tudo estava feito. Pelo contrario,{26}tudo principiará agora a fazer-se, tomando por elementos de trabalho as ruinas d'esses emporios. Desde o momento em que nos collocamos n'um plano superior a todas as nações, creamos a Historia universal, e, conhecendo pela Historia universal os factos da vida dos povos, salteou-nos o desejo de averiguar as relações que poderiam existir entre os factos e as idéas, de conhecer se todos esses factos seriam obra do acaso, ou se cada povo teria sido impellido por um mobil secreto para o cumprimento de determinada lei e encarregado de desempenhar uma missão no grande conjuncto da civilisação geral.
De tal desejo nasceu, no seculoXVIII, a Philosophia da historia.
Assim como a medicina seria uma sciencia imperfeitissima, destinada a caminhar ás cegas, se a physiologia não houvesse podido penetrar na vida interior do corpo humano, assim a Historia universal ficaria condemnada a contemplar tão sómente o enorme vulto do gigante que se chama humanidade, se a philosophia, desempenhando missão semelhante a da physiologia no campo das sciencias medicas, não perscrutasse o que ha de intimo e de secreto no seio d'esse colosso, se, por outras palavras, não habilitasse a escrever a verdadeira historia da humanidade[21].
Uma nação constitue-se, florece e cahe. No fim de contas, pergunta um philosopho[22], o que é uma nação de{27}mais ou de menos na humanidade? E tem razão. A Historia não passa além do tempo marcado á existencia d'essa nação, quer dizer, acompanha-a até ao seu ultimo dia, mas a Philosophia da historia procura estudar a influencia que essa nação extincta imprimiu na sorte da humanidade, qual o papel que representou no grande concerto dos destinos da civilisação.
Os povos são individualidades conscientes. Ora todos os factos praticados por individualidades conscientes, embora hajam sido determinados por causas variadas, representam uma idéa.
A Historia estuda os factos; a Philosophia estuda a idéa que cada um d'esses factos envolve.
Portanto a Philosophia completa a Historia.
Bossuet, o sabio prelado de Meaux, foi quem primeiro executou a idéa de uma Historia universal. Dedicando o seu vasto trabalho ao Delphim,—vasto, sobretudo, em relação a época—procura lançar a vista sobre a successão dos seculos, afim de que no espirito do principe permaneçam gravados os traços geraes da vida da humanidade se por ventura se lhe desluzirem da memoria os episodios das historias particulares.
«Esta maneira de historia universal—diz elle[23]—é, a respeito da historia de cada paiz e de cada povo, o que uma carta geral é para as cartas particulares. Nas cartas particulares estudaes miudamente um reino ou uma provincia{28}em si mesmos; nas cartas universaes aprendeis a situar todas as regiões do mundo conjunctamente; vêdes o que Paris ou a ilha de França é para o reino, o que o reino é para a Europa, e o que a Europa é para o universo.»
Realmente, este espectaculo offerecido por Bossuet ao Delphim era assombroso, mas não se póde considerar como propriamente uma invenção do prelado de Meaux. Por isso dissemos anteriormente que foi elle quem primeiroexecutoua idéa de uma Historia universal.
Bossuet, traçando o plano da sua obra, antepõe a tudo o mais a historia do povo de Deus,que foi o fundamento da religião. Escreve, portanto, sob o ponto de vista religioso, ou antes faz-se um echo da Igreja. A sua obra é, para assim dizer, um desdobramento da Biblia, e toda a originalidade que revela está, como observa Cousin, na execução. Vendo caminhar o povo de Deus á face da terra, sempre guiado pelo milagre, que faz, por exemplo, com que a vara de Moysés aparte as aguas do mar Vermelho, Bossuet vê em todos os passos d'esse povo a mão de Deus, o espirito do Senhor. O plano descoberto por Bossuet na mobilidade dos acontecimentos humanos é traçado pela Providencia. «Mas lembrai-vos, meu senhor—conclue o prelado de Meaux[24]—que esta longa cadêa das causas particulares que fazem e desfazem os imperios, depende das ordens secretas da divina{29}Providencia.» Embora arrastado pelas convicções profundamente religiosas do seu tempo e do seu espirito, e até pelo dever da sua posição social, Bossuet tem um ponto de vista exclusivo, unico, intransigente; mas em todo o caso imprime á Historia um caracter philosophico, porque determina um mobil e um fim a todos os acontecimentos humanos.
O exclusivismo de Bossuet é seguramente, pelo menos á luz da sciencia moderna, o maior defeito da sua obra. Havendo elle comparado a Historia universal a um mappa-mundi, onde se póde vêr o que Paris é para a França, a França para a Europa, e a Europa para o universo, esquece-se comtudo, perante o espectaculo da Providencia, embevecido em extasis religiosos, de estudar as relações dos povos entre si para se elevar até á humanidade. Elle preoccupa-se com o povo de Moysés como se esse povo constituisse por si só a humanidade. Na historia dos imperios, a que consagra a terceira parte da sua obra, procura systematicamente a ligação, que reputa necessaria, com a historia do povo de Deus. Não só o Oriente falta no grande livro de Bossuet,—pondera Cousin[25]—assim como a historia das artes, da industria e da philosophia; mas tambem as religiões e as instituições politicas dos differentes povos são algumas vezes tratadas de modo um pouco superficial, se bem que de longe a longe, e por exemplo na historia romana, haja{30}relampagos de uma sagacidade superior e paginas que lembram Machiavel e antecipam Montesquieu.»
Lançada a primeira pedra no vasto edificio da Historia da humanidade, uma de duas cousas havia fatalmente de acontecer: ou a obra de Bossuet ficaria esquecida e, portanto, perdida, ou novos obreiros viriam continuar a fabrica gigantesca. Felizmente, um homem verdadeiramente superior, um «d'estes genios descobridores que alcançam as verdades na sua maior generalisação»[26], appareceu em Italia, illuminando com os relampagos do seu genio a grande obra da historia das idéas humanas, porque, já o dissemos, a historia dos povos não é outra cousa, ou antes creando elle proprio uma sciencia nova,scienza nuova, arainha das sciencias, «porque as sciencias devem começar onde a materia e o objecto de que tratam principiam, e esta começará de feito com os primeiros pensamentos dos primeiros homens, e não com as primeiras reflexões dos philosophos sobre as idéas humanas[27].
É claro que nos referimos a João Baptista Vico.
O immortal philosopho napolitano, cujas obras despertam a mais sympathica admiração e o mais profundo interesse, extrahe danoite profunda e tenebrosa que envolve a antiguidade, uma affirmação completamente nova e surprehendente:O mundo civil foi certamente feito pelos homens{31}ou, n'uma phrase mais synthetica ainda,a humanidade é obra de si mesma.
Remontando-se á origem do mundo das nações, ou mundo civil, João Baptista Vico acceita a tradição biblica de que a terra fôra repovoada pelos descendentes de Noé, os quaes, rompendo os laços de familia por ligações passageiras e arbitrarias, se espalharam nagrande floresta da terra.
A infancia da humanidade é semelhante, segundo Vico, á infancia do homem.
Os homens são mudos na sua origem. Vivem apenas porque o instincto os leva a conservarem-se. Mas o primeiro trovão e o primeiro raio lançaram no seio da humanidade nascente uma luz nova, a primeira noção da divindade, como já mostramos no principio d'este trabalho.
A commoção que o primeiro phenomeno meteorologico produziu no homem, desprende-lhe a lingua: póde, finalmente, pronunciar o primeiro monosyllabo.
O desenvolvimento da palavra faz-se lentamente na humanidade como no homem. A insufficiencia da linguagem é supprida por signaes, por gestos ou pela grosseira representação dos objectos na casca das arvores, origem dos hieroglyphos. Para facilitar a articulação das primeiras palavras, os homens fallam cadenciadamente: é a origem dos cantos, dos versos, da pantomima e da dança. Desenvolvidos os orgãos da voz, as primeiras palavras são a copia dos sons da natureza. Depois as palavras perdem a significação natural e tomam uma significação{32}convencional; o mesmo acontece na escriptura, a partir dos hieroglyphos.
O homem, assustado pelo trovão e pelo raio, escondeu-se nas cavernas da terra, receando d'um poder superior a elle; e ahi occultou tambem a sua companheira. D'esta juncção nasceu a familia, a que o homem teve de procurar alimentos, tendo de sahir, para encontral-os, dos recessos das cavernas. Do accordo dos deveres e das necessidades, a que esta primeira sociedade deu origem, nasceu o direito natural.
Segundo a formosa theoria de Vico, vêmos, pois, como o homem é um producto de si mesmo, e o mundo civil é feito pelo homem.
Na existencia de cada povo, Vico encontra a idade dos deuses, ou a época em que a imaginação e o medo divinisam as forças da natureza; a idade dos heroes, ou a época em que os homens, imaginando que tudo é obra dos deuses, attribuem a si mesmos uma origem divina; finalmente, a idade historica, em que o heroe se humanisa, e em que a natureza humana se torna intelligente, modesta, dôce e razoavel, obedecendo por consequencia á lei da consciencia, da razão e do dever, como diz o proprio Vico[28].
Dentro do circulo fatal d'estas tres idades ou naturezas, é que a vida dos povos se desenvolve e completa. Chegado ao grau de perfeição que fica assignalado, cada{33}povo extingue-se como uma flôr que attingiu o seu maximo desenvolvimento. Outro povo, como outra flôr, o ha-de vir substituir dentro do mesmo circulo fatal.
Toda a theoria de Vico se póde representar graphicamente por uma serie de linhas parallelas, que a nosso vêr exprimem perfeitamente o seucorsiericorsi, o progresso e retrocesso dos povos. Segundo esta theoria, os governos começam pelaunidadenas monarchias de familia; pelomenor numero, nas aristocracias heroicas; pelomaior numero, nas republicas populares, e acabam pelaunidade, como principiaram, nas monarchias civis. A successão d'estes periodos abrange a vida de cada povo.
Assim, Vico, traçando, nos tempos da primeira barbarie, a longa linha decorsi, encontra os paes de familia exercendo um governo, cuja authoridade pretende derivar dos deuses. Esse é o periodo do mutismo; a expressão do pensamento é gesticulada, hieroglyphica (Monarchias de familia). Os homens errantes refugiam-se junto dos paes de familia, que lhes não querem reconhecer direito algum. Os adventicios revoltam-se. São vencidos pelos paes de familia. Revoltam-se de novo. Os paes de familia procuram fortificar-se formando uma classe e regulando os direitos dasgentes minores, dos adventicios (Aristocracias heroicas). Segue-se o periodo em que a continuação das revoltas por parte dasgentes minoresobtem concessões que produzem finalmente o governo humano, isto é, do maior numero (Republicas populares).{34}A estas épocas de agitação succede naturalmente um periodo de repouso, a monarchia. Mas cumpre notar que por isso que as monarchias e as republicas populares são ambas uma expressão dogoverno humano, podem succeder-se alternadamente.
Tracemos agora, segundo Vico, parallela á linha decorsi, a linha dericorsino periodo da segunda barbarie.
Voltam os tempos divinos. Os reis são os defensores da religião, magestades sagradas. Revestem a dalmatica dos diaconos. A corôa é encimada pela cruz. Fundação das ordens religiosas armadas. Os signaes dos brazões correspondem á linguagem hieroglyphica.—Regressam os tempos heroicos pelo feudalismo. Os barões são os heroes; os servos são asgentes minores.—Finalmente, os esforços dos vassallos para conquistarem a liberdade, em virtude da lei de que a potencia livre de um estado deve passar ao acto, vencem os esforços dossenhorese dão origem ao governo domaior numero, isto é, aos governos democraticos modernos.
Vico, encontrando o parallelismo doscorsiericorsina linha d'extensão, não o pôde comtudo achar na duração e intensidade dos periodos, porque o da segunda barbarie foi muito menos longo e profundo que o da primeira.
A theoria de Vico tem sido mais ou menos impugnada, sem que da impugnação se possa deduzir menospreço pela elevada concepção do philosopho napolitano,{35}que evidentemente se baseia na divisão dos tempos, feita pelos egypcios e pelos chinezes. Cantu acha que a theoria daScienza nuovatem o inconveniente de sobrepôr a razão á liberdade; de inutilisar todos os esforços tendentes a realisar um progresso continuo; finalmente, que ella é desmentida pela constituição da sociedade americana, que se organisou sem deuses, sem heroes e sem feudatarios, á custa da industria e da concorrencia[29]. Cousin encontra na theoria de Vico o vicio da preponderancia do elemento politico, da omissão quasi completa da arte e da philosophia, e sobretudo do estudo da civilisação oriental, dominada pela religião; finalmente, da omissão relativa aos destinos da humanidade em geral na sua marcha de refluxo em refluxo[30]. O snr. dr. Theophilo Braga acha que se ha erro n'aquella divisão dos tempos consiste em fazer o computo de tal modo, que os periodos subsequentes sejam excluidos dos primeiros[31].
Mas Cantu, como Cousin, faz justiça ao talento brilhantissimo de Vico, cuja arrojada intuição, em pleno seculoXVIII, espanta realmente. Comquanto Vico fique hoje muito atrazado em vista do estado actual da sciencia, sobretudo pelo que toca aos modernos debates sobre a origem das especies, distribuição geographica das raças humanas, pluralidade dos mundos, suspeitada já por{36}Giordano Bruno, e á questão da influencia dos meios, não póde deixar de reconhecer-se que não só previu muitos dos mais transcendentes problemas da sciencia moderna, taes como o da origem da linguagem, cuja resolução antecipou, mas tambem que deixou na sua obra os germens de muitas sciencias novas[32], e que foi o fecundador da maior parte das theorias modernas, entre as quaes a Philosophia da Historia.
A obra de Vico foi continuada por Montesquieu n'um plano igualmente superior. Como Vico, Montesquieu occupa-se da relação do direito com os costumes, mas introduz na sciencia da Historia um elemento novo, que todavia já Hippocrates, Platão, Aristoteles e outros sabios da antiguidade haviam suspeitado: a influencia dos climas no caracter e vida dos povos. Bossuet havia introduzido na Historia universal o elemento religioso: Vico, o elemento racional; Montesquieu introduziu o elemento climatologico.
O auctor doEspirito das Leis, fanatico pela sua doutrina, exagera os effeitos do clima, comquanto devesse attender a totalidade dos meios cosmologicos como Herder, mas o que é certo, e a sciencia moderna o tem demonstrado, é que o homem, e mais adeante nos demoraremos n'este ponto, quando tratarmos de Herder, nasce{37}e vive sob a influencia da natureza que o rodeia. O clima produz as sensações habituaes, que, no decurso dos tempos, constituem a sensibilidade definitiva[33]. Nas obras d'arte, e de litteratura, que são as que mais profundamente caracterisam a civilisação de um povo, como mais de espaço veremos, importa considerar, segundo Taine[34], tres forças primordiaes, a raça, omeio, e o momento. Estabelecida a verdade da influencia climatologica nohomo duplex, Emilio Deschanel[35]procura no estylo de cada escriptor a caracteristica do temperamento, doclima, dos habitos, etc. Pelletan, considerando o sólo como um collaborador forçado do destino d'uma raça, reconhece a necessidade de se escrever ageographia do progresso[36].
Não se póde levar tão longe, porém, a fatalidade exclusiva do clima, sob o ponto de vista da temperatura, que haja de se fechar os olhos a contradicções flagrantes, a que os proprios factos historicos dão relevo, embora Montesquieu veja ainda no fundo d'essas contradicções a influencia climaterica. Assente que os climas frios são os que dão o vigor, a energia, e os climas quentes a molleza e a indolencia, o proprio Montesquieu[37]foi{38}obrigado a notar contradicções nos caracteres de certos povos do Meio-dia. «Os indios são naturalmente faltos de coragem, diz elle; os proprios filhos dos europeus, nascidos nas Indias, perdem a do seu clima.» Esta ultima affirmação acha-se plenamente confirmada no precioso livro de um viajante hollandez[38], o qual, tratando da maneira de viver dos portuguezes na India, faz notar a ociosidade a que se entregavam, a ponto de explorarem a honra de suas proprias mulheres[39]. Pois não obstante a indolencia peculiar ao clima da India, onde a luz e o calor parece conservarem-se n'uma primavera ininterrompida, os costumes indianos são violentos e barbaros: os homens submettem-se a males incriveis, as mulheres lançam-se ao fogo. Montesquieu explica ainda este facto pela preguiça do espirito dos indios, a qual é devida á indolencia do corpo, produzida pelo clima. A preguiça do espirito traz, realmente, a immobilidade nas leis e nos costumes; sem embargo, como observa Voltaire, a influencia dos climas é algumas vezes desmentida pelos factos historicos: em resposta á asserção de que os povos dos paizes quentes são timidos como os velhos, lembra Voltaire que os arabes conquistaram em oitenta annos maior territorio do que aquelle que o imperio romano possuia.{39}
Um philosopho allemão, que Edgar Quinet vulgarisou na Europa, levanta sobre a theoria de Montesquieu um edificio tão brilhante como arrojado; segundo Montesquieu, o homem é influenciado pelo clima; segundo Herder, a natureza é o molde d'onde a humanidade sahe conformada. Herder, cuja largueza de vistas abrange todos os elementos da humanidade, estudados desde a origem dos tempos, no seu desenvolvimento harmonico e progressivo, o que lhe dá uma incontestavel vantagem sobre os philosophos que o precederam, parte da geographia physica para chegar a uma synthese assombrosa. «É com um admiravel instincto—diz Quinet—que Herder segue o contorno dos rochedos e dos rios, que se perde nos desertos, que penetra com um olhar o interior de um paiz, para encontrar na natureza externa o primeiro mobil das tendencias e determinações dos povos[40].» A theoria de Herder é muito mais complexa do que a de Montesquieu, e é claro que, lançando mão de todos os elementos offerecidos pela natureza, abrange maior numero de verdades. Herder, como observa Quinet, estuda até os contornos dos rochedos e dos rios, as linhas da natureza; os perfis das montanhas e as sinuosidades do alveo dão-lhe a idéa das tendencias dos povos que vivem n'essas paragens. Com effeito, o scenario de um theatro fornece a primeira concepção das paixões que se irão desenvolver{40}no drama. No grande palco do mundo acontece o mesmo. O aspecto da natureza torna o germano dotado de uma tempera robusta[41]. Em Portugal, os povos nascidos nas duas montanhosas provincias da Beira sahem aptos para as maiores rudezas do trabalho; são principalmente elles os que executam a tarefa das ceifas no Alemtejo, onde vão todos os annos, arrostando um sol canicular, abrazador, chegando a morrer n'um só estio e n'uma só comarca, a de Elvas, quatrocentos ceifeiros, de fouce em punho, como verdadeiros heroes do trabalho[42]. Os povos do Algarve nascem marinheiros pela fatalidade da situação geographica, arrojam-se ás maiores ousadias da navegação, como a que no principio d'este seculo realisaram, indo dous homens n'um cahique ao Rio de Janeiro. Herder tinha razão. Um só rio, o sinuoso e extenso Douro, basta a caracterisar a vida da maior parte dos habitantes d'uma provincia. O conhecimento pratico, a observação de algumas povoações portuguezas leva-nos a estabelecer o principio de que a fórma geometrica dos rios determina os costumes dos povos circumpostos. As correntes em linha recta são as que produzem menor pureza de vida; pelo contrario, os rios meandrosos, difficeis, occasionando um trabalho continuo e perigoso santificam, para assim dizer, os costumes. Estudemos{41}esta theoria no rio Douro. Os barqueiros d'este rio entregam-se a um trabalho por tal modo intenso e ininterrompido, que chega a ser uma religião. Pendurados das fragas afim de tirarem os barcos á sirga, empenhados em vencerem os perigos dospontos, verdadeiras cataratas, havendo previamente, de barrete na mão, confiado as suas vidas a Deus, são completamente absorvidos pela preoccupação do trabalho. Extenuados, quando recolhem ao lar domestico, dedicam-se á vida de familia, ao descanço patriarchal da lareira; regulando ainda assim o tempo por modo que muitos d'elles cultivam a sua vinha, a sua pequena horta, no intervallo das viagens. Mas nos rios placidos, rectilineos, a navegação não é um trabalho, é, pelo contrario, um pretexto de ociosidade. A propria corrente leva o barco, os barqueiros não bebem para fortalecer-se; bebem para embriagar-se, pordeboche. Quando chega a noite, procuram as casas devassas, as rameiras do caes.
Herder, desenvolvendo a theoria de Vico, abrangeu todos os meios cosmologicos; não se preoccupou só, como Montesquieu, com os agentes astronomicos, e deu a devida importancia á acção geral da natureza. No estado actual da sciencia é preciso tambem ter em vista os modificadores sociologicos, posto que muitas vezes nos pareçam sujeitos aos cosmologicos. As profissões industriaes, por exemplo, não raro dependem de uma influencia puramente local. Jacques de Boisjoslin confirma esta opinião, avisando de que as aptidões profissionaes{42}podem enganar sobre as verdadeiras disposições das raças, por isso que frequentemente derivam do clima, da pressão da natureza[43].
Edgar Quinet lança-se com vivo enthusiasmo na theoria de Herder: «A figura dos continentes, dos rios, dos mares, das montanhas,—escreve elle com o seu bello colorido poetico—, quasi por toda a parte ha determinado a das sociedades; de modo que cada continente é um molde onde a Providencia vasa as raças humanas para que ahi tomem a fórma eterna dos seus designios; e o primeiro propheta escreveu o seu livro nas linhas mudas dos continentes ainda deshabitados[44].»
Cousin, depois de haver prescripto ao movimento geral da Historia tres épocas, ligadas não só por uma relação de successão mas tambem de geração, tres épocas baseadas sobre as tres unicas idéas que o pensamento humano póde conceber, oinfinito, ofinito, arelação do finito com o infinito, sendo que estes tres elementos podem coexistir n'uma mesma época posto que seja o predominio de um o que a caracterisa; Cousin liga tambem uma alta importancia á situação geographica e chega á conclusão de que paratres épocas differentes, tres theatros differentes.
A theoria de Herder tem sido, porém, accusada por alguns philosophos de imprimir ao homem um caracter{43}de passividade, que o reduz á condição de escravo da natureza que o rodeia, e elle proprio, como lhe é censurado, não póde explicar pela geographia physica todos os desenvolvimentos da civilisação. Para elle, a linguagem humana é uma instituição divina, posto que até certo ponto nos pareça que, reproduzindo os primeiros homens as vozes da natureza pela onomatopea, segundo Vico, podia Herder explicar por esse mesmo facto a origem da linguagem, e pela situação geographica a euphonia ou a aspereza de certos dialectos.
Uma outra accusação consiste em não se haver Herder remontado á origem ethnica das raças, encarando-as apenas no estado em que as encontrou, quando estudou o caracter de cada uma como elemento da Philosophia da historia; pelo que calumniou toda a raça aryana, e portanto os germanos, a que pertencia, quando representou como rebeldes a toda a cultura os celtas e os slavos, que foram a guarda-avançada da colonisação europêa[45].
Como quer que seja, Herder accendeu a esplendida aurora que devia illuminar, principalmente em nossos dias, o estudo de todos os grandes problemas da sciencia e da humanidade, a que, depois d'elle, se tem dedicado grande numero de espiritos luminosos e fortes, cujas theorias não podemos mencionar n'um trabalho que, como este, tem de ser realisado n'um periodo fatal e curto.{44}
O ponto de vista religioso de Bossuet e o ponto de vista politico de Vico ficaram desde Herder offuscados pelo conjuncto synthetico de todos os elementos da civilisação humana: as raças, as linguas, as religiões, as artes, as litteraturas, os systemas de governo e de philosophia, etc. Duchinski achou vinte e oito elementos de critica historica: 1. Hydrographia; 2. Plasticidade do sólo; 3. Physionomia dos habitantes; 4. Hygiene, doenças; 5. Climatologia; 6. Mythos; 7. Tradições peculiares a cada raça; 8. Faculdades musicaes e poeticas; 9. Tendencia dos povos á vida sedentaria agricola ou a vida nómada mercantil; 10. Lugar da mulher na sociedade; 11. Faculdades religiosas, desenvolvimento das seitas; 12. Vestuario; 13. Alimentos, e bebidas; 14. Desenvolvimento da vida provincial e das idéas federativas; 15. Maior ou menor predisposição para a adoração do principio do mal; 16. A geologia e sobretudo a geologia agricola; 17. A botanica; 18. A zoologia; 19. As linguas sob o ponto de vista lexicographico; 20. As linguas sob o ponto de vista euphonico; 21. As linguas sob o ponto de vista dos caracteres da civilisação; 22. As linguas sob o ponto de vista das tradições historicas que apresentam; 23. Pureza e impureza relativa dos costumes; 24. Grau do poder creador do espirito; 25. Grau de parentesco entre os povos sob o ponto de vista das relações historico-politicas; 26. Estatistica; 27. Encadeamento dos factos historicos. 28. Grau de parentesco com relação ás origens. E certamente não se poderia Duchinski gabar de{45}ter enumerado todos os materiaes que sabe aproveitar a Philosophia da Historia, em cujo campo o menor elemento fornece uma caracteristica, o que não deve admirar depois que se conheceu que uma alga microscopica, aTrichodesmium erythræum, produz certa coloração particular do mar Vermelho.
Afim de estudar todos estes elementos, para chegar á synthese da humanidade, era preciso desenvolver, refundir e até crear um grande numero de sciencias correlativas a elles. É o que se tem feito até hoje. Cada sciencia especial acode a offerecer ao investigador uma poderosa alavanca que ha-de ajudar a levantar a humanidade á altura precisa para receber de frente toda a luz da Philosophia. A Historia, que fôra outr'ora simplesmente a narração de factos, tornou-se, portanto, a mais complexa de todas as sciencias. Foi uma transformação assombrosa. Atearam-se os grandes debates da sciencia moderna, os sabios lançaram-se á descoberta da verdade, tomando a Philosophia por instrumento. O nosso seculo tem assistido as mais brilhantes investigações. A Philosophia positiva metteu hombros ao colosso do passado, e iniciou um dos cyclos mais admiraveis da humanidade, se não o mais assombroso de todos elles.
Parece-nos conveniente insistir n'este ponto, por isso que lavra ainda em alguns espiritos uma certa desconfiança sobre o estado de perfeição dos modernos trabalhos scientificos. O conhecimento d'esta desconfiança foi que nos determinou a escolhermos para dissertação{46}de concurso o vasto assumpto de que vimos tratando, seguramente muito superior ás nossas forças.
Odysse-Barot é um d'esses espiritos desconfiados. «Vemos apparecer cada anno, diz elle[46]numerosas e interessantes monographias, obras especiaes de um incontestavel valor; mas não passam de uteis materiaes, que seria tempo de pôr em obra. A Historia está no ponto em que se achavam: a astronomia antes de Keppler, Copernico e Newton; a chimica antes de Lavoisier e Berzelius; a physica antes de Archimedes; a zoologia antes de Geoffroy Saint-Hilaire; a geologia antes de Cuvier; a physiologia antes de Harvey. A lei da attracção universal será mais difficil de formular do que a lei da attracção celeste? Sabemos como se movem os astros, e ignoramos como se movem os povos! Podemos determinar a curva que descrevem os mundos, e não sabemos absolutamente nada da orbita que percorrem as nações! Porque não descobrirão a lei da aggregação dos homens, como souberam achar a lei da aggregação das moleculas de um corpo? Não haverá uma chimica social do mesmo modo que ha uma chimica organica ou uma chimica mineral? Será que as forças chamadas cohesão e affinidade não possam actuar senão sobre os gazes, os liquidos ou os solidos? Acaso a humanidade ignora o que é uma combinação, uma liga? Não tem seus reagentes, suas decomposições, seus precipitados? Descobriu-se a{47}lei da circulação do sangue no homem: a historia espera o seu Harvey, para encontrar a lei da circulação do sangue nas sociedades. A historia espera o seu Archimedes, que nos dê a formula da dynamica e da statica politicas, etc.»
Realmente, isto é querer desconhecer até onde teem chegado os progressos da actividade humana dentro do campo da possibilidade, e exigir da humanidade o impossivel.
Com a sabia orientação da Philosophia positiva, o espirito humano caminha energicamente para as acquisições scientificas que as mais pacientes observações preparam todos os dias. Foi trabalhosa e demorada a jornada até esta conquista, porque o espirito humano teve de atravessar successivamente o estado theologico, base e estimulo de todo o progresso, porque é preciso um ponto de apoio qualquer para firmar os primeiros passos, e o estado metaphysico, transição do estado theologico para o estado positivo.
Mas, chegados a esta nova conquista, o que podemos exigir da Philosophia positiva, sciencia que elevou a Historia á sua mais alta concepção? Que nos permitta encarar todos os phenomenos como sujeitos a leis naturaes invariaveis, e reduzil-as ao menor numero possivel, afim de simplificarmos a universalidade dos conhecimentos humanos; que nos permitta sujeitar a um systema claro e positivo todas as sciencias fundamentaes estudadas nas suas relações communs como elementos constitutivos de{48}um todo harmonico, e portanto tambem nas suas relações com esse mesmo systema, com esse todo. Esta grande, esta immensa obra de simplificação deve-se á Philosophia positiva. Mas para que a Philosophia positiva podesse constituir-se com o caracter de universalidade que lhe é proprio, era preciso abraçar todas as ordens de phenomenos. Por isso a Philosophia positiva teve de inventar uma nova sciencia, que se propozesse estudar uma especie de phenomenos, que não podia incluir-se na dos astronomicos, na dos physicos, na dos chimicos, nem finalmente na dos physiologicos, e creou aphysica social, que se trata de estudar com o vagar que a sua dependencia de todas as outras sciencias de observação exige, e que virá completar a constituição da Philosophia positiva.
Mas todos estes grandes, estes grandissimos progressos do espirito humano, toda esta colossal obra de simplificação e generalisação poderá produzir o conhecimento exacto, certo das causas das leis estudadas ou da explicação universal de todos os phenomenos por uma lei unica? Responde o proprio Comte, o grande apostolo do positivismo: «Na minha profunda convicção pessoal, considero estas empresas d'explicação universal de todos os phenomenos por uma lei unica como eminentemente chimericas, ainda quando são tentadas pelas mais competentes intelligencias. Creio que os meios do espirito humano são muito fracos, e o universo muito complicado para que uma tal perfeição scientifica possa estar ao{49}nosso alcance, e até penso que se faz geralmente uma idéa muito exagerada das vantagens que de tal conquista resultariam necessariamente, se ella fosse possivel[47].» É o proprio Augusto Comte que nos vem dizer que considera defezos á razão humana todos os mysterios que a philosophia theologica procurava explicar facilmente; que o espirito humano deve reconhecer, no estado positivo em que se acha, a impossibilidade de obter noções absolutas, de conhecer as causas intimas dos phenomenos, a origem e o destino do universo[48].
Estamos, pois, lançados na ampla estrada de uma sciencia toda humana, e havemos de chegar até onde os recursos humanos nos possam levar. É preciso tempo e trabalho para que a folha da amoreira se converta em sêda. A astronomia esperou o seu Keppler, como a historia espera o seu Archimedes. Odysse-Barot pede a formula da dynamica e da statica politicas: portanto, o que pede são duas theorias scientificas, que se devem considerar como factos logicos. Ora só por uma profunda observação d'esses factos se póde chegar ao conhecimento das leis logicas[49]. A Philosophia positiva, auxiliada pelas sciencias de observação já perfeitamente conhecidas, procura preencher a lacuna que respeita aos phenomenos sociaes para attingir o seu caracter de universalidade.{50}
Segundo esta nova marcha do espirito humano, toda positiva e observadora, a Historia teve de estudar profundamente a natureza para chegar, finalmente, á exacta concepção do lugar que n'ella occupa o homem. A geologia tem, portanto, attingido um notavel estado de florecimento. A historia da terra desdobrou-se em capitulos com uma nitidez admiravel, desde a nebulose, que pelo resfriamento se converteu na esphera terrestre, até nossos dias. Excavando nas entranhas da terra, para extrahir, como um minerio precioso, a sua historia, a sciencia encontrou os destroços animaes e vegetaes que geraram a paleontologia. Nas camadas terciarias do globo appareceram os instrumentos de pedra, a que o vulgo chama ainda hojepedras de raio[50], e que effectivamente foram considerados como productos da natureza antes que Mercati os considerasse como armas defensivas do homem no estado da sua rudeza primitiva. O achado de alguns fosseis, que pareceram humanos, a par com os esqueletos de alimarias ante-diluvianas, veio depois, ao cabo de longos debates, e de novos achados, desfazer o erro anthropocentrico, confirmar a existencia prehistorica do homem e por conseguinte o emprego dos instrumentos de silex. Foi assim que do consorcio da geologia com a paleontologia nasceu a archeologia. Então, á luz do grande facho da archeologia, pôde a Historia{51}reconstruir as idades primitivas do homem. Chamou á primeira,de pedra, e subdividiu-a empaleolithicaou dos instrumentos de pedra lascada;mesolithicaou dos instrumentos de pedra lascada e de osso;neolithicaou dos instrumentos de pedra polida; e á segunda, idade dosmetaes, subdividindo-a em idade de bronze[51]e idade de ferro. A descoberta de fosseis humanos, e dos instrumentos prehistoricos, veio dar desenvolvimento a um grupo de sciencias que teem necessaria relação entre si.
No primeiro plano d'este grupo, apparece a anthropologia, ramo da historia natural que trata do homem e das raças humanas, sciencia que se póde considerar originada pelo positivismo moderno, comquanto os gregos já designassem pelo vocabuloanthropologosaquelles que discutiam sobre o homem. O problema da origem do homem impoz-se á meditação dos sabios, como uma das mais importantes questões a resolver. Apartaram-se as opiniões, os campos. A primeira base de toda a discussão foi o Genesis. A opinião polygenista tirava argumento de serem os filhos de Deus representados como raças{52}provenientes de Adão, e os filhos dos homens como raças não adamicas[52]e de que a Biblia apenas se referia aos povos semitas, particularmente aos judeus[53]. A opinião monogenista contrapunha que todas as raças descendiam primitivamente de Adão e Eva, e consecutivamente dos tres filhos de Noé salvos do diluvio; que a influencia dos meios cosmicos produzira a variedade das raças. Esta discussão veio a generalisar-se, a emancipar-se da sua origem biblica, a diffundir-se pelo campo da sciencia, e até da politica[54].
Otransformismoé uma phase nova d'esta grande questão, que envolve uma idéa antiga[55]. Lamarck sustenta que as especies se transformam passando de uma para outra, tanto no reino animal como no vegetal: o homem é uma transformação lenta do macaco. Procurando a origem dos sêres, Lamarck encontra os germens primordiaes ou mónadas, provenientes de geração espontanea. N'este systema, os meios de transformação{53}explicam-se pela adaptação dos orgãos ás condições da existencia. Cuvier, Geoffroy Saint-Hilaire e outros, sahiram em defeza das idéas orthodoxas, que parecia haverem triumphado quando appareceu Carlos Darwin, cuja theoria se póde definir:A selecção natural por a lucta pela existencia, applicada ao transformismo de Lamarck[56]. Segundo Darwin, todos os seres organisados se transformam incessantemente sob o imperio de uma lei de selecção natural (natural selection), e todas estas transformações têem por causa a lucta pela vida (struggle for life), isto é, o combate eterno dos sêres vivos entre si pelos meios de existencia. Todas as especies vivas descendem, segundo Darwin, de um pequeno numero de prototypos ou mesmo de um só. Em virtude da selecção natural todas as variações uteis são conservadas, e todos os desvios nocivos eliminados[57]. Comquanto Carlos Darwin se abstivesse de applicar a sua theoria á especie humana particularmente, os que a defendem fazem essa applicação como consequencia logica das asserções apresentadas por elle. A doutrina darwiniana foi o ponto de partida de um longo debate que ainda dura. Entre os allemães que se filiaram na escóla do transformismo, avulta Hæckel, que para explicar a origem do{54}homem parte das primeiras cellulas conhecidas,moneras, formadas por geração espontanea. Estas cellulas foram-se dispondo em orgãos e, depois de uma serie de transformações, que se podem classificar em vinte e dous graus, apparece o homem.
Graças ao espirito de positivismo do nosso seculo, as sciencias biologicas chegaram a este grau de desenvolvimento, e como que sopraram vida nova á intelligencia humana cada vez mais ávida de saber. Desdobram-se na tela da discussão os mais graves problemas, como por exemplo o das gerações espontaneas, que tanto preoccupou a Academia das Sciencias de Paris, depois que em 1858 o professor Pouchet lançou o pomo da discordia ao seio dos quarenta immortaes[58]. Certo é que muitos d'esses{55}grandes problemas não estão ainda resolvidos, como por exemplo o do transformismo, mas não é menos certo que as modernas investigações vão cada vez produzindo novas acquisições, e que, pelo que toca ao transformismo, a doutrina da mutabilidade e da evolução morphologica dos seres organisados vai cada dia ganhando maior terreno.
N'um curso regular de anthropologia, como aquelle que se professa no Instituto anthropologico de Paris, sob a direcção de Paulo Broca, a ethnologia, sciencia que se occupa da classificação, descripção, repartição, filiação e evolução das raças humanas, tem um logar importantissimo, e tanto se identifica esta nova sciencia com a Historia philosophica, que só pelo estudo das raças constituiram alguns historiadores uma Philosophia da Historia.