XVII

XVIIPassou-se o dia 26 e a noite em aprestos para o ataque.O grande capitão reuniu todos os homens de guerra, que não excediam a sessenta, pelo que diz Diego Arana, armados de couraças e de cascos; o resto eram enfermos, incapazes de entrarem em combate. Mandou arrear algumas peças de artilharia para as chalupas, escudos sobrecellentes e mosquetes, munições e alguns comestiveis, não muitos, pois não os havia para larguezas; mas o que faltava ao corpo, abundava no espirito, porque a gente de guerra estava desejosa de bater-se, tanto tempo havia decorrido que não experimentava armas.Era natural.{120}Pela meia noite principiou o embarque nas chalupas.Havia passado um anno e sete mezes que esses valentes tinham embarcado tambem, em S. Lucar de Barrameda, para a famosa expedição, cheios de enthusiasmo, a correr aventuras como agora.Em S. Lucar o sol de agosto aquentava-lhes mais o espirito e inundava de luz o mar a que se faziam suas caravelas, levadas como que entre nuvens de fumo dos tiros de artilharia, que diziam o ultimo adeus ás terras de Hespanha.Em Zebú, porem, a partida era differente; o véo da noite envolvia a terra e os mares; o sol não saudava aquelles valentes, que então como agora iam jogar a vida. Tinham de abafar o seu enthusiasmo no meio do silencio de uma noite triste e funebre, em que no céo apenas uma ou outra estrella vagueava sua luz tremente, como olhos marejados de lagrimas. Não havia corações amigos a saudal-os na despedida, mas gente barbara e extranha que os olhava temerosa e desconfiada.Que differença!E em silencio se fez o embarque, a que assistiu Fernão de Magalhães, embarcando elle na ultima chalupa.O rei de Zebú, com um dos principes e{121}outros senhores da ilha, seguiram os christãos em balangais, com indios armados de piques.Vento fresco encrespava o mar por onde os barcos iam correndo, ora orçando da vaga ora arribando para o vento.Magalhães, de pé, á pôppa da sua chalupa, vigiava todo o governo e ordenava a manobra.Ia satisfeito; pelo seu espirito não passava sombra de receio da aventura em que ia lançar-se. As horas pareciam-lhe mais longas que de costume; a noite não tinha fim!Proximo da madrugada chegavam as chalupas á ilha de Mactan, e o primeiro impulso de Magalhães foi o desembarcar immediatamente com os seus homens de guerra, mas não era possivel. A maré estava baixa e as ondas quebravam-se com violencia contra os cachopos da praia, elevando-se espumantes para o ar.Qualquer barco que tentasse abordar á terra correria o risco de se despedaçar entre os recifes.Comtudo a impaciencia de Magalhães não lhe soffria delongas e, sem attender ao perigo, ordenou a um mouro, que ia nas chalupas, para que da sua parte fosse intimar o regulo de Mactan a reconhecer a soberania do rei de Hespanha e prestar obediencia ao rei christão de Zebú, pagando os{122}tributos exigidos; de contrario os castigaria pelas armas[9].Foi-se o mouro com a intimação, e se escapou de mergulhar entre os recifes, quasi ia ficando preso na ilha, pois os rebeldes não se intimidaram com as suas palavras e antes responderam que: saberiam defender-se e resistir aos christãos, pedindo sómente que os não atacassem de noite.[10]Assim voltou, a custo, o mouro a participar ao chefe o resultado da sua missão.Como se poderá descrever o desespero e impaciencia de Magalhães ao saber a resposta d'aquelles barbaros, que mais incitava os seus brios de guerreiro? Queria desembarcar logo com a sua gente e atacar os rebeldes, ainda que de noite, e teria cedido ao primeiro impulso se não fôra o rei de Zebú dissuadil-o de tal temeridade, fazendo-lhe conhecer a tactica d'aquella gente, que, para se defender, se fosse atacada de noite, abriria fojos em volta da ilha, cheios de estacas aguçadas como lanças, onde os hespanhoes cahiriam cegamente como em armadilha bem disposta para os caçar.Por isto se conhece a dissimulada astucia{123}d'aquelles barbaros, pedindo para os não atacarem de noite, como se para tal não estivessem prevenidos, o que certamente incitaria os castelhanos a realizar o ataque, mais seguros do resultado.Magalhães, acreditando ou não no que lhe observou o rei de Zebú, precaveu-se do logro e achou por mais seguro realizar o desembarque de dia para melhor medir o campo em que tinha de operar.Mal a aurora despontou, as chalupas approximaram-se da praia tanto quanto permittia a maré, que ainda estava baixa, e Magalhães desembarcou com parte da sua gente, dando a agua pela cintura a todos, de modo que não puderam transportar a artilharia.Isto obrigou a que nas chalupas ficassem homens a guardar as peças, além d'aquelles que tinham de tomar conta nos barcos, o que reduziu o numero dos combatentes que acompanhavam o chefe.Para mais, Magalhães não acceitou o auxilio de gente que lhe offereceu o rei de Zebú, talvez por não lhe merecer grande confiança; e, julgando-se mais seguro com os seus cincoenta homens, que tantos desembarcariam, avançou para terra resoluto a bater os barbaros.Ainda bem não tinha disposto a sua gente em acção, quando, por um dos flancos,{124}lhe surde d'entre o matto uma manga de indios armados de flechas e escudos. Trava-se logo a lucta, rompendo os hespanhoes fogo de mosquetaria, que pouco alcançava o inimigo. Este despedia-lhe suas flechas, que se embotavam contra os cascos e couraças dos christãos; mas bem não tinha começado o ataque, quando outra manga apparece pelo flanco opposto a atacal-os, o que obrigou Magalhães a dividir a sua gente em duas columnas, para fazer frente ao inimigo.Cresce a lucta, redobra o esforço.As flechas são impotentes contra as couraças, mas a mosquetaria vai derribando os indios, ganhando os christãos terreno.Não se acobardam os barbaros com as perdas soffridas, e disputam a posição com inesperado valor. Em alguma cousa se fiam para arrostarem com os christãos. Contam com a sua superioridade numerica, que não tarda a ser reforçada, e agora apparece pela frente outra manga, tanto ou mais numerosa que as primeiras, arrogante e bem armada de varas de madeira endurecidas ao fogo, que ferem como laminas de aço.Magalhães e a sua gente vêem-se cercados por todos os lados. Elle, só á sua conta, tem rechassado um bom numero de indios; braço vigoroso, animo decidido, não cansa.{125}Tenta dividir o inimigo; e manda lançar fogo á povoação, para que elle corra a dominar o incendio.Mas esta estrategia não dá resultado, porque os indios mais se exasperam, e alguns, correndo sobre os incendiarios, ainda colhem dois a quem logo dão a morte.As numerosas mangas vão crescendo cada vez mais sobre os hespanhoes, arremessando-lhe um sem numero de flechas, varas e pedras, que lhes atiram os cascos fóra da cabeça.Alguns, considerando-se perdidos, já fogem para a praia e entram na agua, que lhes chega quasi aos hombros, em procura das chalupas, onde se refugiam.Magalhães resiste sempre, acompanhado pelos mais fieis e corajosos, que todos se batem com denodo.Os indios, vendo que as suas flechas resvalam das couraças e caem na areia sem causar damno ao inimigo, apontam-n'as mais baixas, procurando ferir as pernas dos adversarios. Este expediente dá-lhes resultado, porque os homens de Magalhães debandam em maior numero, sentindo-se feridos. Entretanto é ao chefe que os indios mais assestam as suas pontarias até que uma flecha lhe acerta n'uma perna.Magalhães não perde um momento a sua{126}coragem, sustenta a lucta e anima os seus a que o egualem.—Por Santiago matemos estes miseraveis!E batia-se para a frente e para os lados, levando com a sua lança a morte aos inimigos, que não o poupavam.Por duas vezes lhe fazem saltar fóra da cabeça o casco com pedradas que lhe atiram.Mas elle não se estonteia nem recua; põe-n'o de novo e continua na tremenda lucta.Agora é uma flecha que se lhe crava na face, mas elle cresce sobre o audacioso, embebendo-lhe a lança no corpo! Outra flecha trespassa-lhe o braço direito quando elle vai a desembainhar a espada, que fica na bainha. Solta então um rugido de dôr e de desespero, porque se vê desarmado.Grita pelos seus, mas inutilmente, porque uns jazem por terra e outros teem-se precipitado para as chalupas.Sente-se abandonado no meio do inimigo. Um esforço supremo para se desaffrontar. Sobra-lhe na alma coragem para bater-se até a morte, mas fallece-lhe no corpo força para reagir.Os indios percebem que o valente capitão já os não póde ferir, e lançam-se sobre elle como chacaes.{127}Deitam-n'o por terra, e elle ainda se ergue uma e mais vezes com esforço heroico, a clamar pela sua gente; mas ninguem o ouve nem lhe póde acudir.Nem um d'entre elles, diz Pigafetta, havia que não estivesse ferido e pudesse soccorrer ou vingar o seu chefe. Precipitaram-se para as chalupas, que estavam prestes a partir, e deveram a sua salvação á morte de Magalhães, porque, quando elle succumbiu, os indios correram todos para o logar onde elle tinha cahido.Fernão de Magalhães poderia então, como o infante D. Pedro, em Alfarrobeira, soltar aquella phrase memoravel:—Vingar ahi villanagem!Não havia já resistencia possivel.Os indios cahiram em massa sobre o desventurado capitão; crivaram-n'o de flechas, lançaram sobre elle pedras para o acabarem de matar, e só quando estavam bem seguros de que elle já não tinha alento de vida, é que deixaram a presa!{128}{129}[9]Diego Arana,Vida e Viagens de Fernão de Magalhães.[10]Idem.XVIIIMorreu o grande capitão ás mãos dos selvagens de Mactan, n'uma lucta tão heroica quanto ingloria, para quem se tinha proposto a tão grande empresa e a levara a cabo através de todas as difficuldades e perigos.Fernão de Magalhães, costumado a vencer até os proprios elementos, levou-se de enthusiasmo e não mediu o perigo de assim se expôr á morte que lhe traria ruina para elle e para a sua gente, que sem o chefe e desprestigiada, bem poderia ser victima d'aquelles selvagens, e perder o fructo de tantos sacrificios, ficando ignorado do velho mundo o resultado da aventurosa viagem, se nenhum dos ousados mareantes lograsse voltar á Europa, como quasi ia succedendo.A morte do heroe teve effeitos desastrosos para toda a expedição, que desde aquelle{130}momento perdeu o prestigio que a fazia respeitar e temer no espirito dos habitantes das ilhas.O rei de Zebú, que tão docil se mostrara, chegando a fazer-se christão e a alliar-se com estes contra os selvagens de Mactan, depressa mudou de idéas e concertou com os seus para dar morte aos castelhanos traiçoeiramente.Cinco dias depois do triste acontecimento que acabamos de narrar, a 1 de maio de 1521, nova desgraça viera ferir os castelhanos. Moveu-a a intriga e o despeito de um escravo de Magalhães, que era o lingua da expedição, pelo que refere Pigafetta e conforme o que Sebastião de Elcano declarou no inquerito que, em 1522, se levantou sobre a viagem de Magalhães e tragico fim do valoroso capitão.Aquelle escravo tinha seus aggravos de Duarte Barbosa que, com Serrão, tomara o commando da frota, e para vingar-se persuadiu o rei de Zebú de que os christãos o queriam trazer captivo para a Europa. Esta falsa denuncia foi como que o fogo lançado ao rastilho, pois de mais estava já o rei de Zebú incitado pelos regulos de Mactan, que o ameaçavam de morte e destruir-lhe os seus dominios se elle não desse cabo dos castelhanos.{131}Faltando-lhe, porém, a coragem para se defrontar com os europeus em lucta leal, o rei de Zebú recorreu á traição. Continuou a mostrar-se muito amigo dos castelhanos e fiel subdito do rei de Castella, ao qual queria mandar um valioso presente. Para fazer entrega d'esse presente convidou os commandantes Barbosa e Serrão a jantarem com elle em terra e que trouxessem os immediatos e mais pessoas da frota que entendessem, com o que lhe dariam grande honra.Duarte Barbosa, João Serrão e mais vinte e sete homens, entre os quaes se encontravam Luiz Affonso de Goes, portuguez arvorado commandante da caravellaVictoria, depois da morte de Magalhães, o piloto André de San Martin, Sancho de Heredia e Leão da Espeleta, escrivães da frota, e o capellão Pedro da Valderrama.[11]Foi isto na manhã do citado dia 1.º de maio. O rei de Zebú com alguma gente de seu sequito aguardava na praia a chegada dos convidados e, logo que estes desembarcaram, encaminharam-se todos para um palmar, á sombra do qual estava preparada a refeição.O logar não podia ser mais ameno para resguardar dos raios ardentes do sol, que a{132}custo penetravam aqui e acolá por entre as fisgas das largas folhas das palmeiras que formavam abobada sobre o recinto do festim, vindo reflectir nos vasos de ouro e nas porcellanas dispostas sobre a esteira que fazia de mesa, como era uso.O rei apparentava toda a docilidade e gentileza de que podia dispôr, e com elle a sua côrte se mostrava em extremo submissa aos christãos, de modo que nada fazia suspeitar da traição que tinham armado; só João Serrão desconfiava de alguma cilada, mas pouco valeu a sua desconfiança, porque Duarte Barbosa, nada receando, instou com elle para que o acompanhasse, e Serrão accedeu para não ser tido por timorato ou cobarde.Em volta da esteira todos se sentaram e principiaram a servir-se do que havia, comendo e bebendo em boa convivencia; mas cedo reconheceram o engano, porque um bando de indigenas armados, que surdiu de emboscada, lançou-se traiçoeiramente sobre os castelhanos e logo se armou alli uma lucta braço a braço, cada vez mais terrivel, sendo os indigenas em tão grande numero que impossivel era submettel-os.Os castelhanos foram todos assassinados e só João Serrão escapou n'aquelle momento á furia dos selvagens por um certo prestigio que tinha sobre elles.{133}De pouco isso lhe valeu! Dois tripulantes, mais felizes que seus companheiros, que em terra pereceram na lucta desegual, haviam-se afastado ao desembarque, suspeitando de alguma cilada, e assim que conheceram a traição, foram-se para bordo a dar parte ao piloto portuguez João Carvalho do que occorrera em terra. Carvalho immediatamente mandou approximar os navios da terra e rompeu fogo de artilharia contra a ilha.Os indigenas, sentindo os tiros, apoderam-se de João Serrão depois de encarniçada lucta, em que este ficou mal ferido, e atando-o de pés e mãos, conduziram-n'o á praia ás vistas dos seus companheiros que dos navios continuavam a fazer fogo sobre a ilha.Serrão vê-se perdido e grita e clama para os seus que cessem fogo e tragam presentes áquella gente para o resgatar. A confusão, porém, é enorme; João Carvalho não póde dar ouvidos a taes clamores, e receia nova traição dos indigenas, para se apoderarem do resto da sua gente e dos mal defendidos navios.Para que se não perca tudo ingloriamente, só resta abandonar aquellas ilhas e fazer-se ao mar, para voltar a Hespanha como pudesse, e, emquanto João Serrão ficava na praia gritando para que o salvassem, porque o matariam assim que os navios largassem suas{134}velas, João Carvalho foi ordenando as manobras e aproando ao mar as caravellas.Serrão, a quem os indigenas, no primeiro impeto, haviam poupado a vida, soffreu as torturas de morrer inanime ás mãos d'aquelles selvagens, vendo fugir-lhe a unica esperança de salvação, que por momentos o animara, com a partida da frota.[12]Triste e vergonhosa retirada aquella para gente que a tanto se afoitara; mas é evidente que já faltava alli o espirito do grande capitão portuguez que a animara e conduzira, por vontade ou por força, a dar a volta dos mares, realizando a primeira viagem de circumnavegação.{135}Em Mactan deixaram Magalhães morto, que nem seu cadaver puderam arrancar do poder dos indigenas, e assim perderam a alma d'aquella empresa que assombrou o mundo; em Zebú ficavam Duarte Barbosa e João Serrão com seus companheiros victimas de uma traição.De melhor sorte eram dignos aquelles bravos, que nem tiveram quem alli os vingasse.{136}{137}[11]Diego Arana,Vida e viagens de Fernão de Magalhães.[12]Pigafetta, liv.II—Herrera, dec.III, liv.I, cap.X.Sobre este ponto encontro uma discordancia em Gaspar Correia quando este se refere á morte de Fernão de Magalhães, no tomoIIdasLendas da India.Segundo o phantasioso chronista, Fernão de Magalhães não morreu ás mãos dos indigenas da ilha de Mactan, mas sim no banquete do rei de Zebú, tendo ficado vencedor em Mactan, o que discorda completamente de todos os chronistas que referem esta viagem e das declarações feitas por Sebastião de Elcano e seus companheiros, no processo instaurado em Sevilha no anno de 1522.Gaspar Correia, na sua linguagem barbaresca, que modificaremos para melhor ser entendida hoje, diz, referindo-se ao combate com os indigenas de Mactan: «O rei corrido, vendo-se assim destroçado, concertou traição com o rei christão e fez com elle ajuste de casar com sua filha e com juras que, morrendo elle, que era velho, tudo lhe deixava e viveriam sempre amigos, porque os castelhanos se iriam embora, e se não acceitasse isto e lhe não desse modo de matar os castelhanos, lhe faria guerra. O que o rei christão, como homem brutal, consentiu na traição e preparou grande festa e banquete pelo vencimento, e convidou Magalhães, que foi ao banquete com trinta homens os mais honrados e bem vestidos, onde estando todos no banquete folgando, entraram os inimigos armados e mataram a Magalhães e os castelhanos, não escapando nenhum e o Serrão o despiram e arrastaram á praia onde o justiçaram e mataram arrastado.»XIXForam mais previdentes que humanos os mareantes, que se fizeram á vela sem empregar alguns meios de salvar o Serrão e vingar a morte de seus companheiros. Mas nem por isso foram mais felizes no proseguimento de sua viagem, que a fortuna raro corôa acção ruim.Chegados á ilha de Bohol, agora uma das Filippinas, reconheceram quanto era reduzido o pessoal para as manobras das tres embarcações que restavam da flotilha de Magalhães. Apenas havia 115 homens, e por isso João Carvalho, que ia commandando agora a frota, determinou que se lançasse fogo á caravellaConceição, por ser a mais arruinada, e a tripulação d'esta fosse distribuida pelaVictoriaeTrindade.Assim aportaram a mais algumas ilhas do{138}archipelago e em todas tractaram e fizeram commercio com os naturaes.Na ilha de Borneo, porém, onde aportaram a 8 de julho, iam ficando captivos, ou mortos se, suspeitando da traição que os naturaes lhe preparavam, não largassem immediatamente para o mar, vendo que se dirigia para os navios grande numero de pirogas e juncos cheios de gente armada.Foi preciso fazer fogo de artilharia sobre aquelles barcos, com o que destruiram a muitos chegando a aprisionar 16 homens e treze mulheres.Entre os prisioneiros contaram o filho do rei da ilha de Luzon, o que seguramente era boa presa, para com ella João Carvalho resgatar um filho seu e mais dois castelhanos que haviam ficado em terra, quando as caravellas tiveram que se fazer ao largo. Mas não o entendeu assim o Carvalho, preferindo receber ouro pelo resgate, o que valeu o mesmo que sacrificar o filho e os dois companheiros, porque os insulanos não lhe entregaram os captivos a despeito de todas as diligencias que elle fez para esse fim.Era, por desgraça, o justo premio do que praticára em Zebú.D'esta torpeza cedo teve que se arrepender o Carvalho, que certamente não seria com acções d'este jaez que elle, havia de{139}conservar e até augmentar seu prestigio entre os demais.D'ahi lhe resultou seguramente o ser deposto por seus companheiros que, reunidos, resolveram dar o commando daTrindadea Gonçalo Gomez de Espinosa, e o daVictoriaa João Sebastião de Elcano, fidalgo biscainho, que até ahi se conservara na sombra.Foram estes dois capitães que conseguiram levar seus navios até as Molucas, não sem grandes difficuldades, pois não tinham a latitude certa em que demoravam. Valeram-se para isso de pilotos que aprisionaram, em embarcações que iam encontrando por aquelles mares, e d'este modo lograram seu intento com grande alegria e proveito, segundo refere Pigafetta.Foi a 8 de novembro que aVictoriae aTrindadefundearam no porto da ilha de Tidore. Haviam chegado, emfim, ás terras das especiarias, sonho dourado d'aquelles tempos e que déra causa áquella viagem aventurosa.Os portuguezes já por alli tinham andado e disposto os naturaes para o tracto com os europeus, e por isso os hespanhoes encontraram melhor acolhimento, facilitando o seu commercio, em que trocaram tecidos por cannella, noz-moscada, pimenta e cravo.{140}Os capitães celebraram tractados de commercio e vassallagem com os regulos e, apressando o regresso, para trazerem tão boas novas a Carlos V e á patria, dispuseram-se a partir em meio de dezembro.Só porém a caravellaVictoriapôde largar da ilha de Tidore, a 21 de dezembro, ficando aTrindadede querena, pois precisava de grande concerto nas obras vivas.AVictoriaveiu tocando em mais algumas ilhas, provendo-se de sandalo e de cannella, seguindo a rota que os portuguezes faziam nas suas viagens para a India, segundo diz Pigafetta.Trazia 60 homens de tripulação, entre estes treze naturaes da ilha; mas os trabalhos, as doenças e as insubordinações vieram dizimando esta gente, morrendo uns e tendo que se executarem outros por seus delictos graves.Quando aVictoriaaportou á ilha de Sant'Iago de Cabo Verde, a 9 de junho de 1522, obrigada pela fome, que já victimara alguns homens de sua tripulação, estava cada vez mais reduzida.Em Sant'Iago não foram mais felizes, porque os portuguezes, ciosos de que extranhos andassem em exploração de mares e terras que a elles só competia, quizeram apresar o navio castelhano e a gente que{141}n'elle vinha, logo que souberam, por denuncia de um tripulante, da viagem que vinham fazendo.AVictoriateve, por isso, de largar precipitadamente, não sem lhe ficarem em terra doze homens prisioneiros dos portuguezes.Finalmente a 6 de setembro de 1522 chegava á bahia de S. Lucar de Barrameda aVictoria, commandada pelo afortunado Sebastião de Elcano e com dezoito homens dos 265 que tres annos antes haviam partido na expedição.Dia de jubilo para alguns e de tristeza para muitos foi o da chegada daVictoriaa S. Lucar de Barrameda. Os que se regosijavam por ver chegar os que lhe pertenciam, mal acalmavam os lamentos das viuvas, das mães ou das irmãs, que debalde procuravam entre os recemchegados, os maridos, os filhos ou os irmãos.Eram tão poucos os que voltavam e tantos os que haviam partido!Que de sacrificios não custara aquella viagem; que de vidas immoladas á civilização, desde a do chefe da frota até a do mais obscuro marinheiro!Entretanto a noticia do regresso espalhava-se por toda a Hespanha, levando a admiração e o espanto á gente por aquelles ousados navegadores.{142}Carlos V, que chegara da Allemanha, ao saber a boa nova escrevia a Sebastião de Elcano, ordenando-lhe que fosse á sua presença a contar-lhe da viagem: «E quero, dizia, que me informeis mui particularmente da viagem que haveis feito, e do que n'ella succedeu, e vos mando que, logo que esta vejais, tomeis duas pessoas das que comvosco vieram, das mais cordatas e de melhor razão, e vos partais com ellas para onde eu estiver, que por este correio escrevo aos officiaes da Casa de Contractação das Indias, que vos vistam e vos assistam com todo o necessario a vós e ás dictas duas pessoas».[13]Sebastião de Elcano apressou-se a ir á presença de Carlos V, que estava em Sevilha, fazendo-se acompanhar de Pigafetta, o qual apresentou ao imperador um livro manuscripto, relatando dia a dia a viagem de circumnavegação.Carlos V ficou maravilhado e encheu de honras e pensões Sebastião de Elcano, mais afortunado que Fernão de Magalhães a quem essas honras e pensões deviam pertencer. Ao piloto hespanhol concedeu Carlos V a pensão annual de 500 ducados de ouro, auctorização para se acompanhar sempre{143}de dois homens armados, e um brasão de armas quartelado, representando scenas da viagem, e tendo por timbre um globo com a inscripção:Primus circumdidiste me.Eram o brasão e timbre que deviam pertencer a Fernão de Magalhães, que tão infeliz foi que nem sequer o pôde legar a seus descendentes, como era seu desejo.O filho e esposa de Magalhães pouco sobreviveram ao grande capitão, pois que o primeiro morreu em 1521 e a segunda um anno depois; e o mesmo succedeu a Diogo Barbosa, seu sogro, e mais parentes, que poucos annos se lograram, desapparecendo assim no tumulo os poucos herdeiros do grande navegador.A fortuna vária não deixou pois a Magalhães gosar os fructos da sua gloriosa empresa; outro colheu os louros e os brasões de tal feito; mas não é o nome d'este afortunado que a historia commemora; não é a Sebastião de Elcano que a sciencia venera e agradece os beneficios que lhe legou, e sim a Fernão de Magalhães, porque foi elle que lidou para obter os navios em que devia fazer a travessia dos mares, e com que custo o conseguiu elle! foi Magalhães que dirigiu os mareantes e os reduziu á obediencia tantas vezes quantas contra elle tentaram revoltar-se; foi elle que affrontou a resistencia dos{144}homens e a furia dos elementos; que, zombou das tempestades e jogou a vida quando, todos e tudo conspirava contra ella, e levou avante a sua idéa, incutindo animo quando todos desfalleciam, e assim chegou ao fim, circumnavegando os mares, passando de um mar ao outro, sem outro guia que os seus proprios calculos, deixando ao mundo aberta a passagem para o mar do sul, passagem que nenhum navegador antes d'elle lograra encontrar.É de Fernão de Magalhães a gloria; foi este portuguez que deixou o nome seu memorado nos mares do novo mundo, como nas cartas geographicas está gravado; e não bastando isto, o nome do grande portuguez elevou-se ao espaço infinito e com elle marcou nos ares duas bellas nebulosas que são conhecidas por nuvens de Magalhães.Duradoura gloria esta que viverá tanto como o mundo. Nos mares e nos céos o nome de Fernão de Magalhães!Diz John Herschel, em uma carta datada do Cabo da Boa Esperança, em 13 de junho de 1836:[14]«As nuvens de Magalhães,nubecula majorenubecula minor, são muito notaveis. A maior compõe-se de acervos estellares irregularmente dispostos, de outros{145}acervos esphericos e de estrellas nebulosas entremeadas de nebulosas irreductiveis. Estas ultimas parecem formadas por uma poeira estellar. O proprio telescopio de 20 pés não tem bastante poder para as revelar estrellas.«Aquellas nebulosas produzem uma claridade geral que illumina o espaço da visão e estabelece um fundo esplendoroso em que se distingue tudo que n'elle está disseminado. Nenhuma outra região celeste junta tantas nebulosas e acervos estellares em egual espaço.«Anubecula minoré menos formosa; offerece numero maior de nebulosidades irreductiveis, e os acervos estellares que se vêem são mais escassos e menos brilhantes.»A. de Humboldt, falando d'estas nuvens, diz:[15]«das duas nuvens de Magalhães que giram em volta do polo austral, d'este polo tão despovoado de estrellas que podia chamar-se uma região devastada, a maior, principalmente, parece, conforme investigações modernas, uma quantiosa accumulação de acervos esphericos de estrellas de maior ou menor grandeza e de nebulosidades irreductiveis. O aspecto d'estas nuvens, a esplendorosa constellação do navio Argos, a via lactea que se vai dilatando entre o Escorpião, o{146}Centauro, e o Cruzeiro tambem, não tenho duvida em dizel-o, o aspecto pittoresco de todo o céo austral produziu em minha alma uma inolvidavel impressão.»André Corsali fala da existencia d'estas nuvens, na suaViagem a Cochim, e Pedro Martyr de Anghiera tambem, no seu livroDe Rebus Oceanicis et Orbe Novo; o illustre secretario de D. Fernando de Aragão, attribuindo aos portuguezes o descobrimento d'estas nuvens, diz: Assecuti sunt portucalenses alterius poli gradum quinquagesimum amplius ubi punctum circumeuntesquas dam nubeculaslicet intueri veluti in lactea via sparsos fulgores per universi cœli globum intra spatii latitudinem.[16]Ao nome de nuvens do cabo, por que as conheceram os pilotos portuguezes primeiro que os hollandezes e dinamarquezes, prevaleceu o nome de Magalhães, com que a sciencia as designou, e n'isto vai honra á memoria do arrojado navegador portuguez que, não tendo a fortuna de receber em vida o premio do extraordinario descobrimento, teve a invejavel gloria de deixar o seu nome gravado nos mares e nos céos, como os deuses da Mythologia.{147}D'estes conta a fabula, mas d'aquelle fala a historia humana.É bom recordar estas glorias que, sendo de um homem, são da humanidade em geral e d'este velho e glorioso paiz em especial, porque Fernão de Magalhães era portuguez.{148}[13]Collecion de documentos inéditos para la historia de España, tom. I, p. 247.[14]CosmosT. I pag. 451.[15]Obra citada.[16]Oceanica.Dec. III lib. I, pag. 217, por Pedro Martyr de Anghiera.ERRATAS MAIS IMPORTANTESPag.9linha1.ªleia-secircumdidiste»»»2.ª»circumdou»11»11.ª»dramaturgo»12»5.ª»serão proprios»20»5.ª»espiritos, adivinhando o que outros não comprehendem, são sempre o alvo da inveja dos maus a espicaçar»34»10.ª»persistencia»35»3.ª»permittido»46»5.ª»Martinho de Bohemia»51»25.ª»impellidas»55»19.ª»acariciado»59»6.ª»pestanejou»»»15.ª»permittir»61»9.ª»descoraçoados»68»4.ª»Santiago»69»3.ª»surprehendeu»»»27.ª»Santiago»71»5.ª»Santiago»73»13.ª»descoraçoados»80»9.ª»oppusesse»81»19.ª»superstição invadia»82»15.ª»Santiago»»»19.ª»em imminente perigo»»»29.ª»Santiago»89»16.ª»aquelles cetaceos»102nota»Les Philippines»108linha11.ª»desembarcaram{149}{150}EMPREZA DO OCCIDENTEDECAETANO ALBERTO——CATALOGO DE ALGUMAS OBRAS Á VENDAO OCCIDENTERevista Illustrada de Portugal e do ExtrangeiroPublicação tri-mensal—Assignatura permanente. Preço para Portugal, anno 3$800, semestre 1$900, trimestre 950, numero avulso ou á entrega 120 réis. Colonias portuguezas d'Africa, anno 4$000, semestre 2$000. Extrangeiro, anno 5$000, semestre 2$500 réis. Está no 21.º anno de publicação. Vendem-se collecções e volumes isolados. Preços dos 3 primeiros volumes, cada um 3$000 brochado, e 4$000 encadernado. Os volumes seguintes ou desde 1881 até ao presente: cada um 4$000 brochado, 5$000 encadernado.A campanha d'Africa contada por um sargentoIllustrada com 40 gravuras, retratos dos heroes da campanha, vistas e combates 1 vol. 300 réis—pelo correio 320. Encadernado em percaline 500 reis.AVENTURAS DE UMA NOVIÇAVersão de Esteves Pereira, illustrado com o retrato da Heroina. 1 vol. 200 réis.LIVROS PARA RIRSapatos de Defuncto, por Leite Bastos, illustrações de Manuel de Macedo e Caetano Alberto, 1 vol. edição de luxo 600 réis.Viagem à roda da Parvónia, pelo commendador Gil Vaz, illustrações de Manuel de Macedo—1 vol. 500 réis.O Nariz do Tabellião, por E. About, traducção de Pin-Sél, illustrado com uma capa a côres—1 vol. 200 réis.DICCIONARIO DAS SEIS LINGUASFrancez-Portuguez e Portuguez-Francez.Francez-Allemão e Allemão-Francez.Francez-Hespanhol e Hespanhol Francez.Francez-Inglez e Inglez-Francez.Francez-Italiano e Italiano-Francez.Um só volume comprehendendo 80 fasciculos de 16 pag. 8.º port.Em publicação cada fasciculo 30 réis.

Passou-se o dia 26 e a noite em aprestos para o ataque.

O grande capitão reuniu todos os homens de guerra, que não excediam a sessenta, pelo que diz Diego Arana, armados de couraças e de cascos; o resto eram enfermos, incapazes de entrarem em combate. Mandou arrear algumas peças de artilharia para as chalupas, escudos sobrecellentes e mosquetes, munições e alguns comestiveis, não muitos, pois não os havia para larguezas; mas o que faltava ao corpo, abundava no espirito, porque a gente de guerra estava desejosa de bater-se, tanto tempo havia decorrido que não experimentava armas.

Era natural.{120}

Pela meia noite principiou o embarque nas chalupas.

Havia passado um anno e sete mezes que esses valentes tinham embarcado tambem, em S. Lucar de Barrameda, para a famosa expedição, cheios de enthusiasmo, a correr aventuras como agora.

Em S. Lucar o sol de agosto aquentava-lhes mais o espirito e inundava de luz o mar a que se faziam suas caravelas, levadas como que entre nuvens de fumo dos tiros de artilharia, que diziam o ultimo adeus ás terras de Hespanha.

Em Zebú, porem, a partida era differente; o véo da noite envolvia a terra e os mares; o sol não saudava aquelles valentes, que então como agora iam jogar a vida. Tinham de abafar o seu enthusiasmo no meio do silencio de uma noite triste e funebre, em que no céo apenas uma ou outra estrella vagueava sua luz tremente, como olhos marejados de lagrimas. Não havia corações amigos a saudal-os na despedida, mas gente barbara e extranha que os olhava temerosa e desconfiada.

Que differença!

E em silencio se fez o embarque, a que assistiu Fernão de Magalhães, embarcando elle na ultima chalupa.

O rei de Zebú, com um dos principes e{121}outros senhores da ilha, seguiram os christãos em balangais, com indios armados de piques.

Vento fresco encrespava o mar por onde os barcos iam correndo, ora orçando da vaga ora arribando para o vento.

Magalhães, de pé, á pôppa da sua chalupa, vigiava todo o governo e ordenava a manobra.

Ia satisfeito; pelo seu espirito não passava sombra de receio da aventura em que ia lançar-se. As horas pareciam-lhe mais longas que de costume; a noite não tinha fim!

Proximo da madrugada chegavam as chalupas á ilha de Mactan, e o primeiro impulso de Magalhães foi o desembarcar immediatamente com os seus homens de guerra, mas não era possivel. A maré estava baixa e as ondas quebravam-se com violencia contra os cachopos da praia, elevando-se espumantes para o ar.

Qualquer barco que tentasse abordar á terra correria o risco de se despedaçar entre os recifes.

Comtudo a impaciencia de Magalhães não lhe soffria delongas e, sem attender ao perigo, ordenou a um mouro, que ia nas chalupas, para que da sua parte fosse intimar o regulo de Mactan a reconhecer a soberania do rei de Hespanha e prestar obediencia ao rei christão de Zebú, pagando os{122}tributos exigidos; de contrario os castigaria pelas armas[9].

Foi-se o mouro com a intimação, e se escapou de mergulhar entre os recifes, quasi ia ficando preso na ilha, pois os rebeldes não se intimidaram com as suas palavras e antes responderam que: saberiam defender-se e resistir aos christãos, pedindo sómente que os não atacassem de noite.[10]

Assim voltou, a custo, o mouro a participar ao chefe o resultado da sua missão.

Como se poderá descrever o desespero e impaciencia de Magalhães ao saber a resposta d'aquelles barbaros, que mais incitava os seus brios de guerreiro? Queria desembarcar logo com a sua gente e atacar os rebeldes, ainda que de noite, e teria cedido ao primeiro impulso se não fôra o rei de Zebú dissuadil-o de tal temeridade, fazendo-lhe conhecer a tactica d'aquella gente, que, para se defender, se fosse atacada de noite, abriria fojos em volta da ilha, cheios de estacas aguçadas como lanças, onde os hespanhoes cahiriam cegamente como em armadilha bem disposta para os caçar.

Por isto se conhece a dissimulada astucia{123}d'aquelles barbaros, pedindo para os não atacarem de noite, como se para tal não estivessem prevenidos, o que certamente incitaria os castelhanos a realizar o ataque, mais seguros do resultado.

Magalhães, acreditando ou não no que lhe observou o rei de Zebú, precaveu-se do logro e achou por mais seguro realizar o desembarque de dia para melhor medir o campo em que tinha de operar.

Mal a aurora despontou, as chalupas approximaram-se da praia tanto quanto permittia a maré, que ainda estava baixa, e Magalhães desembarcou com parte da sua gente, dando a agua pela cintura a todos, de modo que não puderam transportar a artilharia.

Isto obrigou a que nas chalupas ficassem homens a guardar as peças, além d'aquelles que tinham de tomar conta nos barcos, o que reduziu o numero dos combatentes que acompanhavam o chefe.

Para mais, Magalhães não acceitou o auxilio de gente que lhe offereceu o rei de Zebú, talvez por não lhe merecer grande confiança; e, julgando-se mais seguro com os seus cincoenta homens, que tantos desembarcariam, avançou para terra resoluto a bater os barbaros.

Ainda bem não tinha disposto a sua gente em acção, quando, por um dos flancos,{124}lhe surde d'entre o matto uma manga de indios armados de flechas e escudos. Trava-se logo a lucta, rompendo os hespanhoes fogo de mosquetaria, que pouco alcançava o inimigo. Este despedia-lhe suas flechas, que se embotavam contra os cascos e couraças dos christãos; mas bem não tinha começado o ataque, quando outra manga apparece pelo flanco opposto a atacal-os, o que obrigou Magalhães a dividir a sua gente em duas columnas, para fazer frente ao inimigo.

Cresce a lucta, redobra o esforço.

As flechas são impotentes contra as couraças, mas a mosquetaria vai derribando os indios, ganhando os christãos terreno.

Não se acobardam os barbaros com as perdas soffridas, e disputam a posição com inesperado valor. Em alguma cousa se fiam para arrostarem com os christãos. Contam com a sua superioridade numerica, que não tarda a ser reforçada, e agora apparece pela frente outra manga, tanto ou mais numerosa que as primeiras, arrogante e bem armada de varas de madeira endurecidas ao fogo, que ferem como laminas de aço.

Magalhães e a sua gente vêem-se cercados por todos os lados. Elle, só á sua conta, tem rechassado um bom numero de indios; braço vigoroso, animo decidido, não cansa.{125}

Tenta dividir o inimigo; e manda lançar fogo á povoação, para que elle corra a dominar o incendio.

Mas esta estrategia não dá resultado, porque os indios mais se exasperam, e alguns, correndo sobre os incendiarios, ainda colhem dois a quem logo dão a morte.

As numerosas mangas vão crescendo cada vez mais sobre os hespanhoes, arremessando-lhe um sem numero de flechas, varas e pedras, que lhes atiram os cascos fóra da cabeça.

Alguns, considerando-se perdidos, já fogem para a praia e entram na agua, que lhes chega quasi aos hombros, em procura das chalupas, onde se refugiam.

Magalhães resiste sempre, acompanhado pelos mais fieis e corajosos, que todos se batem com denodo.

Os indios, vendo que as suas flechas resvalam das couraças e caem na areia sem causar damno ao inimigo, apontam-n'as mais baixas, procurando ferir as pernas dos adversarios. Este expediente dá-lhes resultado, porque os homens de Magalhães debandam em maior numero, sentindo-se feridos. Entretanto é ao chefe que os indios mais assestam as suas pontarias até que uma flecha lhe acerta n'uma perna.

Magalhães não perde um momento a sua{126}coragem, sustenta a lucta e anima os seus a que o egualem.

—Por Santiago matemos estes miseraveis!

E batia-se para a frente e para os lados, levando com a sua lança a morte aos inimigos, que não o poupavam.

Por duas vezes lhe fazem saltar fóra da cabeça o casco com pedradas que lhe atiram.

Mas elle não se estonteia nem recua; põe-n'o de novo e continua na tremenda lucta.

Agora é uma flecha que se lhe crava na face, mas elle cresce sobre o audacioso, embebendo-lhe a lança no corpo! Outra flecha trespassa-lhe o braço direito quando elle vai a desembainhar a espada, que fica na bainha. Solta então um rugido de dôr e de desespero, porque se vê desarmado.

Grita pelos seus, mas inutilmente, porque uns jazem por terra e outros teem-se precipitado para as chalupas.

Sente-se abandonado no meio do inimigo. Um esforço supremo para se desaffrontar. Sobra-lhe na alma coragem para bater-se até a morte, mas fallece-lhe no corpo força para reagir.

Os indios percebem que o valente capitão já os não póde ferir, e lançam-se sobre elle como chacaes.{127}

Deitam-n'o por terra, e elle ainda se ergue uma e mais vezes com esforço heroico, a clamar pela sua gente; mas ninguem o ouve nem lhe póde acudir.

Nem um d'entre elles, diz Pigafetta, havia que não estivesse ferido e pudesse soccorrer ou vingar o seu chefe. Precipitaram-se para as chalupas, que estavam prestes a partir, e deveram a sua salvação á morte de Magalhães, porque, quando elle succumbiu, os indios correram todos para o logar onde elle tinha cahido.

Fernão de Magalhães poderia então, como o infante D. Pedro, em Alfarrobeira, soltar aquella phrase memoravel:

—Vingar ahi villanagem!

Não havia já resistencia possivel.

Os indios cahiram em massa sobre o desventurado capitão; crivaram-n'o de flechas, lançaram sobre elle pedras para o acabarem de matar, e só quando estavam bem seguros de que elle já não tinha alento de vida, é que deixaram a presa!{128}{129}

[9]Diego Arana,Vida e Viagens de Fernão de Magalhães.[10]Idem.

[9]Diego Arana,Vida e Viagens de Fernão de Magalhães.

[10]Idem.

Morreu o grande capitão ás mãos dos selvagens de Mactan, n'uma lucta tão heroica quanto ingloria, para quem se tinha proposto a tão grande empresa e a levara a cabo através de todas as difficuldades e perigos.

Fernão de Magalhães, costumado a vencer até os proprios elementos, levou-se de enthusiasmo e não mediu o perigo de assim se expôr á morte que lhe traria ruina para elle e para a sua gente, que sem o chefe e desprestigiada, bem poderia ser victima d'aquelles selvagens, e perder o fructo de tantos sacrificios, ficando ignorado do velho mundo o resultado da aventurosa viagem, se nenhum dos ousados mareantes lograsse voltar á Europa, como quasi ia succedendo.

A morte do heroe teve effeitos desastrosos para toda a expedição, que desde aquelle{130}momento perdeu o prestigio que a fazia respeitar e temer no espirito dos habitantes das ilhas.

O rei de Zebú, que tão docil se mostrara, chegando a fazer-se christão e a alliar-se com estes contra os selvagens de Mactan, depressa mudou de idéas e concertou com os seus para dar morte aos castelhanos traiçoeiramente.

Cinco dias depois do triste acontecimento que acabamos de narrar, a 1 de maio de 1521, nova desgraça viera ferir os castelhanos. Moveu-a a intriga e o despeito de um escravo de Magalhães, que era o lingua da expedição, pelo que refere Pigafetta e conforme o que Sebastião de Elcano declarou no inquerito que, em 1522, se levantou sobre a viagem de Magalhães e tragico fim do valoroso capitão.

Aquelle escravo tinha seus aggravos de Duarte Barbosa que, com Serrão, tomara o commando da frota, e para vingar-se persuadiu o rei de Zebú de que os christãos o queriam trazer captivo para a Europa. Esta falsa denuncia foi como que o fogo lançado ao rastilho, pois de mais estava já o rei de Zebú incitado pelos regulos de Mactan, que o ameaçavam de morte e destruir-lhe os seus dominios se elle não desse cabo dos castelhanos.{131}

Faltando-lhe, porém, a coragem para se defrontar com os europeus em lucta leal, o rei de Zebú recorreu á traição. Continuou a mostrar-se muito amigo dos castelhanos e fiel subdito do rei de Castella, ao qual queria mandar um valioso presente. Para fazer entrega d'esse presente convidou os commandantes Barbosa e Serrão a jantarem com elle em terra e que trouxessem os immediatos e mais pessoas da frota que entendessem, com o que lhe dariam grande honra.

Duarte Barbosa, João Serrão e mais vinte e sete homens, entre os quaes se encontravam Luiz Affonso de Goes, portuguez arvorado commandante da caravellaVictoria, depois da morte de Magalhães, o piloto André de San Martin, Sancho de Heredia e Leão da Espeleta, escrivães da frota, e o capellão Pedro da Valderrama.[11]

Foi isto na manhã do citado dia 1.º de maio. O rei de Zebú com alguma gente de seu sequito aguardava na praia a chegada dos convidados e, logo que estes desembarcaram, encaminharam-se todos para um palmar, á sombra do qual estava preparada a refeição.

O logar não podia ser mais ameno para resguardar dos raios ardentes do sol, que a{132}custo penetravam aqui e acolá por entre as fisgas das largas folhas das palmeiras que formavam abobada sobre o recinto do festim, vindo reflectir nos vasos de ouro e nas porcellanas dispostas sobre a esteira que fazia de mesa, como era uso.

O rei apparentava toda a docilidade e gentileza de que podia dispôr, e com elle a sua côrte se mostrava em extremo submissa aos christãos, de modo que nada fazia suspeitar da traição que tinham armado; só João Serrão desconfiava de alguma cilada, mas pouco valeu a sua desconfiança, porque Duarte Barbosa, nada receando, instou com elle para que o acompanhasse, e Serrão accedeu para não ser tido por timorato ou cobarde.

Em volta da esteira todos se sentaram e principiaram a servir-se do que havia, comendo e bebendo em boa convivencia; mas cedo reconheceram o engano, porque um bando de indigenas armados, que surdiu de emboscada, lançou-se traiçoeiramente sobre os castelhanos e logo se armou alli uma lucta braço a braço, cada vez mais terrivel, sendo os indigenas em tão grande numero que impossivel era submettel-os.

Os castelhanos foram todos assassinados e só João Serrão escapou n'aquelle momento á furia dos selvagens por um certo prestigio que tinha sobre elles.{133}

De pouco isso lhe valeu! Dois tripulantes, mais felizes que seus companheiros, que em terra pereceram na lucta desegual, haviam-se afastado ao desembarque, suspeitando de alguma cilada, e assim que conheceram a traição, foram-se para bordo a dar parte ao piloto portuguez João Carvalho do que occorrera em terra. Carvalho immediatamente mandou approximar os navios da terra e rompeu fogo de artilharia contra a ilha.

Os indigenas, sentindo os tiros, apoderam-se de João Serrão depois de encarniçada lucta, em que este ficou mal ferido, e atando-o de pés e mãos, conduziram-n'o á praia ás vistas dos seus companheiros que dos navios continuavam a fazer fogo sobre a ilha.

Serrão vê-se perdido e grita e clama para os seus que cessem fogo e tragam presentes áquella gente para o resgatar. A confusão, porém, é enorme; João Carvalho não póde dar ouvidos a taes clamores, e receia nova traição dos indigenas, para se apoderarem do resto da sua gente e dos mal defendidos navios.

Para que se não perca tudo ingloriamente, só resta abandonar aquellas ilhas e fazer-se ao mar, para voltar a Hespanha como pudesse, e, emquanto João Serrão ficava na praia gritando para que o salvassem, porque o matariam assim que os navios largassem suas{134}velas, João Carvalho foi ordenando as manobras e aproando ao mar as caravellas.

Serrão, a quem os indigenas, no primeiro impeto, haviam poupado a vida, soffreu as torturas de morrer inanime ás mãos d'aquelles selvagens, vendo fugir-lhe a unica esperança de salvação, que por momentos o animara, com a partida da frota.[12]

Triste e vergonhosa retirada aquella para gente que a tanto se afoitara; mas é evidente que já faltava alli o espirito do grande capitão portuguez que a animara e conduzira, por vontade ou por força, a dar a volta dos mares, realizando a primeira viagem de circumnavegação.{135}

Em Mactan deixaram Magalhães morto, que nem seu cadaver puderam arrancar do poder dos indigenas, e assim perderam a alma d'aquella empresa que assombrou o mundo; em Zebú ficavam Duarte Barbosa e João Serrão com seus companheiros victimas de uma traição.

De melhor sorte eram dignos aquelles bravos, que nem tiveram quem alli os vingasse.{136}{137}

[11]Diego Arana,Vida e viagens de Fernão de Magalhães.[12]Pigafetta, liv.II—Herrera, dec.III, liv.I, cap.X.Sobre este ponto encontro uma discordancia em Gaspar Correia quando este se refere á morte de Fernão de Magalhães, no tomoIIdasLendas da India.Segundo o phantasioso chronista, Fernão de Magalhães não morreu ás mãos dos indigenas da ilha de Mactan, mas sim no banquete do rei de Zebú, tendo ficado vencedor em Mactan, o que discorda completamente de todos os chronistas que referem esta viagem e das declarações feitas por Sebastião de Elcano e seus companheiros, no processo instaurado em Sevilha no anno de 1522.Gaspar Correia, na sua linguagem barbaresca, que modificaremos para melhor ser entendida hoje, diz, referindo-se ao combate com os indigenas de Mactan: «O rei corrido, vendo-se assim destroçado, concertou traição com o rei christão e fez com elle ajuste de casar com sua filha e com juras que, morrendo elle, que era velho, tudo lhe deixava e viveriam sempre amigos, porque os castelhanos se iriam embora, e se não acceitasse isto e lhe não desse modo de matar os castelhanos, lhe faria guerra. O que o rei christão, como homem brutal, consentiu na traição e preparou grande festa e banquete pelo vencimento, e convidou Magalhães, que foi ao banquete com trinta homens os mais honrados e bem vestidos, onde estando todos no banquete folgando, entraram os inimigos armados e mataram a Magalhães e os castelhanos, não escapando nenhum e o Serrão o despiram e arrastaram á praia onde o justiçaram e mataram arrastado.»

[11]Diego Arana,Vida e viagens de Fernão de Magalhães.

[12]Pigafetta, liv.II—Herrera, dec.III, liv.I, cap.X.

Sobre este ponto encontro uma discordancia em Gaspar Correia quando este se refere á morte de Fernão de Magalhães, no tomoIIdasLendas da India.

Segundo o phantasioso chronista, Fernão de Magalhães não morreu ás mãos dos indigenas da ilha de Mactan, mas sim no banquete do rei de Zebú, tendo ficado vencedor em Mactan, o que discorda completamente de todos os chronistas que referem esta viagem e das declarações feitas por Sebastião de Elcano e seus companheiros, no processo instaurado em Sevilha no anno de 1522.

Gaspar Correia, na sua linguagem barbaresca, que modificaremos para melhor ser entendida hoje, diz, referindo-se ao combate com os indigenas de Mactan: «O rei corrido, vendo-se assim destroçado, concertou traição com o rei christão e fez com elle ajuste de casar com sua filha e com juras que, morrendo elle, que era velho, tudo lhe deixava e viveriam sempre amigos, porque os castelhanos se iriam embora, e se não acceitasse isto e lhe não desse modo de matar os castelhanos, lhe faria guerra. O que o rei christão, como homem brutal, consentiu na traição e preparou grande festa e banquete pelo vencimento, e convidou Magalhães, que foi ao banquete com trinta homens os mais honrados e bem vestidos, onde estando todos no banquete folgando, entraram os inimigos armados e mataram a Magalhães e os castelhanos, não escapando nenhum e o Serrão o despiram e arrastaram á praia onde o justiçaram e mataram arrastado.»

Foram mais previdentes que humanos os mareantes, que se fizeram á vela sem empregar alguns meios de salvar o Serrão e vingar a morte de seus companheiros. Mas nem por isso foram mais felizes no proseguimento de sua viagem, que a fortuna raro corôa acção ruim.

Chegados á ilha de Bohol, agora uma das Filippinas, reconheceram quanto era reduzido o pessoal para as manobras das tres embarcações que restavam da flotilha de Magalhães. Apenas havia 115 homens, e por isso João Carvalho, que ia commandando agora a frota, determinou que se lançasse fogo á caravellaConceição, por ser a mais arruinada, e a tripulação d'esta fosse distribuida pelaVictoriaeTrindade.

Assim aportaram a mais algumas ilhas do{138}archipelago e em todas tractaram e fizeram commercio com os naturaes.

Na ilha de Borneo, porém, onde aportaram a 8 de julho, iam ficando captivos, ou mortos se, suspeitando da traição que os naturaes lhe preparavam, não largassem immediatamente para o mar, vendo que se dirigia para os navios grande numero de pirogas e juncos cheios de gente armada.

Foi preciso fazer fogo de artilharia sobre aquelles barcos, com o que destruiram a muitos chegando a aprisionar 16 homens e treze mulheres.

Entre os prisioneiros contaram o filho do rei da ilha de Luzon, o que seguramente era boa presa, para com ella João Carvalho resgatar um filho seu e mais dois castelhanos que haviam ficado em terra, quando as caravellas tiveram que se fazer ao largo. Mas não o entendeu assim o Carvalho, preferindo receber ouro pelo resgate, o que valeu o mesmo que sacrificar o filho e os dois companheiros, porque os insulanos não lhe entregaram os captivos a despeito de todas as diligencias que elle fez para esse fim.

Era, por desgraça, o justo premio do que praticára em Zebú.

D'esta torpeza cedo teve que se arrepender o Carvalho, que certamente não seria com acções d'este jaez que elle, havia de{139}conservar e até augmentar seu prestigio entre os demais.

D'ahi lhe resultou seguramente o ser deposto por seus companheiros que, reunidos, resolveram dar o commando daTrindadea Gonçalo Gomez de Espinosa, e o daVictoriaa João Sebastião de Elcano, fidalgo biscainho, que até ahi se conservara na sombra.

Foram estes dois capitães que conseguiram levar seus navios até as Molucas, não sem grandes difficuldades, pois não tinham a latitude certa em que demoravam. Valeram-se para isso de pilotos que aprisionaram, em embarcações que iam encontrando por aquelles mares, e d'este modo lograram seu intento com grande alegria e proveito, segundo refere Pigafetta.

Foi a 8 de novembro que aVictoriae aTrindadefundearam no porto da ilha de Tidore. Haviam chegado, emfim, ás terras das especiarias, sonho dourado d'aquelles tempos e que déra causa áquella viagem aventurosa.

Os portuguezes já por alli tinham andado e disposto os naturaes para o tracto com os europeus, e por isso os hespanhoes encontraram melhor acolhimento, facilitando o seu commercio, em que trocaram tecidos por cannella, noz-moscada, pimenta e cravo.{140}

Os capitães celebraram tractados de commercio e vassallagem com os regulos e, apressando o regresso, para trazerem tão boas novas a Carlos V e á patria, dispuseram-se a partir em meio de dezembro.

Só porém a caravellaVictoriapôde largar da ilha de Tidore, a 21 de dezembro, ficando aTrindadede querena, pois precisava de grande concerto nas obras vivas.

AVictoriaveiu tocando em mais algumas ilhas, provendo-se de sandalo e de cannella, seguindo a rota que os portuguezes faziam nas suas viagens para a India, segundo diz Pigafetta.

Trazia 60 homens de tripulação, entre estes treze naturaes da ilha; mas os trabalhos, as doenças e as insubordinações vieram dizimando esta gente, morrendo uns e tendo que se executarem outros por seus delictos graves.

Quando aVictoriaaportou á ilha de Sant'Iago de Cabo Verde, a 9 de junho de 1522, obrigada pela fome, que já victimara alguns homens de sua tripulação, estava cada vez mais reduzida.

Em Sant'Iago não foram mais felizes, porque os portuguezes, ciosos de que extranhos andassem em exploração de mares e terras que a elles só competia, quizeram apresar o navio castelhano e a gente que{141}n'elle vinha, logo que souberam, por denuncia de um tripulante, da viagem que vinham fazendo.

AVictoriateve, por isso, de largar precipitadamente, não sem lhe ficarem em terra doze homens prisioneiros dos portuguezes.

Finalmente a 6 de setembro de 1522 chegava á bahia de S. Lucar de Barrameda aVictoria, commandada pelo afortunado Sebastião de Elcano e com dezoito homens dos 265 que tres annos antes haviam partido na expedição.

Dia de jubilo para alguns e de tristeza para muitos foi o da chegada daVictoriaa S. Lucar de Barrameda. Os que se regosijavam por ver chegar os que lhe pertenciam, mal acalmavam os lamentos das viuvas, das mães ou das irmãs, que debalde procuravam entre os recemchegados, os maridos, os filhos ou os irmãos.

Eram tão poucos os que voltavam e tantos os que haviam partido!

Que de sacrificios não custara aquella viagem; que de vidas immoladas á civilização, desde a do chefe da frota até a do mais obscuro marinheiro!

Entretanto a noticia do regresso espalhava-se por toda a Hespanha, levando a admiração e o espanto á gente por aquelles ousados navegadores.{142}

Carlos V, que chegara da Allemanha, ao saber a boa nova escrevia a Sebastião de Elcano, ordenando-lhe que fosse á sua presença a contar-lhe da viagem: «E quero, dizia, que me informeis mui particularmente da viagem que haveis feito, e do que n'ella succedeu, e vos mando que, logo que esta vejais, tomeis duas pessoas das que comvosco vieram, das mais cordatas e de melhor razão, e vos partais com ellas para onde eu estiver, que por este correio escrevo aos officiaes da Casa de Contractação das Indias, que vos vistam e vos assistam com todo o necessario a vós e ás dictas duas pessoas».[13]

Sebastião de Elcano apressou-se a ir á presença de Carlos V, que estava em Sevilha, fazendo-se acompanhar de Pigafetta, o qual apresentou ao imperador um livro manuscripto, relatando dia a dia a viagem de circumnavegação.

Carlos V ficou maravilhado e encheu de honras e pensões Sebastião de Elcano, mais afortunado que Fernão de Magalhães a quem essas honras e pensões deviam pertencer. Ao piloto hespanhol concedeu Carlos V a pensão annual de 500 ducados de ouro, auctorização para se acompanhar sempre{143}de dois homens armados, e um brasão de armas quartelado, representando scenas da viagem, e tendo por timbre um globo com a inscripção:Primus circumdidiste me.

Eram o brasão e timbre que deviam pertencer a Fernão de Magalhães, que tão infeliz foi que nem sequer o pôde legar a seus descendentes, como era seu desejo.

O filho e esposa de Magalhães pouco sobreviveram ao grande capitão, pois que o primeiro morreu em 1521 e a segunda um anno depois; e o mesmo succedeu a Diogo Barbosa, seu sogro, e mais parentes, que poucos annos se lograram, desapparecendo assim no tumulo os poucos herdeiros do grande navegador.

A fortuna vária não deixou pois a Magalhães gosar os fructos da sua gloriosa empresa; outro colheu os louros e os brasões de tal feito; mas não é o nome d'este afortunado que a historia commemora; não é a Sebastião de Elcano que a sciencia venera e agradece os beneficios que lhe legou, e sim a Fernão de Magalhães, porque foi elle que lidou para obter os navios em que devia fazer a travessia dos mares, e com que custo o conseguiu elle! foi Magalhães que dirigiu os mareantes e os reduziu á obediencia tantas vezes quantas contra elle tentaram revoltar-se; foi elle que affrontou a resistencia dos{144}homens e a furia dos elementos; que, zombou das tempestades e jogou a vida quando, todos e tudo conspirava contra ella, e levou avante a sua idéa, incutindo animo quando todos desfalleciam, e assim chegou ao fim, circumnavegando os mares, passando de um mar ao outro, sem outro guia que os seus proprios calculos, deixando ao mundo aberta a passagem para o mar do sul, passagem que nenhum navegador antes d'elle lograra encontrar.

É de Fernão de Magalhães a gloria; foi este portuguez que deixou o nome seu memorado nos mares do novo mundo, como nas cartas geographicas está gravado; e não bastando isto, o nome do grande portuguez elevou-se ao espaço infinito e com elle marcou nos ares duas bellas nebulosas que são conhecidas por nuvens de Magalhães.

Duradoura gloria esta que viverá tanto como o mundo. Nos mares e nos céos o nome de Fernão de Magalhães!

Diz John Herschel, em uma carta datada do Cabo da Boa Esperança, em 13 de junho de 1836:[14]«As nuvens de Magalhães,nubecula majorenubecula minor, são muito notaveis. A maior compõe-se de acervos estellares irregularmente dispostos, de outros{145}acervos esphericos e de estrellas nebulosas entremeadas de nebulosas irreductiveis. Estas ultimas parecem formadas por uma poeira estellar. O proprio telescopio de 20 pés não tem bastante poder para as revelar estrellas.

«Aquellas nebulosas produzem uma claridade geral que illumina o espaço da visão e estabelece um fundo esplendoroso em que se distingue tudo que n'elle está disseminado. Nenhuma outra região celeste junta tantas nebulosas e acervos estellares em egual espaço.

«Anubecula minoré menos formosa; offerece numero maior de nebulosidades irreductiveis, e os acervos estellares que se vêem são mais escassos e menos brilhantes.»

A. de Humboldt, falando d'estas nuvens, diz:[15]«das duas nuvens de Magalhães que giram em volta do polo austral, d'este polo tão despovoado de estrellas que podia chamar-se uma região devastada, a maior, principalmente, parece, conforme investigações modernas, uma quantiosa accumulação de acervos esphericos de estrellas de maior ou menor grandeza e de nebulosidades irreductiveis. O aspecto d'estas nuvens, a esplendorosa constellação do navio Argos, a via lactea que se vai dilatando entre o Escorpião, o{146}Centauro, e o Cruzeiro tambem, não tenho duvida em dizel-o, o aspecto pittoresco de todo o céo austral produziu em minha alma uma inolvidavel impressão.»

André Corsali fala da existencia d'estas nuvens, na suaViagem a Cochim, e Pedro Martyr de Anghiera tambem, no seu livroDe Rebus Oceanicis et Orbe Novo; o illustre secretario de D. Fernando de Aragão, attribuindo aos portuguezes o descobrimento d'estas nuvens, diz: Assecuti sunt portucalenses alterius poli gradum quinquagesimum amplius ubi punctum circumeuntesquas dam nubeculaslicet intueri veluti in lactea via sparsos fulgores per universi cœli globum intra spatii latitudinem.[16]

Ao nome de nuvens do cabo, por que as conheceram os pilotos portuguezes primeiro que os hollandezes e dinamarquezes, prevaleceu o nome de Magalhães, com que a sciencia as designou, e n'isto vai honra á memoria do arrojado navegador portuguez que, não tendo a fortuna de receber em vida o premio do extraordinario descobrimento, teve a invejavel gloria de deixar o seu nome gravado nos mares e nos céos, como os deuses da Mythologia.{147}

D'estes conta a fabula, mas d'aquelle fala a historia humana.

É bom recordar estas glorias que, sendo de um homem, são da humanidade em geral e d'este velho e glorioso paiz em especial, porque Fernão de Magalhães era portuguez.{148}

[13]Collecion de documentos inéditos para la historia de España, tom. I, p. 247.[14]CosmosT. I pag. 451.[15]Obra citada.[16]Oceanica.Dec. III lib. I, pag. 217, por Pedro Martyr de Anghiera.

[13]Collecion de documentos inéditos para la historia de España, tom. I, p. 247.

[14]CosmosT. I pag. 451.

[15]Obra citada.

[16]Oceanica.Dec. III lib. I, pag. 217, por Pedro Martyr de Anghiera.

{149}{150}

EMPREZA DO OCCIDENTE

DE

CAETANO ALBERTO

——

CATALOGO DE ALGUMAS OBRAS Á VENDA

O OCCIDENTE

Revista Illustrada de Portugal e do Extrangeiro

Publicação tri-mensal—Assignatura permanente. Preço para Portugal, anno 3$800, semestre 1$900, trimestre 950, numero avulso ou á entrega 120 réis. Colonias portuguezas d'Africa, anno 4$000, semestre 2$000. Extrangeiro, anno 5$000, semestre 2$500 réis. Está no 21.º anno de publicação. Vendem-se collecções e volumes isolados. Preços dos 3 primeiros volumes, cada um 3$000 brochado, e 4$000 encadernado. Os volumes seguintes ou desde 1881 até ao presente: cada um 4$000 brochado, 5$000 encadernado.

A campanha d'Africa contada por um sargento

Illustrada com 40 gravuras, retratos dos heroes da campanha, vistas e combates 1 vol. 300 réis—pelo correio 320. Encadernado em percaline 500 reis.

AVENTURAS DE UMA NOVIÇA

Versão de Esteves Pereira, illustrado com o retrato da Heroina. 1 vol. 200 réis.

LIVROS PARA RIR

Sapatos de Defuncto, por Leite Bastos, illustrações de Manuel de Macedo e Caetano Alberto, 1 vol. edição de luxo 600 réis.

Viagem à roda da Parvónia, pelo commendador Gil Vaz, illustrações de Manuel de Macedo—1 vol. 500 réis.

O Nariz do Tabellião, por E. About, traducção de Pin-Sél, illustrado com uma capa a côres—1 vol. 200 réis.

DICCIONARIO DAS SEIS LINGUAS

Francez-Portuguez e Portuguez-Francez.

Francez-Allemão e Allemão-Francez.

Francez-Hespanhol e Hespanhol Francez.

Francez-Inglez e Inglez-Francez.

Francez-Italiano e Italiano-Francez.

Um só volume comprehendendo 80 fasciculos de 16 pag. 8.º port.

Em publicação cada fasciculo 30 réis.


Back to IndexNext