Chapter 4

José Dias suspirava. Uma vez olhou para mim tão cheio de pena que me pareceu haver-me adivinhado, e eu quiz pedir-lhe que não dissesse nada a ninguem, que eu ia castigar-me, etc. Mas a pena trazia tanto amor, que não podia ser pezar do meu peccado; mas então era sempre a morte de minha mãe... Senti uma angustia grande, um nó na garganta, e não pude mais, chorei de uma vez.

—Que é, Bentinho?

—Mamãe...?

—Não! não! Que ideia é essa? O estado della é gravissimo, mas não é mal de morte, e Deus póde tudo. Enxugue os olhos, que é feio um mocinho da sua edade andar chorando na rua. Não ha de ser nada, uma febre... As febres, assim como dão com força assim tambem se vão embora... Com os dedos, não; onde está o lenço?

Enxuguei os olhos, posto que de todas as palavras de José Dias uma só me ficasse no coração; foi aquellegravissimo.Vi depois que elle só queria dizergrave, mas o uso do superlativo faz a bocca longa, e, por amor do periodo, José Dias fez crescer a minha tristeza. Se achares neste livro algum caso da mesma familia, avisa-me, leitor, para que o emende na segunda edição; nada ha mais feio que dar pernas longuissimas a ideias brevissimas. Enxuguei os olhos, repito, e fui andando, ancioso agora por chegar a casa, e pedir perdão a minha mãe do ruim pensamento que tive. Emfim, chegámos, entramos, subi tremulo os seis degraus da escada, e d'ahi a pouco, debruçado sobre a cama, ouvia as palavras ternas de minha mãe que me apertava muito as mãos, chamando-me seu filho. Estava queimando, os olhos ardiam nos meus, toda ella parecia consumida por um volcão interno. Ajoelhei-me ao pé do leito, mas como este era alto, fiquei longe das suas caricias:

—Não, meu filho, levanta, levanta!

Capitú, que estava na alcova, gostou de ver a minha entrada, os meus gestos, palavras e lagrimas, segundo me disse depois; mas não suspeitou naturalmente todas as causas da minha afflicção. Entrando no meu quarto, pensei em dizer tudo a minha mãe, logo que ella ficasse boa, mas esta ideia não me mordia, era uma velleidade pura, uma acção que eu não faria nunca, por mais que o peccado me doesse. Então, levado do remorso, usei ainda uma vez do meu velho meio das promessas espirituaes, e pedi a Deus que me perdoasse e salvasse a vida de minha mãe, e eu lhe rezaria dous mil padre-nossos. Padre que me lês, perdoa este recurso; foi a ultima vez que o empreguei. A crise em que me achava, não menos que o costume e a fé, explica tudo. Eram mais dous mil; onde iam os antigos? Não paguei uns nem outros, mas saindo de almas candidas e verdadeiras taes promessas são como a moeda fiduciaria,—ainda que o devedor as não pague, valem a somma que dizem.

Poucos teriam animo de confessar aquelle meu pensamento da rua de Matacavallos. Eu confessarei tudo o que importar á minha historia. Montaigne escreveu de si:ce ne sont pas mes gestes que j'ecris; c'est moi, c'est mon essence.Ora, ha só um modo de escrever a propria essencia, é contal-a toda, o bem e o mal. Tal faço eu, á medida que me vae lembrando o convindo á construção ou reconstrucção de mim mesmo. Por exemplo, agora que contei um peccado, diria com muito gosto alguma bella acção contemporanea, se me lembrasse, mas não me lembra; fica transferida a melhor opportunidade.

Nem perderás em esperar, meu amigo; ao contrario, acóde-me agora que... Não só as bellas acções são bellas em qualquer occasião, como são tambem possiveis e provaveis, pela theoria que tenho dos peccados e das virtudes, não menos simples que clara. Reduz-se a isto que cada pessoa nasce com certo numero delles e dellas, alliados por matrimonio para se compensarem na vida. Quando um de taes conjuges é mais forte que o outro, elle só guia o individuo, sem que este, por não haver praticado tal virtude ou commettido tal peccado, se possa dizer isento de um ou de outro; mas a regra é dar-se a pratica simultanea dos dous, com vantagem do portador de ambos, e alguma vez com resplendor maior da terra e do ceu. É pena que eu não possa fundamentar isto com um ou mais casos extranhos; falta-me tempo.

Pelo que me toca, é certo que nasci com alguns daquelles casaes, e naturalmente ainda os possuo. Já me succedeu, aqui no Engenho Novo, por estar uma noite com muita dòr de cabeça, desejar que o trem da Central estourasse longe dos meus ouvidos e interrompesse a linha por muitas horas, ainda que morresse alguem; e no dia seguinte perdi o trem da mesma estrada, por ter ido dar a minha bengala a um cego que não trazia bordão.Voilà mes gestes, voilà mon essence.

Um dos gestos que melhor exprimem a minha essencia foi a devoção com que corri no domingo proximo a ouvir missa em S. Antonio dos Pobres. O aggregado quiz ir commigo, e principiou a vestir-se, mas era tão lento nos suspensorios e nas presilhas, que não pude esperar por elle. Demais, eu queria estar só. Sentia necessidade de evitar qualquer conversação que me desviasse o pensamento do fim a que ia, e era reconciliar-me com Deus, depois do que se passou no capitulo LXVII. Nem era só pedir-lhe perdão do peccado, era tambem agradecer o restabelecimento de minha mãe, e, visto que digo tudo, fazel-o renunciar ao pagamento da minha promessa. Jehovah, posto que divino, ou por isso mesmo, é um Rothschild muito mais humano, e não faz moratorias, perdoa as dividas integralmente, uma vez que o devedor queira devéras emendar a vida e cortar nas despezas. Ora, eu não queria outra cousa; dalli em deante não faria mais promessas que não pudesse pagar, e pagaria logo as que fizesse.

Ouvi missa; ao levantar a Deus, agradeci a vida e saude de minha mãe; depois pedi perdão do peccado e relevação da divida, e recebi a benção final do officiante como um acto solemne de reconciliação. No fim, lembrou-me que a egreja estabeleceu no confessionario um cartorio seguro, e na confissão o mais authentico dos instrumentos para o ajuste de contas moraes entre o homem e Deus. Mas a minha incorrigivel timidez me fechou essa porta certa; receiei não achar palavras com que dizer ao confessor o meu segredo. Como o homem muda! Hoje chego a publical-o.

Rezei ainda, persignei-me, fechei o livro de missa e caminhei para a porta. A gente mão era muita, mas a egreja tambem não é grande, e não pude sair logo, logo, mas devagar. Havia homens e mulheres, velhos e moços, sedas e chitas, e provavelmente olhos feios e bellos, mas eu não vi uns nem outros. Ia na direcção da porta, com a onda, ouvindo as saudações e os cochichos. No adro, onde se fez claro, parei e olhei para todos. Vi então uma moça e um homem, que saíam da egreja e pararam; e a moça olhava para mim falando ao homem, e o homem olhava para mim, ouvindo a moça. E chegaram-me estas palavras:

—Mas que queres?

—Queria saber della; papae pergunte.

Era sinhásinha Sancha, a companheira de collegio de Capitú, que queria noticias de minha mãe. O pae veiu a mim; disse-lhe que estava restabelecida. Depois saimos, mostrou-me a casa delle, e, como eu vinha na mesma direcção, viemos juntos. Gurgel era homem de quarenta annos ou pouco mais, com propensão a engrossar o ventre; era muito obsequioso; chegando á porta da casa, quiz por força que eu fosse almoçar com elle.

—Obrigado; mamãe espera-me.

—Manda-se lá um preto dizer que o senhor fica almoçando, e irá mais tarde.

—Venho outro dia.

Sinhásinha Sancha, voltada para o pae, ouvia e esperava. Não era feia; só se lhe podia notar a semelhança do nariz, que tambem acabava grosso, mas ha feições que tiram a graça de uns para dal-a a outros. Vestia simples. Gurgel era viuvo e morria pela filha. Como eu recusasse o almoço, quiz que descançasse alguns minutos. Não pude recusar e subi. Quis saber a minha edade, os meus estudos, a minha fé, e dava-me conselhos para o caso de vir a ser padre; disse-me o numero do armazem, rua da Quitanda. Emfim, despedi-me, veiu ao patamar da escada; a filha deu-me rocommendações para Capitú e para minha mãe. Da rua olhei para cima; o pae estava á janella e fez-me um gosto largo de despedida.

Em casa, tinham já mentido dizendo a minha mãe que eu voltára e estava mudando de roupa.

«A missa das oito já ha de ter acabado... Bentinho devia estar de volta... Teria acontecido alguma cousa, mano Cosme?... Mandem ver...» Assim falava ella, de minuto a minuto, mas eu entrei e commigo a tranquillidade.

Era o dia das boas sensações. Escobar foi visitar-me e saber da saude de minha mãe. Nunca me visitára até alli, nem as nossas relações estavam já tão estreitas, como vieram a ser depois; mas sabendo a razão da minha saida, tres dias antes, aproveitou o domingo para ir ter commigo e perguntar se continuava o perigo ou não. Quando lhe disse que não, respirou.

—Tive receio, disse elle.

—Os outros souberam?

—Parece que sim: alguns souberam.

Tio Cosme e José Dias gostaram do moço; o aggregado disse-lhe que vira uma vez o pae no Rio de Janeiro. Escobar era muito polido; e, comquanto falasse mais do que veiu a falar depois, ainda assim não era tanto como os rapazes da nossa edade; naquelle dia achei-o um pouco mais expansivo que de costume. Tio Cosme quiz que jantasse comnosco. Escobar reflectiu um instante e acabou dizendo que o correspondente do pae esperava por elle. Eu, lembrando-me das palavras do Gurgel, repeti-as:

—Manda-se lá um preto dizer que o senhor janta aqui, e irá depois.

—Tanto incommodo!

—Incommodo nenhum, interveiu tio Cosme.

Escobar acceitou, e jantou. Notei que os movimentos rápidos que tinha e dominava na aula tambem os dominava agora, na sala como na mesa. A hora que passou commigo foi de franca amizade. Mostrei-lhe os poucos livros que possuia. Gostou muito do retrato de meu pae; depois de alguns instantes de contemplação, virou-se e disse-me:

—Vê-se que era um coração puro!

Os olhos de Escobar, claros como já disse, eram dulcissimos; assim os definiu José Dias, depois que elle saiu, e mantenho esta palavra, apesar dos quarenta annos que traz em cima de si. Nisto não houve exageração do aggregado. A cara rapada mostrava uma pelle alva e lisa. A testa é que era um pouco baixa, vindo a risca do cabello quasi em cima da sobrancelha esquerda; mas tinha sempre a altura necessaria para não affrontar as outras feições, nem diminuir a graça dellas. Realmente, era interessante de rosto, a bocca fina e chocarreira, o nariz curvo e delgado. Tinha o séstro de sacudir o hombro direito, de quando em quando, e veiu a perdel-o, desde que um de nós lh'o notou um dia no seminario; primeiro exemplo que vi de que um homem póde corrigir-se muito bem dos defeitos miudos.

Nunca deixei de sentir tal ou qual desvanecimento em que os meus amigos agradassem a todos. Em casa, ficaram querendo bem a Escobar; a mesma prima Justina achou que era um moço muito apreciavel, apesar... Apesar de que? perguntou-lhe José Dias, vendo que ella não acabava a phrase. Não teve resposta, nem podia tel-a; prima Justina provavelmente não viu defeito claro ou importante no nosso hospede; oapesarera uma especie de resalva para algum que lhe viesse a descobrir um dia; ou então foi obra de uso velho, que a levou a restringir, onde não achára restricção.

Escobar despediu-se logo depois de jantar; fui leval-o á porta, onde esperámos a passagem de um omnibus. Disse-me que o armazem do correspondente era na rua dos Pescadores, e ficava aberto até ás nove horas: elle é que se não queria demorar fóra. Separámo-nos com muito affecto: elle, de dentro do omnibus, ainda me disse adeus, com a mão. Conservei-me á porta, a ver se, ao longe, ainda olharia para traz, mas não olhou.

—Que amigo é esse tamanho? perguntou alguem de uma janella ao pé.

Não é preciso dizer que era Capitú. São cousas que se adivinham na vida, como nos livros, sejam romances, sejam historias verdadeiras. Era Capitú, que nos espreitara desde algum tempo, por dentro da veneziana, e agora abrira inteiramente a janella, e apparecera. Viu as nossas despedidas tão rasgadas e affectuosas, e quiz saber quem era que me merecia tanto.

—É o Escobar, disse eu indo pôr-me embaixo da janella, a olhar para cima.

Nem eu, nem tu, nem ella, nem qualquer outra pessoa desta historia poderia responder mais, tão certo é que o destino, como todos os dramaturgos, não annuncia as peripecias nem o desfecho. Elles chegam a seu tempo, até que o panno cae, apagam-se as luzes, e os espectadores vão dormir. Nesse genero ha porventura alguma cousa que reformar, e eu proporia, como ensaio, que as peças começassem pelo fim. Othello mataria a si e a Desdemona no primeiro acto, os tres seguintes seriam dados á acção lenta e decrescente do ciume, e o ultimo ficaria só com as scenas iniciaes da ameaça dos turcos, as explicações de Othello e Desdemona, e o bom conselho do fino Iago: «Mette dinheiro na bolsa.» Desta maneira, o espectador, por um lado, acharia no theatro a charada habitual que os periodicos lhe dão, porque os ultimos actos explicariam o desfecho do primeiro, especie de conceito, e, por outro lado, ia para a cama com uma boa impressão de ternura e de amor:

Ella amou o que me affligira,Eu amei a piedade della.

O destino não é só dramaturgo, é tambem o seu proprio contra-regra, isto é, designa a entrada dos personagens em scena, dá-lhes as cartas e outros objectos, e executa dentro os signaes correspondentes ao dialogo, uma trovoada, um carro, um tiro. Quando eu era moço, representou-se ahi, em não sei que theatro, um drama que acabava pelo juizo final. O principal personagem era Ashaverus, que no ultimo quadro concluia um monologo por esta exclamação: «Ouço a trombeta do archanjo!» Não se ouviu trombeta nenhuma. Ashaverus, envergonhado, repetiu a palavra, agora mais alto, para advertir o contra-regra, mas ainda nada. Então caminhou para o fundo, disfarçamente tragico, mas effectivamente com o fim de falar ao bastidor, e dizer em voz surda: «O piston! o piston! o piston!» O publico ouviu esta palavra e desatou a rir, até que, quando a trombeta soou devéras, e Ashaverus bradou pela terceira vez que era a do archanjo, um gaiato da platéa corrigiu cá debaixo: «Não, senhor, é o piston do archanjo!»

Assim se explicam a minha estada debaixo da janella de Capitú e a passagem de um cavalleiro, umdandy, como então diziamos. Montava um bello cavallo alazão, firme na sella, redea na mão esquerda, a direita á cinta, botas de verniz, figura e postura esbeltas: a cara não me era desconhecida. Tinham passado outros, e ainda outros viriam atraz; todos iam ás suas namoradas. Era uso do tempo namorar a cavallo. Relê Alencar: «Porque um estudante (dizia um dos seus personagens de theatro de 1858) não póde estar sem estas duas cousas, um cavallo e uma namorada.» Relê Alvares de Azevedo. Uma das suas poesias é destinada a contar (1851) que residia em Catumby, e, para ver a namorada no Cattete, alugara um cavallo por trez mil reis... Trez mil reis! tudo se perde na noite dos tempos!

Ora, odandydo cavallo baio não passou como os outros; era a trombeta do juizo final e soou a tempo; assim faz o Destino, que é o seu proprio contra-regra. O cavalleiro não se contentou de ir andando, mas voltou a cabeça para o nosso lado, o lado de Capitú, e olhou para Capitú, e Capitú para elle; o cavallo andava, a cabeça do homem deixava-se ir voltando para traz. Tal foi o segundo dente de ciume que me mordeu. A rigor, era natural admirar as bellas figuras; mas aquelle sujeito costumava pagar alli, ás tardes; morava no antigo Campo da Acclamação, e depois... e depois... Vão lá raciocinar com um coração de braza, como era o meu!

Nem disse nada a Capitú; saí da rua á pressa, enfiei pelo meu corredor, e, quando dei por mim, estava na sala de visitas.

Na sala de visitas, tio Cosme e José Dias conversavam, um sentado, outro andando e parando. A vista de José Dias lembrou-me o que elle me disséra no seminario: «Aquillo emquanto não pegar algum peralta da visinhança que case com ella....» Era certamente allusão ao cavalleiro. Tal recordação aggravou a impressão que eu trazia da rua; mas não seria essa palavra, inconscientemente guardada, que me dispoz a crer na malicia dos seus olhares? A vontade que tive foi pegar em José Dias pela gola, leval-o ao corredor e perguntar-lhe se falara de verdade ou por hypothese; mas José Dias, que parára ao ver-me entrar, continuou a andar e a falar. Eu, impaciente, queria ir á casa ao pé, imaginava que Capitú saisse da janella assustada e não tardasse a apparecer, para indagar e explicar.... E os dous falavam, até que tio Cosme ergueu-se para ir ver a doente, e José Dias veiu ter commigo, ao vão da outra janella.

Ha um instante tinha eu desejo de lhe perguntar o que havia entre Capitú e os peraltas do bairro; agora, imaginando que vinha justamente dizer-m'o, fiquei com medo de ouvil-o. Quiz tapar-lhe a bocca. José Dias viu no meu rosto algum signal differente da expressão habitual, e perguntou-me com interesse:

—Que é, Bentinho?

Para não fital-o, deixei cair os olhos. Os olhos, caindo, viram que uma das presilhas das calças do aggregado estava desabotoada, e, como elle insistisse em saber o que é que eu tinha, respondi apontando com o dedo:

—Olhe a presilha, abotoe a presilha.

José Dias inclinou-se, eu saí correndo.

Escapei ao aggregado, escapei a minha mãe não indo ao quarto della, mas não escapei a mim mesmo. Corri ao meu quarto, e entrei atraz de mim. Eu falava-me, eu perseguia-me, eu atirava-me á cama, e rolava commigo, e chorava, e abafava os soluços com a ponta do lençol. Jurei não ir ver Capitú aquella tarde, nem nunca mais, e fazer-me padre de uma vez. Via-me já ordenado, deante d'ella, que choraria de arrependimento e me pediria perdão, mas eu, frio e sereno, não teria mais que desprezo, muito desprezo; voltava-lhe as costas. Chamava-lhe perversa. Duas vezes dei por mim mordendo os dentes, como se a tivesse entre elles.

Da cama ouvia voz della, que viera passar o resto da tarde com minha mãe, e naturalmente commigo, como das outras vezes; mas, por maior que fosse o abalo que me deu, não me fez sair do quarto. Capitú ria alto, falava alto, como se me avisasse; eu continuava surdo, a sós commigo e o meu desprezo. A vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no pescoço, enterral-as bem, até ver-lhe sair a vida com o sangue....

Ao fim de algum tempo, estava socegado, mas abatido. Como me achasse estirado na cama, com os olhos no tecto, lembrou-me a recommendação que minha mãe fazia de me não deitar depois de jantar para evitar alguma congestão. Ergui-me de golpe, mas não saí do quarto. Capitú ria agora menos e falava mais baixo; estaria afflicta com a minha reclusão, mas nem por isso me abalou.

Não ceei e dormi mal. Na manhã seguinte não estava melhor, estava differente. A minha dòr agora complicava-se do receio de haver ido além do que convinha, deixando de examinar o negocio. Posto que a cabeça me doesse um pouco, simulei maior incommodo, com o fim de não ir ao seminario e falar a Capitú. Podia estar zangada commigo, podia não querer-me agora e preferir o cavalleiro. Quiz resolver tudo, ouvil-a e julgal-a; podia ser que tivesse defesa e explicação.

Tinha ambas as cousas. Quando soube a causa da minha reclusão da vespera, disse-me que era grande injuria que lhe fazia; não podia crer que depois da nossa troca de juramentos, tão leviana a julgasse que pudesse crer.... E aqui romperam-lhe lagrimas, e fez um gesto de separação; mas eu acudi de prompto, peguei-lhe das mãos e beijei-as com tanta alma e calor que as senti estremecer. Enxugou os olhos com os dedos, eu os beijei de novo, por elles e pelas lagrimas; depois suspirou, depois abanou a cabeça. Confessou-me que não conhecia o rapaz, senão como os outros que alli passavam ás tardes, a cavallo ou a pé. Se olhara para elle, era prova exactamente de não haver nada entre ambos; se houvesse, era natural dissimular.

—E que poderia haver, se elle vae casar? concluiu.

—Vae casar?

Ia casar, disse-me com quem, com uma moça da rua dos Barbonos. Esta razão quadrou-me mais que tudo, e ella o sentiu no meu gesto; nem por isso deixou de dizer que, para evitar nova equivocação, deixaria de ir mais á janella.

—Não! não! não! não lhe peço isto!

Consentiu em retirar a promessa, mas fez outra, e foi que, á primeira suspeita da minha parte, tudo estaria dissolvido entro nós. Acceitei a ameaça, e jurei que nunca a haveria de cumprir: era a primeira suspeita e a ultima.

Contando aquella crise do meu amor adolescente, sinto uma cousa que não sei se explico bem, e é que as dôres daquella quadra, a tal ponto se espiritualisaram com o tempo, que chegam a diluir-se no prazer. Não é claro isto, mas nem tudo é claro na vida ou nos livros. A verdade é que sinto um gosto particular em referir tal aborrecimento, quando é certo que elle me lembra outros que não quizera lembrar por nada.

De resto, naquelle mesmo tempo senti tal ou qual necessidade de contar a alguem o que se passava entre mim e Capitú. Não referi tudo, mas só uma parte, e foi Escobar que a recebeu. Quando voltei ao seminario, na quarta-feira, achei-o inquieto; disse-me que era sua intenção ir ver-me, se eu me demorasse mais um dia em casa. Perguntava-me com interesse o que é que tivera, e se estava bom de todo.

—Estou.

Ouvia, espetando-me os olhos. Tres dias depois disse que me estavam achando muito distrahido; era bom disfarçar o mais que pudesse. Elle, á sua parte, tinha razões para andar distrahido tambem, mas buscava ficar attento.

—Então parece-lhe....?

—Sim, você ás vezes está que não ouve nada, olhando para hontem; disfarce, Santiago.

—Tenho motivos....

—Creio; ninguem se distrae á toa.

—Escobar....

Hesitei; elle esperou.

—Que é?

—Escobar, você é meu amigo, eu sou seu amigo tambem; aqui no seminario você é a pessoa que mais me tem entrado no coração, e lá fóra, a não ser a gente da familia, não tenho propriamente um amigo.

—Se eu disser a mesma cousa, retorquiu elle sorrindo, perde a graça; parece que estou repetindo. Mas a verdade é que não tenho aqui relações com ninguem, você é o primeiro e creio que já notaram; mas eu não me importo com isso.

Commovido, senti que a voz se me precipitava da garganta.

—Escobar, você é capaz de guardar um segredo?

—Você que pergunta é porque duvida, e nesse caso....

—Desculpe, é um modo de falar. Eu sei que é moço serio, e faço de conta que me confesso a um padre.

—Se precisa de absolvição, está absolvido.

—Escobar, eu não posso ser padre. Estou aqui, os meus acreditam, o esperam; mas eu não posso ser padre.

—Nem eu, Santiago.

—Nem você?

—Segredo por segredo; tambem eu tenho o proposito de não acabar o curso; meu desejo é o commercio, mas não diga nada, absolutamente nada; fica só entre nós. E não é que eu não seja religioso; sou religioso, mas o commercio é a minha paixão.

—Só isso?

—Que mais ha de ser?

Dei duas voltas e sussurrei a primeira palavra da minha confidencia, tão escassa e surda, que não a ouvi eu mesmo; sei porém que disse «uma pessoa...» com reticencia. Uma pessoa....? Não foi preciso mais para que elle entendesse. Uma pessoa devia ser uma moça. Nem cuides que pasmou de me ver namorado; achou até natural e espetou-me outra vez os olhos. Então contei-lhe por alto o que podia, mas demoradamente para ter o gosto de repisar o assumpto. Escobar escutava com interesse; no fim da nossa conversação, declarou-me que era segredo enterrado em cemiterio. Deu-me de conselho que não me fizesse padre. Não podia levar para a egreja um coração que não era do ceu, mas da terra; seria um mau padre, nem seria padre. Ao contrario. Deus protegia os sinceros; uma vez que eu só podia servil-o no mundo, ahi me cumpria ficar.

Não calculas o prazer que me deu a confidencia que lhe fiz. Era como que uma felicidade mais. Aquelle coração moço que me ouvia e me dava razão, trazia a este mundo um aspecto extraordinario. Era um grande e bello mundo, a vida uma carreira excellente, e eu nem mais nem menos um mimoso do ceu; eis a minha sensação. Nota que eu não lhe disse tudo, nem o melhor; não lhe referi o capitulo do penteado, por exemplo, nem outros assim; mas o contado era muito.

Que voltámos ao assumpto, não é preciso dizel-o. Voltámos uma e muitas vezes; eu louvava as qualidades moraes de Capitú, materia adequada á admiração de um seminarista, a simpleza, a modestia, o amor do trabalho e os costumes religiosos. Não lhe tocava nas graças physicas, nem elle me perguntava por ellas; apenas insinuei a conveniencia de a conhecer de vista.

—Agora não é possivel, disse-lhe na primeira semana, ao voltar de casa; Capitú vae passar uns dias com uma amiga da rua dos Invalidos. Quando ella vier, você irá lá; mas póde ir antes, póde ir sempre; porque não foi hontem jantar commigo?

—Você não me convidou.

—Pois precisa convidar? Lá em casa todos ficaram gostando muito de você.

—Tambem eu fiquei gostando de todos, mas se é possivel fazer distincção, confesso-lhe que sua mãe é uma senhora adoravel.

—Não é verdade? retorqui cheio de alvoroço.

Com effeito, gostei de ouvil-o falar assim. Sabes a opinião que eu tinha de minha mãe. Ainda agora, depois de interromper esta linha para mirar-lhe o retrato que pende da parede, acho que trazia no rosto impressa aquella qualidade. Nem de outro modo se explica a opinião de Escobar, que apenas trocara com ella quatro palavras. Uma só bastava a penetrar-lhe a essencia intima; sim, sim, minha mãe era adoravel. Por mais que me estivesse então obrigando a uma carreira que eu não queria, não podia deixar de sentir que era adoravel, como uma santa.

E por ventura era certo que me obrigava á carreira ecclesiastica? Aqui chego a um ponto, que esperei viesse depois, tanto que já pesquizava em que altura lhe daria um capitulo. Realmente, não cabia dizer agora o que só mais tarde presumi descobrir; mas, uma vez que toquei no ponto, melhor é acabar com elle. É grave e complexo, delicado e subtil, um destes em que o autor tem de attender ao filho, e o filho ha de ouvir o autor, para que um e outro digam a verdade, só a verdade, mas toda a verdade. Cabe ainda notar que esse ponto é que torna justamente a santa mais adoravel, sem prejuizo (ao contrario!) da parte humana e terrestre que havia nella. Basta de prefacio ao capitulo; vamos ao capitulo.

Venhamos ao capitulo. Minha mãe era temente a Deus; sabes disto, e das suas praticas religiosas, e da fé pura que as animava. Nem ignoras que a minha carreira ecclesiastica era objecto de promessa feita quando fui concebido. Tudo está contado opportunamente. Outrosim, sabes que para o fim de apertar o vinculo moral da obrigação, confiou os seus projectos e motivos a parentes e familiares. A promessa, feita com fervor, acceita com misericordia, foi guardada por ella, com alegria, no mais intimo do coração. Penso que lhe senti o sabor da felicidade no leite que me deu a mamar. Meu pae, se vivesse, é possivel que alterasse os planos, e, como tinha a vocação da politica, é provavel que me encaminhasse somente á politica, embora os dous officios não fossem nem sejam inconciliaveis, e mais de um padre entre na luta dos partidos e no governo dos homens. Mas meu pae morrera sem saber nada, e ella ficou deante do contracto, como unica devedora.

Um dos aphorismos de Franklin é que, para quem tem de pagar na paschoa, a quaresma é curta. A nossa quaresma não foi mais longa que as outras, e minha mãe, posto me mandasse ensinar latim e doutrina, começou a adiar a minha entrada no seminario. É o que se chama, commercialmente falando, reformar uma lettra. O credor era archi-millionario, não dependia daquella quantia para comer, e consentiu nas transferencias de pagamento, sem sequer aggravar a taxa do juro. Um dia, porém, um dos familiares que serviam de endossantes da letra, falou da necessidade de entregar o preço ajustado; está n'um dos capitulos primeiros. Minha mãe concordou e recolhi-me a S. José.

Ora, nesse mesmo capitulo, verteu ella umas lagrimas, que enxugou sem explicar, e que nenhum dos presentes, nem tio Cosme, mau prima Justina, nem o aggregado José Dias entendeu absolutamente; eu, que estava atraz da porta, não as entendi mais que elles. Bem examinadas, apesar da distancia, vê-se que eram saudades prévias, a magoa da separação,—e póde ser tambem (é o principio do ponto), póde ser que arrependimento da promessa. Catholica e devota, sentia muito bem que as promessas se cumprem; a questão é se é opportuno e adequado fazel-as todas, e naturalmente inclinava-se á negativa. Porque é que Deus a puniria, negando-lhe um segundo filho? A vontade divina podia ser a minha vida, sem necessidade de lh'a dedicarab ovo.Era um raciocinio tardio; devia ter sido feito no dia em que fui gerado. Em todo caso, era uma conclusão primeira; mas, não bastando concluir para destruir, tudo se manteve, e eu fui para o seminario.

Um cochilo da fé teria resolvido a questão a meu favor, mas a fé velava com os seus grandes olhos ingenuos. Minha mãe faria, se pudesse, uma troca de promessa, dando parte dos seus annos para conservar-me comsigo, fóra do clero, casado e pae; é o que presumo, assim como supponho que rejeitou tal ideia, por lhe parecer uma deslealdade. Assim a senti sempre na corrente da vida ordinaria.

Succedeu que a minha ausencia foi logo temperada pela assiduidade de Capitú. Esta começou a fazer-se-lhe necessaria. Pouco a pouco veiu-lhe a persuasão de que a pequena me faria feliz. Então (é o final do ponto annunciado), a esperança de que o nosso amor, tornando-me absolutamente incompativel com o seminario, me levasse a não ficar lá nem por Deus nem pelo diabo, esta esperança intima e secreta entrou a invadir o coração de minha mãe. Neste caso, eu romperia o contracto sem que ella tivesse culpa. Ella ficava commigo sem acto propriamente seu. Era como se, tendo confiado a alguem a importancia de uma divida para leval-a ao credor, o portador guardasse o dinheiro comsigo e não levasse nada. Na vida commum, o acto de terceiro não desobriga o contractante; mas a vantagem de contractar com o ceu é que intenção vale dinheiro.

Has de ter tido conflictos parecidos com esse, e, se és religioso, haverás buscado alguma vez conciliar o ceu e a terra, por modo identico ou analogo. O ceu e a terra acabam conciliando-se; elles são quasi irmãos gemeos, tendo o ceu sido feito no segundo dia e a terra no terceiro. Como Abrahão, minha mãe levou o filho ao monte da Visão, e mais a lenha para o holocausto, o fogo e o cutello. E atou Isaac em cima do feixe de lenha, pegou do cutello e levantou-o ao alto. No momento de fazel-o cair, ouve a voz do anjo que lhe ordena da parte do Senhor: «Não faças mal algum a teu filho; conheci que temes a Deus.» Tal seria a esperança secreta de minha mãe.

Capitú era naturalmente o anjo da Escriptura. A verdade é que minha mãe não podia tel-a agora longe de si. A affeição crescente era manifesta por actos extraordinarios. Capitú passou a ser a flôr da casa, o sol das manhãs, o frescor das tardes, a lua das noites; lá vivia horas e horas, ouvindo, falando e cantando. Minha mãe apalpava-lhe o coração, revolvia-lhe os olhos, e o meu nome era entre ambas como a senha da vida futura.

Assim contado o que descobri mais tarde, posso trasladar para aqui uma palavra de minha mãe. Agora se entenderá que ella me dissesse, no primeiro sabbado, quando eu cheguei a casa, e soube que Capitú estava na rua dos Invalidos, com Sinhásinha Gurgel.

—Porque não vaes vel-a? Não me disseste que o pae de Sancha te offereceu a casa?

—Offereceu.

—Pois então? Mas é se queres. Capitú devia ter voltado hoje para acabar um trabalho commigo; certamente a amiga pediu-lhe que dormisse lá.

—Talvez ficassem namorando, insinuou prima Justina.

Não a matei por não ter a mão ferro nem corda, pistola nem punhal; mas os olhos que lhe deitei, se pudessem matar, teriam supprido tudo. Um dos erros da Providencia foi deixar ao homem unicamente os braços e os dentes, como armas de ataque, e as pernas como armas de fuga ou de defesa. Os olhos bastavam ao primeiro effeito. Um mover delles faria parar ou cair um inimigo ou um rival, exerceriam vingança prompta, com este accressimo que, para desnortear a justiça, os mesmos olhos matadores seriam olhos piedosos, e correriam a chorar a victima. Prima Justina escapou aos meus; eu é que não escapei ao effeito da insinuação, e no domingo, ás onze horas, corri á rua dos Invalidos.

O pae de Sancha recebeu-me em desalinho e triste. A filha estava enferma; caira na vespera com uma febre, que se ia aggravando. Como elle queria muito á filha, pensava já vel-a morta, e annunciou-me que se mataria tambem. Eis aqui um capitulo funebre como um cemiterio, mortes, suicidios e assassinatos. Eu anciava por um raio de luz clara e ceu azul. Foi Capitú que os trouxe á porta da sala, vindo dizer ao pae de Sancha que a filha o mandara chamar.

—Está peor? perguntou Gurgel assustado.

—Não, senhor, mas quer falar-lhe.

—Fique aqui um bocadinho, disse-lhe elle; e voltando-se para mim: É a enfermeira de Sancha, que não quer outra; eu já volto.

Capitú trazia signaes de fadiga e commoção, mas tão depressa me viu, ficou toda outra, a mocinha de sempre, fresca e lepida, não menos que espantada. Custou-lhe a crer que fosse eu. Falou-me, quiz que lhe falasse, e effectivamente conversámos por alguns minutos, mas tão baixo e abafado que nem as paredes ouviram, ellas que tèm ouvidos. De resto, se ellas ouviram algo, nada entenderam, nem ellas nem os moveis, que estavam tão tristes como o dono.

Delles, só o canapé pareceu haver comprehendido a nossa situação moral, visto que nos offereceu os serviços da sua palhinha, com tal insistencia que os acceitámos e nos sentámos. Data dahi a opinião particular que tenho do canapé. Elle faz alliar a intimidade e o decoro, e mostra a casa toda sem sair da sala. Dous homens sentados nelle pódem debater o destino de um imperio, e duas mulheres a graça de um vestido; mas, um homem e uma mulher só por aberração das leis naturaes dirão outra cousa que não seja de si mesmos. Foi o que fizemos, Capitú e eu. Vagamente lembra-me que lhe perguntei se a demora alli seria grande...

—Não sei; a febre parece que cede... mas...

Tambem me lembra, vagamente, que lhe expliquei a minha visita á rua dos Invalidos, com a pura verdade, isto é, a conselho de minha mãe.

—Conselho della? murmurou Capitú.

E accrescentou com os olhos, que brilhavam extraordinariamente:

—Seremos felizes!

Repeti esta palavras, com os simples dedos, apertando os della. O canapé, quer visse ou não, continuou a prestar os seus serviços ás nossas mãos presas e ás nossas cabeças juntas ou quasi juntas.

Gurgel tornou á sala e disse a Capitú que a filha chamava por ella. Eu levantei-me depressa e não achei compostura; mettia os olhos pelas cadeiras. Ao contrario, Capitú ergueu-se naturalmente e perguntou-lhe se a febre augmentára.

—Não, disse elle.

Nem sobresalto nem nada, nenhum ar de mysterio da parte de Capitú; voltou-se para mim, e disse-me que levasse lembranças a minha mãe e a prima Justina, e que até breve; estendeu-me a mão e enfiou pelo corredor. Todas as minhas invejas foram com ella. Como era possivel que Capitú se governasse tão facilmente e eu não?

—Está uma moça, observou Gurgel olhando tambem para ella.

Murmurei que sim. Na verdade, Capitú ia crescendo ás carreiras, as fórmas arredondavam-se e avigoravam-se com grande intensidade; moralmente, a mesma cousa. Era mulher por dentro e por fóra, mulher á direita e á esquerda, mulher por todos os lados, e desde os pés até á cabeça. Esse arvorecer era mais apressado, agora que eu a via de dias a dias; de cada vez que vinha a casa achava-a mais alta e mais cheia; os olhos pareciam ter outra reflexão, e a bocca outro imperio. Gurgel, voltando-se para a parede da sala, onde pendia um retrato de moça, perguntou-me se Capitú era parecida com o retrato.

Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar com a opinião provavel do meu interlocutor, desde que a materia não me aggrava, aborrece ou impõe. Antes de examinar se effectivamente Capitú era parecida com o retrato, fui respondendo que sim. Então elle disse que era o retrato da mulher delle, e que as pessoas que a conheceram diziam a mesma cousa. Tambem achava que as feições eram semelhantes, a testa principalmente e os olhos. Quanto ao genio, era um; pareciam irmãs.

—Finalmente, até a amizade que ella tem a Sanchinha; a mãe não era mais amiga della... Na vida ha dessas semelhanças assim exquisitas.

No saguão e na rua, examinei ainda commigo se effectivamente elle teria desconfiado alguma cousa, mas achei que não e puz-me a andar. Ia satisfeito com a visita, com a alegria de Capitú, com os louvores de Gurgel, a tal ponto que não acudi logo a uma voz que me chamava:

—Sr. Bentinho! Sr. Bentinho!

Só depois que a voz cresceu e o dono della chegou á porta é que eu parei e vi o que era e onde estava. Estava já na rua de Matacavallos. A casa era uma loja de louça, escassa e pobre; tinha as portas meio-cerradas, e a pessoa que me chamava era um pobre homem grisalho e mal vestido.

—Sr. Bentinho, disse-me elle chorando; sabe que meu filho Manduca morreu?

—Morreu?

—Morreu ha meia hora, enterra-se amanhã. Mandei recado a sua mãe agora mesmo, e ella fez-me a caridade de mandar algumas flores para botar no caixão. Meu pobre filho! Tinha de morrer, e foi bom que morresse, coitado, mas apesar de tudo sempre doe. Que vida que elle teve!... Um dia destes ainda se lembrou do senhor, e perguntou se estava no seminario... Quer vel-o? Entre, ande vel-o...

Custa-me dizer isto, mas antes peque por excessivo que por diminuto. Quiz responder que não, que não queria ver o Manduca, e fiz até um gesto para fugir. Não era medo; n'outra occasião póde ser até que entrasse com facilidade e curiosidade, mas agora ia tão contente! Ver um defuncto ao voltar de uma namorada... Ha cousas que se não ajustam nem combinam. A simples noticia era já uma turvação grande. Às minhas ideias de ouro perderam todas a côr e o metal para se trocarem em cinza escura e feia, e não distingui mais nada. Penso que cheguei a dizer que tinha pressa, mas provavelmente não falei por palavras claras, nem sequer humanas, porque elle, encostado ao portal, abria-me espaço com o gesto, e eu, sem alma para entrar nem fugir, deixei ao corpo fazer o que pudesse, e o corpo acabou entrando.

Não culpo ao homem; para elle, a cousa mais importante do momento era o filho. Mas tambem não me culpem a mim; para mim, a cousa mais importante era Capitú. O mal foi que os dous casos se conjugassem na mesma tarde, e que a morte de um viesse metter o nariz na vida do outro. Eis o mal todo. Se eu passasse antes ou depois, ou se o Manduca esperasse algumas horas para morrer, nenhuma nota aborrecida viria interromper as melodias da minha alma. Porque morrer exactamente ha meia hora? Toda hora é apropriada ao obito; morre-se muito bem ás seis ou sete horas da tarde.

Tal foi o sentimento confuso com que entrei na loja de louça. A loja era escura, e o interior da casa menos luz tinha, agora que as janellas da área estavam cerradas. A um canto da sala de jantar vi a mãe chorando; á porta da alcova duas creanças olhavam espantadas para dentro, com o dedo na bocca. O cadaver jazia na cama; a cama...

Suspendamos a penna e vamos á janella espairecer a memoria. Realmente, o quadro era feio, já pela morte, já pelo defuncto, que era horrivel... Isto aqui, sim, é outra cousa. Tudo o que vejo lá fóra respira vida, a cabra que rumina ao pé de uma carroça, a gallinha que marisca no chão da rua, o trem da Estrada Central que bufa, assobia, fumega e passa, a palmeira que investe para o ceu, e finalmente aquella torre de egreja, apesar de não ter musculos nem folhagem. Um rapaz, que alli no becco empina um papagaio de papel, não morreu nem morre, posto tambem se chame Manduca.

Verdade é que o outro Manduca era mais velho que este, pouco mais velho. Teria dezoito ou dezenove annos, mas tanto lhe darias quinze como vinte e dous, a cara não permittia trazer a edade á vista, antes a escondia nas dobras da... Vá, diga-se tudo; é morto, os seus parentes são mortos, se existe algum não é em tal evidencia que se vexe ou dôa. Diga-se tudo; Manduca padecia de uma cruel enfermidade, nada menos que a lepra. Vivo era feio; morto pareceu-me horrivel. Quando eu vi, estendido na cama, o triste corpo daquelle meu visinho, fiquei apavorado e desviei os olhos. Não sei que mão occulta me compelliu a olhar outra vez, ainda que de fugida; cedi, olhei, tornei a olhar, até que recuei de todo e saí do quarto.

—Padeceu muito! suspirou o pae.

—Coitado de Manduca! soluçava a mãe.

Eu cuidei de sair, disse que era esperado em casa, e despedi-me. O pae perguntou-me se lhe faria o favor de ir ao enterro; respondi com a verdade, que não sabia, faria o que minha mãe quizesse. E rapido saí, atravessei a loja, e saltei á rua.

Era tão perto, que antes de tres minutos me achei em casa. Parei no corredor, a tomar folego; buscava esquecer o defuncto, pallido e disforme, e o mais que não disse para não dar a estas paginas um aspecto repugnante, mas pódes imaginal-o. Tudo arredei da vista, em poucos segundos; bastou-me pensar na outra casa, e mais na vida e na cara fresca e lepida de Capitú... Amai, rapazes! e, principalmente, amai moças lindase graciosas; ellas dão remedio ao mal, aroma ao infecto, trocam a morte pela vida... Amai, rapazes!

Chegara ao ultimo degrau, e uma ideia me entrou no cerebro, como se estivesse a esperar por mim, entre as grades da cancella. Ouvi de memoria as palavras do pae de Manduca pedindo-me que fosse ao enterro no dia seguinte. Parei no degrau. Reflecti um instante; sim, podia ir ao enterro, pediria a minha mãe que me alugasse um carro...

Não cuides que era o desejo de andar de carro, por mais que tivesse o gosto da conducção. Em pequeno, lembra-me que ia assim muita vez com minha mãe ás visitas de amizade ou de ceremonia, e á missa, se chovia. Era uma velha sege de meu pae, que ella conservou o mais que poude. O cocheiro, que era nosso escravo, tão velho como a sege, quando me via á poria, vestido, esperando minha mãe, dizia-me rindo:

—Pae João vae levar nhonhô!

E era raro que eu não lhe recommendasse:

—João, demora muito as bestas; vae devagar.

—Nhã Gloria não gosta.

—Mas demora!

Fica entendido que era para saborear a sege, não pela vaidade, porque ella não permittia ver as pessoas que iam dentro. Era uma velha sege obsoleta, de duas rodas, estreita e curta, com duas cortinas de couro na frente, que corriam para os lados quando era preciso entrar ou sair. Cada cortina tinha um oculo de vidro, por onde eu gostava de espiar para fóra.

—Senta, Bentinho!

—Deixa espiar, mamãe!

E em pé, quando era mais pequeno, mettia a cara no vidro, e via o cocheiro com as suas grandes botas, escanchado na mula da esquerda, e segurando a redea da outra; na mão levava o chicote grosso e comprido. Tudo incommodo, as botas, o chicote e as mulas, mas elle gostava e eu tambem. Dos lados via passar as casas, lojas ou não, abertas ou fechadas, com gente ou sem ella, e na rua as pessoas que iam e vinham, ou atravessavam deante da sege, com grandes pernadas ou passos miudos. Quando havia impedimento de gente ou de animaes, a sege parava, e então o espectaculo era particularmente interessante; as pessoas paradas na calçada ou á porta das casas, olhavam para a sege e falavam entre si, naturalmente sobre quem iria dentro. Quando fui crescendo em edade imaginei que adivinhavam e diziam: «É aquella senhora da rua de Matacavallos, que tem um filho, Bentinho...»

A sege ia tanto com a vida recondita de minha mãe, que quando já não havia nenhuma outra, continuámos a andar nella, e era conhecida na rua e no bairro pela «sege antiga». Afinal minha mãe consentiu em deixal-a, sem a vender logo; só abriu mão della porque as despezas de cocheira a obrigaram a isso. A razão de a guardar inutil foi exclusivamente sentimental; era a lembrança do marido. Tudo o que vinha de meu pae era conservado como um pedaço delle, um resto da pessoa, a mesma alma integral e pura. Mas o uso, esse era filho tambem do carrancismo que ella confessava aos amigos. Minha mãe exprimia bem a fidelidade aos velhos habitos, velhas maneiras, velhas ideias, velhas modas. Tinha o seu museo de reliquias, pentes desusados, um trecho de mantilha, umas moedas de cobre datadas de 1824 e 1825, e, para que tudo fosse antigo, a si mesma se queria fazer velha; mas já deixei dito que, neste ponto, não alcançava tudo o que queria.

Não, a ideia de ir ao enterro não vinha da lembrança do carro e suas doçuras. A origem era outra: era porque, acompanhando o enterro no dia seguinte, não iria ao seminario, e podia fazer outra visita a Capitú, um tanto mais demorada. Eis ahi o que era. A lembrança do carro podia vir accessoriamente depois, mas a principal e immediata foi aquella. Voltaria á rua dos Invalidos, a pretexto de saber de Sinházinha Gurgel. Contava que tudo me saisse como naquelle dia, Gurgel afflicto, Capitú commigo no canapé, as mãos presas, o penteado...

—Vou pedir a mamãe.

Abri a cancella. Antes de transpôl-a, assim como ouvira da memoria a palavra do pae do morto, ouvi agora a da mãe, e repeti a meia voz:

—Coitado de Manduca!

Minha mãe ficou perplexa quando lhe pedi para ir ao enterro.

—Perder um dia de seminario...

Fiz-lhe notar a amizade que o Manduca me tinha, e depois era gente pobre... Tudo o que me lembrou dizer, disse. Prima Justina opinou pela negativa.

—Você acha que não deve ir? perguntou-lhe minha mãe.

—Acho que não. Que amizade é essa que eu nunca vi?

Prima Justina venceu. Quando referi o caso ao aggregado, este sorriu, e disse-me que o motivo escondido da prima era provavelmente não dar ao enterro «o lustre da minha pessoa.» Fosse o que fosse, fiquei amuado; no dia seguinte, pensando no motivo, não me desagradou; mais tarde achei-lhe um sabor particular.

No dia seguinte, passei pela casa do defuncto, sem entrar nem parar,—ou, se parei, foi só um instante, ainda mais breve que este em que vol-o digo. Se me não engano, andei até mais depressa, receiando que me chamassem como na vespera. Uma vez que não ia ao enterro, antes longe que proximo. Fui andando e pensando no pobre diabo.

Não eramos amigos, nem nos conheciamos de muito. Intimidade, que intimidade podia haver entre a doença delle e a minha saude? Tivemos relações breves e distantes. Fui pensando nellas, recordando algumas. Reduziam-se todas a uma polemica, entre nós, dous annos antes, a proposito... Mal podeis crer a que proposito foi. Foi a guerra da Criméa.

Manduca vivia no interior da casa, deitado na cama, lendo por desfastio. Ao domingo, sobre a tarde, o pae enfiava-lhe uma camisola escura, e trazia-o para o fundo da loja, donde elle espiava um palmo da rua e a gente que passava. Era todo o seu recreio. Foi alli que o vi uma vez, e não fiquei pouco espantado; a doença ia-lhe comendo parte das carnes, os dedos queriam apertar-se; o aspecto não attrahia, de certo. Tinha eu de treze para quatorze annos. Da segunda vez que o vi alli, como falassemos da guerra da Criméa, que então ardia e andava nos jornaes, Manduca disse que os alliados haviam de vencer, e eu respondi que não.

—Pois veremos, tornou elle. Só se a justiça não vencer neste mundo, o que é impossivel, e a justiça está com os alliados.

—Não, senhor, a razão é dos russos.

Naturalmente, iamos com o que nos diziam os jornaes da cidade, transcrevendo os de fóra, mas póde ser tambem que cada um de nós tivesse a opinião do seu temperamento. Fui sempre um tanto moscovita nas minhas ideias. Defendi o direito da Russia, Manduca fez o mesmo ao dos alliados, e o terceiro domingo em que entrei na loja tocámos outra vez no assumpto. Então Manduca propoz que trocassemos a argumentação por escripto, e na terça ou quarta-feira recebi duas folhas de papel contendo a exposição e defesa do direito dos alliados, e da integridade da Turquia, concluindo por esta phrase prophetica:

«Os russos não hão de entrar em Constantinopla!»

Li-a e metti-me a refutal-a. Não me recorda um só dos argumentos que empreguei, nem talvez interesse conhecel-os, agora que o seculo está a expirar; mas a ideia que me ficou delles é que eram irrespondiveis. Fui eu mesmo levar-lhe o meu papel. Fizeram-me entrar na alcova, onde elle jazia estirado na cama, mal coberto por uma colcha de retalhos. Ou gosto da polemica ou qualquer outra causa que não alcanço, não me deixou sentir toda a repugnancia que saía da cama e do doente, e o prazer com que lhe dei o papel foi sincero. Manduca, pela sua parte, por mais nojosa que tivesse então a cara, o sorriso que a accendou dissimulou o mal physico. A convicção com que me recebeu o papel e disse que ia ler e responderia é que não tem palavras nossas nem alheias que a digam de todo e com verdade; não era exaltada, não era ruidosa, não tinha gestos, nem a molestia os permittiria, era simples, grande, profunda, um goso infinito de victoria, antes de saber os meus argumentos. Tinha já papel, penna e tinta ao pé da cama. Dias depois recebi a réplica; não me lembra se trazia cousas novas ou não; o calor é que crescia, e o final era o mesmo:

«Os russos não hão de entrar em Constantinopla!»

Trepliquei, e dahi continuou por algum tempo uma polemica ardente, em que nenhum de nós cedia, defendendo cada um os seus clientes com força e brio. Manduca era mais longo e prompto que eu. Naturalmente a mim sobravam mil cousas que distrahiam, o estudo, os recreios, a familia, e a propria saude, que me chamava a outros exercicios. Manduca, salvo o palmo de rua ao domingo de tarde, tinha só esta guerra, assumpto da cidade e do mundo, mas que ninguem ia tratar com elle. O acaso dera-lhe em mim um adversario; elle, que tinha gosto á escripta, deitou-se ao debate, como a um remedio novo e radical. As horas tristes e compridas eram agora breves e alegres; os olhos desapprenderam de chorar, se por ventura choravam antes. Senti esta mudança delle nas proprias maneiras do pae e da mãe.

—Não imagina como elle anda agora, depois que o senhor lhe escreve aquelles papeis, dizia-me o dono da loja, uma vez, á porta da rua. Fala e ri muito. Logo que eu mando o caixeiro levar-lhe os papeis delle, entra a indagar da resposta, e se demorará muito, e que pergunte ao moleque, quando passar. Emquanto espera, relê jornaes e toma notas. Mas tambem, apenas recebe os seus papeis, atira-se a lel-os, e começa logo a escrever a resposta. Ha occasiões em que não come ou come mal; tanto que eu queria pedir-lhe uma cousa, é que não os mande á hora do almoço ou de jantar...

Fui eu que cancei primeiro. Comecei a demorar as respostas, até que não dei mais nenhuma; elle ainda teimou duas ou tres vezes depois do meu silencio, mas não recebendo contestação alguma, por fadiga tambem ou por não aborrecer, acabou de todo com as suas apologias. A ultima, como a primeira, como todas, affirmava a mesma predicção eterna:

«Os russos não hão de entrar em Constantinopla!»

Não entraram, effectivamente, nem então, nem depois, nem até agora. Mas a predicção será eterna? Não chegarão a entrar algum dia? Problema difficil. O proprio Manduca, para entrar na sepultura, gastou tres annos de dissolução, tão certo é que a natureza, como a historia, não se faz brincando. A vida delle resistiu como a Turquia; se afinal cedeu foi porque lhe faltou uma alliança como a anglo-franceza, não se podendo considerar tal o simples accordo da medicina e da pharmacia. Morreu afinal, como os Estados morrem; no nosso caso particular, a questão é saber, não se a Turquia morrerá, porque a morte não poupa a ninguem, mas se os russos entrarão algum dia em Constantinopla; essa era a questão para o meu visinho leproso, debaixo da triste, rota e infecta colcha de retalhos...

É claro que as reflexões que ahi deixo não foram feitas então, a caminho do seminario, mas agora no gabinete do Engenho Novo. Então, não fiz propriamente nenhuma, a não ser esta: que servi de allivio um dia ao meu visinho Manduca. Hoje, pensando melhor, acho que não só servi de allivio, mas até lhe dei felicidade. E o achado consola-me; já agora não esquecerei mais que dei dous ou tres mezes de felicidade a um pobre diabo, fazendo-lhe esquecer o mal e o resto. É alguma cousa na liquidação da minha vida. Se ha no outro mundo tal ou qual premio para as virtudes sem intenção, esta pagará um ou dous dos meus muitos peccados. Quanto ao Manduca, não creio que fosse peccado opinar contra a Russia, mas, se era, elle estará purgando ha quarenta annos a felicidade que alcançou em dous ou tres mezes,—donde concluirá (já tarde) que era ainda melhor haver gemido sómente, sem opinar cousa nenhuma.

Manduca enterrou-se sem mim. A muitas outros aconteceu a mesma cousa, sem que eu sentisse nada, mas este caso affligiu-me particularmente pela razão já dita. Tambem senti não sei que melancolia ao recordar a primeira polemica da vida, o gosto com que elle recebia os meus papeis e se propunha a refutal-os, não contando o gosto do carro... Mas o tempo apagou depressa todas essas saudades e resurreições. Nem foi só elle; duas pessoas vieram ajudal-o, Capitú, cuja imagem dormiu commigo na mesma noite, e outra que direi no capitulo que vem. O resto deste capitulo e só para pedir que, se alguem tiver de ler o meu livro com alguma attenção mais da que lhe exigir o preço do exemplar, não deixe de concluir que o diabo não é tão feio como se pinta. Quero dizer...

Quero dizer que o meu visinho de Matacavallos, temperando o mal com a opinião anti-russa, dava á podridão das suas carnes um reflexo espiritual que as consolava. Ha consolações maiores, de certo, e uma das mais excellentes é não padecer esse nem outro mal algum, mas a natureza é tão divina que se diverte com taes contrastes, e aos mais nojentos ou mais afflictos acena com uma flòr. E talvez saia assim a flòr mais bella; o meu jardineiro affirma que as violetas, para terem um cheiro superior, hão mister de estrume de porco. Não examinei, mas deve ser verdade.

Quanto á outra pessoa que teve a força obliterativa, foi o meu collega Escobar que no domingo, antes do meio dia, veiu ter a Matacavallos. Um amigo suppria assim um defuncto, e tal amigo que durante cerca de cinco minutos esteve com a minha mão entre as suas, como se me não visse desde longos mezes.

—Você janta commigo, Escobar?

—Vim para isto mesmo.

Minha mãe agradeceu-lhe a amizade que me tinha, e elle respondeu com muita polidez, ainda que um tanto atado, como se carecesse de palavra prompta. Já viste que não era assim, a palavra obedecia-lhe, mas o homem não é sempre o mesmo em todos os instantes. O que elle disse, em resumo, foi que me estimava pelas minhas boas qualidades e aprimorada educação; no seminario todos me queriam bem, nem podia deixar de ser assim, accrescentou. Insistia na educação, nos bons exemplos, «na doce e rara mãe» que o ceu me deu... Tudo isso com a voz engasgada e tremula.

Todos ficaram gostando delle. Eu estava tão contente como se Escobar fosse invenção minha. José Dias desfechou-lhe dous superlativos, tio Cosme dous capotes, e prima Justina não achou tacha que lhe pôr; depois, sim, no segundo ou terceiro domingo, veiu ella confessar-nos que o meu amigo Escobar era um tanto mettidiço e tinha uns olhos policiaes a que não escapava nada.

—São os olhos delle, expliquei.

—Nem eu digo que sejam de outro.

—São olhos reflectidos, opinou tio Cosme.

—Seguramente, acudiu José Dias, entretanto, póde ser que a senhora D. Justina tenha alguma razão. A verdade é que uma cousa não impede outra, e a reflexão casa-se muito bem á curiosidade natural. Parece curioso, isso parece, mas...

—A mim parece-me um mocinho muito serio, disse minha mãe.

—Justamente! confirmou José Dias para não discordar della.

Quando eu referi a Escobar aquella opinião de minha mãe (sem lhe contar as outras naturalmente) vi que o prazer delle foi extraordinario. Agradeceu, dizendo que eram bondades, e elogiou tambem minha mãe, senhora grave, distincta e moça, muito moça... Que edade teria?

—Já fez quarenta, respondi eu vagamente por vaidade.

—Não é possivel! exclamou Escobar. Quarenta annos! Nem parece trinta; está muito moça e bonita. Tambem a alguem ha de você sair, com esses olhos que Deus lhe deu; são exactamente os della. Enviuvou ha muitos annos?

Contei-lhe o que sabia da vida della e de meu pae. Escobar escutava attento, perguntando mais, pedindo explicação das passagens omissas ou só escuras. Quando eu lhe disse que não me lembrava nada da roça, tão pequenino viera, contou-me duas ou tres reminiscencias dos seus tres annos de edade, ainda agora frescas. E não contavamos voltar á roça?

—Não, agora não voltamos mais. Olhe, aquelle preto que alli vae passando, é de lá. Thomaz!

—Nhonhô!

Estavamos na horta da minha casa, e o preto andava em serviço; chegou-se a nós e esperou.

—É casado, disse eu para Escobar. Maria onde está?

—Está soccando milho, sim, senhor.

—Você ainda se lembra da roça, Thomaz?

—Alembra, sim, senhor.

—Bem, vá-se embora.

Mostrei outro, mais outro, e ainda outro, este Pedro, aquelle José, aquelle outro Damião...

—Todas as lettras do alphabeto, interrompeu Escobar.

Com effeito, eram differentes lettras, e só então reparei nisto; apontei ainda outros escravos, alguns com os mesmos nomes, distinguindo-se por um appellido, ou da pessoa, como João Fulo, Maria Gorda, ou de nação como Pedro Benguella, Antonio Moçambique...

—E estão todos aqui em casa? perguntou elle.

—Não, alguns andam ganhando na rua, outros estão alugados. Não era possivel ter todos em casa. Nem são todos os da roça; a maior parte ficou lá.

—O que me admira é que D. Gloria se acostumasse logo a viver em casa da cidade, onde tudo é apertado; a de lá é naturalmente grande.

—Não sei, mas parece. Mamãe tem outras casas maiores que esta; diz porém que ha de morrer aqui. As outras estão alugadas. Algumas são bem grandes, como a da rua da Quitanda...

—Conheço essa; é bonita.

—Tem tambem no Rio Comprido, na Cidade-Nova, uma no Cattete...

—Não lhe hão de faltar tectos, concluiu elle sorrindo com sympathia.

Caminhámos para o fundo. Passámos o lavadouro; elle parou um instante ahi, mirando a pedra de bater roupa e fazendo reflexões a proposito do asseio; depois continuámos. Quaes foram as reflexões não me lembra agora; lembra-me só que as achei engenhosas, e ri, elle riu tambem. A minha alegria accordava a delle, e o ceu estava tão azul, e o ar tão claro, que a natureza parecia rir tambem comnosco. São assim as boas horas deste mundo. Escobar confessou esse accordo do interno com o externo, por palavras tão finas e altas que me commoveram; depois, a proposito da belleza moral que se ajusta á physica, tornou a falar de minha mãe, «um anjo dobrado», disse elle.

Não digo o mais, que foi muito. Nem elle sabia só elogiar e pensar, sabia tambem calcular depressa e bem. Era das cabeças arithmeticas de Holmes (2+2=4). Não se imagina a facilidade com que elle sommava ou multiplicava de cór. A divisão, que foi sempre uma das operações difficeis para mim, era para elle como nada: cerrava um pouco os olhos, voltados para cima, e sussurrava as denominações dos algarismos: estava prompto. Isto com sete, treze, vinte algarismos. A vocação era tal que o fazia amar os proprios signaes das sommas, e tinha esta opinião que os algarismos, sendo poucos, eram muito mais conceituosos que as vinte e cinco letras do alphabeto.

—Ha lettras inuteis e lettras dispensaveis, dizia elle. Que serviço diverso prestam ode ot? Tem quasi o mesmo som. O mesmo digo dobe dop, o mesmo dos, doce doz, o mesmo doke dog, etc. São trapalhices calligraphicas. Veja os algarismos: não ha dous que façam o mesmo officio; 4 é 4, e 7 é 7. E admire a belleza com que um 4 e um 7 formam esta cousa que se exprime por 11. Agora dobre 11 e terá 22; multiplique por egual numero, dá 484, e assim por deante. Mas onde o perfeição é maior é no emprego dozero.O valor dozeroé, em si mesmo, nada; mas o officio deste signal negativo é justamente augmentar. Um 5 sósinho é um 5; ponha-lhe dous 00, é 500. Assim, o que não vale nada faz valer muito, cousa que não fazem as letras dobradas, pois eu tantoapprovocom umpcomo com douspp.

Criado na orthographia de meus paes, custava-me a ouvir taes blasphemias, mas não ousava refutal-o. Com tudo, um dia, proferi algumas palavras de defesa, ao que elle respondeu que era um preconceito, e accrescentou que as ideias arithmeticas podiam ir ao infinito, com a vantagem que eram mais faceis de menear. Assim que, eu não era capaz de resolver de momento um problema philosophico ou linguistico, ao passo que elle podia sommar, em tres minutos, quaesquer quantias.

—Por exemplo... dê-me um caso, dê-me uma porção de numeros que eu não saiba nem possa saber antes... olhe, dê-me o numero das casas de sua mãe e os alugueis de cada uma, e se eu não disser a somma total em dous, em um minuto, enforque-me!

Acceitei a aposta, e na semana seguinte levei-lhe escriptos em um papel os algarismos das casas e dos alugueis. Escobar pegou no papel, passou-os pelos olhos afim de os decorar, e emquanto eu fitava o relogio, elle erguia as pupillas, cerrava as palpebras, e sussurrava... Oh! o vento não é mais rápido! Foi dito e feito; em meio minuto bradava-me:

—Dá tudo 1:070$000 mensaes.

Fiquei pasmado. Considera que eram não menos de nove casas, e que os alugueis variavam de uma para outra, indo de 70$000 a 180$000. Pois tudo isto em que eu gastaria tres ou quatro minutos,—e havia de ser no papel,—fel-o Escobar de cór, brincando. Olhava-me triumphalmente, e perguntava se não era exacto. Eu, só por lhe mostrar que sim, tirei do bolso o papelinho que levava com a somma total, e mostrei-lh'o; era aquillo mesmo, nem um erro: 1:070$000.

—Isto prova que as ideias arithmeticas são mais simples, e portanto mais naturaes. A natureza é simples. A arte é atrapalhada.

Fiquei tão enthusiasmado com a facilidade mental do meu amigo, que não pude deixar de abraçal-o. Era no pateo; outros seminaristas notaram a nossa effusão; um padre que estava com elles não gostou.

—A modestia, disse-nos, não consente esses gestos excessivos; pódem estimar-se com moderação.

Escobar observou-me que os outros e o padre falavam de inveja e propoz-me viver separados. Interrompi-o dizendo que não; se era inveja, tanto peor para elles.

—Quebremos-lhe a castanha na bocca!

—Mas...

—Fiquemos ainda mais amigos que até aqui.

Escobar apertou-me a mão ás escondidas, com tal força que ainda me doem os dedos. É illusão, de certo, se não é effeito das longas horas que tenho estado a escrever sem parar. Suspendamos a penna por alguns instantes...

A amizade de Escobar fez-se grande e fecunda; a de José Dias não lhe quiz ficar atraz. Na primeira semana disse-me este em casa:

—Agora é certo que você vae sair já do seminario.

—Como?

—Espere até amanhã. Vou jogar com elles que me chamaram; amanhã, lá no quarto, no quintal, ou na rua, indo á missa, conto-lhe o que ha. A ideia é tão santa que não está mal no santuario. Amanhã, Bentinho.

—Mas é cousa certa?

—Certíssima!

No dia seguinte revelou-me o mysterio. Ao primeiro aspecto, confesso que fiquei deslumbrado. Trazia uma nota de grandeza e de espiritualidade que falava aos meus olhos de seminarista. Era não menos que isto. Minha mãe, ao parecer delle, estava arrependida do que fizera, e desejaria ver-me cá fóra, mas entendia que o vinculo moral da promessa a prendia indissoluvelmente. Cumpria rompel-o, e para tanto valia a Escriptura, com o poder de desligar dado aos apostolos. Assim que, elle e eu iriamos a Roma pedir a absolvição do papa... Que me parecia?

—Parece-me bem, respondi depois de alguns segundos de reflexão. Póde ser um bom remedio.

—É o unico, Bentinho, é o unico! Vou já hoje conversar com D. Gloria, exponho-lhe tudo, e podemos partir daqui a dous mezes, ou antes...

—Melhor é falar domingo que vem; deixe-me pensar primeiro...

—Oh! Bentinho! interrompeu o aggregado. Pensar em que? Você o que quer... Digo? não se amofina com o seu velho? Você o que quer é consultar a uma pessoa.

Rigorosamente, eram duas pessoas, Capitú e Escobar, mas eu neguei a pés juntos que quizesse consultar ninguem. E que pessoa, o reitor? Não era natural que lhe confiasse tal assumpto. Não, nem reitor, nem professor, nem ninguem; era só o tempo de reflectir, uma semana, no domingo daria a resposta, e desde já lhe dizia que a ideia não me parecia má.


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