The Project Gutenberg eBook ofDom Casmurro

The Project Gutenberg eBook ofDom CasmurroThis ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.Title: Dom CasmurroAuthor: Machado de AssisRelease date: October 15, 2017 [eBook #55752]Most recently updated: October 23, 2024Language: PortugueseCredits: Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at FreeLiterature (online soon in an extended version,also linkingto free sources for education worldwide ... MOOC's,educational materials,...) (Images generously made availableby the Bibliotheca Nacional Digital Brasil.)*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK DOM CASMURRO ***

This ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.

Title: Dom CasmurroAuthor: Machado de AssisRelease date: October 15, 2017 [eBook #55752]Most recently updated: October 23, 2024Language: PortugueseCredits: Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at FreeLiterature (online soon in an extended version,also linkingto free sources for education worldwide ... MOOC's,educational materials,...) (Images generously made availableby the Bibliotheca Nacional Digital Brasil.)

Title: Dom Casmurro

Author: Machado de Assis

Author: Machado de Assis

Release date: October 15, 2017 [eBook #55752]Most recently updated: October 23, 2024

Language: Portuguese

Credits: Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at FreeLiterature (online soon in an extended version,also linkingto free sources for education worldwide ... MOOC's,educational materials,...) (Images generously made availableby the Bibliotheca Nacional Digital Brasil.)

*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK DOM CASMURRO ***

Indice

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéo. Comprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos póde ser que não fossem inteiramente maus. Succedeu, porém, que como eu estava cançado, fechei os olhos tres ou quatro vezes; tanto bastou para que elle interrompesse a leitura e mettesse os versos no bolso.

—Continue, disse eu accordando.

—Já acabei, murmurou elle.

—São muito bonitos.

Vi-lhe fazer um gesto para tiral-os outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-meDom Casmurro.Os visinhos, que não gostam dos meus habitos reclusos e calados, deram curso á alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anecdota aos amigos da cidade, e elles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: «Dom Casmurro, domingo vou jantar com você.»—«Vou para Petropolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Rhenania; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vae lá passar uns quinze dias commigo.»—«Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do theatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça.»

Não consultes diccionarios.Casmurronão está aqui no sentido que elles lhe dão, mas no que lhe poz o vulgo de homem calado e mettido comsigo.Domveiu por ironia, para attribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Tambem não achei melhor titulo para a minha narração; se não tiver outro d'aqui até ao fim do livro, vae este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o titulo seu, poderá cuidar que a obra é sua. Ha livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.

Agora que expliquei o titulo, passo a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a penna na mão.

Vivo só, com um creado. A casa em que moro é propria; fil-a construir de proposito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimil-o, mas vá lá. Um dia, ha bastantes annos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga rua de Matacavallos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquella outra, que desappareceu. Constructor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo predio assobradado, tres janellas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do tecto e das paredes é mais ou menos egual, umas grinaldas de flores miudas e grandes passaros que as tomam nos bicos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do tecto as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de Cesar, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo... Não alcanço a razão de taes personagens. Quando fomos para a casa de Matacavallos, já ella estava assim decorada; vinha do decennio anterior. Naturalmente era gosto do tempo metter sabor classico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é tambem analogo e parecido. Tenho chacarinha, flôres, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e mobilia velha. Emfim, agora, como outr'ora, ha aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa.

O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescencia. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é egual, a physionomia é differente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante á pintura que se põe na barba e nos cabellos, e que apenas conserva o habito externo, como se diz nas autopsias; o interno não aguenta tinta. Uma certidão que me desse vinte annos de edade poderia enganar os extranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim. Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos. Quanto ás amigas, algumas datam de quinze annos, outras de menos, e quasi todas creem na mocidade. Duas ou tres fariam crer nella aos outros, mas a lingua que falam obriga muita vez a consultar os diccionarios, e tal frequencia é cançativa.

Entretanto, vida differente não quer dizer vida peor; é outra cousa. A certos respeitos, aquella vida antiga apparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é tambem exacto que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memoria, conservo alguma recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco appareco e menos falo. Distracções raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal.

Ora, como tudo cança, esta monotonia acabou por exhaurir-me tambem. Quiz variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudencia, philosophia e politica acudiram-me, mas não me acudiram as forças necessarias. Depois, pensei em fazer umaHistoria dos Suburbios, menos secca que as memorias do padre Luiz Gonçalves dos Santos, relativas á cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas, como preliminares, tudo arido e longo. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que elles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da penna e contasse alguns. Talvez a narração me désse a illusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o doFausto: Ahi vindes outra vez, inquietas sombras...?

Fiquei tão alegre com esta ideia, que ainda agora me treme a penna na mão. Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande Cesar, que me incitas a fazer os meus commentarios, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscencias que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. Eia, comecemos a evocação por uma celebre tarde de Novembro, que nunca me esqueceu. Tive outras muitas, melhores, e peores, mas aquella nunca se me apagou do espirito. É o que vás entender, lendo.

Ia a entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atraz da porta. A casa era a da rua de Matacavallos, o mez Novembro, o anno é que é um tanto remoto, mas eu não hei de trocar as datas á minha vida só para agradar ás pessoas que não amam historias velhas; o anno era de 1857.

—D. Gloria, a senhora persiste na ideia de metter o nosso Bentinho no seminario? É mais que tempo, e já agora póde haver uma difficuldade.

—Que difficuldade?

—Uma grande difficuldade.

Minha mãe quiz saber o que era. José Dias, depois de alguns instantes de concentrarão, veiu ver se havia alguem no corredor; não deu por mim, voltou e, abafando a voz, disse que a difficuldade estava na casa ao pé, a gente do Padua.

—A gente do Padua?

—Ha algum tempo estou para lhe dizer isto, mas não me atrevia. Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande mettido nos cantos com a filha doTartaruga, e esta é a difficuldade, porque se elles pegam de namoro, a senhora terá muito que lutar para separal-os.

—Não acho. Mettidos nos cantos?

—É um modo de falar. Em segredinhos, sempre juntos. Bentinho quasi que não sae de lá. A pequena é uma desmiolada; o pae faz que não vê; tomara elle que as cousas corressem de maneira, que... Comprehendo o seu gesto; a senhora não crê em taes calculos, parece-lhe que todos têm a alma candida...

—Mas, Sr. José Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi nada que faça desconfiar. Basta a edade; Bentinho mal tem quinze annos. Capitú fez quatorze á semana passada; são dous creançolas. Não se esqueça que foram criados juntos, desde aquella grande enchente, ha dez annos, em que a familia Padua perdeu tanta cousa; d'ahi vieram as nossas relações. Pois eu hei de crer...? Mano Cosme, você que acha?

Tio Cosme respondeu com um «Ora!» que, traduzido em vulgar, queria dizer: «São imaginações do José Dias; os pequenos divertem-se, eu divirto-me; onde está o gamão?»

—Sim, creio que o senhor está enganado.

—Póde ser, minha senhora. Oxalá tenham razão; mas creia que não falei senão depois de muito examinar...

—Em todo caso, vae sendo tempo, interrompeu minha mãe; vou tratar de mettel-o no seminario quanto antes.

—Bem, uma vez que não perdeu a ideia de o fazer padre, tem-se ganho o principal. Bentinho ha de satisfazer os desejos de sua mãe. E depois a egreja brasileira tem altos destinos. Não esqueçamos que um bispo presidiu a Constituinte, e que o padre Feijó governou o imperio...

—Governou como a cara d'elle! atalhou tio Cosme, cedendo a antigos rancores politicos.

—Perdão, doutor, não estou defendendo ninguem, estou citando. O que eu quero é dizer que o clero ainda tem grande papel no Brasil.

—Você o que quer é um capote; ande, vá buscar o gamão. Quanto ao pequeno, se tem de ser padre, realmente é melhor que não comece a dizer missa atraz das portas. Mas, olhe cá, mana Gloria, ha mesmo necessidade de fazel-o padre?

—É promessa, ha de cumprir-se.

—Sei que você fez promessa... mas, uma promessa assim... não sei... Creio que, bem pensado... Você que acha, prima Justina?

—Eu?

—Verdade é que cada um sabe melhor de si, continuou tio Cosme; Deus é que sabe do todos. Comtudo, uma promessa de tantos annos... Mas, que é isso, mana Gloria? Está chorando? Ora esta! Pois isto é cousa de lagrimas?

Minha mãe assoou-se sem responder. Prima Justina creio que se levantou e foi ter com ella. Seguiu-se um alto silencio, durante o qual estive a pique de entrar na sala, mas outra força maior, outra emoção... Não pude ouvir as palavras que tio Cosme entrou a dizer. Prima Justina exhortava: «Prima Gloria! prima Gloria!» José Dias desculpava-se: «Se soubesse, não teria falado, mas falei pela veneração, pela estima, pelo affecto, para cumprir um dever amargo, um dever amarissimo...»

José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar feição monumental ás ideias; não as havendo, servir a prolongar as phrases. Levantou-se para ir buscar o gamão, que estava no interior da casa. Cosi-me muito á parede, e vi-o passar com as suas calças brancas engommadas, presilhas, rodaque e gravata de mola. Foi dos ultimos que usaram presilhas no Rio de Janeiro, e talvez neste mundo. Trazia as calças curtas para que lhe ficassem bem esticadas. A gravata de setim preto, com um aro de aço por dentro, immobilisava-lhe o pescoço; era então moda. O rodaque de chita, veste caseira o leve, parecia nelle uma casaca de cerimonia. Era magro, chupado, com um principio de calva; teria os seus cincoenta e cinco annos. Levantou-se com o passo vagaroso do costume, não aquelle vagar arrastado dos preguiçosos, mas um vagar calculado e deduzido, um syllogismo completo, a premissa antes da consequencia, a consequencia antes da conclusão. Um dever amarissimo!

Nem sempre ia naquelle passo vagaroso e rigido. Tambem se descompunha em accionados, era muita vez rapido e lepido nos movimentos, tão natural nesta como naquella maneira. Outrosim, ria largo, se era preciso, de um grande riso sem vontade, mas communicativo, a tal ponto as bochechas, os dentes, os olhos, toda a cara, todo a pessoa, todo o mundo pareciam rir nelle. Nos lances graves, gravissimo.

Era nosso aggregado desde muitos annos; meu pae ainda estava na antiga fazenda de Itaguahy, e eu acabava de nascer. Um dia appareceu alli vendendo-se por medico homeopatha; levava umManuale uma botica. Havia então um andaço de febres; José Dias curou o feitor e uma escrava, e não quiz receber nenhuma remuneração. Então meu pae propoz-lhe ficar alli vivendo, com pequeno ordenado. José Dias recusou, dizendo que era justo levar a saude á casa de sapé do pobre.

—Quem lhe impede que vá a outras partes? Vá aonde quizer, mas fique morando comnosco.

—Voltarei daqui a tres mezes.

Voltou dalli a duas semanas, acceitou casa e comida sem outro estipendio, salvo o que quizessem dar por festas. Quando meu pae foi eleito deputado e veiu para o Rio de Janeiro com a familia, elle veiu tambem, e teve o seu quarto ao fundo da chacara. Um dia, reinando outra vez febres em Itaguahy, disse-lhe meu pae que fosse ver a nossa escravatura. José Dias deixou-se estar calado, suspirou e acabou confessando que não era medico. Tomára este titulo para ajudar a propaganda da nova escola, e não o fez sem estudar muito e muito; mas a consciencia não lhe permittia acceitar mais doentes.

—Mas, você curou das outras vezes.

—Creio que sim; o mais acertado, porém, é dizer que foram os remedios indicados nos livros. Elles, sim, elles, abaixo de Deus. Eu era um charlatão... Não negue; os motivos do meu procedimento podiam ser e eram dignos; a homeopathia é a verdade, e, para servir á verdade, menti; mas é tempo de restabelecer tudo.

Não foi despedido, como pedia então; meu pae já não podia dispensal-o. Tinha o dom de se fazer acceito e necessario; dava-se por falta delle, como de pessoa de familia. Quando meu pae morreu, a dôr que o pungiu foi enorme, disseram-me, não me lembra. Minha mãe ficou-lhe muito grata, e não consentiu que elle deixasse o quarto da chacara; ao setimo dia, depois da missa, elle foi despedir-se della.

—Fique, José Dias.

—Obedeço, minha senhora.

Teve um pequeno legado no testamento, uma apolice e quatro palavras de louvor. Copiou as palavras, encaixilhou-as e pendurou-as no quarto, por cima da cama. «Esta é a melhor apolice», dizia elle muita vez. Com o tempo, adquiriu certa autoridade na familia, certa audiencia, ao menos; não abusava, e sabia opinar obedecendo. Ao cabo, era amigo, não direi optimo, mas nem tudo é optimo neste mundo. E não lhe supponhas alma subalterna; as cortezias que fizesse vinham antes do calculo que da indole. A roupa durava-lhe muito; ao contrario das pessoas que enxovalham depressa o vestido novo, elle trazia o velho escovado e liso, cirzido, abotoado, de uma elegancia pobre e modesta. Era lido, posto que de atropello, o bastante para divertir ao serão e á sobremesa, ou explicar algum phenomeno, falar dos effeitos do calor e do frio, dos polos e de Robespierre. Contava muita vez uma viagem que fizera á Europa, e confessava que a não sermos nós, já teria voltado para lá; tinha amigos em Lisboa, mas a nossa familia, dizia elle, abaixo de Deus, era tudo.

—Abaixo ou acima? perguntou-lhe tio Cosme um dia.

—Abaixo, repetiu José Dias cheio de veneração.

E minha mãe, que era religiosa, gostou de ver que elle punha Deus no devido logar, e sorriu approvando. José Dias agradeceu de cabeça. Minha mãe dava-lhe de quando em quando alguns cobres. Tio Cosme, que era advogado, confiava-lhe a copia de papeis de autos.

Tio Cosme vivia com minha mãe, desde que ella enviuvou. Já então era viuvo, como prima Justina; era a casa dos tres viuvos.

A fortuna troca muita vez as mãos á natureza. Formado para as serenas funccões do capitalismo, tio Cosme não enriquecia no fòro: ia comendo. Tinha o escriptorio na antiga rua das Violas, perto do jury, que era no extincto Aljube. Trabalhava no crime. José Dias não perdia as defesas oraes de tio Cosme. Era quem lhe vestia e despia a toga, com muitos comprimentos no fim. Em casa, referia os debates. Tio Cosme, por mais modesto que quizesse ser, sorria de persuasão.

Era gordo e pesado, tinha a respiração curta e os olhos dorminhocos. Uma das minhas recordações mais antigas era vel-o montar todas as manhãs a besta que minha mãe lhe deu e que o levava ao escriptorio. O preto que a tinha ido buscar á cocheira, segurava o freio, emquanto elle erguia o pé e pousava no estribo; a isto seguia-se um minuto de descanço ou reflexão. Depois, dava um impulso, o primeiro, o corpo ameaçava subir, mas não subia; segundo impulso, egual effeito. Emfim, após alguns instantes largos, tio Cosme enfeixava todas as forças physicas e moraes, dava o ultimo surto da terra, e desta vez caía em cima do selim. Raramente a besta deixava de mostrar por um gesto que acabava de receber o mundo. Tio Cosme accommodava as carnes, e a besta partia a trote.

Tambem não me esqueceu o que elle me fez uma tarde. Posto que nascido na roça (donde vim com dous annos) e apezar dos costumes do tempo, eu não sabia montar, e tinha medo ao cavallo. Tio Cosme pegou em mim e escanchou-me em cima da besta. Quando me vi no alto (tinha nove annos), sósinho e desamparado, o chão lá embaixo, entrei a gritar desesperadamente: «Mamãe! mamãe!» Ella acudiu pallida e tremula, cuidou que me estivessem matando, apeou-me, affagou-me, emquanto o irmão perguntava:

—Mana Gloria, pois um tamanhão destes tem medo de besta mansa?

—Não está acostumado.

—Deve acostumar-se. Padre que seja, se fôr vigario na roça, é preciso que monte a cavallo; e, aqui mesmo, ainda não sendo padre, se quizer florear como os outros rapazes, e não souber, ha de queixar-se de você, mana Gloria.

—Pois que se queixe; tenho medo.

—Medo! Ora, medo!

A verdade é que eu só vim a apprender equitação mais tarde, menos por gosto que por vergonha de dizer que não sabia montar. «Agora é que elle vae namorar devéras», disseram quando eu comecei as licções. Não se diria o mesmo de tio Cosme. Nelle era velho costume e necessidade. Já não dava para namoros. Contam que, em rapaz, foi acceito de muitas damas, além de partidario exaltado; mas os annos levaram-lhe o mais do ardor politico e sexual, e a gordura acabou com o resto de ideias publicas e especificas. Agora só cumpria as obrigações do officio e sem amor. Nas horas de lazer vivia olhando ou jogava. Uma ou outra vez dizia pilherias.

Minha mãe era boa creatura. Quando lhe morreu o marido, Pedro de Albuquerque Santiago, contava trinta e um annos de edade, e podia voltar para Itaguahy. Não quiz; preferiu ficar perto da egreja em que meu pae fòra sepultado. Vendeu a fazendola e os escravos, comprou alguns que pôz ao ganho ou alugou, uma duzia de predios, certo numero de apolices, e deixou-se estar na casa de Matacavallos, onde vivera os dous ultimos annos de casada. Era filha de uma senhora mineira, descendente de outra paulista, a familia Fernandes.

Ora, pois, naquelle anno da graça de 1857, D. Maria da Gloria Fernandes Santiago contava quarenta e dous annos de edade. Era ainda bonita e moça, mas teimava em esconder os saldos da juventude, por mais que a natureza quizesse preserval-a da acção do tempo. Vivia mettida em um eterno vestido escuro, sem adornos, com um chale preto, dobrado em triangulo e abrochado ao peito por um camafeu. Os cabellos, em bandós, eram apanhados sobre a nuca por um velho pente de tartaruga; alguma vez trazia touca branca de fólhos. Lidava assim, com os seus sapatos de cordavão rasos e surdos, a um lado e outro, vendo e guiando os serviços todos da casa inteira, desde manhã até á noite.

Tenho alli na parede o retrato della, ao lado do do marido, taes quaes na outra casa. A pintura escureceu muito, mas ainda dá ideia de ambos. Não me lembra nada delle, a não ser vagamente que era alto e usava cabelleira grande; o retrato mostra uns olhos redondos, que me acompanham para todos os lados, effeito da pintura que me assombrava em pequeno. O pescoço sae de uma gravata preta de muitas voltas, a cara é toda rapada, salvo um trechosinho pegado ás orelhas. O de minha mãe mostra que era linda. Contava então vinte annos, e tinha uma flôr entre os dedos. No painel parece offerecer a flòr ao marido. O que se lè na cara do ambos é que, se a felicidade conjugal póde ser comparada á sorte grande, elles a tiraram no bilhete comprado de sociedade.

Concluo que não se devem abolir as loterias. Nenhum premiado as accusou ainda de immoraes, como ninguem tachou de má a boceta de Pandora, por lhe ter tirado a esperança no fundo; em alguma parte ha de ella ficar. Aqui os tenho aos dous bem casados de outr'ora, os bem-amados, os bem-aventurados, que se foram desta para a outra vida, continuar um sonho provavelmente. Quando a loteria e Pandora me aborrecem, ergo os olhos para elles, e esqueço os bilhetes brancos e a boceta fatidica. São retratos que valem por originaes. O de minha mãe, estendendo a flôr ao marido, parece dizer: «Sou toda sua, meu guapo cavalheiro!» O de meu pae, olhando para a gente, faz este commentario: «Vejam como esta moça me quer...» Se padeceram molestias, não sei, como não sei se tiveram desgostos: era creança e comecei por não ser nascido. Depois da morte delle, lembra-me que ella chorou muito; mas aqui estão os retratos de ambos, sem que o encardido do tempo lhes tirasse a primeira expressão. São como photographias instantaneas da felicidade.

Mas é tempo de tomar áquella tarde de Novembro, uma tarde clara e fresca, socegada como a nossa casa e o trecho da rua em que moravamos. Verdadeiramente foi o principio da minha vida; tudo o que succedera antes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar em scena, o accender das luzes, o preparo das rabecas, a symphonia... Agora é que eu ia começar a minha opera. «A vida é uma opera,» dizia-me um velho tenor italiano que aqui viveu e morreu... E explicou-me um dia a definição, em tal maneira que me fez crer nella. Talvez valha a pena dal-a; é só um capitulo.

Já não tinha voz, mas teimava em dizer que a tinha. «O desuso é que me faz mal», accrescentava. Sempre que uma companhia nova chegava da Europa, ia ao empresario e expunha-lhe todas as injustiças da terra e do ceu; o empresario commettia mais uma, e elle saía a bradar contra a iniquidade. Trazia ainda os bigodes dos seus papeis. Quando andava, apezar de velho, parecia cortejar uma princeza de Babylonia. Ás vezes, cantarolava, sem abrir a bocca, algum trecho ainda mais edoso que elle ou tanto; vozes assim abafadas são sempre possiveis. Vinha aqui jantar commigo algumas vezes. Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu-me a definição do costume, e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia sor uma opera, como uma viagem de mar ou uma batalha, abanou a cabeça e replicou:

—A vida é uma opera e uma grande opera. O tenor e o barytono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimarios, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimarios. Ha córos numerosos, muitos bailados, e a orchestração é excellente...

—Mas, meu caro Marcolini...

—Quê...?

E, depois de beber um gole de licor, pousou o calix, e expoz-me a historia da creação, com palavras que vou resumir.

Deus é o poeta. A musica é de Satanaz, joven maestro de muito futuro, que apprendeu no conservatorio do ceu. Rival de Miguel, Raphael e Gabriel, não tolerava a precedencia que elles tinham na distribuição dos premios. Póde ser tambem que a musica em demasia doce e mystica daquelles outros condiscipulos fosse aborrecivel ao seu genio essencialmente tragico. Tramou uma rebellião que foi descoberta a tempo, e elle expulso do conservatorio. Tudo se teria passado sem mais nada, se Deus não houvesse escripto um libretto de opera, do qual abrira mão, por entender que tal genero de recreio era improprio da sua eternidade. Satanaz levou o manuscripto comsigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros,—e acaso para reconciliar-se com o ceu—compoz a partitura, e logo que a acabou foi leval-a ao Padre Eterno.

—Senhor, não desapprendi as licções recebidas, disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a, emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas, admitti-me com ella a vossos pés...

—Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir nada.

—Mas, Senhor...

—Nada! nada!

Satanaz supplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cançado e cheio de misericordia, consentiu em que a opera fosse executada, mas fóra do ceu. Creou um theatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primarias e comprimarias, córos e bailarinos.

—Ouvi agora alguns ensaios!

—Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libretto; estou prompto a dividir comtigo os direitos de autor.

Foi talvez um mal esta recusa; della resultaram alguns desconcertos que a audiencia prévia e a collaboração amiga teriam evitado. Com effeito, ha logares em que o verso vae para a direita e a musica para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a belleza da composição, fugindo á monotonia, e assim explicam o tercetto do Eden, a aria de Abel, os córos da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razao sufficiente. Certos motivos cançam á força de repetição. Tambem ha obscuridades; o maestro abusa das massas choraes, encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. As partes orchestraes são aliás tratadas com grande pericia. Tal é a opinião dos imparciaes.

Os amigos do maestro querem que difficilmente se possa achar obra tão bem acabada. Um ou outro admitte certas rudezas e taes ou quaes lacunas, mas com o andar da opera é provavel que estas sejam preenchidas ou explicadas, e aquellas desapparecam inteiramente, não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem o mesmo os amigos deste. Juram que o libretto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da lettra, e, posto seja bonita em alguns logares, e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e até contraria ao drama. O grotesco, por exemplo, não está no texto do poeta; é uma excrescencia para imitar asMulheres patuscas de Windsor.Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma apparencia de razão. Dizem elles que, ao tempo em que o joven Satanaz compoz a grande opera, nem essa farça nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a affirmar que o poeta inglez não teve outro genio senão transcrever a lettra da opera, com tal arte e fidelidade, que parece elle proprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiario.

—Esta peça, concluiu o velho tenor, durará emquanto durar o theatro, não se podendo calcular em que tempo será elle demolido por utilidade astronomica. O exito é crescente. Poeta e musico recebem pontualmente os seus direitos autoraes, que não são os mesmos, porque a regra da divisão é aquillo da Escriptura: «Muitos são os chamados, poucos os escolhidos.» Deus recebe em ouro, Satanaz em papel.

—Tem graça...

—Graça? bradou elle com furia; mas aquietou-se logo, e replicou: Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror á graça. Isto que digo é a verdade pura e ultima. Um dia, quando todos os livros forem queimados por inuteis, ha de haver alguem, póde ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é musica, meu amigo. No principio era odó, e odófez-seré, etc. Este calix (e enchia-o novamente) este calix é um breve estribilho. Não se ouve? Tambem não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma opera...

Que é demasiada metaphysica para um só tenor, não ha duvida; mas a perda da voz explica tudo, e ha philosophos que são, em resumo, tenores desempregados.

Eu, leitor amigo, acceito a theoria do meu velho Marcolini, não só pela verosimilhança, que é muita vez toda a verdade, mas porque a minha vida se casa bem á definição. Cantei umduoternissimo, depois umtrio, depois umquatuor...Mas não adeantemos; vamos á primeira tarde, em que eu vim a saber que já cantava, porque a denuncia de José Dias, meu caro leitor, foi dada principalmente a mim. A mim é que elle me denunciou.

Tão depressa vi desapparecer o aggregado no corredor, deixei o esconderijo, e corri á varanda do fundo. Não quiz saber de lagrimas nem da causa que as fazia verter a minha mãe. A causa eram provavelmente os seus projectos ecclesiasticos, e a occasião destes é a que vou dizer, por ser já então historia velha; datava de dezeseis annos.

Os projectos vinham do tempo em que fui concebido. Tendo-lhe nascido morto o primeiro filho, minha mãe pegou-se com Deus para que o segundo vingasse, promettendo, se fosse varão, mettel-o na egreja. Talvez esperasse uma menina. Não disse nada a meu pae, nem antes, nem depois de me dar á luz; contava fazel-o quando eu entrasse para a escola, mas enviuvou antes disso. Viuva, sentiu terror de separar-se de mim; mas era tão devota, tão temente a Deus, que buscou testemunhas da obrigação, confiando a promessa a parentes e familiares. Unicamente, para que nos separassemos o mais tarde possivel, fez-me apprender em casa primeiras lettras, latim e doutrina, por aquelle padre Cabral, velho amigo do tio Cosme, que ia lá jogar ás noites.

Prazos largos são faceis de subscrever; a imaginação os faz infinitos. Minha mãe esperou que os annos viessem vindo. Entretanto, ia-me affeiçoando á ideia da egreja; brincos de creança, livros devotos, imagens de santos, conversações de casa, tudo convergia para o altar. Quando iamos á missa, dizia-me sempre que era para apprender a ser padre, e que reparasse no padre, não tirasse os olhos do padre. Em casa, brincava de missa,—um tanto ás escondidas, porque minha mãe dizia que missa não era cousa de brincadeira. Arranjavamos um altar, Capitú e eu. Ella servia de sacristão, e alteravamos o ritual, no sentido do dividirmos a hostia entre nós; a hostia era sempre um doce. No tempo em que brincavamos assim, era muito commum ouvir á minha visinha: «Hoje ha missa?» Eu já sabia o que isto queria dizer, respondia affirmativamente, e ia pedir hostia por outro nome. Voltava com ella, arranjavamos o altar, engrolavamos o latim e precipitavamos as cerimonias.Dominus, non sum dignus...Isto, que eu devia dizer tres vezes, penso que só dizia uma, tal era a golodice do padre e do sacristão. Não bebiamos vinho nem agua; não tinhamos o primeiro, e a segunda viria tirar-nos o gosto do sacrificio.

Ultimamente não me falavam já do seminario, a tal ponto que eu suppunha ser negocio findo. Quinze annos, não havendo vocação, pediam antes o seminario do mundo que o de S. José. Minha mãe ficava muita vez a olhar para mim, como alma perdida, ou pegava-me na mão, a pretexto de nada, para apertal-a muito.

Parei na varanda; ia tonto, atordoado, as pernas bambas, o coração parecendo querer sair-me pela bocca fóra. Não me atrevia a descer á chacara, e passar ao quintal visinho. Comecei a andar de um lado para outro, estacando para amparar-me, e andava outra vez e estacava. Vozes confusas repetiam o discurso do José Dias:

«Sempre juntos...»

«Em segredinhos...»

«Se elles pegam de namoro...»

Tijolos que pisei e repisei naquella tarde, columnas amarelladas que me passastes á direita ou á esquerda, segundo eu ia ou vinha, em vós me ficou a melhor parte da crise, a sensação de um goso novo, que me envolvia em mim mesmo, e logo me dispersava, e me trazia arrepios, e me derramava não sei que balsamo interior. Ás vezes dava por mim, sorrindo, um ar do riso de satisfação, que desmentia a abominação do meu peccado. E as vozes repetiam-se confusas:

«Em segredinhos...»

«Sempre juntos...»

«Se elles pegam de namoro...»

Um coqueiro, vendo-me inquieto e adivinhando a causa, murmurou de cima de si que não era feio que os meninos de quinze annos andassem nos cantos com as meninas de quatorze; ao contrario, os adolescentes daquella edade não tinham outro officio, nem os cantos outra utilidade. Era um coqueiro velho, e eu cria nos coqueiros velhos, mais ainda que nos velhos livros. Passaros, borboletas, uma cigarra que ensaiava o estio, toda a gente viva do ar era da mesma opinião.

Com que então eu amava Capitú, e Capitú a mim? Realmente, andava cosido ás saias della, mas não me occorria nada entre nós que fosse devéras secreto. Antes della ir para o collegio, eram tudo travessuras de creanca; depois que saiu do collegio, é certo que não restabelecemos logo a antiga intimidade, mas esta voltou pouco a pouco, e no ultimo anno era completa. Entretanto, a materia das nossas conversações era a de sempre. Capitú chamava-me ás vezes bonito, mocetão, uma flòr; outras pegava-me nas mãos para contar-me os dedos. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras, o prazer que sentia quando ella me passava a mão pelos cabellos, dizendo que os achava lindissimos. Eu, sem fazer o mesmo aos della, dizia que os della eram muito mais lindos que os meus. Então Capitú abanava a cabeça com uma grande expressão de desengano e melancolia, tanto mais de espantar quanto que tinha os cabellos realmente admiraveis; mas eu retorquia chamando-lhe maluca. Quando me perguntava se sonhára com ella na vespera, e eu dizia que não, ouvia-lhe contar que sonhára commigo, e eram aventuras extraordinarias, que subiamos ao Corcovado pelo ar, que dansavamos na lua, ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes, afim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer. Em todos esses sonhos andavamos unidinhos. Os que eu tinha com ella não eram assim, apenas reproduziam a nossa familiaridade, e muita vez não passavam da simples repetição do dia, alguma phrase, algum gesto. Tambem eu os contava. Capitú um dia notou a differença, dizendo que os della eram mais bonitos que os meus; eu, depois de certa hesitação, disse-lhe que eram como a pessoa que sonhava... Fez-se còr de pitanga.

Pois, francamente, só agora entendia a emoção que me davam essas e outras confidencias. A emoção era doce e nova, mas a causa della fugia-me, sem que eu a buscasse nem suspeitasse. Os silencios dos ultimos dias, que me não descobriam nada, agora os sentia como signaes de alguma cousa, e assim as meias palavras, as perguntas curiosas, as respostas vagas, os cuidados, o gosto de recordar a infancia. Tambem adverti que era phenomeno recente accordar com o pensamento em Capitú, e escutal-a de memoria, e estremecer quando lhe ouvia os passos. Se se falava nella, em minha casa, prestava mais altenção que d'antes, e, segundo era louvor ou critica, assim me trazia gosto ou desgosto mais intensos que outr'ora, quando eramos sómente companheiros de travessuras. Cheguei a pensar nella durante as missas daquelle mez, com intervallos, é verdade, mas com exclusivismo tambem.

Tudo isto me era agora apresentado pela bocca de José Dias, que me denunciara a mim mesmo, e a quem eu perdoava tudo, o mal que dissera, o mal que fizera, e o que pudesse vir de um e do outro. Naquelle instante, a eterna Verdade não valeria mais que elle, nem a eterna Bondade, nem as demais Virtudes eternas. Em amava Capitú! Capitú amava-me! E as minhas pernas andavam, desandavam, estacavam, tremulas e crentes de abarcar o mundo. Esse primeiro palpitar da seiva, essa revelação da consciencia a si propria, nunca mais me esqueceu, nem achei que lhe fosse comparavel qualquer outra sensação da mesma especie. Naturalmente por ser minha. Naturalmente tambem por ser a primeira.

De repente, ouvi bradar uma voz de dentro da casa ao pé:

—Capitú!

E no quintal:

—Mamãe!

E outra vez na casa:

—Vem cá!

Não me pude ter. As pernas desceram-me os tres degraus que davam para a chacara, e caminharam para o quintal visinho. Era costume dellas, ás tardes, e ás manhãs tambem. Que as pernas tambem são pessoas, apenas interiores aos braços, e valem de si mesmas, quando a cabeça não as rege por meio de ideias. As minhas chegaram ao pé do muro. Havia alli uma porta de communicação mandada rasgar por minha mãe, quando Capitú e eu éramos pequenos. A porta não tinha chave nem taramela, abria-se empurrando de um lado ou puxando de outro, e fechava-se ao peso de uma pedra pendente de uma corda. Era quasi que exclusivamente nossa. Em creancas, faziamos visita batendo de um lado, e sendo recebidos do outro com muitas mesuras. Quando as bonecas de Capitú adoeciam, o medico era eu. Entrava no quintal della com um pau debaixo do braço, para imitar o bengalão do doutor João da Costa; tomava o pulso á doente, e pedia-lhe que mostrasse a lingua. «É surda, coitada!» exclamava Capitú. Então eu coçava o queixo, como o doutor, e acabava mandando applicar-lhe umas sanguesugas ou dar-lhe um vomitorio: era a therapeutica habitual do medico.

—Capitú!

—Mamãe!

—Deixa de estar esburacando o muro; vem cá.

A voz da mãe era agora mais perto, como se viesse já da porta dos fundos. Quiz passar ao quintal, mas as pernas, ha pouco tão andarilhas, pareciam agora presas ao chão. Afinal fiz um esforço, empurrei a porta, e entrei. Capitú estava ao pé do muro fronteiro, voltada para elle, riscando com um prego. O rumor da porta fel-a olhar para traz; ao dar commigo, encostou-se ao muro, como se quizesse esconder alguma cousa. Caminhei para ella; naturalmente levava o gesto mudado, porque ella veiu a mim, e perguntou-me inquieta:

—Que é que você tem?

—Eu? Nada.

—Nada, não; você tem alguma cousa.

Quiz insistir que nada, mas não achei lingua. Todo eu era olhos e coração, um coração que desta vez ia sair, com certeza, pela bocca fora. Não podia tirar os olhos daquella creatura de quatorze annos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado. Os cabellos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma á outra, á moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz recto e comprido, tinha a bocca fina e o queixo largo. As mãos, a despeito de alguns officios rudes, eram curadas com amor; não cheiravam a sabões finos nem aguas de toucador, mas com agua do poço e sabão commum trazia-as sem macula. Calçava sapatos de duraque, rasos e velhos, a que ella mesma dera alguns pontos.

—Que é que você tem? repetiu.

—Não é nada, balbuciei finalmente.

E emendei logo:

—É uma noticia.

—Noticia de què?

Pensei em dizer-lhe que ia entrar para o seminario e espreitar a impressão que lhe faria. Se a consternasse é que realmente gostava de mim; se não, é que não gostava. Mas todo esse calculo foi obscuro e rapido; senti que não poderia falar claramente, tinha agora a vista não sei como...

—Então?

—Você sabe...

Nisto olhei para o muro, o logar em que ella estivera riscando, escrevendo ou esburacando, como dissera a mãe. Vi uns riscos abertos, e lembrou-me o gesto que ella fizera para cobril-os. Então quiz vel-os de perto, e dei um passo. Capitú agarrou-me, mas, ou por temer que eu acabasse fugindo, ou por negar de outra maneira, correu adeante e apagou o escripto. Foi o mesmo que accender em mim o desejo de ler o que era.

Tudo o que contei no fim do outro capitulo foi obra de um instante. O que se lhe seguiu foi ainda mais rapido. Dei um pulo, e antes que ella raspasse o muro, li estes dous nomes, abertos ao prego, o assim dispostos:

BENTOCAPITOLINA

Voltei-me para ella; Capitú tinha os olhos no chão. Ergueu-os logo, devagar, e ficámos a olhar um para o outro... Confissão de creanças, tu valias bem duas ou tres paginas, mas quero ser poupado. Em verdade, não falámos nada; o muro falou por nós. Não nos movemos, as mãos é que se estenderam pouco a pouco, todas quatro, pegando-se, apertando-se, fundindo-se. Não marquei a hora exacta daquelle gesto. Devia tel-a marcado; sinto a falta de uma nota escripta naquella mesma noite, e que eu poria aqui com os erros de orthographia que trouxesse, mas não traria nenhum, tal era a differença entre o estudante e o adolescente. Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar; tinha orgias de latim e era virgem de mulheres.

Não soltámos as mãos, nem ellas se deixaram cair de cançadas ou de esquecidas. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se, e depois de vagarem ao perto, tornavam a metter-se uns pelos outros... Padre futuro, estava assim deante della como de um altar, sendo uma das faces a Epistola e a outra o Evangelho. A bocca podia ser o calix, os labios a patena. Faltava dizer a missa nova, por um latim que ninguem apprende, e é a lingua catholica dos homens. Não me tenhas por sacrilego, leitora minha devota; a limpeza da intenção lava o que puder haver menos curial no estylo. Estavamos alli com o ceu em nós. As mãos, unindo os nervos, faziam das duas creaturas uma só, mas uma só creatura seraphica. Os olhos continuaram a dizer cousas infinitas, as palavras de bocca é que nem tentavam sair, tornavam ao coração caladas como vinham...

Outra voz repentina, mas desta vez uma voz de homem:

—Vocès estão jogando o siso?

Era o pae de Capitú, que estava á porta dos fundos, ao pé da mulher. Soltámos as mãos depressa, e ficámos atrapalhados. Capitú foi ao muro, e, com o prego, disfarçadamente, apagou os nossos nomes escriptos.

—Capitú!

—Papae!

—Não me estragues o reboco do muro.

Capitú riscava sobre o riscado, para apagar bem o escripto. Padua saiu ao quintal, a ver o que era, mas já a filha tinha começado outra cousa, um perfil, que disse ser o retrato delle, e tanto podia ser delle como da mãe; fel-o rir, era o essencial. De resto, elle chegou sem colera, todo meigo, apezar do gesto duvidoso ou menos que duvidoso em que nos apanhou. Era um homem baixo e grosso, pernas e braços curtos, costas abahuladas, donde lhe veiu a alcunha de Tartaruga, que José Dias lhe poz. Ninguem lhe chamava assim lá em casa; era só o aggregado.

—Vocês estavam jogando o siso? perguntou.

Olhei para um pé do sabugueiro que ficava perto; Capitú respondeu por ambos.

—Estavamos, sim, senhor, mas Bentinho ri logo, não aguenta.

—Quando eu cheguei á porta, não ria.

—Já tinha rido das outras vezes; não póde. Papae quer ver?

E séria, fitou em mim os olhos, convidando-me ao jogo. O susto é naturalmente serio; eu estava ainda sob a acção do que trouxe a entrada de Padua, e não fui capaz de rir, por mais que devesse fazel-o, para legitimar a resposta de Capitú. Esta, cançada de esperar, desviou o rosto, dizendo que eu não ria daquella vez por estar ao pé do pae. E nem assim ri. Ha cousas que só se apprendem tarde; é mister nascer com ellas para fazel-as cedo. E melhor é naturalmente cedo que artificialmente tarde. Capitú, após duas voltas, foi ter com a mãe, que continuava á porta da casa, deixando-nos a mim e ao pae encantados della; o pae, olhando para ella e para mim, dizia-me, cheio de ternura:

—Quem dirá que esta pequena tem quatorze annos? Parece dezesete. Mamãe está boa? continuou voltando-se inteiramente para mim.

—Está.

—Ha muitos dias que não a vejo. Estou com vontade de dar um capote ao doutor, mas não tenho podido, ando com trabalhos da repartição, em casa; escrevo todos os noites que é em desespero; negocio de relatorio. Você já viu o meu gaturamo? Está alli no fundo. Ia agora mesmo buscar a gaiola; ande ver.

Que o meu desejo era nenhum, crê-se facilmente, sem ser preciso jurar pelo ceu nem pela terra. Meu desejo era ir atraz de Capitú e falar-lhe agora do mal que nos esperava, mas o pae era o pae, e demais amava particularmente os passarinhos. Tinha-os de varia especie, côr e tamanho. A área que havia no centro da casa era cercada de gaiolas de canarios, que faziam cantando um barulho de todos os diabos. Trocava passaros com outros amadores, comprava-os, apanhava alguns, no proprio quintal, armando alçapões. Tambem, se adoeciam, tratava delles como se fossem gente.

Padua era empregado em repartição dependente do ministerio da guerra. Não ganhava muito, mas a mulher gastava pouco, e a vida era barata. Demais, a casa em que morava, assobradada como a nossa, posto que menor, era propriedade delle. Comprou-a com a sorte grande que lhe saiu n'um meio bilhete de loteria, dez contos de reis. A primeira ideia do Padua, quando lhe saiu o premio, foi comprar um cavallo do Cabo, um adereço de brilhantes para a mulher, uma sepultura perpetua de familia, mandar vir da Europa alguns passaros, etc.; mas a mulher, esta D. Fortunata que alli está á porta dos fundos da casa, em pé, falando á filha, alta, forte, cheia, como a filha, a mesma cabeça, os mesmos olhos claros, a mulher é que lhe disse que o melhor era comprar a casa, e guardar o que sobrasse para acudir ás molestias grandes. Padua hesitou muito; afinal, teve de ceder aos conselhos de minha mãe, a quem D. Fortunata pediu auxilio. Nem foi só nessa occasião que minha mãe lhes valeu; um dia chegou a salvar a vida ao Padua. Escutai; a anecdota é curta.

O administrador da repartição em que Padua trabalhava teve de ir ao Norte, em commissão. Padua, ou por ordem regulamentar, ou por especial designação, ficou substituindo o administrador com os respectivos honorarios. Esta mudança de fortuna trouxe-lhe certa vertigem: era antes dos dez contos. Não se contentou de reformar a roupa e a copa, atirou-se ás despezas superfluas, deu joias á mulher, nos dias de festa matava um leitão, era visto em theatros, chegou aos sapatos de verniz. Viveu assim vinte e dous mezes na supposição de uma eterna interinidade. Uma tarde entrou em nossa casa, afflicto e desvairado, ia perder o logar, porque chegara o effectivo naquella manhã. Pediu a minha mãe que velasse pelas infelizes que deixava; não podia soffrer a desgraça, matava-se. Minha mãe falou-lhe com bondade, mas elle não attendia a cousa nenhuma.

—Não, minha senhora, não consentirei em tal vergonha! Fazer descer a familia, tornar atraz... Já disse, mato-me! Não hei de confessar á minha gente esta miseria. E os outros? Que dirão os visinhos? E os amigos? E o publico?

—Que publico, Sr. Padua? Deixe-se disso; seja homem. Lembre-se que sua mulher não tem outra pessoa... e que ha de fazer? Pois um homem... Seja homem, ande.

Padua enxugou os olhos e foi para casa, onde viveu prostrado alguns dias, mudo, fechado na alcova,—ou então no quintal, ao pé do poço, como se a ideia da morte teimasse nelle. D. Fortunata ralhava:

—Joãosinho, você é creança?

Mas, tanto lhe ouviu falar em morte que teve medo, e um dia correu a pedir a minha mãe que lhe fizesse o favor de ver se lhe salvava o marido que se queria matar. Minha mãe foi achal-o á beira do poço, e intimou-lhe que vivesse. Que maluquice era aquella de parecer que ia ficar desgraçado, por causa de uma gratificação menos, e perder um emprego interino? Não, senhor, devia ser homem, pae de familia, imitar a mulher e a filha... Padua obedeceu; confessou que acharia forças para cumprir a vontade de minha mãe.

—Vontade minha, não; é obrigação sua.

—Pois seja obrigação; não desconheço que é assim mesmo.

Nos dias seguintes, continuou a entrar e sair de casa, cosido á parede, cara no chão. Não era o mesmo homem que estragava o chapéo em cortejar a visinhança, risonho, olhos no ar, antes mesmo da administração interina. Vieram as semanas, a ferida foi sarando. Padua começou a interessar-se pelos negocios domesticos, a cuidar dos passarinhos, a dormir tranquillo as noites e as tardes, a conversar e dar noticias da rua. A serenidade regressou; atraz della veiu a alegria, um domingo, na figura de dous amigos, que iam jogar o solo, a tentos. Já elle ria, já brincava, tinha o ar do costume; a ferida sarou de todo.

Com o tempo veiu um phenomeno interessante. Padua começou a falar da administração interina, não sómente sem as saudades dos honorarios, nem o vexame da perda, mas até com desvanecimento e orgulho. A administração ficou sendo a hegyra, donde elle contava para deante e para traz.

—No tempo em que eu era administrador...

Ou então:

—Ah! sim, lembra-me, foi antes da minha administração, um ou dous mezes antes... Ora espere; a minha administração começou... É isto, mez e meio antes; foi mez e meio antes, não foi mais.

Ou ainda:

—Justamente; havia já seis mezes que eu administrava...

Tal é o sabor posthumo das glorias interinas. José Dias bradava que era a vaidade sobrevivente; mas o padre Cabral, que levava tudo para a Escriptura, dizia que com o visinho Padua se dava a licção de Eliphaz a Job: «Não desprezes a correcção do Senhor; elle fere e cura.»

«Elle fere e cura!» Quando, mais tarde, vim a saber que a lança de Achilles tambem curou uma ferida que fez, tive taes ou quaes velleidades de escrever uma dissertação a este proposito. Cheguei a pegar em livros velhos, livros mortos, livros enterrados, a abril-os, a comparal-os, calando o texto e o sentido, para achar a origem commum do oraculo pagão e do pensamento israelita. Catei os proprios vermes dos livros, para que me dissessem o que havia nos textos roidos por elles.

—Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, uns não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.

Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado palavra, repeliam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silencio sobre os textos roidos, fosse ainda um modo de roer o roido.

Pae nem mãe foram ter comnosco, quando Capitú e eu, na sala de visitas, falavamos do seminario. Com os olhos em mim, Capitú queria saber que noticia era a que me affligia tanto. Quando lhe disse o que era, fez-se còr de cêra.

—Mas eu não quero, acudi logo, não quero entrar em seminarios; não entro, é excusado teimarem commigo, não entro.

Capitú, a principio não disse nada. Recolheu os olhos, metteu-os em si e deixou-se estar com as pupillas vagas e surdas, a bocca entre-aberta, toda parada. Então eu, para dar forca ás affirmações, comecei a jurar que não seria padre. Naquelle tempo jurava muito e rijo, pela vida e pela morte. Jurei pela hora da morte. Que a luz me faltasse na hora da morte se fosse para o seminario. Capitú não parecia crer nem descrer, não parecia sequer ouvir; era uma figura de pau. Quiz chamal-a, sacudil-a, mas faltou-me animo. Essa creatura que brincára commigo, que pulára, dansára, creio até que dormira commigo, deixava-me agora com os braços atados e medrosos. Emfim, tornou a si, mas tinha a cara livida, e rompeu nestas palavras furiosas:

—Beata! carola! papa-missas!

Fiquei aturdido. Capitú gostava tanto de minha mãe, e minha mãe della, que eu não podia entender tamanha explosão. É verdade que tambem gostava de mim, e naturalmente mais, ou melhor, ou de outra maneira, cousa bastante a explicar o despeito que lhe trazia a ameaça da separação; mas os improperios, como entender que lhe chamasse nomes tão feios, e principalmente para deprimir costumes religiosos, que eram os seus? Que ella tambem ia á missa, e tres ou quatro vezes minha mãe é que a levou, na nossa velha sege. Tambem lhe dera um rosario, uma cruz de ouro e um livro deHoras...Quiz defendel-a, mas Capitú não me deixou, continuou a chamar-lhe beata e carola, em voz tão alta que tive medo fosse ouvida dos paes. Nunca a vi tão irritada como então; parecia disposta a dizer tudo a todos. Cerrava os dentes, abanava a cabeça... Eu, assustado, não sabia que fizesse; repetia os juramentos, promettia ir naquella mesma noite declarar em casa que, por nada neste mundo, entraria no seminario.

—Você? Você entra.

—Não entro.

—Você verá se entra ou não.

Calou-se outra vez. Quando tornou a falar, tinha mudado; não era ainda a Capitú do costume, mas quasi. Estava seria, sem afflicção, falava baixo. Quiz saber a conversação da minha casa; eu contei-lh'a toda, menos a parte que lhe dizia respeito.

—E que interesse tem José Dias em lembrar isto? perguntou-me no fim.

—Acho que nenhum; foi só para fazer mal. É um sujeito muito ruim; mas, deixe estar que me ha de pagar. Quando eu fòr dono da casa, quem vae para a rua é elle, você verá; não me fica um instante. Mamãe é boa de mais; dá-lhe attenção de mais. Parece até que chorou.

—José Dias?

—Não, mamãe.

—Chorou porque?

—Não sei; ouvi só dizer que ella não chorasse, que não era cousa de choro... Elle chegou a mostrar-se arrependido, e saiu; eu então, para não ser apanhado, deixei o canto e corri para a varanda. Mas, deixe estar, que elle me paga!

Disse isto fechando o punho, e proferi outras ameaças. Ao relembral-as, não me acho ridiculo; a adolescencia e a infancia não são, neste ponto, ridiculas; e um dos seus privilegios. Este mal ou este perigo começa na mocidade, cresce na madurera e attinge o maior grão na velhice. Aos quinze annos, ha até certa graça em ameaçar muito e não executar nada.

Capitú reflectia. A reflexão não era cousa rara nella, e conheciam-se as occasiões pelo apertado dos olhos. Pediu-me algumas circumstancias mais, as proprias palavras de uns e de outros, e o tom dellas. Como eu não queria dizer o ponto inicial da conversa, que era ella mesma, não lhe pude dar toda a significação. A attenção de Capitú estava agora particularmente nas lagrimas de minha mãe; não acabava de entendel-as. Em meio disto, confessou que certamente não era por mal que minha mãe me queria fazer padre; era a promessa antiga, que ella, temente a Deus, não podia deixar de cumprir. Fiquei tão satisfeito de ver que assim espontaneamente reparava as injurias que lhe sairam do peito, pouco antes, que peguei da mão della e apertei-a muito. Capitú deixou-se ir, rindo; depois a conversa entrou a cochilar e dormir. Tinhamos chegado á janella; um preto, que, desde algum tempo, vinha apregoando cocadas, parou em frente e perguntou:

—Sinhásinha, qué cocada hoje?

—Não, respondeu Capitú.

—Cocadinha tá boa.

—Vá-se embora, replicou ella sem rispidez.

—Dê ca! disse eu descendo o braço para receber duas.

Comprei-as, mas tive de as comer sósinho; Capitú recusou. Vi que, em meio da crise, eu conservava um canto para as cocadas, o que tanto póde ser perfeição como imperfeição, mas o momento não é para definições taes; fiquemos em que a minha amiga, apezar de equilibrada e lucida, não quiz saber de doce, e gostava muito de doce. Ao contrario, o pregão que o preto foi cantando, o prégão das velhas tardes, tão sabido do bairro e da nossa infancia:

Chora, menina, chora,Chora, porque não temVintem,

a modo que lhe deixára uma impressão aborrecida, Da toada não era; ella a sabia de cór e de longe, usava repetil-a nos nossos jogos da puericia, rindo, saltando, trocando os papeis commigo, ora vendendo, ora comprando um doce ausente. Creio que a lettra, destinada a picar a vaidade das crianças, foi que a enojou agora, porque logo depois me disse:

—Se eu fosse rica, vocè fugia, mettia-se no paquete e ia para a Europa.

Dito isto, espreitou-me os olhos, mas creio que elles não lhe disseram nada, ou só agradeceram a boa intenção. Com effeito, o sentimento era tão amigo que eu podia excusar o extraordinario da aventura.

Como vês, Capitú, aos quatorze annos, tinha já ideias atrevidas, muito menos que outras que lhe vieram depois; mas eram só atrevidas em si, na pratica faziam-se habeis, sinuosas, surdas, e alcançavam o fim proposto, não de salto, mas aos saltinhos. não sei se me explico bem. Supponde uma concepção grande executada por meios pequenos. Assim, para não sair do desejo vago e hypothetico de me mandar para a Europa, Capitú, se pudesse cumpril-o, não me faria embarcar no paquete e fugir; estenderia uma fila de canoas daqui até lá, por onde eu, parecendo ir á fortaleza da Lage em ponte movediça, iria realmente até Bordéos, deixando minha mãe na praia, á espera. Tal era a feição particular do caracter da minha amiga; pelo que, não admira que, combatendo os meus projectos de resistencia franca, fosse antes pelos meios brandos, pela acção do empenho, da palavra, da persuasão lenta e diuturna, e examinasse antes as pessoas com quem podiamos contar. Rejeitou tio Cosme; era um «boa-vida»; se não approvava a minha ordenação, não era capaz de dar um passo para suspendel-a. Prima Justina era melhor que elle, e melhor que os dous seria o padre Cabral, pela autoridade, mas o padre não havia de trabalhar contra a egreja; só se eu lhe confessasse que não tinha vocação....

—Posso confessar?

—Pois, sim, mas seria apparecer francamente, e o melhor é outra cousa. José Dias....

—Que tem José Dias?

—Póde ser um bom empenho.

—Mas se foi elle mesmo que falou....

—Não importa, continuou Capitú; dirá agora outra cousa. Elle gosta muito de você. Não lhe fale acanhado. Tudo é que você não tenha medo, mostre que ha de vir a ser dono da casa, mostre que quer e que póde. Dê-lhe bem a entender que não é favor. Faça-lhe tambem elogios; elle gosta muito de ser elogiado. D. Gloria presta-lhe attenção; mas o principal não é isso; é que elle, tendo de servir a você, falará com muito mais calor que outra pessoa.

—Não acho. não, Capitú.

—Então vá para o seminario.

—Isso não.

—Mas que se perde em experimentar? Experimentemos; faça o que lhe digo. D. Gloria póde ser que mude de resolução; se não mudar, faz-se outra cousa, mette-se então o padre Cabral. Você não se lembra como é que foi ao theatro pela primeira vez, ha dous mezes? D. Gloria não queria, e bastava isso para que José Dias não teimasse; mas elle queria ir, e fez um discurso, lembra-se?

—Lembra-me; disse que o theatro era uma escola de costumes.

—Justo; tanto falou que sua mãe acabou consentindo, e pagou a entrada aos dous.... Ande, peça, mande. Olhe; diga-lhe que está prompto a ir estudar leis em S. Paulo.

Estremeci de prazer. S. Paulo era um fragil biombo, destinado a ser arredado um dia, em vez da grossa parede espiritual e eterna. Prometti falar a José Dias nos termos propostos. Capitú repetiu-os, accentuando alguns, como principaes; e inquiria-me depois sobre elles, a ver se entendera bem, se não trocara uns por outros. E insistia em que pedisse com boa cara, mas assim como quem pede um copo de agua a pessoa que tem obrigação de o trazer. Conto estas minucias para que melhor se entenda aquella manhã da minha amiga; logo virá a tarde, e da manhã e da tarde se fará o primeiro dia, como no Genesis, onde se fizeram successivamente sete.

Quando voltei a casa era noite. Vim depressa, não tanto, porém, que não pensasse nos termos em que falaria ao aggregado. Formulei o pedido de cabeça, escolhendo as palavras que diria e o tom dellas, entre secco e benevolo. Na chacara, antes de entrar em casa, repeti-as commigo, depois em voz alta, para ver se eram adequadas e se obedeciam ás recommendações de Capitú: «Preciso falar-lhe,sem falta, amanhã; escolha o logar e diga-me.» Proferi-as lentamente, e mais lentamente ainda as palavrassem falta, como para sublinhal-as. Repeti-as ainda, e então achei-as seccas de mais, quasi rispidas, e, francamente, improprias de um creançola para um homem maduro. Cuidei de escolher outras, e parei.

Afinal disse commigo que as palavras podiam servir, tudo era dizel-as em tom que não offendesse. E a prova é que, repetindo-as novamente, saíram-me quasi supplices. Bastava não carregar tanto, nem adoçar muito, um meio termo. «E Capitú tem razão, pensei, a casa é minha, elle é um simples aggregado... Geitoso é, póde muito bem trabalhar por mim, e desfazer o plano de mamãe.»

Levantei os olhos ao ceu, que começava a embruscar-se, mas não foi para vel-o coberto ou descoberto. Era ao outro ceu que eu erguia a minha alma; era ao meu refugio, ao meu amigo. E então disse de mim para mim:

—Prometto rezar mil padre-nossos e mil ave-marias, se José Dias arranjar que eu não vá para o seminario.

A somma era enorme. A razão é que eu andava carregado de promessas não cumpridas. A ultima foi de duzentos padre-nossos e duzentas ave-marias, se não chovesse em certa tarde de passeio a Santa Theresa. Não choveu, mas eu não rezei as orações. Desde pequenino acostumara-me a pedir ao ceu os seus favores, mediante orações que diria, se elles viessem. Disse as primeiras, as outras foram adiadas, e á medida que se amontoavam iam sendo esquecidas. Assim cheguei aos numeros vinte, trinta, cincoenta. Entrei nas centenas e agora no milhar. Era um modo de peitar a vontade divina pela quantia das orações; além disso, cada promessa nova era feita e jurada no sentido de pagar a divida antiga. Mas vão lá matar a preguiça de uma alma que a trazia do berço e não a sentia attenuada pela vida! O ceu fazia-me o favor, eu adiava a paga. Afinal perdi-me nas contas.

—Mil, mil, repeti commigo.

Realmente, a materia do beneficio era agora immensa, não menos que a salvação ou o naufragio da minha existencia inteira. Mil, mil, mil. Era preciso uma somma que pagasse os atrazados todos. Deus podia muito bem, irritado com os esquecimentos, negar-se a ouvir-me sem muito dinheiro.... Homem grave, é possivel que estas agitações de menino te enfadem, se é que não as achas ridiculas. Sublimes não eram. Cogitei muito no modo de resgatar a divida espiritual. Não achava outra especie em que, mediante a intenção, tudo se cumprisse, fechando a escripturação da minha consciencia moral semdeficit.Mandar dizer cem missas, ou subir do joelhos a ladeira da Gloria para ouvir uma, ir á Terra-Santa, tudo o que as velhas escravas me contavam de promessas celebres, tudo me acudia sem se fixar de vez no espirito. Era muito duro subir uma ladeira de joelhos; devia feril-os por força. A Terra-Santa ficava muito longe. As missas eram numerosas, podiam empenhar-mo outra vez a alma....

Na varanda achei prima Justina, passeando de um lado para outro. Veiu ao patamar e perguntou-me onde estivera.

—Estive aqui ao pé, conversando com D. Fortunata, e distraí-me. É tarde, não é? Mamãe perguntou por mim?

—Perguntou, mas eu disse que você já tinha vindo.

A mentira espantou-me, não menos que a franqueza da noticia. Não é que prima Justina fosse de biocos; dizia francamente a Pedro o mal que pensava de Paulo, e a Paulo o que pensava de Pedro; mas, confessar que mentira é que me pareceu novidade. Era quadragenaria, magra e pallida, bocca fina e olhos curiosos. Vivia comnosco por favor de minha mãe, e tambem por interesse; minha mãe queria ter uma senhora intima ao pé de si, e antes parenta que extranha.

Passeámos alguns minutos na varanda, alumiada por um lampião. Quiz saber se eu não esquecera os projectos ecclesiasticos de minha mãe, e dizendo-lhe eu que não, inquiriu-me sobre o gosto que eu tinha á vida de padre. Respondi esquivo:

—Vida de padre é muito bonita.

—Sim, é bonita; mas o que pergunto é se você gostaria de ser padre, explicou rindo.

—Eu gósto do que mamãe quizer.

—Prima Gloria deseja muito que você se ordene, mas ainda que não desejasse, ha cá em casa quem lhe metta isso na cabeça.

—Quem é?

—Ora, quem! Quem é que hade ser? Primo Cosme não é, que não se importa com isso; eu tambem não.

—José Dias? conclui.

—Naturalmente.

Enruguei a testa interrogativamente, como se não soubesse nada. Prima Justina completou a noticia dizendo que ainda naquella tarde José Dias lembrára a minha mãe a promessa antiga.

—Prima Gloria póde ser que, em passando os dias, vá esquecendo a promessa; mas como ha de esquecer se uma pessoa estiver sempre, nos ouvidos, zás que darás, falando do seminario? E os discursos que elle faz, os elogios da egreja, e que a vida de padre é isto e aquillo, tudo com aquellas palavras que só elle conhece, e aquella affectação... Note que é só para fazer mal, porque elle é tão religioso, como este lampião. Pois é verdade, ainda hoje. Você não se dè por achado... Hoje de tarde falou como você não imagina.

—Mas falou á toa? perguntei, a ver se ella contava a denuncia do meu namoro com a visinha.

Não contou; fez apenas um gesto como indicando que havia outra cousa que não podia dizer. Novamente me recommendou que não me désse por achado, e recapitulou todo o mal que pensava de José Dias, e não era pouco, um intrigante, um bajulador, um especulador, e, apezar da casca de polidez, um grosseirão. Eu, passados alguns instantes, disse:

—Prima Justina, a senhora era capaz de uma cousa?

—De quê?

—Era capaz de... Supponha que eu não gostasse de ser padre... a senhora podia pedir a mamãe...

—Isso não, atalhou promptamente; prima Gloria tem este negocio firme na cabeça, e não ha nada no mundo que a faça mudar de resolução; só o tempo. Você ainda era pequenino, já ella contava isto a todas as pessoas da nossa amizade, ou só conhecidas. Lá avivar-lhe a memoria, não, que eu não trabalho para a desgraça dos outros; mas tambem, pedir outra cousa, não peço. Se ella me consultasse, bem; se ella me dissesse: «Prima Justina, você que acha?» a minha resposta era: «Prima Gloria, eu penso que, se elle gosta de ser padre, póde ir; mas, se não gosta, o melhor é ficar.» E o que eu diria e direi se ella me consultar algum dia. Agora, ir falar-lhe sem ser chamada, não faço.


Back to IndexNext