Emfim, que segredo ha que se não descubra? Sagacidade, boa vontade, curiosidade, chama-lhe o que quizeres, ha uma força que deita cá para fóra tudo o que as pessoas cuidam de esconder. Os proprios segredos cançam de calar,—calar ou dormir; fiquemos com este outro verbo, que serve melhor á imagem. Cançam, e ajudam a seu modo aquillo que imputamos á indiscrição alheia.
Quando elles abrem os olhos, faz-lhes mal a escuridão. Um raio de sol basta. Então pedem aos deuses (porque os segredos são pagãos) um quasi nada de crepusculo, aurora ou tarde, posto que a aurora prometta dia, emquanto a tarde cae outra vez na noite, mas tarde que seja, tudo é respirar claridade. Que os segredos, amiga minha, tambem são gente; nascem, vivem e morrem. Agora o que succede, quando um olhar de sol penetra na solidão delles, é que difficilmente sae mais, e geralmente cresce, rasga, alaga, e os traz pela orelha cá para fóra. Vexados da grande luz, elles a principio andam de ouvido em ouvido, cochichados, alguma vez escriptos em bilhetes, ainda que tão vagamente e sem nomes, que mal se adivinhará quaes sejam. É o periodo da infancia, que passa depressa; a mocidade pula por cima da adolescencia, e elles apparecem fortes e derramados, sabidos como gazetas. Emfim, se a velhice chega, e elles não se vexam dos cabellos brancos, tomam conta do mundo, e acaso conseguem, não digo esquecer, mas aborrecer; entram na familia do proprio sol, que quando nasce é para todos, segundo dizia uma taboleta da minha infancia.
Taboletas da minha infancia, ai, taboletas! Quizera acabar por ellas este capitulo, mas o assumpto não teria nobreza nem interesse, e ainda uma vez interromperiamos a nossa historia. Fiquemos no segredo divulgado; é quanto basta. Uma veranista elegante não dissimulou o seu espanto ao saber que os dous irmãos combinavam n'um ponto que faria romper os maiores amigos deste mundo. Um secretario de legação insinuou que podia ser brincadeira dos dous.
—Ou dos trez, accrescentou outra veranista.
Iam de passeio á Quitandinha, a cavallo. Ayres acompanhava-os, e não dizia nada. Quando lhe perguntaram se Flora era bonita, respondeu que sim, e falou da temperatura. A primeira veranista perguntou-lhe se era capaz de supportar aquella situação. Ayres respirou, como quem vem de longe, e declarou que aos pés de um padre seria obrigado a mentir, taes eram os seus peccados; mas alli, na estrada, ao ar livre, entre senhoras, confessou que matara mais de um rival. Que se lembrasse trazia sete mortes ás costas, com varias armas. As senhoras riam; elle falava soturno. Só uma vez escapou de morrer primeiro, e inventou uma anecdota napolitana. Fez a apologia do punhal. Um que tivera, ha muitos annos, o melhor aço do mundo, foi obrigado a dal-o de presente a um bandido, seu amigo, quando lhe provou que completára na vespera o seu vigesimo nono assassinato.
—Aqui está para o trigesimo, disse-lhe entregando a arma.
Poucos dias depois soube que o bandido, com aquelle punhal, matara o marido de uma senhora, e depois a senhora, a quem amava sem ventura.
—Deixei-o com trinta e um crimes de primeira ordem.
As damas continuavam a rir; elle conseguiu assim desviar a conversação de Flora e seus namorados.
Emquanto indagavam della em Petropolis, a situação moral de Flora era a mesma,—o mesmo conflicto de affinidades, o mesmo equilibrio de preferencias. Cessado o conflicto, roto o equilibrio, a solução viria de prompto, e, por mais que doesse a um dos namorados, venceria o outro, a menos que interviesse o punhal da anecdota de Ayres.
Assim passaram algumas semanas desde a subida de Natividade. Quando Ayres vinha ao Rio de Janeiro, não deixava de ir vel-a a S. Clemente, onde a achava qual era d'antes, salvo um pouco de silencio em que a viu mettida uma vez. No dia seguinte recebeu uma carta de Flora, pedindo-lhe desculpa da desattenção, se a houve, e mandando-lhe saudades. «Mamãe pede que a recommende tambem ao senhor e á familia da baroneza.» Esta recommendação exprimia o consentimento obtido da mãe para que lhe escrevesse a carta. Quando elle tornou ao Rio, correu a S. Clemente e Flora pagou-lhe com alegria grande o silencio daquella outra manhã. Todavia, não era espontanea nem constante; tinha seus cochilos de melancolia. Ayres voltou ainda algumas vezes na mesma semana. Flora apparecia-lhe com a alegria costumada, e, para o fim, a mesma alteração dos ultimos dias.
Talvez a causa daquellas syncopes da conversação fosse a viagem que o espirito da moça fazia á casa da gente Santos. Uma das vezes, o espirito voltou para dizer estas palavras ao coração: «Quem és tu, que não atas nem desatas? Melhor é que os deixes de vez. Não será difficil a acção, porque a lembrança de um acabará por destruir a de outro, e ambas se irão perder com o vento, que arrasta as folhas velhas e novas, além das particulas de cousas, tão leves e pequenas, que escapam ao olho humano. Anda, esquece-os; se os não pódes esquecer, faze por não os ver mais; o tempo e a distancia farão o resto.»
Tudo estava acabado. Era só escrever no coração as palavras do espirito, para que lhe servissem de lembrança. Flora escreveu-as, com a mão tremula e a vista turva; logo que acabou, viu que as palavras não combinavam, as letras confundiam-se, depois iam morrendo, não todas, mas salteadamente, até que o musculo as lançou de si. No valor e no impeto podia comparar o coração ao gemeo Paulo; o espirito, pela arte e subtileza, seria o gemeo Pedro. Foi o que ella achou no fim de algum tempo, e com isso explicou o inexplicavel.
Apesar de tudo, não acabava de entender a situação, e resolveu acabar com ella ou comsigo. Todo esse dia foi inquieto e complicado. Flora pensou em ir ao theatro para que os gemeos não a achassem á noite. Iria cedo, antes da hora da visita. A mãe mandou comprar o camarote, e o pae approvou a diversão, quando veiu jantar, mas a filha acabou com dôr de cabeça, e o camarote ficou perdido.
—Vou mandal-o aos jovens Santos, insinuou Baptista.
D. Claudia oppôz-see guardou o camarote. A razão era de mãe; posto lhe tardasse a escolha e o casamento, ella queria vel-os alli comsigo, falando, rindo, debatendo que fosse, com os olhos pendentes da filha. Baptista não entendeu logo nem depois; mas para não desagradar á esposa, deixou de obsequiar os rapazes. Uma occasião tão boa! Não era muito para elles que possuiam com que despender, e despendiam; o obsequio estava na lembrança, e tambem na cartinha que lhes escreveria, mandando o camarote. Chegou a redigil-a de cabeça, apesar de já inutil. A mulher, ao vel-o calado e serio, cuidou que fosse zanga e quiz fazer as pazes; o marido arredou-a brandamente com a mão. Redigia a cartinha, punha no texto um gracejo sizudo, dobrava o papel e lançava-lhe este sobrescripto gemeo: «Aos jovens apostolos Pedro e Paulo.» O trabalho intellectual tornou mais dura a opposiçâo de D. Claudia. Uma cartinha tão bonita!
Como póde um só tecto cobrir tão diversos pensamentos? Assim é tambem este céu claro ou brusco,—outro tecto vastissimo que os cobre com o mesmo zelo da gallinha aos seus pintos... Nem esqueça o proprio craneo do homem, que os cobre igualmente, não só diversos, senão oppostos.
Flora, no quarto, não cuidava então de bilhetes nem camarotes; tambem não acudia á dôr de cabeça, que não tinha. Se falou nella foi por ser uma razão proxima e acceitavel, breve ou longa, conforme a necessidade da occasião. Não supponhas que está rezando, embora tenha alli um oratorio e um crucifixo. Não viria pedir a Jesus que lhe livrasse a alma daquella inclinação desencontrada. Posta á beira da cama, os olhos no chão, pensava naturalmente em alguma cousa grave, se não era nada, que tambem agarra os olhos e o pensamento de uma pessoa. Mordeu os beiços sem raiva; metteu a cabeça entre as mãos, como se quizesse concertar os cabellos, mas os cabellos estavam e ficavam como dantes.
Quando se levantou era totalmente noite, e accendeu uma vela. Não queria gaz. Queria uma claridade branda que désse pouca vida ao quarto e aos seus moveis, que deixasse algumas partes na meia escuridade. O espelho, se fosse a elle, não lhe repetiria a belleza de todos os dias, com a vela posta em cima de uma papeleira antiga, a distancia. Mostrar-lhe-hia a nota de pallidez e de melancolia, é verdade, mas a nossa amiguinha não se sabia pallida, nem se sentia melancolica. Tinha na tristeza desvairada daquella occasião uma pontinha de abatimento.
Como tudo isso se combinava, não sei, nem ella mesma. Ao contrario, Flora parecia, ás vezes, tomada de um espanto, outras de uma inquietação vaga, e, se buscava o repouso de uma cadeira de balanço, era para o deixar logo. Ouviu bater oito horas. Dahi a pouco, entrariam provavelmente Pedro e Paulo. Teve lembrança de ir dizer á mãe que a não mandasse chamar; estava de cama. Esta ideia não durou o que me custa escrevel-a, e aliás já lá vae na outra linha. Recuou a tempo.
—É um desproposito, disse comsigo; basta não apparecer. Mamãe dirá que estou adoentada, tanto que perdemos o theatro, e, se vier aqui, digo-lhe que não posso apparecer...
As ultimas palavras sairam-lhe de viva voz, para maior firmeza da resolução. Projectou reclinar-se já na cama; depois achou melhor fazel-o quando ouvisse o passo da mãe no corredor. Todas essas alternativas podiam vir de si mesmas; entretanto, não é impossivel que fosse tambem um modo de sacudir quaesquer lembranças aborreciveis. A moça temia ir atraz dellas.
Temendo ir atraz dellas, que havia de fazer Flora? Abriu uma das janellas do quarto, que dava para a rua, encostou-se á grade e enfiou os olhos para baixo e para cima. Viu a noite sem estrellas, pouca gente que passava, calada ou conversando, algumas salas abertas, com luzes, uma com piano. Não viu certa figura de homem na calçada opposta, parada, olhando para a casa de Baptista. Nem a viu, nem lhe importaria saber quem fosse. A figura é que tão depressa a viu como estremeceu e não despegou mais os olhos della, nem os pés do chão.
Lembras-te daquella veranista de Petropolis que attribuiu um terceiro namorado á nossa amiguinha? «Um dos trez», disse ella. Pois aqui está o terceiro namorado, e póde ser que ainda appareça outro. Este mundo é dos namorados. Tudo se póde dispensar nelle; dia virá em que se dispensem até os governos, a anarchia se organisará de si mesma, como nos primeiros dias do paraiso. Quanto á comida, virá de Boston ou de Nova-York um processo para que a gente se nutra com a simples respiração do ar. Os namorados é que serão perpetuos.
Aquelle era official de secretaria. Geralmente os empregados de secretaria casam cedo. Gouvêa era solteiro, andava ás moças. Um domingo, á missa, reparou na filha do ex-presidente, e saiu da egreja tão apaixonado que não quiz outra promoção. Tinha gostado de muitas, acompanhou algumas, esta foi a primeira que o feriu devéras. Pensava nella dia e noite. A rua de S. Clemente era o caminho que o levava e trazia da Repartição. Se a via, olhava muito para ella, detinha-se a distancia, á porta de uma casa, ou então fingia acompanhar com os olhos um carro que passava, e tirava-os do carro para a moça.
Quando amanuense, fizéra versos; nomeado official, perdeu o costume, mas um dos effeitos da paixão foi restituir-lh'o. Comsigo, em casa da mãe, gastava papel e tinta a metrificar as esperanças. Os versos escorriam da penna, a rima com elles, e as estrophes vinham seguindo direitas e alinhadas, como companhias de batalhão; o titulo seria o coronel, a epigraphe a musica, uma vez que regulava a marcha dos pensamentos. Bastaria essa força á conquista? Gouvêa imprimiu alguns em jornaes, com esta dedicatoria:A alguem.Nem assim a praça se rendia.
Uma vez deu-lhe na cabeça mandar uma declaração de amor. Paixão concebe despropositos. Escreveu duas cartas, sem o mesmo estylo, antes contrario. A primeira era de poeta; dava-lhetu, como nos versos, adjectivava muito, chamava-lhe deusa por afiusão ao nome de Flora, e citava Musset e Casimiro de Abreu. A segunda carta foi um desforço do official sobre o amanuense. Saiu-lhe ao estylo das informações e dos officios, grave, respeitoso, com Excellencias. Comparando as duas cartas, não acabou de escolher nenhuma. Não foi só o texto diverso e contrario, foi principalmente a falta de autorisação que o levou a rasgar as cartas. Flora não o conhecia; quando menos, fugia de o conhecer. Os olhos della, se encontravam os delle, retiravam-se logo indifferentes. Uma só vez cuidou que traziam a intenção de perdoar. Que esse breve raio de luz lhe desabotoasse as flores da esperança (começo a falar como a primeira carta) era possivel e até certo; tão certo que lhe fez perder o ponto na Repartição. Felizmente, era optimo empregado; o director ampliou o quarto de hora de tolerancia, e attendeu á dôr de cabeça, causa de triste insomnia.
—Dormi sobre a madrugada, acabou o official.
—Assigne.
Senão quando, morre-lhe o padrinho ao Gouvêa, e em testamento deixou ao afilhado trez contos de reis. Qualquer acharia nisso um beneficio, Gouvêa achou dous: o legado e a occasião de travar relações com o pae de Flora. Correu a pedir-lhe que acceitasse a procuração de legatario, ajustando logo os honorarios e as despezas. Com pouco, foi procural-o á casa, e para que o advogado désse a noticia do constituinte á familia, empregou muitos ditos subtis e graciosos, contou anecdotas do padrinho, expoz conceitos philosophicos e um programma de marido. Descreveu tambem a situação administrativa, a promoção eminente, os louvores recebidos, commissões e gratificações, tudo o que o distinguia de outros companheiros. De resto, ninguem na Repartição lhe queria mal. Aquelles mesmos que se creram prejudicados, acabavam confessando que era justa a preferencia dada ao Gouvêa. Não seria tudo exacto; elle o cria assim, ao menos, e, se não cria tudo, não desmentiu nada. Perdeu tempo e trabalho. Flora não soube da conversação.
Nem soube da conversação, nem deu agora pelo vulto, como lá disse. tambem disse que a noite era escura. Accrescento que começou a pingar fino e a ventar fresco. Gouvêa trazia guarda-chuva e ia a abril-o, mas recuou. O que se passou na alma delle foi uma luta egual á dos dous textos da carta. O official queria abrigar-se da chuva, o amanuense queria apanhal-a, isto é, o poeta renascia contra as intemperies, sem medo ao mal, prestes a morrer por sua dama, como nos tempos da cavallaria. Guarda-chuva era ridiculo; poupar-se á constipação desmentia a adoração. Tal foi a luta e o desfecho; venceu o amanuense, emquanto a chuva ia pingando grosso, e outra gente passava abrigada e depressa. Flora entrou e fechou a janella. O amanuense esperou ainda algum tempo, até que o official abriu o guarda-chuva e fez como os outros. Em casa achou a triste consolação da mãe.
Aquella noite acabou sem incidente. Os gemeos viéram, Flora não appareceu, e no dia seguinte duas cartinhas perguntavam a D. Claudia como passára a filha. A mãe respondeu que bem. Nem por isso Flora os recebeu com a alegria do costume. Tinha alguma cousa que a fazia falar pouco. Pediram-lhe musica, tocou; foi bom, porque era um meio de se metter comsigo. Não respondeu aos apertos de mão, como elles suppunham que fazia até ha pouco. Assim foi essa noite, assim fôram as outras. Ora um, ora outro chegava primeiro, imaginando que a presença do rival é que tolhia a moça; mas a precedencia não valia nada.
Tudo isso lhe custava tanto, que ella acabou pedindo ao seu Christo um logar de governador para o pae,—ou qualquer commissão fóra daqui. Jesus-Christo não distribue os governos deste mundo. O povo é que os entrega a quem merece, por meio de cedulas fechadas, mettidas dentro de uma urna de madeira, contadas, abertas, lidas, sommadas e multiplicadas. A commissão podia vir, isso sim; a questão era saber se Jesus-Christo acudirá a todos os que lhe pedem a mesma cousa. Os commissarios seriam infinitamente mais que as commissões. Esta objecção foi logo expellida do espirito de Flora, porque ella pedia ao seu Christo, um de marfim velho, deixa da avó, um Christo que nunca lhe negou nada, e a quem as outras pessoas não vinham importunar com supplicas. A propria mãe tinha o seu particular, confidente de ambições, consolo de desenganos; não recorria ao da filha. Tal era a fé ingenua da moça.
Certarmente, já lhe havia pedido que a livrasse daquella complicação de sentimentos, que não acabavam de ceder um ao outro, daquella hesitação cançativa, daquelle empuxar para ambos os lados. Não foi ouvida. A causa seria talvez por não haver dado ao pedido a fórma clara que aqui lhe ponho, com escandalo do leitor. Effectivamente, não era facil pedir assim por palavras seguidas, faladas ou só pensadas; Flora não formulou a supplica. Poz os olhos na imagem e esqueceu-se de si, para que a imagem lêsse dentro della o seu desejo. Era demais; requerer o favor do céu e obrigal-o a adivinhar o que era... Assim cuidou Flora, e resolveu emendar a mão. Não chegou lá; não ousou dizer a Jesus o que não dizia a si mesma. Pensava nos dous, sem confessar a nenhum. Sentia a contradicção, sem ousar encaral-a por muito tempo.
Um dia pareceu á mãe que a filha andava nervosa. Interrogou-a e apenas descobriu que Flora padecia de vertigens e esquecimentos. Foi justamente um dia em que Ayres lá appareceu de visita, com recados de Natividade. A mãe falou-lhe primeiro e confiou-lhe os seus sustos. Pediu-lhe que a interrogasse tambem. Ayres fez de medico, e, quando a moça appareceu e a mãe os deixou na sala, cuidou de a interrogar cautelosamente.
Vão proposito, porque ella mesma iniciou a conversação, queixando-se de dôr de cabeça. Ayres observou que dôr de cabeça era molestia de moça bonita, e, tendo confessado que este dito era banal, descobriu-lhe o motivo. Não queria perder a occasião de lhe dizer o que toda a gente sabia e dizia, não só aqui, como em Petropolis.
—Porque não vae a Petropolis? concluiu.
—Espero fazer outra viagem mais longa, muito longa...
—Para o outro mundo, aposto?
—Acertou.
—Já tem bilhete de passagem?
—Comprarei no dia do embarque.
—Talvez não ache. Ha grande concurrencia para aquellas paragens; melhor é comprar antes, e, se quer, eu me encarrego disso; comprarei outro para mim, e iremos juntos. A travessia, quando não ha conhecidos, deve ser fastidiosa; ás vezes, os proprios conhecidos aborrecem, como succede neste mundo. As saudades da vida é que são agradaveis. A gente de bordo é vulgar, mas o commandante impõe confiança. Não abre a bôca, dá as suas ordens por gestos, e não consta que haja naufragado.
—O senhor está caçoando commigo; eu creio até que estou com febre.
—Deixe ver.
Flora estendeu-lhe o pulso; elle, com ar profundo:
—Está; febre de quarenta e sete grãos, a mão está ardendo, mas isto mesmo prova que não é nada, porque aquellas viagens fazem-se com as mãos frias. Ha de ser constipação, fale a sua mãe.
—Mamãe não cura.
—Póde curar, ha remedios caseiros; em todo caso, peça-lhe, e ella póde mandar chamar um medico.
—Medico dá tizanas, e eu não gósto de tizanas.
—Nem eu, mas tolero-as. Porque não experimenta a homoeopathia, que não tem gosto, como a allopathia?
—Qual é a que lhe parece melhor?
—A melhor? Só Deus é grande.
Flora sorriu, de um sorriso pallido, e o conselheiro percebeu algo que não era tristeza de passagem ou de creança. Novamente lhe falou de Petropolis, mas não insistiu. Petropolis era a aggravação do momento actual.
—Petropolis tem o mal das chuvas, continuou. Eu, se fosse a senhora, saía desta casa e desta rua; vá para outro bairro, casa amiga, com sua mãe ou sem ella...
—Para onde? perguntou Flora anciosa.
E ficou a olhar, esperando. Não tinha casa amiga, ou não se lembrava, e queria que elle mesmo escolhesse alguma, onde quer que fosse, e quanto mais longe, melhor. Foi o que elle leu nos olhos parados. É ler muito, mas os bons diplomatas guardam o talento de saber tudo o que lhes diz um rosto calado, e até o contrario. Ayres fôra diplomata excellente, apesar da aventura de Caracas, se não é que essa mesma lhe aguçou a vocação de descobrir e encobrir. Toda a diplomacia está nestes dous verbos parentes.
—Vou arranjar-lhe uma casa boa, disse elle, á despedida.
Desde que estava em Petropolis, Ayres não ia jantar a Andarahy, com a irmã, ás quintas-feiras, segundo ajustára e consta do cap. XXXII. Agora foi lá, e cinco dias depois Flora transferia-se para a casa della, a titulo de ares novos. D. Rita não consentiu que D. Claudia lhe levasse a filha, ella mesma a foi buscar a S. Clemente, e Ayres acompanhou as trez.
A mocidade de Flora na casa de D. Rita foi como uma rosa nascida ao pé de paredão velho. O paredão remoçou. A simples flôr, ainda que pallida, alegrou o barro gretado e as pedras despidas. D. Rita vivia encantada; Flora pagava o agazalho da dona da casa com tanta ingenuidade e graça, que esta acabou por lhe dizer que a roubaria á mãe e ao pae, e foi ainda occasião de riso para as duas.
«Você me deu um lindo presente com esta moça, escrevia D. Rita ao irmão; foi uma alma nova, e veiu em boa occasião, porque a minha anda já caduca. É muito docilzinha, conversa, toca e desenha que faz gosto, tem aqui tirado riscos de varias cousas, e eu saio com ella para lhe mostrar vistas apreciaveis. Às vezes, apresenta uma cara triste, olha vagamente, e suspira; mas eu pergunto-lhe se são saudades de S. Clemente, ella sorri e faz ura gesto de indifferença. Não lhe falo dos nervos, para não a affligir, mas creio que vae melhor...»
Flora tambem escreveu as conselheiro Ayres, e as duas cartas chegaram á mesma hora a Petropolis. A de Flora era um agradecimento grande e cordial, mal entremeado de alguma palavra saudosa; confirmava assim a carta da outra, posto não a houvesse lido. Ayres comparou-as, lendo duas vezes a da moça para ver se ella escondia mais do que transparencia do papel. Em summa, confiava no remedio.
—Não os vendo, esquece-os, pensou elle; e se na visinhança houver alguem que pense em gostar della, é possivel que acabe casando.
Respondeu a ambas, na mesma noite, dizendo-lhes que na quinta-feira iria almoçar com ellas. A D. Claudia escreveu mandando-lhe a carta da irmã, e foi passar a noite em casa de Natividade, a quem deu a ler as cinco cartas. Natividade approvou tudo. Notava só que os filhos não lhe escreviam, e deviam estar desesperados.
—A Santa Casa cura, e a Bibliotheca Nacional tambem, retorquiu Ayres.
Na quinta feira, Ayres desceu e foi almoçar a Andarahy. Achou-as como as tinha lido nas cartas. Interrogou-as separadamente para ouvir por bôca as confissões do papel; eram as mesmas. D. Rita parecia ainda mais encantada. Talvez a causa recente fosse a confidencia que fez a moça, na vespera. Como falassem de cabellos, D. Rita referiu o que tambem consta do cap. XXXII, isto é, que cortára os seus para os metter no caixão do marido, quando o levaram a enterrar. Flora não a deixou acabar; pegou-lhe das mãos e apertou-as muito.
—Nenhuma outra viuva faria isto, disse ella.
Aqui foi D. Rita que lhe pegou nas mãos, pôl-as sobre os seus hombros, e concluiu o gesto por um abraço. Todas as pessoas louvaram-lhe a abnegação do acto; esta era a primeira que a achou unica. E dahi outro abraço longo, mais longo...
Tão longo foi o abraço que tomou o resto ao capitulo. Este começa sem elle nem outro. O mesmo aperto de mão de Ayres e Flora, se foi demorado, tambem acabou. O almoço fez gastar algum tempo mais que de costume, porque Ayres, além de conversador emerito, não se fartava de ouvir as duas, principalmente a moça. Achava-lhe um toque de languidez, abatimento ou cousa proxima, que não encontro no meu vocabulario.
Flora mostrou-lhe os desenhos que fizera, paisagens, figuras, um pedaço da estrada da Tijuca, um chafariz antigo, umPrincipio de casa.Era umas dessas casas, que alguem começou muitos annos antes, e ninguem acabou, ficando só duas ou trez paredes, ruina sem historia. Havia ainda outros desenhos, uma revoada de passaros, um vaso á janella. Ayres ia folheando, cheio de curiosidade e paciencia; a intenção da obra suppria a perfeição, e a fidelidade devia ser approximada. Emfim, a moça atou os cordões á pasta. Ayres, parecendo-lhe que ficara um desenho ultimo r escondido, pediu que lh'o mostrasse.
—É um esboço, não vale a pena.
—Tudo vale a pena; quero acompanhar as tentativas da artista; deixe ver.
—Não vale a pena...
Ayres insistiu; ella não pôde recusar mais tempo, abriu a pasta, e tirou um pedaço de papel grosso em que estavam desenhadas duas cabeças juntas e eguaes. Não teriam a perfeição desejada por ella; não obstante, dispensavam os nomes. Ayres considerou a obra, durante alguns minutos, e duas ou trez vezes levantou os olhos para a autora. Flora já os esperava, interrogativa; queria ouvir o louvor ou a critica, mas não ouviu nada. Ayres acabou de observar as duas cabeças, e pousou o desenho entre os papeis.
—Não lhe dizia que era um esboço? perguntou Flora, a ver se lhe arrancava uma palavra.
Mas o ex-ministro preferiu não dizer nada. Em vez de achar quasi extincta a influencia dos gemeos, vinha dar com ella feita consolação da ausencia, tão viva que bastava a memoria, sem presença dos modelos. As duas cabeças estavam ligadas por um vinculo escondido. Flora, vendo continuar o silencio de Ayres, comprehendeu acaso parte do que lhe passava no espirito. Com um gesto prompto, pegou do desenho e deu-lh'o. Não lhe disse nada, menos ainda escreveu qualquer palavra. Qualquer que fosse, seria indiscreta. De mais, era o unico desenho a que ella não pôz assignatura. Deu-lh'o como se fôra um penhor de arrependimento. Em seguida, atou novamente as fitas da pasta, emquanto Ayres, rasgava calado o desenho e mettia os pedaços no bolso. Flora ficou por um instante parada, bôca entre-aberta, mas logo lhe apertou a mão, agradecida. Não pôde evitar que lhe caissem duas pequeninas lagrimas,—como outras tantas fitas que lhe atavam para sempre a pasta do passado.
A imagem não é boa, nem verdadeira; foi a que acudiu ao conselheiro, andando, ao voltar de Andarahy. Chegou a escrevel-a noMemorial, depois riscou-a, e escreveu uma reflexão menos definitiva: «Talvez seja uma lagrima para cada gemeo.»
—Póde acabar com o tempo, pensou elle indo para a barca de Petropolis. Não importa; é um caso embrulhado.
Tambem os gemeos achavam o caso embrulhado. Quando iam a S. Clemente, tinham noticias da moça, sem que lhes déssem certeza do regresso. O tempo andava; não tardaria que consultassem a sorte, como dous antigos.
A rigor, não contavam as semanas de interrupção, uma vez que a escolha se não dava, e elles podiam trazer da consulta o contrario da inclinação definitiva da moça. Reflexão justa, posto que interessada. Cada um delles não queria mais que prolongar a batalha, esperando vencel-a. Entretanto, não confiavam um do outro este pensamento gemeo, como elles. Ambos se iam sentindo exclusivos, a affeição tinha agora o seu pudor e necessidade de calar. Já não falavam de Flora.
Nem só de Flora. Crescendo a opposição, recorriam ao silencio. Evitavam-se; se podiam, não comiam juntos; se comiam juntos, diziam pouco ou nada. Às vezes, falavam para tirar aos criados qualquer suspeita, mas não advertiam que falavam mal e forçadamente, e que os criados iam commentar as palavras e a expressão delles na copa. A satisfação com que estes communicavam os seus achados e conclusões é das poucas que adoçam o serviço domestico, geralmente rude. Não chegavam, porém, ao ponto de concluir tudo o que os ia tornando cada vez mais avessos, a ponto de odio que crescia com a ausencia da mãe. Era mais que Flora, como sabeis; eram as proprias pessoas inconciliaveis. Um dia houve na copa e na cozinha grande novidade, Pedro, a pretexto de sentir mais calor que Paulo, mudou de quarto e foi dormir mal em outro não menos quente que o primeiro.
Entretanto, a bella moça não os tirava da mesma alcova sua, por mais que buscasse devéras fugir-lhes. A memoria os trazia pela mão, elles entravam e ficavam. Iam depois embora, ou de si mesmos, ou empurrados por ella. Quando tornavam, era de sorpresa. Um dia, Flora aproveitou a presença para fazer um desenho egual ao que dera ao conselheiro, mais perfeito agora, muito mais acabado.
Tambem cançava. Então saía do quarto e ia para o piano. Elles iam com ella, sentavam-se aos lados ou ficavam defronte, em pé, e ouviam com attenção religiosa, ora um nocturno, ora uma tarantella. Flora tocava ao sabor de ambos, sem deliberação; os dedos é que obedeciam á mecanica da alma. Para os não ver, inclinava a cabeça sobre o teclado; mas o campo da visão os guardava, se não era a respiração que se fazia sentir defronte ou dos lados. Tal era a subtileza dos seus sentidos.
Se fechava o piano e descia ao jardim, succedia muita vez que os ia achar alli, passeando, e a comprimentavam com tão boa sombra, que ella esquecia por instantes a impaciencia. Depois, sem que os mandasse, iam embora. Nos primeiros tempos. Flora tinha medo que a houvessem abandonado de todo, e chamava-os dentro de si. Ambos tornavam logo, tão doceis, que ella acabou de se convencer que a fuga não era fuga. nem elles sentiam desprezo, e não os evocou mais. No jardim era mais rapido o desapparecimento, talvez pela extrema claridade do logar. Visão pede meia sombra.
Sei, sei, trez vezes sei que ha muitas visões dessas nas paginas que lá ficam. Ulysses confessa a Alcinoos que lhe é enfadonho contar as mesmas cousas. Tambem a mim. Sou, porém, obrigado a ellas, porque sem ellas a nossa Flora seria menos Flora, seria outra pessoa que não conheci. Conheci esta, com as suas obsessões ou como quer que lhes chames.
Nem por isso, nem ainda porque houvesse colhido algum abatimento e nervos, deixava Flora de enfeitar muito, de se fazer mais linda, e ter mais de um namorado incognito, que suspirava por ella. Não faltava quem a admirasse de passagem, e fosse vel-a, quando menos, no banco verde, á porta do jardim, ao pé da irmã de Ayres. Póde ser que conhecesse algum, Gouvêa, por exemplo; em verdade, era como se os não visse.
Um delles valia mais que todos pela carruagem,—tirada por uma bella parelha de cavallos,—capitalista do bairro. A casa delle era um palacete, os moveis feitos na Europa, estylo imperio, apparelhos de Sèvres e de prata, tapetes de Smyrna, e uma vasta camara com dous leitos, um de solteiro, outro de casados. O segundo esperava a esposa.
—A esposa ha de ser esta, pensou elle um dia, ao ver Flora.
Era maduro; trazia o rosto batido dos ventos da vida, a despeito das muitas aguas de toucador; ao corpo faltava aprumo, e as maneiras não tinham graça nem naturalidade. Era o Nobrega, aquelle da nota de dous mil reis, nota fecunda, que deitou de si muitas outras, mais de dous mil contos de reis. Para as notas recentes, a avó perdia-se na noite dos tempos. Agora os tempos eram claros, a manhã doce e pura.
Quando viu a moça, e fez a reflexão que lá fica, extranhou-se a si proprio. Vira outras damas, e mais de uma com escriptos nos olhos, dizendo-lhe o vasio do coração. Esta era a primeira que veramente lhe prendeu a vontade e lhe deteve o pensamento. Tornou a vêl-a; a gente visinha notou porv'entura a frequencia recente do capitalista. Emfim, Nobrega acabou por se fazer entrado na casa de D. Rita, com desgosto dos seus habituados, que assim se viam esquecidos do amphytrião. Nobrega, entretanto, dera ordens bastantes para que fossem todos servidos e agazalhados, como se elle estivesse presente.
A ausencia não lhe faria perder as loas dos amigos. Ao contrario, os servos podiam dar testemunho do que todos elles pensavam do «grande homem.» Tal era o nome que lhe applicara o secretario particular, e pegou. Nobrega sabia pouca orthographia, nenhuma syntaxe, licções uteis, de certo, mas que não valiam a moral, e a moral, diziam todos, acompanhando o secretario, era o seu principal e maior merito. O fiel escriba accrescentava, que sendo preciso despir a camisa e dal-a a um mendigo, Nobrega o faria, ainda que a camisa fosse bordada.
Agora mesmo, este amor era, ao cabo, um movimento de caridade. Em pouco tempo, aquelle gosto de relance passou a grande paixão, tão grande que elle não a pôde conter, e resolveu confessal-a. Hesitou se o faria á propria moça ou á dona da casa. Não tinha animo para uma nem outra. Uma carta suppria tudo, mas a carta pedia lingua, calor e respeito. Se, ao menos, o gesto de Flora lhe dissesse alguma cousa, ainda que pouca, vá; a carta seria então uma resposta. Mas não lhe dizia nada o gesto da moça. Era só cortez e gracioso; não ia além dessas duas expressões.
D. Rita percebeu a inclinação de Nobrega e achou que era a melhor solução da vida para a hospede. Todas as incertezas, angustias e melancolias vinham acabar nos braços de um ricasso, estimado, respeitado, dentro de um palacete com uma carruagem ás ordens... Ella mesma punha em relevo este premio grande da loteria de Hespanha.
Emfim, o secretario de Nobrega redigiu com a melhor linguagem que possuia uma carta em que o capitalista pedia a D. Rita o favor de consultar a moça amada.
—Não escreva palavrinhas doces, recommendou elle ao secretario. Gósto dessa moça com um sentimento de protecção, antes que outra cousa. Não é carta de namorado. Estylo grave...
—Uma carta secca, concluiu o secretario.
—Totalmente secca, não, emendou Nobrega, uma carta lisongeira, sem esquecer que não sou creança.
Assim se cumpriu. Ia a cumprir-se demais; Nobrega achou que o estylo podia ser um tanto ameno; não fazia mal pôr duas ou trez palavras apropriadas ao objecto,belleza, coração, sentimento...Assim se cumpriu fmalmente, e a carta foi levada ao seu destino. D. Rita ficou contentissima. Justamente o que ella queria. Tinha o plano feito de concluir, por acto seu, uma historia melancolica, a que daria, por derradeira pagina, conclusão deslumbrante. Não pensou em dizel-o primeiro ao irmão, pela razão de querer que elle recebesse a noticia completa, tudo feito e acabado. Releu a carta; dispoz-se a ir logo, mas ha pessoas para quem o adagio que diz que «o melhor da festa é esperar por ella», resume todo o prazer da vida. D. Rita tinha essa opinião. Todavia, entendeu que taes cartas não são das que se guardam largo tempo, nem aliás das que se communicam sem cautella. Esperou vinte e quatro horas. Na manhã seguinte, depois de almoçadas, leu a carta á moça. O natural é que Flora ficasse espantada. Ficou, mas não tardou que risse, de um riso franco e sonoro, como ainda não rira em Andarahy. D. Rita ficou espantadissima. Suppunha que, não a pessoa, mas as vantagens e circumstancias pleiteassem a favor do candidato. Esquecia os seus cabellos entregues á sepultura do marido. Deu conselhos á moça, poz em relevo a posição do pretendente, o presente e o futuro, a situação esplendida que lhe dava este casamento, e por fim as qualidades moraes de Nobrega. A moça escutou calada, e acabou rindo outra vez.
—A senhora sabe se serei feliz? perguntou.
—Creio que sim; agora, o futuro é que confirmará ou não.
—Esperemos que o futuro chegue, comquanto me pareça muito demorado. Não nego as qualidades daquelle homem, parece bom, e trata-me bem, mas eu não quero casar, D. Rita.
—Realmente, a edade... Mas nem, ao menos, quer pensar alguns dias?
—Está pensado.
D. Rita ainda esperou um dia. A resposta negativa, dado que Flora viesse a mudar de opinião, podia ser uma desgraça para esta. Uso os proprios termos della, comsigo,grande desgraça, posição esplendida, sentimento profundo.D. Rita ia aos extremos, deante daquelle rico-homem dos ultimos annos do seculo.
Não querendo dar a resposta nua e crua, D. Rita consultou a moça, que lhe respondeu simplesmente:
—Diga que não pretendo casar.
Quando Nobrega recebeu as poucas linhas que D. Rita lhe mandou, ficou assombrado. Não contava com recusa. Ao contrario, era tão certa a acceitação que elle tinha já um programma do noivado. Imaginava a moça, os olhos timidos, a bôca cerrada, o veu que lhe cobriria a linda carinha, a delicadeza delle, as palavras que lhe diria entrando em casa. Tinha já composto uma invocação á Mãe Santíssima, para que os fizesse felizes. «Dou-lhe carro, dizia comsigo, joias, muitas joias, as melhores joias do mundo... » Nobrega não fazia ideia exacta do mundo; era uma expressão. «Hei de dar-lhe tudo, sapatinhos de seda, meias de seda, que eu mesmo lhe calçarei...» Estremecia de cór, ao calçar-lhe as meias. Beijava-lhe os pés e os joelhos.
Tinha imaginado que ella, ao ler a carta, devia ficar tão pasmada e agradecida, que nos primeiros instantes não pudera responder a D. Rita; mas logo depois as palavras sairiam do coração ás golfadas. «Sim, senhora, queria, acceitava; não pensara em outra cousa.» Escreveria logo ao pae e á mãe para lhes pedir licença; elles viriam correndo, incredulos, mas, vendo a carta, ouvindo a filha e D. Rita, não duvidariam da verdade, e dariam o consentimento. Talvez o pae lh'o fosse dar em pessoa. E nada, nada, nada, absolutamente nada, uma simples recusa, uma recusa atrevida, porque em fim quem era ella, apesar da belleza? Uma creatura sem vintem, modestamente vestida, sem brincos, nunca lhe vira brincos ás orelhas, duas perolasinhas que fossem. E porque é que lhe furaram as orelhas, se não tinham brincos que lhe dar? Considerou que ás mais pobres meninas do mundo furam as orelhas para os brincos que lhes possam cair do céu. E vem esta, e recusa os mais ricos brincos que o céu ia chover sobre ella...
Ao jantar, os amigos da casa notaram que elle estava preoccupado. De noite, elle e o secretario sairam a pé. Nobrega buscou em si o gesto mais frio e indifferente que pôde, quasi alegre, e annunciou ao secretario que Flora não queria casar. Não se descreve a admiração do secretario, em seguida a consternação, finalmente a indignação. Nobrega respondia magnanimo:
—Não foi por mal; foi talvez por se julgar abaixo, muito abaixo da fortuna. Creia que é boa moça. Póde ser tambem, quem sabe? Por ter sido um mau conselho do coração. Aquella moça é doente.
—Doente?
—Não affirmo; digo que póde ser.
O secretario affirmou.
—Só a doença, disse elle, explicará a ingratidão, por que o acto é de pura ingratidão.
Aqui tornou a nota da indignação, nota sincera, como as outras. Nobrega gostou de ouvil-a; era um compadecimento. No fim, cumpriu a ideia que trazia ao sair de casa; augmentou-lhe o ordenado. Podia ser a paga da sympathia; o beneficiado foi mais longe, achou que era o preço do silencio, e ninguem soube de nada.
A molestia, dada por explicação á recusa do casamento, passou á realidade dahi a dias. Flora adoeceu levemente; D. Rita, para não alarmar os paes, cuidou de a tratar com remedios caseiros; depois, mandou chamar um medico, o seu medico, e a cara que este fez não foi boa, antes má. D. Rita, que costumava ler a gravidade das suas molestias no rosto delle, e sempre as achava gravissimas, cuidou de avisar os paes da moça. Os paes viéram logo. Natividade tambem desceu de Petropolis, não de vez; em cima, tinham medo de algum movimento cá embaixo. Veiu a visitar a moça, e, a pedido desta, ficou alguns dias.—Só a senhora me póde curar, disse Flora; não creio nos remedios que me dão. As suas palavras é que são boas, e os seus carinhos... Mamãe tambem, e D. Rita, mas não sei, ha uma differença, uma cousa... Veja: parece-me que até já rio.
—Já, já; ria mais.
Flora sorriu, ainda que daquelle sorriso descorado que apparece na bôca do enfermo, quando a molestia consente, ou elle fórça a seriedade propria da dôr. Natividade dizia-lhe palavras de animação; fel-a prometter que iria convalecer em Petropolis. A enfermidade começou a ceder. D. Claudia acceitou a offerta de D. Rita, e lá ficou aposentada. Natividade ia á noite para Botafogo e voltava de manhã. Ayres descia de Petropolis um dia sim, um dia não.
Tambem os gemeos lá iam saber da enferma. Agora mais que d'antes, sentiam a fortaleza do vinculo que os prendia á moça. Pedro, já medico, ainda que sem pratica, punha mais autoridade nas perguntas, concluia melhor dos symptomas, mas as esperanças e os receios eram de ambos. Algumas vezes, falavam mais alto que de costume e de conveniencia. A razão, por egoista que fosse, era perdoavel. Suppõe que os cartões de visita falassem; alguns, mais soffregos, proclamariam os seus nomes, para que soubessem logo da presença, da cortezia e da anciedade. Tal cuidado da parte dos dous era inutil, porque ella sabia delles e recebia as lembranças que lhe deixavam.
Flora ia assim passando os dias. Queria Natividade sempre ao pé de si, pela razão que já deu, e por outra que não disse, nem porventura soube, mas podemos suspeital-a e imprimir. Estava alli o ventre abençoado que gerára os dous gemeos. De instincto, achava nella algo particular. Quanto ao influxo que exercia nella, por essa ou qualquer outra causa, não a sabia Natividade; contentava-se em ver que, ainda agora, e em tal crise, Flora não perdera a amizade que lhe tinha. Passavam as horas juntas, falando, se não fazia mal falar, ou então uma com as mãos da outra entre as suas. Quando Flora adormecia, Natividade ficava a contemplal-a, com o rosto pallido, os olhos fundos, as mãos quentes, mas sem perder a graça dos dias da saúde. As outras entravam no quarto, pé ante pé, esticavam os pescoços para vel-a dormir, falavam por gestos ou tão baixo que só o coração as adivinharia.
Quando pareceu melhorar, Flora pediu um pouco mais de luz e de céu. Uma das duas janellas foi então escancarada, e a enferma encheu-se de vida e riso. Não é que a Febre se fosse de todo. Essa bruxa livida estava ao canto do quarto, com os olhos espetados nella; mas, ou de cançada, ou por obrigação imposta, cochilava a miudo, e longamente. Então a enferma sentia só o calor do Mal, que o medico graduava em trinta e nove ou trinta e nove e meio, depois de consultar o thermometro. A Febre, ao ver esse gesto, ria sem escandalo, ria para si.
Ficámos no ponto cm que uma das janellas do quarto augmentou a dóse do luz e de céu que Flora pediu, sem embargo da febre, aliás pouca. O mais que se passou valia a pena de um livro. Não foi logo, logo, gastou longas horas e alguns dias. Houve tempo bastante para que entre a vida e Flora se fizesse a reconciliação ou a despedida. Uma e outra podiam ser extensas; tambem podiam ser curtas. Conheci um homem que adoeceu velho, se não de velho, e despendeu no rompimento final um tempo quasi infinito. Já pedia a morte, mas quando via o rosto descarnado da derradeira amiga espiar da porta entre-aberta, voltava o seu para outro lado e engrolava uma cantiga da infancia, para enganal-a e viver.
Flora não recorria a taes cantigas, aliás tão proximas. Quando via o céu e um pedaço de sol no muro, deleitava-se naturalmente, e uma vez quiz desenhar, mas não lh'o consentiram. Se a morte a espiava da porta, tinha um calefrio, é verdade, e fechava os olhos. Ao abril-os fitava a triste figura, sem lhe fugir nem chamar por ella.
—Você amanhã está prompta, e de hoje a oito dias, ou antes, vamos para Petropolis, disse Natividade disfarçando as lagrimas, mas a voz fazia o officio dos olhos.
—Petropolis? suspirou a doente.
—Lá terá muito que desenhar.
Eram sete horas da manhã. Na vespera, quando os gemeos sairam de lá, já tarde, os receios da morte cresciam; mas não bastam receios, é preciso que a realidade venha atraz delles; dahi as esperanças. Tambem não bastam esperanças, a realidade é sempre urgente. A madrugada trouxe algum socego; ás sete horas, depois daquellas palavras de Natividade, Flora pôde dormir.
Quando Pedro e Paulo voltaram a Andarahy, a enferma estava acordada, e o medico, sem dar grandes esperanças, mandou fazer applicações, que declarou energicas. Todos tinham signaes de lagrimas. De noite, Ayres appareceu trazendo noticias de agitação na cidade.
—Que é?
—Não sei; uns falam de manifestações ao marechal Deodoro, outros de conspiração contra o marechal Floriano. Ha alguma cousa.
Natividade pediu aos filhos que se não mettessem em barulhos; ambos prometteram e cumpriram. Ao ver o aspecto de algumas ruas, grupos, patrulhas, armas, duas metralhadoras, Itamaraty illuminado, tiveram a curiosidade de saber o que houve e havia; vaga suggestão, que não durou dous minutos. Correram a metter-se em casa, e a dormir mal a noite. Na manhã seguinte os criados levaram os jornaes com as noticias da vespera.
—Veiu algum recado de Andarahy? perguntou um.
—Não, senhor.
Ainda quizeram ler, por alto, alguma cousa. Não puderam; estavam anciosos de sair de casa e saber noticias da noite. Posto levassem os jornaes comsigo, não leram claramente nem seguidamente. Viram nomes de pessoas prezas, um decreto, movimento de gente e de tropas, tão confuso tudo, que deram por si na casa de D. Rita, antes de entender o que houvera. Flora ainda vivia.
—Mamãe, a senhora está mais triste hoje que estes dias.
—Não fales tanto, minha filha, acudiu D. Claudia. Triste estou sempre que adoeces. Fica boa e verás.
—Fica, fica boa, interveiu Natividade. Eu em moça, tive uma doença egual que me prostrou por duas semanas, até que me levantei, quando já ninguem esperava.
—Então já não esperam que me levante?
Natividade quiz rir da conclusão tão prompta, com o fim de a animar. A doente fechou os olhos, abriu-os dahi a pouco, e pediu que vissem se estava com febre. Viram; tinha, tinha muita.
—Abram-me a janella toda.
—Não sei se fará bem, ponderou D. Rita.
—Mal não faz, disse Natividade.
E foi abrir, não toda, mas metade da janella. Flora, posto que já mui caida, fez esforço e voltou-se para o lado da luz. Nessa posição ficou sem dar de si; os olhos, a principio vagos, entraram a parar, até que ficaram fixos. A gente entrava no quarto devagar, e abafando os passos, trazendo recados e levando-os; fóra, espreitavam o medico.
—Demora-se; já devia cá estar, dizia Baptista.
Pedro era medico, propoz-se a ir ver a enferma; Paulo, não podendo entrar tambem, ponderou que seria desagradavel ao medico assistente; além disso, faltava-lhe pratica. Um e outro queriam assistir ao passamento de Flora, se tinha de vir. A mãe, que os ouviu, saiu á sala, e, sabendo o que era, respondeu negativamente. Não podiam entrar; era melhor que fossem chamar o medico.
—Quem é? perguntou Flora, ao vel-a tornar ao quarto.
—São os meus filhos que queriam entrar ambos.
—Ambos quaes? perguntou Flora.
Esta palavra fez crêr que era o delirio que começava, se não é que acabava, porque, em verdade, Flora não proferiu mais nada. Natividade ia pelo delirio. Ayres, quando lhe repetiram o dialogo, rejeitou o delirio.
A morte não tardou. Veiu mais depressa do que se receiava agora. Todas e o pae acudiram a rodear o leito, onde os signaes da agonia se precipitavam. Flora acabou como uma dessas tardes rapidas, não tanto que não façam ir doendo as saudades do dia; acabou tão serenamente que a expressão do rosto, quando lhe fecharam os olhos, era menos de defunta que de esculptura. As janellas, escancaradas, deixavam entrar o sol e o céu.
Não ha novidade nos enterros. Aquelle teve a circumstancia de percorrer as ruas em estado de sitio. Bem pensado, a morte não é outra cousa mais que uma cessação da liberdade de viver, cessação perpetua, ao passo que o decreto daquelle dia valeu só por 72 horas. Ao cabo de 72 horas, todas as liberdades seriam restauradas, menos a de reviver. Quem morreu, morreu. Era o caso de Flora; mas que crime teria commettido aquella moça, além do de viver, e porventura o de amar, não se sabe a quem, mas amar? Perdoai estas perguntas obscuras, que se não ajustam, antes se contrariam. A razão é que não recordo este obito sem pena, e ainda trago o enterro á vista...
Aqui vae a sair o caixão. Todos tiram o chapeu, logo que elle assoma á porta. Gente que passa, pára. Das janellas debruça-se a visinhança, em algumas atopeta-se, por serem as familias maiores que o espaço; ás portas, os criados. Todos os olhos examinam as pessoas que pegam nas alças do caixão, Baptista, Santos, Ayres, Pedro, Paulo, Nobrega.
Este, posto já não frequentasse a casa, mandara saber da enferma, e foi convidado a carregar o gracioso corpo. No carro, em que levava o secretario, e era puxado pela mais bella parelha do prestito, quasi unica, lembrava Nobrega ao secretario.
—Não lhe dizia eu que ella era doente? Era muito doente.
—Muito.
Não vou ao ponto de affirmar que teve prazer com a morte de Flora, só por havel-o feito acertar na noticia da doença, estando ella perfeitamente sã. Mas que ninguem fosse seu marido, foi uma especie de consolação. Houve mais; suppondo que ella o tivesse acceitado e casassem, pensava agora no esplendido enterro que lhe faria. Desenhava na imaginação o carro, o mais rico de todos, os cavallos e as suas plumas negras, o caixão, uma infinidade de cousas que, á força de compôr, cuidava feitas. Depois o tumulo; marmore, letras de ouro... O secretario para o arrancar á tristeza, falava dos objectos da rua.
—V. Ex. lembra-se do chafariz que havia aqui ha annos?
—Não, resmungava Nobrega.
Ainda uma vez, não ha novidade nos enterros. Dahi o provavel tedio dos coveiros, abrindo e fechando covas todos os dias. Não cantam, como os deHamlet, que temperam as tristezas do officio com as trovas do mesmo officio. Trazem o caixão da cal e a colher para os convidados, e para si as pás com que deitam a terra para dentro da cova. O pae e alguns amigos ficaram ao pé da cova de Flora, a ver cair a terra, a principio com aquelle baque soturno, depois com aquelle vagar cançativo, por mais que os pobres homens se apressem. Enifim, caiu toda a terra, e elles puzeram em cima as grinaldas dos paes e dos amigos: «À nossa querida filha»;—«À nossa santa amiguinha Flora a saudosa amiga Natividade»;—À Flora, um amigo velho», etc. Tudo feito, vieram saindo; o pae, entre Ayres e Santos, que lhe davam o braço, cambaleava. Ao portão, foram tomando os carros e partindo. Não deram pela falta de Pedro e Paulo que ficaram ao pé da cova.
Nenhum delles contou o tempo gasto naquelle logar. Sabem só que foi de silencio, de contemplação e de saudade. Não digo, para os não vexar agora, mas é possivel que chorassem tambem. Tinham um lenço na mão, enxugavam os olhos; depois com os braços caidos, as mãos prendendo o chapeo, olhavam apparentemente para as flôres que cobriam a sepultura, mas na realidade para a creatura que lá estava embaixo.
Emfim, cuidaram de arrancar-se dalli, e despedir-se da defunta, não se sabe com que palavras, nem se eram as mesmas; o sentido seria egual. Como estivessem defronte um do outro, acudiu-lhes a ideia de um aperto de mão por cima da cova. Era uma promessa, um juramento. Juntaram-se e vieram descendo, calados. Antes de chegar ao portão, reduziram á palavra o gesto das mãos feito sobre a cova. Que juravam a conciliação perpetua.
—Ella nos separou, disse Pedro; agora, que desappareceu, que nos una.
Paulo confirmou de cabeça.
—Talvez morresse para isso mesmo, accrescentou.
Depois, abraçaram-se. Gesto nem palavra traziam emphasis ou affectação; eram simples e sinceros. A sombra de Flora de certo os viu, ouviu e inscreveu aquella promessa de reconciliação nas taboas da eternidade. Ambos, por um impulso commum, voltaram os olhos para ver ainda uma vez a cova de Flora, mas a cova ficava longe e encoberta por grandes sepulchros, cruzes, collumnas, um mundo inteiro de gente passada, quasi esquecida. O cemiterio tinha um ar meio alegre, com todas aquellas grinaldas de flôres, baixo-relevos, bustos, e a côr branca dos marmores e da cal. Comparado á cova recente, parecia um renascimento de vida, que ficou deslembrada a um canto da cidade.
Custou-lhes sair do cemiterio. Não suppunham estar tão presos á defunta. Cada um d'elles ouvia a mesma voz, com egual doçura e palavras especiaes. Tinham chegado ao portão e o carro veiu buscal-os. A cara do cocheiro era radiosa.
Não se explica esta expressão do cocheiro, se não porque, inquieto da demora, não cuidando que os dous freguezes ficassem tanto tempo ao pé da cova, entrara a receiar que tivessem aceitado o convite de algum amigo e voltado para casa. Tinha já resolvido esperar poucos minutos mais, e ir embora; mas a gorjeta? A gorjeta foi dobrada, como a dôr e o amor; digamos, gemea.
Assim como o carro veiu voando do cemiterio, assim voará este capitulo, destinado a dizer primeira que a mãe dos gemeos conseguiu leval-os para Petropolis. Já não allegaram a clinica da Santa Caza nem os documentos da Bibliotheca Nacional. Clinica e documentos repousam agora na cova n... Não ponho o numero, para que algum curioso, se achar este livro na dita Bibliotheca, se dê ao trabalho de investigar e completar o texto. Basta o nome da defunta, que lá ficou dito e redito.
Vôe este capitulo, como o trem de Mauá, serra acima, até á cidade do repouso, do luxo e da galanteria. Vá Natividade com os filhos, e Ayres com os trez. Em cima, á noite, voltando este á casa do barão, pôde ver os effeitos da paz jurada, a conciliação final. Não sabia nada do pacto dos dous moços. Pae nem mãe sabiam cousa nenhuma. Foi um segredo guardado no silencio e no desejo sincero de commemorar uma creatura que os ligára, morrendo.
Natividade vivia agora enamorada dos filhos. Levava-os a toda parte, ou guardava-os para si, afim de os gostar mais deliciosamente, de os approvar por actos, de auxiliar a obra correctiva do tempo. Noticias e boatos do Rio de Janeiro eram objecto de conversação nas casas a que estes iam, sem os convidar a sair da abstenção voluntaria. As recreações pouco a pouco os tomaram, algum passeio de carro ou a cavallo, e outras diversões os traziam unidos.
Assim chegaram ao tempo em que a familia Santos desceu, ainda que a contra-gosto de Natividade. Ella temia que, mais perto do governo, a discordia politica acabasse com a recente harmonia dos filhos, mas não podia lá ficar. A outra gente vinha descendo. Santos queria os seus velhos habitos, e deu algumas razões boas, que Natividade ouviu depois ao proprio Ayres. Podia ser um encontro de ideias, mas se estas eram boas, deviam ser acceitas.
Natividade confiava ao tempo a perfeição da obra; Cria no tempo. Eu, em menino, sempre o vi pintado como um velho de barbas brancas e foice na mão, que me mettia medo. Quanto a ti, amigo meu, ou amiga minha, segundo fôr o sexo da pessoa que me lê, se não fôrem duas, e os sexos ambos,—um casal de noivos, por exemplo,—curiosos de saber como é que Pedro e Paulo puderam estar no mesmo Credo... Não falemos desse mysterio.... Contenta-te de saber que elles tinham em mente cumprir o juramento daquelle logar e occasião. O tempo trouxe o fim da estação, como nos outros annos, e Petropolis deixou Petropolis.
«Quando um não quer, dous não brigam» tal é o velho proverbio que ouvi em rapaz, a melhor edade para ouvir proverbios. Na edade madura elles devem já fazer parte da bagagem da vida, fructos da experiencia antiga e commum. Eu cria neste; mas não foi elle que me deu a resolução de não brigar nunca. Foi por achal-o em mim que lhe dei credito. Ainda que não existisse, era a mesma cousa. Quanto ao modo de não querer, não respondo, não sei. Ninguem me constrangia. Todos os temperamentos iam commigo; poucas divergencias tive, e perdi só uma ou duas amizades, tão pacificamente aliás, que os amigos perdidos não deixaram de me tirar o chapeo. Um delles pediu-me perdão no testamento.
No caso dos gemeos eram ambos que não queriam; parecia-lhes ouvir uma voz de fóra ou de alto que lhes pedia constantemente a paz. Força maior, portanto, e troca de formula: «Se nenhum quer, nenhum briga.»
Naturalmente os actos do governo eram approvados e desapprovados, mas a certeza de que podia accender-Ihes novamente os odios fazia com que as opiniões de Pedro e de Paulo ficassem entre os seus amigos pessoaes. Não pensavam nada á vista um do outro. Divergencias de theatro ou de rua, eram sopitadas logo, por mais que lhes doesse o silencio. Não doeria tanto a Pedro, como a Paulo, mas sempre era padecer alguma cousa. Mudando de pensamento, esqueciam de todo, e o riso da mãe era a paga de ambos.
A carreira differente ia separal-os depressa, comquanto a residencia commum os trouxesse unidos. Tudo se podia combinar; os interesses do officio serviriam a este effeito, as relações pessoaes tambem, e afinal o uso, que vale por muito. Vou aqui resumindo, como posso, as esperanças de Natividade. Outras havia a que chamarei conjugaes; os rapazes porém, não pareciain inclinados a ellas, e a mãe, quem lhe apalpasse o coração sentiria já um anticipado ciume das noras.
Na vespera do dia em que se completou o primeiro mez da morte de Flora, Pedro teve uma ideia, que não communicou ao irmão. Não perderia nada em fazel-o, porque Paulo teve a mesma ideia, e tambem a calou. Della nasce este capitulo.
A pretexto de ir visitar um doente, Pedro saiu de casa, antes das sete horas. Paulo saiu pouco depois, sem pretexto algum. Pia leitora, adivinhas que ambos fôram ao cemiterio; não adivinhas, nem é facil adivinhar que cada um delles levava uma grinalda. Não digo que fossem das mesmas flores, não só para respeitar a verdade, senão tambem para afastar qualquer ideia intencional de symetria na acção e no acaso. Uma era de myosotis, outra creio que de perpetuas. Qual fosse a de um, qual a do outro, não se sabe nem interessa á narração. Nenhuma tinha letreiro.
Quando Paulo chegou ao cemiterio, e viu de longe o irmão, teve a sensação de pessoa roubada. Cuidava ser unico e era ultimo. A presumpção, porém, de que Pedro não levára nada, uma folha sequer, consolou-o da antecipação da visita. Esperou alguns instantes; advertindo que podia ser visto, desviou-se do caminho, metteu-se por entre sepulturas, até ir collocar-se atraz daquella. Ahi esperou cerca de um quarto de hora. Pedro não se queria arrancar dalli; parecia falar e escutar. Emfim, despediu-se e desceu.
Paulo, vagorosamente, caminhou para a sepultura. Indo a depositar a grinalda, viu alli outra posta de fresco, e entendendo que era do irmão, teve impeto de ir atraz delle e pedir-lhe contas da lembrança e da visita. Não lhe leves a mal o impeto; passou immediatamente. O que elle fez foi collocar a coroa que levava no lado correspondente aos pés da defunta, para não a irmanar com a outra, que estava do lado da cabeça.
Não viu, não adivinhou sequer que Pedro naturalmente pararia um instante, para voltar a cara e mandar um derradeiro olhar á moça enterrada. Assim foi, mas quando Pedro deu com o irmão, no mesmo logar que elle, os olhos no chão, teve tambem o seu impulso de ir buscal-o e trazel-o daquella cova sagrada. Preferiu esconder-se e esperar. Os gestos de piedade, quaesquer que fossem, elle os deu primeiro á querida commum. Foi o primeiro em evocar a sombra de Flora, falar-lhe, ouvil-a, gemer com ella a separação eterna. Viera adiante do outro; lembrara-se della mais cedo.
Assim consolado, podia seguir caminho; Paulo, se saisse atraz delle, e o visse, entenderia que fizera a sua visita em segundo logar, e receberia um golpe grande. Deu alguns passos na direcção do portão, estacou, recuou e novamente se escondeu. Queria ver os gestos delle, ver se rezava, se se benzia, para desmentil-o quando lhe ouvisse mofar das ceremonias ecclesiasticas. Logo sentiu que era um erro; não iria confessar a ninguem que o vira rezando ao pé da cova de Flora. Ao contrario, era capaz de o desmentir, —ou, quando menos, fazer um gesto de incredulidade...
Emquanto estas imaginações lhe passavam pela cabeça, desfazendo-se umas ás outras, discursando sem palavras, acceitando, repellindo, esperando, os olhos não se retiravam do irmão, nem este da sepultura. Paulo não fazia gesto, não mexia os labios, tinha os braços cruzados, o chapeo na mão. Não obstante, podia estar rezando. Tambem podia falar calado, para a sombra ou para a memoria da defunta. A verdade é que não saiu do logar. Então Pedro viu que a conversação, evocação, adoração, o que quer que fosse que atava Paulo á sepultura, vinha sendo muito mais demorado que as suas orações. Não marcára o seu tempo, mas evidentemente o de Paulo era já maior. Descontando a impaciencia, que sempre faz crescer os minutos, ainda assim parecia certo que Paulo gastava mais saudades que elle. Deste modo, ganhava na extensão da visita o que perdera na chegada ao cemiterio. Pedro, á sua vez, achou-se roubado.
Quiz sair; mas, uma força, que elle não sabia explicar, não lhe consentia levantar os pés, nem tirar os olhos do gemeo. A custo, pôde emfim trazer a estes e fazel-os andar de volta pelas outras campas, onde leu alguns epitaphios. Um de 1865 não se podia ler bem se era tributo de amor filial ou conjugal, maternal ou paternal, por estar já apagado o adjectivo. Tributo era, tinha a formula adoptada pelos marmoristas, para poupar estylo aos freguezes. Notando que o adjectivo estava comido do tempo, Pedro disse comsigo que o seu amor é que era um substantivo perpetuo, não precisando mais nada para se definir.
Pensou outras cousas com que foi disfarçando a humilhação. Fizera tudo ás carreiras. Se se demorasse mais, era o outro que estaria agora á espreita. O tempo andava, o sol batia no rosto do irmão, e este não arredava pé. Emfim, deu mostras de deixar a cova, mas foi para rodeal-a, e deter-se em todos os quatro lados, como se buscasse o melhor logar de ver ou evocar a pessoa guardada no fundo.
Tudo feito, Paulo arredou-se, desceu e saiu, levando as maldições de Pedro. Este teve uma ideia que desprezou logo, e tu farias o mesmo, amigo leitor; foi tornar á sepultura e emendar ao tempo gasto anteriormente outro pedaço maior. Desprezada a ideia, vagou alguns minutos, até que saiu, sem achar sombra de Paulo.
Flora, se visse os gestos de ambos, é provavel que descesse do céu, e buscasse maneira de os ouvir perpetuamente, uma Beatriz para dous. Mas não viu ou não lhe pareceu bem descer. Talvez não achasse necessidade de tornar cá, para servir de madrinha a um duello que deixara em meio.
Quanto a este, se ia continuar, não era pela mesma injuria. Não esqueças que foi ao pé daquella mesma campa que os dous fizeram as pazes eternas, e, posto não lh'as desfizesse a campa, é certo que accendeu um pouco da ira antiga. Dir-me-has, e com apparencia de razão, que, se enterrada ainda os separava, mais os separaria se alli descesse em espirito. Puro engano, amigo. No começo, ao menos, elles jurariam o que ella mandasse.
Mezes depois, Pedro abria consultorio medico, aonde iam pessoas doentes, Paulo banca de advogado, que procuravam os carecidos de justiça. Um promettia saude, outro ganho de causa, e acertavam muita vez, porque não lhes faltava talento nem fortuna. Demais, não trabalhavam sós, mas cada qual com um collega de nomeada e pratico.
No meio dos successos do tempo, entre os quaes avultavam a rebellião da esquadra e os combates do sul, a fuzilaria contra a cidade, os discursos inflammados, prisões, musicas e outros rumores, não lhes faltava campo em que divergissem. Nem era preciso politica.. Cresciam agora mais em numero as occasiões e as materias. Ainda quando combinassem de acaso e de apparencia, era para discordar logo e de vez, não deliberamente, mas por não poder ser de outro modo.
Tinham perdido o accordo, feito pela razão, jurado pelo amor, em honra da moça defunta e da mãe viva. Mal se podiam ver, mal ou peor ouvir. Cuidaram de evitar tudo o que o logar e a occasião ajustassem para os separar mais. Desta maneira, a profissão torceu-lhes o caminho e dividiu as relações de ambos. Natividade apenas daria pela má vontade dos filhos, desde que os dous pareciam apostados em lhe querer bem, mas dava por ella, e tentava ligal-os apertadamente e de todo. Santos folgava de se prolongar pela medicina e pela advocacia dos filhos. Só receiava que Paulo, dada a inclinação partidaria, buscasse noiva jacobina. Não ousando dizer-lhe nada a tal respeito, refugiava-se na religião, e não ouvia missa que lhe não mettesse uma oração particular e secreta, para obter a protecção do céu.
Se não quando, viu Natividade os primeiros signaes de uma troca de inclinação, que mais parecia proposito que effeito natural. Entretanto, era naturalissimo. Paulo entrou a fazer opposição ao governo, ao passo que Pedro moderava o tom e o sentido, e acabava acceitando o regimen republicano, objecto de tantas desavenças.
A acceitação por parte deste não foi rapida nem total; era, porém, bastante para sentir que não havia entre elle e o novo governo um abysmo. Naturalmente o tempo e a reflexão consummaram este effeito no espirito de Pedro, a não admittir que tambem nelle vingasse a ambição de um grande destino, esperança da mãe. Natividade, com effeito, ficou deliciada. Tambem ella mudara, se havia que mudar na simples alma materna para quem todos os regimens valiam pela gloria dos filhos. Pedro, aliás, não se dava todo, restringia alguma cousa ás pessoas e ao systema, mas acceitava o principio, e bastava; o resto viria com a edade, dizia ella.
A opposição de Paulo não era ao principio, mas á execução. Não é esta a republica dos meus sonhos, dizia elle; e dispunha-se a reformal-a em trez tempos, com a fina flor das instituições humanas, não presentes nem passadas, mas futuras. Quando falava dellas, via-se-lhe a convicção nos labios e nos olhos, estes alongados, como alma de propheta. Era outro ensejo de se não entenderem os dous. D. Claudia tinha que era calculo de ambos para se não juntarem nunca;—opinião que Natividade acceitaria, finalmente, se não fôra a de Ayres.
Tambem este notára a mudança, e estava prestes a acceitar a explicação, por aquella razão de commodidade que achava em concordar com as opiniões alheias; não se cançava nem aborrecia. Tanto melhor, se o accordo se fazia com um simples gesto. Desta vez, porém, valeu a pessoa.
—Não, baroneza, disse elle, não creia em propositos.
—Mas que póde ser então?
Ayres gastou algum tempo na escolha das palavras, afim de lhe não sairem pedantescas nem insignificantes; queria dizer o que pensava. Às vezes, falar não custa menos que pensar. Ao fim de trez minutos, segredou a Natividade:
—A razão parece-me ser que o espirito de inquietação reside em Paulo, e o de conservação em Pedro. Um já se contenta do que está, outro acha que é pouco e pouquissimo, e quizera ir ao ponto a que não fôram homens. Em summa, não lhes importam formas de governo, comtanto que a sociedade fique firme ou se atire para diante. Se não concorda commigo, concorde com D. Claudia.
Ayres não tinha aquelle triste peccado dos opiniaticos; não lhe importava ser ou não acceito. Não é a primeira vez que o digo, mas provavelmente é a ultima. Em verdade, a mãe dos gemeos não quiz outra explicação. Nem por isso a discordia morreria entre elles, que apenas trocavam de armas para continuar o mesmo duello. Ouvindo esta conclusão, Ayres fez um gesto affirmativo, e chamou a attenção de Natividade para a côr do céu, que era a mesma, antes e depois da chuva. Suppondo que havia nisto algo symbolico, ella entrou a procural-o, e o mesmo farias tú, leitor, se lá estivesses; mas não havia nada.