A QUEM LER

A QUEM LERVenho já a declarar que me desgosta o titulo d'este meu romance; mas não é esta a primeira vez que meus actos, invenções e palavras me desgostam, embora extranhos applaudam uns e outras.Tem uma certa graça, mixto de luz e escuridade, aquelle titulo: o que não tem é verdade, verdade moral, acommodada á minha philosophia.No romance que publiquei, intituladoAS TRES IRMÃS, rematei dizendo que não ha bons nem maus destinos, como se dissesse que o homem é o responsavel, o agente, o motor arbitrario de suas acções, das quaes lhe advém o socego ou a inquietação, a dita ou a desdita, a publica estima ou a desprezadora abominação.Quem tal crê e disse, rejeita e desadora estrellas propicias ou funestas, como cousa de agouros, de crendices, de poetas, e de vulgar superstição.O titulo, pois, tem muito com a fórma, e pouquissimo ou nada com a substancia d'esta novella. Quem não quizer chamar-lheESTRELLAS FUNESTAS, emende para osMAUS CAMINHOS DA DESGRAÇA, ou outro titulo{6}de seu sabor, que eu de tudo me contento, se o não denominaremINVENÇÕES DO AUCTOR.Historia mais verdadeira nunca eu a escrevi. Por verdadeira de mais, estiveram os apontamentos d'ella a olvidarem-se-me na escuridade para onde os afastaram deferencias, appellidos e pessoas, umas que se prezam em si, outras, menos em si, e muito em seus antepassados.Deliberei, depois de censurado por pessoa que, a meu instar, me cedera as notas, a dar á estampa successos, que a bem merecem, por serem de lição a infelizes, caidos em abysmos por suas proprias mãos abertos. Para me expôr á somenos tacha de indiscreto, mudei nomes, sentindo não poder mudar localidades, que então lá se ia abaixo, na rampa das chamadas conveniencias, o timbre da verdade historica, a côr, a essencia, o melhor das obras de arte.Se, mesmo assim, muitos leitores, maiores de cincoenta annos, levantarem o sendal com que lhes quiz encobrir algumas feições da verdade, e as divulgarem a seus amigos, d'aqui me despeno da coima de linguareiro, offensor de cinzas illustres, e assoprador d'ellas aos olhos de quem os fecha para não ver os peccados de seus avós, contentando-se com ve'-los retratados na lona, e ennobrecidos nos bens herdados.Dou-me pressa em destruir prevenções. Varram de sua idéa a perspectiva de que eu vá quebrar lages e carneiros por essas egrejas e capellas, chamando a juizo de homens as ossadas que, de muito, se ficaram esperando{7}a volta do espirito para o supremo dia. Longe d'isso. Tenho escassamente uma pobre penna de historiador; são leveiras de mais as minhas mãos para sustentarem a balança dos julgamentos, cujo fiel, para obedecer ao ouro fio, releva que penda em dedos, menos encodeados na cenosidade dos vicios.Aquietem, pois, seus escrupulos os fieis á religião dos tumulos. Hão de ir comigo ao longo de um salão, em cujas paredes, sob profundos tectos de castanho armorejados, pende uma galeria de retratos, uns carrancudos como a philaucía, outros sorrindo ironicos, como em desprezo da nossa contemplação. As arrogantes effigies, ao cabo de contas, ficarão rindo; e nós bem póde ser que passemos chorando, porque somos de uma geração que não póde, nem quer, fazer riso da desgraça.Esta historia é innocente. Podem le'-la senhoras de imaginação impressionavel, e os moços descontentes da vida incolor e monotona que a sociedade lhes prescreve. O auctor, quando era capaz, não enganou alguem escrevendo: ahi estão uns trinta volumes a defende'-lo da calumnia, se alguem o argue de romancista corruptor. Agora, que está velho, dobrada obrigação lhe corre de desvanecer preconceitos, que disparam em desordem da vida, e sacrificam os thesouros da paz ao pobre do coração, que tão mal os paga, por não ter cousa boa que dar por elles.Crê o auctor que ha, no caminho da vida, muitas paragens alegres, se o caminheiro as sabe ver com os olhos já cançados de perseguir as fugitivas visões. Nem{8}podia deixar de ser assim, a menos que a verdade, filha do céo, não fosse um mal. E a verdade, para uns temporã, e serôdea para outros, a final, a todos allumia, como o sol do Senhor, que primeiro doura a colmada choça do montanhez, e depois desce os flancos da serra, doura e lustra os zimborios dos palacios, e verte do seu zenith um raio nas cavernas onde a formiga passeia por entre as unhas do leão.Aquellas paragens verdadeiras do caminho da vida são hospedagem commum; todavia, os mais dilectos do anjo bom, que alli recebe os peregrinos, são os mais infelizes, os mais quebrantados da jornada, os que subiram até lá o desfiladeiro das illusões, e bem mereceram a graça do anjo, rebaptisados na agua de suas lagrimas.Sentado n'uma d'essas paragens é que eu conto esta historia ás pessoas que a quizerem ouvir por complacencia com a minha velhice, e porque eu lhe assevero que este e todos os meus romances, olham a prevenir o leitor contra os infortunios procedentes da mentira do coração.{9}ESTRELLAS FUNESTASPRIMEIRA PARTEIAlardeava em Lisboa suas pompas, liberalidades e desperdicios de rico morgado da provincia, Gonçalo Malafaya, primogenito e unico de uma das tres nobilissimas e mais opulentas casas do Porto.Ha muitos annos foi isto. Ahi por 1778 é que o fidalgo portuense dava invejas aos da côrte, e a muitos namorados se atravessava, tentando a constancia das damas, e saíndo com a victoria, de que elle se lograva por mera ostentação, e nada mais que mareasse seu pundonor, ou o d'ellas.Algumas d'essas damas levavam-lhe vantagem em pureza de sangue, e pouco o desegualavam em bens de fortuna. Admiravam-se os amigos de Gonçalo Malafaya que elle rejeitasse allianças de bom partido, vistas as condições das donas. Respondia elle que, desde menino,{10}estava o seu casamento pactuado com D. Maria das Dôres, sua prima carnal, tambem filha unica, e successora de grandes vinculos nas provincias do norte.D. Maria das Dôres, menina de treze annos, saíra do convento de Arouca, onde fôra educada com suas tias, e vestira o magestoso habito de aia da santa rainha Mafalda, costumeira já esquecida n'aquelle mosteiro, fundado por uma rainha portugueza d'aquelle nome.A joven aia saíu do mosteiro, com os seus bellos olhos menos levantados ao céo que inclinados ao espelho, e viu-se bonita, por comparação com as feias. Achou-se, ao mesmo tempo, na primavera da vida e na do anno.Parece que a natureza inteira lhe estava dando uma festa. Recordar-se do seu quarto sombrio do convento, e das rabugentas admoestações e querellas de suas tias, era-lhe um retrospecto enjoativo. Seus paes andavam como a amostra'-la de casa em casa, maravilhados do juizo da morgadinha. O juizo de Maria das Dôres, a olhos extranhos, teria antes nome de mau genio, pois não era mais que uma desmesurada vaidade de sua pessoa, e altivez com que tratava mordomos, caseiros, creados, e ainda pessoas independentes de sua casa, que a não hombreavam em fidalguia. Esta prenda lhe incutiram as tias, freiras que passavam por boas, e santas mesmo seriam; mas muitas vezes estariam a pique de perderem suas almas, pela peccaminosa soberba com que disputavam primazias de linhagem com as suas conventuaes. Na cella das duas senhoras ou se falava de milagres ou de fidalguia; e era ordinario passarem da{11}linguagem, edificativa de sua visionaria crença em milagres, ao vanglorioso discurso de sua arvore genealogica, em demerito de alguma illustre religiosa bernarda, que, por sua parte, mofava da philaucía das nossas velhas senhoras, a quem Deus terá perdoado a fragilidade, por ser a mais inoffensiva de quantas ha.O maior mal, proveniente d'isso, foi a vaidade da sobrinha; se, porém, seus paes gostavam d'ella assim, póde dizer-se que a educação de Maria fôra perfeita, á vontade dos paes.Soberba com os fidalgos, que a requestavam, é que ella não era, nem os seus quatorze annos extranhavam a linguagem galanteadora. Já lá no convento a aia de Santa Mafalda ouvira falar muito de coração ás religiosas que o traziam exteriormente amortalhado no habito; presenceára por lá muitas borrascas passageiras de ciumes; ouvia conversações pouco recatadas das freiras com as noviças ácerca de certos primos que alli vinham de longes terras a estiarem saudades nas grades, e banquetearem-se do refeitorio monastico. Era tudo ísto de si tão trivial n'aquelles tempos, que um pae, impondo a suas filhas a profissão, tacitamente lhes dava a partido poderem ellas violar o voto pela mesma razão que elles lhes violavam as propensões. E, portanto, nenhuma religiosa, em annos desculpaveis, se pejava de tratar questões de amor, quando ia para o côro, ou voltava do côro, mixturando os psalmos de penitencia com os alambicados conceitos em que, por via de regra, começavam e findavam aquelles amores. E como ninguem se escandalisava{12}de tal, quer-me parecer que o peccado seria insignificante.Como disse, concorreram desde logo á mão da herdeira os mais nobres appellidos d'estas provincias, uns tendo-a visto, outros não a vendo nunca; uns amando-a de repente, outros aborrecendo-lhe as maneiras, e mesmo a boca defeituosa. Maria das Dôres lá tinha no seu patrimonio tempero com que adubar-se para todos os paladares; ella porém dizia a suas amigas, empenhadas a favor de irmãos ou parentes, que o seu casamento estava justo desde o berço com o primo Gonçalo Malafaya.N'aquelle tempo, semelhantes contractos entre duas familias, cujos contrahentes eram dois meninos no berço, eram inquebrantaveis. As creanças, aos sete annos, já se conheciam como esposos futuros; e, conforme iam crescendo e ouvindo falar do casamento, não tinham mesmo tempo de córar um do outro, quando, aos quatorze annos nupciaes, a esposada arrumava as bonecas para cuidar do marido. Raras vezes acontecia rebellarem-se os filhos compromettidos, contra a vontade dos paes. Se se amavam, era uma fortuna, tambem rara; se não se amavam, o que fariam era mutilar o coração, atrophia'-lo á custa de lhe abafar as pulsações, e deixa'-lo para ahi estar no peito, em lethargia, cujo despertar, já fóra de tempo, trazia ás vezes grandes desgraças e inuteis lições.A esta regra usual, quiz o acaso contrapôr uma excepção, incutindo no animo de Gonçalo Malafaya extraordinarios{13}affectos a uma dama lisbonense, e no de Maria das Dôres imperiosa inclinação a um cavalheiro de Amarante.Pediu Gonçalo aos paes licença para casar com a menina, mandando-lhes um traslado da arvore genealogica da sua amada. Os velhos responderam-lhe negativamente, com muitas razões, sendo a primeira razão do casamento evitar a demanda por causa dos vinculos de Freijoim e Aguas Santas; segunda razão, andarem ligadas as duas familias, através de nove gerações desde 1530; terceira razão, a palavra dada, entre fidalgos que a tinham em maior valia que a propria vida. Seguiam-se outras razões, rematadas por esta paternal caricia:Se desobedeceres á honra, aos paes e aos deveres a que teus appellidos te obrigam, conta com a nossa maldição.Gonçalo abafou os respiradouros do coração, e saíu de Lisboa, caminho de sua casa. Muito sizo teve elle em conhecer o nenhum remedio do seu mau destino, e fugir á presença da senhora, expediente unico de salvar-se, e salva'-la de maiores dôres. Salvaria?...Alem de quê, o mancebo, para distrair saudades na jornada, ia pensando em sua prima, que elle vira galantinha, aos oito annos, e acompanhára a Arouca, tendo elle doze. Lembrava-se de lhe ter dado flores, e recebido, nas festas do anno, umas bocetas de murcellas muito enfeitadas, com trama de papel dourado, e as iniciaes da prima floreadas e entrelaçadas nas suas. Depois, uns versos, que ella lhe mandára para Lisboa, escriptos naturalmente{14}pelo capellão de Arouca, frade bernardo, que apanhára as musas de surpresa.Com estas e outras imaginações, conseguira Gonçalo empanar o retrato da fidalga da côrte, visão teimosa que ainda a revezes lhe apparecia n'algum relance poetico da jornada, onde assombreavam arvores, ou herveciam prados, ou murmuravam fontes. A saudade é a poesia de todo o homem. O que melhores poetas teem dito, melhor o teem sentido pessoas que nunca fizeram versos. Onde virdes um homem recolhido com a sua saudade, ahi está um poeta, porque a poesia não quer dizer senão «enlevo doloroso».Entretanto Maria das Dôres, sobejamente senhora de seus olhos e palavras, ia alimentando esperanças ao morgado de Amarante, e nutrindo as suas á sombra da ostensiva indifferença dos paes. Estes, porém, avisados ou surprehendidos, atalharam o pendor da filha, dizendo-lhe que bem sabiam que o seu galanteio era um brinquedo; mas convinha pôr-lhe termo, porque estava a chegar de Lisboa o primo Gonçalo. Maria, acostumada a dizer desassombradamente seus pensamentos, declarou que antes queria casar com o de Amarante, a quem amava. Rebateram-lhe os paes a frivola razão, com outras eguaes na substancia e na fórma ás que demoveram Gonçalo, mas Maria, menos reflexiva ou mais animada, replicou com um secco e desabrido «não quero», ousadia que deu em resultado ser a menina ameaçada de entrar outra vez no mosteiro de Arouca, e esperar lá que o juizo viesse.{15}Maria, mediante os carinhosos conselhos da mãe, cedeu á vontade do pae; e afastou-se do solarengo do Tamega, o qual, prezando-se de cavalheiro tambem se retirou aos seus senhorios, respeitando a convenção feita entre as duas familias sobre o consorcio dos seus representantes.Chegou Gonçalo de Malafaya, no remate d'este episodio.Viu sua prima, e reparou logo n'uma verruga que ella tinha a um canto da bocca, e no desaire que lhe dava aos beiços. Achou-a mal ageitada de corpo, desgraciosa nos meneios, rustica nas palavras, e com manifestas tendencias a medrar muito em largura, e a não espigar mais. Assim devera ser. Se elle vinha affeito ás gentilezas das damas da côrte, d'aquellas tantas que elle amára, todas bem fallantes, discretas, esbeltas, apertadas de cinta, arrastando soberanos donaires com muito garbo, dízendo tudo como quem canta, extendendo aquelles gemebundosans, como cauda das palavras, geito tão antigo em Lisboa, que já, em 1650, D. Francisco Manuel, faz riso d'essas modulações esquisitas, de que o nosso fidalgo portuense tinha tantas saudades! Em summa, Gonçalo não gostou da prima.Ora Maria das Dôres, á primeira vista, achou que o primo Gonçalo vestia uma casaca muito bonita de seda azul com bordados muito casquilhos nas portinholas, e que tinha um pé pequenissimo, quasi todo coberto por uma fivella de ouro rendilhado em galantes feitios. Ouviu-o falar com grande encarecimento das fidalgas{16}de Lisboa, especialmente de uma que era filha do conde de Miranda, a qual, para ser amada, o falar era sobejo, que, mostrando-se, cego devia ser quem a não adorasse. O pobre mancebo parece que assim estava desabafando a sua paixão, ou refrigerando a saudade, que mais se assanhára, comparando a senhora de Lisboa com a prima do Porto. Naturalmente, Maria das Dôres, resentiu-se dos gabos indelicados ás meninas de Lisboa, e com intencional preferencia a uma filha do conde, cujo nome Gonçalo pronunciava, suspirando, como pessoas beatas suspiram proferindo o nome do santo ou santa de sua devoção. Desde ahi, a fidalguinha começou a amuar-se, e a metter á galhofa o primo, ora arremedando-lhe a cantoria do palavreado á lisboeta, ora tomando posturas comicas de pernas e de braços, imitando-lhe as attitudes palacianas, que bem póde ser Gonçalo as exaggerasse um pouco. O que certissimamente aconteceu foi Maria das Dôres não gostar de seu primo.Aqui temos, pois, os dois noivos, face a face, quando o enxoval da esposada está prompto, e o palacete do moço se preparava, e os primos de longe teem já convite para dia designado.Maria das Dôres teve a innocente coragem de dizer a seus paes que aborrecia o primo Gonçalo.—És tola!—disse-lhe o pae.—És uma creança!—accrescentou a mãe.E continuaram a azafama, para que tudo sobejasse nos festejos nupciaes, excepto a alegria dos desposados. Gonçalo Malafaya ousou ainda contrariar a vontade paternal,{17}dizendo a medo, que um casamento assim não promettia senão desgraças. O velho rebateu victoriosamente a frioleira do filho, contando-lhe em miudos a historia do seu casamento, e do casamento de seu pae, e de seu avô. Eram tres historias, que o leitor dispensa saber, e tem razão. A moralidade de todas era que tanto elle, como seus illustres pae e avô, tinham casado com primas, sem amor nem vontade, e com muita repugnancia; e, apesar de tudo, tinham vivido felizes, ou pelo menos resignados, visto que, ajuntava o velho, o coração pouco tem que ver com o casamento, e casamento será tudo quanto ha mau, mas escravidão de certo não é. E a este proposito, discorreu o velho Malafaya alguns despropositos, que iam mal a seus cabellos brancos, e bem podiam chamar-se o prefacio desmoralisador de um casamento. Porém, como estas causas, postas em balança com a indisposição matrimonial do filho, inclinassem para o peor lado o fiel, o velho cuidou equilibrar os pratos lançando no mais leve os vinculos litigaveis de Freijoim e Aguas Santas, os quaes rendiam seis mil cruzados, e estavam na casa com mui duvidosa legalidade.Na ante-vespera do casamento, as duas familias, lavradas as escripturas para segurança dos bens livres, foram de passeio, Douro acima, á Pedra Salgada, onde um dos contrahentes tinha uma quinta.Era pelo tempo do savel. Os pescadores de Valbom carregavam nos barcos as redadas da sua pescaria, Maria das Dôres entretinha-se a contemplar a labutação dos{18}pescadores, e as rimas de peixe extendidas no areal. Aguilhoada pelo appetite, exclamou:—Ó minha mãe! tenho vontade de comer savel; mande comprar um, que eu tenho vontade de savel assado!Toda a gente riu urbanamente do appetite da menina, excepto Gonçalo que, em sua consciencia, classificou de grosseirismo o desejo, e muito boçal a maneira de o exprimir. Então, para seu maior flagello, lhe acudiu á idéa a recordação de uma merenda a que assistira em Cintra com a filha do conde; na qual merenda de indelevel saudade, a perfumada e espiritual menina escassamente comeu um terço da aza de pombo, um olho de alface, e dois gomos de laranja, e, ainda assim, a pedido do amantissimo Gonçalo; que, se elle não insta, áquella compleição angelica bastaria o cheiro da madresilva. Se ao menos, Maria das Dôres tivesse cobiça de savel, e o não comesse!... Seria um gosto pueril, sem o desagradavel espectaculo da deglutição, em que ella era de todo o ponto natural, sem ter na menor conta os preceitos da cerimonia, que mandam engulir tão subtilmente que nos não ouçam o rumor do mastigar. Maria das Dôres mastigava o savel com a presteza de mandibulas egual á impaciencia do seu appetite. Comeu, antes de jantar, na presença do noivo e dos numerosos parentes, duas grossas postas do pescado, como a filha do conde de Lisboa, em identicas circumstancias, ouviria em delicias, duas odes anacreonticas, recitadas pelo noivo á sombra dos arvoredos da sua Cintra.{19}Ora eu que, até certo ponto, não estabeleço estremas entre as mulheres, e as julgo eguaes perante a lei do amor honesto, opponho-me á distincção, que Gonçalo fazia entre as duas senhoras. O meu parecer é que se Maria das Dôres amasse o primo, comeria apenas o terço da aza do pombo, e o olho da alface, e os dois gomos de laranja; e que a filha do conde, se não amasse Gonçalo, comeria as postas do savel fresco, se o tivesse em Cintra. A sciencia ha de andar sempre ás aranhas n'estes mysterios do coração relacionados com o funccionalismo do estomago.Depois do jantar, durante o qual a morgada demonstrou que o sável fôra um prologo curto de um grande livro, Gonçalo retirou-se com a sua dôr a um recanto da quinta, onde havia um tanque, em que nadavam patos, á sombra de copados chorões. Indo Maria das Dôres vêr rebanharem-se os seus patos, deu de rosto com o primo, que estava lendo umas cartas, já avincadas do muito uso.—Estavas aqui?!—disse ella, em ar de retroceder.—Vem cá, prima Maria das Dôres—disse elle emmassando as cartas na carteira de marroquim.—Senta-te ao pé de mim.A menina foi sentar-se ao pé d'elle, atirando migalhas de cavacas de Arouca aos patos.—Gosto tanto destas aves!—disse ella. Creei-as no convento, e trouxe-as comigo. Olha como ellas me conhecem!...—Hei-de mandar vir de Lisboa—disse Gonçalo—um{20}casal de patos reaes, para te dar, prima, que são muito lindos.—Eu gosto mais d'estes—atalhou ella.—Mas, se eu te der outros, tambem has-de gostar d'elles, prima Maria das Dôres?—Tambem, mas estes fui eu que os creei, e os outros já de lá vem creados pela filha do conde provavelmente...Fez Gonçalo um gesto de espanto, e de zanga, vendo a ironia mais expressiva no rosto que nas palavras da prima.—A que veiu aqui a filha do conde!?—disse elle com azedume.—É que tu estás sempre, a proposito de tudo, com a filha do conde ás voltas. Ninguem veste, nem fala, nem anda como ella. Se a prima Peixoto faz um rico vestido, a filha do conde tem um mais rico. Se eu compro um collar de granadas, a filha do conde tinha um de esmeraldas. Se a prima de Simães vem á cidade vestida de campo, como se vestem na França as damas da côrte, a filha do conde é que sabia vestir-se a preceito, quando cavalgava por Cintra, com admiração de toda a gente. É sempre a filha do conde para tudo! Por isso é que pensei que os patos reaes tambem eram da filha do conde.Gonçalo Malafaya ficou atordoado, já pela affronta feita á mulher cujas cartas apaixonadas estivera lendo, já pela extranheza que lhe causou o desembaraço da menina, que, até áquella hora, simulára completa indifferença,{21}ouvindo-o falar da filha do conde de Miranda. Fez-se, porém, uma instantanea mudança no espirito do noivo, saudavel mudança que lhe lisongeou a vaidade. Julgou elle que Maria o accusava de desleal, e de puro ciume rompia n'aquella insolita ironia contra a lisbonense. Isto, que parece nada, foi grande parte na quietação de Gonçalo. O ciume da mulher, de quem se não espera nem pede amor, é uma revelação agradavel, ainda mesmo que valha pouco para a felicidade do coração.Depois de alguns instantes de silencio durante os quaes Maria continuava a esmigalhar cavacas aos seus dilectos patos, disse Gonçalo:—Eu tenho falado na filha do conde de Miranda por que ella é o ornamento da côrte e o modélo das fidalgas.—Deixa'-la ser...—atalhou Maria—Que tenho eu com isso? Eu cá, visto, e ando, e falo como sei, ou como me ensinaram; e ella faz o mesmo; se o faz melhor, seu proveito. Por que não casaste com ella, primo?—Por que nossos paes querem que eu case comtigo. E tu por que não casaste com o Magalhães de Amarante?Maria córou, e deu graças ao seu anjo da guarda, quando viu entre as arvores proximas um rancho de senhoras e homens que andavam em busca dos noivos.Gonçalo apenas teve tempo de lhe dizer:—Não te parece que a nossa união será uma grande desgraça?A prima não respondeu; levantou-se de golpe, e foi de{22}corrida ao encontro das senhoras que traziam abadas de rosas para espalharem sobre a noiva e Gonçalo que recebeu friamente a graça.Seria ajuizado conjecturarmos que, depois d'aquelle desamoravel colloquio dos primos, um ou ambos rompessem abertamente contra a submissão, fugindo ao abysmo, que para elles nem sequer já se escondia debaixo de flores. Ambos o estavam vendo em toda a sua profundeza. Nenhum d'elles fiava de sua indole a resignação precisa para não blasphemar contra Deus ao despedaçarem-se na queda. Nenhum acceitava a corôa do martyrio como necessaria. Maria se recusasse formalmente, seria castigada com o convento. Quem não ha-de chamar paraizo terreal a um convento, se o compara com as infernaes torturas da vida intima em união indissoluvel? Gonçalo, desobedecendo a seu pae, que punição podia temer? Dissabores domesticos, privações de recursos, a venda de seus cavallos, um guarda-roupa menos recheado de sedas e velludos, prohibição de ir a Lisboa, reclusão em alguma das quintas do Douro. Mas que monta isto, em confronto da liberdade de gastar á larga, e chamar seu ao ouro que se atira por entre as grades de um captiveiro? Que tem que a peçonha seja bebida por vaso de relevante preço? E a peçonha das uniões odiosas e odientas, tragada gotta a gotta, ha ahi morrer de mais lentas e espantosas dores, quando as victimas se não buscam refrigerio na desvergonha e no crime?A estas perguntas a razão do homem oscilla, e cae{23}em abusões injudiciosas. Então me lembra o destino, a fatalidade e as estrellas funestas. Mas é tão avesso á minha razão dar de barato ao nada a explicação dos mysterios da vida humana, que antes quero acreditar que alguns paes infelicitam os filhos, por se acostumarem á infelicidade propria; e alguns filhos, olhando de longe para o infortunio, rebordam o ponto negro, que lá está, das cores variegadas e formosas que a imaginação nova lhes empresta. Nos primeiros annos da vida, a idéa da desgraça formamo'-la imperfeitamente. Tantos são os vagos bens que anhelamos, a tantas miragens do deserto nos fogem os olhos namorados, que nunca o absoluto infortunio, as plagas infinitas sem fonte de agua, nos parecem possiveis, nem experimentadas pelos mais famosos infelizes. Os romances dão-nos espectáculos de maxima desventura; as tragedias ensanguentam a pagina onde vertemos lagrimas; a voz publica relata supplicios da vida particular denunciados pelo gemido ou pelo escandalo. Que vale isso para imaginações juvenis? Ninguem se crê talhado para o molde das miserias excepcionaes. Além de que, tal homem que a sociedade considera desgraçado na vida intima, com sua esposa, vem ao mundo, e sorri, e folga, e aporfia em prazeres com os mais felizes! tal esposa que tem fama de martyr ou de algoz de seu marido, vem ao mundo e rejubila, e captiva os olhares, que principiam piedosos e acabam por se desviarem descrentes de um martyrio, que deixa sorrir a martyr, ou de uma crueza que tinge de amavel brandura o semblante do algoz.{24}E assim é que a penetração de ler em almas, e ver no sorriso as lagrimas, e no gesto meigo o arremesso do tigre, só póde da'-la muita experiencia de dores proprias, muito estudar-se cada um em suas chagas e na industria com que as escondeu de alheios reparos. Isto não o faz a mocidade, não o podia fazer Gonçalo Malafaya, nem D. Maria das Dôres. No instante em que um ao outro tacitamente se disseram ou podiam dizer: «ahi estão os pulsos para as algemas; mas o coração é livre»—n'esse momento o anjo da desgraça matizou-lhe de flores a garganta do despenhadeiro, e elles acintosamente se cegaram, pedindo cada um á sua imaginação o segredo de desatar as algemas do pulso e acorrentar com ellas as dos deveres.{25}IICasaram. As exterioridades, promptas sempre a mascarar hypocritas ou a desmentir infelizes, esmeraram-se no esplendor do cortejo, nas festas incansaveis de um mez, que apenas chegou a satisfazer a ancia de folias. Era numerosa a parentella, derramada em tres provincias. Viera toda a felicitar os noivos, e nenhuma voz amorosa lhes disse em que preceito assentava a felicidade conjugal. Os emboras fundavam na certeza de se unirem duas familias, que continuavam uma varonia ininterrupta de cinco seculos. Diriam mais que já não havia medo que algum intruso viesse enxertar-se no tronco illustre dos Malafayas e Azinheiros. Os velhos iam á sala dos retratos, e affirmavam que o bispo de Leiria Lopo Azinheiro, e a Dona abbadessa de Lorvão Mafalda Azinheiro, e o governador de Mombaça Heytor Malafaya se estavam sorrindo de contestes com tal casamento. E os outros parentes iam ver a alegria dos retratos, e os retratos em verdade pareciam sorrir da inepcia da sua posteridade; porque o bispo fora um virtuoso prelado:{26}a abbadessa morrera em cheiro de santidade; e o governador de Mombaça, se não morreu santo—que o governar na India era pouco azado molde para santos—era pelo menos esperto, consoante as chronicas o descrevem.Não se persuada o leitor que lhe está imminente uma trovoada de escandalos e offensas á moral. O infortunio da vida intima de dois casados existe sem delictos, sem vergonhas nem aggravos, que resaltam em injurias ou insultos á dignidade humana, das janellas para a rua. O marido póde ser desditoso, sem deslustre de sua honra; a mulher póde ser má e intoleravel, sem enlamear sua fama para sacudir o stigma á face do marido.Ha umas mulheres que D. Francisco Manuel, na sua preciosaCARTA DE GUIA DE CASADOS, denominabravas. É este o termo que friza a primor em D. Maria. Das bravas, como a representante dos Azinheiros, diz assim o citado philosopho:«Cuidam com falso discurso, algumas mulheres, que como ellas guardem a lei devida á honra de seus maridos, em tudo o mais lhes devem elles de soffrer quanto ellas quizerem que lhes soffram.»E accrescenta:«É este um mero engano, por duas razões; a primeira porque nada se lhes deve ás honradas de guardarem a obrigação, em que Deus, a natureza, o mundo e o medo as tem posto... A segunda...»A segunda razão desconcerta com o nosso proposito. Abaste-nos saber que Maria das Dôres, ou porque não{27}sentia o coração, ou porque lhe comprimia os impetos com a sua indole soberba, ou finalmente porque se revia e estimava na pureza de sua consciencia, é de todo o ponto averiguado que sobre sua memoria podem os panegyristas afoutamente encarecer-lhe a lealdade sem macula.O mesmo quizera eu dizer de Gonçalo Malafaya; mas estão aqui ao meu lado os apontamentos protestando contra as demasias da minha caridade, sendo certo que as piedosas fraudes tamanha censura merecem no romance como na historia.Gonçalo era um homem amavel, cortezão, audacioso, e mestre em astucias, aprendidas «heroicamente» na côrte, que era ainda, com pequenas cambiantes, a mesma côrte de D. José I, successora da outra do nosso Luiz XIV. A piedade de D. Maria I influira nas festas de egreja, nas pompas do culto, e apenas se fizera reflectir na vida das salas. O impulso estava dado; a religiosidade da soberana seria inefficaz a empecer-lhe o passo, ainda mesmo que a sentinella inquisitorial não tivesse adormecido na sua guarita, de embriagada que estava de sangue.Nenhum outro fidalgo portuense rivalisava em merito palaciano com Gonçalo Malafaya. Amavam-n'o as mulheres pelas graças e chistes da sua conversação, moldada sempre ás leis da cortezia e da elegante selecção das finezas. Prezavam-n'o os mancebos, dado que o invejassem, pelas lições de phrase, e de attitudes, e das mil insignificancias que n'uma sala completam o homem{28}de primor. Os velhos fidalgos, que, em Lisboa, tinham visto os Marialvas e os Vimiosos, diziam que o Porto seria assombro da côrte, se os seus mancebos fidalgos fossem fadados de indole tão prestante, como a de Gonçalo, para se affeiçoar aos grandes e raros modelos, que, na capital, mantinham as tradições do bom seculo. O bom seculo dos velhos é sempre o seculo em que elles foram rapazes, amados e requestados das meninas coevas, as quaes, ao mesmo tempo, estão lamentando, do alto dos seus setenta annos, a baixa condição em que a humanidade se vae degenerando.No entanto, quem visse o festival cavalheiro nas salas do Porto, nas de Lamego, nas de Amarante, amando, gracejando, planeando caçadas, bailes e folguedos, quem diria as amarguras escondidas n'aquella alma? Sobre a ferida da infinita saudade d'aquella filha do conde, suspirosa sempre d'elle e votada ao claustro por seu amor, que travo de fel D. Maria das Dôres lhe espremia! Hora de paz uma só lhe não dava em casa a esposa. Não era o coração alanceado por ciumes, que sacudia a farpa; era já a phantasia engrandecendo o ultrage para dar vulto ás queixas. Na vida intima, desvelava-se o desamor da esposa; mas para materia da accusação tudo lhe vinha a talho, quer o marido revelasse tristeza taciturna, quer se expandisse em simuladas alegrias. Se melancolico, era o fastio d'ella que o entristecia; se alegre, eram as noticias da filha do conde que tinham chegado. Se o acompanhava aos bailes, afeiava o aspecto de tão má sombra, que, por contagio, diffundia tristeza em todas{29}as physionomias, e mandava tirar a sege, quando o marido se mostrava mais empenhado no jogo, na dança ou na conversação. Em casa, compendiava os artigos do libello accusatorio, em que muitas vezes eram calumniadas senhoras innocentes, e intenções de mera cortezia. Explicações eram exasperar-lhe a sanha; o silencio era confirmação de suspeitas; um sorriso em resposta era redobrar o ultrage pelo escarneo; um gesto desabrido, uma ameaça á justiça do queixume. Quando os pretextos se demoravam na phantasia fatigada de crea'-los, Maria das Dôres lançava mão de creancices. Deixava cair de proposito uma porcellana, e gritava contra o marido que a tinha mudado do seu local costumado. Gonçalo tinha dois partidos a seguir; ou confirmava com o silencio a falsidade, e então o despeito recrescia com o supposto desprezo; ou a contestava com acrimonia, e então sobrevinham altercações, que por parte d'ella, terminavam em syncopes de raiva.Gonçalo recolhia regularmente á meia noite, e achava a esposa a passear na antecamara, assoprando ás mãos, se fazia frio, e fingindo que tiritava. Perguntava-lhe mansamente o marido porque não se tinha deitado. A resposta era um descomposto aranzel de invectivas contra elle e contra as familias que lhe tomavam o marido para lhe divertirem as noites de inverno. Deixou Gonçalo de ir aos saraus. Maria das Dôres, á terceira noite de dolorosa abstenção, perguntou-lhe se elle ficava em casa para dormir ao fogão, e se casára com ella para lhe ensinar a brincar com as tenazes. Tornou-se Gonçalo{30}aos habitos antigos, e conformou-se com a dura pena de adormecer embalado pelos convicios revelhos e repisados, os mesmos sempre na phrase e na toada, a monotonia nos queixumes, a mais horrivel de quantas ha!Este viver durou um anno, cinco annos, dez annos, vinte e quatro annos.N'esse longo e penivel discorrer de dias concatenados, vejamos se algum incidente nos convida a variar de linguagem e a descançarmos o espirito em algum ameno remanso.Decorridos dois annos, nasceu uma menina, que foi chamada Maria Henriqueta. Ácerca do nome, renhiram quinze dias os esposos, e sete mezes já tinham disputado, antes d'ella nascer. Claro é que argumentaram em hypothese até ao nascimento. Sendo menino queria ella que se chamasseRuy, á semelhança de seu vigesimo segundo avô; sendo menina,Maria, porque nos ultimos quatro seculos, todas as senhoras morgadas da familia se chamavam Marias. Gonçalo desejava que fosseHeitor, sendo rapaz, eBeatriz, ouMafalda, na outra hypothese.Venceu a mãe, e chamou-se a menina Maria Henriqueta.As formosuras que deu aos anjos a escola christã, vertendo á tela as côres e os feitios desenhados de bello ideal, todas tinha Maria, aos oitos annos de edade. Quem a via tão linda, e ao mesmo tempo melancolica e meiga, sem abrir nos labios infantis o sorriso de seus annos, cuidava que, alguma hora, as azas de anjo lhe{31}implumariam as espádoas, e ella as desferiria em vôo para Deus, que a mandára á terra a mostrar que bellezas povoam a bemaventurança, e como as almas lá andam vestidas.Bem pudéra aquella pomba depôr no regaço maternal um raminho de oliveira, e alumiar n'aquella casa o primeiro dia de paz. Por ventura, a tristeza do anjo seria a magua de não ter o condão de conciliar seus paes. Póde ser que as caricias fossem poucas no berço, e á mingua d'ellas, a menina crescesse como orphanada de coração, e sedenta das meiguices, que ella andava mendigando a troco das suas.Quantas vezes a pequenina acordava alvoroçada aos gritos de sua mãe, e ás estrondosas disputações dos dois, em competencia de phrenesis! Quantas vezes a sua ama de leite fugiu com ella para lhe reconciliar o somno, afugentado pelo medo dos berros e das visagens da mãe!Raras vezes Gonçalo se entretinha com a filha, porque Maria das Dôres, á falta de outros peguilhos, até das muitas caricias do pae á menina tirava assumpto para bravezas de genio. Umas vezes por aperta'-la de mais; outras, por atordoa'-la com os balanços; outras, porque a fazia chorar; outras vezes, porque as cocegas a faziam rir, em risco de rebentar uma veia. O pae, afinal, largava de enfadado a creança, e saía de casa com os dentes e punhos cerrados, como se assim afogasse a serpente que lhe empeçonhava os mais innocentes gosos.O amor de Maria das Dôres á filha tinha accessos de doudice. Acontecia arrancar-lh'a dos braços a ama, quando{32}receava que os boléos e tombos, em que a mãe a trazia do seio para o regaço, lhe tolhessem a creança. A menina ganhára á mãe uns medos taes, que dava a fugir, quando lhe podia cortar as voltas. Estes passos, algumas vezes, lhe custavam castigos, que tornavam a innocente cada vez mais assustadiça. Com o pae era differente o apego de Maria. Mal lhe ouvia a voz, corria-lhe aos braços, e saltava-lhe n'elles, como se quizesse librar-se no ar, e ir-se alando, de nuvem em nuvem, até esconder-se no céo! Se Deus te désse então as tuas azas! D'este amor ao pae, eram mais que muito frequentes os reparos de Maria das Dôres, que desfechavam em disparates de louco ciume, e declamações contra a Providencia, que nem sequer lhe deixava os afagos de sua filha. Gonçalo respondia acarinhando mais a creança, talvez com malicioso prazer; mas cara lhe saía a malicia, que ouvia improperios sem conta nem medida, e a muito custo salvava a menina da vingança da mãe, fula de raiva.Fez Maria nove annos, e já sobejavam luzes de razão para ver sua mãe, e compara'-la, sem poder confundi'-la, com as outras senhoras. Sentia já uns toques de compaixão, quando via o pae injustamente accusado, e devorado de impaciencias, tanto mais dilacerantes quanto a prudencia as afoga nas lagrimas intimas. Alguma vez ousou a menina pedir á mãe que cessasse de mortificar o pae e humildemente offerecia o rosto á bofetada que lhe vinha em retorno da supplica. E nem assim Maria se queixava ao extremoso pae. Escondia-se a{33}chorar no seio da sua ama, a quem ella muito de alma chamava mãe e pedia amparo nas occasiões em que a irritabilidade de Maria das Dôres recrudescia contra quanto a rodeava, ou lhe fugia ás sanhas.Avisado miudamente pela ama, que afinal fôra expulsa, determinou Gonçalo Malafaya mandar educar sua filha n'um collegio inglez em Lisboa, não tanto para prende'-la, como para subtrai'-la á mãe. Fôra plano d'elle chamar mestres a casa, uns nacionaes, e outros extrangeiros, que era esse o usual systema da fidalguia d'estes reinos; mas o pobre homem, levando a filha ao collegio, sobre aparta'-la dos rigores da mãe, poupava-se a augmentar em casa as testemunhas do seu desgraçado viver, que seriam tantas quantos fossem os mestres, e estes deviam ser muitos, se andassem á caprichosa escolha de sua mulher. Disse elle timidamente o seu intento a Maria das Dôres. Ocioso é dizer que foi contrariado com estirados e repetidos discursos. Tal motivo deu fonte caudal para querellas de algumas semanas. Gonçalo, feito o seu proposito, cogitou em machinar traças para tirar a menina; mas nenhuma lhe dava azo a saír-se bem com o seu louvavel intento. O que elle queria evitar era o ruido do facto, e a precisão de explicar, em abono seu, os precedentes que o motivaram.A sociedade apenas desconfiava dos desgostos surdos de Gonçalo; e este por vaidade ou por interesse de cousas menos louvaveis da sua vida exterior punha todo o seu cuidado em desmentir ou affrouxar a curiosidade{34}publica, sempre em ancias de escandalos, para dessedentar-se das sequidões da vida quotidiana.Um successo, apparentemente casual, proporcionou o afanoso desejo de Gonçalo. Os paes de Maria das Dôres tinham ido a vindimas ao Alto-Douro, e ali adoeceu mortalmente a mãe. Vieram apressados portadores com liteira a buscar a filha, por quem a moribunda chamava com incessantes brados. A tempo isto foi que Maria Henriqueta estava de cama com leve mas febril doença. Sua mãe ainda tentou leva'-la, se bem que não desconfiada da alegria occulta no animo do marido; mas os medicos contravieram ao desarrasoado desejo. Saíu Maria das Dôres a assistir á agonia de sua mãe, que foi demorada, e por lá se deteve até ás honras da sepultura, uns trinta dias.Entretanto, a menina convalesceu, parece que só da alegria de se ver convalescer nos braços do pae, com a ama querida ao seu lado. Gonçalo fizera chamar a ama para ser no collegio a aia da filha. Deu-se pressa na partida para Lisboa, e deixou aos paes o encargo de aquietar as iras da esposa, quando ella voltasse do Douro.Então contou Gonçalo a seu pae as miudas scenas de sua desgraça. Carecia este de sensibilidade para receber a revelação como castigo. Chegada a sua vez de falar, o velho contou ao filho a longa historia de seus proprios infortunios, soffridos uns com desprezo, outros com paciencia, e todos na certeza de que não ha ninguem feliz. Caíu-lhe a proposito contar uma arrastada historia{35}de um rei poderoso da Asia que mandára chamar ao fim do mundo um philosopho para que este lhe resuscitasse um amigo, e que o philosopho promettera dar vida ao morto, tirando a concerto que o rei mandaria escrever no tumulo o nome de um homem de trinta annos que nunca soffresse um desgosto. Mandou o rei procurar tal homem em todo o mundo; e como o não achassem os enviados, o morto continuou a dormir o seu somno eterno, e o rei mandou o philosopho para a sua terra.Ouviu Gonçalo o conto, e despediu-se do pae, promettendo dar a sua filha a felicidade que perdera por obediencia, podendo ser ditoso com a mulher, que a sua alma escolhera.—E os vinculos de Freijoim e Aguas Santas!—replicou triumphantemente o velho.{36}{37}IIIEstava ainda no Douro Maria das Dôres, quando recebeu o inesperado golpe em uma carta muito amoravel, que sua filha lhe escreveu do collegio, e outra, não menos humilde, e mais reflectiva do marido. Então comprehendeu ella o silencio de Gonçalo, tendo-lhe ella escripto para o Porto duas cartas, uma queixando-se de passar mal as noites, e desejando que a mãe, a ter de morrer, abreviasse os paroxismos; outra, raivosa, por ter escripto duas, sem receber, sequer, resposta da primeira. Aquellesequerdenota que a snr.ª D. Maria das Dôres queria receber resposta da segunda carta que estava escrevendo. E onde póde chegar o mau genio!Esteve a senhora algumas horas arquejante de cólera sem saber que deliberação tomar. Rompeu, depois, em queixas contra o pae que, a despeito da vontade d'ella, a casára com o primo. O velho ouviu os clamores, e disse:—«Se tua mãe vivesse, essa santa poderia contar-te o que me soffreu a mim. Deus sabe com que remorsos eu cá fico chorando n'este mundo!... Eu casei{38}por honra da familia, e para me forrar a questões de vinculos e direitos de successão, que meu sogro podia disputar-me vantajosamente. A casa ficou solida, e para ti foi, minha filha. Soffri e fiz soffrer; mas quem é que não soffre n'este valle de lagrimas, Maria?»Não sei se Christovão Azinheiro tambem sabia a historia do rei que mandou chamar o philosopho; se a sabia, dispensou a filha de ouvi'-la, e esta, sem lhe dar trela a dictames e conselhos, despediu-se, dizendo que a paciencia tinha limites e a desgraça a tinha emancipado. Mal a entendeu o velho; mas sempre lhe disse afinal:—«Lembra-te que és minha filha, e que tens dois santos na familia, o snr. bispo de Leiria, e a snr.ª dona abbadessa de Lorvão.»Maria das Dôres, sem mesmo se encommendar aos santos familiares, torceu a estrada a meio-caminho, e foi direita a Arouca, em cujo mosteiro ainda tinha vivas suas tias, occupadas em deslindar as bastardias genealogicas das conventuaes, e os ultimos milagres operados por algumas freiras que tinham apparecido inteiras na claustra, depois de vinte annos de sepultura.Abriram-se as portarias á bem-vinda aia da santa rainha Mafalda, e todas as religiosas a acharam mais bella, mais gorda e mais encantadora.—Vieste ver-nos, pomba;—disseram as tias, convulsivas de jubilo e de velhice.—Vim ve'-las, e pedir-lhes a minha antiga cella.—Como assim? Tu queres tornar para o convento?—Sim, minhas senhoras; tornar para o convento, e{39}morrer n'elle, se me deixarem. Meu marido fugiu-me para Lisboa, roubando-me a minha filhinha, a luz dos meus olhos, o meu coração, a minha alegria, tudo o que eu tinha n'este mundo. Casaram-me á força, e agora querem á força matar-me. Pois sim, morrerei; mas hade ser aqui, onde vivi os annos felizes da minha infancia, e á sombra de minhas tias, que me não tolheram a felicidade. Não tenho, nem quero ter mais ninguem. Sou rica; mas da minha riqueza tirarei sómente os alimentos necessarios. Sou rica do que é meu; se o não fosse, pediria a minhas tias um quinhão da sua tença.—Oh! filha! exclamou a mais escorreita das velhas—Isto não sei o que me parece! Em quanto a mim, essa veneta, que te deu, é desesperação de ciume!... Olha lá, porque vens tu vestida de dó? Morreu-nos algum primo? Seria o monsenhor da patriarchal D. Joaquim que deve estar muito velhinho? Seria o sr. bispo da Guarda, que é nosso primo pela linha lateral dos Azeredos Pita-Rellas?—Foi minha mãe que morreu—atalhou Maria das Dôres limpando uma lagrima espremida pela raiva no afôgo declamatorio.Ouvida a infausta nova, as senhoras Moscosos Azeredos, que eram tias da mãe de Maria, compuzeram um duo de alaridos roufenhos, que alarmou o mosteiro. Confluiram todas as religiosas á cella, e cada uma garganteou o mais plangente que poude uma escala chromatica de gemidos. As duas freiras anojadas declararam-se em lucto rigoroso, e sentaram-se nas suas cadeiras de{40}solla, a receber os pesames e as visitas nocturnas.Maria mal podia esconder a sua zanga. O que ella queria era desabafar, gritando e gesticulando; mas o silencio funeral, que pedia o caso, não se compadecia com o seu desafôgo. Já arrependida de entrar no mosteiro, e incapaz de reflectir no disparate da sahida abrupta, a desarvorada senhora, no dia seguinte ao da entrada, mandou metter os machos á liteira e partiu para o Porto, deixando confirmada a fama, que tinha de douda, no conceito de umas senhoras, e a conjectura de que a perda da mãe a enlouquecera, na opinião de outras. Em quanto ás venerandas Moscosos Azeredos, essas, com quanto estivessem pasmadas, não se moveram das suas cadeiras, onde lhes impunha a praxe esperarem a pé quedo que os tres dias do nojo expirassem.Na correnteza d'estes acontecimentos, estava Gonçalo Malafaya provando-a, sobre todas, mais dorida porção da sua vida. Tentaram-n'o saudades a ir ao mosteiro de Odivellas, onde sete annos antes professára Beatriz, filha do conde de Miranda. Enganára-se com o seu coração o sensivel fidalgo, cuidando que podia ver impunemente a mulher unica do seu amor, a recordação agridoce de sua mocidade. Bem sabia elle que havia de chorar; mas esperava com as lagrimas apagar o incendio, se as cinzas escondessem alguma faúla da antiga chamma.Foi a Odivellas, e chamou ao locutorio soror Beatriz dos Anjos. Acudiu ao chamamento a esposa do Senhor, a pallida virgem, com as suas vestes magestosas e tristes;{41}mas tristes a olhos mortaes, que mais bellas não as podiam inventar homens para as noivas do céo.Era ainda formosa, ou mais formosa era então a chorada Beatriz dos salões da côrte, dos esplendorosos saráos, das invejas dos moços, e das mil brilhantes esperanças, apagadas todas n'uma hora. Deus a chamára a si, dotando-a com a perpetuidade da juvenil belleza. Tomou-lhe do coração os dons, que mal soubera merecer-lhe o homem amado; e, em cambio d'elles bafejou-lhe de eterno maio as flores da face e a juventude do espirito.Maravilhou-se Gonçalo de a ver tão gentil: e ella, mal recobrada da torvação da surpresa, espantou-se da mudança do galhardo moço que ella amára.Quizera a religiosa fugir; mas o coração ia attraído para a doce voz, que era a mesma em ternura, e para os olhos marejados das antigas lagrimas.—A que veiu aqui?!—perguntou Beatriz, com os olhos postos sobre o escapulario.—Vim atormentar-me—respondeu Gonçalo—Vim procurar as torturas, que faltavam ao meu martyrio.E contou Gonçalo com pueril sinceridade a historia da sua vida, como filho amimado conta a sua mãe desgraças, que se vão consolando ao refrigerio dos prantos d'elles.De instante a instante embargavam-lhe os suspiros a voz, e os vágados lhe annuveavam as idéas. Com rosto socegado ouviu Beatriz as lastimas, os remorsos, e as confessadas cobardias do seu arrebatado{42}interlocutor; e, com immutavel rosto, respondeu por estas memoraveis palavras:—Eu tambem tinha pae e mãe que me amavam muito, e cavalheiros que muito me queriam. Fui pedida para esposa, e meus paes mandavam ao meu coração que respondesse. Amei-o, senhor; e, se por si me perdera, Deus sabe que eu só de mim havia de queixar-me. Preferi-o, e com a cega preferencia, que lhe dei, esperei-o até á hora em que m'o disseram morto para mim. Se morreu tambem para a felicidade, amargamente o sinto. Quem me dera ver toda a gente feliz, os meus inimigos mesmo, se acaso os tenho! Depois é que eu lhe poderia dar um grande exemplo de coragem; mas... para que? De sobejo me contento com ser exemplo de infortunio. Meus paes não me queriam religiosa; meus parentes conspiraram todos contra mim; e comtudo... sou religiosa, amortalhei-me, sepultei-me, e fiz da chamma do meu amor a luz, que alumia sepulturas, e nem sequer aquece a lampada que a encerra. Separados para sempre, sr. Gonçalo Malafaya! Não temos que esperar um do outro, senão narrativas de lagrimas, que recrudescem a amargura, e nada remedeiam. Peço-lhe pelo amor, que lhe tive, me não procure mais, nem me desassocegue inutilmente. Eu achei aqui a paz, depois de muito a pedir a Deus. Peça tambem; rogue, e faça da sua paciencia um direito á misericordia divina. Viva para sua filha, se outra imagem não tem no coração. Adeus.Beatriz dos Anjos, inclinando de relance a vista embaciada{43}ao locutorio, sumiu-se na escuridade dos corredores, que vão da portaria para o interior do mosteiro. Gonçalo tartamudeára palavras, sem sentido, e quedára-se estupefacto, com os olhos fitos na lamina crivada do palratorio.Voltou a Lisboa o allucinado fidalgo, e de tamanha tristeza se entranhou, que nem as caricias da filha o despenavam. Errou com a escandecida mente por quantas absurdezas se offerecem ao desatino da paixão. Roubar ao mosteiro a religiosa, e fugirem para remotos climas não foi o maior nem o mais original dislate da sua phantasia. Rebelde aos preceitos recebidos, escreveu primeira e segunda carta a Beatriz, e recebeu-as abertas, com a terceira fechada. Um frade capellão ou confessor de Odivellas, lh'as entregou, e quiz asserenar-lhe os transportes com os mais justos dictames, e piedosas reflexões que suggeria o caso.Ouviu Gonçalo, uma hora, o apostolico varão, e sentiu despontarem-se os espinhos de sua dôr, amollecidos pelos prantos a que o forçava suavemente a compungitiva linguagem do monge. Não levantou mão d'elle o enviado de Beatriz. Buscava-o a miudo na sua soledade, e cada dia lhe ministrava lenimentos novos, hauridos da inexhaurivel fonte do Evangelho.Com o decurso de algumas semanas, Gonçalo Malafaya conformou-se com a desgraça irremediavel, e habituou-se a invocar o auxilio do céo, se vergava, alguma hora, ao confrangimento de desesperada saudade.Maria Henriqueta conheceu nos primeiros dias de collegio{44}os mais saborosos instantes de sua infancia, senão os primeiros. Tinha muitas meninas a ama'-la, as mestras á competencia de meiguices, muitas creadas a servi'-la, e a sua ama querida a inventar-lhe sempre as innocentes delicias, que a pobre menina desconhecera sob o olhar severo e glacial de sua mãe.Custou-lhe lagrimas o adeus do pae; mas foram as primeiras e ultimas que chorou alli.Depois de sessenta dias de ausencia, entrou Gonçalo em sua casa no Porto. Avisára elle de antemão os paes para lá o esperarem, temendo o primeiro encontro com a mulher. Recebeu-o a mãe nos braços, e disse-lhe ao ouvido:—Olha que Maria das Dôres está douda furiosa.Achegou-se o pae da outra orelha, e disse-lhe:—Talvez seja preciso amarra'-la.Gonçalo encarou em ambos, e respondeu:—É a felicidade que lhes devo, meus carinhosos paes.A mãe entendeu, sem merecer creditos de esperta, a ironia, e replicou mansamente:—Tens razão, meu filho! tens razão...E o pae accrescentou em outro tom:—Ás vezes dois puxões de orelhas curam estas doudices.Maria das Dôres, com o seu feio costume de escutar, ouvira as palavras do sogro e exclamára:—Dois puxões de orelhas!... Quero vêr se ha mão que se atreva a isso!{45}—Cala-te ahi!—bradou o velho.—Se fosses minha mulher, havia de... esganar-te! Fizeste desgraçar meu filho, que é um anjo, todos o respeitam e amam, menos tu que és uma vibora peçonhenta! Gonçalo, deixa tudo!—exclamou, voltado ao filho—deixa tudo a essa mulher, e vem para nossa casa. Poupa os teus dias; foge a esta diabolica creatura, e o mundo saberá da minha bocca a razão porque lhe foges.Maria das Dôres tinha de ordinario uns deliquios de reserva para as crises em que a palavra era menos significativa de sua consternação ou raiva. Occasionou-se-lhe ensejo optimo para um. Desmaiou, caindo com toda a segurança da sua pessoa n'um bufete da sala de espera.Gonçalo sentou-se extenuado em frente de sua mulher; pendeu a cabeça para o seio, e, com as mãos na cabeça, parecia recurvar as unhas sobre o craneo.—Que inferno!—exclamou elle.—Que inferno este, meu pae! Que vida tão escura a minha, agora, e sempre! Estou no vigor dos annos, e é forçoso que os acabe por minhas mãos, ou que me deixe despedaçar hora a hora por esta mulher! Tinha uma filha, que podia ser-me allivio, e fui obrigado a separa'-la de mim para a furtar á influencia nefasta d'esta senhora, que nem boa mãe é! Nem mãe, santo Deus! Nem a virtude das feras coube em partilha a esta que me deram por esposa!Chorava a mãe de Gonçalo, e o velho estava passado menos da dôr, que do arrebatamento do filho.{46}Maria das Dôres ouvira tudo, e provavelmente descerrára as palpebras para observar a gesticulação do marido. Abriu de todo os olhos esgazeados; affastou da fronte os cabellos, como fazem nas tragedias as doudas, ou as arriscadas a isso; levantou-se cambaleando, segundo a arte, e tirou-se do salão, assoprando como serpente ferida na cauda.Vacilou Gonçalo entre ficar ou recolher-se á residencia de seus paes. A mãe instava pela saída, conformando-se á primeira vontade do marido; este, porém, reflectindo um pouco, disse que mais acertado seria o filho, depois de liquidar contas com os caseiros e conhecer a fundo o estado de sua casa, cuidar em separar-se judicialmente, allegando com o depoimento dos servos o genio intractavel da mulher.—Fez-me o casamento, pae,—disse Gonçalo—e quer desfazer-m'o agora!... Assim devia ser; mas o peior é eu hei de ser até á morte um escravo d'ella, ou da ignominia da minha situação. A separação dá causa a juizos vilipendiosos, meu pae; e eu, sobre todas as calamidades, não quero affrontas. Já agora hei de soffrer e morrer aqui. Hão de regosijar-se da sua obra... Quero que sintam o remorso de me acabarem lentamente a vida, que tão feliz se me antolhava; matassem-me antes! antes a morte, que assim, ao menos, poupar-me-iam a ser testemunha da outra infeliz, que tambem mataram! Ó alma do céo, perdoa-me tu, pelas dores com que aqui estou expiando a minha fraqueza!...Os velhos não entenderam cabalmente a apostrophe,{47}e de si para si ficaram em que o filho estava menos escorreito e são de seu juizo.Recolheu Gonçalo á sua camara, e n'ella passou alguns dias encerrado, sem ver a mulher. Ahi recebia as visitas, que, prevenidas pelo velho Malafaya, evitavam perguntar-lhe pela prima Maria das Dôres.Esta, encerrada tambem no seu quarto, apenas recebia a visita do medico, e a do capellão, santo homem, que á mingua de eloquencia christã, se estava sempre benzendo, sem dar a razão de tamanha prodigalidade do signal da cruz.N'este critico intervallo, Maria das Dôres absteve-se de governar a casa, e de transmittir suas ordens aos creados. Os negocios do governo culinario corriam sob a fiscalisação do padre, que mostrou sua especial vocação no desempenho d'elles. Almoço, jantar e ceia, ás horas, nunca faltou, bemdito seja o Senhor!Passados dias, foi o medico portador de uma carta de Maria das Dôres a seu marido. Dizia em resumo o escripto que ella imperiosamente queria recolher-se a casa de sua familia, por já não poder supportar o flagello, que seu pae lhe apparelhara. Mais dizia, que se voltára do Douro alli, fôra causa d'essa imprudencia querer ella entregar a seu marido as chaves de suas gavetas, e as preciosidades, que elle trouxera dos seus. Posto isto, rematava dizendo que fôra sempre uma esposa digna e sem mancha; ao passo que seu marido era um homem de costumes estragados, merecedor de outra mulher, capaz de vingar-se, pagando affronta com affronta.{48}Gonçalo leu a carta e respondeu verbalmente ao doutor:—Que faça o que quizer. Que vá para o pae se lhe apraz; que se deixe estar, se está bem; na certeza de que, lá ou aqui, a nossa separação está resolvida para sempre.Maria das Dôres ouviu a resposta, pediu ao medico o favor de retirar-se, saltou fóra do leito, vestiu-se em grutesco desalinho, e entrou, com furial aspecto, no quarto do marido.Sentou-se Gonçalo no leito, como attonito da improvisa apparição.—Que quer, prima?—gaguejou elle.—Quero ouvi'-lo; quero ouvir da sua bocca as palavras que me disse o doutor.—Se lh'as elle disse... que mais quer?—Diz-me o primo que vá para meu pae?—Se quizer.—Não quero!—Pois não vá.—Eu não ando ás suas ordens! Sou sua mulher. Entendeu?—Entendi.—E então?—Então o quê! Que é que me diz?—Que não saio d'esta casa que é minha.—Deixe-se estar.—Mas o senhor que disse mais?—Que a nossa separação está resolvida para sempre.{49}—Isso é se eu quizer.—Quer queira, quer não.—Eu allegarei as minhas razões em justiça.—Não temos que ver com a justiça. A prima Maria das Dôres tem os seus aposentos n'esta casa, e eu tenho os meus. É n'este sentido que eu entendo a separação.—Não quero!—exclamou ella, batendo com o pé rijamente no tapete.—Em tal caso, obriga-me a sair d'esta casa.—E eu vou procura'-lo onde estiver.—A prima é uma senhora. Fio da sua nobreza que se poupará e me poupará a vergonhosos alardes.—Qual nobreza, nem qual vergonha? Sou sua mulher! não é mais que dizer—não me serves—e acabou-se tudo! Recorro ás leis. Quero saber porque sou abandonada. Fui-lhe infiel, primo Gonçalo? Atraiçoei-o? Faltei aos meus sagrados deveres de esposa?—Nunca o suspeitei.—E o primo faltou? Responda.—Não tem resposta.—Tem. Tem resposta. O senhor é que não tem alma nem vergonha. Quer ir viver com outra? Diga-o francamente, que eu n'esse caso vou-lhe fazer presente das joias, já que o senhor a faz proprietaria dos meus direitos. Escusa de sair: póde traze'-la para aqui. Veja lá primo... se precisa de aia a dama, estou eu aqui que lhe sirvo.—Cale-se, senhora!—bradou Gonçalo.—O despejo da{50}phrase offende tanto como o despejo da acção. Estão ahi as suas creadas a ouvi'-la. Felizmente que não está aqui uma menina de onze annos para lhe decorar essas palavras, aprendidas não sei onde, nem com quem. Prima Maria das Dôres! attenda-me com o seu silencio, se póde. Este viver é impossivel. A senhora apurou-me a paciencia até ao extremo. Soffri-a emquanto o facto da separação me pareceu desairoso. Sacrifiquei-me á dignidade, que foi sempre o melhor timbre de nossas familias. Baldei as dores surdas que padeci. Ninguem me compensa, nem a sua indole se chegou a condoer de mim. Mudei, prima, mudei completamente. Quer saber a minha deliberação final? Digo-lh'a livre de medo que m'a embarace. Em ultimo recurso, fujo de Portugal, e deixo-a. Irei onde me não conheçam, nem me denunciem á sua perseguição. Felizmente sou rico. Bom é que eu alguma vez conheça as vantagens de ser rico. O que é meu basta e sobeja. Posso ainda viver alguns annos tranquillos; em toda a parte hei de achar amigos.—E amigas...—atalhou ella.—E amigas, diz bem a prima; porque não.—Basta!—vociferou Maria das Dôres perfilando o dedo indicador com o nariz.—Basta! não se envergonha agora que o estejam escutando as creadas? Faça o que quizer. Abandone-me; mate-me; sacrifique-me aos seus caprichos, primo, que eu deixo a minha causa á Providencia, e a sua alma ao remorso.Gonçalo sorriu, e Maria das Dôres, atirando para o{51}pescoço uma aba do gabão de castorina, saíu com toda a magestade d'uma rainha colerica.O padre capellão, que tambem tinha o vêzo de escutar, já se tinha benzido vezes sem conta com ambas as mãos.{52}{53}IVPoude muito comsigo Maria das Dôres, enfreando o genio; mas desmedrou a olhos vistos. Ao cabo de tres semanas estava magra, secca e quebrada de espirito, que era um pasmar das creadas. Sustentou Gonçalo dois mezes a sua palavra. Saía por portas remotas do repartimento em que sua prima vivia. Jantava raras vezes em casa, e sempre em separado. Seroava por salas de amigos e parentes até noite alta. Recolhia a tempo que sua mulher dormia; e, finalmente, recebia as visitas em salas distinctas das frequentadas pelas senhoras.Este divorcio domestico teve longe soada, e deu ansa a muitas calumnias, umas gravosas para a fama da senhora, outras a taxarem de cru e barbaro o marido. O velho Azinheiro commentava o facto em abono da filha; o velho Malafaya andava solicitando a canonisação de seu filho martyr. Deu-se a feliz conjuncção de se encontrarem os dois velhos em casa de uma familia, empenhada na reconciliação dos casados. Deram ambos amigavelmente as causas da desordem, cederam-se mutuamente{54}as sem-razões de parte a parte, e vieram ás boas, pactuando o afervorarem a harmonia, na vespera do Natal, á mesa do amigo e parente commum, que lhes proporcionára o encontro.Assim se fez.Gonçalo acceitou o convite, sem presumir o fim; Maria das Dôres, instada pelo pae, accedeu tambem. A surpreza foi de ambos, quando se viram na mesma sala da ceia. Achava-se presente o deão da Sé, sujeito de grandes lettras, e abalisada prenda de bom-falador. Foi elle o encarregado do discurso, quinze dias antes. Não foi discurso o que saíu da uberrima e caudal veia do prebendado: foi uma homilia, como os santos padres a quereriam ter feito. Se lhe mondarmos a exhuberancia dos textos latinos, á mixtura com os versos gentilicos, era uma peça litteraria com que eu faria os meus creditos, se a podesse reproduzir, e o leitor m'a attribuisse ao meu corcovado engenho. Corcova-se o engenho, como a espinha dorsal, leitor amigo, quando frigidas e geadas de infortunio regelam e abatem as altivezas do genio. Não assim ao conspicuo deão da Sé portuense, que vivera cincoenta annos de vida folgada e de côro, rindo com os vivos, cantando pelos mortos, e compondo, nas horas feriadas, discursos attinentes a restabelecer a ordem perturbada nas familias, em cujas casas jantava, uma vez por dia, ou duas, se caía a talho de fouce.Ia em meio o discurso, quando as senhoras edosas, lavadas em lagrimas como punhos, começavam a perder o appetite das rabanadas e dos ovos de fio. Os velhos{55}fidalgos, para em tudo attingirem o sublime dos conceitos, até com acenos de cabeça confirmavam o bem cabido e apropositado dos textos latinos, cousa de todo o ponto indigesta ás capacidades d'elles. Rematou o discurso por este memorando periodo:«... Finalmente, é chegada a hora, a propicia hora de dois corações se approximarem, quaes carinhosos e gemebundos rolos, que nos esgalhos de longiquas arvores, se estão suspirosos namorando! Abra o mais forte os doces braços, e cinja em meigo amplexo a fragil e quebradiça creatura, que senão fôra toda amor, seria toda divindade.Toto Dea, tota pulchra, tota vel amor.(Entre parenthesis: supponho que o latim era arranjo do imaginoso deão: não me occorre ter lido cousa tão delambida na antiguidade). Finalmente, tornou elle—se dois são os culpados, o reciproco perdão abra-se já em perfumes de reciproco amor. Para enxugar as lagrimas, beijos; para delir injurias, sorrisos; para cicatrizar chagas do peito, abraços. Vamos, felizes esposos; renasça a paixão, o ardor da chamma antiga,veteris flammæ, n'esta hora em que renasce para o amor e para a fé da humanidade o redemptor da culpa, o redemptor das paixões más, aquelle que disse: a carne da minha carne, o osso do meu osso:caro ex carne mea, os ex ossibus meis.» Disse.Heytor Azinheiro tomou a filha pela mão; Christovão Malafaya abarcou pela cintura o filho, e deram alguns passos a encontrarem-se.Gonçalo beijou a esposa na fronte; Maria das Dôres{56}cingiu o braço ao collo do esposo, e ficou em duvida se devia desmaiar.Não teve tempo. Moviam-se e vozeavam todos a um tempo. O deão conservava ainda a face escarlate do rescaldo da inspiração. Houve ahi fidalgo enthusiasta da facundia, que beijou a face do orador, a face em que, uma hora depois, cuidaria Sileno achar o espelho.Foi noite cheia, noite que vae contando, na chronica das familias, ás provindouras proles, delicias nunca mais repetidas.Mas nos labios de Gonçalo não avoejára um riso em toda a noitada, que prendeu com o dia; nem os de Maria das Dôres se abriram com palavra carinhosa ao esposo.Voltaram de braço dado a casa; almoçaram juntos, e falaram de Maria Henriqueta, elle choroso, e ella melancolica. Ao jantar falaram ainda da menina, e combinaram em irem proximamente visita'-la a Lisboa.Decorreram dias serenos, se não felizes em comparação dos passados. Maria queixava-se, mas com brandura: Gonçalo ia confessando suas demasias de impaciencia; mas sem vontade nem consciencia de as ter dito. O padre capellão continuava a benzer-se, mas já era de pasmado da mudança que o Senhor fizera nos casados, mediante as orações d'elle. Modesta piedade!Foram a Lisboa, e fizeram contentes a jornada. Tiveram comsigo a filha em Cintra, e visitaram os arrabaldes pittorescos da formosa Lisboa.Maria Henriqueta estava adiantada em cravo, dançava{57}com muito garbo e limpeza o minuete, arrastava com gracioso despejo a cauda do vestido, e levava o toucado a maravilhosa altura, sem desluzir a graça. No tocante a linguagem, em poucos mezes, todos a julgariam pura lisboeta. Um dizer morbido, preguiçoso e indolente, como cortado de gemidos, cousa mais de enfeitiçar ouvidos nunca Maria das Dôres imaginou que pudesse ouvir dos mellicos labios de sua filha.No ponto de belleza, não ha ahi cousa que mais diga. Alteára-se, desempenára-se, alargára de espádoas, mingoára de cintura, pisava tão geitosa de mimo e movimentos, que parecia librar-se toda em cadencioso bater de translucidas azas. Facil era divisar assomos de vaidade no olhar da mãe. Já ella entre si dizia que mais amavel e perfeita fôra, se seus paes a tivessem mandado educar á côrte, em vez de a soterrarem n'um brutificador convento, onde as mulheres eram todas umas, e ridiculissimas as gaifonas monasticas, sem graça nem calor. Cohibia-se Maria de communicar ao primo estes seus pensares, com medo de relembrar-lhe cousas em que elle muitas vezes cogitaria, com desfalque dos taes quaes merecimentos d'ella.Detiveram-se em Lisboa quatro mezes. Raras palavras enfadosas se trocaram, e essas mesmas eram contendas por amor da menina, que a mãe quizera levar comsigo para o Porto, desejo inepto que o marido impugnava, dizendo que a educação da filha estava em principio.Na ante-vespera da partida, senhoreou-se do espirito de Maria o entojo de vêr o mosteiro de Odivellas. Sabia{58}ella que farte da profissão da filha do conde, e anciava por ve'-la, curiosidade por vezes mui fatal a mulheres, que não sabem o que fazem nem o que desejam. Recusou-se, primeiro, Gonçalo; meditando, porém, que só uma casualidade traria ás janellas gradeadas do mosteiro Beatriz dos Anjos, condescendeu. Fôra, porém, tão prompta a condescendencia, que D. Maria fez pé atraz, e demudou do intento, resmuneando palavras ciosas, que fizeram lembrar a esposa, antes de regenerada pelo discurso do deão, que santa gloria haja.Azedou-se o marido da versatilidade da mulher e então iam pegando em permutação de remoques, mui dispostos a despregarem em formal descompostura. Espalharam-se as nuvens da imminente borrasca, e o azul sereno do provisorio céo cobriu mais alguns dias de bonança.Ficou Maria Henriqueta em delicias, por se vêr livre do suborno da mãe, que a induzia a pedir ao pae a saída do collegio. Se alguma vez por temor ou respeito o fez, de tal geito relanceava os olhos ao pae, que o mesmo era implorar-lhe piedade. Por de sobejo lhe adivinhava Gonçalo a vontade; e, dilatando a resposta, foi ganhando tempo, e dispondo a saída, com promessas de lá voltarem.Quando chegaram ao Porto, tangiam a finados os sinos da Sé. Estava sobre a terra o sapientissimo deão. Ruim agouro!

Venho já a declarar que me desgosta o titulo d'este meu romance; mas não é esta a primeira vez que meus actos, invenções e palavras me desgostam, embora extranhos applaudam uns e outras.

Tem uma certa graça, mixto de luz e escuridade, aquelle titulo: o que não tem é verdade, verdade moral, acommodada á minha philosophia.

No romance que publiquei, intituladoAS TRES IRMÃS, rematei dizendo que não ha bons nem maus destinos, como se dissesse que o homem é o responsavel, o agente, o motor arbitrario de suas acções, das quaes lhe advém o socego ou a inquietação, a dita ou a desdita, a publica estima ou a desprezadora abominação.

Quem tal crê e disse, rejeita e desadora estrellas propicias ou funestas, como cousa de agouros, de crendices, de poetas, e de vulgar superstição.

O titulo, pois, tem muito com a fórma, e pouquissimo ou nada com a substancia d'esta novella. Quem não quizer chamar-lheESTRELLAS FUNESTAS, emende para osMAUS CAMINHOS DA DESGRAÇA, ou outro titulo{6}de seu sabor, que eu de tudo me contento, se o não denominaremINVENÇÕES DO AUCTOR.

Historia mais verdadeira nunca eu a escrevi. Por verdadeira de mais, estiveram os apontamentos d'ella a olvidarem-se-me na escuridade para onde os afastaram deferencias, appellidos e pessoas, umas que se prezam em si, outras, menos em si, e muito em seus antepassados.

Deliberei, depois de censurado por pessoa que, a meu instar, me cedera as notas, a dar á estampa successos, que a bem merecem, por serem de lição a infelizes, caidos em abysmos por suas proprias mãos abertos. Para me expôr á somenos tacha de indiscreto, mudei nomes, sentindo não poder mudar localidades, que então lá se ia abaixo, na rampa das chamadas conveniencias, o timbre da verdade historica, a côr, a essencia, o melhor das obras de arte.

Se, mesmo assim, muitos leitores, maiores de cincoenta annos, levantarem o sendal com que lhes quiz encobrir algumas feições da verdade, e as divulgarem a seus amigos, d'aqui me despeno da coima de linguareiro, offensor de cinzas illustres, e assoprador d'ellas aos olhos de quem os fecha para não ver os peccados de seus avós, contentando-se com ve'-los retratados na lona, e ennobrecidos nos bens herdados.

Dou-me pressa em destruir prevenções. Varram de sua idéa a perspectiva de que eu vá quebrar lages e carneiros por essas egrejas e capellas, chamando a juizo de homens as ossadas que, de muito, se ficaram esperando{7}a volta do espirito para o supremo dia. Longe d'isso. Tenho escassamente uma pobre penna de historiador; são leveiras de mais as minhas mãos para sustentarem a balança dos julgamentos, cujo fiel, para obedecer ao ouro fio, releva que penda em dedos, menos encodeados na cenosidade dos vicios.

Aquietem, pois, seus escrupulos os fieis á religião dos tumulos. Hão de ir comigo ao longo de um salão, em cujas paredes, sob profundos tectos de castanho armorejados, pende uma galeria de retratos, uns carrancudos como a philaucía, outros sorrindo ironicos, como em desprezo da nossa contemplação. As arrogantes effigies, ao cabo de contas, ficarão rindo; e nós bem póde ser que passemos chorando, porque somos de uma geração que não póde, nem quer, fazer riso da desgraça.

Esta historia é innocente. Podem le'-la senhoras de imaginação impressionavel, e os moços descontentes da vida incolor e monotona que a sociedade lhes prescreve. O auctor, quando era capaz, não enganou alguem escrevendo: ahi estão uns trinta volumes a defende'-lo da calumnia, se alguem o argue de romancista corruptor. Agora, que está velho, dobrada obrigação lhe corre de desvanecer preconceitos, que disparam em desordem da vida, e sacrificam os thesouros da paz ao pobre do coração, que tão mal os paga, por não ter cousa boa que dar por elles.

Crê o auctor que ha, no caminho da vida, muitas paragens alegres, se o caminheiro as sabe ver com os olhos já cançados de perseguir as fugitivas visões. Nem{8}podia deixar de ser assim, a menos que a verdade, filha do céo, não fosse um mal. E a verdade, para uns temporã, e serôdea para outros, a final, a todos allumia, como o sol do Senhor, que primeiro doura a colmada choça do montanhez, e depois desce os flancos da serra, doura e lustra os zimborios dos palacios, e verte do seu zenith um raio nas cavernas onde a formiga passeia por entre as unhas do leão.

Aquellas paragens verdadeiras do caminho da vida são hospedagem commum; todavia, os mais dilectos do anjo bom, que alli recebe os peregrinos, são os mais infelizes, os mais quebrantados da jornada, os que subiram até lá o desfiladeiro das illusões, e bem mereceram a graça do anjo, rebaptisados na agua de suas lagrimas.

Sentado n'uma d'essas paragens é que eu conto esta historia ás pessoas que a quizerem ouvir por complacencia com a minha velhice, e porque eu lhe assevero que este e todos os meus romances, olham a prevenir o leitor contra os infortunios procedentes da mentira do coração.{9}

Alardeava em Lisboa suas pompas, liberalidades e desperdicios de rico morgado da provincia, Gonçalo Malafaya, primogenito e unico de uma das tres nobilissimas e mais opulentas casas do Porto.

Ha muitos annos foi isto. Ahi por 1778 é que o fidalgo portuense dava invejas aos da côrte, e a muitos namorados se atravessava, tentando a constancia das damas, e saíndo com a victoria, de que elle se lograva por mera ostentação, e nada mais que mareasse seu pundonor, ou o d'ellas.

Algumas d'essas damas levavam-lhe vantagem em pureza de sangue, e pouco o desegualavam em bens de fortuna. Admiravam-se os amigos de Gonçalo Malafaya que elle rejeitasse allianças de bom partido, vistas as condições das donas. Respondia elle que, desde menino,{10}estava o seu casamento pactuado com D. Maria das Dôres, sua prima carnal, tambem filha unica, e successora de grandes vinculos nas provincias do norte.

D. Maria das Dôres, menina de treze annos, saíra do convento de Arouca, onde fôra educada com suas tias, e vestira o magestoso habito de aia da santa rainha Mafalda, costumeira já esquecida n'aquelle mosteiro, fundado por uma rainha portugueza d'aquelle nome.

A joven aia saíu do mosteiro, com os seus bellos olhos menos levantados ao céo que inclinados ao espelho, e viu-se bonita, por comparação com as feias. Achou-se, ao mesmo tempo, na primavera da vida e na do anno.

Parece que a natureza inteira lhe estava dando uma festa. Recordar-se do seu quarto sombrio do convento, e das rabugentas admoestações e querellas de suas tias, era-lhe um retrospecto enjoativo. Seus paes andavam como a amostra'-la de casa em casa, maravilhados do juizo da morgadinha. O juizo de Maria das Dôres, a olhos extranhos, teria antes nome de mau genio, pois não era mais que uma desmesurada vaidade de sua pessoa, e altivez com que tratava mordomos, caseiros, creados, e ainda pessoas independentes de sua casa, que a não hombreavam em fidalguia. Esta prenda lhe incutiram as tias, freiras que passavam por boas, e santas mesmo seriam; mas muitas vezes estariam a pique de perderem suas almas, pela peccaminosa soberba com que disputavam primazias de linhagem com as suas conventuaes. Na cella das duas senhoras ou se falava de milagres ou de fidalguia; e era ordinario passarem da{11}linguagem, edificativa de sua visionaria crença em milagres, ao vanglorioso discurso de sua arvore genealogica, em demerito de alguma illustre religiosa bernarda, que, por sua parte, mofava da philaucía das nossas velhas senhoras, a quem Deus terá perdoado a fragilidade, por ser a mais inoffensiva de quantas ha.

O maior mal, proveniente d'isso, foi a vaidade da sobrinha; se, porém, seus paes gostavam d'ella assim, póde dizer-se que a educação de Maria fôra perfeita, á vontade dos paes.

Soberba com os fidalgos, que a requestavam, é que ella não era, nem os seus quatorze annos extranhavam a linguagem galanteadora. Já lá no convento a aia de Santa Mafalda ouvira falar muito de coração ás religiosas que o traziam exteriormente amortalhado no habito; presenceára por lá muitas borrascas passageiras de ciumes; ouvia conversações pouco recatadas das freiras com as noviças ácerca de certos primos que alli vinham de longes terras a estiarem saudades nas grades, e banquetearem-se do refeitorio monastico. Era tudo ísto de si tão trivial n'aquelles tempos, que um pae, impondo a suas filhas a profissão, tacitamente lhes dava a partido poderem ellas violar o voto pela mesma razão que elles lhes violavam as propensões. E, portanto, nenhuma religiosa, em annos desculpaveis, se pejava de tratar questões de amor, quando ia para o côro, ou voltava do côro, mixturando os psalmos de penitencia com os alambicados conceitos em que, por via de regra, começavam e findavam aquelles amores. E como ninguem se escandalisava{12}de tal, quer-me parecer que o peccado seria insignificante.

Como disse, concorreram desde logo á mão da herdeira os mais nobres appellidos d'estas provincias, uns tendo-a visto, outros não a vendo nunca; uns amando-a de repente, outros aborrecendo-lhe as maneiras, e mesmo a boca defeituosa. Maria das Dôres lá tinha no seu patrimonio tempero com que adubar-se para todos os paladares; ella porém dizia a suas amigas, empenhadas a favor de irmãos ou parentes, que o seu casamento estava justo desde o berço com o primo Gonçalo Malafaya.

N'aquelle tempo, semelhantes contractos entre duas familias, cujos contrahentes eram dois meninos no berço, eram inquebrantaveis. As creanças, aos sete annos, já se conheciam como esposos futuros; e, conforme iam crescendo e ouvindo falar do casamento, não tinham mesmo tempo de córar um do outro, quando, aos quatorze annos nupciaes, a esposada arrumava as bonecas para cuidar do marido. Raras vezes acontecia rebellarem-se os filhos compromettidos, contra a vontade dos paes. Se se amavam, era uma fortuna, tambem rara; se não se amavam, o que fariam era mutilar o coração, atrophia'-lo á custa de lhe abafar as pulsações, e deixa'-lo para ahi estar no peito, em lethargia, cujo despertar, já fóra de tempo, trazia ás vezes grandes desgraças e inuteis lições.

A esta regra usual, quiz o acaso contrapôr uma excepção, incutindo no animo de Gonçalo Malafaya extraordinarios{13}affectos a uma dama lisbonense, e no de Maria das Dôres imperiosa inclinação a um cavalheiro de Amarante.

Pediu Gonçalo aos paes licença para casar com a menina, mandando-lhes um traslado da arvore genealogica da sua amada. Os velhos responderam-lhe negativamente, com muitas razões, sendo a primeira razão do casamento evitar a demanda por causa dos vinculos de Freijoim e Aguas Santas; segunda razão, andarem ligadas as duas familias, através de nove gerações desde 1530; terceira razão, a palavra dada, entre fidalgos que a tinham em maior valia que a propria vida. Seguiam-se outras razões, rematadas por esta paternal caricia:Se desobedeceres á honra, aos paes e aos deveres a que teus appellidos te obrigam, conta com a nossa maldição.

Gonçalo abafou os respiradouros do coração, e saíu de Lisboa, caminho de sua casa. Muito sizo teve elle em conhecer o nenhum remedio do seu mau destino, e fugir á presença da senhora, expediente unico de salvar-se, e salva'-la de maiores dôres. Salvaria?...

Alem de quê, o mancebo, para distrair saudades na jornada, ia pensando em sua prima, que elle vira galantinha, aos oito annos, e acompanhára a Arouca, tendo elle doze. Lembrava-se de lhe ter dado flores, e recebido, nas festas do anno, umas bocetas de murcellas muito enfeitadas, com trama de papel dourado, e as iniciaes da prima floreadas e entrelaçadas nas suas. Depois, uns versos, que ella lhe mandára para Lisboa, escriptos naturalmente{14}pelo capellão de Arouca, frade bernardo, que apanhára as musas de surpresa.

Com estas e outras imaginações, conseguira Gonçalo empanar o retrato da fidalga da côrte, visão teimosa que ainda a revezes lhe apparecia n'algum relance poetico da jornada, onde assombreavam arvores, ou herveciam prados, ou murmuravam fontes. A saudade é a poesia de todo o homem. O que melhores poetas teem dito, melhor o teem sentido pessoas que nunca fizeram versos. Onde virdes um homem recolhido com a sua saudade, ahi está um poeta, porque a poesia não quer dizer senão «enlevo doloroso».

Entretanto Maria das Dôres, sobejamente senhora de seus olhos e palavras, ia alimentando esperanças ao morgado de Amarante, e nutrindo as suas á sombra da ostensiva indifferença dos paes. Estes, porém, avisados ou surprehendidos, atalharam o pendor da filha, dizendo-lhe que bem sabiam que o seu galanteio era um brinquedo; mas convinha pôr-lhe termo, porque estava a chegar de Lisboa o primo Gonçalo. Maria, acostumada a dizer desassombradamente seus pensamentos, declarou que antes queria casar com o de Amarante, a quem amava. Rebateram-lhe os paes a frivola razão, com outras eguaes na substancia e na fórma ás que demoveram Gonçalo, mas Maria, menos reflexiva ou mais animada, replicou com um secco e desabrido «não quero», ousadia que deu em resultado ser a menina ameaçada de entrar outra vez no mosteiro de Arouca, e esperar lá que o juizo viesse.{15}

Maria, mediante os carinhosos conselhos da mãe, cedeu á vontade do pae; e afastou-se do solarengo do Tamega, o qual, prezando-se de cavalheiro tambem se retirou aos seus senhorios, respeitando a convenção feita entre as duas familias sobre o consorcio dos seus representantes.

Chegou Gonçalo de Malafaya, no remate d'este episodio.

Viu sua prima, e reparou logo n'uma verruga que ella tinha a um canto da bocca, e no desaire que lhe dava aos beiços. Achou-a mal ageitada de corpo, desgraciosa nos meneios, rustica nas palavras, e com manifestas tendencias a medrar muito em largura, e a não espigar mais. Assim devera ser. Se elle vinha affeito ás gentilezas das damas da côrte, d'aquellas tantas que elle amára, todas bem fallantes, discretas, esbeltas, apertadas de cinta, arrastando soberanos donaires com muito garbo, dízendo tudo como quem canta, extendendo aquelles gemebundosans, como cauda das palavras, geito tão antigo em Lisboa, que já, em 1650, D. Francisco Manuel, faz riso d'essas modulações esquisitas, de que o nosso fidalgo portuense tinha tantas saudades! Em summa, Gonçalo não gostou da prima.

Ora Maria das Dôres, á primeira vista, achou que o primo Gonçalo vestia uma casaca muito bonita de seda azul com bordados muito casquilhos nas portinholas, e que tinha um pé pequenissimo, quasi todo coberto por uma fivella de ouro rendilhado em galantes feitios. Ouviu-o falar com grande encarecimento das fidalgas{16}de Lisboa, especialmente de uma que era filha do conde de Miranda, a qual, para ser amada, o falar era sobejo, que, mostrando-se, cego devia ser quem a não adorasse. O pobre mancebo parece que assim estava desabafando a sua paixão, ou refrigerando a saudade, que mais se assanhára, comparando a senhora de Lisboa com a prima do Porto. Naturalmente, Maria das Dôres, resentiu-se dos gabos indelicados ás meninas de Lisboa, e com intencional preferencia a uma filha do conde, cujo nome Gonçalo pronunciava, suspirando, como pessoas beatas suspiram proferindo o nome do santo ou santa de sua devoção. Desde ahi, a fidalguinha começou a amuar-se, e a metter á galhofa o primo, ora arremedando-lhe a cantoria do palavreado á lisboeta, ora tomando posturas comicas de pernas e de braços, imitando-lhe as attitudes palacianas, que bem póde ser Gonçalo as exaggerasse um pouco. O que certissimamente aconteceu foi Maria das Dôres não gostar de seu primo.

Aqui temos, pois, os dois noivos, face a face, quando o enxoval da esposada está prompto, e o palacete do moço se preparava, e os primos de longe teem já convite para dia designado.

Maria das Dôres teve a innocente coragem de dizer a seus paes que aborrecia o primo Gonçalo.

—És tola!—disse-lhe o pae.

—És uma creança!—accrescentou a mãe.

E continuaram a azafama, para que tudo sobejasse nos festejos nupciaes, excepto a alegria dos desposados. Gonçalo Malafaya ousou ainda contrariar a vontade paternal,{17}dizendo a medo, que um casamento assim não promettia senão desgraças. O velho rebateu victoriosamente a frioleira do filho, contando-lhe em miudos a historia do seu casamento, e do casamento de seu pae, e de seu avô. Eram tres historias, que o leitor dispensa saber, e tem razão. A moralidade de todas era que tanto elle, como seus illustres pae e avô, tinham casado com primas, sem amor nem vontade, e com muita repugnancia; e, apesar de tudo, tinham vivido felizes, ou pelo menos resignados, visto que, ajuntava o velho, o coração pouco tem que ver com o casamento, e casamento será tudo quanto ha mau, mas escravidão de certo não é. E a este proposito, discorreu o velho Malafaya alguns despropositos, que iam mal a seus cabellos brancos, e bem podiam chamar-se o prefacio desmoralisador de um casamento. Porém, como estas causas, postas em balança com a indisposição matrimonial do filho, inclinassem para o peor lado o fiel, o velho cuidou equilibrar os pratos lançando no mais leve os vinculos litigaveis de Freijoim e Aguas Santas, os quaes rendiam seis mil cruzados, e estavam na casa com mui duvidosa legalidade.

Na ante-vespera do casamento, as duas familias, lavradas as escripturas para segurança dos bens livres, foram de passeio, Douro acima, á Pedra Salgada, onde um dos contrahentes tinha uma quinta.

Era pelo tempo do savel. Os pescadores de Valbom carregavam nos barcos as redadas da sua pescaria, Maria das Dôres entretinha-se a contemplar a labutação dos{18}pescadores, e as rimas de peixe extendidas no areal. Aguilhoada pelo appetite, exclamou:

—Ó minha mãe! tenho vontade de comer savel; mande comprar um, que eu tenho vontade de savel assado!

Toda a gente riu urbanamente do appetite da menina, excepto Gonçalo que, em sua consciencia, classificou de grosseirismo o desejo, e muito boçal a maneira de o exprimir. Então, para seu maior flagello, lhe acudiu á idéa a recordação de uma merenda a que assistira em Cintra com a filha do conde; na qual merenda de indelevel saudade, a perfumada e espiritual menina escassamente comeu um terço da aza de pombo, um olho de alface, e dois gomos de laranja, e, ainda assim, a pedido do amantissimo Gonçalo; que, se elle não insta, áquella compleição angelica bastaria o cheiro da madresilva. Se ao menos, Maria das Dôres tivesse cobiça de savel, e o não comesse!... Seria um gosto pueril, sem o desagradavel espectaculo da deglutição, em que ella era de todo o ponto natural, sem ter na menor conta os preceitos da cerimonia, que mandam engulir tão subtilmente que nos não ouçam o rumor do mastigar. Maria das Dôres mastigava o savel com a presteza de mandibulas egual á impaciencia do seu appetite. Comeu, antes de jantar, na presença do noivo e dos numerosos parentes, duas grossas postas do pescado, como a filha do conde de Lisboa, em identicas circumstancias, ouviria em delicias, duas odes anacreonticas, recitadas pelo noivo á sombra dos arvoredos da sua Cintra.{19}

Ora eu que, até certo ponto, não estabeleço estremas entre as mulheres, e as julgo eguaes perante a lei do amor honesto, opponho-me á distincção, que Gonçalo fazia entre as duas senhoras. O meu parecer é que se Maria das Dôres amasse o primo, comeria apenas o terço da aza do pombo, e o olho da alface, e os dois gomos de laranja; e que a filha do conde, se não amasse Gonçalo, comeria as postas do savel fresco, se o tivesse em Cintra. A sciencia ha de andar sempre ás aranhas n'estes mysterios do coração relacionados com o funccionalismo do estomago.

Depois do jantar, durante o qual a morgada demonstrou que o sável fôra um prologo curto de um grande livro, Gonçalo retirou-se com a sua dôr a um recanto da quinta, onde havia um tanque, em que nadavam patos, á sombra de copados chorões. Indo Maria das Dôres vêr rebanharem-se os seus patos, deu de rosto com o primo, que estava lendo umas cartas, já avincadas do muito uso.

—Estavas aqui?!—disse ella, em ar de retroceder.

—Vem cá, prima Maria das Dôres—disse elle emmassando as cartas na carteira de marroquim.—Senta-te ao pé de mim.

A menina foi sentar-se ao pé d'elle, atirando migalhas de cavacas de Arouca aos patos.

—Gosto tanto destas aves!—disse ella. Creei-as no convento, e trouxe-as comigo. Olha como ellas me conhecem!...

—Hei-de mandar vir de Lisboa—disse Gonçalo—um{20}casal de patos reaes, para te dar, prima, que são muito lindos.

—Eu gosto mais d'estes—atalhou ella.

—Mas, se eu te der outros, tambem has-de gostar d'elles, prima Maria das Dôres?

—Tambem, mas estes fui eu que os creei, e os outros já de lá vem creados pela filha do conde provavelmente...

Fez Gonçalo um gesto de espanto, e de zanga, vendo a ironia mais expressiva no rosto que nas palavras da prima.

—A que veiu aqui a filha do conde!?—disse elle com azedume.

—É que tu estás sempre, a proposito de tudo, com a filha do conde ás voltas. Ninguem veste, nem fala, nem anda como ella. Se a prima Peixoto faz um rico vestido, a filha do conde tem um mais rico. Se eu compro um collar de granadas, a filha do conde tinha um de esmeraldas. Se a prima de Simães vem á cidade vestida de campo, como se vestem na França as damas da côrte, a filha do conde é que sabia vestir-se a preceito, quando cavalgava por Cintra, com admiração de toda a gente. É sempre a filha do conde para tudo! Por isso é que pensei que os patos reaes tambem eram da filha do conde.

Gonçalo Malafaya ficou atordoado, já pela affronta feita á mulher cujas cartas apaixonadas estivera lendo, já pela extranheza que lhe causou o desembaraço da menina, que, até áquella hora, simulára completa indifferença,{21}ouvindo-o falar da filha do conde de Miranda. Fez-se, porém, uma instantanea mudança no espirito do noivo, saudavel mudança que lhe lisongeou a vaidade. Julgou elle que Maria o accusava de desleal, e de puro ciume rompia n'aquella insolita ironia contra a lisbonense. Isto, que parece nada, foi grande parte na quietação de Gonçalo. O ciume da mulher, de quem se não espera nem pede amor, é uma revelação agradavel, ainda mesmo que valha pouco para a felicidade do coração.

Depois de alguns instantes de silencio durante os quaes Maria continuava a esmigalhar cavacas aos seus dilectos patos, disse Gonçalo:

—Eu tenho falado na filha do conde de Miranda por que ella é o ornamento da côrte e o modélo das fidalgas.

—Deixa'-la ser...—atalhou Maria—Que tenho eu com isso? Eu cá, visto, e ando, e falo como sei, ou como me ensinaram; e ella faz o mesmo; se o faz melhor, seu proveito. Por que não casaste com ella, primo?

—Por que nossos paes querem que eu case comtigo. E tu por que não casaste com o Magalhães de Amarante?

Maria córou, e deu graças ao seu anjo da guarda, quando viu entre as arvores proximas um rancho de senhoras e homens que andavam em busca dos noivos.

Gonçalo apenas teve tempo de lhe dizer:

—Não te parece que a nossa união será uma grande desgraça?

A prima não respondeu; levantou-se de golpe, e foi de{22}corrida ao encontro das senhoras que traziam abadas de rosas para espalharem sobre a noiva e Gonçalo que recebeu friamente a graça.

Seria ajuizado conjecturarmos que, depois d'aquelle desamoravel colloquio dos primos, um ou ambos rompessem abertamente contra a submissão, fugindo ao abysmo, que para elles nem sequer já se escondia debaixo de flores. Ambos o estavam vendo em toda a sua profundeza. Nenhum d'elles fiava de sua indole a resignação precisa para não blasphemar contra Deus ao despedaçarem-se na queda. Nenhum acceitava a corôa do martyrio como necessaria. Maria se recusasse formalmente, seria castigada com o convento. Quem não ha-de chamar paraizo terreal a um convento, se o compara com as infernaes torturas da vida intima em união indissoluvel? Gonçalo, desobedecendo a seu pae, que punição podia temer? Dissabores domesticos, privações de recursos, a venda de seus cavallos, um guarda-roupa menos recheado de sedas e velludos, prohibição de ir a Lisboa, reclusão em alguma das quintas do Douro. Mas que monta isto, em confronto da liberdade de gastar á larga, e chamar seu ao ouro que se atira por entre as grades de um captiveiro? Que tem que a peçonha seja bebida por vaso de relevante preço? E a peçonha das uniões odiosas e odientas, tragada gotta a gotta, ha ahi morrer de mais lentas e espantosas dores, quando as victimas se não buscam refrigerio na desvergonha e no crime?

A estas perguntas a razão do homem oscilla, e cae{23}em abusões injudiciosas. Então me lembra o destino, a fatalidade e as estrellas funestas. Mas é tão avesso á minha razão dar de barato ao nada a explicação dos mysterios da vida humana, que antes quero acreditar que alguns paes infelicitam os filhos, por se acostumarem á infelicidade propria; e alguns filhos, olhando de longe para o infortunio, rebordam o ponto negro, que lá está, das cores variegadas e formosas que a imaginação nova lhes empresta. Nos primeiros annos da vida, a idéa da desgraça formamo'-la imperfeitamente. Tantos são os vagos bens que anhelamos, a tantas miragens do deserto nos fogem os olhos namorados, que nunca o absoluto infortunio, as plagas infinitas sem fonte de agua, nos parecem possiveis, nem experimentadas pelos mais famosos infelizes. Os romances dão-nos espectáculos de maxima desventura; as tragedias ensanguentam a pagina onde vertemos lagrimas; a voz publica relata supplicios da vida particular denunciados pelo gemido ou pelo escandalo. Que vale isso para imaginações juvenis? Ninguem se crê talhado para o molde das miserias excepcionaes. Além de que, tal homem que a sociedade considera desgraçado na vida intima, com sua esposa, vem ao mundo, e sorri, e folga, e aporfia em prazeres com os mais felizes! tal esposa que tem fama de martyr ou de algoz de seu marido, vem ao mundo e rejubila, e captiva os olhares, que principiam piedosos e acabam por se desviarem descrentes de um martyrio, que deixa sorrir a martyr, ou de uma crueza que tinge de amavel brandura o semblante do algoz.{24}

E assim é que a penetração de ler em almas, e ver no sorriso as lagrimas, e no gesto meigo o arremesso do tigre, só póde da'-la muita experiencia de dores proprias, muito estudar-se cada um em suas chagas e na industria com que as escondeu de alheios reparos. Isto não o faz a mocidade, não o podia fazer Gonçalo Malafaya, nem D. Maria das Dôres. No instante em que um ao outro tacitamente se disseram ou podiam dizer: «ahi estão os pulsos para as algemas; mas o coração é livre»—n'esse momento o anjo da desgraça matizou-lhe de flores a garganta do despenhadeiro, e elles acintosamente se cegaram, pedindo cada um á sua imaginação o segredo de desatar as algemas do pulso e acorrentar com ellas as dos deveres.{25}

Casaram. As exterioridades, promptas sempre a mascarar hypocritas ou a desmentir infelizes, esmeraram-se no esplendor do cortejo, nas festas incansaveis de um mez, que apenas chegou a satisfazer a ancia de folias. Era numerosa a parentella, derramada em tres provincias. Viera toda a felicitar os noivos, e nenhuma voz amorosa lhes disse em que preceito assentava a felicidade conjugal. Os emboras fundavam na certeza de se unirem duas familias, que continuavam uma varonia ininterrupta de cinco seculos. Diriam mais que já não havia medo que algum intruso viesse enxertar-se no tronco illustre dos Malafayas e Azinheiros. Os velhos iam á sala dos retratos, e affirmavam que o bispo de Leiria Lopo Azinheiro, e a Dona abbadessa de Lorvão Mafalda Azinheiro, e o governador de Mombaça Heytor Malafaya se estavam sorrindo de contestes com tal casamento. E os outros parentes iam ver a alegria dos retratos, e os retratos em verdade pareciam sorrir da inepcia da sua posteridade; porque o bispo fora um virtuoso prelado:{26}a abbadessa morrera em cheiro de santidade; e o governador de Mombaça, se não morreu santo—que o governar na India era pouco azado molde para santos—era pelo menos esperto, consoante as chronicas o descrevem.

Não se persuada o leitor que lhe está imminente uma trovoada de escandalos e offensas á moral. O infortunio da vida intima de dois casados existe sem delictos, sem vergonhas nem aggravos, que resaltam em injurias ou insultos á dignidade humana, das janellas para a rua. O marido póde ser desditoso, sem deslustre de sua honra; a mulher póde ser má e intoleravel, sem enlamear sua fama para sacudir o stigma á face do marido.

Ha umas mulheres que D. Francisco Manuel, na sua preciosaCARTA DE GUIA DE CASADOS, denominabravas. É este o termo que friza a primor em D. Maria. Das bravas, como a representante dos Azinheiros, diz assim o citado philosopho:

«Cuidam com falso discurso, algumas mulheres, que como ellas guardem a lei devida á honra de seus maridos, em tudo o mais lhes devem elles de soffrer quanto ellas quizerem que lhes soffram.»

E accrescenta:

«É este um mero engano, por duas razões; a primeira porque nada se lhes deve ás honradas de guardarem a obrigação, em que Deus, a natureza, o mundo e o medo as tem posto... A segunda...»

A segunda razão desconcerta com o nosso proposito. Abaste-nos saber que Maria das Dôres, ou porque não{27}sentia o coração, ou porque lhe comprimia os impetos com a sua indole soberba, ou finalmente porque se revia e estimava na pureza de sua consciencia, é de todo o ponto averiguado que sobre sua memoria podem os panegyristas afoutamente encarecer-lhe a lealdade sem macula.

O mesmo quizera eu dizer de Gonçalo Malafaya; mas estão aqui ao meu lado os apontamentos protestando contra as demasias da minha caridade, sendo certo que as piedosas fraudes tamanha censura merecem no romance como na historia.

Gonçalo era um homem amavel, cortezão, audacioso, e mestre em astucias, aprendidas «heroicamente» na côrte, que era ainda, com pequenas cambiantes, a mesma côrte de D. José I, successora da outra do nosso Luiz XIV. A piedade de D. Maria I influira nas festas de egreja, nas pompas do culto, e apenas se fizera reflectir na vida das salas. O impulso estava dado; a religiosidade da soberana seria inefficaz a empecer-lhe o passo, ainda mesmo que a sentinella inquisitorial não tivesse adormecido na sua guarita, de embriagada que estava de sangue.

Nenhum outro fidalgo portuense rivalisava em merito palaciano com Gonçalo Malafaya. Amavam-n'o as mulheres pelas graças e chistes da sua conversação, moldada sempre ás leis da cortezia e da elegante selecção das finezas. Prezavam-n'o os mancebos, dado que o invejassem, pelas lições de phrase, e de attitudes, e das mil insignificancias que n'uma sala completam o homem{28}de primor. Os velhos fidalgos, que, em Lisboa, tinham visto os Marialvas e os Vimiosos, diziam que o Porto seria assombro da côrte, se os seus mancebos fidalgos fossem fadados de indole tão prestante, como a de Gonçalo, para se affeiçoar aos grandes e raros modelos, que, na capital, mantinham as tradições do bom seculo. O bom seculo dos velhos é sempre o seculo em que elles foram rapazes, amados e requestados das meninas coevas, as quaes, ao mesmo tempo, estão lamentando, do alto dos seus setenta annos, a baixa condição em que a humanidade se vae degenerando.

No entanto, quem visse o festival cavalheiro nas salas do Porto, nas de Lamego, nas de Amarante, amando, gracejando, planeando caçadas, bailes e folguedos, quem diria as amarguras escondidas n'aquella alma? Sobre a ferida da infinita saudade d'aquella filha do conde, suspirosa sempre d'elle e votada ao claustro por seu amor, que travo de fel D. Maria das Dôres lhe espremia! Hora de paz uma só lhe não dava em casa a esposa. Não era o coração alanceado por ciumes, que sacudia a farpa; era já a phantasia engrandecendo o ultrage para dar vulto ás queixas. Na vida intima, desvelava-se o desamor da esposa; mas para materia da accusação tudo lhe vinha a talho, quer o marido revelasse tristeza taciturna, quer se expandisse em simuladas alegrias. Se melancolico, era o fastio d'ella que o entristecia; se alegre, eram as noticias da filha do conde que tinham chegado. Se o acompanhava aos bailes, afeiava o aspecto de tão má sombra, que, por contagio, diffundia tristeza em todas{29}as physionomias, e mandava tirar a sege, quando o marido se mostrava mais empenhado no jogo, na dança ou na conversação. Em casa, compendiava os artigos do libello accusatorio, em que muitas vezes eram calumniadas senhoras innocentes, e intenções de mera cortezia. Explicações eram exasperar-lhe a sanha; o silencio era confirmação de suspeitas; um sorriso em resposta era redobrar o ultrage pelo escarneo; um gesto desabrido, uma ameaça á justiça do queixume. Quando os pretextos se demoravam na phantasia fatigada de crea'-los, Maria das Dôres lançava mão de creancices. Deixava cair de proposito uma porcellana, e gritava contra o marido que a tinha mudado do seu local costumado. Gonçalo tinha dois partidos a seguir; ou confirmava com o silencio a falsidade, e então o despeito recrescia com o supposto desprezo; ou a contestava com acrimonia, e então sobrevinham altercações, que por parte d'ella, terminavam em syncopes de raiva.

Gonçalo recolhia regularmente á meia noite, e achava a esposa a passear na antecamara, assoprando ás mãos, se fazia frio, e fingindo que tiritava. Perguntava-lhe mansamente o marido porque não se tinha deitado. A resposta era um descomposto aranzel de invectivas contra elle e contra as familias que lhe tomavam o marido para lhe divertirem as noites de inverno. Deixou Gonçalo de ir aos saraus. Maria das Dôres, á terceira noite de dolorosa abstenção, perguntou-lhe se elle ficava em casa para dormir ao fogão, e se casára com ella para lhe ensinar a brincar com as tenazes. Tornou-se Gonçalo{30}aos habitos antigos, e conformou-se com a dura pena de adormecer embalado pelos convicios revelhos e repisados, os mesmos sempre na phrase e na toada, a monotonia nos queixumes, a mais horrivel de quantas ha!

Este viver durou um anno, cinco annos, dez annos, vinte e quatro annos.

N'esse longo e penivel discorrer de dias concatenados, vejamos se algum incidente nos convida a variar de linguagem e a descançarmos o espirito em algum ameno remanso.

Decorridos dois annos, nasceu uma menina, que foi chamada Maria Henriqueta. Ácerca do nome, renhiram quinze dias os esposos, e sete mezes já tinham disputado, antes d'ella nascer. Claro é que argumentaram em hypothese até ao nascimento. Sendo menino queria ella que se chamasseRuy, á semelhança de seu vigesimo segundo avô; sendo menina,Maria, porque nos ultimos quatro seculos, todas as senhoras morgadas da familia se chamavam Marias. Gonçalo desejava que fosseHeitor, sendo rapaz, eBeatriz, ouMafalda, na outra hypothese.

Venceu a mãe, e chamou-se a menina Maria Henriqueta.

As formosuras que deu aos anjos a escola christã, vertendo á tela as côres e os feitios desenhados de bello ideal, todas tinha Maria, aos oitos annos de edade. Quem a via tão linda, e ao mesmo tempo melancolica e meiga, sem abrir nos labios infantis o sorriso de seus annos, cuidava que, alguma hora, as azas de anjo lhe{31}implumariam as espádoas, e ella as desferiria em vôo para Deus, que a mandára á terra a mostrar que bellezas povoam a bemaventurança, e como as almas lá andam vestidas.

Bem pudéra aquella pomba depôr no regaço maternal um raminho de oliveira, e alumiar n'aquella casa o primeiro dia de paz. Por ventura, a tristeza do anjo seria a magua de não ter o condão de conciliar seus paes. Póde ser que as caricias fossem poucas no berço, e á mingua d'ellas, a menina crescesse como orphanada de coração, e sedenta das meiguices, que ella andava mendigando a troco das suas.

Quantas vezes a pequenina acordava alvoroçada aos gritos de sua mãe, e ás estrondosas disputações dos dois, em competencia de phrenesis! Quantas vezes a sua ama de leite fugiu com ella para lhe reconciliar o somno, afugentado pelo medo dos berros e das visagens da mãe!

Raras vezes Gonçalo se entretinha com a filha, porque Maria das Dôres, á falta de outros peguilhos, até das muitas caricias do pae á menina tirava assumpto para bravezas de genio. Umas vezes por aperta'-la de mais; outras, por atordoa'-la com os balanços; outras, porque a fazia chorar; outras vezes, porque as cocegas a faziam rir, em risco de rebentar uma veia. O pae, afinal, largava de enfadado a creança, e saía de casa com os dentes e punhos cerrados, como se assim afogasse a serpente que lhe empeçonhava os mais innocentes gosos.

O amor de Maria das Dôres á filha tinha accessos de doudice. Acontecia arrancar-lh'a dos braços a ama, quando{32}receava que os boléos e tombos, em que a mãe a trazia do seio para o regaço, lhe tolhessem a creança. A menina ganhára á mãe uns medos taes, que dava a fugir, quando lhe podia cortar as voltas. Estes passos, algumas vezes, lhe custavam castigos, que tornavam a innocente cada vez mais assustadiça. Com o pae era differente o apego de Maria. Mal lhe ouvia a voz, corria-lhe aos braços, e saltava-lhe n'elles, como se quizesse librar-se no ar, e ir-se alando, de nuvem em nuvem, até esconder-se no céo! Se Deus te désse então as tuas azas! D'este amor ao pae, eram mais que muito frequentes os reparos de Maria das Dôres, que desfechavam em disparates de louco ciume, e declamações contra a Providencia, que nem sequer lhe deixava os afagos de sua filha. Gonçalo respondia acarinhando mais a creança, talvez com malicioso prazer; mas cara lhe saía a malicia, que ouvia improperios sem conta nem medida, e a muito custo salvava a menina da vingança da mãe, fula de raiva.

Fez Maria nove annos, e já sobejavam luzes de razão para ver sua mãe, e compara'-la, sem poder confundi'-la, com as outras senhoras. Sentia já uns toques de compaixão, quando via o pae injustamente accusado, e devorado de impaciencias, tanto mais dilacerantes quanto a prudencia as afoga nas lagrimas intimas. Alguma vez ousou a menina pedir á mãe que cessasse de mortificar o pae e humildemente offerecia o rosto á bofetada que lhe vinha em retorno da supplica. E nem assim Maria se queixava ao extremoso pae. Escondia-se a{33}chorar no seio da sua ama, a quem ella muito de alma chamava mãe e pedia amparo nas occasiões em que a irritabilidade de Maria das Dôres recrudescia contra quanto a rodeava, ou lhe fugia ás sanhas.

Avisado miudamente pela ama, que afinal fôra expulsa, determinou Gonçalo Malafaya mandar educar sua filha n'um collegio inglez em Lisboa, não tanto para prende'-la, como para subtrai'-la á mãe. Fôra plano d'elle chamar mestres a casa, uns nacionaes, e outros extrangeiros, que era esse o usual systema da fidalguia d'estes reinos; mas o pobre homem, levando a filha ao collegio, sobre aparta'-la dos rigores da mãe, poupava-se a augmentar em casa as testemunhas do seu desgraçado viver, que seriam tantas quantos fossem os mestres, e estes deviam ser muitos, se andassem á caprichosa escolha de sua mulher. Disse elle timidamente o seu intento a Maria das Dôres. Ocioso é dizer que foi contrariado com estirados e repetidos discursos. Tal motivo deu fonte caudal para querellas de algumas semanas. Gonçalo, feito o seu proposito, cogitou em machinar traças para tirar a menina; mas nenhuma lhe dava azo a saír-se bem com o seu louvavel intento. O que elle queria evitar era o ruido do facto, e a precisão de explicar, em abono seu, os precedentes que o motivaram.

A sociedade apenas desconfiava dos desgostos surdos de Gonçalo; e este por vaidade ou por interesse de cousas menos louvaveis da sua vida exterior punha todo o seu cuidado em desmentir ou affrouxar a curiosidade{34}publica, sempre em ancias de escandalos, para dessedentar-se das sequidões da vida quotidiana.

Um successo, apparentemente casual, proporcionou o afanoso desejo de Gonçalo. Os paes de Maria das Dôres tinham ido a vindimas ao Alto-Douro, e ali adoeceu mortalmente a mãe. Vieram apressados portadores com liteira a buscar a filha, por quem a moribunda chamava com incessantes brados. A tempo isto foi que Maria Henriqueta estava de cama com leve mas febril doença. Sua mãe ainda tentou leva'-la, se bem que não desconfiada da alegria occulta no animo do marido; mas os medicos contravieram ao desarrasoado desejo. Saíu Maria das Dôres a assistir á agonia de sua mãe, que foi demorada, e por lá se deteve até ás honras da sepultura, uns trinta dias.

Entretanto, a menina convalesceu, parece que só da alegria de se ver convalescer nos braços do pae, com a ama querida ao seu lado. Gonçalo fizera chamar a ama para ser no collegio a aia da filha. Deu-se pressa na partida para Lisboa, e deixou aos paes o encargo de aquietar as iras da esposa, quando ella voltasse do Douro.

Então contou Gonçalo a seu pae as miudas scenas de sua desgraça. Carecia este de sensibilidade para receber a revelação como castigo. Chegada a sua vez de falar, o velho contou ao filho a longa historia de seus proprios infortunios, soffridos uns com desprezo, outros com paciencia, e todos na certeza de que não ha ninguem feliz. Caíu-lhe a proposito contar uma arrastada historia{35}de um rei poderoso da Asia que mandára chamar ao fim do mundo um philosopho para que este lhe resuscitasse um amigo, e que o philosopho promettera dar vida ao morto, tirando a concerto que o rei mandaria escrever no tumulo o nome de um homem de trinta annos que nunca soffresse um desgosto. Mandou o rei procurar tal homem em todo o mundo; e como o não achassem os enviados, o morto continuou a dormir o seu somno eterno, e o rei mandou o philosopho para a sua terra.

Ouviu Gonçalo o conto, e despediu-se do pae, promettendo dar a sua filha a felicidade que perdera por obediencia, podendo ser ditoso com a mulher, que a sua alma escolhera.

—E os vinculos de Freijoim e Aguas Santas!—replicou triumphantemente o velho.{36}

{37}

Estava ainda no Douro Maria das Dôres, quando recebeu o inesperado golpe em uma carta muito amoravel, que sua filha lhe escreveu do collegio, e outra, não menos humilde, e mais reflectiva do marido. Então comprehendeu ella o silencio de Gonçalo, tendo-lhe ella escripto para o Porto duas cartas, uma queixando-se de passar mal as noites, e desejando que a mãe, a ter de morrer, abreviasse os paroxismos; outra, raivosa, por ter escripto duas, sem receber, sequer, resposta da primeira. Aquellesequerdenota que a snr.ª D. Maria das Dôres queria receber resposta da segunda carta que estava escrevendo. E onde póde chegar o mau genio!

Esteve a senhora algumas horas arquejante de cólera sem saber que deliberação tomar. Rompeu, depois, em queixas contra o pae que, a despeito da vontade d'ella, a casára com o primo. O velho ouviu os clamores, e disse:—«Se tua mãe vivesse, essa santa poderia contar-te o que me soffreu a mim. Deus sabe com que remorsos eu cá fico chorando n'este mundo!... Eu casei{38}por honra da familia, e para me forrar a questões de vinculos e direitos de successão, que meu sogro podia disputar-me vantajosamente. A casa ficou solida, e para ti foi, minha filha. Soffri e fiz soffrer; mas quem é que não soffre n'este valle de lagrimas, Maria?»

Não sei se Christovão Azinheiro tambem sabia a historia do rei que mandou chamar o philosopho; se a sabia, dispensou a filha de ouvi'-la, e esta, sem lhe dar trela a dictames e conselhos, despediu-se, dizendo que a paciencia tinha limites e a desgraça a tinha emancipado. Mal a entendeu o velho; mas sempre lhe disse afinal:—«Lembra-te que és minha filha, e que tens dois santos na familia, o snr. bispo de Leiria, e a snr.ª dona abbadessa de Lorvão.»

Maria das Dôres, sem mesmo se encommendar aos santos familiares, torceu a estrada a meio-caminho, e foi direita a Arouca, em cujo mosteiro ainda tinha vivas suas tias, occupadas em deslindar as bastardias genealogicas das conventuaes, e os ultimos milagres operados por algumas freiras que tinham apparecido inteiras na claustra, depois de vinte annos de sepultura.

Abriram-se as portarias á bem-vinda aia da santa rainha Mafalda, e todas as religiosas a acharam mais bella, mais gorda e mais encantadora.

—Vieste ver-nos, pomba;—disseram as tias, convulsivas de jubilo e de velhice.

—Vim ve'-las, e pedir-lhes a minha antiga cella.

—Como assim? Tu queres tornar para o convento?

—Sim, minhas senhoras; tornar para o convento, e{39}morrer n'elle, se me deixarem. Meu marido fugiu-me para Lisboa, roubando-me a minha filhinha, a luz dos meus olhos, o meu coração, a minha alegria, tudo o que eu tinha n'este mundo. Casaram-me á força, e agora querem á força matar-me. Pois sim, morrerei; mas hade ser aqui, onde vivi os annos felizes da minha infancia, e á sombra de minhas tias, que me não tolheram a felicidade. Não tenho, nem quero ter mais ninguem. Sou rica; mas da minha riqueza tirarei sómente os alimentos necessarios. Sou rica do que é meu; se o não fosse, pediria a minhas tias um quinhão da sua tença.

—Oh! filha! exclamou a mais escorreita das velhas—Isto não sei o que me parece! Em quanto a mim, essa veneta, que te deu, é desesperação de ciume!... Olha lá, porque vens tu vestida de dó? Morreu-nos algum primo? Seria o monsenhor da patriarchal D. Joaquim que deve estar muito velhinho? Seria o sr. bispo da Guarda, que é nosso primo pela linha lateral dos Azeredos Pita-Rellas?

—Foi minha mãe que morreu—atalhou Maria das Dôres limpando uma lagrima espremida pela raiva no afôgo declamatorio.

Ouvida a infausta nova, as senhoras Moscosos Azeredos, que eram tias da mãe de Maria, compuzeram um duo de alaridos roufenhos, que alarmou o mosteiro. Confluiram todas as religiosas á cella, e cada uma garganteou o mais plangente que poude uma escala chromatica de gemidos. As duas freiras anojadas declararam-se em lucto rigoroso, e sentaram-se nas suas cadeiras de{40}solla, a receber os pesames e as visitas nocturnas.

Maria mal podia esconder a sua zanga. O que ella queria era desabafar, gritando e gesticulando; mas o silencio funeral, que pedia o caso, não se compadecia com o seu desafôgo. Já arrependida de entrar no mosteiro, e incapaz de reflectir no disparate da sahida abrupta, a desarvorada senhora, no dia seguinte ao da entrada, mandou metter os machos á liteira e partiu para o Porto, deixando confirmada a fama, que tinha de douda, no conceito de umas senhoras, e a conjectura de que a perda da mãe a enlouquecera, na opinião de outras. Em quanto ás venerandas Moscosos Azeredos, essas, com quanto estivessem pasmadas, não se moveram das suas cadeiras, onde lhes impunha a praxe esperarem a pé quedo que os tres dias do nojo expirassem.

Na correnteza d'estes acontecimentos, estava Gonçalo Malafaya provando-a, sobre todas, mais dorida porção da sua vida. Tentaram-n'o saudades a ir ao mosteiro de Odivellas, onde sete annos antes professára Beatriz, filha do conde de Miranda. Enganára-se com o seu coração o sensivel fidalgo, cuidando que podia ver impunemente a mulher unica do seu amor, a recordação agridoce de sua mocidade. Bem sabia elle que havia de chorar; mas esperava com as lagrimas apagar o incendio, se as cinzas escondessem alguma faúla da antiga chamma.

Foi a Odivellas, e chamou ao locutorio soror Beatriz dos Anjos. Acudiu ao chamamento a esposa do Senhor, a pallida virgem, com as suas vestes magestosas e tristes;{41}mas tristes a olhos mortaes, que mais bellas não as podiam inventar homens para as noivas do céo.

Era ainda formosa, ou mais formosa era então a chorada Beatriz dos salões da côrte, dos esplendorosos saráos, das invejas dos moços, e das mil brilhantes esperanças, apagadas todas n'uma hora. Deus a chamára a si, dotando-a com a perpetuidade da juvenil belleza. Tomou-lhe do coração os dons, que mal soubera merecer-lhe o homem amado; e, em cambio d'elles bafejou-lhe de eterno maio as flores da face e a juventude do espirito.

Maravilhou-se Gonçalo de a ver tão gentil: e ella, mal recobrada da torvação da surpresa, espantou-se da mudança do galhardo moço que ella amára.

Quizera a religiosa fugir; mas o coração ia attraído para a doce voz, que era a mesma em ternura, e para os olhos marejados das antigas lagrimas.

—A que veiu aqui?!—perguntou Beatriz, com os olhos postos sobre o escapulario.

—Vim atormentar-me—respondeu Gonçalo—Vim procurar as torturas, que faltavam ao meu martyrio.

E contou Gonçalo com pueril sinceridade a historia da sua vida, como filho amimado conta a sua mãe desgraças, que se vão consolando ao refrigerio dos prantos d'elles.

De instante a instante embargavam-lhe os suspiros a voz, e os vágados lhe annuveavam as idéas. Com rosto socegado ouviu Beatriz as lastimas, os remorsos, e as confessadas cobardias do seu arrebatado{42}interlocutor; e, com immutavel rosto, respondeu por estas memoraveis palavras:

—Eu tambem tinha pae e mãe que me amavam muito, e cavalheiros que muito me queriam. Fui pedida para esposa, e meus paes mandavam ao meu coração que respondesse. Amei-o, senhor; e, se por si me perdera, Deus sabe que eu só de mim havia de queixar-me. Preferi-o, e com a cega preferencia, que lhe dei, esperei-o até á hora em que m'o disseram morto para mim. Se morreu tambem para a felicidade, amargamente o sinto. Quem me dera ver toda a gente feliz, os meus inimigos mesmo, se acaso os tenho! Depois é que eu lhe poderia dar um grande exemplo de coragem; mas... para que? De sobejo me contento com ser exemplo de infortunio. Meus paes não me queriam religiosa; meus parentes conspiraram todos contra mim; e comtudo... sou religiosa, amortalhei-me, sepultei-me, e fiz da chamma do meu amor a luz, que alumia sepulturas, e nem sequer aquece a lampada que a encerra. Separados para sempre, sr. Gonçalo Malafaya! Não temos que esperar um do outro, senão narrativas de lagrimas, que recrudescem a amargura, e nada remedeiam. Peço-lhe pelo amor, que lhe tive, me não procure mais, nem me desassocegue inutilmente. Eu achei aqui a paz, depois de muito a pedir a Deus. Peça tambem; rogue, e faça da sua paciencia um direito á misericordia divina. Viva para sua filha, se outra imagem não tem no coração. Adeus.

Beatriz dos Anjos, inclinando de relance a vista embaciada{43}ao locutorio, sumiu-se na escuridade dos corredores, que vão da portaria para o interior do mosteiro. Gonçalo tartamudeára palavras, sem sentido, e quedára-se estupefacto, com os olhos fitos na lamina crivada do palratorio.

Voltou a Lisboa o allucinado fidalgo, e de tamanha tristeza se entranhou, que nem as caricias da filha o despenavam. Errou com a escandecida mente por quantas absurdezas se offerecem ao desatino da paixão. Roubar ao mosteiro a religiosa, e fugirem para remotos climas não foi o maior nem o mais original dislate da sua phantasia. Rebelde aos preceitos recebidos, escreveu primeira e segunda carta a Beatriz, e recebeu-as abertas, com a terceira fechada. Um frade capellão ou confessor de Odivellas, lh'as entregou, e quiz asserenar-lhe os transportes com os mais justos dictames, e piedosas reflexões que suggeria o caso.

Ouviu Gonçalo, uma hora, o apostolico varão, e sentiu despontarem-se os espinhos de sua dôr, amollecidos pelos prantos a que o forçava suavemente a compungitiva linguagem do monge. Não levantou mão d'elle o enviado de Beatriz. Buscava-o a miudo na sua soledade, e cada dia lhe ministrava lenimentos novos, hauridos da inexhaurivel fonte do Evangelho.

Com o decurso de algumas semanas, Gonçalo Malafaya conformou-se com a desgraça irremediavel, e habituou-se a invocar o auxilio do céo, se vergava, alguma hora, ao confrangimento de desesperada saudade.

Maria Henriqueta conheceu nos primeiros dias de collegio{44}os mais saborosos instantes de sua infancia, senão os primeiros. Tinha muitas meninas a ama'-la, as mestras á competencia de meiguices, muitas creadas a servi'-la, e a sua ama querida a inventar-lhe sempre as innocentes delicias, que a pobre menina desconhecera sob o olhar severo e glacial de sua mãe.

Custou-lhe lagrimas o adeus do pae; mas foram as primeiras e ultimas que chorou alli.

Depois de sessenta dias de ausencia, entrou Gonçalo em sua casa no Porto. Avisára elle de antemão os paes para lá o esperarem, temendo o primeiro encontro com a mulher. Recebeu-o a mãe nos braços, e disse-lhe ao ouvido:

—Olha que Maria das Dôres está douda furiosa.

Achegou-se o pae da outra orelha, e disse-lhe:

—Talvez seja preciso amarra'-la.

Gonçalo encarou em ambos, e respondeu:

—É a felicidade que lhes devo, meus carinhosos paes.

A mãe entendeu, sem merecer creditos de esperta, a ironia, e replicou mansamente:

—Tens razão, meu filho! tens razão...

E o pae accrescentou em outro tom:

—Ás vezes dois puxões de orelhas curam estas doudices.

Maria das Dôres, com o seu feio costume de escutar, ouvira as palavras do sogro e exclamára:

—Dois puxões de orelhas!... Quero vêr se ha mão que se atreva a isso!{45}

—Cala-te ahi!—bradou o velho.—Se fosses minha mulher, havia de... esganar-te! Fizeste desgraçar meu filho, que é um anjo, todos o respeitam e amam, menos tu que és uma vibora peçonhenta! Gonçalo, deixa tudo!—exclamou, voltado ao filho—deixa tudo a essa mulher, e vem para nossa casa. Poupa os teus dias; foge a esta diabolica creatura, e o mundo saberá da minha bocca a razão porque lhe foges.

Maria das Dôres tinha de ordinario uns deliquios de reserva para as crises em que a palavra era menos significativa de sua consternação ou raiva. Occasionou-se-lhe ensejo optimo para um. Desmaiou, caindo com toda a segurança da sua pessoa n'um bufete da sala de espera.

Gonçalo sentou-se extenuado em frente de sua mulher; pendeu a cabeça para o seio, e, com as mãos na cabeça, parecia recurvar as unhas sobre o craneo.

—Que inferno!—exclamou elle.—Que inferno este, meu pae! Que vida tão escura a minha, agora, e sempre! Estou no vigor dos annos, e é forçoso que os acabe por minhas mãos, ou que me deixe despedaçar hora a hora por esta mulher! Tinha uma filha, que podia ser-me allivio, e fui obrigado a separa'-la de mim para a furtar á influencia nefasta d'esta senhora, que nem boa mãe é! Nem mãe, santo Deus! Nem a virtude das feras coube em partilha a esta que me deram por esposa!

Chorava a mãe de Gonçalo, e o velho estava passado menos da dôr, que do arrebatamento do filho.{46}

Maria das Dôres ouvira tudo, e provavelmente descerrára as palpebras para observar a gesticulação do marido. Abriu de todo os olhos esgazeados; affastou da fronte os cabellos, como fazem nas tragedias as doudas, ou as arriscadas a isso; levantou-se cambaleando, segundo a arte, e tirou-se do salão, assoprando como serpente ferida na cauda.

Vacilou Gonçalo entre ficar ou recolher-se á residencia de seus paes. A mãe instava pela saída, conformando-se á primeira vontade do marido; este, porém, reflectindo um pouco, disse que mais acertado seria o filho, depois de liquidar contas com os caseiros e conhecer a fundo o estado de sua casa, cuidar em separar-se judicialmente, allegando com o depoimento dos servos o genio intractavel da mulher.

—Fez-me o casamento, pae,—disse Gonçalo—e quer desfazer-m'o agora!... Assim devia ser; mas o peior é eu hei de ser até á morte um escravo d'ella, ou da ignominia da minha situação. A separação dá causa a juizos vilipendiosos, meu pae; e eu, sobre todas as calamidades, não quero affrontas. Já agora hei de soffrer e morrer aqui. Hão de regosijar-se da sua obra... Quero que sintam o remorso de me acabarem lentamente a vida, que tão feliz se me antolhava; matassem-me antes! antes a morte, que assim, ao menos, poupar-me-iam a ser testemunha da outra infeliz, que tambem mataram! Ó alma do céo, perdoa-me tu, pelas dores com que aqui estou expiando a minha fraqueza!...

Os velhos não entenderam cabalmente a apostrophe,{47}e de si para si ficaram em que o filho estava menos escorreito e são de seu juizo.

Recolheu Gonçalo á sua camara, e n'ella passou alguns dias encerrado, sem ver a mulher. Ahi recebia as visitas, que, prevenidas pelo velho Malafaya, evitavam perguntar-lhe pela prima Maria das Dôres.

Esta, encerrada tambem no seu quarto, apenas recebia a visita do medico, e a do capellão, santo homem, que á mingua de eloquencia christã, se estava sempre benzendo, sem dar a razão de tamanha prodigalidade do signal da cruz.

N'este critico intervallo, Maria das Dôres absteve-se de governar a casa, e de transmittir suas ordens aos creados. Os negocios do governo culinario corriam sob a fiscalisação do padre, que mostrou sua especial vocação no desempenho d'elles. Almoço, jantar e ceia, ás horas, nunca faltou, bemdito seja o Senhor!

Passados dias, foi o medico portador de uma carta de Maria das Dôres a seu marido. Dizia em resumo o escripto que ella imperiosamente queria recolher-se a casa de sua familia, por já não poder supportar o flagello, que seu pae lhe apparelhara. Mais dizia, que se voltára do Douro alli, fôra causa d'essa imprudencia querer ella entregar a seu marido as chaves de suas gavetas, e as preciosidades, que elle trouxera dos seus. Posto isto, rematava dizendo que fôra sempre uma esposa digna e sem mancha; ao passo que seu marido era um homem de costumes estragados, merecedor de outra mulher, capaz de vingar-se, pagando affronta com affronta.{48}

Gonçalo leu a carta e respondeu verbalmente ao doutor:

—Que faça o que quizer. Que vá para o pae se lhe apraz; que se deixe estar, se está bem; na certeza de que, lá ou aqui, a nossa separação está resolvida para sempre.

Maria das Dôres ouviu a resposta, pediu ao medico o favor de retirar-se, saltou fóra do leito, vestiu-se em grutesco desalinho, e entrou, com furial aspecto, no quarto do marido.

Sentou-se Gonçalo no leito, como attonito da improvisa apparição.

—Que quer, prima?—gaguejou elle.

—Quero ouvi'-lo; quero ouvir da sua bocca as palavras que me disse o doutor.

—Se lh'as elle disse... que mais quer?

—Diz-me o primo que vá para meu pae?

—Se quizer.

—Não quero!

—Pois não vá.

—Eu não ando ás suas ordens! Sou sua mulher. Entendeu?

—Entendi.

—E então?

—Então o quê! Que é que me diz?

—Que não saio d'esta casa que é minha.

—Deixe-se estar.

—Mas o senhor que disse mais?

—Que a nossa separação está resolvida para sempre.{49}

—Isso é se eu quizer.

—Quer queira, quer não.

—Eu allegarei as minhas razões em justiça.

—Não temos que ver com a justiça. A prima Maria das Dôres tem os seus aposentos n'esta casa, e eu tenho os meus. É n'este sentido que eu entendo a separação.

—Não quero!—exclamou ella, batendo com o pé rijamente no tapete.

—Em tal caso, obriga-me a sair d'esta casa.

—E eu vou procura'-lo onde estiver.

—A prima é uma senhora. Fio da sua nobreza que se poupará e me poupará a vergonhosos alardes.

—Qual nobreza, nem qual vergonha? Sou sua mulher! não é mais que dizer—não me serves—e acabou-se tudo! Recorro ás leis. Quero saber porque sou abandonada. Fui-lhe infiel, primo Gonçalo? Atraiçoei-o? Faltei aos meus sagrados deveres de esposa?

—Nunca o suspeitei.

—E o primo faltou? Responda.

—Não tem resposta.

—Tem. Tem resposta. O senhor é que não tem alma nem vergonha. Quer ir viver com outra? Diga-o francamente, que eu n'esse caso vou-lhe fazer presente das joias, já que o senhor a faz proprietaria dos meus direitos. Escusa de sair: póde traze'-la para aqui. Veja lá primo... se precisa de aia a dama, estou eu aqui que lhe sirvo.

—Cale-se, senhora!—bradou Gonçalo.—O despejo da{50}phrase offende tanto como o despejo da acção. Estão ahi as suas creadas a ouvi'-la. Felizmente que não está aqui uma menina de onze annos para lhe decorar essas palavras, aprendidas não sei onde, nem com quem. Prima Maria das Dôres! attenda-me com o seu silencio, se póde. Este viver é impossivel. A senhora apurou-me a paciencia até ao extremo. Soffri-a emquanto o facto da separação me pareceu desairoso. Sacrifiquei-me á dignidade, que foi sempre o melhor timbre de nossas familias. Baldei as dores surdas que padeci. Ninguem me compensa, nem a sua indole se chegou a condoer de mim. Mudei, prima, mudei completamente. Quer saber a minha deliberação final? Digo-lh'a livre de medo que m'a embarace. Em ultimo recurso, fujo de Portugal, e deixo-a. Irei onde me não conheçam, nem me denunciem á sua perseguição. Felizmente sou rico. Bom é que eu alguma vez conheça as vantagens de ser rico. O que é meu basta e sobeja. Posso ainda viver alguns annos tranquillos; em toda a parte hei de achar amigos.

—E amigas...—atalhou ella.

—E amigas, diz bem a prima; porque não.

—Basta!—vociferou Maria das Dôres perfilando o dedo indicador com o nariz.—Basta! não se envergonha agora que o estejam escutando as creadas? Faça o que quizer. Abandone-me; mate-me; sacrifique-me aos seus caprichos, primo, que eu deixo a minha causa á Providencia, e a sua alma ao remorso.

Gonçalo sorriu, e Maria das Dôres, atirando para o{51}pescoço uma aba do gabão de castorina, saíu com toda a magestade d'uma rainha colerica.

O padre capellão, que tambem tinha o vêzo de escutar, já se tinha benzido vezes sem conta com ambas as mãos.{52}

{53}

Poude muito comsigo Maria das Dôres, enfreando o genio; mas desmedrou a olhos vistos. Ao cabo de tres semanas estava magra, secca e quebrada de espirito, que era um pasmar das creadas. Sustentou Gonçalo dois mezes a sua palavra. Saía por portas remotas do repartimento em que sua prima vivia. Jantava raras vezes em casa, e sempre em separado. Seroava por salas de amigos e parentes até noite alta. Recolhia a tempo que sua mulher dormia; e, finalmente, recebia as visitas em salas distinctas das frequentadas pelas senhoras.

Este divorcio domestico teve longe soada, e deu ansa a muitas calumnias, umas gravosas para a fama da senhora, outras a taxarem de cru e barbaro o marido. O velho Azinheiro commentava o facto em abono da filha; o velho Malafaya andava solicitando a canonisação de seu filho martyr. Deu-se a feliz conjuncção de se encontrarem os dois velhos em casa de uma familia, empenhada na reconciliação dos casados. Deram ambos amigavelmente as causas da desordem, cederam-se mutuamente{54}as sem-razões de parte a parte, e vieram ás boas, pactuando o afervorarem a harmonia, na vespera do Natal, á mesa do amigo e parente commum, que lhes proporcionára o encontro.

Assim se fez.

Gonçalo acceitou o convite, sem presumir o fim; Maria das Dôres, instada pelo pae, accedeu tambem. A surpreza foi de ambos, quando se viram na mesma sala da ceia. Achava-se presente o deão da Sé, sujeito de grandes lettras, e abalisada prenda de bom-falador. Foi elle o encarregado do discurso, quinze dias antes. Não foi discurso o que saíu da uberrima e caudal veia do prebendado: foi uma homilia, como os santos padres a quereriam ter feito. Se lhe mondarmos a exhuberancia dos textos latinos, á mixtura com os versos gentilicos, era uma peça litteraria com que eu faria os meus creditos, se a podesse reproduzir, e o leitor m'a attribuisse ao meu corcovado engenho. Corcova-se o engenho, como a espinha dorsal, leitor amigo, quando frigidas e geadas de infortunio regelam e abatem as altivezas do genio. Não assim ao conspicuo deão da Sé portuense, que vivera cincoenta annos de vida folgada e de côro, rindo com os vivos, cantando pelos mortos, e compondo, nas horas feriadas, discursos attinentes a restabelecer a ordem perturbada nas familias, em cujas casas jantava, uma vez por dia, ou duas, se caía a talho de fouce.

Ia em meio o discurso, quando as senhoras edosas, lavadas em lagrimas como punhos, começavam a perder o appetite das rabanadas e dos ovos de fio. Os velhos{55}fidalgos, para em tudo attingirem o sublime dos conceitos, até com acenos de cabeça confirmavam o bem cabido e apropositado dos textos latinos, cousa de todo o ponto indigesta ás capacidades d'elles. Rematou o discurso por este memorando periodo:

«... Finalmente, é chegada a hora, a propicia hora de dois corações se approximarem, quaes carinhosos e gemebundos rolos, que nos esgalhos de longiquas arvores, se estão suspirosos namorando! Abra o mais forte os doces braços, e cinja em meigo amplexo a fragil e quebradiça creatura, que senão fôra toda amor, seria toda divindade.Toto Dea, tota pulchra, tota vel amor.(Entre parenthesis: supponho que o latim era arranjo do imaginoso deão: não me occorre ter lido cousa tão delambida na antiguidade). Finalmente, tornou elle—se dois são os culpados, o reciproco perdão abra-se já em perfumes de reciproco amor. Para enxugar as lagrimas, beijos; para delir injurias, sorrisos; para cicatrizar chagas do peito, abraços. Vamos, felizes esposos; renasça a paixão, o ardor da chamma antiga,veteris flammæ, n'esta hora em que renasce para o amor e para a fé da humanidade o redemptor da culpa, o redemptor das paixões más, aquelle que disse: a carne da minha carne, o osso do meu osso:caro ex carne mea, os ex ossibus meis.» Disse.

Heytor Azinheiro tomou a filha pela mão; Christovão Malafaya abarcou pela cintura o filho, e deram alguns passos a encontrarem-se.

Gonçalo beijou a esposa na fronte; Maria das Dôres{56}cingiu o braço ao collo do esposo, e ficou em duvida se devia desmaiar.

Não teve tempo. Moviam-se e vozeavam todos a um tempo. O deão conservava ainda a face escarlate do rescaldo da inspiração. Houve ahi fidalgo enthusiasta da facundia, que beijou a face do orador, a face em que, uma hora depois, cuidaria Sileno achar o espelho.

Foi noite cheia, noite que vae contando, na chronica das familias, ás provindouras proles, delicias nunca mais repetidas.

Mas nos labios de Gonçalo não avoejára um riso em toda a noitada, que prendeu com o dia; nem os de Maria das Dôres se abriram com palavra carinhosa ao esposo.

Voltaram de braço dado a casa; almoçaram juntos, e falaram de Maria Henriqueta, elle choroso, e ella melancolica. Ao jantar falaram ainda da menina, e combinaram em irem proximamente visita'-la a Lisboa.

Decorreram dias serenos, se não felizes em comparação dos passados. Maria queixava-se, mas com brandura: Gonçalo ia confessando suas demasias de impaciencia; mas sem vontade nem consciencia de as ter dito. O padre capellão continuava a benzer-se, mas já era de pasmado da mudança que o Senhor fizera nos casados, mediante as orações d'elle. Modesta piedade!

Foram a Lisboa, e fizeram contentes a jornada. Tiveram comsigo a filha em Cintra, e visitaram os arrabaldes pittorescos da formosa Lisboa.

Maria Henriqueta estava adiantada em cravo, dançava{57}com muito garbo e limpeza o minuete, arrastava com gracioso despejo a cauda do vestido, e levava o toucado a maravilhosa altura, sem desluzir a graça. No tocante a linguagem, em poucos mezes, todos a julgariam pura lisboeta. Um dizer morbido, preguiçoso e indolente, como cortado de gemidos, cousa mais de enfeitiçar ouvidos nunca Maria das Dôres imaginou que pudesse ouvir dos mellicos labios de sua filha.

No ponto de belleza, não ha ahi cousa que mais diga. Alteára-se, desempenára-se, alargára de espádoas, mingoára de cintura, pisava tão geitosa de mimo e movimentos, que parecia librar-se toda em cadencioso bater de translucidas azas. Facil era divisar assomos de vaidade no olhar da mãe. Já ella entre si dizia que mais amavel e perfeita fôra, se seus paes a tivessem mandado educar á côrte, em vez de a soterrarem n'um brutificador convento, onde as mulheres eram todas umas, e ridiculissimas as gaifonas monasticas, sem graça nem calor. Cohibia-se Maria de communicar ao primo estes seus pensares, com medo de relembrar-lhe cousas em que elle muitas vezes cogitaria, com desfalque dos taes quaes merecimentos d'ella.

Detiveram-se em Lisboa quatro mezes. Raras palavras enfadosas se trocaram, e essas mesmas eram contendas por amor da menina, que a mãe quizera levar comsigo para o Porto, desejo inepto que o marido impugnava, dizendo que a educação da filha estava em principio.

Na ante-vespera da partida, senhoreou-se do espirito de Maria o entojo de vêr o mosteiro de Odivellas. Sabia{58}ella que farte da profissão da filha do conde, e anciava por ve'-la, curiosidade por vezes mui fatal a mulheres, que não sabem o que fazem nem o que desejam. Recusou-se, primeiro, Gonçalo; meditando, porém, que só uma casualidade traria ás janellas gradeadas do mosteiro Beatriz dos Anjos, condescendeu. Fôra, porém, tão prompta a condescendencia, que D. Maria fez pé atraz, e demudou do intento, resmuneando palavras ciosas, que fizeram lembrar a esposa, antes de regenerada pelo discurso do deão, que santa gloria haja.

Azedou-se o marido da versatilidade da mulher e então iam pegando em permutação de remoques, mui dispostos a despregarem em formal descompostura. Espalharam-se as nuvens da imminente borrasca, e o azul sereno do provisorio céo cobriu mais alguns dias de bonança.

Ficou Maria Henriqueta em delicias, por se vêr livre do suborno da mãe, que a induzia a pedir ao pae a saída do collegio. Se alguma vez por temor ou respeito o fez, de tal geito relanceava os olhos ao pae, que o mesmo era implorar-lhe piedade. Por de sobejo lhe adivinhava Gonçalo a vontade; e, dilatando a resposta, foi ganhando tempo, e dispondo a saída, com promessas de lá voltarem.

Quando chegaram ao Porto, tangiam a finados os sinos da Sé. Estava sobre a terra o sapientissimo deão. Ruim agouro!


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