E, de mais, se eu conseguir levar ao tumulo dos meus infelizes uma lagrima da leitora; se alguma hora, subir da terra um pensamento ao céo dos martyres, não será esse favor da piedade um bem tão consolativo para elles? A quem hão de elles agradecer o pensamento e a lagrima se não a mim, que lhes contei os infortunios, e, em vez de um epitaphio, lhes colloquei uma urna para os que lá quizessem chorar, e a mais triste pagina d'este livro para quem quizer consolar-se das suas nas desventuras alheias?FIM DA SEGUNDA PARTE{166}{167}TERCEIRA PARTEIVieram os esposos acompanhados até á fronteira pelo alcaide e suas filhas. Ahi se despediram com muitas saudades e esperanças de se encontrarem, passados dois annos, no Porto. O cavalheiroso hespanhol disse a Filippe Osorio e á consorte: «Se alguma vez fordes desgraçados na patria, lembrae-vos do céo de Hespanha, e do vosso segundo pae, e de vossas irmãs. Em nossa casa sois familia nossa; e já sabeis que em toda a Castella sois como bons filhos da nossa boa terra. Seja a nossa amizade um modelo do que deviam ser os irmãos da peninsula, os que se apartaram eternamente odientos em Aljubarrota e Montes-Claros. Se fordes felizes, nem por isso nos esqueçaes.»Chegaram a Mirandella. D'ahi escreveu Maria Henriqueta a sua mãe perguntando-lhe se podia ir para o Porto confiada no perdão do pae. A resposta carecia de{168}inteira affirmativa; mas accedia ao desejo da filha. «Teu pae, ponderava D. Maria—diz e desdiz; ora condemna, ora perdôa; todavia, eu conto comigo e tu com a tua filhinha. Por mais mal que te faça, serão só palavras: e palavras o vento as leva, e outras te dirá depois que te compensem algum dissabor. Em todo o caso, vem, que eu vou dar o ultimo assalto, e segurar o lanço.Escripta esta carta, D. Maria das Dôres convidou o marido a passar duas horas em seu quarto, antes de recolher-se. Gonçalo accedeu ao geito blandicioso da esquiva prima, raras vezes meiga. A soledade, a tristeza, a velhice, e o quasi desamparo em que o deixaram amigos e parentes, crearam n'elle a precisão dos carinhos.Foi Gonçalo ao quarto de sua mulher, e encontrou-a lendo a carta de sua filha.—Quem te escreveu, prima?—disse elle.—Foi a nossa pobre Maria Henriqueta.—Tem fome por lá? O amante abandonou-a?—Não digas «amante», primo. Marido é o nome que tem.—Marido, sem o meu consentimento! As leis não me dispensam de ser ouvido.—Dispensa-te a lei de Deus, meu Gonçalo. Estão casados, e eternamente casados.—Pois que sejam felizes.—A nossa filha só póde ser feliz com o teu perdão.—Tu ahi tornas!...—E tornarei sempre; quer Deus que eu seja a sua voz ao teu bom coração. Perdoa-lhe, primo!{169}—Foi para isto que me chamaste?! Eu logo vi que era demencia esperar allivios... Se ella tem fome, manda-lhe dinheiro; se está abandonada, diz-lhe que torne para o convento, e lá terá abundancia.—Nem fome, nem abandono, Gonçalo! Parece que dás mui baixo preço a tua filha! Aquella menina tão linda e prendada, haveria homem que a abandonasse?—Linda era a outra que...—A outra qual?—Nada...—disse Gonçalo, sacudindo a visão de Beatriz de Noronha.—Ignoras tu—proseguiu D. Maria—que o pae de Filippe é rico, e extremoso pelo filho? Eu sei que os esposos viveram em Hespanha com todas as commodidades, e nunca Maria me pediu a menor cousa, nem as suas joias, nem os seus vestidos. O que ella pede é a estima de seu pae, e quer pedir-te perdão pela bocca de sua filhinha, que tem sete mezes. Não se te alegra o coração com a esperança de teres nos braços uma creancinha, filha de nossa filha?—Que fatalidade!... Mais uma mulher!...—exclamou elle com entonação pouco abonatoria do seu bom siso.—Então isto é uma cadeia de desgraças? Melhor lhe fôra á mãe desobediente esmagar a filha no berço, para não crear ao seio a vibora que me ha de vingar!—Cala-te, meu primo, meu querido Gonçalo! Que sombrios vaticinios os teus! Quando te alumiará a Providencia Divina essa escuridade em que vives?—Ha de alumiar-m'a a lampada da sepultura. Isto{170}em mim é o horror das trevas eternas, sem mais luz nem esperança!—Ora, vem cá, filho!—tornou com extrema maviosidade a esposa, tomando-lhe as mãos, e aconchegando-as do peito—Não desprezes a luz que o céo te manda nos olhos carinhosos da tua netinha. Verás que vida nova se nos faz na velhice. Has de sentir o que é consolar-se a alma perdoando. Sabes tu quantas penas terá curtido nossa filha, desterrada, por terras extranhas, mudando de nome para não sacrificar o marido...—O marido! atalhou em voz soturna Gonçalo—O marido! Se ella podesse convencer-me de que não casou... perdoava-lhe!—Não digas tal, primo, por dignidade nossa e d'ella! Pois tu negas perdão á esposa, e da'-lo-ias á concubina?! Cala-te, que desvarias; a tua razão e coração devem contradizer esse desatino, que é uma doença do teu espirito. Eu sou mulher, e mãe, e não perdoaria á filha, que, contra nossos conselhos, se tivesse sacrificado a um infame seductor. Torna em ti, meu primo, e convence-me de que estás bem com a tua consciencia, perdoando o mal, que te fez a desgraçada, que só por amor invencivel poude desobedecer-te. Aqui tens a carta que me ella escreve de Mirandella; olha estas expressões:Ás vezes penso que meu pae ha de amar muito esta creancinha, que tem já no rosto signaes de vir a ser muito parecida com elle. Se eu podesse mandar este anjo adiante de mim, seria elle quem me abrisse as portas do paraizo de minha familia: Vês tu? É a tua Maria{171}Henriqueta que fala assim ao teu coração. Tu já lhe perdoaste, não é verdade?—continuou a esposa com transporte, beijando-lhe as mãos e o rosto—Posso dizer-lhe que venha afouta beijar estas mãos, que eu beijo tão reconhecida como ella?Gonçalo caíu sobre a cadeira d'onde, momentos antes, se levantára na tenção de fugir do quarto. Escondeu o rosto no seio, e passados anciosos instantes, murmurou:—Que venha; mas que eu a não veja.Saiu Maria das Dôres vaidosa do seu triumpho. As ultimas palavras do marido equivaliam ao perdão. Não querer ve'-la seria a transição para ve'-la, e ama'-la. N'este presupposto, deu como rehabilitada a filha e participou ufana aos seus parentes e visitas o ter ella congraçado Gonçalo com seu genro. Os parentes, alegres com a nova, iam da sala ao quarto do fidalgo felicita'-lo, com grandes louvores de seu juizo e nobreza d'alma, censurando ao mesmo tempo, que tardiamente o fizesse. Estes emboras irritaram o velho, por partirem de pessoas, que elle tinha em odio á conta de lhe molestarem os brios, chasqueando-o agramente por ter querido, á fina força, casar a filha com o conde de Monção.—Eu não disse ainda que perdoava!—redarguia o fidalgo irado—A prima Maria das Dôres está brincando com a minha decrepitude. Não me arrependo do que fiz; hei-de ter brios até ao fim da vida, e muito desprezo para quem duvidar se eu os tenho.Isto era pungentemente allusivo.Os primos iam ter com a fidalga, e diziam-lhe que{172}acautelasse a filha dos primeiros impetos do pae, cuja alma estava ainda muito crúa, e a soberba muito inflamada.Debaixo da má impressão dos parabens, que elle imaginou ironicos e offensivos, saíu Gonçalo Malafaya a prevenir o chanceller, o regedor das justiças, e o juiz do crime de que sua filha estava em Mirandella com direcção ao Porto, e que vinha com ella o desertor. Os magistrados responderam-lhe que os crimes militares não entendiam com elles, executores da justiça civil. No que tocava a Maria Henriqueta, ajuntaram que, estando ella legitimamente casada, a lei lhes vedava aceitarem a intempestiva querella de pae.—Mas eu hei de provar a nullidade do casamento—redarguia Gonçalo.—É possivel—replicavam os magistrados—mas a prisão não póde antecipar-se á prova que v. ex.ª quer dar.Mallogrado o mau intento voltou-se aquelle espirito enfermo para melhor paragem. Foi ao governador militar e denunciou estar no reino o desertor tenente de cavallaria Filippe Osorio. Disse-lhe o governador militar que já sabia da sua vinda com o proposito de responder e ser julgado; mas—accrescentou—admiro que a denuncia me seja feita pelo pae da esposa de Filippe Osorio! Que outrem o delatasse!... mas v. ex.ª denunciante de seu genro, que perdeu a carreira por amor de sua filha, que hoje é mulher d'elle e já mãe de uma menina!... É espantosa aberração!{173}—Eu hei de provar a nullidade do casamento de minha filha!—redarguiu Gonçalo Malafaya.—Prove v. ex.ª tudo; mas abstenha-se de provar que todas as vinganças desairosas lhe servem. Eu conheci Filippe cadete do regimento em que eu era major, ha sete annos. Tive-o sempre no preço mais avantajado da intelligencia e decoro militar. Se eu fosse principe, dera-lhe a minha unica filha; e, sendo Gonçalo Malafaya, dera-lhe a filha, o coração, e o sangue todo de meus avós por um abraço.Gonçalo abafava de raiva, e saíu convulsivo de ameaças de furia. Entrou em casa, e rompeu em alaridos descompostos contra Maria das Dôres, contra a filha, contra a justiça, e contra Deus. A mulher, fallecida de paciencia, perguntou ao capellão se seria prudente segurar o marido no seu quarto, antes que elle passasse a espancar a gente da casa.Benzeu-se tres vezes o padre e disse:—Seria bom segura'-lo antes que elle espancasse a gente da casa; mas eu não me metto n'isso, porque diz lá o ditado, com doudos nem para o céo, senhora fidalga!Passados dois dias, chegaram ao Porto Filippe Osorio, Maria Henriqueta, a filhinha nos braços da ama, e os dois velhos creados.Maria Henriqueta escreveu da hospedaria a sua mãe, noticiando-lhe a chegada. «Em que má hora!—dizia a mãe na resposta.—Está mais furioso que nunca teu pae. Ha dois dias que sae a mover contra teu marido os{174}poucos amigos, que se condoem d'elle. Esteve tudo muito bem disposto; mas agora me consta que teu marido tem de responder da prisão pelo crime; e teu pae, aconselhado por vis letrados, que o exploram, vae intentar uma acção de nullidade de casamento. A tua vinda para aqui é imprudentissima.Temos que combater um mentecapto em furias. Parecia-me que o melhor seria entrares no recolhimento de S. Lazaro, em quanto se não decide o julgamento de teu marido. A outra demanda póde levar tempo a decidir; mas o resultado ha de ser o que nós desejamos, se com effeito o teu casamento está legal, como cuido. Pensa n'isto, e dá-me resposta para meu governo. Se convieres em te recolheres a S. Lazaro, desarmarás d'esse modo a colera de teu pae, e terás meio caminho andado para a reconciliação.»Lida esta desconsoladora carta, Filippe bebeu as lagrimas da esposa, e empenhou as mais seductoras ficções de seu espirito em persuadi'-la a recolher-se a S. Lazaro, em quanto elle respondia ao conselho de guerra.—Apartar-me de ti!—exclamava ella.—Por alguns dias, dias derradeiros da nossa tormenta de oito annos, sacrificio necessario para ganharmos a quietação, que virá mais cedo do que podemos espera'-la com a nossa desconfiança de infelizes. Escreve a tua mãe, que eu vou apresentar-me ao governo militar.Filippe deixou sua mulher estupefacta, e escondeu-se a chorar. Se elle succumbisse, quem daria alentos á pobre{175}esposa e mãe? Se o coração fosse sincero n'aquella hora, quantas torturas inuteis para ambos!E Maria Henriqueta, como se voluptuosamente se estivesse dilacerando os seis d'alma, dizia entre si:—A serenidade com que Filippe se aparta de mim! A frieza dos seus conselhos! Ó meu Deus! serei eu já aborrecida! Estará elle arrependido de se ter lançado na carreira da desgraça por minha causa, deixando a outra que tantas venturas lhe promettia! Mas, se me não ama, poderá despedir-se d'este anjinho com os olhos seccos?!E abraçava com arrebatada ternura a menina.Filippe apresentou-se ao governador militar. Foi esta a branda e animadora linguagem da auctoridade:—É forçoso que se recolha ao castello da Foz. Escuso dizer-lhe que será absolvido, porque a Regencia quer que o seja. Espero que em menos de tres mezes esteja livre. Sua esposa tem licença para viver comsigo no castello.—Não póde ser.—Porque não póde ser?—Meu sogro vae litigar a validade do meu casamento, as leis mandam que minha mulher seja judicialmente depositada, até á decisão. Por conselho de minha sogra, e meu, vae minha mulher entrar no recolhimento de S. Lazaro. Ámanhã vou entregar-me á prisão.Voltou com risonho vulto o preso a casa, e disse a Maria que estavam unidos, passados tres mezes.D. Maria das Dôres saltou de sua carruagem á porta{176}da hospedaria, abraçou a filha e o genro, chorou de ternura beijando a neta, emprestou da sua instantanea alegria á contristada familia, e disse que o marido era contente com a resolução da filha, e fôra elle pessoalmente falar ao provedor da Misericordia para se mobilarem os melhores aposentos do recolhimento para ella. De tudo, inferia Maria das Dôres que as pazes se fariam brevemente, os desgostos a passar seriam curtos, em comparação dos futuros contentamentos.Maria Henriqueta reanimou-se, e mais ainda quando encontrou o marido, em secreto, enxugando as lagrimas. A mulher que ama precisa ver chorar, para crear alentos. A coragem do homem que se despede parece uma offensa, ainda que o não seja; simula desamor, ainda mesmo que as lagrimas saiam do coração como gottas de ferro candente, e se derramem nas chagas do peito antes de chegarem aos olhos. A mulher amante quer, ao separar-se, levar a certeza de que deixa uma saudade, bastante a matar o coração que a ama. Isso é que lhe dá força para luctar e soffrer. A suprema desgraça é o desalento da duvida, quando a infeliz já por si não tem, contra o mundo e contra a desgraça, senão a certeza de ser amada. Por isso, Maria Henriqueta achou em si a antiga força, quando surprehendeu Filippe a chorar.Na seguinte manhã, o preso ajoelhou aos pés de sua mulher, e disse-lhe:—Não te peço amor, minha esposa; peço-te coragem, mulher. Aqui te deixo minha filha: fala-lhe de mim, e ella será o anjo mensageiro das minhas atribulações.{177}Quanta mais força tiveres, mais digna serás do teu esposo. Mulher que tanto soffreu, e a tanto se arrostou, não póde fraquear agora em tres mezes de ausencia. Maria, eu não me engano com a tua alma, não? Has de viver e luctar com os desgostos por amor do teu Filippe, que ainda se não julga desgraçado?Não lhe respondeu Maria. Lançou-se-lhe soluçante aos braços, e arquejou em convulsões sobre o peito em que lavrava um fogo occulto de morte, ao qual parece que as lagrimas da mulher amada se reseccam.Tomou Filippe a filhinha dos braços da ama. Contemplou-a, e deteve-se até que a mãe lh'a tirou dos braços. É que da face d'elle se esvaíra lentamente a côr; o brilho dos olhos apagára-se subito; um tremor lhe correra os braços; o corpo ia inclinando, e a menina resvalava-lhe das mãos.—Filippe! exclamou Maria—essa é a tua força, Filippe! Por Deus, reanima-te, que me tiras a coragem!Sorriu-se o marido, beijou-a na face, e murmurou:—Parecia-me que era a ultima vez que via nossa filha... O amor de pae tem estas visões passageiras. Deus me defenda de as ter a teu respeito semelhantes, minha esposa!{178}{179}IIMaria Henriqueta, aceitando o recolhimento de S. Lazaro, mal sabia a grandeza e o travor do calix que punha aos labios! Tantos mosteiros havia ahi no Porto, com tanta liberdade e regalias, e senhoras boas para amigas, e preladas menos austeras com as dores do coração, e mais contrictas, por isso mesmo, das suas!Era o recolhimento de S. Lazaro um vasto recinto sem ar nem luz, um congresso de meninas pobres, que reflectiam a sua miseria, e castigos, e forçadas penitencias, nas pensionistas abastadas, e alli reclusas pela violencia paternal. Não se abria um sorriso nos labios de nenhuma. As pobres anhelavam a sua indigencia ao ar livre, as ricas estorciam-se nos phrenesis da sua irremediavel reclusão. As de boa indole que para alli entravam, espicaçadas pela severidade rude das regentes, tornavam-se iracundas, e umas contra outras se enraiveciam, a ponto de ser rara a convivencia de duas pensionistas ricas. Era o desespero que as fazia de condição bravia e intractavel. Maria, apenas teria uma hora de convento, que maldisse a sua cedencia á vontade da{180}mãe, e aos conselhos do esposo. Perguntou logo indiscretamente se podia mudar-se para outro deposito, e a regente respondeu que ella não era senhora sua, em quanto se não provasse que estava legitimamente casada; que a seu pae incumbia romove'-la, por que fôra elle quem apresentára ao senhor provedor o mandado do deposito.Esta resposta, seccamente dada, foi motivo a que Maria Henriqueta ganhasse profunda aversão á regente.Era-lhe licito escrever a seu marido. N'esse respiro gastava ella as horas do dia e muitas da noite; mas pequena consolação é essa, quando as cartas são como cauterio á chaga, sem o beneficio da cura. Respondia-lhe Filippe, fingindo animo, e inventando lenitivos de paciencia, sendo unicamente sincero nos da esperança. Baldado intento! A saudade e a desesperação recrudesciam. Tomava a filhinha nos braços, como taboa de naufragado, e nem assim, nem á luz dos olhos d'ella via ao longe a redempção.Uma só menina das orphãs pobres ella chamára á sua intimidade: era Rita de Cassia, illustre de nascimento, mas desamparada de pae e mãe, que a lançaram de si como vergonhoso testemunho de a trazerem á vida n'uma epoca de desdourados amores. Affrontaram o escandalo, e fugiram affrontados ao dever!O pae, que escondia o titulo, para livrar-se d'ella, e salvar o nome de sua mãe, calou a consciencia entregando-a á caridade da Santa Casa, e para isso declarou que a menina não tinha pae nem mãe. Antes elle falasse{181}a verdade, e o genero humano teria de menos um estygma.Rita era commensal de Maria Henriqueta, e consolação de muitas agonias, se o chorar com quem chora é consolar. Que provas a orphã deu, passados mezes, do seu reconhecimento e cega amisade á fidalga e infeliz!Depois de um mez de reclusão, Rosalinda, a filhinha de Maria Henriqueta, adoeceu de garrotilho, e expirou no termo de quarenta e oito horas. Durante o curto prazo da doença e da agonia, era geral no recolhimento o receio de que a mãe enlouquecesse, morrendo a creancinha. Nos braços d'ella passou a menina os paroxismos, aquella estortorosa respiração, que é uma lenta asphyxia, e acaba por agudissimo arranco. Tiraram dos braços de Maria o inanimado corpo, o envoltorio macerado do anjo. A mãe correu ao longo dos corredores, soltando gritos, sem destino, sem paragem, fechando os ouvidos, quando lhe falavam, arrancando-se enfurecida dos braços, que a detinham. Poderam Eugenia e Ritta de Cassia leva'-la ao seu quarto, e excita'-la a chorar, como remedio unico. Uma e outra lhe falavam de Filippe; e, como lhe dissessem que o marido morreria, sabendo a morte da filha, já Maria Henriqueta, aterrada de dôr maior, pediu forças a Deus para mitigar com rogos de conformidade a consternação do esposo.Lembrou-se então do desmaio do marido ao abraçar a menina, e das palavras com que explicou o seu desalento: «Parecia-me que era a ultima vez que via a nossa filha.»{182}Os apontamentos de uma senhora, que foi coeva de Maria Henriqueta no recolhimento[1], dizem singelamente:«A sua consolação unica lhe foi roubada; morreu-lhe a adorada filhinha. Andava Maria Henriqueta de noite em gritos pelos dormitorios. Todas choravam com ella, e eu tambem, com quanto então tivesse nove annos.—Falta-me um pedaço de minha alma!—gritava a pobre mãe. Que formosa era a menina! Teria um anno. Foi enterrada em Santo Ildefonso. Veiu alli busca'-la o abbade n'uma locomotiva que era como os carrinhos de agora, pouco mais ou menos. Dizia-se que ella ajoelhára ao pé da filhinha, quando lh'a tiraram ultimamente, já amortalhada, e dissera:—Vae pedir ao Senhor a liberdade de teu pae, meu anjinho!»Ao outro dia, tinha ella de responder á carta do marido, que parecia esquecer-se de sua situação, para falar da menina. «Dá-me cuidado—dizia elle—a doença de nossa filha; mas espero que Deus nos poupe ao golpe de a perder. Não merecemos tamanha dor, Maria; a bondade divina, a querer levar para si o anjo, esperaria que estivessemos unidos para valermos um ao outro.»E havia de responder a esta carta a pobre mãe, quando a filha já estava sepultada! Qual outro coração{183}se abriria a recolher-lhe as lagrimas? Como havia de fingir ella uma linguagem socegada? Como abafar sua paixão, em quanto escrevia a resposta? Que dôres a vida tem!E respondeu; mas, sem determinar a nova causa de sua afflicção, obedeceu ao impulso do desespero, amaldiçoando o pae, o destino, e Deus. As blasphemias era a carta do marido que lh'as incitava, no periodo trasladado. Deus lhe levára a filha, no momento em que o carcere, a separação do marido, e a solidão, alguma vez teriam desafogo, nos afagos da creança. A misericordia do céo lhe descontaria na balança das impiedades o punhal agudissimo, que lh'as faria resaltar do coração, e jámais da consciencia. Na carta, falando da filha, apenas disse: «Se ella hoje fosse do céo, pediria ao Senhor a tua liberdade.»Porém, o silencio de Maria Henriqueta conseguiu apenas retardar algumas horas a infausta nova.Estavam no Porto os irmãos de Filippe Osorio, e esses lh'a levaram.Succumbiu aquella forte alma, e pensou em aniquilar-se. A sinistra idéa cedeu ao primeiro accesso de febre.Faltaram a Maria Henriqueta as cartas em dois dias. Mandou ella directamente ao castello da Foz, e soube que o marido estava perigosamente enfermo. Fez-se uma terrivel explosão no animo varonil de Maria. Tremeu a regente da investida vertiginosa, que ella lhe fez no quarto, exigindo que lhe abrissem as portas. Diz a minudenciosa{184}noticia d'estes successos, dada pela indicada senhora, que mais alguma vez citarei: «Nas crises de maior exasperação Maria Henriqueta parecia possessa. Com todas se travava de razões, e trazia na mão uma chibata de junco, que vergava, e sacudia, em ar ameaçador, principalmente entrando na cella da regente; e a regente tremia d'ella, e da chibata, por amor á sua pelle, que já tinha então oitenta e um annos, e era estimavel pelle por ser de dura.» No final d'este faceto periodo se denota a má vontade que a minha illustre informadora ainda conserva á sua regente de ha cincoenta annos!Estava pois, a octogenaria regente alapada no seu cubiculo, quando Maria Henriqueta lhe surgiu de sobresalto no limiar da porta, com a chibata em punho, ordenando que se lhe facultasse a saída, para visitar seu marido, que estava doente. Cuidou morrer de pasmo a velhinha; mas recobrou animo, quando viu a sub-regente, a sachristã, e outras funccionarias da casa deliberadas a defende'-la. Com suaves maneiras, conseguiram todas que Maria Henriqueta espaçasse até ao dia seguinte a saída, para se legalisar o facto com a licença do provedor da Santa Casa.A fidalga não insistia muito tempo n'uma mesma idéa. Andava a baldões de sua afflicção, ora abraçada a Eugenia, ora a Rita de Cassia, ora repellindo-as ambas desabridamente.Foi aquella noite de tormenta no recolhimento. Maria declamou, chorou, delirou em corridas de uma a outra extrema{185}da casa. Na seguinte madrugada, mandou a regente informar o provedor, e este á frente da mesa da Santa Casa, foi a S. Lazaro, e chamou ao locutorio Maria Henriqueta, com o intento de reprehender-lhe as impaciencias, e conforta'-la com palavras esperançosas de breve saída. Veiu a enclausurada, cuidando que ia receber a licença; mas, ouvidas as primeiras palavras, azedou-se-lhe tanto a dôr e a colera que o provedor suava de ouvi'-la, e os da mesa estavam como que passados de tamanha ousadia, affronta original n'aquella casa de humillimas victimas.Fatigada de exprobrar a tyrannia do pae e a impiedade dos verdugos, que lhe mataram a filha e queriam matar o marido, Maria Henriqueta deixou-os na grade, entrou na cella esbofada e arquejante, chegou ao ouvido de Rita, e disse-lhe com a seriedade de um proposito de demente:—Havemos de fugir hoje d'aqui: tu vaes comigo, Rita, se tiveres coragem.A orphã temeu que a sua infeliz amiga estivesse louca; mas, para se confirmar em suas suspeitas, ainda lhe disse:—Por onde fugiremos nós, minha senhora?!—Cala-te, que eu sei por onde se póde fugir. Queres ir?—Vou, vou, mas diga-me por onde, que me parece um sonho podermos fugir d'estas paredes, que nem janellas teem.Dito isto, Maria recebeu uma carta de Filippe, escripta{186}por extranho pulso, e assignada por elle. Era animadora; a razão estava normal; a filhinha pedira por seu pae a Deus; elle mesmo se deleitava n'esta doce persuasão; e os irmãos, que o rodeavam, queriam salva'-lo com ella.Aquietou-se algum tempo o espirito da esposa; e ao voltar a intermittencia do desespero vinha já menos descomposta. O plano da fuga prevaleceu ás melhoradas novas.De tarde, saiu sósinha Maria e foi orar para o côro; depois disse que queria descer á egreja para resar de perto aos altares, e teve a licença, com grande aprazimento da regente, que tirou do devoto acto bons auspicios. Foi á egreja, e quiz estar a sós com Deus. Relanceou os olhos a todos os lados, esperou que saíssem do côro algumas orphãs que a observavam, e deteve-se a reparar n'um postigo chamado aministra, por onde as recolhidas recebiam a communhão, espaço com dois palmos de largo sobre palmo e meio de altura. Feito o rapido exame, saíu da egreja, e recolheu-se á sua cella com semblante socegado, e um brilho de extranha alegria nos olhos. Contou a Eugenia a sua tenção. Chorava a pobre mulher, ouvindo-a, e contrapunha-lhe muitos obstaculos, aos quaes Maria respondia sempre vencedora.Vamos ver os prodigios de elasticidade, obrados pelo coração sobre o corpo de Maria Henriqueta.{187}IIIÉ parte d'este capitulo trasladado dos apontamentos. Quem presenceou o successo mais fielmente lhe dará as côres:«A porta da egreja era costume deixa'-la fechada por dentro, e a chave ficava na porta, ficando a cargo da escrivã abri'-la de madrugada.«A porta do commungatorio ficava aberta, porque parecia cousa impraticavel o poder alguem, que não fosse puro espirito, evadir-se pelaministra.«Escolheram para a fugida a hora em que a communidade, depois do côro, se ajuntava no refeitorio.«A primeira que saíu foi a fidalga, mas, segundo eu depois soube, passou torturas para enfiar os largos hombros por entre o estreito postigo; e do ultimo e já desesperado repuxão, que fez, foi bater com a face nos degraus do altar-mór, e feriu-se grandemente na testa.«A orphã, como era muito delgadinha, saíu com menos custo.«Depois, Maria Henriqueta, limpando o sangue da ferida, abriu a porta da egreja, e saíram.{188}«Ás dez horas da noite, conforme o costume, foi a sachristã temperar a lampada do Santissimo Sacramento, e viu aberta a porta do commungatorio, e as portinholas daministratambem abertas.«Antes de mais averiguações, começou a gritar a sachritã. Desceram algumas pensionistas á egreja e viram a porta da egreja cerrada.«Todas, a uma voz, disseram que Maria Henriqueta fugira. Foram ao quarto d'ella procura'-la, e d'ahi passaram ao de Rita de Cassia.«Deu-se então no recolhimento de S. Lazaro uma amostra do dia de juizo. A regente, com as mais senhoras da governança, ajuntaram-se em consistorio, para deliberarem.«As meninas já de razão e juizo andavam afflictas: eu, porém, e as outras de minha edade nunca nos divertimos tanto; porque andavamos ás ondas por entre as velhas, fingindo que estavamos assombradas do geral terror.«Ás onze horas da noite foi chamado meu pae,[2]e reprehendeu severamente as auctoridades da casa, porque deixaram aberta a porta do commungatorio.«As providencias foram dadas com tão desgraçado acerto que, ao outro dia, seriam onze horas...»Suspendemos a copia, que nos não dá n'este ponto os promenores da fuga, vencidas as principaes difficuldades, que n'este infausto caso, foram as menores.{189}Caminharam as fugitivas na direcção das Fontainhas. Maria Henriqueta não sabia um passo da cidade, e Rita de Cassia, reclusa desde menina, era egualmente ignorante. Foram á ventura até encontrarem uma rampa de pedregulho que descia da rua do Sol.No alto da rampa viram dois vultos quietos; tomaram-lhes medo, e sem se consultarem fugiram. Os dois vultos eram os «nocturnos» que faziam a policia, e obedeciam a apertadas ordens, n'aquelles tempos revoltos de jacobinos, e malfeitores, que os pretextavam para rebuçarem sua malvadez.Os nocturnos correram sobre as duas fugitivas, e travaram d'ellas como quem aferra duas amazonas das que antigamente espostejavam exercitos de barbados persas. Interrogaram-as com a brandura de nocturnos. Maria Henriqueta declarou ser creada de servir, e a respeito do seu destino disse que ia para a Foz, onde tinha seus patrões. Rita, para não inventar outra profissão e destino, disse que era tambem creada de servir, e que ia para a Foz.Interrogadas ácerca dos nomes dos amos, e outras miudezas, responderam disparates, que infundiram suspeitas, se não de jacobinas, ao menos de pessoas que se serviam da noite para obras pouco louvaveis, como fuga de casa, ladroeira, ou alguma das mil hypotheses, que cabiam na cabeça dos dois nocturnos.—Vocemecês—disse um d'elles, amoldando o tratamento aos trajos limpos das presas—hão de vir ao almotacé, e lá dirão quem são, e o destino que levam.{190}Rita, para confirmar suspeitas, levantou um choro, que valeu muito a prejudica'-las no conceito dos policias. Maria Henriqueta, mandando-a calar, via menos carregado o futuro, que a esperava em casa do almotacé.Foram, e entraram á presença do funccionario, que fez um tregeito de espantadiço quando viu a formosa cara de Maria. Repetiu as perguntas, e inferiu as mesmas suspeitas dos nocturnos, que eram emanações da alma d'elle, e recebiam todas as mesmas impressões no mesmo orgão sensorio.Cuidou a incauta Maria Henriqueta que a verdade a podia salvar d'aquelle passo difficil. Disse quem era, proferiu o nome de seu pae, e de seu marido. O almotacé curvou a cabeça inflexivel á illustre dama; disse-lhe, porém, que a obrigação d'elle era rete'-las até dar aviso; e, em obsequio ao sr. Gonçalo Malafaya, as teria em sua casa até ser dia.Conformou-se Maria, pedindo papel para escrever a sua mãe; e escreveu uma carta de que foi portador o proprio funccionario.Estava já recolhida D. Maria das Dôres; perguntou o almotacé se lhe era permittido falar para negocio urgentissimo com o fidalgo.Malafaya não tinha ainda recolhido de casa dos primos Mellos, e para lá se dirigiu o portador da missiva. Contou elle ao velho o acontecimento, dando-lhe a carta, que ia endereçada a D. Maria das Dôres. Gonçalo leu-a com agitado aspecto, e disse colerico:—Conserve essa desgraçada em sua casa até ámanhã.{191}Eu me encarrego de entregar a carta a minha mulher. Tenha-me todo o cuidado em minha filha.Voltou o almotacé a dar conta da sua commissão, e produziu em Maria Henriqueta um insulto de nervos.—Foi entregar a carta ao algoz!—exclamava ella:—Agora é que eu vou ser mais desgraçada! Deixe-me saír, que eu não espero as ordens de meu pae!—Não tem remedio senão espera'-las—Disse friamente o aguazil-mór.—Não tenho remedio?!—bradou Maria—Tenho o remedio que dá a desesperação! Conduza-me já á rua, quando não, grito que me querem matar!O homem, por piedade ou por medo de passar uma noite turbulenta, esgotou os recursos da persuasão para conter a fidalga, promettendo-lhe obstar a que seu pae lhe fizesse alguma violencia. Para ser coadjuvado nos seus ordeiros discursos, fez levantar as senhoras da familia, e trouxe-as á sala, onde estavam as retidas. As senhoras eram ternas, e compadeceram-se da atribulada esposa, que chorava esposo e filha. Uma dellas encarregou-se de fazer pessoalmente entregar de manhã uma carta á fidalga mãe. Confortada com esta esperança, Maria Henriqueta socegou, e conseguiu aplacar as vertigens da pobre Rita, que era fraca e timida como quem, desde a infancia, andou sempre sovada aos pés da desgraça.De manhã, saiu uma creada do almotacé a entregar a carta, recommendando-se como enviada da sr.ª D. Maria Henriqueta, e bem ensaiada por esta. Quizera o{192}guarda-portão impedir-lhe o accesso, antes das nove horas; mas a destra portadora rompeu escada acima, chamando a fidalga a altas vozes.Conduzida ao quarto da senhora, entrou a um tempo com ella Gonçalo Malafaya, querendo arrancar-lhe a carta das mãos. D. Maria saltou assanhada do leito, e levou o marido a empurrões para fóra do quarto.Leu anciosa a carta, vestiu-se acceleradamente, e saíu com o seu capellão a encontrar-se com a filha.A primeira victima de sua ira foi o almotacé a quem ella chamou os nomes, que dava aos seus infimos creados. Pensava o inviolavel funccionario em autua'-la; mas pareceu-lhe mais prudente desarmar-lhe a cólera, porque receava ser demittido do officio no dia seguinte. O principal artigo de accusação da fidalga era ter ovil esbirro(amabilidade que muito offendeu o almotacé) era ter elle entregue ao pae a carta, que ia para a mãe. Graças á pacifica eloquencia do capellão, a fidalga desceu-se da sua raiva, e entrou em pensamentos mais moderados, tendentes a salvar a filha das garras, que o pae estava aguçando.Tardias combinações! Tinham soado dez horas, quando á porta do almotacé, pararam duas cadeirinhas e seis soldados nocturnos, e um alcaide com ordem de reconduzir ao recolhimento de S. Lazaro as fugitivas.D. Maria das Dôres, quando tal ouviu, teve um vágado, que os impetos de raiva não deixaram durar muito. Ao recobrar-se das convulsões, abraçou-se á filha, exclamando:{193}—De hoje em diante serei mais que tua mãe, Maria! Serei tua cumplice, se és criminosa! Eu é que te hei de entregar a teu marido. Vae! Soffre mais alguns dias. Eu vou consolar teu esposo; vou trabalhar a favor d'elle, serei mesmo a sua enfermeira; e, de volta da Foz, irei falar-te ao recolhimento. Conta comigo, Maria. Leva a certeza de que os teus tormentos acabam d'aqui a poucos dias, se a minha vida não acabar antes!Maria reanimou-se, que eram para dar muita alma as promessas da energica e vindicativa senhora.Agora, prosegue o traslado dos apontamentos:«Entraram duas cadeirinhas na portaria do recolhimento, escoltadas por seis soldados nocturnos. Vinha em uma a fidalga: e na outra a sua amiga.«A todos pareceu escandalo a barbaridade que o pae escolhesse tal hora, para reconduzir duas senhoras a uma casa de educação, cercadas de tropa, e rodeadas de populaça!«Meu pae appareceu logo na portaria, e auctorisou a regente a castigar asperamente a fidalga, como pensionista; e Rita como orphã pobre. Á primeira decretou o tronco de cima, e á segunda o chamado tronco de baixo.«O tronco de cima era uma cella, sem differença sensivel das outras, a não ser que a luz se coava de uma fresta muito alta, e era fechada com duas portas, cujas chaves tinha a regente, e recebia os alimentos por um postigo. O maior castigo era a privação de falar com outras meninas.{194}«O tronco de baixo era um subterraneo, sem minima claridade. Continha um leito de ferro, que hoje é moda, e era então ignominia. Fôra construida, alguns annos antes, esta caverna para castigo de uma menina, que havia fugido, e lá esteve em paroxismos, até que a deixaram sair e morrer com a pouca mais luz da sua cella. Eu tal horror lhe tinha, que só de passar sobre o alçapão da masmorra, me sentia tremer. Este era o supplicio destinado a Rita de Cassia.«Condoeu-se meu pae da fidalga, posto que ella não solicitasse compaixão de ninguem. Dizia ella á regente que o vexame de ser trazida entre soldados lhe era bastante expiação. A pobre Rita, porém, que não tinha pae nem pão, senão o da caridade, foi a victima expiatoria,para exemplo das outras, dizia a senhora regente, que Deus tem. Ainda assim, houveram com ella piedade, mandando-a para o tronco de cima.«Ao outro dia, quando lhe levaram os primeiros alimentos, acharam-na sem sentidos e banhada em sangue. Pensaram que ella se teria rasgado alguma veia; mas o sangue era lançado pela bocca. Julgaram-na morta, e era geral a consternação na casa. A angustia de D. Henriqueta sobrelevava a de todas; mas á orphã castigada era-lhe prohibido ver a sua amiga, a amiga por quem morria ou estava morta.«Deu signaes de vida.«Estavam no recolhimento duas meninas muito ricas e por isso muito respeitadas: eram D. Innocencia Pereira de Castilho, e D. Gertrudes Pereira de Castilho.[3]{195}Foram estas duas irmãs lavadas em lagrimas, pedir á regente, que as deixasse tomar á sua custa o tratamento da orphã, na sua cella. A regente era de cêra aos desejos das ricas pensionistas. Cedeu-lhes a doente moribunda. Tantos foram os carinhos, os medicamentos, e os desvelos, que a menina chegou a restaurar-se. Depois das melhoras, solicitaram as Castilhos o perdão da menina, e conseguiram-o.«D. Maria esteve tambem doentissima n'esta epoca, mas de muito menor cuidado, e prompto restabelecimento. Para lhe não faltar afflicção alguma, até lhe prohibiram á dedicada Rita ver a fidalga que, apesar dos soffrimentos passados, ella amava com o coração de um anjo.»Ninguem infira dos successos descriptos, em desabono da caridade e humanidade do recolhimento de S. Lazaro, ha cincoenta annos, o que hoje possa ser aquelle pio estabelecimento. Nenhuma analogia approxima os costumes de então com os de hoje. O raio benefico do facho civilisador lá foi alumiar tambem aquelle recinto; os homens que o fiscalisam, são os filhos d'este seculo, os que sabem irmanar com a doutrina do bem uma prudente severidade. Se alguma vez, em nossos dias, sairam arguições em desfavor do regimen d'aquella casa de caridade para meninas orphãs, e de educação{196}social e religiosa para pensionistas, convém que se descontem n'essas arguições causas deshonestas, e portanto injustas, que a promoveram. Não sabemos que haja outro recolhimento no paiz mais dignamente mantido sobre bases de piedade, morigeração e ensinamento de prendas, com que d'alli sáem adornadas muitas donzellas, que as mostram na sociedade, como esposas e mestras de seus filhos. Sirvam estas linhas de anteparo á censura irreflectida de alguem, que folgue de afiar no auctor os dentes da calumnia.D. Maria das Dôres cumprira integralmente sua palavra. Foi ao castello da Foz: contou a Filippe Osorio a parte menos pungitiva da aventura de sua filha. Egualou-o na consolação das promessas e das esperanças. Chamou-lhe filho com toda a effusão da sinceridade. Chorou com elle ao falarem de Rosalinda, e d'ali voltou ao recolhimento a aviventar a filha.N'esse mesmo dia, sobre tarde, recebeu a regente ordem do provedor para impedir que Maria Henriqueta falasse com sua mãe. Quando esta, ao outro dia, apeou no pateo, saiu-lhe á portaria a regente, mostrando lacrimosa a ordem, que recebera. D. Maria das Dôres recolheu-se a casa, esperou que o marido entrasse, lançou-se a elle de insultos e improperios tão novos, que o velho cuidou ganhar a bemaventurança fechando-se no seu quarto. No dia seguinte, o mordomo da casa, creatura particular da fidalga, partia para Lisboa a ganhar horas, com uma carta a um dos membros do governo; e nove dias depois, depunha em mãos de sua{197}ama, uma ordem da regencia, para que as portas do recolhimento de S. Lazaro se abrissem a D. Maria das Dôres, a qualquer hora do dia que ella quizesse visitar sua filha.Gonçalo Malafaya, quando tal soube, soffreu o primeiro ataque de paralysia n'uma perna.{198}{199}IVA convalescença de Maria foi velada por sua mãe. Passava a fidalga os dias, e grande parte das noites, no recolhimento. Abriam-se e fechavam-se portas com grande escandalo dos mesarios, a horas em que era dos estatutos o silencio obrigatorio.D. Maria das Dôres levou, a pouco e pouco, o que tinha em casa, pertencente ao guarda-roupa de sua filha. As suas mesmas joias lhe deu, receando morrer a tempo de as não poder confiar do marido como legado á filha. Quando não estava no convento passava grande parte do dia com o genro, pactuando com elle a fuga de ambos, logo que o conselho de guerra o restituisse á liberdade.Fugir para quê, se estavam legitimamente unidos, se deviam vencer o cerebrino pleito instaurado por Gonçalo Malafaya?Assim o parece: mas do que é ao que deve ser, corre uma distancia infinita.Provar a nullidade do casamento era impossivel, mas{200}dilatar a prova com os estorvos, que a justiça faculta aos que a emmascaram e trazem em ludibrio por sentinas douradas, é cousa de todo o ponto facil. Contra a legalidade do matrimonio de sua filha allegava Gonçalo a negação do consentimento, e a falsidade da certidão, em que o ministro do sacramento era tio do contrahente e as testemunhas sobrinhos do abbade, e irmãos de Filippe. Absurdos argumentos que tentavam a rir a justiça, porém, um sacerdote d'ella, em primeira instancia, por odio inveterado á familia de Mirandella, lavrara uma sentença iniquissima, fundada... nos alicerces de ouro, em que levantou poste de vilipendio á sua integridade.Subiu o processo á relação do Porto. Andou o indecoroso auctor captando a piedade dos desembargadores com lagrimas que o não lavavam das manchas. Os juizes, para honrarem o pae, e a filha, estabeleceram a legalidade canonica e civil do casamento, censurando o ignaro juiz, que inventára a deshonra como remedio aos despeitos de um pae. Faltava o recurso de superiores instancias. Foram para a supplicação os feitos, sem esperanças de bom exito para Malafaya: mas, na delonga da sentença final empenhára o fidalgo os cabedaes e os amigos, para com os amigos dos cabedaes:—desculpem a safada elegancia d'este trocadilho.Claro é, pois, que o deposito da esposa tinha de ser prorogado até á final sentença, que, sem milagre, podia ser empecida dois annos na supplicação e baixar de lá com alguma nullidade ao tribunal onde principiára. Assim{201}se explica a premeditação de Maria das Dôres na fuga da filha, logo que Filippe Osorio saísse do castello da Foz.Antes de completo segundo mez de prisão, foi o desertor julgado e absolvido, com grande assombro de Gonçalo Malafaya. Repetiu-se então o ataque de paralysia, ramificando-se ao braço direito. Era a peçonha do rancor que o ia matando, pedaço a pedaço.Apresentou-se Filippe ao provedor da Misericordia, o doutor João Pedro, velho que vivera, até envelhecer, vida de rapaz, e fizera do seu palacete o berço dacivilisação dos costumes, má civilisação, que é o synonymo deextrema liberdade, a qual muito tarde será adulta no Porto. Quem hoje passa no Reimão diante do palacete que pertence ao sr. Joaquim de Sousa Guimarães, póde, se quizer, imaginar que alli, durante os ultimos trinta annos do seu antigo proprietario, se fizeram romances praticos de alta moralidade, os quaes é muito de esperar que eu venha a dar em livro. Uma das scenas lá passadas, a mais simples de todas é a seguinte:Entrou Filippe Osorio, procurando o doutor Pedro, que saíu a recebe-lo na primeira sala. Disse o visitante quem era, e o doutor sentiu-se incommodado do coração, que parece ser o orgão do amor e do medo.Feita a apresentação, com militar seccura, ajuntou o apresentante que era marido legitimo de D. Maria Henriqueta.Tossiu o doutor uma tosse peculiar de susto quando não é de velhacaria. No doutor era susto; e o susto não{202}deshonra ninguem, mórmente quando o assustado se defronta com os trinta annos de um homem de grandes barbas e possante estatura.Estas declarações eram o proemio a uma outra, sobre todas, inquietadora para o doutor.—Quero ver minha mulher—disse Filippe.—Parece-me que a lei se oppõe—disse o doutor—em quanto v. s.ª tiver pendente das decisões juridico-canonicas a validade do seu casamento.—Não venho perguntar a v. s.ª se a lei faculta, se nega: o que eu lhe digo é que quero ver minha legitima esposa, agora, logo, ámanhã, sempre.—Então queira requerer a juiz competente.—Não venho pedir conselhos. Entenda-me, senhor provedor; é ao provedor da Misericordia que eu reclamo auctorisação para ser recebido na grade do recolhimento por minha mulher.—Isso é impossivel, senhor!—Que são impossiveis, senhor doutor? Talvez que a v. s.ª pareça impossivel haver um homem que lhe corte uma orelha; e, comtudo, affirmo-lhe que poucas cousas haverá tão faceis!...Isto fôra dito com um sorriso de cortar a orelha sem auxilio de ferro. O doutor abriu a bocca e regougou:—Oh!Mas esteohfoi surdo como um rugido intestinal.Filippe cruzou os braços, e disse:—No que fica?O provedor refez-se de animo, e respondeu:{203}—Com que então v. s.ª vem ameaçar um velho?—O látego da tyrannia deve ser arrancado das mãos dos velhos como dos novos. Os annos não santificam a prepotencia, senhor doutor. Nada de maximas. Eu não posso demorar-me.—E v. s.ª é de certo legitimamente casado á face de Deus?—Veja esta certidão.João Pedro leu attentamente, e disse:—Parece-me legal. Como se explica, em tal caso, a guerra que lhe faz o meu nobre amigo Gonçalo Malafaya?—Não sei, senhor. É um odio injusto: é um pae que diffama sua virtuosa filha.—Pois bem, sr. Filippe Osorio, eu vou consultar a mesa, e depois lhe darei a resposta.—Consulte a sua consciencia, e deixe a mesa para mais importantes consultas. Eu quero já d'aqui ir em direitura ao recolhimento. Uma ordem de v. s.ª basta.Entrou o doutor João Pedro no seu escriptorio; e, mais levado da consciencia que do medo, dado que um pouco de tudo o impellisse á obra meritoria, escreveu a ordem, auctorisando a regente.Filippe saiu com mudado semblante de affectuosa gratidão, e entrou no portico do recolhimento. Chamou a regente, passou-lhe a ordem pela roda, e esperou impaciente a resposta.Mandaram-n'o entrar n'uma grade, onde já estavam D. Maria das Dôres e a filha, esperando-o. A esposa{204}enfiou por entre as rêxas os braços, que difficilmente passavam.—Que mudada estás!—exclamou Filippe.—Que maceração de rosto, minha pobre Maria! O que tens penado n'estes dois mezes!Era pungente ver chorar aquelle homem, na contemplação da magreza cadaverica de sua mulher!Nem um riso de contentamento n'aquelle primeiro encontro!—Falta-me a filhinha!—dizia Filippe—Onde está o nosso anjo, ó Maria! Porque nos privou o céo da nossa filha, que devia n'este momento sorrir-nos a bonança, e accusar estas lagrimas como ingratidão aos beneficios de Deus?Retirou Maria das Dôres ao anoitecer, e Filippe passeou até altas horas, defronte, e em roda do carcere da esposa.A fidalga velha, confiada no valimento que tinha com a marqueza de Angêja, senhora que a movera a favor de Filippe Osorio, mandou a Lisboa o seu fiel mordomo a solicitar uma ordem de levantamento de deposito da filha em contravenção das leis. Foi a ordem arrancada de subito ao ministro competente, por engenho da marqueza. Correu com ella o portador; Maria das Dôres nunca se levantou a tão alto na presumpção de sua valia! Mas Gonçalo Malafaya tinha amigos e cabedaes em Lisboa. Horas depois de passada a ordem, fôra revogada, a requerimento do procurador do auctor; e outro emissario vinha ao Porto embargar o effeito da primeira. Copiemos{205}dos apontamentos o facto, presenceado pela educanda a que os devo:«Logo ao amanhecer vinha Filippe para a grade, e Maria Henriqueta já lá o estava esperando. Por mais que extendessem os braços, era-lhes impossivel apertarem as mãos. Alli almoçavam juntos, e ficavam até ao meio dia. Elle saía, quando as portas se fechavam, e ella ia para a sua cella chorar. Ás duas horas voltava o infeliz, e jantavam. Havia de grade a grade um carrinho com duas roldanas lateraes em que ella lhe passava os pratos.[4]«Ao anoitecer separavam-se. N'esta mixtura de alegrias e amarguras, viveram algum tempo, até que de Lisboa chegou ordem para ella sair do recolhimento. Já elle a estava esperando com uma sege na portaria; já ella tinha pedido ás mestras para nos darem sueto n'esse dia; despedia-se já de todas. Que formosa ella estava então! Como um instante de felicidade a transfigurara! Vestia de setim branco, e sapato da mesma droga. Nos olhos e no rosto resplandecia-lhe o clarão da alma. Não sei que possa imaginar melhor um anjo! Fomos todos com ella á portaria. Já estava a porta franca, e o marido com os braços abertos para a receber e um sorriso{206}de alegria desvairada nos labios. Eis que todo afadigado entra na portaria um mensageiro do inferno, com uma contra-ordem á regente! O desespero dos dois desgraçados não sei eu palavras que o exprimam! Filippe Osorio rompeu em imprecações. Maria Henriqueta fez-se primeiro escarlate, depois da côr do vestido, marmore na frialdade, e caíu sem sentidos nos braços da regente e da porteira. Choravamos todas; até as mais novas se commoveram áquella scena, cujo alcance mal podiamos compreender. Então é que ella adoeceu perigosamente, e cuidámos que não vencia o ultimo golpe. A mãe era incansavel de amor e de consolações ao lado d'ella. As cartas do marido foram talvez a principal medicina do seu restabelecimento. Passado um mez tornou á grade Maria Henriqueta: parecia desenterrada; e Filippe, que tão galhardo mancebo era, pouco tinha já que o distinguisse de um homem de cincoenta annos.»Renasceu em toda a força da ira o plano da fuga, maquinada por D. Maria das Dôres. Frequentes vezes se encontrava com Filippe na grade, a fazerem combinações, que concertavam todas n'um arrojo de desespero, cuja responsabilidade a fidalga tomava sobre si.Vejamo'-lo descripto pela companheira de Maria Henriqueta:«Um dia de tarde chegou D. Maria das Dôres á grade com o genro, e ahi se demoraram até ás quatro horas. Mandou a fidalga dizer á regente que precisava de ir ao quarto de sua filha. Foi-lhe aberta a porta sem a menor hesitação. Entrou D. Maria das Dôres, e Filippe ficou{207}na portaria, como esperando a sogra. Disse a mãe á filha que precisava de arejar-lhe os vestidos. Começaram a sair taboleiros de riquissimos velludos, setins, e sedas de differentes côres, e debaixo do chale escondeu a fidalga um cofre de joias, em que estavam as da filha, e as suas, que eram muitas e de subido quilate. Afóra isto, passou D. Maria das Dôres para as mãos do genro um outro cofre muito pesado, que continha, segundo disseram, dinheiro em ouro. A regente estava desconfiada, e mais desconfiou, quando a fidalga velha lhe disse: «V. s.ª ha de permittir que minha filha dê um abraço em seu marido.» A regente respondeu: «V. ex.ª não me faça alguma, sr.ª D. Maria das Dôres!...» Tornou a fidalga: «Ha nada mais licito que uma senhora abraçar seu marido?» Disseram-me algumas meninas que a regente cedera ao terror, porque vira nas mãos de Maria Henriqueta, sumidas no chale, luzir o marfim do cabo de um punhal.«Mandou a regente á porteira que abrisse a porta. Saíu D. Maria das Dôres, e postou-se á porta principal da portaria. Chegou o marido a abraçar a esposa, e tal abraço foi que a levou como arrebatada nos braços, e Eugenia seguiu a ama. Porteira e regente emparveceram a olhar uma para a outra; e a creada, que fôra alumiar, de tal riso se tomou que deixou caír o castiçal.«Occorreram outras scenas que muito nos alegraram, sobre o geral jubilo de vermos Maria Henriqueta livre de ferros.«Passados os momentos da estupefacção, quiz a regente{208}ir pessoalmente a casa do provedor contar o succedido.—Saír eu de oitenta e um annos á rua! exclamava ella.—Que dirá o mundo?—Tinha ella uma creada de dezoito annos, que morria por se ver a passear na rua, e estava contentissima de saír com a ama. Passou acaso um estudante de clerigo, que acudiu ao motim, e mais ainda porque era namoro da porteira, elegante matronaça, que não guardava quanto devia as portas do seu coração. Pensou o estudante que a porteira iria com a regente a casa do provedor, e offereceu-se a acompanha'-las, mas a velhinha, para poupar ás estrellas o escandalo de a verem na atmosphera corrupta do mundo, pediu ao embuçado estudante que fosse elle avisar o provedor, o que elle não fez por commiseração com a fugitiva.»A curta distancia do recolhimento, estavam tres rijas mulas, e dois creados de cavallo. Maria Henriqueta deu o ultimo abraço em sua mãe, e saltou para as andilhas. Filippe dobrou o joelho beijando a mão da sogra, e cavalgou. Eugenia, a chorar de alegria, nem deu fé de que a encarapitavam os dois creados na terceira cavalgadura. Concertaram-se rapidamente as malas da bagagem, e partiu açodada a cavalgata, caminho de Villa do Conde.D. Maria das Dôres entrou ovante em sua casa; esperou que o marido recolhesse á meia noite; saíu-lhe ao encontro, com um riso de sarcastica vingança, e disse:{209}—A regencia não poude vencer o teu ouro; mas uma fraca mulher o venceu. Maria Henriqueta está na companhia de seu marido. Fui eu que lhe abri as portas do carcere, e fiz saír d'alli a pobre victima de tua crueza, que estava sendo tambem um pregão de tua ignominia. Querias que a justiça a infamasse, e eu quero que ella gose os direitos das esposas honradas e virtuosas, porque os tem, e os merece. Diz aos teus amigos de Lisboa, aos canaes de teu dinheiro, que ha um ente que se não corrompe, é uma mãe.Gonçalo Malafaya caíu prostrado n'um canapé, e bramiu:—Maldita sejas tu!—O céo não ouve as vozes do mau amante de Beatriz de Noronha, do mau marido de Maria das Dôres, e do mau pae de Maria Henriqueta! Morre impenitente, homem tres vezes abominavel!{210}{211}VNa descripção da desgraça ha engenhos habilissimos. Em pintar a felicidade é grande a penuria de phrases: parece que as linguas são pobres do que é tão pouco e passageiro na humanidade!Assim é que eu me esquivo a dizer como era a alegria dos fugitivos, com receio de me perder em nevoentas chimeras; ou—di'-lo-hei com quanta sinceridade posso—o descostume de a sentir estragou-me a palheta com cujas tintas, alguma hora, pintei venturas.Entraram por Hespanha, com destino ao alcaide de Segovia, cujas condolentes cartas Filippe recebera na prisão, e Maria no recolhimento. Da primeira terra de Hespanha escreveram para o amigo, que lhes chamára filhos. Abalaram de Segovia o alcaide e as senhoras a esperarem, em terra muitas leguas distante, os esposos. Em sua casa se hospedaram algumas semanas, e d'alli passaram para a quinta, onde os attraíam saudades do passado, e esperanças de o reviverem mais tranquillo e desassustado.{212}Encontrou Maria refloridas as flores que plantára, um anno antes. Lá estava a roseira que ella consagrára a sua filha, denominando-aRosalinda. Ahi orvalharam lagrimas as faces de ambos; mas, seio contra seio, as ancias do coração não podiam ser duradouras.Queriam-se solitarios os esposos ditosos; porém, seu mesmo infortunio lhes dera uma attrahente celebridade. Concorriam á graciosa vivenda os curiosos de Velha-Castella, e saíam para voltarem amigos dos que outr'ora prenderam corações com os nomes de Luiz e Pedro de Castro. A este proposito, até poemas se escreviam com o chiste das musas castelhanas, e os prelos contaram em commoventes prosas a historia infeliz dos esposos.Uma noite, caíndo a ponto falar-se na pertinacia boçal do conde de Monção, disse o alcaide o seguinte:—Traz-me esse nome á memoria um successo, que se deu, depois da vossa ida para Portugal. Fui eu avisado de que dois homens suspeitos tinham chegado a Segovia, e saíam de madrugada a fazer excursões pelos arrabaldes. Mandei-os espionar, e soube que elles estanceavam por estes sitios, indagando dos aldeãos qual terra vós terieis ido habitar. Com esta informação fiz prender os homens. Pedi-lhes os passaportes, e vi que os viandantes eram portuguezes, naturaes de Melgaço, e contractadores de carneiros. Não sei por que instincto, retive-os até me darem abono. Não conheciam ninguem em Segovia; mas deram-se pressa em escrever para Portugal. No entanto, perguntei-lhes o que tinham elles vindo fazer nos arredores d'esta quinta. Responderam{213}que andavam em cata de gado para comprarem. Redobraram as minhas suspeitas. Inquiri que tinham elles com uma familia, que se alojava n'esta quinta. Tartamudearam e confirmaram a certeza de seus máos intentos. Quinze dias depois, recebi ordem do governo madrilense para dar soltura aos presos. Não tinha outro remedio: soltei-os. Escrevi para Madrid, pedindo que se averiguasse na repartição competente quem afiançára aquelles dois presos. Tive em resposta que o ministro recebera directamente uma carta de seu parente, o conde de Monção. De proposito vos occultei este episodio em minhas cartas, cuidando em não vos aggravar as desgraçadas apprehensões. Agora vos digo que isto me fez apprehender muito a mim. Segundo o que Filippe me contou, o aviltado conde, a meu parecer, aprazou a vingança de cobarde. Aquelles homens eram sicarios enviados por elle. Já passou um anno, e naturalmente o conde está esquecido da affronta e da vingança; mas, ainda assim, recommendo-vos toda a cautela, que o mais temivel dos inimigos é aquelle que nos foge. Não me oppuz; porém, não approvo a vossa vinda para logar tão ermo. Antes queria ver-vos na cidade, onde as emboscadas traiçoeiras são menos possiveis, e a minha vigilancia mais apontada.Filippe Osorio sorriu á prudencia demasiada do alcaide; e Maria Henriqueta estremeceu, e descorou desde que a historia pendeu ao assustador desfecho. Cuidaram damas e cavalheiros em tranquillisa'-la, e, mais que todos, o marido, inventando argumentos falsos a favor{214}de sua segurança. Pediu-lhe a esposa que abandonassem o local, e seguissem sua jornada até aos confins da Hespanha, ou passassem a França ou Italia. Filippe socegou-a com a cedencia á sua vontade, tirando a partido que descançariam mais algum mez entre a sua segunda familia, e velados pela guarda de tantos amigos.Desde esta noite, eram de instantes os intervallos serenos de Maria Henriqueta. A cada rumor interno ou exterior se alvoroçava; e se ouvia um tiro remoto, não tendo junto de si o marido, soltava um grito, e corria como desatinada a procura'-lo. Então cresciam de fervor os rogos de se afastarem para mais longe; e o marido, que nunca se deixou vergar ao susto, promettia por complacencia abreviar a partida.As cartas idas de Portugal davam Gonçalo Malafaya a descair rapidamente na formal demencia. D. Maria dizia á filha que se vira obrigada a sair de casa, e estava vivendo com as suas creadas n'um velho palacio de seus paes, com os alimentos, que lhe arbitraram. A razão do divorcio fôra os accessos de furiosa loucura do marido, que, algumas vezes, investira contra ella, armado de um espadim. Passando a miudezas da demencia, dizia que o primo muitas vezes fugia aterrado de uma visão que elle denominavaD. Francisco de Athayde, exclamando:Deixa-me, vingador, deixa-me, que Beatriz já me perdoou!N'este estado, dizia a fidalga, o successo da fuga parecia cousa indifferente ao marido; e a julga'-lo, nas horas lucidas, mostrava elle ouvir com dó a vida trabalhosa da filha, e, sem contrariar, a affirmação{215}da legitimidade do casamento. A todos consentia falarem-lhe em Maria Henriqueta, menos á esposa; e contra ella é que mais o acirrava a loucura, a ponto, como disse, de a querer matar.Esperavam, pois, os Osorios de Mirandella que o infortunio de seu filho e irmão terminasse de todo com a morte de Gonçalo Malafaya.Um portuense, amigo de Filippe, e seu protector no julgamento, escreveu-lhe para Hespanha. Uma pagina da carta dizia assim:—Tive occasião de vêr aqui no Porto o conde de Monção, de volta de Lisboa, onde foi procurar uma herdeira rica, e d'onde voltou com a casa mais deteriorada. Falou-se de ti na presença do conde, e elle fez-se roxo. Contaram-se os teus infortunios, e a tua temeridade em arrancar a esposa do convento, e elle mordeu os beiços até espirrarem sangue gothico e suevo. Um dos presentes cavalheiros, sabedor do teu dialogo com elle, porque eu o contei em pleno auditorio, para lhe cravar a garrocha, falou na tua coragem, e de industria derivou o discurso até contar uma historia acontecida entre ti e um dos próceres de Portugal. A historia era exactissimamente a tua com elle. Não tirei os olhos da lorpa faceira do conde, e vi todos os demonios que elle tinha na alma, se tem alma. No estomago juro eu que elle tinha uma legião de espiritos immundos. Palavra não lhe despegou os dentes. Bebeu o calix até ás fezes, e saíu, quando furtivamente poude escapar-se ao imprudente sorriso e ao dos outros. No dia seguinte foi para Monção,{216}d'onde eu sei que elle mandou aqui pessoa de sua confiança averiguar a tua residencia em Hespanha. Eu julgo o conde incapaz de tirar desforra pessoal; vil ia eu jurar que elle a premedita. E, senão, que lhe importa a elle a tua residencia?! Previne-te: confia menos na tua bravura; e veste as armas da prudencia contra os tiros da cobardia insidiosa. Estás em terra onde o sangue salta em espadanas, e ninguem se espanta d'isso. Os assassinos lavam as mãos, quando as lavam, e vão pedir a absolvição aos seus frades. Cautella, meu Filippe. O meu parecer é que vás para Italia, e esperes lá que saia de casa de teu sogro uma tumba, para tu entrares na tua verdadeira paragem dos trabalhos, e dos receios. Só então cuido eu que não chegará a ti o fulgor da tua funesta estrella.Occultou Filippe esta carta de Maria Henriqueta; mas o que elle mal podia era occultar-lhe a inquietação. Pressurosamente cuidou em retirar-se da quinta, e estabeleceu a sua residencia temporaria em Segovia, com grande aprazimento do alcaide. Queria a presentida esposa que levantassem d'alli a sua barraca de peregrinos, e se avisinhassem da França. Sonhava ella a sua inteira seguridade na Italia; era para lá que a meiga senhora estava sempre impellindo o animo do marido. Tinha elle annuido, quando Maria Henriqueta adoeceu de um movito, procedido dos quotidianos abalos, causados por insignificantes incidentes, que a traziam em permanente sobre-salto.Reservadamente mostrou Filippe a carta do seu amigo{217}ao alcaide, sem esconder o receio que tal nova, combinada com os precedentes, lhe causava. Providenciou o delicado fidalgo hespanhol as rigorosas vigilancias que a sua amizade e dever lhe impunham. Inuteis foram todas no decurso de dois mezes. Nem uma só pessoa suspeita pernoitou nas estalagens da cidade.Restaurou-se Maria Henriqueta, e cuidou nos aprestos da jornada; mas metteu-se a rigorosa invernada de 1813, e foi deferida para a seguinte primavera a saida. Além de quê, a assidua espionagem era infructuosa, e as averiguações, destras e insuspeitas do alcaide, deram o conde de Monção no Alem-Tejo tratando de casar-se com uma rica herdeira.Ao mesmo tempo, o amigo do Porto, dizia o seguinte em resposta a uma carta de Filippe Osorio:«... Tambem se me vão desvanecendo os receios. O conde passou aqui ha dias com direcção a Estremoz, onde o levam as probabilidades de poder casar com uma opulenta moçoila, cujo bis-avô fazia pucaros do barro da terra, cujo avô foi creado da casa de Bragança em Villa Viçosa, e cujo pae pirateou na Africa, se não mentem as chronicas dos visinhos. Não me parece que caiba odio em coração tão cheio de amor á bis-neta do oleiro. Isto está longe de te dizer que vivas descuidado. Aquella cara do conde é um alçapão do inferno. Lá dentro devem existirFerro, veneno, vibora traidoraCartas da mão de Machivello escriptas,como diz o Tolentino no soneto.{218}«Precavém-te sempre, meu Filippe.»Esta carta achou já banida a desconfiança, e quasi esquecidas as cautelas, afóra as do alcaide, posto que menos solicitas.Maria, contente das relações que adquirira, e da serenidade do esposo, jámais lhe lembrou o projecto de jornadearem na primavera. Embeberam-se na sua felicidade, e confiaram-se ao seu bom anjo.No concernente ao estado de Gonçalo, as noticias confirmavam a approximação de sua morte. Acamára por ultimo, e nem já forças tinha para lançar-se fóra do leito.Maria das Dôres, fiada na inercia do marido, e movida pela compaixão, recolheu á casa conjugal conquistando assim a aura publica, e o bem estar da sua consciencia. Gonçalo acolheu-a com indifferença, e chegou a apertar-lhe a mão, graças aos seraficos esforços de dois franciscanos e um carmelita, que lhe assistiam á doença. Alguma vez, a esposa se aventurou a falar em sua filha na presença dos fradinhos e estes santos varões achavam justo que a menina viesse pedir perdão a seu pae da filial desobediencia. O fidalgo trejeitava negativamente, e os homens evangelicos encolhiam os hombros, e diziam: «Fidalgo, nosso Senhor Jesus Christo perdoou a quem o matou.»Observava-lhes D. Maria das Dôres que seria mais piedoso, e conforme aos preceitos de Jesus, dizer ao enfermo, que sua filha não praticára crime, comparavel ao dos matadores de Christo, nem a alma do enfermo se{219}salvaria, negando-se a perdoar em desconto dos martyrios, que fizera soffrer a sua filha. Os monges receavam estomagar o fidalgo, e privar os seus conventos da esmola promettida pelo doente.Na correnteza d'estas lastimaveis miserias da humanidade, as estrellas funestas d'esta familia alumiavam com luz sepulchral a vida dos nossos desditosos de Hespanha.Já nem o alcaide espreitava que homens pernoitavam ou passeavam em Segovia, quando, a convite de Maria Henriqueta, Filippe Osorio foi passar um dia á quinta dos arrabaldes. A cariciosa esposa tinha sede de solidão com seu marido. Era abril, e queria vêr asRosas-lindas, o florido monumento de sua filhinha. Vinha-lhe do campo o acre das florestas, e a juvenil Maria, que volvera aos desoito annos, renovado e aquecido o sangue ao calor da felicidade, anceou o campo, as flores, a sombra, os regatos, as paginas de sua vida que em tudo aquillo se liam. Passaram um dia de paraiso terreal. Brincaram como creanças, por entre as murtas e os jasmineiros, e as cilindras. O sol transmontava as serras, quando Maria disse:—Agora, vamos, filho! e agradeçamos a Deus este dia, que foi um dos mais completamente felizes da minha vida.Filippe sentou-a no selim do cavallo, e beijou-a com o fervor d'aquelle beijo, que lhe dera, n'aquella noite da fugida de Arouca.Caminharam, conversando. O lacaio seguia-os vagaroso, com discreta distancia.{220}Recordava Maria os cinco annos de Lisboa, a apparição infernal do conde, as saudades angustiosas de Arouca, as delicias loucas dos seus primeiros mezes de casada, as torturas inexprimiveis do recolhimento, a louca alegria da segunda fuga, o interrogatorio e o desespero em casa do almotacé, a terceira fuga, o delirio com que lhe correu aos braços, as venturas que devia a sua mãe, e os terrores que lhe denegriram a felicidade nos ultimos mezes. Filippe ia com ella ao céo n'estas memorias, e de lá se despenhava no abysmo de outras. Assim lhes voára o tempo, até entrarem n'um carvalhal, que fórma um como anteparo da cidade.
E, de mais, se eu conseguir levar ao tumulo dos meus infelizes uma lagrima da leitora; se alguma hora, subir da terra um pensamento ao céo dos martyres, não será esse favor da piedade um bem tão consolativo para elles? A quem hão de elles agradecer o pensamento e a lagrima se não a mim, que lhes contei os infortunios, e, em vez de um epitaphio, lhes colloquei uma urna para os que lá quizessem chorar, e a mais triste pagina d'este livro para quem quizer consolar-se das suas nas desventuras alheias?
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Vieram os esposos acompanhados até á fronteira pelo alcaide e suas filhas. Ahi se despediram com muitas saudades e esperanças de se encontrarem, passados dois annos, no Porto. O cavalheiroso hespanhol disse a Filippe Osorio e á consorte: «Se alguma vez fordes desgraçados na patria, lembrae-vos do céo de Hespanha, e do vosso segundo pae, e de vossas irmãs. Em nossa casa sois familia nossa; e já sabeis que em toda a Castella sois como bons filhos da nossa boa terra. Seja a nossa amizade um modelo do que deviam ser os irmãos da peninsula, os que se apartaram eternamente odientos em Aljubarrota e Montes-Claros. Se fordes felizes, nem por isso nos esqueçaes.»
Chegaram a Mirandella. D'ahi escreveu Maria Henriqueta a sua mãe perguntando-lhe se podia ir para o Porto confiada no perdão do pae. A resposta carecia de{168}inteira affirmativa; mas accedia ao desejo da filha. «Teu pae, ponderava D. Maria—diz e desdiz; ora condemna, ora perdôa; todavia, eu conto comigo e tu com a tua filhinha. Por mais mal que te faça, serão só palavras: e palavras o vento as leva, e outras te dirá depois que te compensem algum dissabor. Em todo o caso, vem, que eu vou dar o ultimo assalto, e segurar o lanço.
Escripta esta carta, D. Maria das Dôres convidou o marido a passar duas horas em seu quarto, antes de recolher-se. Gonçalo accedeu ao geito blandicioso da esquiva prima, raras vezes meiga. A soledade, a tristeza, a velhice, e o quasi desamparo em que o deixaram amigos e parentes, crearam n'elle a precisão dos carinhos.
Foi Gonçalo ao quarto de sua mulher, e encontrou-a lendo a carta de sua filha.
—Quem te escreveu, prima?—disse elle.
—Foi a nossa pobre Maria Henriqueta.
—Tem fome por lá? O amante abandonou-a?
—Não digas «amante», primo. Marido é o nome que tem.
—Marido, sem o meu consentimento! As leis não me dispensam de ser ouvido.
—Dispensa-te a lei de Deus, meu Gonçalo. Estão casados, e eternamente casados.
—Pois que sejam felizes.
—A nossa filha só póde ser feliz com o teu perdão.
—Tu ahi tornas!...
—E tornarei sempre; quer Deus que eu seja a sua voz ao teu bom coração. Perdoa-lhe, primo!{169}
—Foi para isto que me chamaste?! Eu logo vi que era demencia esperar allivios... Se ella tem fome, manda-lhe dinheiro; se está abandonada, diz-lhe que torne para o convento, e lá terá abundancia.
—Nem fome, nem abandono, Gonçalo! Parece que dás mui baixo preço a tua filha! Aquella menina tão linda e prendada, haveria homem que a abandonasse?
—Linda era a outra que...
—A outra qual?
—Nada...—disse Gonçalo, sacudindo a visão de Beatriz de Noronha.
—Ignoras tu—proseguiu D. Maria—que o pae de Filippe é rico, e extremoso pelo filho? Eu sei que os esposos viveram em Hespanha com todas as commodidades, e nunca Maria me pediu a menor cousa, nem as suas joias, nem os seus vestidos. O que ella pede é a estima de seu pae, e quer pedir-te perdão pela bocca de sua filhinha, que tem sete mezes. Não se te alegra o coração com a esperança de teres nos braços uma creancinha, filha de nossa filha?
—Que fatalidade!... Mais uma mulher!...—exclamou elle com entonação pouco abonatoria do seu bom siso.—Então isto é uma cadeia de desgraças? Melhor lhe fôra á mãe desobediente esmagar a filha no berço, para não crear ao seio a vibora que me ha de vingar!
—Cala-te, meu primo, meu querido Gonçalo! Que sombrios vaticinios os teus! Quando te alumiará a Providencia Divina essa escuridade em que vives?
—Ha de alumiar-m'a a lampada da sepultura. Isto{170}em mim é o horror das trevas eternas, sem mais luz nem esperança!
—Ora, vem cá, filho!—tornou com extrema maviosidade a esposa, tomando-lhe as mãos, e aconchegando-as do peito—Não desprezes a luz que o céo te manda nos olhos carinhosos da tua netinha. Verás que vida nova se nos faz na velhice. Has de sentir o que é consolar-se a alma perdoando. Sabes tu quantas penas terá curtido nossa filha, desterrada, por terras extranhas, mudando de nome para não sacrificar o marido...
—O marido! atalhou em voz soturna Gonçalo—O marido! Se ella podesse convencer-me de que não casou... perdoava-lhe!
—Não digas tal, primo, por dignidade nossa e d'ella! Pois tu negas perdão á esposa, e da'-lo-ias á concubina?! Cala-te, que desvarias; a tua razão e coração devem contradizer esse desatino, que é uma doença do teu espirito. Eu sou mulher, e mãe, e não perdoaria á filha, que, contra nossos conselhos, se tivesse sacrificado a um infame seductor. Torna em ti, meu primo, e convence-me de que estás bem com a tua consciencia, perdoando o mal, que te fez a desgraçada, que só por amor invencivel poude desobedecer-te. Aqui tens a carta que me ella escreve de Mirandella; olha estas expressões:Ás vezes penso que meu pae ha de amar muito esta creancinha, que tem já no rosto signaes de vir a ser muito parecida com elle. Se eu podesse mandar este anjo adiante de mim, seria elle quem me abrisse as portas do paraizo de minha familia: Vês tu? É a tua Maria{171}Henriqueta que fala assim ao teu coração. Tu já lhe perdoaste, não é verdade?—continuou a esposa com transporte, beijando-lhe as mãos e o rosto—Posso dizer-lhe que venha afouta beijar estas mãos, que eu beijo tão reconhecida como ella?
Gonçalo caíu sobre a cadeira d'onde, momentos antes, se levantára na tenção de fugir do quarto. Escondeu o rosto no seio, e passados anciosos instantes, murmurou:
—Que venha; mas que eu a não veja.
Saiu Maria das Dôres vaidosa do seu triumpho. As ultimas palavras do marido equivaliam ao perdão. Não querer ve'-la seria a transição para ve'-la, e ama'-la. N'este presupposto, deu como rehabilitada a filha e participou ufana aos seus parentes e visitas o ter ella congraçado Gonçalo com seu genro. Os parentes, alegres com a nova, iam da sala ao quarto do fidalgo felicita'-lo, com grandes louvores de seu juizo e nobreza d'alma, censurando ao mesmo tempo, que tardiamente o fizesse. Estes emboras irritaram o velho, por partirem de pessoas, que elle tinha em odio á conta de lhe molestarem os brios, chasqueando-o agramente por ter querido, á fina força, casar a filha com o conde de Monção.
—Eu não disse ainda que perdoava!—redarguia o fidalgo irado—A prima Maria das Dôres está brincando com a minha decrepitude. Não me arrependo do que fiz; hei-de ter brios até ao fim da vida, e muito desprezo para quem duvidar se eu os tenho.
Isto era pungentemente allusivo.
Os primos iam ter com a fidalga, e diziam-lhe que{172}acautelasse a filha dos primeiros impetos do pae, cuja alma estava ainda muito crúa, e a soberba muito inflamada.
Debaixo da má impressão dos parabens, que elle imaginou ironicos e offensivos, saíu Gonçalo Malafaya a prevenir o chanceller, o regedor das justiças, e o juiz do crime de que sua filha estava em Mirandella com direcção ao Porto, e que vinha com ella o desertor. Os magistrados responderam-lhe que os crimes militares não entendiam com elles, executores da justiça civil. No que tocava a Maria Henriqueta, ajuntaram que, estando ella legitimamente casada, a lei lhes vedava aceitarem a intempestiva querella de pae.
—Mas eu hei de provar a nullidade do casamento—redarguia Gonçalo.
—É possivel—replicavam os magistrados—mas a prisão não póde antecipar-se á prova que v. ex.ª quer dar.
Mallogrado o mau intento voltou-se aquelle espirito enfermo para melhor paragem. Foi ao governador militar e denunciou estar no reino o desertor tenente de cavallaria Filippe Osorio. Disse-lhe o governador militar que já sabia da sua vinda com o proposito de responder e ser julgado; mas—accrescentou—admiro que a denuncia me seja feita pelo pae da esposa de Filippe Osorio! Que outrem o delatasse!... mas v. ex.ª denunciante de seu genro, que perdeu a carreira por amor de sua filha, que hoje é mulher d'elle e já mãe de uma menina!... É espantosa aberração!{173}
—Eu hei de provar a nullidade do casamento de minha filha!—redarguiu Gonçalo Malafaya.
—Prove v. ex.ª tudo; mas abstenha-se de provar que todas as vinganças desairosas lhe servem. Eu conheci Filippe cadete do regimento em que eu era major, ha sete annos. Tive-o sempre no preço mais avantajado da intelligencia e decoro militar. Se eu fosse principe, dera-lhe a minha unica filha; e, sendo Gonçalo Malafaya, dera-lhe a filha, o coração, e o sangue todo de meus avós por um abraço.
Gonçalo abafava de raiva, e saíu convulsivo de ameaças de furia. Entrou em casa, e rompeu em alaridos descompostos contra Maria das Dôres, contra a filha, contra a justiça, e contra Deus. A mulher, fallecida de paciencia, perguntou ao capellão se seria prudente segurar o marido no seu quarto, antes que elle passasse a espancar a gente da casa.
Benzeu-se tres vezes o padre e disse:
—Seria bom segura'-lo antes que elle espancasse a gente da casa; mas eu não me metto n'isso, porque diz lá o ditado, com doudos nem para o céo, senhora fidalga!
Passados dois dias, chegaram ao Porto Filippe Osorio, Maria Henriqueta, a filhinha nos braços da ama, e os dois velhos creados.
Maria Henriqueta escreveu da hospedaria a sua mãe, noticiando-lhe a chegada. «Em que má hora!—dizia a mãe na resposta.—Está mais furioso que nunca teu pae. Ha dois dias que sae a mover contra teu marido os{174}poucos amigos, que se condoem d'elle. Esteve tudo muito bem disposto; mas agora me consta que teu marido tem de responder da prisão pelo crime; e teu pae, aconselhado por vis letrados, que o exploram, vae intentar uma acção de nullidade de casamento. A tua vinda para aqui é imprudentissima.
Temos que combater um mentecapto em furias. Parecia-me que o melhor seria entrares no recolhimento de S. Lazaro, em quanto se não decide o julgamento de teu marido. A outra demanda póde levar tempo a decidir; mas o resultado ha de ser o que nós desejamos, se com effeito o teu casamento está legal, como cuido. Pensa n'isto, e dá-me resposta para meu governo. Se convieres em te recolheres a S. Lazaro, desarmarás d'esse modo a colera de teu pae, e terás meio caminho andado para a reconciliação.»
Lida esta desconsoladora carta, Filippe bebeu as lagrimas da esposa, e empenhou as mais seductoras ficções de seu espirito em persuadi'-la a recolher-se a S. Lazaro, em quanto elle respondia ao conselho de guerra.
—Apartar-me de ti!—exclamava ella.
—Por alguns dias, dias derradeiros da nossa tormenta de oito annos, sacrificio necessario para ganharmos a quietação, que virá mais cedo do que podemos espera'-la com a nossa desconfiança de infelizes. Escreve a tua mãe, que eu vou apresentar-me ao governo militar.
Filippe deixou sua mulher estupefacta, e escondeu-se a chorar. Se elle succumbisse, quem daria alentos á pobre{175}esposa e mãe? Se o coração fosse sincero n'aquella hora, quantas torturas inuteis para ambos!
E Maria Henriqueta, como se voluptuosamente se estivesse dilacerando os seis d'alma, dizia entre si:
—A serenidade com que Filippe se aparta de mim! A frieza dos seus conselhos! Ó meu Deus! serei eu já aborrecida! Estará elle arrependido de se ter lançado na carreira da desgraça por minha causa, deixando a outra que tantas venturas lhe promettia! Mas, se me não ama, poderá despedir-se d'este anjinho com os olhos seccos?!
E abraçava com arrebatada ternura a menina.
Filippe apresentou-se ao governador militar. Foi esta a branda e animadora linguagem da auctoridade:
—É forçoso que se recolha ao castello da Foz. Escuso dizer-lhe que será absolvido, porque a Regencia quer que o seja. Espero que em menos de tres mezes esteja livre. Sua esposa tem licença para viver comsigo no castello.
—Não póde ser.
—Porque não póde ser?
—Meu sogro vae litigar a validade do meu casamento, as leis mandam que minha mulher seja judicialmente depositada, até á decisão. Por conselho de minha sogra, e meu, vae minha mulher entrar no recolhimento de S. Lazaro. Ámanhã vou entregar-me á prisão.
Voltou com risonho vulto o preso a casa, e disse a Maria que estavam unidos, passados tres mezes.
D. Maria das Dôres saltou de sua carruagem á porta{176}da hospedaria, abraçou a filha e o genro, chorou de ternura beijando a neta, emprestou da sua instantanea alegria á contristada familia, e disse que o marido era contente com a resolução da filha, e fôra elle pessoalmente falar ao provedor da Misericordia para se mobilarem os melhores aposentos do recolhimento para ella. De tudo, inferia Maria das Dôres que as pazes se fariam brevemente, os desgostos a passar seriam curtos, em comparação dos futuros contentamentos.
Maria Henriqueta reanimou-se, e mais ainda quando encontrou o marido, em secreto, enxugando as lagrimas. A mulher que ama precisa ver chorar, para crear alentos. A coragem do homem que se despede parece uma offensa, ainda que o não seja; simula desamor, ainda mesmo que as lagrimas saiam do coração como gottas de ferro candente, e se derramem nas chagas do peito antes de chegarem aos olhos. A mulher amante quer, ao separar-se, levar a certeza de que deixa uma saudade, bastante a matar o coração que a ama. Isso é que lhe dá força para luctar e soffrer. A suprema desgraça é o desalento da duvida, quando a infeliz já por si não tem, contra o mundo e contra a desgraça, senão a certeza de ser amada. Por isso, Maria Henriqueta achou em si a antiga força, quando surprehendeu Filippe a chorar.
Na seguinte manhã, o preso ajoelhou aos pés de sua mulher, e disse-lhe:
—Não te peço amor, minha esposa; peço-te coragem, mulher. Aqui te deixo minha filha: fala-lhe de mim, e ella será o anjo mensageiro das minhas atribulações.{177}Quanta mais força tiveres, mais digna serás do teu esposo. Mulher que tanto soffreu, e a tanto se arrostou, não póde fraquear agora em tres mezes de ausencia. Maria, eu não me engano com a tua alma, não? Has de viver e luctar com os desgostos por amor do teu Filippe, que ainda se não julga desgraçado?
Não lhe respondeu Maria. Lançou-se-lhe soluçante aos braços, e arquejou em convulsões sobre o peito em que lavrava um fogo occulto de morte, ao qual parece que as lagrimas da mulher amada se reseccam.
Tomou Filippe a filhinha dos braços da ama. Contemplou-a, e deteve-se até que a mãe lh'a tirou dos braços. É que da face d'elle se esvaíra lentamente a côr; o brilho dos olhos apagára-se subito; um tremor lhe correra os braços; o corpo ia inclinando, e a menina resvalava-lhe das mãos.
—Filippe! exclamou Maria—essa é a tua força, Filippe! Por Deus, reanima-te, que me tiras a coragem!
Sorriu-se o marido, beijou-a na face, e murmurou:
—Parecia-me que era a ultima vez que via nossa filha... O amor de pae tem estas visões passageiras. Deus me defenda de as ter a teu respeito semelhantes, minha esposa!{178}
{179}
Maria Henriqueta, aceitando o recolhimento de S. Lazaro, mal sabia a grandeza e o travor do calix que punha aos labios! Tantos mosteiros havia ahi no Porto, com tanta liberdade e regalias, e senhoras boas para amigas, e preladas menos austeras com as dores do coração, e mais contrictas, por isso mesmo, das suas!
Era o recolhimento de S. Lazaro um vasto recinto sem ar nem luz, um congresso de meninas pobres, que reflectiam a sua miseria, e castigos, e forçadas penitencias, nas pensionistas abastadas, e alli reclusas pela violencia paternal. Não se abria um sorriso nos labios de nenhuma. As pobres anhelavam a sua indigencia ao ar livre, as ricas estorciam-se nos phrenesis da sua irremediavel reclusão. As de boa indole que para alli entravam, espicaçadas pela severidade rude das regentes, tornavam-se iracundas, e umas contra outras se enraiveciam, a ponto de ser rara a convivencia de duas pensionistas ricas. Era o desespero que as fazia de condição bravia e intractavel. Maria, apenas teria uma hora de convento, que maldisse a sua cedencia á vontade da{180}mãe, e aos conselhos do esposo. Perguntou logo indiscretamente se podia mudar-se para outro deposito, e a regente respondeu que ella não era senhora sua, em quanto se não provasse que estava legitimamente casada; que a seu pae incumbia romove'-la, por que fôra elle quem apresentára ao senhor provedor o mandado do deposito.
Esta resposta, seccamente dada, foi motivo a que Maria Henriqueta ganhasse profunda aversão á regente.
Era-lhe licito escrever a seu marido. N'esse respiro gastava ella as horas do dia e muitas da noite; mas pequena consolação é essa, quando as cartas são como cauterio á chaga, sem o beneficio da cura. Respondia-lhe Filippe, fingindo animo, e inventando lenitivos de paciencia, sendo unicamente sincero nos da esperança. Baldado intento! A saudade e a desesperação recrudesciam. Tomava a filhinha nos braços, como taboa de naufragado, e nem assim, nem á luz dos olhos d'ella via ao longe a redempção.
Uma só menina das orphãs pobres ella chamára á sua intimidade: era Rita de Cassia, illustre de nascimento, mas desamparada de pae e mãe, que a lançaram de si como vergonhoso testemunho de a trazerem á vida n'uma epoca de desdourados amores. Affrontaram o escandalo, e fugiram affrontados ao dever!
O pae, que escondia o titulo, para livrar-se d'ella, e salvar o nome de sua mãe, calou a consciencia entregando-a á caridade da Santa Casa, e para isso declarou que a menina não tinha pae nem mãe. Antes elle falasse{181}a verdade, e o genero humano teria de menos um estygma.
Rita era commensal de Maria Henriqueta, e consolação de muitas agonias, se o chorar com quem chora é consolar. Que provas a orphã deu, passados mezes, do seu reconhecimento e cega amisade á fidalga e infeliz!
Depois de um mez de reclusão, Rosalinda, a filhinha de Maria Henriqueta, adoeceu de garrotilho, e expirou no termo de quarenta e oito horas. Durante o curto prazo da doença e da agonia, era geral no recolhimento o receio de que a mãe enlouquecesse, morrendo a creancinha. Nos braços d'ella passou a menina os paroxismos, aquella estortorosa respiração, que é uma lenta asphyxia, e acaba por agudissimo arranco. Tiraram dos braços de Maria o inanimado corpo, o envoltorio macerado do anjo. A mãe correu ao longo dos corredores, soltando gritos, sem destino, sem paragem, fechando os ouvidos, quando lhe falavam, arrancando-se enfurecida dos braços, que a detinham. Poderam Eugenia e Ritta de Cassia leva'-la ao seu quarto, e excita'-la a chorar, como remedio unico. Uma e outra lhe falavam de Filippe; e, como lhe dissessem que o marido morreria, sabendo a morte da filha, já Maria Henriqueta, aterrada de dôr maior, pediu forças a Deus para mitigar com rogos de conformidade a consternação do esposo.
Lembrou-se então do desmaio do marido ao abraçar a menina, e das palavras com que explicou o seu desalento: «Parecia-me que era a ultima vez que via a nossa filha.»{182}
Os apontamentos de uma senhora, que foi coeva de Maria Henriqueta no recolhimento[1], dizem singelamente:
«A sua consolação unica lhe foi roubada; morreu-lhe a adorada filhinha. Andava Maria Henriqueta de noite em gritos pelos dormitorios. Todas choravam com ella, e eu tambem, com quanto então tivesse nove annos.—Falta-me um pedaço de minha alma!—gritava a pobre mãe. Que formosa era a menina! Teria um anno. Foi enterrada em Santo Ildefonso. Veiu alli busca'-la o abbade n'uma locomotiva que era como os carrinhos de agora, pouco mais ou menos. Dizia-se que ella ajoelhára ao pé da filhinha, quando lh'a tiraram ultimamente, já amortalhada, e dissera:—Vae pedir ao Senhor a liberdade de teu pae, meu anjinho!»
Ao outro dia, tinha ella de responder á carta do marido, que parecia esquecer-se de sua situação, para falar da menina. «Dá-me cuidado—dizia elle—a doença de nossa filha; mas espero que Deus nos poupe ao golpe de a perder. Não merecemos tamanha dor, Maria; a bondade divina, a querer levar para si o anjo, esperaria que estivessemos unidos para valermos um ao outro.»
E havia de responder a esta carta a pobre mãe, quando a filha já estava sepultada! Qual outro coração{183}se abriria a recolher-lhe as lagrimas? Como havia de fingir ella uma linguagem socegada? Como abafar sua paixão, em quanto escrevia a resposta? Que dôres a vida tem!
E respondeu; mas, sem determinar a nova causa de sua afflicção, obedeceu ao impulso do desespero, amaldiçoando o pae, o destino, e Deus. As blasphemias era a carta do marido que lh'as incitava, no periodo trasladado. Deus lhe levára a filha, no momento em que o carcere, a separação do marido, e a solidão, alguma vez teriam desafogo, nos afagos da creança. A misericordia do céo lhe descontaria na balança das impiedades o punhal agudissimo, que lh'as faria resaltar do coração, e jámais da consciencia. Na carta, falando da filha, apenas disse: «Se ella hoje fosse do céo, pediria ao Senhor a tua liberdade.»
Porém, o silencio de Maria Henriqueta conseguiu apenas retardar algumas horas a infausta nova.
Estavam no Porto os irmãos de Filippe Osorio, e esses lh'a levaram.
Succumbiu aquella forte alma, e pensou em aniquilar-se. A sinistra idéa cedeu ao primeiro accesso de febre.
Faltaram a Maria Henriqueta as cartas em dois dias. Mandou ella directamente ao castello da Foz, e soube que o marido estava perigosamente enfermo. Fez-se uma terrivel explosão no animo varonil de Maria. Tremeu a regente da investida vertiginosa, que ella lhe fez no quarto, exigindo que lhe abrissem as portas. Diz a minudenciosa{184}noticia d'estes successos, dada pela indicada senhora, que mais alguma vez citarei: «Nas crises de maior exasperação Maria Henriqueta parecia possessa. Com todas se travava de razões, e trazia na mão uma chibata de junco, que vergava, e sacudia, em ar ameaçador, principalmente entrando na cella da regente; e a regente tremia d'ella, e da chibata, por amor á sua pelle, que já tinha então oitenta e um annos, e era estimavel pelle por ser de dura.» No final d'este faceto periodo se denota a má vontade que a minha illustre informadora ainda conserva á sua regente de ha cincoenta annos!
Estava pois, a octogenaria regente alapada no seu cubiculo, quando Maria Henriqueta lhe surgiu de sobresalto no limiar da porta, com a chibata em punho, ordenando que se lhe facultasse a saída, para visitar seu marido, que estava doente. Cuidou morrer de pasmo a velhinha; mas recobrou animo, quando viu a sub-regente, a sachristã, e outras funccionarias da casa deliberadas a defende'-la. Com suaves maneiras, conseguiram todas que Maria Henriqueta espaçasse até ao dia seguinte a saída, para se legalisar o facto com a licença do provedor da Santa Casa.
A fidalga não insistia muito tempo n'uma mesma idéa. Andava a baldões de sua afflicção, ora abraçada a Eugenia, ora a Rita de Cassia, ora repellindo-as ambas desabridamente.
Foi aquella noite de tormenta no recolhimento. Maria declamou, chorou, delirou em corridas de uma a outra extrema{185}da casa. Na seguinte madrugada, mandou a regente informar o provedor, e este á frente da mesa da Santa Casa, foi a S. Lazaro, e chamou ao locutorio Maria Henriqueta, com o intento de reprehender-lhe as impaciencias, e conforta'-la com palavras esperançosas de breve saída. Veiu a enclausurada, cuidando que ia receber a licença; mas, ouvidas as primeiras palavras, azedou-se-lhe tanto a dôr e a colera que o provedor suava de ouvi'-la, e os da mesa estavam como que passados de tamanha ousadia, affronta original n'aquella casa de humillimas victimas.
Fatigada de exprobrar a tyrannia do pae e a impiedade dos verdugos, que lhe mataram a filha e queriam matar o marido, Maria Henriqueta deixou-os na grade, entrou na cella esbofada e arquejante, chegou ao ouvido de Rita, e disse-lhe com a seriedade de um proposito de demente:
—Havemos de fugir hoje d'aqui: tu vaes comigo, Rita, se tiveres coragem.
A orphã temeu que a sua infeliz amiga estivesse louca; mas, para se confirmar em suas suspeitas, ainda lhe disse:
—Por onde fugiremos nós, minha senhora?!
—Cala-te, que eu sei por onde se póde fugir. Queres ir?
—Vou, vou, mas diga-me por onde, que me parece um sonho podermos fugir d'estas paredes, que nem janellas teem.
Dito isto, Maria recebeu uma carta de Filippe, escripta{186}por extranho pulso, e assignada por elle. Era animadora; a razão estava normal; a filhinha pedira por seu pae a Deus; elle mesmo se deleitava n'esta doce persuasão; e os irmãos, que o rodeavam, queriam salva'-lo com ella.
Aquietou-se algum tempo o espirito da esposa; e ao voltar a intermittencia do desespero vinha já menos descomposta. O plano da fuga prevaleceu ás melhoradas novas.
De tarde, saiu sósinha Maria e foi orar para o côro; depois disse que queria descer á egreja para resar de perto aos altares, e teve a licença, com grande aprazimento da regente, que tirou do devoto acto bons auspicios. Foi á egreja, e quiz estar a sós com Deus. Relanceou os olhos a todos os lados, esperou que saíssem do côro algumas orphãs que a observavam, e deteve-se a reparar n'um postigo chamado aministra, por onde as recolhidas recebiam a communhão, espaço com dois palmos de largo sobre palmo e meio de altura. Feito o rapido exame, saíu da egreja, e recolheu-se á sua cella com semblante socegado, e um brilho de extranha alegria nos olhos. Contou a Eugenia a sua tenção. Chorava a pobre mulher, ouvindo-a, e contrapunha-lhe muitos obstaculos, aos quaes Maria respondia sempre vencedora.
Vamos ver os prodigios de elasticidade, obrados pelo coração sobre o corpo de Maria Henriqueta.{187}
É parte d'este capitulo trasladado dos apontamentos. Quem presenceou o successo mais fielmente lhe dará as côres:
«A porta da egreja era costume deixa'-la fechada por dentro, e a chave ficava na porta, ficando a cargo da escrivã abri'-la de madrugada.
«A porta do commungatorio ficava aberta, porque parecia cousa impraticavel o poder alguem, que não fosse puro espirito, evadir-se pelaministra.
«Escolheram para a fugida a hora em que a communidade, depois do côro, se ajuntava no refeitorio.
«A primeira que saíu foi a fidalga, mas, segundo eu depois soube, passou torturas para enfiar os largos hombros por entre o estreito postigo; e do ultimo e já desesperado repuxão, que fez, foi bater com a face nos degraus do altar-mór, e feriu-se grandemente na testa.
«A orphã, como era muito delgadinha, saíu com menos custo.
«Depois, Maria Henriqueta, limpando o sangue da ferida, abriu a porta da egreja, e saíram.{188}
«Ás dez horas da noite, conforme o costume, foi a sachristã temperar a lampada do Santissimo Sacramento, e viu aberta a porta do commungatorio, e as portinholas daministratambem abertas.
«Antes de mais averiguações, começou a gritar a sachritã. Desceram algumas pensionistas á egreja e viram a porta da egreja cerrada.
«Todas, a uma voz, disseram que Maria Henriqueta fugira. Foram ao quarto d'ella procura'-la, e d'ahi passaram ao de Rita de Cassia.
«Deu-se então no recolhimento de S. Lazaro uma amostra do dia de juizo. A regente, com as mais senhoras da governança, ajuntaram-se em consistorio, para deliberarem.
«As meninas já de razão e juizo andavam afflictas: eu, porém, e as outras de minha edade nunca nos divertimos tanto; porque andavamos ás ondas por entre as velhas, fingindo que estavamos assombradas do geral terror.
«Ás onze horas da noite foi chamado meu pae,[2]e reprehendeu severamente as auctoridades da casa, porque deixaram aberta a porta do commungatorio.
«As providencias foram dadas com tão desgraçado acerto que, ao outro dia, seriam onze horas...»
Suspendemos a copia, que nos não dá n'este ponto os promenores da fuga, vencidas as principaes difficuldades, que n'este infausto caso, foram as menores.{189}
Caminharam as fugitivas na direcção das Fontainhas. Maria Henriqueta não sabia um passo da cidade, e Rita de Cassia, reclusa desde menina, era egualmente ignorante. Foram á ventura até encontrarem uma rampa de pedregulho que descia da rua do Sol.
No alto da rampa viram dois vultos quietos; tomaram-lhes medo, e sem se consultarem fugiram. Os dois vultos eram os «nocturnos» que faziam a policia, e obedeciam a apertadas ordens, n'aquelles tempos revoltos de jacobinos, e malfeitores, que os pretextavam para rebuçarem sua malvadez.
Os nocturnos correram sobre as duas fugitivas, e travaram d'ellas como quem aferra duas amazonas das que antigamente espostejavam exercitos de barbados persas. Interrogaram-as com a brandura de nocturnos. Maria Henriqueta declarou ser creada de servir, e a respeito do seu destino disse que ia para a Foz, onde tinha seus patrões. Rita, para não inventar outra profissão e destino, disse que era tambem creada de servir, e que ia para a Foz.
Interrogadas ácerca dos nomes dos amos, e outras miudezas, responderam disparates, que infundiram suspeitas, se não de jacobinas, ao menos de pessoas que se serviam da noite para obras pouco louvaveis, como fuga de casa, ladroeira, ou alguma das mil hypotheses, que cabiam na cabeça dos dois nocturnos.
—Vocemecês—disse um d'elles, amoldando o tratamento aos trajos limpos das presas—hão de vir ao almotacé, e lá dirão quem são, e o destino que levam.{190}
Rita, para confirmar suspeitas, levantou um choro, que valeu muito a prejudica'-las no conceito dos policias. Maria Henriqueta, mandando-a calar, via menos carregado o futuro, que a esperava em casa do almotacé.
Foram, e entraram á presença do funccionario, que fez um tregeito de espantadiço quando viu a formosa cara de Maria. Repetiu as perguntas, e inferiu as mesmas suspeitas dos nocturnos, que eram emanações da alma d'elle, e recebiam todas as mesmas impressões no mesmo orgão sensorio.
Cuidou a incauta Maria Henriqueta que a verdade a podia salvar d'aquelle passo difficil. Disse quem era, proferiu o nome de seu pae, e de seu marido. O almotacé curvou a cabeça inflexivel á illustre dama; disse-lhe, porém, que a obrigação d'elle era rete'-las até dar aviso; e, em obsequio ao sr. Gonçalo Malafaya, as teria em sua casa até ser dia.
Conformou-se Maria, pedindo papel para escrever a sua mãe; e escreveu uma carta de que foi portador o proprio funccionario.
Estava já recolhida D. Maria das Dôres; perguntou o almotacé se lhe era permittido falar para negocio urgentissimo com o fidalgo.
Malafaya não tinha ainda recolhido de casa dos primos Mellos, e para lá se dirigiu o portador da missiva. Contou elle ao velho o acontecimento, dando-lhe a carta, que ia endereçada a D. Maria das Dôres. Gonçalo leu-a com agitado aspecto, e disse colerico:
—Conserve essa desgraçada em sua casa até ámanhã.{191}Eu me encarrego de entregar a carta a minha mulher. Tenha-me todo o cuidado em minha filha.
Voltou o almotacé a dar conta da sua commissão, e produziu em Maria Henriqueta um insulto de nervos.
—Foi entregar a carta ao algoz!—exclamava ella:—Agora é que eu vou ser mais desgraçada! Deixe-me saír, que eu não espero as ordens de meu pae!
—Não tem remedio senão espera'-las—Disse friamente o aguazil-mór.
—Não tenho remedio?!—bradou Maria—Tenho o remedio que dá a desesperação! Conduza-me já á rua, quando não, grito que me querem matar!
O homem, por piedade ou por medo de passar uma noite turbulenta, esgotou os recursos da persuasão para conter a fidalga, promettendo-lhe obstar a que seu pae lhe fizesse alguma violencia. Para ser coadjuvado nos seus ordeiros discursos, fez levantar as senhoras da familia, e trouxe-as á sala, onde estavam as retidas. As senhoras eram ternas, e compadeceram-se da atribulada esposa, que chorava esposo e filha. Uma dellas encarregou-se de fazer pessoalmente entregar de manhã uma carta á fidalga mãe. Confortada com esta esperança, Maria Henriqueta socegou, e conseguiu aplacar as vertigens da pobre Rita, que era fraca e timida como quem, desde a infancia, andou sempre sovada aos pés da desgraça.
De manhã, saiu uma creada do almotacé a entregar a carta, recommendando-se como enviada da sr.ª D. Maria Henriqueta, e bem ensaiada por esta. Quizera o{192}guarda-portão impedir-lhe o accesso, antes das nove horas; mas a destra portadora rompeu escada acima, chamando a fidalga a altas vozes.
Conduzida ao quarto da senhora, entrou a um tempo com ella Gonçalo Malafaya, querendo arrancar-lhe a carta das mãos. D. Maria saltou assanhada do leito, e levou o marido a empurrões para fóra do quarto.
Leu anciosa a carta, vestiu-se acceleradamente, e saíu com o seu capellão a encontrar-se com a filha.
A primeira victima de sua ira foi o almotacé a quem ella chamou os nomes, que dava aos seus infimos creados. Pensava o inviolavel funccionario em autua'-la; mas pareceu-lhe mais prudente desarmar-lhe a cólera, porque receava ser demittido do officio no dia seguinte. O principal artigo de accusação da fidalga era ter ovil esbirro(amabilidade que muito offendeu o almotacé) era ter elle entregue ao pae a carta, que ia para a mãe. Graças á pacifica eloquencia do capellão, a fidalga desceu-se da sua raiva, e entrou em pensamentos mais moderados, tendentes a salvar a filha das garras, que o pae estava aguçando.
Tardias combinações! Tinham soado dez horas, quando á porta do almotacé, pararam duas cadeirinhas e seis soldados nocturnos, e um alcaide com ordem de reconduzir ao recolhimento de S. Lazaro as fugitivas.
D. Maria das Dôres, quando tal ouviu, teve um vágado, que os impetos de raiva não deixaram durar muito. Ao recobrar-se das convulsões, abraçou-se á filha, exclamando:{193}
—De hoje em diante serei mais que tua mãe, Maria! Serei tua cumplice, se és criminosa! Eu é que te hei de entregar a teu marido. Vae! Soffre mais alguns dias. Eu vou consolar teu esposo; vou trabalhar a favor d'elle, serei mesmo a sua enfermeira; e, de volta da Foz, irei falar-te ao recolhimento. Conta comigo, Maria. Leva a certeza de que os teus tormentos acabam d'aqui a poucos dias, se a minha vida não acabar antes!
Maria reanimou-se, que eram para dar muita alma as promessas da energica e vindicativa senhora.
Agora, prosegue o traslado dos apontamentos:
«Entraram duas cadeirinhas na portaria do recolhimento, escoltadas por seis soldados nocturnos. Vinha em uma a fidalga: e na outra a sua amiga.
«A todos pareceu escandalo a barbaridade que o pae escolhesse tal hora, para reconduzir duas senhoras a uma casa de educação, cercadas de tropa, e rodeadas de populaça!
«Meu pae appareceu logo na portaria, e auctorisou a regente a castigar asperamente a fidalga, como pensionista; e Rita como orphã pobre. Á primeira decretou o tronco de cima, e á segunda o chamado tronco de baixo.
«O tronco de cima era uma cella, sem differença sensivel das outras, a não ser que a luz se coava de uma fresta muito alta, e era fechada com duas portas, cujas chaves tinha a regente, e recebia os alimentos por um postigo. O maior castigo era a privação de falar com outras meninas.{194}
«O tronco de baixo era um subterraneo, sem minima claridade. Continha um leito de ferro, que hoje é moda, e era então ignominia. Fôra construida, alguns annos antes, esta caverna para castigo de uma menina, que havia fugido, e lá esteve em paroxismos, até que a deixaram sair e morrer com a pouca mais luz da sua cella. Eu tal horror lhe tinha, que só de passar sobre o alçapão da masmorra, me sentia tremer. Este era o supplicio destinado a Rita de Cassia.
«Condoeu-se meu pae da fidalga, posto que ella não solicitasse compaixão de ninguem. Dizia ella á regente que o vexame de ser trazida entre soldados lhe era bastante expiação. A pobre Rita, porém, que não tinha pae nem pão, senão o da caridade, foi a victima expiatoria,para exemplo das outras, dizia a senhora regente, que Deus tem. Ainda assim, houveram com ella piedade, mandando-a para o tronco de cima.
«Ao outro dia, quando lhe levaram os primeiros alimentos, acharam-na sem sentidos e banhada em sangue. Pensaram que ella se teria rasgado alguma veia; mas o sangue era lançado pela bocca. Julgaram-na morta, e era geral a consternação na casa. A angustia de D. Henriqueta sobrelevava a de todas; mas á orphã castigada era-lhe prohibido ver a sua amiga, a amiga por quem morria ou estava morta.
«Deu signaes de vida.
«Estavam no recolhimento duas meninas muito ricas e por isso muito respeitadas: eram D. Innocencia Pereira de Castilho, e D. Gertrudes Pereira de Castilho.[3]{195}Foram estas duas irmãs lavadas em lagrimas, pedir á regente, que as deixasse tomar á sua custa o tratamento da orphã, na sua cella. A regente era de cêra aos desejos das ricas pensionistas. Cedeu-lhes a doente moribunda. Tantos foram os carinhos, os medicamentos, e os desvelos, que a menina chegou a restaurar-se. Depois das melhoras, solicitaram as Castilhos o perdão da menina, e conseguiram-o.
«D. Maria esteve tambem doentissima n'esta epoca, mas de muito menor cuidado, e prompto restabelecimento. Para lhe não faltar afflicção alguma, até lhe prohibiram á dedicada Rita ver a fidalga que, apesar dos soffrimentos passados, ella amava com o coração de um anjo.»
Ninguem infira dos successos descriptos, em desabono da caridade e humanidade do recolhimento de S. Lazaro, ha cincoenta annos, o que hoje possa ser aquelle pio estabelecimento. Nenhuma analogia approxima os costumes de então com os de hoje. O raio benefico do facho civilisador lá foi alumiar tambem aquelle recinto; os homens que o fiscalisam, são os filhos d'este seculo, os que sabem irmanar com a doutrina do bem uma prudente severidade. Se alguma vez, em nossos dias, sairam arguições em desfavor do regimen d'aquella casa de caridade para meninas orphãs, e de educação{196}social e religiosa para pensionistas, convém que se descontem n'essas arguições causas deshonestas, e portanto injustas, que a promoveram. Não sabemos que haja outro recolhimento no paiz mais dignamente mantido sobre bases de piedade, morigeração e ensinamento de prendas, com que d'alli sáem adornadas muitas donzellas, que as mostram na sociedade, como esposas e mestras de seus filhos. Sirvam estas linhas de anteparo á censura irreflectida de alguem, que folgue de afiar no auctor os dentes da calumnia.
D. Maria das Dôres cumprira integralmente sua palavra. Foi ao castello da Foz: contou a Filippe Osorio a parte menos pungitiva da aventura de sua filha. Egualou-o na consolação das promessas e das esperanças. Chamou-lhe filho com toda a effusão da sinceridade. Chorou com elle ao falarem de Rosalinda, e d'ali voltou ao recolhimento a aviventar a filha.
N'esse mesmo dia, sobre tarde, recebeu a regente ordem do provedor para impedir que Maria Henriqueta falasse com sua mãe. Quando esta, ao outro dia, apeou no pateo, saiu-lhe á portaria a regente, mostrando lacrimosa a ordem, que recebera. D. Maria das Dôres recolheu-se a casa, esperou que o marido entrasse, lançou-se a elle de insultos e improperios tão novos, que o velho cuidou ganhar a bemaventurança fechando-se no seu quarto. No dia seguinte, o mordomo da casa, creatura particular da fidalga, partia para Lisboa a ganhar horas, com uma carta a um dos membros do governo; e nove dias depois, depunha em mãos de sua{197}ama, uma ordem da regencia, para que as portas do recolhimento de S. Lazaro se abrissem a D. Maria das Dôres, a qualquer hora do dia que ella quizesse visitar sua filha.
Gonçalo Malafaya, quando tal soube, soffreu o primeiro ataque de paralysia n'uma perna.{198}
{199}
A convalescença de Maria foi velada por sua mãe. Passava a fidalga os dias, e grande parte das noites, no recolhimento. Abriam-se e fechavam-se portas com grande escandalo dos mesarios, a horas em que era dos estatutos o silencio obrigatorio.
D. Maria das Dôres levou, a pouco e pouco, o que tinha em casa, pertencente ao guarda-roupa de sua filha. As suas mesmas joias lhe deu, receando morrer a tempo de as não poder confiar do marido como legado á filha. Quando não estava no convento passava grande parte do dia com o genro, pactuando com elle a fuga de ambos, logo que o conselho de guerra o restituisse á liberdade.
Fugir para quê, se estavam legitimamente unidos, se deviam vencer o cerebrino pleito instaurado por Gonçalo Malafaya?
Assim o parece: mas do que é ao que deve ser, corre uma distancia infinita.
Provar a nullidade do casamento era impossivel, mas{200}dilatar a prova com os estorvos, que a justiça faculta aos que a emmascaram e trazem em ludibrio por sentinas douradas, é cousa de todo o ponto facil. Contra a legalidade do matrimonio de sua filha allegava Gonçalo a negação do consentimento, e a falsidade da certidão, em que o ministro do sacramento era tio do contrahente e as testemunhas sobrinhos do abbade, e irmãos de Filippe. Absurdos argumentos que tentavam a rir a justiça, porém, um sacerdote d'ella, em primeira instancia, por odio inveterado á familia de Mirandella, lavrara uma sentença iniquissima, fundada... nos alicerces de ouro, em que levantou poste de vilipendio á sua integridade.
Subiu o processo á relação do Porto. Andou o indecoroso auctor captando a piedade dos desembargadores com lagrimas que o não lavavam das manchas. Os juizes, para honrarem o pae, e a filha, estabeleceram a legalidade canonica e civil do casamento, censurando o ignaro juiz, que inventára a deshonra como remedio aos despeitos de um pae. Faltava o recurso de superiores instancias. Foram para a supplicação os feitos, sem esperanças de bom exito para Malafaya: mas, na delonga da sentença final empenhára o fidalgo os cabedaes e os amigos, para com os amigos dos cabedaes:—desculpem a safada elegancia d'este trocadilho.
Claro é, pois, que o deposito da esposa tinha de ser prorogado até á final sentença, que, sem milagre, podia ser empecida dois annos na supplicação e baixar de lá com alguma nullidade ao tribunal onde principiára. Assim{201}se explica a premeditação de Maria das Dôres na fuga da filha, logo que Filippe Osorio saísse do castello da Foz.
Antes de completo segundo mez de prisão, foi o desertor julgado e absolvido, com grande assombro de Gonçalo Malafaya. Repetiu-se então o ataque de paralysia, ramificando-se ao braço direito. Era a peçonha do rancor que o ia matando, pedaço a pedaço.
Apresentou-se Filippe ao provedor da Misericordia, o doutor João Pedro, velho que vivera, até envelhecer, vida de rapaz, e fizera do seu palacete o berço dacivilisação dos costumes, má civilisação, que é o synonymo deextrema liberdade, a qual muito tarde será adulta no Porto. Quem hoje passa no Reimão diante do palacete que pertence ao sr. Joaquim de Sousa Guimarães, póde, se quizer, imaginar que alli, durante os ultimos trinta annos do seu antigo proprietario, se fizeram romances praticos de alta moralidade, os quaes é muito de esperar que eu venha a dar em livro. Uma das scenas lá passadas, a mais simples de todas é a seguinte:
Entrou Filippe Osorio, procurando o doutor Pedro, que saíu a recebe-lo na primeira sala. Disse o visitante quem era, e o doutor sentiu-se incommodado do coração, que parece ser o orgão do amor e do medo.
Feita a apresentação, com militar seccura, ajuntou o apresentante que era marido legitimo de D. Maria Henriqueta.
Tossiu o doutor uma tosse peculiar de susto quando não é de velhacaria. No doutor era susto; e o susto não{202}deshonra ninguem, mórmente quando o assustado se defronta com os trinta annos de um homem de grandes barbas e possante estatura.
Estas declarações eram o proemio a uma outra, sobre todas, inquietadora para o doutor.
—Quero ver minha mulher—disse Filippe.
—Parece-me que a lei se oppõe—disse o doutor—em quanto v. s.ª tiver pendente das decisões juridico-canonicas a validade do seu casamento.
—Não venho perguntar a v. s.ª se a lei faculta, se nega: o que eu lhe digo é que quero ver minha legitima esposa, agora, logo, ámanhã, sempre.
—Então queira requerer a juiz competente.
—Não venho pedir conselhos. Entenda-me, senhor provedor; é ao provedor da Misericordia que eu reclamo auctorisação para ser recebido na grade do recolhimento por minha mulher.
—Isso é impossivel, senhor!
—Que são impossiveis, senhor doutor? Talvez que a v. s.ª pareça impossivel haver um homem que lhe corte uma orelha; e, comtudo, affirmo-lhe que poucas cousas haverá tão faceis!...
Isto fôra dito com um sorriso de cortar a orelha sem auxilio de ferro. O doutor abriu a bocca e regougou:
—Oh!
Mas esteohfoi surdo como um rugido intestinal.
Filippe cruzou os braços, e disse:
—No que fica?
O provedor refez-se de animo, e respondeu:{203}
—Com que então v. s.ª vem ameaçar um velho?
—O látego da tyrannia deve ser arrancado das mãos dos velhos como dos novos. Os annos não santificam a prepotencia, senhor doutor. Nada de maximas. Eu não posso demorar-me.
—E v. s.ª é de certo legitimamente casado á face de Deus?
—Veja esta certidão.
João Pedro leu attentamente, e disse:
—Parece-me legal. Como se explica, em tal caso, a guerra que lhe faz o meu nobre amigo Gonçalo Malafaya?
—Não sei, senhor. É um odio injusto: é um pae que diffama sua virtuosa filha.
—Pois bem, sr. Filippe Osorio, eu vou consultar a mesa, e depois lhe darei a resposta.
—Consulte a sua consciencia, e deixe a mesa para mais importantes consultas. Eu quero já d'aqui ir em direitura ao recolhimento. Uma ordem de v. s.ª basta.
Entrou o doutor João Pedro no seu escriptorio; e, mais levado da consciencia que do medo, dado que um pouco de tudo o impellisse á obra meritoria, escreveu a ordem, auctorisando a regente.
Filippe saiu com mudado semblante de affectuosa gratidão, e entrou no portico do recolhimento. Chamou a regente, passou-lhe a ordem pela roda, e esperou impaciente a resposta.
Mandaram-n'o entrar n'uma grade, onde já estavam D. Maria das Dôres e a filha, esperando-o. A esposa{204}enfiou por entre as rêxas os braços, que difficilmente passavam.
—Que mudada estás!—exclamou Filippe.—Que maceração de rosto, minha pobre Maria! O que tens penado n'estes dois mezes!
Era pungente ver chorar aquelle homem, na contemplação da magreza cadaverica de sua mulher!
Nem um riso de contentamento n'aquelle primeiro encontro!
—Falta-me a filhinha!—dizia Filippe—Onde está o nosso anjo, ó Maria! Porque nos privou o céo da nossa filha, que devia n'este momento sorrir-nos a bonança, e accusar estas lagrimas como ingratidão aos beneficios de Deus?
Retirou Maria das Dôres ao anoitecer, e Filippe passeou até altas horas, defronte, e em roda do carcere da esposa.
A fidalga velha, confiada no valimento que tinha com a marqueza de Angêja, senhora que a movera a favor de Filippe Osorio, mandou a Lisboa o seu fiel mordomo a solicitar uma ordem de levantamento de deposito da filha em contravenção das leis. Foi a ordem arrancada de subito ao ministro competente, por engenho da marqueza. Correu com ella o portador; Maria das Dôres nunca se levantou a tão alto na presumpção de sua valia! Mas Gonçalo Malafaya tinha amigos e cabedaes em Lisboa. Horas depois de passada a ordem, fôra revogada, a requerimento do procurador do auctor; e outro emissario vinha ao Porto embargar o effeito da primeira. Copiemos{205}dos apontamentos o facto, presenceado pela educanda a que os devo:
«Logo ao amanhecer vinha Filippe para a grade, e Maria Henriqueta já lá o estava esperando. Por mais que extendessem os braços, era-lhes impossivel apertarem as mãos. Alli almoçavam juntos, e ficavam até ao meio dia. Elle saía, quando as portas se fechavam, e ella ia para a sua cella chorar. Ás duas horas voltava o infeliz, e jantavam. Havia de grade a grade um carrinho com duas roldanas lateraes em que ella lhe passava os pratos.[4]
«Ao anoitecer separavam-se. N'esta mixtura de alegrias e amarguras, viveram algum tempo, até que de Lisboa chegou ordem para ella sair do recolhimento. Já elle a estava esperando com uma sege na portaria; já ella tinha pedido ás mestras para nos darem sueto n'esse dia; despedia-se já de todas. Que formosa ella estava então! Como um instante de felicidade a transfigurara! Vestia de setim branco, e sapato da mesma droga. Nos olhos e no rosto resplandecia-lhe o clarão da alma. Não sei que possa imaginar melhor um anjo! Fomos todos com ella á portaria. Já estava a porta franca, e o marido com os braços abertos para a receber e um sorriso{206}de alegria desvairada nos labios. Eis que todo afadigado entra na portaria um mensageiro do inferno, com uma contra-ordem á regente! O desespero dos dois desgraçados não sei eu palavras que o exprimam! Filippe Osorio rompeu em imprecações. Maria Henriqueta fez-se primeiro escarlate, depois da côr do vestido, marmore na frialdade, e caíu sem sentidos nos braços da regente e da porteira. Choravamos todas; até as mais novas se commoveram áquella scena, cujo alcance mal podiamos compreender. Então é que ella adoeceu perigosamente, e cuidámos que não vencia o ultimo golpe. A mãe era incansavel de amor e de consolações ao lado d'ella. As cartas do marido foram talvez a principal medicina do seu restabelecimento. Passado um mez tornou á grade Maria Henriqueta: parecia desenterrada; e Filippe, que tão galhardo mancebo era, pouco tinha já que o distinguisse de um homem de cincoenta annos.»
Renasceu em toda a força da ira o plano da fuga, maquinada por D. Maria das Dôres. Frequentes vezes se encontrava com Filippe na grade, a fazerem combinações, que concertavam todas n'um arrojo de desespero, cuja responsabilidade a fidalga tomava sobre si.
Vejamo'-lo descripto pela companheira de Maria Henriqueta:
«Um dia de tarde chegou D. Maria das Dôres á grade com o genro, e ahi se demoraram até ás quatro horas. Mandou a fidalga dizer á regente que precisava de ir ao quarto de sua filha. Foi-lhe aberta a porta sem a menor hesitação. Entrou D. Maria das Dôres, e Filippe ficou{207}na portaria, como esperando a sogra. Disse a mãe á filha que precisava de arejar-lhe os vestidos. Começaram a sair taboleiros de riquissimos velludos, setins, e sedas de differentes côres, e debaixo do chale escondeu a fidalga um cofre de joias, em que estavam as da filha, e as suas, que eram muitas e de subido quilate. Afóra isto, passou D. Maria das Dôres para as mãos do genro um outro cofre muito pesado, que continha, segundo disseram, dinheiro em ouro. A regente estava desconfiada, e mais desconfiou, quando a fidalga velha lhe disse: «V. s.ª ha de permittir que minha filha dê um abraço em seu marido.» A regente respondeu: «V. ex.ª não me faça alguma, sr.ª D. Maria das Dôres!...» Tornou a fidalga: «Ha nada mais licito que uma senhora abraçar seu marido?» Disseram-me algumas meninas que a regente cedera ao terror, porque vira nas mãos de Maria Henriqueta, sumidas no chale, luzir o marfim do cabo de um punhal.
«Mandou a regente á porteira que abrisse a porta. Saíu D. Maria das Dôres, e postou-se á porta principal da portaria. Chegou o marido a abraçar a esposa, e tal abraço foi que a levou como arrebatada nos braços, e Eugenia seguiu a ama. Porteira e regente emparveceram a olhar uma para a outra; e a creada, que fôra alumiar, de tal riso se tomou que deixou caír o castiçal.
«Occorreram outras scenas que muito nos alegraram, sobre o geral jubilo de vermos Maria Henriqueta livre de ferros.
«Passados os momentos da estupefacção, quiz a regente{208}ir pessoalmente a casa do provedor contar o succedido.
—Saír eu de oitenta e um annos á rua! exclamava ella.—Que dirá o mundo?—Tinha ella uma creada de dezoito annos, que morria por se ver a passear na rua, e estava contentissima de saír com a ama. Passou acaso um estudante de clerigo, que acudiu ao motim, e mais ainda porque era namoro da porteira, elegante matronaça, que não guardava quanto devia as portas do seu coração. Pensou o estudante que a porteira iria com a regente a casa do provedor, e offereceu-se a acompanha'-las, mas a velhinha, para poupar ás estrellas o escandalo de a verem na atmosphera corrupta do mundo, pediu ao embuçado estudante que fosse elle avisar o provedor, o que elle não fez por commiseração com a fugitiva.»
A curta distancia do recolhimento, estavam tres rijas mulas, e dois creados de cavallo. Maria Henriqueta deu o ultimo abraço em sua mãe, e saltou para as andilhas. Filippe dobrou o joelho beijando a mão da sogra, e cavalgou. Eugenia, a chorar de alegria, nem deu fé de que a encarapitavam os dois creados na terceira cavalgadura. Concertaram-se rapidamente as malas da bagagem, e partiu açodada a cavalgata, caminho de Villa do Conde.
D. Maria das Dôres entrou ovante em sua casa; esperou que o marido recolhesse á meia noite; saíu-lhe ao encontro, com um riso de sarcastica vingança, e disse:{209}
—A regencia não poude vencer o teu ouro; mas uma fraca mulher o venceu. Maria Henriqueta está na companhia de seu marido. Fui eu que lhe abri as portas do carcere, e fiz saír d'alli a pobre victima de tua crueza, que estava sendo tambem um pregão de tua ignominia. Querias que a justiça a infamasse, e eu quero que ella gose os direitos das esposas honradas e virtuosas, porque os tem, e os merece. Diz aos teus amigos de Lisboa, aos canaes de teu dinheiro, que ha um ente que se não corrompe, é uma mãe.
Gonçalo Malafaya caíu prostrado n'um canapé, e bramiu:
—Maldita sejas tu!
—O céo não ouve as vozes do mau amante de Beatriz de Noronha, do mau marido de Maria das Dôres, e do mau pae de Maria Henriqueta! Morre impenitente, homem tres vezes abominavel!{210}{211}
Na descripção da desgraça ha engenhos habilissimos. Em pintar a felicidade é grande a penuria de phrases: parece que as linguas são pobres do que é tão pouco e passageiro na humanidade!
Assim é que eu me esquivo a dizer como era a alegria dos fugitivos, com receio de me perder em nevoentas chimeras; ou—di'-lo-hei com quanta sinceridade posso—o descostume de a sentir estragou-me a palheta com cujas tintas, alguma hora, pintei venturas.
Entraram por Hespanha, com destino ao alcaide de Segovia, cujas condolentes cartas Filippe recebera na prisão, e Maria no recolhimento. Da primeira terra de Hespanha escreveram para o amigo, que lhes chamára filhos. Abalaram de Segovia o alcaide e as senhoras a esperarem, em terra muitas leguas distante, os esposos. Em sua casa se hospedaram algumas semanas, e d'alli passaram para a quinta, onde os attraíam saudades do passado, e esperanças de o reviverem mais tranquillo e desassustado.{212}
Encontrou Maria refloridas as flores que plantára, um anno antes. Lá estava a roseira que ella consagrára a sua filha, denominando-aRosalinda. Ahi orvalharam lagrimas as faces de ambos; mas, seio contra seio, as ancias do coração não podiam ser duradouras.
Queriam-se solitarios os esposos ditosos; porém, seu mesmo infortunio lhes dera uma attrahente celebridade. Concorriam á graciosa vivenda os curiosos de Velha-Castella, e saíam para voltarem amigos dos que outr'ora prenderam corações com os nomes de Luiz e Pedro de Castro. A este proposito, até poemas se escreviam com o chiste das musas castelhanas, e os prelos contaram em commoventes prosas a historia infeliz dos esposos.
Uma noite, caíndo a ponto falar-se na pertinacia boçal do conde de Monção, disse o alcaide o seguinte:
—Traz-me esse nome á memoria um successo, que se deu, depois da vossa ida para Portugal. Fui eu avisado de que dois homens suspeitos tinham chegado a Segovia, e saíam de madrugada a fazer excursões pelos arrabaldes. Mandei-os espionar, e soube que elles estanceavam por estes sitios, indagando dos aldeãos qual terra vós terieis ido habitar. Com esta informação fiz prender os homens. Pedi-lhes os passaportes, e vi que os viandantes eram portuguezes, naturaes de Melgaço, e contractadores de carneiros. Não sei por que instincto, retive-os até me darem abono. Não conheciam ninguem em Segovia; mas deram-se pressa em escrever para Portugal. No entanto, perguntei-lhes o que tinham elles vindo fazer nos arredores d'esta quinta. Responderam{213}que andavam em cata de gado para comprarem. Redobraram as minhas suspeitas. Inquiri que tinham elles com uma familia, que se alojava n'esta quinta. Tartamudearam e confirmaram a certeza de seus máos intentos. Quinze dias depois, recebi ordem do governo madrilense para dar soltura aos presos. Não tinha outro remedio: soltei-os. Escrevi para Madrid, pedindo que se averiguasse na repartição competente quem afiançára aquelles dois presos. Tive em resposta que o ministro recebera directamente uma carta de seu parente, o conde de Monção. De proposito vos occultei este episodio em minhas cartas, cuidando em não vos aggravar as desgraçadas apprehensões. Agora vos digo que isto me fez apprehender muito a mim. Segundo o que Filippe me contou, o aviltado conde, a meu parecer, aprazou a vingança de cobarde. Aquelles homens eram sicarios enviados por elle. Já passou um anno, e naturalmente o conde está esquecido da affronta e da vingança; mas, ainda assim, recommendo-vos toda a cautela, que o mais temivel dos inimigos é aquelle que nos foge. Não me oppuz; porém, não approvo a vossa vinda para logar tão ermo. Antes queria ver-vos na cidade, onde as emboscadas traiçoeiras são menos possiveis, e a minha vigilancia mais apontada.
Filippe Osorio sorriu á prudencia demasiada do alcaide; e Maria Henriqueta estremeceu, e descorou desde que a historia pendeu ao assustador desfecho. Cuidaram damas e cavalheiros em tranquillisa'-la, e, mais que todos, o marido, inventando argumentos falsos a favor{214}de sua segurança. Pediu-lhe a esposa que abandonassem o local, e seguissem sua jornada até aos confins da Hespanha, ou passassem a França ou Italia. Filippe socegou-a com a cedencia á sua vontade, tirando a partido que descançariam mais algum mez entre a sua segunda familia, e velados pela guarda de tantos amigos.
Desde esta noite, eram de instantes os intervallos serenos de Maria Henriqueta. A cada rumor interno ou exterior se alvoroçava; e se ouvia um tiro remoto, não tendo junto de si o marido, soltava um grito, e corria como desatinada a procura'-lo. Então cresciam de fervor os rogos de se afastarem para mais longe; e o marido, que nunca se deixou vergar ao susto, promettia por complacencia abreviar a partida.
As cartas idas de Portugal davam Gonçalo Malafaya a descair rapidamente na formal demencia. D. Maria dizia á filha que se vira obrigada a sair de casa, e estava vivendo com as suas creadas n'um velho palacio de seus paes, com os alimentos, que lhe arbitraram. A razão do divorcio fôra os accessos de furiosa loucura do marido, que, algumas vezes, investira contra ella, armado de um espadim. Passando a miudezas da demencia, dizia que o primo muitas vezes fugia aterrado de uma visão que elle denominavaD. Francisco de Athayde, exclamando:Deixa-me, vingador, deixa-me, que Beatriz já me perdoou!N'este estado, dizia a fidalga, o successo da fuga parecia cousa indifferente ao marido; e a julga'-lo, nas horas lucidas, mostrava elle ouvir com dó a vida trabalhosa da filha, e, sem contrariar, a affirmação{215}da legitimidade do casamento. A todos consentia falarem-lhe em Maria Henriqueta, menos á esposa; e contra ella é que mais o acirrava a loucura, a ponto, como disse, de a querer matar.
Esperavam, pois, os Osorios de Mirandella que o infortunio de seu filho e irmão terminasse de todo com a morte de Gonçalo Malafaya.
Um portuense, amigo de Filippe, e seu protector no julgamento, escreveu-lhe para Hespanha. Uma pagina da carta dizia assim:
—Tive occasião de vêr aqui no Porto o conde de Monção, de volta de Lisboa, onde foi procurar uma herdeira rica, e d'onde voltou com a casa mais deteriorada. Falou-se de ti na presença do conde, e elle fez-se roxo. Contaram-se os teus infortunios, e a tua temeridade em arrancar a esposa do convento, e elle mordeu os beiços até espirrarem sangue gothico e suevo. Um dos presentes cavalheiros, sabedor do teu dialogo com elle, porque eu o contei em pleno auditorio, para lhe cravar a garrocha, falou na tua coragem, e de industria derivou o discurso até contar uma historia acontecida entre ti e um dos próceres de Portugal. A historia era exactissimamente a tua com elle. Não tirei os olhos da lorpa faceira do conde, e vi todos os demonios que elle tinha na alma, se tem alma. No estomago juro eu que elle tinha uma legião de espiritos immundos. Palavra não lhe despegou os dentes. Bebeu o calix até ás fezes, e saíu, quando furtivamente poude escapar-se ao imprudente sorriso e ao dos outros. No dia seguinte foi para Monção,{216}d'onde eu sei que elle mandou aqui pessoa de sua confiança averiguar a tua residencia em Hespanha. Eu julgo o conde incapaz de tirar desforra pessoal; vil ia eu jurar que elle a premedita. E, senão, que lhe importa a elle a tua residencia?! Previne-te: confia menos na tua bravura; e veste as armas da prudencia contra os tiros da cobardia insidiosa. Estás em terra onde o sangue salta em espadanas, e ninguem se espanta d'isso. Os assassinos lavam as mãos, quando as lavam, e vão pedir a absolvição aos seus frades. Cautella, meu Filippe. O meu parecer é que vás para Italia, e esperes lá que saia de casa de teu sogro uma tumba, para tu entrares na tua verdadeira paragem dos trabalhos, e dos receios. Só então cuido eu que não chegará a ti o fulgor da tua funesta estrella.
Occultou Filippe esta carta de Maria Henriqueta; mas o que elle mal podia era occultar-lhe a inquietação. Pressurosamente cuidou em retirar-se da quinta, e estabeleceu a sua residencia temporaria em Segovia, com grande aprazimento do alcaide. Queria a presentida esposa que levantassem d'alli a sua barraca de peregrinos, e se avisinhassem da França. Sonhava ella a sua inteira seguridade na Italia; era para lá que a meiga senhora estava sempre impellindo o animo do marido. Tinha elle annuido, quando Maria Henriqueta adoeceu de um movito, procedido dos quotidianos abalos, causados por insignificantes incidentes, que a traziam em permanente sobre-salto.
Reservadamente mostrou Filippe a carta do seu amigo{217}ao alcaide, sem esconder o receio que tal nova, combinada com os precedentes, lhe causava. Providenciou o delicado fidalgo hespanhol as rigorosas vigilancias que a sua amizade e dever lhe impunham. Inuteis foram todas no decurso de dois mezes. Nem uma só pessoa suspeita pernoitou nas estalagens da cidade.
Restaurou-se Maria Henriqueta, e cuidou nos aprestos da jornada; mas metteu-se a rigorosa invernada de 1813, e foi deferida para a seguinte primavera a saida. Além de quê, a assidua espionagem era infructuosa, e as averiguações, destras e insuspeitas do alcaide, deram o conde de Monção no Alem-Tejo tratando de casar-se com uma rica herdeira.
Ao mesmo tempo, o amigo do Porto, dizia o seguinte em resposta a uma carta de Filippe Osorio:
«... Tambem se me vão desvanecendo os receios. O conde passou aqui ha dias com direcção a Estremoz, onde o levam as probabilidades de poder casar com uma opulenta moçoila, cujo bis-avô fazia pucaros do barro da terra, cujo avô foi creado da casa de Bragança em Villa Viçosa, e cujo pae pirateou na Africa, se não mentem as chronicas dos visinhos. Não me parece que caiba odio em coração tão cheio de amor á bis-neta do oleiro. Isto está longe de te dizer que vivas descuidado. Aquella cara do conde é um alçapão do inferno. Lá dentro devem existir
Ferro, veneno, vibora traidoraCartas da mão de Machivello escriptas,
como diz o Tolentino no soneto.{218}
«Precavém-te sempre, meu Filippe.»
Esta carta achou já banida a desconfiança, e quasi esquecidas as cautelas, afóra as do alcaide, posto que menos solicitas.
Maria, contente das relações que adquirira, e da serenidade do esposo, jámais lhe lembrou o projecto de jornadearem na primavera. Embeberam-se na sua felicidade, e confiaram-se ao seu bom anjo.
No concernente ao estado de Gonçalo, as noticias confirmavam a approximação de sua morte. Acamára por ultimo, e nem já forças tinha para lançar-se fóra do leito.
Maria das Dôres, fiada na inercia do marido, e movida pela compaixão, recolheu á casa conjugal conquistando assim a aura publica, e o bem estar da sua consciencia. Gonçalo acolheu-a com indifferença, e chegou a apertar-lhe a mão, graças aos seraficos esforços de dois franciscanos e um carmelita, que lhe assistiam á doença. Alguma vez, a esposa se aventurou a falar em sua filha na presença dos fradinhos e estes santos varões achavam justo que a menina viesse pedir perdão a seu pae da filial desobediencia. O fidalgo trejeitava negativamente, e os homens evangelicos encolhiam os hombros, e diziam: «Fidalgo, nosso Senhor Jesus Christo perdoou a quem o matou.»
Observava-lhes D. Maria das Dôres que seria mais piedoso, e conforme aos preceitos de Jesus, dizer ao enfermo, que sua filha não praticára crime, comparavel ao dos matadores de Christo, nem a alma do enfermo se{219}salvaria, negando-se a perdoar em desconto dos martyrios, que fizera soffrer a sua filha. Os monges receavam estomagar o fidalgo, e privar os seus conventos da esmola promettida pelo doente.
Na correnteza d'estas lastimaveis miserias da humanidade, as estrellas funestas d'esta familia alumiavam com luz sepulchral a vida dos nossos desditosos de Hespanha.
Já nem o alcaide espreitava que homens pernoitavam ou passeavam em Segovia, quando, a convite de Maria Henriqueta, Filippe Osorio foi passar um dia á quinta dos arrabaldes. A cariciosa esposa tinha sede de solidão com seu marido. Era abril, e queria vêr asRosas-lindas, o florido monumento de sua filhinha. Vinha-lhe do campo o acre das florestas, e a juvenil Maria, que volvera aos desoito annos, renovado e aquecido o sangue ao calor da felicidade, anceou o campo, as flores, a sombra, os regatos, as paginas de sua vida que em tudo aquillo se liam. Passaram um dia de paraiso terreal. Brincaram como creanças, por entre as murtas e os jasmineiros, e as cilindras. O sol transmontava as serras, quando Maria disse:—Agora, vamos, filho! e agradeçamos a Deus este dia, que foi um dos mais completamente felizes da minha vida.
Filippe sentou-a no selim do cavallo, e beijou-a com o fervor d'aquelle beijo, que lhe dera, n'aquella noite da fugida de Arouca.
Caminharam, conversando. O lacaio seguia-os vagaroso, com discreta distancia.{220}
Recordava Maria os cinco annos de Lisboa, a apparição infernal do conde, as saudades angustiosas de Arouca, as delicias loucas dos seus primeiros mezes de casada, as torturas inexprimiveis do recolhimento, a louca alegria da segunda fuga, o interrogatorio e o desespero em casa do almotacé, a terceira fuga, o delirio com que lhe correu aos braços, as venturas que devia a sua mãe, e os terrores que lhe denegriram a felicidade nos ultimos mezes. Filippe ia com ella ao céo n'estas memorias, e de lá se despenhava no abysmo de outras. Assim lhes voára o tempo, até entrarem n'um carvalhal, que fórma um como anteparo da cidade.