Ao sopé daquelle monte um penhasco defendido pela natureza e não por arte, dilatando-se vasto, resguarda uma caverna inteiramente inexpugnavel para qualquer ardil d'inimigos.Monge de Silos:Chronicon c.3.ºA victoria do Chryssus assegurara aos arabes a conquista da Hespanha inteira, porque o desalento entrara em todos os corações, e o terror quebrara todos os brios. O duque de Cantabria, Pelagio, fora o unico em cuja almanãomorrera inteiramente a esperança. Errante pelos cerros quasi inaccessiveis quese elevam no extremo oriental da Gallecia e que, passando ao norte da Carthaginense, vão entroncar-se no vulto gigante dos Pyrenéus, o mancebo não dobrara a cerviz ao fado cruel que pesava sobre seus irmãos. Poucos o haviam seguido naquella vida quasi selvagem; mas esses poucos eram homens a quem a aura da liberdade parecia a unica atmosphera em que seus pulmões robustos poderiam resfolegar; homens a cujos olhos as affrontas da cruz derribada do cimo das cathedraes sería espectaculo incrivel e insupportavel. Uma caverna servia de paço ao joven rei das montanhas e de templo ao Crucificado. Os dominios de Pelagio eram as serranias e os valles profundos onde, porventura, até então nunca soara a voz humana. O urso ferocissimo, o javalí indomavel, a leve corça abasteciam a grosseira mesa desses godos, a quem a desgraça e a vida dura das solidões fizera mais féros, mais indomaveis e mais ligeiros do que elles. Ás vezes, Pelagio e os seus soldados desciam das montanhas para largas correrias, semelhantes á tempestade nocturna, e, como a tempestade, passavam pelas tendas dos arabes ou pelas aldeias, despovoadas de christãos, onde os infiéis começavam a fazer assento. Alta noite ouvia-se ahi um gemerde moribundos, via-se o brilhar do incendio. Era o bulcão do deserto que rugia por lá. Ao amanhecer tudo estava tranquillo; porque, bem como a procella, Pelagio era repentino e destruidor e só escrevia na terra com os caractéres sanguinolentos de ruinas e mortes a noticia da sua quasi invisivel passagem.Não assim Theodemiro. Depois da batalha, os restos das tiuphadias desbaratadas haviam-no proclamado successor de Ruderico. Era de ferro e espinhos a coroa que se lhe offerecia sobre a campa do imperio godo. Acceitou-a; porque em acceitá-la havia mais abnegação que orgulho. Emquanto Tarik, rendida Toletum, subjugava uma parte da Carthaginense, Musa, o amir d'Africa, desembarcando nas costas da Hespanha com um novo exercito, rendia Hispalis e, atravessando o Ana, submettia ao jugo do khalifa todo o occidente da peninsula iberica. As reliquias do exercito godo, que não haviam podido resistir a Tarik, muito menos poderiam impedir a passagem do amir. Assim, Theodemiro, ajunctando esses soldados dispersos, acolhera-se ás serranias d'Ilipula, na extremidade oriental da Betica. Musa, porém, enviara contra elle seu filho Abdulaziz, um dos mais famosos guerreiros do Islam. Apesar da superioridadedo exercito arabe, a lucta fora longa e terrivel. Theodemiro succumbira por fim; mas, posto que vencido, o seu valor obrigara os mosselemanos a concederem-lhe vantajosas condições de paz. Os vastos dominios que ainda possuia foram-lhe conservados, reconhecendo elle a supremacia do amir, e os godos poderam, ao menos nesse canto da Betica, achar uma parte da segurança e repouso que faltava no resto da Hespanha, onde o alfange da conquista assignalava todas as frontes com o ferrete da servidão e reduzia a montões de ruinas as cidades, nas quaes o espirito do christianismo e da liberdade ousava reluctar contra o dominio do khalifa e contra a religião do koran.Theodemiro reinou largo tempo nos districtos orientaes da Betica, mas abandonado pelos mais nobres guerreiros, para quem a paz com os infiéis seria incomportavel deshonra. As montanhas das Asturias eram o verdadeiro e unico refugio da independencia goda. Em volta de Pelagio ajunctavam-se todos os homens esforçados que não tinham ainda desesperado da providencia e da propria espada. Muitos delles adormeceram para sempre nas solidões daquelles agrestes escondrijos, sem que vissem verificar-se as suasesperanças; outros, porém, saudaram ainda a aurora do dia da vingança e poderam dizer, morrendo:—a Hespanha será salva!Era passado um anno depois da batalha do Chryssus. O numero dos companheiros de Pelagio augmentava diariamente com os homens generosos que, depois da paz de Theodemiro com os arabes, o deixavam, para salvarem a sua independencia nos fraguedos das Asturias e da Cantabria. Estes soccorros continuos fortaleciam a constancia do moço guerreiro, que via crescer e sussurrar a torrente dos invasores em volta das suas montanhas. Abdulaziz, o valente filho de Musa, subjugara a Lusitania e a Carthaginense e, saqueando as cidades opulentas do norte que lhe abriam as portas, mettia a ferro e fogo as que tentavam resistir-lhe. Os rolos de fumo que se alevantavam das povoações incendiadas mostravam aos cavalleiros de Pelagio que já pelos campos gothicos fluctuava triumphante o estandarte de Mohammed. Rugindo de colera ao contemplarem este espectaculo, apertavam contra o peito a cruz das espadas. Então, sentiam escorregarem-lhes as lagrymas pelas faces tostadas, e descer-lhes com ellas aos seios d'alma a resignação e a esperança na piedade de Deus.Debaixo d'um semblante severo, mas sereno, Pelagio sabía esconder a amargura que lhe trasbordava do coração. No viço da juventude, o espirito lhe encanecera em meio dos dolorosos successos da sua ainda tão curta vida. A todas as maguas communs se lhe accrescentavam outras particulares, porventura mais pungentes. A maior parte dos seus companheiros haviam trazido para as Asturias os paes decrepitos, os filhos e as esposas, todos aquelles por quem repartiam os affectos do seu coração. Elle, porém, não pudera salvar uma irman que adorava e que Favila, expirando, entregara em seus braços, para que fosse o defensor e o abrigo da que ficava orphan no mundo. Ao sair de Tárraco, para se ir ajunctar á hoste de Ruderico, o mancebo deixara Hermengarda nos paços paternos, encommendada á guarda de alguns velhos buccellarios de seu pae. Quando, depois da batalha juncto do Chryssus, se acolhera ás montanhas, onde só podia conservar a liberdade, Pelagio avisara sua irman do logar em que existia e lhe communicara todos os meios de penetrar n'aquella quasi inaccessivel guarida. A resposta d'Hermengarda foi digna de uma neta dos godos: dizia-lhe que brevemente sería com elle; porque preferiaum covil de feras habitado por Pelagio ás delicias de Tárraco, sobre a qual não tardaria, talvez, a pesar o ferreo jugo dos mosselemanos. Com os buccellarios que lhe deixara, ella ía atravessar a Hespanha, encaminhando-se a Legio, onde devia chegar dentro de poucos dias.Esta carta d'Hermengarda produzira crueis receios no animo do mancebo. Sabía que os arabes, derramados já pela Gallecia, não tardariam a envolver na torrente das suas assolações a antiga cidade romana: elle, que experimentara qual era a furia dos guerreiros do oriente, compadecia-se das vans esperanças de resistencia que os habitantes de Legio alimentavam ainda. De feito, um dia, em que enviara alguns cavalleiros pelos diversos caminhos que Hermengarda poderia seguir na sua arriscada e longa peregrinação, estes voltaram sobre a tarde com uma bem triste nova. Os arabes, capitaneiados por Abdulaziz, haviam chegado juncto aos muros daquella forte povoação, e poucas horas lhes tinham bastado para hasteiarem nas suas torres o estandarte de Mohammed e para passarem á espada os seus defensores. Deixando ahi uma das tribus bereberes, o exercito dos conquistadores guiara rapidamente paraa Tarraconense, e os esculcas godos haviam escapado a custo aos almogaures arabes, desapparecendo entre os desvios das serras e espreitando das apertadas portellas o caminho que seguia a multidão dos infiéis, os quaes lhes pareceu dirigirem-se para o lado do celebre mosteiro da Virgem Dolorosa. Quanto á irman de Pelagio, nenhuns vestigios haviam encontrado da sua passagem, nenhuma esperança traziam.Taes foram as novas que os cavalleiros enviados aos valles além de Legio deram ao moço guerreiro, que já os esperava impaciente em uma das gargantas do Vinnio. Cheio de tristeza, Pelagio voltou então para a sua morada selvatica, para o escondrijo pelo qual havia tanto tempo trocara os paços paternos da esplendida Tárraco. Durante muitas horas, no meio do denso nevoeiro acamado sobre as encostas, pelas sendas tortuosas das montanhas, os cavalleiros que seguiam o duque de Cantabria não ousaram quebrar-lhe o doloroso silencio. Apenas, pela calada da noite negra e fria, soava lá ao longe o ruido do Sallia, de cujas margens por vezes se approximavam. O sussurrar, porém, da corrente, amortecido de quando em quando pela distancia, confundia-se com o ramalhar nassarças do lobo que fugia e com o brando rugir dos pinhaes, balouçados pela bafagem do vento. Estes sons vagos e confusos respondiam ao tropeiar dos ginetes, galgando as serras ou descendo lentamente e enfileirados á borda dos precipicios. O nevoeiro, mergulhando-se nestes, branqueiava-lhes os seios e revelava a sua existencia, deixando entre uns e outros como uma fita tortuosa e escura, que ía morrer mui perto no breve horisonte, encurtado pela cerração e pelas trevas.Tarde, já bem tarde, uma luz baça e duvidosa bruxuleiou sem brilho adiante dos cavalleiros, que haviam rodeiado as montanhas, fazendo um largo semicirculo. Naquelle momento elles transpunham uma garganta medonha. Pelo contrario de outros logares que tinham atravessado, aqui as serras erguiam-se quasi a prumo de uma e d'outra parte da estreita passagem. Por meio della sentia-se o ruido de torrente caudal, que parecia vir da banda da luz que se via em distancia, e o nevoeiro, cada vez mais cerrado, pendurava-se em orvalho na barba espessa dos guerreiros e nos cabellos que lhes ondeiavam pelos hombros, saindo de sob os elmos.Seguindo o curso do ribeiro, a cavalgada chegou, por fim, a um valle mais amplo, mastambem rodeiado de serras, cuja sombra gigante sería facil perceber, apesar da cerração, a quem olhasse attentamente em roda. A luz que parecia guiar os cavalleiros, a principio duvidosa, tenue, sumindo-se a espaços, crescia rapidamente e era já um grande clarão, que reflectia pelos penhascos, visiveis para um e outro lado, e scintillava no dorso da corrente. Um grito de esculca veio quebrar o silencio dos caminhantes, que durante tantas horas não tinham proferido uma unica syllaba.As palavras—Covadonga e Pelagio!—repetidas pelos cavalleiros da frente responderam á voz do esculca, que, em pé e quedo sobre um outeirinho, os deixou passar ávante. Em breve chegaram ao termo da sua viagem. O valle findava em extensa penedia cortada a pique. Á direita uma subida ingreme, talhada na pedra viva, conduzia a um arco irregular aberto na penedia. Era a claridade do fogo acceso debaixo delle a que se derramava no valle e que ainda ía allumiar frouxamente o passo estreito que os cavalleiros haviam atravessado. Encostados aos rochedos, dispersos juncto á raiz daquella muralha altissima, estavam derramadas muitas choupanas, grosseiramente construidas de mal acepilhados troncos e cubertas de ramos e colmo.Em frente de varias dellas ainda fumegava o brazido das fogueiras nocturnas daquella especie de arraial, onde ciciava o respirar compassado dos que dormiam. Ao pé da primeira e mais extensa choupana, Pelagiodescavalgou; os mais seguiram o seu exemplo.«Gutislo!—bradou um dos cavalleiros, cujo elmo se distinguia dos demais, porque era o unico em cuja superficie negra e baça se não reverberava o clarão avermelhado dos carvões accesos que ainda restavam de uma grande fogueira, juncto da subida ingreme que guiava á caverna.Um homem agigantado e de fera catadura saíu da choupana murmurando sons mal articulados e que pareciam de agastamento. Dos recem-vindos os principaes começaram a subir vagarosamente a senda fragosa que tinham ante si emquanto Gutislo recolhia os ginetes, que mal se podiam meneiar de cansados, e os simples buccellarios se derramavam pelas tendas erguidas juncto dos penhascos.Os cavalleiros chegaram ao topo da subida. A caverna de Covadonga, o palacio do duque de Cantabria, estava patente. Da esquerda, em vasta lareira, ardia um grossocepo de sobreiro, que conservava tepida e enxuta a atmosphera, naturalmente fria e humida: da direita, pelas quebras angulosas das rochas, viam-se deitados capacetes, saios de malha e muitas armas offensivas. Escabellos grosseiros, mesas de carvalho e alguns leitos de pelles d'animaes silvestres, amontoadas sobre a cortiça que servia de pavimento, completavam o adereço daquelle rude aposento. Todavia, as armas pulidas, ordenadas em feixes, e as stalactites seculares, penduradas do tecto, reverberando o clarão da fogueira, davam ao topo da lapa um aspecto esplendido, que de algum modo assemelhava esta habitação de feras a uma sala d'armas de paços afortalezados.É alta noite: os cavalleiros que haviam acompanhado Pelagio dormem profundamente, estirados nos pobres leitos da gruta. Quem ouvisse os nomes desses rudes soldados saberia quaes eram os restos da mais illustre nobreza goda: eram muitos daquelles que, havia poucos meses, nos paços magnificos de Toletum passavam as noites em festas, os dias em banquetes e que, depois de existencia deleitosa, esperavam ir dormir, sob as arcarias das cryptas das cathedraes, nos tumulos soberbos de seus avós. E todavia, a conquistareduziu-os á vida de barbaros e fê-los retroceder aos costumes duros e ferozes dos companheiros de Theoderik e de Ataulph; aos habitos de rudeza dos primitivos wisigodos.O moço duque de Cantabria véla, porém. Assentado em um escabello juncto do lar acceso, com a face encostada ao punho, deixa balouçar a sua alma em tempestade de dolorosos pensamentos, lembrando-se de Hermengarda. Por mais de uma hora, Pelagio se conservara nesta situação, quando, ao voltar a cabeça, viu que mais alguem velava, como elle. O cavalleiro que ao chegarem chamara por Gutislo, em pé por detrás do escabello, com os braços cruzados e os olhos fitos na chamma, parecia meditar profundamente. No seu aspecto havia o que quer que fosse tenebroso e sinistro.«Como assim!—exclamou o mancebo—ainda não buscastes o repouso? Depois de tão larga correria, não imaginava achar-vos ao pé de mim, que vélo, porque a amargura não consente que o somno me cerre as palpebras. Tendes, acaso, uma irman querida, uma esposa que muito ameis, por quem devais tremer, e que, talvez, neste momento seja victima das paixões desenfreiadas dos infiéis?»«Não tenho ninguem no mundo:—respondeuo cavalleiro, cujo aspecto se carregou ainda mais ao ouvir estas ultimas palavras:—mas não póde aquelle cujo coração é ermo desses affectos ser tambem infeliz?»«Infelizes são todos os moradores de Covadonga—acudiu Pelagio:—mas o que á desventura commum ajuncta receios bem fundados pela honra ou, ao menos, pela vida daquelles que muito amou é mil vezes mais desventurado.»«Duque de Cantabria, quando tiverdes medida por onde afferir ao certo o meu e o vosso coração podereis falar assim.»«Te-la-hia, talvez, se conhecesse a historia da vossa vida: mas vós a cubrís de impenetravel mysterio.»«Porque é o segredo mais sancto da minha alma—interrompeu com vehemencia o cavalleiro;—segredo que esta boca nunca revelará na terra.»«Nem eu o exijo: longe de mim tal intento. A carta que me trouxestes de Theodemiro me assegura que sois um nobre gardingo: tanto bastou para que vos recebesse entre aquelles com quem reparto a minha caverna de foragido. Nunca vos perguntei, sequer, porque abandonastes um homem que de suas palavras vejo vos amava como irmão.»«Oh, quanto a isso, dir-vo-lo-hei—atalhou de novo o guerreiro, pondo a mão sobre o punho da espada.—Foi porque eu o cria um anjo de virtude e esforço, e elle era apenas um homem! Foi porque a paz que pactuou com os mosselemanos, honrosa aos olhos do vulgo, era, a meus olhos, infamia. Paz com o infiel? Ao christão só cabe fazê-la quando dormir ao lado delle somno perpetuo no campo de batalha; quando, ao lado um do outro, esperarem ambos que as aves do céu venham banqueteiar-se em seus cadaveres. Antes disso, não a comprehendo. Disse-lh'o, sem colera, sem injurias, ao abandoná-lo para sempre. Nesse momento algumas lagrymas correram destes olhos; porque a alma de Theodemiro era a ultima em que morava um affecto que respondesse aos meus; era o ultimo templo em que me sorria a esperança!»E as lagrymas que elle dizia haver derramado nessa triste separação corriam, de novo, quatro a quatro pelas faces do guerreiro.Apenas o gardingo proferira estas derradeiras palavras, o clarão avermelhado da lareira bateu subitamente no vulto agigantado de Gutislo, que surgira á boca da gruta eparecia hesitar se devia ou não interromper o dialogo dos dous guerreiros.«Velho lobo do Herminio, approxima-te—disse Pelagio em tom de gracejo, como que tentando affastar as tristes idéas que lhe opprimiam o espirito.—Que buscas a taes deshoras? Tiveste, acaso, em sonhos saudades das barrocas das tuas serras nevadas e creste que Covadonga era o antro de teu irmão, o javali?»«O caçador das montanhas—replicou o lusitano, na sua linguagem pinturesca de barbaro—não estaria aqui, se a saudade dos logares em que nasceu lhe morasse no coração. Os homens d'além do mar lhe mataram ou captivaram mulher e filhos quando estes, por seu mal, n'um dia em que elle perseguia nos cimos da serra os lobos cervaes, ousaram descer com o rebanho aos valles do Munda. Por isso te seguí eu, oh godo: tu derramas o sangue dos homens d'além do mar, e eu quero derrama-lo tambem.»«A que vens, pois, aqui?—replicou Pelagio, a quem as palavras do celta traziam de novo ao espirito a lembrança de que tambem elle era, talvez, orpham de irman querida.«A dizer-te que um desconhecido chegou ao valle. Fala não sei de que nome godo,como o teu; d'Hermengarda, me parece. Pede para te falar.»«Onde está elle?—exclamou Pelagio, em cujos olhos brilhara a esperança misturada de temor.—Que venha! oh que venha breve!»E, alevantando-se, encaminhou-se ligeiro para a entrada da gruta, d'onde Gutislo outra vez desapparecera. Antes, porém, que ahi chegasse, um velho, cujos trajos desordenados, rotos e cubertos de lodo davam indicios de ter atravessado largo espaço das serranias, entrou na caverna e, arrojando-se aos pés do duque de Cantabria, rompeu em soluços, sem poder proferir palavra.N'um relance Pelagio o conhecera.«Aldephonso! onde está Hermengarda? Buccellario! onde está a filha do teu patrono?»O velho tentou responder; porém não pôde, e continuou a soluçar.«Entendo-te: é morta! Nunca mais te verei, minha pobre irman!—murmurou o mancebo, escondendo o rosto entre as mãos.Ao gardingo, que durante esta scena se conservara immovel, fugiu um gemido abafado. Depois, levou o punho cerrado á fronte, como se quizesse conter ahi uma idéa dolorosa que tentava resfolegar.Houve um largo espaço de temeroso silencio. O velho o quebrou por fim:«Não; não é morta! Mas, porventura, ainda o seu fado é mais horrivel. Jaz captiva em poder dos infiéis. Não me foi dado salvá-la, e não quiz morrer sem vos dar esta nova cruel. Agora...»Um brado de Pelagio atalhou as palavras do buccellario suffocadas pelo choro.«As minhas armas e o meu cavallo! Que me deem o meu frankisk! Velho vilissimo, já que não soubeste deixar-te despedaçar juncto della, dize, ao menos, onde poderei encontrar os pagãos que captivaram Hermengarda.»Lavado em lagrymas, o ancião narrou-lhe em breves palavras os successos que se haviam passado no mosteiro da Virgem Dolorosa. Elle tinha feito tudo para a resolver a tentar a fuga. «Ainda na crypta fatal—concluia Aldephonso—através das grades que me embargavam os passos, por vós, pelas cinzas de vosso pae, lhe suppliquei de joelhos que me acompanhasse. Os velhos buccellarios de Favila, no meio do tumulto, a teriam, talvez, posto em salvo! Sorriu, porém, das minhas esperanças e conservou-se firme no seu proposito. Mas Deus tinha ordenadoque, em vez de obter o martyrio, cahisse nas mãos dos agarenos. De todos os que vinhamos em sua guarda, só eu, acaso, pude escapar, misturado com os soldados de Transfretana. Assim, segui por algum tempo os arabes, que se encaminham para o lado do Segisamon. Ao anoitecer, embrenhei-me nas montanhas. Um pastor que encontrei me serviu de guia, até que cheguei aos pés de meu senhor para lhe pedir a morte e para lhe jurar que estou innocente.»«De pé, cavalleiros! Aos infiéis, em nome de Christo!—gritou o duque de Cantabria, com uma voz que retumbou nas profundezas da caverna.Habituados ás subitas arrancadas nocturnas contra os arabes, quando vagueiavam em correrias longinquas, os companheiros de Pelagio ergueram-se de salto, ainda mal despertos, e por uma especie d'instincto lançaram mão das armas penduradas por cima de suas cabeças. Era solemne e tremendo o espectaculo que apresentava a gruta naquelle alçar repentino de tantos homens, no brilho das armas que relampagueiavam á luz da fogueira e tiniam umas nas outras. Entretanto Pelagio ordenava a Gutislo que despertasse os homens d'armas espalhados pelas choupanasdo valle e fizesse dar o signal d'encavalgar. Era necessario partir.No meio, porém, da revolta, havia alguem que se conservava quedo e que parecia tranquillo. Era o gardingo desconhecido. Encostado á parede anfractuosa da gruta e demudado o gesto, contemplava aquella scena com o vago olhar de quem alongara o pensamento para mui longe d'alli. Emquanto todos os demais cavalleiros rodeiavam Pelagio, indagando inquietos a causa daquelle subito apellidar para uma correria nocturna, elle só ficara immovel e como indifferente ao tumulto que as vozes do duque de Cantabria tinham excitado entre os seus guerreiros.«Qual de vós outros cavalleiros—dizia Pelagio aos que o rodeiavam—duvidará um momento de que, se um mensageiro chegasse e lhe dissesse: «vossa esposa, vossa filha, vossa irman cahiu em poder d'infiéis» eu hesitasse em ir ajudá-lo a arrancar essa victima querida á bruteza cruel dos pagãos? Nenhum; porque mais d'uma vez tenho arriscado a vida para curar saudades e amarguras dos desterrados como eu. Deu-me o céu uma irman; deu-me o ultimo suspiro de meu pae uma filha; deu-me a ternura por essa virgem, cujaimagem vive eterna neste coração virgem como ella, uma esposa. Quando a triste innocente vinha abrigar-se á sombra do escudo de seu irmão, os infiéis roubaram-ma. Viuvo e orpham, appello para os ultimos corações generosos da Hespanha. Por Deus, que me ajudeis a salvar a minha pobre Hermengarda. Como tua filha Brunehilde, ella é formosa, Gudesteu! Como tua esposa Elvira, ella é boa e carinhosa, Algimiro! Como tua irman, Munio, ella é innocente e pura. Godos, por tudo quanto amaes, salvae-a, salvae a mesquinha!»O nobre esforço do mancebo desapparecera ante a idéa dolorosa da sorte que a providencia reservara á desventurada filha de Favila. Elle estendia as mãos unidas para os cavalleiros, como uma creança timida que implora compaixão.«Partamos!—exclamaram ao mesmo tempo os nobres foragidos.—Tua irman será salva ou nenhum de nós voltará mais á gruta de Covadonga!»Uma voz trémula, mas retumbante, trovejou por detrás delles:«Não partireis d'aqui!»Voltaram-se. Era o gardingo.«Quem o ordena?—bradou Pelagio, comtoda a energia que esta inesperada resistencia despertara subitamente nelle.«Um homem—replicou o desconhecido, atravessando o circulo dos guerreiros que rodeiavam o duque de Cantabria e lançando em volta olhos altivos;—um homem cujo coração é ha longo tempo morto, porque as paixões o queimaram; mas cuja intelligencia por isso mesmo é mais fria. Quantos sois vós? Quantos buccellarios dormem pelas tendas desse valle? Apenas alguns centenares de lanças poderiam, ao todo, transpôr comvosco os passos das serras. Os infiéis e os renegados que os servem quantos são? Se podeis contar as estrellas que ora recamam o céu, podereis dizer-me o numero delles. Tu, Pelagio, braço de ferro, coração de bronze, quem és tu? O guardador das ultimas esperanças da cruz e da patria. Quem te deu, pois, o direito de correres a morte certa? Quem te deu o direito de apagar no sangue dos ultimos godos o unico facho que alumia as trevas do futuro da escravisada Hespanha?»«E a ti—interrompeu furioso e arrancando meia espada o violento Sancion—quem te incumbiu de nos dizeres: «não saireis d'aqui? Quem és tu, que, vindo não sei d'onde, pretendesdominar como senhor aquelles que só obedecem a Deus?»O desconhecido olhou para o movimento ameaçador de Sancion, e pelo rosto passou-lhe um sorriso desdenhoso. Cruzou os braços e respondeu com voz lenta e solemne:«Por minha boca falaram milhares de godos que gemem no captiveiro e que voltam de continuo os olhos para os cerros das Asturias, onde apenas fulgura tenue o sancto fogo da liberdade: falaram por minha boca as aras do Senhor calcadas pelos pés dos pagãos, as imagens do Christo derribadas no lodo, os muros ennegrecidos das cidades incendiadas. É isto tudo que vos diz:—não saireis d'aqui!—Perguntas quem sou? Dir-t'o-hei. O ultimo homem que, juncto do Chryssus, viu, combatendo, a face dos arabes vencedores, emquanto os valentes fugiam; o homem que tentou morrer com a patria, e que a mão de Deus salvou para neste momento vos dizer: «não saireis d'aqui! Queres saber quem eu sou? Lê, Pelagio, o que escreveu ahi Theodemiro. Dize-lhe depois qual é o meu nome!»E, tirando da escarcella uma tira de pergaminho dobrada, abriu-a e entregou-a a Pelagio.O duque de Cantabria correu-a pelos olhos e, deixando-a cahir em terra, murmurou:—«Meu Deus, o cavalleiro negro!»Os godos apinhados em roda recuaram alguns passos, e houve um momento de ancioso silencio.«Anjo ou demonio, que nos explicas um mysterio por outro mysterio—exclamou, emfim, Pelagio visivelmente perturbado:—christãos e arabes lembram-se ainda das tuas incriveis façanhas nas margens do Chryssus. Mil vezes eu proprio tenho dicto: dez como elle haveriam salvado o imperio de Theoderik! Devemos obedecer-te, se és um homem, como dizes, porque vales mais que nós. Se és o anjo que preside ao fado da Hespanha, mais submisso ainda será o nosso obedecer. Mas que mal te fez minha desgraçada irman?...»«Que mal me fez tua irman?—atalhou com vehemencia o gardingo.—Nenhum!... E quem te disse que não quero, que não posso salva-la, eu que não sou anjo, que sou, como tu, um homem? Quaes d'entre vós—proseguiu, voltando-se para os cavalleiros que o rodeiavam—sois n'este mundo sós e não tendes quem na morte regue com lagrymas a terra que vos cobrir? Quaes de vós sois,como eu, desterrados no meio do genero-humano? Que os orphams de coração ergam a dextra para o céu, onde só ha um seio que lhes receba os gemidos de amargura, o seio immenso de Deus!»Doze guerreiros, e entre elles o fero Sancion, alevantaram a dextra para o ar á voz imperiosa do gardingo.«A cavallo!—gritou este, apertando o largo cincto da espada e enfiando no braço a ferrea cadeia do frankisk.—Pelagio! se dentro de oito dias não houvermos voltado, ora ao Christo por nós, que teremos dormido o nosso ultimo somno, e chora por tua irmã, cujo captiveiro já ninguem, provavelmente, quebrará, senão o anjo da morte. Partamos!»Proferindo estas palavras, o gardingo atravessou rapidamente a caverna e desappareceu nas trevas exteriores: os doze guerreiros escolhidos seguiram-no machinalmente, porque os seus meneios e gesto os tinham fascinado, ao lembrarem-se de que este homem era o cavalleiro negro. O duque de Cantabria, subjugado tambem pela especie de mysterio solemne que cercava todas as acções d'este ente extraordinario, nem ousou perguntar-lhe por que meio intentava salvar Hermengarda.Todavia, uma voz intima e irresistivel lhe dizia: «resigna-te e confia». Confiado e resignado esperou, portanto, o cumprimento das promessas do incognito gardingo.XIVA NOITE DO AMIRArrebatada no pallor das trevas.Breviario Gothico—Hymno de S. Geroncio.Era ao cahir do dia. O nordeste secco e regelado corria as campinas do espaço, onde, através da atmosphera purissima, scintillavam as estrellas. O clarão de Segisamon incendiada reflectia de longe nas brancas tendas dos arabes, acampados a bastante distancia dos muros da povoação destruida. Emvolta do arraial, pelas coroas dos outeiros, accendiam-se as almenaras, a cuja luz tenue, comparada com a do incendio de Segisamon, se viam passar os atalaias nocturnos. Abdulaziz, semelhante a cometa caudato, seguia a sua orbita d'exterminio, deixando após si vestigios de fogo. O exercito devia ao romper da alva internar-se nos valles da Tarraconense.Segisamon tinha na vespera offerecido um espectaculo semelhante ao de muitas outras cidades da Hespanha levadas á escala pelos mosselemanos. Não só a cubiça e o desenfreiamento da soldadesca multiplicavam ahi as scenas de rapina, de violencia e de sangue, mas tambem a politica dos capitães arabes procurava augmentar a terribilidade desses dramas repetidos para quebrar os animos dos godos e persuadi-los á submissão. O dia precedente a esta noite que começava tinha sido consagrado pelos vencedores ao repouso, depois de um duro lavor de morte e ruinas. Os jogos, os banquetes, as dissoluções de todo o genero haviam recompensado brutalmente o esforço brutal dos destruidores de Segisamon.Ás cohortes do renegado Juliano tocava nesta noite a vigia do arraial: eram godos os que guardavam o campo, onde as virgensda Hespanha tinham sido violadas; onde a cruz captiva fora mais uma vez ludibriada; onde os velhos sacerdotes haviam soffrido contentes o martyrio no meio das affrontas. Aquelles homens perdidos, rodeiando esse montão de abominações, ainda não fartos dos deleites infernaes em que tinham tido parte com os infiéis, embriagavam-se, bebendo pelos vasos sagrados, e escarneciam blasphemos a crença da sua infancia no meio de hedionda ebriedade.O murmurio immenso do arraial foi amortecendo gradualmente com o fechar da noite. Em breve, não se ouviu nas tendas do Islam mais que o respirar lento de tantos milhares d'homens adormecidos nos braços do goso. Juncto, porém, das almenaras as risadas dos soldados do conde de Septum, os cantos obscenos inspirados pela embriaguez, as disputas ardentes do jogo, em que o ouro corria de mão em mão, soavam ainda em volta do silencio do campo. Pouco e pouco, este mesmo ruído foi affrouxando, ao passo que os fachos accesos nas chapadas dos outeiros esmoreciam. A escuridão e o silencio reinaram, emfim, até nas atalaias. Os soldados godos, cansados de dissoluções, haviam tambem repousado. E para que prestariavelar? O terror que inspiravam os arabes era o melhor guardador do arraial. Como ousariam os christãos, medrosos atrás dos muros dos seus castellos, salteiar o campo de Abdulaziz? As vigias e almenaras eram apenas uma velha formula militar, cuja significação a serie não interrompida dos triumphos até então alcançados tornara inintelligivel.Pela calada, porém, da alta noite e no meio das trevas que cobrem, como amplo manto, aquelle turbilhão d'homens de guerra, descansando então para ao romper do sol rugir de novo impetuoso, vê-se ainda, através das telas mal unidas de uma tenda mais vasta, reverberar vivo clarão, e ouve-se o rir alegre, o altercar, o tinir argentino das taças; todos os indicios, emfim, de que a orgia se prolongou ahi até mais tarde. Ao redor da tenda jazem por terra, com os alfanges nús junctos a si, alguns soldados da guarda de Abdulaziz, composta dos guerreiros mais temidos do exercito, os negros do remoto paiz de Al-Sudan. Nos ouvidos delles restruge debalde o alto ruído que soa do interior do pavilhão. Dormem, tambem, profundamente, e apenas á porta da tenda um delles vela immovel encostado á acha d'armas.A tenda era, de feito, a do esforçado filho de Musa. A mesa do banquete ainda vergava com os restos das iguarias: os brandões já gastos e os candieiros mortiços derramavam uma claridade suave pelo aposento. Reclinado sobre um almatrah cuberto de preciosa alcatifa do oriente, o amir escutava o mais moço dos cheiks que estavam juncto delle, o qual, ora cantava os versos voluptuosos de Zohèir, que accendiam a imaginação do joven guerreiro, ora lhe repetia os antigos poemas licenciosos e satyricos de Ibn-Hagiar, que elle applaudia com estrondosas risadas.O conde de Septum e os mais capitães godos alliados dos agarenos conservavam-se ainda nos logares que haviam occupado durante o banquete. Para aquella extremidade da vasta mesa viam-se algumas amphoras tombadas e outras ainda cheias dos vinhos mais preciosos da Hespanha: as taças que gyravam ao redor eram as que produziam o tinir que soava fóra, no meio do ruído das falas, dos gritos, e dos cantos monotonos do cheik Abdallah.Um guerreiro, cuja barba crespa e cerrada lhe cahia como frócos de neve sobre os anneis dourados do saio de malha, estava assentadoá direita de Juliano. A brancura dos seus cabellos era o unico signal que se lhe enxergava de uma larga peregrinação na terra; porque o rosado da tez, a viveza dos olhos azues, o garbo nos meneios e a robustez dos membros agigantados mostravam n'elle mais que muito a compleição vigorosa de homem de boa idade. Era Oppas, o bispo Oppas, que se esquecera do sacerdocio, como se havia esquecido da patria, e que, habituado á vida solta dos arraiaes, excedia já na violencia de paixões ignobeis os mais desenfreiados e barbaros chefes das tribus semi-selvagens da Africa. Muitos outros tiuphados e quingentarios, assentados ao longo da mesa, davam mostras de infernal alegria, despejando as taças de prata, que os libertos lhes enchiam de novo para de novo rapidamente se esgotarem.«Vêde os nazarenos maldictos—dizia Abdulaziz em voz baixa ao cheik Abdallah, olhando de través para os godos.—O amor da embriaguez nunca os deixará ver a luz que mana das paginas do divino koran. Para elles o fructo da vide será sempre a ponte estreita, da qual, ao passarem na morte, se despenharão no inferno.»«E que nos importam as suas almas tisnadas—replicouAbdallah—se elles nos ajudam a sujeitar á lei do sancto prophetao imperio de Andalús? Sem Deus e sem patria, deixae-lhes ao menos a sua bruteza.»O bispo d'Hispalis percebeu que falavam delle e dos outros godos, porque os cheiks haviam volvido para lá os olhos. Erguendo-se então com a taça em punho, exclamou em arabico:«Ao invencivel Abdulaziz; a um dos mais nobres vingadores de Witiza!»«Alfaqui dos romanos—respondeu o amir—a lei do propheta não consente que eu acceite a saudação que atravessou por labios tinctos no licor amaldicçoado por elle.»«E que montam as maldicções do teu propheta?—replicou Oppas em tom de gracejo.—Devemos nós por isso deixar de saudar o illustre filho de Musa com o abençoado e generoso vinho dos ferteis outeiros da Hespanha?...»«Infiel!...—interrompeu o amir, em cujos olhos scintillara o despeito. Depois, reportando-se, proseguiu em tom brando, mas firme, como quem queria ser promptamente obedecido:—Nobres cavalleiros do Gharb, valentes cheiks do Negid, de Berryah, e d'Almoghreb, a noite vai alta, e ao romper damanhan é necessario partir. Que o somno vos desça sobre as palpebras nas vossas tendas de guerra!»A estas palavras, godos e arabes, alevantando-se, foram sahindo da tenda vagarosamente e em silencio. Só o bispo d'Hispalis, apertando a mão de Juliano, murmurou:—«Oh, quanto fel se mistura com o prazer da vingança! Mas cumpra-se o nosso fado.»Ao atravessarem o arraial, os dous filhos renegados da Hespanha notaram que nos cabeços das almenaras a escuridão era tão profunda como no resto do campo. Tudo, porém, estava tranquillo. Apenas a pouca distancia lhes pareceu verem passar como sombra um cavalleiro, que se encaminhava para o lado do pavilhão de Abdulaziz. Era, provavelmente, algum soldado d'Al-Sudan, que, transnoitado, se retrahia para o seu alojamento juncto da tenda do amir.Entretanto este, apenas só, começou a caminhar agitado e a passos largos de uma até outra extremidade do aposento, que ricos pannos da Syria dividiam dos que occupavam os servos. No seu gesto, turbado por affectos encontrados, passavam successivamente os vestigios destes: ora a indignação lhe pesava nos sobrolhos confrangidos; oralhe sorria nos olhos um pensamento voluptuoso; ora a compaixão parecia suavisar-lhe esse feroz sorrir. Por fim, o moço Abdulaziz, como vencido pela tempestade da sua alma, assentou-se no almatrah e cobriu o rosto com ambas as mãos. Conservou-se assim por largo tempo, em silencio e quedo, até que, a final, as suas paixões triumpharam e rebentaram com violencia.Batendo as palmas, o amir bradou:—«Al-Fehri!»Um dos pannos que dividiam a tenda em varias quadras alevantou-se de um lado, e um vulto negro e disforme, que parecia arrastar-se com difficuldade, encaminhou-se para o amir. Era como um tronco de gigante pelo espadaúdo do corpo, pela amplidão do ventre e pela desmesurada grossura da cabeça, onde só lhe alvejavam os olhos embaciados. O monstro, apenas deu alguns passos, parou, cruzando sobre o peito os braços grossos e curtos, semelhantes a dous madeiros informes.«Eunucho—disse Abdulaziz com voz agitada—conduze aqui a ultima das minhas captivas que especialmente confiei de ti.»O vulto recuou e, franzindo a especie de reposteiro que lhe dera passagem, desappareceu.Passados alguns momentos, tornou. Uma figura de mulher, cujas fórmas mal se podiam adivinhar através d'um raro cendal que a cubria até os pés, acompanhava-o. Com passo firme, ella se encaminhou para Abdulaziz, e o eunucho desappareceu de novo.«Filha dos christãos—disse em lingua romana o amir—os dous dias que me pediste para chorares o teu captiveiro passaram. Resolveste, finalmente, ser a mais amada entre as mulheres de Abdulaziz; ser a invejada das donzellas do oriente e quasi a rainha das provincias de Andalús, porque acima de Abdulaziz só dous homens existem na terra, o amir d'Almoghreb, aquelle que me gerou, e o descendente do propheta, o que rege todo o imperio dos crentes?»«A minha resolução é morrer, quando te approuver:—replicou a captiva com serenidade;—porque essa resolução ha muito que eu a tomei. Enganei-te, pagão, quando te pedi dous dias para chorar! Escarneci de ti, porque te abomino. Esperava que um braço de guerreiro que vale mais que o teu viesse arrancar-me do captiveiro. Ai de ti, se elle soubesse qual tinha sido o meu fado! Folga, pagão, de que a sentença fulminada por Deus contra os filhos da Hespanha me abrangessetambem. Nesta hora não fora eu; foras tu quem deveria perecer. Mas elle não pôde salvar-me: só me resta dizer-te: infiel, tu és maldicto de Deus: principe dos arabes, tu és servo dos demonios: homem que me pedes amor, sabe que eu te detesto.»«Dize tudo:—interrompeu o amir, apertando com força o braço da captiva e fitando nella os olhos, onde luctavam amor profundo e colera violenta:—exhala em injurias a tua dôr orgulhosa: sê, até, blasphema; mas não digas que detestas Abdulaziz; não digas que amas um godo e que elle fora capaz de te vir roubar da minha tenda. Desgraçado do nazareno que se lembrasse de amar-te depois que Abdulaziz te chamou sua. Onde se iria esconder esse malaventurado filho de uma raça vil e covarde, que podesse escapar a este braço, o qual ao estender-se arranca pelos fundamentos os vossos castellos e reduz a pó os templos do vosso Deus e os muros das vossas cidades?»«Aquelle que eu cria viesse em meu soccorro—tornou com voz firme a captiva—não se esconderá de ti no dia em que estiverem em volta delle todos os seus irmãos em esforço e amor da terra natal; porque nesse dia das grandes vinganças vê-lo-hasface a face. Muitas vezes os teus guerreiros têem fugido diante delle; muitas vezes o incendio dos arraiaes pagãos tem ajudado o incendio das nossas cidades a alumiar as trevas da noite, e a sua mão foi a que lançou o facho sobre a tenda do agareno. Esse, ao menos, se ainda se esconde, não é por temor de ti, nem dos teus cavalleiros, que, tantos por tantos e ainda em dobro, muitas vezes tem visto fugir.»«Entendo-te, altiva filha dos godos:—replicou Abdulaziz.—Falas do que vós outros chamaes Pelagio, e que só de noite ousa saír das suas solidões das montanhas para acommetter as tribus d'Almoghreb que fizeram assento no conquistado Gharb ou para assassinar os cavalleiros do deserto transviados. Apenas Sarkosta e Tarkuna vissem fluctuar sobre as suas muralhas os estandartes do Islam, eu iria arrancá-lo dos seus escondrijos para o punir. Mas tu abbreviaste os dias do foragido nazareno. Dentro de pouco o seu cadaver servirá de pasto ás aves do céu, porque amou aquella que eu escolhi.»«Deus defenderá meu irmão:—disse titubeiando a donzella, cuja firmeza começava a abandona-la, receiando ver cumprida a ameaça do amir.«Irman de Pelagio?! Oh, repete-o mil vezes! São as prisões do sangue que te unem ao cruel inimigo dos crentes?»«Porque finges ignora-lo? Os velhos cavalleiros que me acompanhavam e que comigo foram captivos no mosteiro que profanaste já o terão revelado.»«Nem as promessas, nem os tormentos poderam tirar de suas bocas o teu nome e a tua jerarchia. Mas jura-me que és a irman de Pelagio, e elle poderá esquivar, se quizeres, o seu tremendo destino.»«Fora inutil negar o que eu propria confessei. O meu nome é Hermengarda: o duque de Cantabria, Favila, foi meu pae, e Pelagio é o filho e successor de Favila.»O amir ficou alguns momentos calado com o braço d'Hermengarda preso na mão robusta, que ella sentia tremula com o tumultuar dos affectos que agitavam o coração do arabe. Este, por fim, exclamou:«Pelo precursor do sancto propheta; por Issa[1], Hermengarda, que, se amas teu irmão, me digas:—eu serei tua. Estas palavras o farão senhor da mais rica provincia do Andalús, daquella que elle escolher para reinar como amir: os guerreiros que o seguemserão os walis das suas cidades, os kaiyds dos seus castellos: dos meus thesouros metade será delle. As escravas que muito hei amado não mais verão sorrir-lhes o rosto de seu senhor. Tu serás rainha do meu coração; rainha sem rival; senhora de tudo sobre quanto se estende o poder de Abdulaziz, do filho querido do invencivel Musa. Profere só essas palavras, e a sorte de Pelagio será invejada pelos nossos mais illustres guerreiros!...»No gesto do agareno todos os vestigios da colera tinham desapparecido: só nelle se lia a anciedadede um amorimmenso, que precisa, mais que do goso brutal, de um sentimento accorde com os proprios sentimentos.Mas Hermengarda só vira affronta e opprobrio nas palavras do amir, e o odio a este homem, cuja natural fereza e orgulho o amor convertera em brandura e, talvez, em submissão, tornou-se ainda maior ao ouvi-lo. Recobrando toda a energia da sua alma, que por um momento vacillara, respondeu, olhando para Abdulaziz com ar de desprezo:«Nem sempre os valentes conquistadores da Hespanha podem achar traidores que vendam por ouro e honras infames os sepulchros de seus paes e os altares do Senhor. Não!Pelagio não acceitará nunca um logar entre os filhos de Witiza e o conde de Septum; porque Deus o guarda para vingador de seus trahidos irmãos. Infiel, grande era o preço que davas por uma filha da serva raça dos godos: guarda-o para o empregares melhor; para comprares as nobres e livres donzellas do teu paiz. Tudo o que me offereces é vil; porque vem de ti, maldicto. Só uma offerta te acceito; ha muito que t'a pedi: a morte... a morte, e que seja breve. Abomino-te, destruidor da Hespanha... Não! Enganei-me! Desprezo-te, salteador do deserto.»Com os labios brancos e o olhar desorientado, o amir ouvia as palavras d'Hermengarda, e a sua fronte enrugava-se como a face do oceano ao passar do furacão. Tremendo silencio reinou por alguns momentos na tenda. Com um rir abafado e diabolico, o amir o rompeu por fim:«A morte?—Não terás a morte: juro-t'o pelo sepulchro do propheta. Porque a abelha zumbiu aos ouvidos do caçador faminto, arrojará elle para longe o mel do seu favo e esmagará o insecto? Tu serás minha, mulher orgulhosa; porque o meu amor é, como o meu odio, inexoravel e fatal. Depois, quando o incendio que me devora estiver extincto;quando o tedio morar para mim nos teus braços, irás cevar nas tendas dos bereberes a sensualidade brutal dessa soldadesca selvagem. Póde ser que teu nobre irmão venha entretanto salvar-te!... Guarda para então as suberbas; que hoje, pobre escrava, só te resta obedecer á voz do teu senhor.»Ao dizer isto, Abdulaziz, segurando com a dextra o braço d'Hermengarda, apertou-o com tanta violencia que a desgraçada deu um grito de agonia e cahiu de joelhos aos pés do arabe. O amir ergueu-a e, impellindo-a com força, ao mesmo tempo que despedaçava com a esquerda o raro cendal que lhe velava o rosto, a fez cahir pallida e trémula sobre o almatrah. Os labios da donzella quizeram ainda proferir algumas palavras—porventura uma supplica; mas apenas murmurou sons inarticulados, que expiraram em arquejar doloroso.No seu furor, o filho de Musa não sentira um rugido de colera que respondera ao grito d'Hermengarda, nem um ai passageiro e sumido, que, segundo era intimo, parecia de homem a quem a ponta de um punhal rasgara subitamente o coração. Nas telas, porém, que dividiam o aposento do logar d'onde pouco antes saíra o eunucho e que ficavamfronteiras á entrada principal da tenda uma figura humana se estampou negra sobre o chão brilhante da tapeçaria. O amir, volvendo casualmente os olhos, a viu. Crescia rapida. Escutou. Passos ligeiros soavam no vasto aposento. Voltou-se. Mas apenas pôde erguer o braço: vira reluzir no ar um ferro: vira um vulto cuberto d'armas semelhantes ás dos cavalleiros d'Al-Sudan: sentiu um golpe que lhe partia o braço erguido e, batendo-lhe ainda no craneo, lhe retumbava no cerebro. Deu um grito, fechou os olhos e cahiu aos pés d'Hermengarda, manando-lhe o sangue da fronte. O monstro humano que conduzira alli a irman de Pelagio, assomou então no topo interior da tenda: o brado do amir o attrahira. Vendo seu senhor derribado e juncto delle o que o feríra, o eunucho fez uma horrivel visagem, como pretendendo falar; mas sómente soltou um rugido acompanhado de um gesto d'ameaça. Segundo o atroz costume do oriente, Al-Fehri, destinado desde a infancia ao serviço mysterioso do harem, fora condemnado em tenros annos a nunca imitar a voz humana. Privado da lingua, as suas expressões eram acenos ou afflictivos e inarticulados rugidos.O cavalleiro observava-o. Fê-lo sorrir oademan feroz e ameaçador do eunucho. Tinha previsto todas as difficuldades daquella arriscada empreza e contava com o seu esforço e frieza d'animo para as vencer. Ligeiro, travou de uma das tochas que ardiam juncto da mesa do banquete e chegou-a ás ricas tapeçarias que forravam a tenda. A chamma enredou-se na tela: um rolo de fumo espesso trepou em espiraes, ennegrecendo-lhe os recamos e lavores brilhantes. Em breve, as labaredas abraçadas com os feixes de lanças, com os pannos custosos, que ondeiavam torcendo-se, treparam até o cimo e, curvando-se espalmadas sob o tecto, romperam em linguas ardentes aprumadas para o céu. O incendio, espalhando ao longe a sua sinistra claridade, erguia-se como um tocheiro disforme acceso no meio do arraial e despertava assim do somno profundo os soldados d'Al-Sudan lançados em volta do pavilhão do amir.Mas já a este tempo o cavalleiro se affastava do logar daquella scena medonha. As palavras—«liberdade e Pelagio!» proferidas por elle, tinham calado como um balsamo de vida no coração d'Hermengarda. O desconhecido, tomando-a nos braços, atravessou ligeiro para o lado do arraial onde estanceiavamos godos. Outro cavalleiro lhe tinha de rédea dous ginetes. Hermengarda, a quem o perigo e a esperança haviam restituido toda a natural energia, não hesitou em acompanhar o seu audaz e mysterioso salvador. Seguindo os caminhos tortuosos e incertos que as tendas do immenso arraial formavam e guiando-se pela lua, que principiava a saír detrás dos outeiros, os tres fugitivos encaminharam-se para o lado do campo além do qual as montanhas, lá ao longe, reflectiam já o luar das cumiadas cubertas de neve.Entretanto Al-Fehri correra a despertar os negros da guarda do amir, e o cavalleiro ainda ouviu os gritos destes ao contemplarem o incendio, mais prestes em acorda-los que o eunucho. Á entrada da tenda, o vigia que devera despertá-los ao primeiro signal de Abdulaziz havia adormecido de somno mais profundo que o delles. Um punhal enterrado na garganta até o punho lhe sellara para sempre os labios. Os gestos de desesperação d'Al-Fehri fizeram conhecer aos soldados o perigo do amir. Por entre as chammas, ferido e semi-morto, a custo poderam salvá-lo. Pouco a pouco, o tumulto se alongou pelo arraial: os cheiks arabes e os capitães de Juliano corriam para o logar onde brilhava oincendio, e, dentro em pouco, as vozes desentoadas, o tocar das trombetas, o rufar dos tambores, o tropeiar dos cavallos naquella vasta planicie fariam crer a quem olhasse para alli dos montes vizinhos que no arraial se pelejava uma batalha nocturna.No meio da confusão que produzíra por toda a parte este acontecimento inesperado e cujo motivo e circumstancias inteiramente se ignoravam, ninguem reparou nos dous cavalleiros e na donzella que, atravessando rapidamente por entre as tendas dos arabes e dos godos, se dirigiam para as atalaias do norte. Era, porém, aqui onde os maiores perigos aguardavam os tres fugitivos.A revolta do campo chegara aos ouvidos dos vigias. Sobresaltados pelo clarão que refulgia do logar do incendio e pelo rumor que soava dessa parte, o grito de alarma correra de boca em boca, de uns para os outros outeiros, que successivamente se illuminavam. No largo gyro que tal bradar fizera, aquella cadeia de sons uniformes fora subitamente quebrada. Lá, na almenara do norte, nenhuma voz respondera ao vozeiar dos esculcas; nenhuma luz de fogueira brilhara de novo. De cada um dos postos vizinhos, uma decania de corredores transfretanos desceu, então,aos valles e, subindo depois por uma e outra encosta, vieram todas topar na coroa do outeiro. Á claridade da lua, cujos raios inclinados roçavam já pela terra, viram reluzir no chão troços d'armas, e, estirados ao pé dellas, estavam os corpos de seus donos involtos nos saios de malha. Rapido e violento devia ter sido o commettimento, numerosos os cavalleiros inimigos; porque nem um dos atalaias podera escapar. Nem um: que todos ahi jaziam! Braço robusto tinham por certo aquelles que assim ousavam penetrar no campo de Abdulaziz: as feridas profundas assignadas nos cadaveres davam disso testemunho. Não havia que duvidar: Pelagio salteiara o arraial. O incendio que reverberava ao longe e o arruído como de um grande combate diziam que o facho da vingança fora arrojado ao meio das tendas do Islam, e que o ferro dos defensores da Hespanha viera, nas trevas da noite, lavar com sangue o logar dos banquetes, tincto ainda de vinho e immundo de prostituição.Este pensamento passou fugitivo e confuso pelo espirito dos guerreiros, que olhavam como petrificados para a scena de morte que tinham ante si a qual, de um lado, era alumiada pela luz debil da lua nascente, e, dooutro, pelo clarão avermelhado e ainda mais frouxo do incendio ao longe. Um correr de cavallos que subiam ligeiro a encosta da banda do arraial lhes divertiu a attenção. Volveram para lá os olhos. Tres vultos a cavallo se dirigiam para alli. Dous, cubertos de armas escuras, ladeiavam o terceiro, cujas roupas alvejavam ao luar. Os corredores transfretanos adiantaram-se para elles. Ao aproximarem-se, viram que o vulto branco era de mulher e que os outros trajavam saios e elmos e traziam achas d'armas. Eram em tudo semelhantes aos guerreiros d'Al-Sudan que compunham a guarda do amir.Um dos dous cavalleiros affastou-se da donzella e, dirigindo-se aos capitães das decanias, unidas no topo do outeiro, disse-lhes em romano, com voz que simulava profunda colera:«Os inimigos entraram no campo e accommetteram a propria tenda de Abdulaziz. Os soldados do conde de Septum lhes deram passagem; porque a elles estava confiada a guarda do campo. Em qual das atalaias estão os traidores?»«Os valentes da Transfretana nunca mereceram esse nome—replicou um dos decanos ou capitães dos esculcas.—Foi aqui ondederam o passo aos inimigos; mas o caminho destes foi por cima dos seus cadaveres. Julgae-os.»E as duas decanias affastaram-se para os lados. Vinte cadaveres estavam lançados por terra.«Sobre elles não cahiu o opprobrio na sua ultima hora:—disse o guerreiro depois de contemplar um momento aquelle espectaculo.—Abdulaziz ordena que se guardem estreitamente as saídas do campo. Não tardam os cavalleiros zenetas que vem ajunctar-se nas atalaias comvosco, a fim de que nenhum infiel possa escapar, emquanto nós vamos conduzir para logar seguro, fóra do arraial revolto, a escrava querida do amir. Vinde!—proseguiu elle, voltando-se para o companheiro.Atravessando por entre os soldados tingitanos, a donzella e os seus libertadores começaram a descer apressadamente a encosta.Já os tres fugitivos íam a alguma distancia, quando, como tomado de uma idéa subita, um dos esculcas exclamou:«Aquelle homem é godo!—Nenhum arabe fala assim a lingua romana: muito menos os broncos guerreiros d'Al-Sudan. Por minha fé, que são inimigos!»Os acontecimentos inesperados dessa noite, a incerteza em que se achavam os esculcas sobre o que succedia no arraial, a rapidez com que se passara esta scena e, sobretudo, a audacia e o tom imperativo com que o desconhecido falara não haviam dado logar á reflexão e ás suspeitas. Mas as palavras do soldado foram para todos um raio de luz:«Tens razão, buccellario:—atalhou o capitão da decania.—Fazei-os parar.»Os tres, que já íam a meia encosta, ouviram muitas vozes clamar:—esperae!«Somos perseguidos!—disse em voz baixa aquelle que ficara juncto da donzella emquanto o outro falava com os vigias.«Está salva!—respondeu o companheiro, que parecia ter concentrado todos os seus cuidados n'um pensamento unico, a fuga d'Hermengarda.Duas frechas lhes sibillaram então por cima das cabeças.«Covadonga e Pelagio!—gritou o que proferira as ultimas palavras. Eram chegados á raiz do monte, juncto ao qual uma planicie inculta e cuberta d'urzes se estendia até ir topar com os bosques que povoavam os primeiros cabeços das serranias septemtrionaes.A esta voz, lá na orla da floresta, ao cabodo sarçal, surgiram de repente uns reflexos metalicos, que se agitavam trémulos, semelhantes á phosphorencia de um marnel por noite sem lua. Depois, o grito de—Covadonga e Pelagio—foi repetido daquelle lado da gandra, como respondendo ao que soltara o cavalleiro.«São os nossos valentes irmãos—disse ao companheiro o que falara com os decanos das tiuphadias transfretanas.—São nossos irmãos, que nos esperam. Tu, Sancion, guiarás ao meio delles a nobre irman do duque de Cantabria. Entretanto eu reterei aqui os miseraveis renegados, que já descem do outeiro a perseguir-nos; retê-los-hei emquanto alcançaes a entrada do bosque e vos embrenhaes na serrania, seguindo ao norte. A agrura das montanhas e a profundeza dos valles das Asturias demorarão os inimigos, quando eu haja de perecer e não podér embargar-lhes os passos. Ide-vos.»«Não perecerás sem mim, cavalleiro negro:—replicou o fero Sancion.—Cumprirei o que ordenas, porque jurei obedecer-te cegamente emquanto não salvassemos a irman de Pelagio. Mas, apenas alcançar a orla da floresta onde mandaste esperar os nossos dez companheiros, voltarei com todos os queme quizerem seguir. Para guiar a filha de Favila bastam dous guerreiros: o resto não bastará, talvez, a reter durante o tempo necessario para a fuga a turba dos infiéis que se approxima.»E, sem esperar a resposta do cavalleiro negro, Sancion adiantou-se, dizendo á donzella, que apenas podera perceber algumas palavras truncadas da conversação dos dous:«Partamos!»E a galope, acompanhado d'Hermengarda, brevemente se alongou pela vereda torcida, que se distinguia no meio das moutas, como beta alvacenta estampada no tapete escuro das sarças.A attenção do cavalleiro negro, que os seguira com os olhos, foi, porém, distrahida para o outro lado pelo tropeiar, já pouco distante, dos corredores transfretanos, que a toda a brida se acercavam delle. Era chegada a occasião de mostrar o extremo do seu esforço.XVAO LUAR
Ao sopé daquelle monte um penhasco defendido pela natureza e não por arte, dilatando-se vasto, resguarda uma caverna inteiramente inexpugnavel para qualquer ardil d'inimigos.Monge de Silos:Chronicon c.3.º
Arrebatada no pallor das trevas.Breviario Gothico—Hymno de S. Geroncio.
Breviario Gothico—Hymno de S. Geroncio.