XVIIIIMPOSSIVEL!

Desprezamos essa multidão de pagãos, e nenhum temor ha em nós.Sebast. de Salamanca—Chronicon.O espectaculo que offerecia a caverna de Covadonga na noite immediata áquella que se terminou com os successos das margens do Sallia era mui semelhante ao dess'outra noite em que Pelagio recebera a nova do captiveiro d'Hermengarda;—espectaculo semelhante, mas personagens, em parte, diversas.Na vasta lareira proxima da entrada da gruta e a que servia de chaminé uma larga fenda dos rochedos superiores ardiam alguns cepos de carvalho, que, repassados do fogo durante uma longa noite de novembro e abrazados até a medúlla, davam apenas uma chamma tenue e azulada, cujo fraco esplendor se perdia na claridade brilhante de cinco ou seis fachos encostados pelas paredes irregulares da caverna. Do numeroso tropel de guerreiros que naquella memoravel noite se tinham erguido á voz do moço duque de Cantabria, travando das armas, apenas se viam agora, estendidos nos grosseiros leitos formados das pelles de animaes bravios, dez cavalleiros, que no seu profundo somno, no transfigurado do gesto e no desalinho dos trajos faziam antes lembrar o jazer de cadaveres, que o repousar de vivos. Perto do lar acceso, assentado em escabello tosco e com a cabeça encostada ao braço firmado n'uma anfractuosidade do rochedo, via-se, tambem adormecido, um guerreiro em cujo rosto os sulcos das rugas e o cavado das faces davam, porventura, mostra de mais dilatada vida do que, na realidade, era a sua. O somno parecia nelle unicamente o entorpecimento das forças physicas exhaustas enão o repouso do espirito; porque, de quando em quando, os membros se lhe agitavam por estremeção violento, ou se lhe descerravam os olhos, e moviam os labios, como se tentasse falar; mas sussurrava apenas alguns sons inarticulados e cahia de novo em torpor, que não tardava em ser outra vez interrompido. N'um recésso da gruta, formado pelos resaltos das rochas e que servia como de camara ao joven capitão dos foragidos, parecia tambem jazer um vulto sobre telas mais delicadas que os despojos d'animaes silvestres, as quaes eram, talvez, ainda restos do anterior luxo dos paços de Tárraco; talvez, vestigios da passada grandeza dos duques de Cantabria e da antiga civilisação gothica. Um panno de purpura franjado d'ouro pendia da abobada natural, preso nas stalactites seculares que della desciam, semelhantes aos penduróes do tecto de um templo normando-arabe. A luz dos fachos mal alumiava aquelle recanto affastado; mas nessa meia-claridade branquejavam roupas alvas de mulher, que tambem parecia agitada por sonhos dolorosos, se é que o seu gemer de espaço a espaço, o soluçar contínuo, o agitar-se d'instante a instante não eram antes indicios dessa modorra febril, dessa hesitação entreo dormir e a vigilia, semelhante ao arquejar do moribundo que já perdeu a consciencia da vida que vai fugindo. No meio desta scena de duvidosa quietação uma personagem velava. Era o moço Pelagio, que, atravessando a caverna a passos lentos e cautelosos, de um para outro lado, ora applicava o ouvido aos movimentos irrequietos e ao respirar agitado do vulto branco, ora parava á entrada da gruta, fitando os olhos na escuridão exterior e escutando com todos os signaes d'impaciencia de quem espera alguem que tarda. Depois, dirigia-se para o lado do vermelho brasido e, cruzando os braços, punha-se a contemplar o torvo aspecto do cavalleiro do escabello, com um olhar de sympathia e compaixão, misturada do que quer que era de admiração e de terror involuntario.Estes movimentos successivos do mancebo repetiram-se umas poucas de vezes; por fim, a figura membruda e selvatica do lusitano Gutislo assomou no arco irregular que servia de portico áquella habitação roubada pela desventura ás feras.«Voltaram?—perguntou em voz baixa ao barbaro do Herminio o duque de Cantabria.«Desmontam agora:—respondeu Gutislo:—Vellido,o centenario, disse-me viesse vêr se repousavas.»«Repousar!—replicou Pelagio, sorrindo tristemente e olhando para o sitio onde o panno de purpura occultava o vulto branco. «Que venha; que venha já.»Gutislo desappareceu. D'ahi a alguns momentos, o centenario entrava.Era um guerreiro, cujos cabellos brancos, cujos meneios pausados e cujo olhar penetrante davam testemunho de prudencia e discrição. Parecia inquieto e assustado.«Que novas nos trazes, Vellido? Qual caminho seguem os arabes?»«O que prouvera a Deus elles nunca houvessem encontrado. Ao amanhecer os cavallos africanos beberão as aguas do Deva; os sons das trombetas agarenas ouvir-se-hão retumbar pelas encostas de Concana e ecchoarão nos alcantís do Auseba. Vagueiámos dispersos a tarde inteira e a maior parte da noite. Pelas alturas do sul e do oriente reluziam ao longe as armas dos infiéis, e depois as suas almenaras. Os pastores asturios, que já nos esperavam no valle d'Onis, onde todos os esculcas se ajunctaram á hora de terça nocturna, nos relataram então o que,sumidos por entre as brenhas, tinham podido observar de perto...»«E quaes foram as novas dos pegureiros?—interrompeu vivamente Pelagio.—São muitos ou poucos os inimigos? A que distancia se acham?»«Pouco depois do amanhecer devem ter descido os ultimos outeiros do Vinnio e quando o sol brilhar em todo o seu esplendor poderão pisar o solo, até hoje livre, do valle de Covadonga. Os pastores viram os nossos cavalleiros transpôrem o Sallia: viram despenhar-se o roble, e os infiéis recuarem espantados. Mas, esquadrões após esquadrões desciam das montanhas, e dentro em breve na margem do rio não se descortinavam por grande espaço senão tropeis d'arabes. Ao pôr do sol ainda as gargantas das serranias golfavam torrentes de infiéis, e as selvas retumbavam com os golpes de machado. Antes de anoitecer, uma ponte espaçosa estava lançada sobre o Sallia n'um sitio menos profundo, e os inimigos começavam a atravessá-la. Entre os primeiros que passaram áquem, asseguram os zagaes terem visto muitos cavalleiros que, pelos elmos e couraças, pelas cateias e frankisks, eram, sem duvida, godos.»«São as tiuphadias da Tingitania: são ossoldados réprobos do conde de Septum, que Deus conduz aos desertos das Asturias para que os abutres e javalís tenham lauto banquete de cadaveres.»Pelagio e o centenario voltaram-se: a voz que proferíra estas palavras soára atrás delles. Era o cavalleiro do escabello, que despertara ás primeiras palavras do capitão dos esculcas e que, firmados os cotovelos sobre os joelhos e com a cabeça entre os punhos, escutara todo o dialogo.«Que?!—exclamou o mancebo—ainda ha pouco havieis cerrado as palpebras, e já despertastes, Eurico?»«Duque de Cantabria, desde muito que o somno é sempre breve para mim: ha muito que nestas veias elle não derrama consolação nem frescor. Adormecido ou desperto, o meu espirito vê sempre ante si immutavel a realidade, e a realidade é medonha. Oxalá podesse esta alma dormir!»«Bem o sei:—replicou o filho de Favila.—A imagem da patria, sancta e melancholica, se misturava sanguinolenta nos vossos sonhos do dormitar. Algumas palavras soltas que proferieis...»«Ah!—interrompeu o cavalleiro, pondo-se em pé rapidamente, com um gesto d'espanto.—Eufalava?! Eram tão extravagantes os meus sonhos!... Que palavras me ouvistes? Delirios, loucuras!... Dizei; não é assim?»E olhava inquieto para o mancebo, como se receiasse que um segredo importante lhe houvesse fugido dos labios.«As vossas palavras eram quasi inintelligiveis—respondeu Pelagio.—Perdida para sempre; para sempre!—Eis o que repetieis muitas vezes; e depois:—Não resta uma esperança!... Oh, tão formosa e gentil!... Homem infame, que tinhas em mais o ouro que a virtude e a gloria, maldicto sejas tu!—E então os dentes vos rangiam, e, entreabrindo os olhos, o vosso aspecto era terrivel! Pensaveis, por certo, na Hespanha, na formosa terra dos godos, e a indignação vos arrancava maldicções contra Oppas, e contra os que venderam pelo ouro dos arabes as aras de Christo e a liberdade de seus irmãos. Enganaram-vos, porém, os sonhos, cavalleiro! A esperança resta ainda, e a Hespanha não se perdeu para sempre! Vós mesmo agora o dissestes. Abundante cevo de cadaveres humanos vão ter os abutres e os javalís das montanhas.»«Tendes razão!—replicou o guerreiro,deixando-se cahir de novo sobre o escabello e voltando á postura anterior.—Os meus labios mentiram ao coração, se disseram que para a Hespanha não havia esperança. Mas a mentir não tornarão elles, porque estes olhos só hão-de cerrar-se, já agora, em somno bem profundo, no qual não haja sonhar! Depois dos combates é que se dorme bem placidamente! É então que eu dormirei.»Era sinistro e lugubre e, todavia, tranquillo o modo com que elle o dizia. Pelagio, preoccupado pelas novas que o centenario trouxera, não reparou no sorriso doloroso que enrugava as faces de Eurico e, voltando-se para Vellido, proseguiu:«Oh! Abdulaziz busca a ultima guarida dos christãos,os ultimos aripennes de terra livreda Hespanha: persegue-nos como a besta-feras?... Pois bem! Vai, e dize aos nossos cavalleiros que antes de romper a manhan estejam a cavallo com a lança em punho promptos a marcharem para a entrada do valle. Os fundeiros e mais buccellarios de pé que se preparem para subir aos pincaros sobranceiros por ambos os lados do arraial. Dize-lhes, tambem, a uns e a outros, que sem demora eu serei com elles.»O centenario saiu.Pelagio chegou-se então aos que dormiam e, despertando-os um a um, fe-los approximar da boca da gruta:«Vedes vós a estrella matutina que empallidece?—disse, apontando para um breve espaço do firmamento, onde, atravez do portal irregular, se via fulgir o planeta Venus.—Não tarda muito que ella desappareça mergulhada na vermelhidão da aurora. Essa vermelhidão tingirá em breve o céu, como o sangue ha-de hoje tingir a terra: mas confio em Deus que, tambem, como após ella ha-de surgir o sol envolto no seu fulgor glorioso, assim a cruz e o nome dos godos se alevantarão triumphantes, após o sangue vertido por esses dous objectos sanctos e queridos, que nos tem alimentado a energia da alma no meio dos trabalhos e perigos. Guerreiros! os arabes seguiram as vossas pisadas. Abdulaziz e Juliano, um insensato e um renegado, ousaram approximar-se ao antro dos leões d'Hespanha, e os leões hão-de despedaçá-los. O céu condemnou-os: diz-me íntima voz que elle os condemnou, inspirando-me um estratagema a que os infiéis não poderão resistir.»No gesto de Pelagio, ao proferir estas palavras, estava estampada a expressão da confiança,do esforço e do enthusiasmo; daquelle enthusiasmo que elle sabía communicar aos que o ouviam e que, na situação quasi desesperada em que se achavam os foragidos das Asturias, fizera com que lhe cedessem voluntariamente o mando supremo os mais velhos e experimentados guerreiros.Pelagio expôs em breves palavras os seus desenhos para obter dos arabes um triumpho completo. O caminho que seguiam devia forçosamente trazê-los ás gargantas das serras. Collocados na entrada do valle, uma parte dos cavalleiros offerecer-lhes-hiam debil resistencia, cedendo pouco a pouco e retirando-se para o topo daquella especie de caldeira cortada nas montanhas: apenas ahi chegados, abandonando os ginetes, precipitar-se-hiam para a caverna, aonde já se teriam acolhido as mulheres, creanças e velhos dispersos pelas tendas do campo, e em cujo estreito e escarpado portal poucos pelejadores bastavam para resistir á multidão dos inimigos. Então o grosso dos cavalleiros, em cilada nas selvas que se dilatavam para as alturas, á esquerda das gargantas do valle, acommette-los-hiam pelas costas, emquanto os buccellarios, sumidos pelas penedias, lá no alto dos barrocaes que formavam comoum muro de ambos os lados do arraial, fariam chover sobre os infiéis as armas de arremesso, sem que a estes fosse possivel repelli-los, ignorando os caminhos que conduziam áquelles logares, na apparencia só accessiveis ás aguias e aos abutres, que alli tinham, de feito, a sua guarida solitaria.«Mas a vós, cavalleiros—concluia Pelagio—que provastes extremos de esforço na correria a que devo a salvação de minha pobre irman, a vós pertence o acabar a victoria que o Senhor nos vai dar. Ha mais de um anno que as nossas mãos se tem callejado a alluir os penhascos que coroam o tecto desta caverna; ha mais de um anno que raro dia se passa sem que o suor das nossas frontes os humedeça, ao tombarmo-los lentamente para a borda do despenhadeiro que se eleva a prumo sobre o ádito deste recincto. Ahi, acompanhados dos meus robustos cantabros e dos selvagens do Herminio, será o vosso pelejar: ahi, quando os inimigos, apinhados ante aquelle portal, se arremessarem contra os guerreiros que o hão-de defender; quando as trombetas dos que os ferirem pelas costas soarem uma toada de morte, e os invisiveis buccellarios fizerem chover sobre os infiéis os tiros de funda, as settas e os dardos,cumpre que esses rochedos que, lá no cimo, parecem embebidos na penedia, cáiam rapidamente e esmaguem os esquadrões cerrados dos inimigos da Hespanha. Pelo caminho talhado na rocha sobre as nascentes subterraneas do Deva, ireis assentar-vos no cume do Auseba, e o anjo do exterminio pairará juncto de vós: sereis a intelligencia que guie o duro braço dos cantabros e dos lusitanos para lhes dirigir os golpes, para os reter quando, rareiados, confundidos, esmagados os troços da serpente maldicta que ousa colleiar juncto de Covadonga, nós podermos arremessar-nos ao meio delles e fazer cahir sobre a cabeça dos pagãos os golpes dos nossos frankisks, não menos destruidores que os rochedos despenhados.«Como assim?!—replicou Sancion, que por vezes estivera a ponto d'interromper o mancebo.—Nós, próceres e gardingos, nós que meneiamos a facha e a espada; nós que trajamos o ferro, combateremos, como os servos e vís, de longe e sem risco? Nós, que por tantas milhas através das serras démos as costas aos infiéis, não poderemos, embebendo-lhes as espadas no peito, dizer-lhes emfim:—Eis-nos aqui?...—Pelagio, isso é impossivel!»«Impossivel!—repetiram todos os outros cavalleiros apinhados ao redor de Sancion.«Impossivel é—interrompeu o duque de Cantabria com gesto severo—que haja guerreiros christãos que recusem obedecer-me, no momento em que se tracta, não de ambições de gloria, mas da redempção da Hespanha. Cavalleiros, o esforço de vossos corações vos engana! Exhaustos pela correria da proxima noite, os braços vos desmentiriam o animo, e eu não consentirei jámais um sacrificio inutil, quando de outro modo podeis contribuir para salvarmos as Asturias. Gutislo!—clamou elle approximando-se da boca da caverna—dize aos teus irmãos do Herminio que venham aqui e ao quingentario da minha tiuphadia que vos siga com os soldados cantabros. Sancion, Gudesteu, Astrimiro, Énecon, vós todos que me cercaes, eis alli o vosso caminho! Parti.»E apontava para um lado da gruta, onde quem chegava ao perto via, lá em cima, o céu estrellado, por uma especie de claraboia natural, e, quasi debaixo dos pés, um como sorvedouro escuro, em cujas profundezas se percebia o ruído das nascentes do Deva. Na circumferencia daquelle abysmo, desde o chão da caverna, os foragidos, aproveitando as escabrosidadesdas paredes circulares, tinham formado uma escada tosca, ora cavada na pedra, ora firmada sobre troncos de arvores fixos nas fendas e cavidades da rocha, e que, lançada em espiral, saía perto do cimo calvo do Auseba. Assim, quando o valle fosse occupado dos sarracenos, os christãos poderiam defender-se por largo tempo, obtendo por esse caminho occulto os soccorros dos montanheses.Entre os cavalleiros a quem Pelagio dirigíra aquellas palavras houve alguns instantes de hesitação, e um murmurio de descontentamento; mas, por fim, Sancion, pegando em um dos fachos, encaminhou-se para a escada subterranea, e os outros seguiram-no. Os quasi selvagens filhos do Munda, vestidos de pelles de alimarias, e os cantabros, cujas feições e trajos tambem revelavam a sua origem celtica, não tardaram a entrar na caverna. Pelagio então lhes ordenou obedecessem aos guerreiros que os haviam precedido, e em breve o som das passadas daquelle tropel desordenado, alongando-se pelo abysmo, morreu em silencio total.Eurico parecia indifferente ao que se passava ao pé delle, assentado no escabello e com os olhos cravados no cepo candente quese consumia no afumado lar. Pelagio voltou-se para elle, e disse-lhe:«Vós, Eurico, ficareis aqui: vós que salvastes minha irman, sereis o seu guardador. Quem melhor vigiaria por Hermengarda do que esse homem que nella tem um testemunho perenne do mais indizivel esforço, da mais pura e generosa lealdade? Desejaria ver juncto de mim no combate o melhor guerreiro da Hespanha: ter-vo-lo-hia, até, pedido quando o mysterio em que vos involvieis nos fazia suspeitar a todos que vós, o cavalleiro negro, ereis um ente privilegiado e não um mortal como nós. Agora, porém, depois que no trance horroroso das margens do Sallia nos revelastes quem sois, quando, resolvido a morrer, pedieis apenas algumas lagrymas para a vossa memoria áquelles que vos sobreviviam, pedir-vos-hei eu, tambem, que não queiraes encontrar o primeiro impeto dos sarracenos. Se na defensão desta nossa triste morada, aonde cumpre attrahi-los, for necessario o auxilio do vencedor dos vasconios, do mais illustre dos tiuphados de Witiza, ou se a colera de Deus ainda não está satisfeita, e devem hoje perecer os ultimos homens livres da Hespanha, vireis vós morrer comnosco. Entretanto, continuae aser o anjo da guarda da pobre filha de Favila. Ella parece mais tranquilla, e o monge Bacchiario, em cuja sciencia tem achado allivio tantos de nossos irmãos, recommendou o repouso como o melhor remedio para a febre que a devora. Retardarei quanto podér o instante de se acolherem aqui as mulheres, as creanças e os velhos inuteis para o combate. Fazei, entretanto, que nestes logares reine profundo silencio.»Silencio guardava o cavalleiro: no seu olhar incerto e scintillante descobria-se que lá, naquella alma, tumultuavam paixões violentas e oppostas. Não respondeu; nem Pelagio lhe dera para isso tempo. Crendo ler no seu gesto perturbado a mesma repugnancia que tinham mostrado os outros guerreiros em não assistir ao primeiro recontro dos infiéis, o duque de Cantabria atravessou apressado a boca da gruta e desceu a senda tortuosa que conduzia ao fundo do valle. D'ahi a pouco, sentiu-se o galopar de um cavallo á rédea solta, que se confundiu, por fim, no sussurro longinquo do arraial que se agitava, preparando-se para o temeroso dia que pouco tardaria a nascer.Eurico estava, emfim, só.XVIIIIMPOSSIVEL!Nada neste mundo me agita o seio, senão o teu amor.Lenda deS. Pedro Confessor—9.Apenas Pelagio transpôs o escuro portal da gruta, Eurico alevantou-se. Aspirava com ancia, como se aquelle ambiente tepido não bastasse a saciá-lo. O desgraçado resumia n'um pensamento devorador, n'uma synthese atroz, o seu longo e doloroso passado e o seu torvo e irremediavel futuro. Como voltaraáquelle logar? Como, sem lhe vergarem os joelhos, tinha elle descido das alturas do Vinnio com Hermengarda nos braços? Que tempo durara essa carreira deliciosa e ao mesmo tempo infernal? Não o sabía. Imagens confusas de tudo isso eram apenas o que lhe restava,—do sol, que pouco a pouco lhe viera alumiar os passos, dos ribeiros que vadeiara, das penedias agras, dos recostos dos montes, das selvas que recuavam para trás delle, dos cabeços negros que, ás vezes, lhe parecera debruçarem-se no cimo dos despenhadeiros, como para o verem correr. No meio destas recordações incertas e materiaes outras passavam íntimas, ardentes, voluptuosas, negras, desesperadas. Por horas, que haviam sido para elle uma eternidade de ventura, o respirar daquella que amava como insensato se misturara com o seu alento; por horas sentira o ardor das faces della aquecer as suas, e o coração bater-lhe contra o seu coração. Depois, avultavam-lhe no espirito a imagem veneranda de Siseberto e o altar da sé d'Hispalis, juncto do qual vestira a pura stringe de sacerdote, e Carteia e o presbyterio e as noites de agonia volvidas nos ermos do Calpe. E tudo isto se contradizia, se repellia, se condemnava, o amor pelo sacerdocio,o sacerdocio pelo amor, o futuro pelo passado; e aquella alma, dilacerada no combate destes pensamentos, quasi cedia ao peso de tanta amargura.Eurico deu alguns passos e encostou-se á boca da gruta; porque os membros exhaustos lhe fraqueiavam, apesar de que nem um momento o abandonasse a força da sua alma energica. A brisa frigidissima da madrugada consolava-o como ao febricitante a aragem de um sol-posto do outono. A seus pés estavam as trevas do valle, sobre a sua cabeça as solidões profundas e serenas do céu semeiado dos pontos rutilantes das estrellas e mal desbotado ao occidente pela ultima claridade da lua minguante que desapparecia. Era a imagem da sua vida. Serena e esperançosa, como o crepusculo do luar fugitivo, lhe fora a juventude. Desde que um amor desditoso o fizera alevantar uma barreira entre si e o ruído do mundo; desde que se votara ás solemnes tristezas da soledade e a derramar beneficios e consolações sobre a cabeça dos miseraveis e humildes; pela alta noite do seu viver muitas vezes fulgurara uma luz de alegria, como esses astros que brilham a espaços nos abysmos do firmamento: lá, ao menos, havia instantes em que se esqueciado seu destino. Mas, depois que o phrenesi das batalhas o arrastara; depois que trocara as harmonias das tempestades do Calpe e o rugido das vagas do Estreito pelo gemer de moribundos nos combates e pelo retinir dos golpes, nunca mais descera um raio de cima a alumiar-lhe o espirito. O seu presente e o seu porvir eram, como esse valle, um precipicio sem fundo, indelineavel, tenebroso e maldicto.E pelo céu tão placido e melancholico; pelo céu, que elle ás vezes se punha a contemplar ás horas mortas no pobre presbyterio de Carteia ou assentado em algum promontorio, a sua imaginação voou até os desvios do sul, e as lagrymas de saudade começaram a rolar-lhe mansamente pelas faces. O desventurado tinha saudades das tristezas do ermo, porque já não podia ter desejos dos contentamentos humanos.Engolfado naquellas cogitações dolorosas, o guerreiro conservou-se por algum tempo immovel e com os olhos cravados nos astros scintillantes, que pareciam sorrir-lhe e chamá-lo para o seio immenso do Senhor. As lagrymas correram-lhe então mais abundantes, e o coração parecia dilatar-se-lhe com o pensamento da morte. Insensivelmente ajoelhoue estendeu as mãos para o firmamento: os seus labios murmuravam com cicío quasi imperceptivel. Era a oração d'alma, férvida, procellosa, que os agitava: era essa oração que todos nós sabemos no momento de suprema agonia e que nenhumas palavras, nenhuma escriptura poderiam representar; oração que é um mysterio entre Deus e o homem e que nem os anjos comprehendem; gemido energico de todas as miserias terrenas, cuja intensidade só a providencia, que as accumula ou dissipa, sabe pesar nas balanças da justiça e da piedade divinas.A morte; esta idéa, tremenda, indifferente ou formosa, segundo a vida é risonha, pallida ou negra, veio suavisar o martyrio daquella alma attribulada, como em estio ardente as grossas aguas da trovoada refrigeram a terra, que estûa sob os raios aprumados do sol. Tinha-a buscado; buscado com a placidez horrivel da desesperança; como um remedio de cuja efficacia a consciencia da immortalidade o fazia duvidar. Sería não mais do que ir deitar-se em leito de dores eternas? Talvez: mas a mudança podia ser refrigerio: tanto bastava. A morte parecia, comtudo, fugir delle para que nem este ultimo desejo se lhe cumprisse. Houve um instanteem que lhe occorreu o pensamento de subir ao pinaculo escarpado do Auseba e despenhar-se no valle. Refugiu d'esta idéa, porque era covarde. Eurico, o sacerdote soldado, não devia fenecer impia e vilmente; devia depôr o peso intoleravel da vida no campo das batalhas pelejadas em nome da cruz e da Hespanha. E no recontro daquelle dia, uma voz íntima lhe murmurava que o havia de obter.Este anhelar pela morte era uma bem triste cubiça! E quando se lembrava de que essa mulher que ahi jazia a poucos passos delle; essa mulher, em cuja adoração concentrara todos os affectos dos mais formosos dias da vida; cuja imagem sonhada nas solidões do Calpe, desenhada de contínuo diante dos olhos da sua alma, gravada como um sello de saudade e de amargura em todas as suas cogitações; essa mulher que, pouco havia, por horas de delicioso delirio, apertara contra o peito, e o podera, outr'ora, tornar o mais feliz dos homens; quando se lembrava de que sobre isso tudo elle deixara cahir a campa de bronze do sacerdocio, que ninguem podia erguer, o desgraçado sentia estalarem-lhe uma a uma todas as fibras do coração, e fugir-lhe do seio um grito semelhante ao que rebenta dos labios do condemnadoao supplicio do potro, no primeiro movimento da mão pesada do algoz.E, como se quizesse ainda mais saciar-se de dor, encaminhou-se para o lado onde Hermengarda repousava. Ao clarão da tocha que espargia uma luz mortiça, o guerreiro contemplou-a naquelle inquieto dormir. Era bella; mais bella que nos tempos da primeira mocidade! O seu gesto angelico, desbotado pela pallidez, emmagrecido pelos pesares e terrores, ganhara em expressão, em reflexo dos íntimos pensamentos o que perdera em viço e em toques d'innocencia. Bonina desabrochada nos campos da vida, brilhara com todas as pompas do seu vecejar á luz da manhan; o ardor intenso do meio-dia a fizera pender; a viração da tarde lhe traria, talvez, ainda frescor e viveza; mas a sua fragrancia perdia-se nas auras que passavam; nas suas côres harmoniosas revia-se, apenas, o céu! Aquella alma fugia solitaria pela terra n'um viver incompleto e volveria aos abysmos da creação sem conhecer o mais profundo e energico dos affectos humanos, o amor, que une dous espiritos como dous fragmentos de um todo, os quaes a providencia separou ao lançá-los na terra, e que devem buscar-se, unir-se, completar-se, até irem, depois da morte,formar, talvez, uma só existencia de anjo no seio de Deus.Mas quando Eurico se lembrou de que, porventura, isto era um sonho; de que podia ser que essa alma não passasse na vida tão vazia e solitaria como elle julgava, e que esse coração que poucas horas antes pulsára tão perto do seu batia, acaso, por outrem, sentiu o suor frio manar-lhe da fronte. A tocha baça e funebre que mal alumiava a irman de Pelagio pareceu-lhe retincta em sangue; e, como o cedro arrancado por tufão repentino, foi encostar-se á rocha lateral, cuja superficie irregular lhe escondia Hermengarda. O vê-la despertara todo o delirio do seu primeiro amor, e aquella idéa intoleravel, que tantas vezes o atormentara nas solidões do Calpe, espremia-lhe agora o coração com redobrado furor.E assim ficou por alguns momentos mudo, anhelante, anniquilado. Quem era, onde estava, porque viera alli, não o saberia dizer: os pensamentos revolviam-se-lhe na mente, como as ondas n'um sorvedouro maritimo, tempestuosos, rapidos e indistinctos.De repente, um ai comprimido veio acordá-lo daquella especie de torpor doloroso. Estremeceu. Era a voz de Hermengarda. Approximou-semanso e manso, de modo que ella o não visse. Assentada sobre o leito, demudado o gesto, e com o susto pintado no olhar, a irman de Pelagio estendia os braços, voltando o rosto para o lado, como quem tentava affastar visão medonha. Pelas suas palavras incoherentes e truncadas, o guerreiro conheceu que um sonho máu a agitava, até que, inteiramente desperta, essas palavras confusas se começaram a coordenar em periodos intelligiveis. O pulsar do coração d'Eurico redobrava de violencia, ao passo que o seu respirar se ia tornando cada vez mais imperceptivel.«Sempre elle! sempre esta visão de remorso!—murmurou Hermengarda.—Meu pae, meu pae! Perdoe-te o céu o orgulho com que repelliste o gardingo... Perdoe-te o céu o haveres-me obrigado a sacrificar aos pés desse orgulho o sentimento de amor que se alevantara neste coração. Nós ambos assassinámos o desgraçado; mas a punição cahiu inteira sobre mim! Embora. Eu não te amaldicçoarei, oh meu pae! A tua filha nunca te accusará ante o supremo juiz.»Depois, ficou por alguns instantes calada, com os olhos fitos no rochedo fronteiro, em cuja face escabrosa as sombras pareciam dançare agitar-se á luz da tocha que ardia a curta distancia, e que a aragem movia. Crera perceber perto de si um gemido abafado, cortando fugitivo o grande silencio nocturno.«Vai-te, vai-te!—proseguiu ella.—Que posso eu fazer-te, infeliz?... Bem longo e atroz tem sido o meu martyrio, porque ainda não achei no mundo alma com quem me fosse dado repartir o calis do infortunio; a quem houvesse de contar os tormentos que ha tanto tempo me varreram dos labios o sorrir. Se vivesses, sería tua; tua esposa, tua escrava!... mas a benção nupcial não póde descer entre o tumulo e a vida. Favila!... meu pae!... diante do throno do Senhor, onde são iguaes o duque e o gardingo, jura-lhe que tua filha repelliu o seu amor por obedecer-te: dize-lhe que o pranto correu destes olhos ao ouvir a nova da sua morte. Oh, dize-lhe, dize-lhe que não fui eu que o assassinei!»E aqui, deixando pender a cabeça sobre o peito, pareceu voltar ao sentimento da realidade; mas aquella especie de terror febril que lhe haviam gerado no espirito os trances, qual mais doloroso, por que successivamente passara, se tornou a apossar della. Favoreciam-no o logar, a hora, o silencio. Hermengarda alevantou de novo os olhos desvairadose, firmando-se no rochedo, tentava erguer-se.«Era Eurico!—murmurou ella.—Depois de dez annos, bem conheci a sua voz! Mais triste, só: triste, como tantas vezes a tenho ouvido nos meus sonhos de remorsos! Bem conheci o seu gesto! Mais pallido e carregado, só: pallido e carregado, como tantas vezes tem surgido do sepulchro para vir mudamente accusar-me, silencioso e quedo ante mim, por longas e não dormidas noites. Era elle!... um espectro cujo coração eu sentia bater, cujos braços me apertaram por cima do abysmo revolto, através da floresta, pelos recostos das serranias. Dos seus olhos cahiu sobre o meu seio uma lagryma! As lagrymas dos mortos queimam... devoram a vida; porque bem sinto a morte chamar-me...»Tinha-se posto de joelhos e, com as mãos estendidas, parecia implorar piedade.«Morrer! tão cedo! Quando apenas tórno a vêr meu irmão?!... Pelagio! Pelagio! porque me deixaste? Vem despedir-te da tua pobre Hermengarda. Eurico a espera para o noivado do sepulchro, e eu não posso tardar.»E desvairada, poz-se em pé, chamando por Pelagio com voz suffocada. Apenas, porém, dera os primeiros passos, soltou umgemido agudo e ficou immovel. Diante della, realidade ou phantasma, estava a origem dos seus terrores secretos. Era o gardingo que a amara, que ella cria morto, e cuja imagem vingadora vinha mais uma vez atormentá-la. O vulto cravara nella um olhar ardente, que a fascinava. Sorriso doloroso lhe pousava nos labios. Estendeu o braço, segurando a mão de Hermengarda, que pretendeu recuar e não pôde. Como petrificada, parecia que os pés se lhe haviam enraizado no chão da caverna. Aquella mão, que segurava a sua escaldando de febre, era gelada como a de um morto. A vida do gardingo tinha-se concentrado toda no coração, que lhe despedaçavam duas idéas, horriveis porque associadas: o amor correspondido e tornado ao mesmo tempo maldicto, monstruoso, impossivel por uma palavra fatal, que lá estava escripta em caracteres de fogo, e que elle via, escutava, sentia—o sacerdocio!«Oh, Deus t'o pague!—disse Eurico em voz baixa e lenta—que lançaste na tão longa noite da minha alma um raio fugitivo de luz, luz sancta e pura de contentamento e felicidade!... Ha dez annos que não me alumia, e ella é tão bella, ainda quando passa como o relampago!»—E, depois de estar caladoalguns instantes, com um gesto de íntimo e angustiado cogitar, proseguiu:—Não, Hermengarda, não! Os vermes ainda não receberam a parte da sua herança que eu lhes retenho. Morri; porém não para isso que, na linguagem mentirosa do mundo, se chama a vida. Durante annos dei-a a devorar á desesperação, e a desesperação não pôde consummi-la. Pendurei-a alta noite, pela espessura das trevas, nas rochas escarpadas do mar do occidente, á beira dos precipicios, e o mar e os precipicios não quizeram tragá-la. Atirei-a á torrente impetuosa das batalhas, e o ferro embotou-se n'ella. O céu guardava-me para te ouvir palavras de amor e arrependimento; essas palavras de ineffavel doçura que nunca esperei escutar. É que na minha fronte está gravada a maldicção de cima: é que ainda me faltava o derradeiro martyrio... Ao menos posso acabar o teu: o pensá-lo é um refrigerio. Hermengarda, eu vivo ainda! Vivi para te salvar da deshonra, e todo o meu passado esqueci-o. Só uma cousa não, porque me subverteu para sempre o futuro; porque, depois de passageira alegria, me recalcou mais violentamente esperanças que ousaram um momento agitar-se no fundo desta alma, tranquilla na desesperança. Agora,se ha repouso debaixo da campa, posso ir buscar lá meu repouso. Mas dize-me; oh, dize-me, ainda outra vez, que amas Eurico! Repete diante do que respira aquillo que proferiste diante da sombra creada pelo teu terror. Essas palavras e o morrer!... O teu amor e a morte; eis para mim a unica ventura possivel, mas que não tem igual na terra.E Hermengarda sentia ao contacto daquella mão fria e trémula apertando a sua, no accento dessas phrases, tempestuosas como o oceano, tristes como céu procelloso, que lá, no peito do vulto que tinha ante si, havia um coração de homem vivo, onde chaga antiga e cancerosa vertia ainda sangue. A especie de pesadelo em que se debatia desapparecera com a realidade. O repentino impulso da sua alma foi lançar-se nos braços de Eurico. Fora elle o objecto do seu quasi infantil e unico amor, amor condemnado ao silencio antes do primeiro suspiro, antes do primeiro volver d'olhos; era elle o cavalleiro negro, cujo nome se tornara conhecido e glorioso por todos os angulos da Hespanha; era elle, finalmente, o homem que duas vezes acabava de salva-la. Reteve-a, todavia, o pudor e, talvez, aquella mysteriosa tristeza que escurecia as idéas desordenadasvindas de tropel aos labios do guerreiro. Procurando asserenar a violencia dos affectos que a agitavam, Hermengarda respondeu com voz fraca e tremula:«Bemdicta a mão do Senhor, que te salvou, Eurico, leal e nobre entre os mais nobres e leaes filhos dos godos! Graças á piedade do céu, que por meio de tantas desventuras e perigos nos uniu nos paços que restam ao filho do duque de Cantabria! No devaneiar do terror revelei-te, sem querer, o segredo do meu coração: a sua historia, ouviste-a. Perdoa á memoria de meu pae, e, se de mim depende a tua felicidade, as palavras que me saíram involuntariamente da boca te asseguram que serás feliz. O orgulho que a ambos nos fez desgraçados não o herdou Pelagio. Que o herdasse, mal caberia n'estas brenhas, na caverna dos fugitivos. E depois, que nome ha hoje na Hespanha mais illustre que o do cavalleiro negro, o nome de Eurico? Morreres?!... Oh, não? Salvaste Hermengarda do opprobrio: se nunca te houvera amado, ella te diria como te diz hoje: Sou tua, Eurico!»A filha de Favila, cujo profundo e energico sentir mal poderia comprehender quem só a houvera visto no momento em que timidarecuava diante do perigo mais apparente que real das margens do Sallia, proferiu estas palavras com um tom de enthusiasmo, com uma expressão affectuosa tão íntima, que o guerreiro cahiu a seus pés. A ventura embargava-lhe a voz. O que lhe tumultuava no coração não tem nome na linguagem dos homens: era mais que a loucura. Com um movimento delirante, apertou contra os labios a mão da donzella. Queimavam! Depois de largo silencio, elle murmurou emfim:«Minha!... Quem ha na terra que possa roubar-m'a?... Annos de tormentos, fostes como um dia de bonança e deleite! Imagem que absorveste esta existencia inteira; anjo que me fazes surgir do meu inferno para o teu céu, tu foste que me salvaste a mim! Oh, como é bom ser feliz!... Tinha-me já esquecido!... Como o sol deve agora ser bello, serena a aragem da tarde, meigo o murmurar do ribeiro, viçosa a verdura do prado!... Tinha-me tambem esquecido! Tens razão, Hermengarda. Quero viver: o viver é delicioso; delicioso, porque será comtigo... ao pé de ti... a adorar-te sempre, sem me lembrar do que existe, além de ti, no universo. Vem, minha amante, minha esposa! vem jurarque me pertences, perante o altar e aos pés do sacerdote...»A esta palavra fatal, um grito semelhante ao de homem ferido de morte, rompeu agudo e rapido do seio do cavalleiro. A mão d'Eurico abandonou a mão d'Hermengarda, e os seus olhos brilharam com fulgor infernal. Recuou, affastando de si a irman de Pelagio, sobresaltada por aquelle gesto subitamente demudado, por aquelle olhar ardente e vago. Ella não podia comprehender a causa de semelhante mudança... Com o braço esquerdo estendido, o guerreiro parecia querer arredá-la de si, emquanto com a mão confrangida apertava a fronte, como se buscasse esmagar um pensamento atroz que lhe surgia lá dentro.«Affasta-te, mulher, que o teu amor me perdeu!—murmurou emfim.—Ha entre nós um abysmo: tu o abriste; eu precipitei-me nelle. Um crime, só um crime, póde unir-nos...» Fez uma pausa, e proseguiu:—E porque não se commetterá elle? Talvez obtivessemos perdão!... Perdão? Oh meu Deus, não o terias para o sacrilego... não!—Affasta-te, Hermengarda. Diante de ti tens um desgraçado, um desgraçado que fizeste!»A donzella uniu as mãos lavada em lagrymas, e exclamou:«Eurico! Eurico! enlouqueceste?... Por piedade, explica-me este horroroso mysterio! Porque me repelles? que te fiz eu... eu que te amo, que sou tua, tua para sempre?!»Mas os olhos scintillantes do cavalleiro tinham amortecido: derribado na lucta que travara com o destino, o seu combater de tantos annos terminava, finalmente. Um sorriso insensato substituiu-lhe no rosto as contracções habituaes de melancholia. Affigurava-se-lhe que em roda delle balouçava a caverna, e a luz fumosa da tocha que ardia segura no braço de ferro cravado na pedra parecia-lhe faiscar em fitas cor de sangue. Esvaído, vacillante, assentou-se n'um fragmento da rocha e, estendendo a mão para Hermengarda, pegou de novo na della e, com um sorriso indizivel, continuou em voz submissa:«Dez annos!... Sabes tu, Hermengarda, o que é o passar dez annos amarrado ao proprio cadaver? Sabes tu o que são mil e mil noites consummidas a espreitar em horisonte illimitado a estrella polar da esperança e, quando, no fim, os olhos cansados e gastos se vão cerrar na morte, ver essa estrella reluzirum instante e, depois, desfechar do céu nas profundezas do nada? Sabes o que é caminhar sobre silvados pelo caminho da vida e achar ao cabo, em vez do marco milliario onde o peregrino dê treguas aos pés rasgados e sanguentos, a borda de um despenhadeiro, no qual é força precipitar-se? Sabes o que isto é? É a minha triste historia! Estrella momentanea que me illuminaste, cahiste no abysmo! Arbusto que me retiveste um instante, a minha mão desfalecida abandonou-te, e eu despenhei-me! Oh, quanto o meu fado foi negro!»Hermengarda contemplava-o com assombro e terror... Como o entenderia ella? Eurico proseguiu:«Olha tu! Ao pôr do sol, no estio, ía eu assentar-me sobre um cerro maritimo, alongando a vista pelo oceano tranquillo, e parecia-me divisar-te desenhada na atmosphera a sorrir-me. Então, as lagrymas de felicidade começavam a brotar-me dos olhos: depois, lembrava-me de quem eu era, e essas lagrymas condensavam-se a meio das faces e queimavam como se fossem de metal candente. A horas mortas, correndo pelos desvios, quando o vento açoutava os arbustos enfezados da montanha, cada sombra que semeneiava ao luar, sobre o chão pardacento, era a tua sombra que eu via. Outras noites, em que mais tranquillo podia, a sós comigo, engolfar-me nos pensamentos de Deus, a tua imagem vinha interpôr-se entre mim e a lampada mortiça que me alumiava, e o hymno do Presbytero de Carteia, que devia, talvez, escrever-se nos hymnarios das cathedraes da Hespanha, ficava incompleto ou terminava por uma blasphemia; porque, tambem, te via sorrir, mas a outrem, mas a homem feliz com o teu amor, e eu tinha então sede... sede de sangue... Era uma lenta agonia! E sempre tu ante mim: nas solidões das brenhas, na immensidade das aguas, no silencio do presbyterio, nos raios esplendidos do sol, no reflexo pallido da lua e, até, na hostia do sacrificio... sempre tu!... e sempre para mim impossivel!»«Mas deliras!...—interrompeu Hermengarda.—Que tens tu com o Presbytero de Carteia; com esse illustre sacerdote, cujos hymnos sacros reboavam ainda ha pouco pelos templos da Hespanha, e a quem, de certo, oferro impio dos arabesnão respeitou? A tua gloria é outra e mais bella; a gloria de seres o vencedor dos vencedores da cruz. A sua era sancta e pacifica. Deus chamou-opara si, e tu vives para ser meu. Ninguem existe hoje no mundo que possa embaraçá-lo. Esquece o passado; esquece-o por amor de mim!»O cavalleiro sorriu de novo dolorosamente, e disse-lhe:«Que tenho eu com o Presbytero de Carteia?!... Hermengarda, lembras-te do seu nome?»Os labios da donzella fizeram-se brancos ao ouvir esta pergunta: um pensamento monstruoso e incrivel lhe passara pelo espirito. Com voz affogada e quasi imperceptivel replicou:«Era.... era o teu, Eurico!... Mas que póde haver commum entre o guerreiro e o sacerdote? Que importa um nome... uma palavra?.... que...»O cavalleiro pôs-se em pé e, deixando descahir os braços e pender o rosto sobre o peito, murmurou:«Ha commum, que o guerreiro e o presbytero são um desgraçado só!... Importa, que esse desgraçado é neste momento um sacerdote sacrilego. O pastor de Carteia...»«Oh não acabes!—interrompeu Hermengarda, com indizivel afflicção.«Era Eurico, o gardingo!»Proferindo estas palavras, que explicavam o mysterio da sua existencia, o cavalleiro negro viu cahir como fulminada a filha de Favila. E elle não se moveu. A sua imaginação tresvariada affigurou-lhe perto de si o vulto suave e triste do veneravel Siseberto, que estendia a mão mirrada entre ambos, como para os dividir em nome da religião, que os devia salvar, e do sepulchro, a quem pertenciam.Neste momento uma grande multidão de creanças, de velhos, de mulheres penetraram na caverna com gritos e chóros de terror. No coração das Asturias, entre alcantis intractaveis, no fundo de um vasto deserto, repetia-se o grito que mil vezes tinha soado na devastada Hespanha: «Os arabes!»Amanhecera.Aquelle sobresalto, tão impensado, revocou o cavalleiro ao sentimento da sua situação. Ajoelhou juncto de Hermengarda e, pegando-lhe na mão já fria, beijou-lh'a. Nas raias da vida, aquelle beijo, primeiro e ultimo, era purificado pelo halito da morte que se approximava: era innocente e sancto, como o de dous cherubins ao dizer-lhes o Creador: «existí!»Depois ergueu-se, vestiu a sua negra armadura,cingiu a espada, lançou mão do frankisk e, rompendo por entre o tropel, que fizera silencio ao vê-lo, desappareceu através da porta da gruta, cujas rochas tingia cor de sangue a dourada vermelhidão da aurora.XIXCONCLUSÃO

Desprezamos essa multidão de pagãos, e nenhum temor ha em nós.Sebast. de Salamanca—Chronicon.

Nada neste mundo me agita o seio, senão o teu amor.Lenda deS. Pedro Confessor—9.


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