LXXII

«Perdão!» exclamou ella, recahindo de joelhos.—E tu, Fanny, calcaste aos pés este respeito, este amor incomparavel, este coração...«Piedade!—Recalcaste-me como a féra impassivel que esmagou com as garras as primeiras flôres do campo. E agora... aqui me tens sem futuro, como um desgraçado que não pode amar alguem, como o ancião, que viu em roda de si, morrerem todos os seus. Tudo feneceu, tudo apodreceu em meu coração. Estou velho! tenho cem annos! vou morrer!{154}sou um sepulchro! Tu sabes de mais que estou sósinho no mundo...«Piedade! perdão!—exclamou Fanny, indo hallucinada, esbarrar nos moveis e nas paredes.—Não me digas que és desgraçado!—Oh! desgraçado! e não digo bem o que sou. A lingua não tem voz que o diga.Ingrata! Não te bastava ser senhora da minha alma, do meu coração, da minha vida; vens ainda tirar-me o que eu mais amava no mundo... a estima de ti... que me era mais que tu mesma!«Piedade! piedade!»—continuava ella exclamando.—Assassinaste-me a mocidade. Pois bem! ouxalá que nunca soffras o que eu estou soffrendo... Adoro-te, e horrorisas-me!Dito isto, quiz feril-a e abraçal-a ao mesmo tempo; mas cahi desfallecido: e, por noite, quando abri os olhos, e a procurei no quarto ás apalpadellas, não a encontrei.LXXIINo dia seguinte, senti-me saciado de vingança. Experimentava aquella especie de serenidade cruel, que segue as execuções supremas. Sentia-me satisfeito, em fim, como o juiz que tem em seu poder a irrecusavel prova do crime que puniu.{155}Já me não afligia o pensar n'ella. Não obstante, eu previa lucidamente os graves desgostos da sua vida.—Soffrerá longo tempo, e depois odiar-me-ha. Incadeada sob o jugo, debalde tentará soffrêl-o corajosamente. A resignação desdiz do caracter d'ella. Outro virá, mais tarde, substituir-me. Se a não amar, será despresado. Amando-a, repetir-se-hão immediatamente, e com as mesmas phrazes—identicas luctas, as mesmas perfidias, iguaes torturas. Emquanto viva, Fanny perseguirá fatalmente a sua chimera. O amor ideal que a arrasta não se dessipará mesmo nos gelos da idade; quando as rugas sobrevierem a provar-lhe que tudo é mudavel na terra, ella continuará a evocar o phantasma d'uma paixão que foi e será sempre o seu supplicio. Ha-de apartar-se da sociedade, como os soldados feridos no fogo de vinte pelejas. Como elles, afastada de tudo, saciada de tudo, tirará commoções para uma vida nova no mysterioso poema das suas remeniscencias. Os filhos, que adora, não a consolarão. Quem sabe se virão a desprezal-a?... Condemnada a amar por egoismo, não se fará feliz a si, nem a outrem. Impotente para o bem, ser-lhe-ha martyrio eterno o procural-o. Para a felicidade propria, faltar-lhe-ha sempre um vicio; para a felicidade alheia, faltar-lhe-ha sempre uma virtude. Tem coração de mais, e coragem de menos.Dest'arte, julgava eu, de longe, aquella mulher que eu, por ultimo conhecera, á custa da minha ventura. Não posso dizer que a lastimava. Com quanto me sentisse prostrado de fadiga, a irritação{156}surda, contra ella, era immensa. Como se annos e annos medeassem entre nós as suas barreiras, eu me sentia separado d'ella, mas ainda a sentia viver em mim. Era-me a memoria d'ella, como o ferrete aberto com ferro em braza. O estygma intalhado a fogo no coração, não podia eu, forçado do amor desvanecêl-o.LXXIIISe, porém, julgando-a, me não compadecia d'ella, era-me impossivel pensar em mim, sem padecer em todas as fibras do meu ser. Quanto amor eu tinha, quanta affeição filial, ternura piedosa, e veneração, exhalava-se de mim como vapores, e dissolvia-se em lagrimas amargas, que eu tragava, sobre a cruz onde a sorte immisericordiosa me cravára. Estorturava-se, este amor, como joven robusto que saboreou a vida e não quer morrer. A affeição de filho, que eu naturalmente lhe dera, por causa da differença de nossas idades; a piedosa ternura que ella me inspirava, como um bem suavissimo; a veneração, em summa, que lhe era a ella um incenso grato, isso tudo, o melhor de minha existencia, desfazia-se em meu coração, e evaporava-se lentamente em caricias de effluvios e perfumes. Qual viajor, surprehendido, ao despertar, nas steppes infinitas{157}da Asia, por um turbilhão fluctuando raso com o chão, tal eu me sentia perplexo nas minhas revoluções, prudencia, e coragem. Em redor de mim tudo se movia vagarosamente, derramando-se em fórmas confusas: fugia tudo; memorias queridas, votos superfluos, ternos desejos, pezares, aspirações, tudo se esvahia nas distancias do meu sonhar, e me deixava, sósinho, n'um grande espaço. E desse turbilhão nevoento de sensações, vontades, e habitos; densas oscillações impalpapeis de penas, prazeres, e esperanças, prolongadas até ao extremo limite que meus olhos viam, surdia emfim um phantasma enorme que subia, subia até ao céo, tristemente involvido em pallida mortalha. Este phantasma reconheci-o na amargura que tinha impresso na face assombrada, no atrophiamento da sua attitude, na sua mudez, no rir amargo que lhe circuitava os labios descorados. Ah! uma vez o tinha eu já visto crescer para mim, e me sentira estalejar com elle nas dobras de seu sudario. Vinte annos tinha eu. Foi quando perdi minha mãe, e da sepultura d'ella, revolvida de fresco, sahia e me aferrara nos braços a glacialSOLIDÃO.Eu chorava. Tudo estava em redor de mim fallando-me d'ella. Todo o mal que me fizera, esqueci-o. Mil vestigios deixára Fanny n'aquelle quarto que eu preparava amorosamente para recebel-a. N'aquelle tecto que lhe cobrira a cabeça, nos tapetes pisados por ella, nos moveis que tocaram suas roupas, em tudo me apparecia serena e consoladora. Aqui me abria os braços de veludo, a poltrona onde ella se assentava tantas vezes; ali a molle{158}pegada do seu sapato, no coxim em que ella descançava os pés; acolá, resequidas, nos vazos chinezes, desfolhando-se tristemente, as flôres que ella amava; além, as cortinas que ella tantas vezes levantava com sua mão timida; ali, se move ainda o pendulo do relogio, para o qual ella estava olhando sempre; aqui, o véo d'ella, aqui as cartas, seus dôces reflexos; além, o pente embalsamado com o perfume dos seus cabellos; e acolá, finalmente, frio e cerrado como um tumulo, o leito onde tantas vezes chorávamos.Agora, me assoberbava a memoria, tudo o que dissemos, pensamos, e esperamos. Como longinqua musica, trazida na viração do mar, soava-me nos ouvidos o cantar de suas palavras; como emanação de flôres que se evapora com o orvalhar das noites, deliciava-me o olfacto, o perfume de sua cutis olorosa; como bafejo de primavera, perpassavam-me nos labios os effluvios de seus beijos. Ardia-me a mão que ella tocara; ardia-me a fronte que ella afagara em seu seio; ardiam-me os olhos que ella adorara, a boca em que a sua apremara nas vertigens da paixão, o peito que ella duplicara com o seu peito. Oh! que prazer me era sorrir-lhe ao retrato, e remecher nas cartas d'ella! Affigurava-se-me ouvil-a ainda; esperal-a ainda, como nos dias passados; vêl-a chegar assustada, como a cerva dos bosques, a esconder-se em meus braços. Mas, ao mesmo tempo, não sei que vaga essencia se desprendia de mim em soluços e gemidos. Quebrantava-me uma tristeza profunda; uma lethargia sem nome paralisava todas as minhas idéas. Meditativo,{159}como póde sêl-o o homem no leito da morte, eu dizia commigo:—Acabou tudo! não nos tornaremos a vêr, nós, que tanto nos amamos!...LXXIVEra tamanha a minha tribulação, que eu receei succumbir á paixão. A imagem d'ella, entrava em todas as minhas meditações. Como não podia arrancal-a da memoria, fugi com ella, precipitadamente, sem voltar o rosto, como o incendiado que não quer ouvir os gritos de maldição sahidos d'entre as chammas accendidas por sua mão cruel. Parti, sem dizer onde ia, para partir, para me afastar. A minha mesma coragem me apavorava. Mas a memoria ia commigo, chorava commigo. Cançado um dia, da vista dos homens, deixei os caminhos trilhados, e intranhei-me, ao norte, nas areias que bordam a foz do Loire. Caminhei trinta horas sem parar. Ao anoitecer, apeei n'um deserto, e resolvi acabar ahi...Não queria porém, eu, que ahi dissessem que irreflectidamente me suicidara como um louco, ou como creança infraquecido na lucta. Apozentei-me, pois, aqui, para luctar contra mim mesmo, e vêr se a cura me póde ser ministrada por um hospede menos frivolo que a morte. Impuz-me o prazo d'um anno, para viver uma vida differente, só, meditativa,{160}austera. Estou resolvido a esperar até final. Algumas vezes, detesto-me, e todavia espero. Fio-me não sei de que. Amo, como nunca amei, a mulher que me reduzio a isto. Não a desprezo já. Absolvo-a. Eu teria feito o mesmo, se fosse ella, e affirmo que valem menos que ella, as que de outro modo se comportassem. Mas ha momentos em que a detesto, e me arrependo de a não ter esmagado. Assim, e incessantemente, vou d'um extremo de amor e piedade, ao outro extremo de furor e odio. Oh! amar! que supplicio!As forças da minha alma estão extinctas. Já me não pulsa o coração. Hoje principalmente, que dou fim aos traços do drama da minha vida, sinto a tentação terrivel de completal-o com um sanguinario epilogo.Mas, porque ha-de ser aqui, e não ha-de ser além ao pé d'ella? É porque me resta ainda o pudôr d'um ciume feroz, que não quer ser carpido. Qual besta-féra, que, ferida de morte, procura uma caverna onde morrer em paz, e esconder seus ossos; assim eu, se devo morrer, quero que seja n'um deserto, longe d'aquella que eu amei de mais.FIM

«Perdão!» exclamou ella, recahindo de joelhos.

—E tu, Fanny, calcaste aos pés este respeito, este amor incomparavel, este coração...

«Piedade!

—Recalcaste-me como a féra impassivel que esmagou com as garras as primeiras flôres do campo. E agora... aqui me tens sem futuro, como um desgraçado que não pode amar alguem, como o ancião, que viu em roda de si, morrerem todos os seus. Tudo feneceu, tudo apodreceu em meu coração. Estou velho! tenho cem annos! vou morrer!{154}sou um sepulchro! Tu sabes de mais que estou sósinho no mundo...

«Piedade! perdão!—exclamou Fanny, indo hallucinada, esbarrar nos moveis e nas paredes.—Não me digas que és desgraçado!

—Oh! desgraçado! e não digo bem o que sou. A lingua não tem voz que o diga.

Ingrata! Não te bastava ser senhora da minha alma, do meu coração, da minha vida; vens ainda tirar-me o que eu mais amava no mundo... a estima de ti... que me era mais que tu mesma!

«Piedade! piedade!»—continuava ella exclamando.

—Assassinaste-me a mocidade. Pois bem! ouxalá que nunca soffras o que eu estou soffrendo... Adoro-te, e horrorisas-me!

Dito isto, quiz feril-a e abraçal-a ao mesmo tempo; mas cahi desfallecido: e, por noite, quando abri os olhos, e a procurei no quarto ás apalpadellas, não a encontrei.

No dia seguinte, senti-me saciado de vingança. Experimentava aquella especie de serenidade cruel, que segue as execuções supremas. Sentia-me satisfeito, em fim, como o juiz que tem em seu poder a irrecusavel prova do crime que puniu.{155}

Já me não afligia o pensar n'ella. Não obstante, eu previa lucidamente os graves desgostos da sua vida.

—Soffrerá longo tempo, e depois odiar-me-ha. Incadeada sob o jugo, debalde tentará soffrêl-o corajosamente. A resignação desdiz do caracter d'ella. Outro virá, mais tarde, substituir-me. Se a não amar, será despresado. Amando-a, repetir-se-hão immediatamente, e com as mesmas phrazes—identicas luctas, as mesmas perfidias, iguaes torturas. Emquanto viva, Fanny perseguirá fatalmente a sua chimera. O amor ideal que a arrasta não se dessipará mesmo nos gelos da idade; quando as rugas sobrevierem a provar-lhe que tudo é mudavel na terra, ella continuará a evocar o phantasma d'uma paixão que foi e será sempre o seu supplicio. Ha-de apartar-se da sociedade, como os soldados feridos no fogo de vinte pelejas. Como elles, afastada de tudo, saciada de tudo, tirará commoções para uma vida nova no mysterioso poema das suas remeniscencias. Os filhos, que adora, não a consolarão. Quem sabe se virão a desprezal-a?... Condemnada a amar por egoismo, não se fará feliz a si, nem a outrem. Impotente para o bem, ser-lhe-ha martyrio eterno o procural-o. Para a felicidade propria, faltar-lhe-ha sempre um vicio; para a felicidade alheia, faltar-lhe-ha sempre uma virtude. Tem coração de mais, e coragem de menos.

Dest'arte, julgava eu, de longe, aquella mulher que eu, por ultimo conhecera, á custa da minha ventura. Não posso dizer que a lastimava. Com quanto me sentisse prostrado de fadiga, a irritação{156}surda, contra ella, era immensa. Como se annos e annos medeassem entre nós as suas barreiras, eu me sentia separado d'ella, mas ainda a sentia viver em mim. Era-me a memoria d'ella, como o ferrete aberto com ferro em braza. O estygma intalhado a fogo no coração, não podia eu, forçado do amor desvanecêl-o.

Se, porém, julgando-a, me não compadecia d'ella, era-me impossivel pensar em mim, sem padecer em todas as fibras do meu ser. Quanto amor eu tinha, quanta affeição filial, ternura piedosa, e veneração, exhalava-se de mim como vapores, e dissolvia-se em lagrimas amargas, que eu tragava, sobre a cruz onde a sorte immisericordiosa me cravára. Estorturava-se, este amor, como joven robusto que saboreou a vida e não quer morrer. A affeição de filho, que eu naturalmente lhe dera, por causa da differença de nossas idades; a piedosa ternura que ella me inspirava, como um bem suavissimo; a veneração, em summa, que lhe era a ella um incenso grato, isso tudo, o melhor de minha existencia, desfazia-se em meu coração, e evaporava-se lentamente em caricias de effluvios e perfumes. Qual viajor, surprehendido, ao despertar, nas steppes infinitas{157}da Asia, por um turbilhão fluctuando raso com o chão, tal eu me sentia perplexo nas minhas revoluções, prudencia, e coragem. Em redor de mim tudo se movia vagarosamente, derramando-se em fórmas confusas: fugia tudo; memorias queridas, votos superfluos, ternos desejos, pezares, aspirações, tudo se esvahia nas distancias do meu sonhar, e me deixava, sósinho, n'um grande espaço. E desse turbilhão nevoento de sensações, vontades, e habitos; densas oscillações impalpapeis de penas, prazeres, e esperanças, prolongadas até ao extremo limite que meus olhos viam, surdia emfim um phantasma enorme que subia, subia até ao céo, tristemente involvido em pallida mortalha. Este phantasma reconheci-o na amargura que tinha impresso na face assombrada, no atrophiamento da sua attitude, na sua mudez, no rir amargo que lhe circuitava os labios descorados. Ah! uma vez o tinha eu já visto crescer para mim, e me sentira estalejar com elle nas dobras de seu sudario. Vinte annos tinha eu. Foi quando perdi minha mãe, e da sepultura d'ella, revolvida de fresco, sahia e me aferrara nos braços a glacialSOLIDÃO.

Eu chorava. Tudo estava em redor de mim fallando-me d'ella. Todo o mal que me fizera, esqueci-o. Mil vestigios deixára Fanny n'aquelle quarto que eu preparava amorosamente para recebel-a. N'aquelle tecto que lhe cobrira a cabeça, nos tapetes pisados por ella, nos moveis que tocaram suas roupas, em tudo me apparecia serena e consoladora. Aqui me abria os braços de veludo, a poltrona onde ella se assentava tantas vezes; ali a molle{158}pegada do seu sapato, no coxim em que ella descançava os pés; acolá, resequidas, nos vazos chinezes, desfolhando-se tristemente, as flôres que ella amava; além, as cortinas que ella tantas vezes levantava com sua mão timida; ali, se move ainda o pendulo do relogio, para o qual ella estava olhando sempre; aqui, o véo d'ella, aqui as cartas, seus dôces reflexos; além, o pente embalsamado com o perfume dos seus cabellos; e acolá, finalmente, frio e cerrado como um tumulo, o leito onde tantas vezes chorávamos.

Agora, me assoberbava a memoria, tudo o que dissemos, pensamos, e esperamos. Como longinqua musica, trazida na viração do mar, soava-me nos ouvidos o cantar de suas palavras; como emanação de flôres que se evapora com o orvalhar das noites, deliciava-me o olfacto, o perfume de sua cutis olorosa; como bafejo de primavera, perpassavam-me nos labios os effluvios de seus beijos. Ardia-me a mão que ella tocara; ardia-me a fronte que ella afagara em seu seio; ardiam-me os olhos que ella adorara, a boca em que a sua apremara nas vertigens da paixão, o peito que ella duplicara com o seu peito. Oh! que prazer me era sorrir-lhe ao retrato, e remecher nas cartas d'ella! Affigurava-se-me ouvil-a ainda; esperal-a ainda, como nos dias passados; vêl-a chegar assustada, como a cerva dos bosques, a esconder-se em meus braços. Mas, ao mesmo tempo, não sei que vaga essencia se desprendia de mim em soluços e gemidos. Quebrantava-me uma tristeza profunda; uma lethargia sem nome paralisava todas as minhas idéas. Meditativo,{159}como póde sêl-o o homem no leito da morte, eu dizia commigo:—Acabou tudo! não nos tornaremos a vêr, nós, que tanto nos amamos!...

Era tamanha a minha tribulação, que eu receei succumbir á paixão. A imagem d'ella, entrava em todas as minhas meditações. Como não podia arrancal-a da memoria, fugi com ella, precipitadamente, sem voltar o rosto, como o incendiado que não quer ouvir os gritos de maldição sahidos d'entre as chammas accendidas por sua mão cruel. Parti, sem dizer onde ia, para partir, para me afastar. A minha mesma coragem me apavorava. Mas a memoria ia commigo, chorava commigo. Cançado um dia, da vista dos homens, deixei os caminhos trilhados, e intranhei-me, ao norte, nas areias que bordam a foz do Loire. Caminhei trinta horas sem parar. Ao anoitecer, apeei n'um deserto, e resolvi acabar ahi...

Não queria porém, eu, que ahi dissessem que irreflectidamente me suicidara como um louco, ou como creança infraquecido na lucta. Apozentei-me, pois, aqui, para luctar contra mim mesmo, e vêr se a cura me póde ser ministrada por um hospede menos frivolo que a morte. Impuz-me o prazo d'um anno, para viver uma vida differente, só, meditativa,{160}austera. Estou resolvido a esperar até final. Algumas vezes, detesto-me, e todavia espero. Fio-me não sei de que. Amo, como nunca amei, a mulher que me reduzio a isto. Não a desprezo já. Absolvo-a. Eu teria feito o mesmo, se fosse ella, e affirmo que valem menos que ella, as que de outro modo se comportassem. Mas ha momentos em que a detesto, e me arrependo de a não ter esmagado. Assim, e incessantemente, vou d'um extremo de amor e piedade, ao outro extremo de furor e odio. Oh! amar! que supplicio!

As forças da minha alma estão extinctas. Já me não pulsa o coração. Hoje principalmente, que dou fim aos traços do drama da minha vida, sinto a tentação terrivel de completal-o com um sanguinario epilogo.

Mas, porque ha-de ser aqui, e não ha-de ser além ao pé d'ella? É porque me resta ainda o pudôr d'um ciume feroz, que não quer ser carpido. Qual besta-féra, que, ferida de morte, procura uma caverna onde morrer em paz, e esconder seus ossos; assim eu, se devo morrer, quero que seja n'um deserto, longe d'aquella que eu amei de mais.

FIM


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