IISociedades de Agricultura

IISociedades de Agricultura

SUMMARIO

As associações agricolas hão-de diminuir as aversões publicas, e restituir o amor do trabalho.—A Sociedade Promotora da Agricultura Michaelense mostra o que taes sociedades valem.—Vantagens que já tem dado.—O seu exemplo ha-de ser imitado, mesmo em Portugal.—A convicção da necessidade de olhar pela Agricultura é já sentida geralmente.—As regenerações politicas só serão verdadeiras tendo por base a Agricultura.—Todas as revoluções teem origem na bolsa.—Tributos devem-se exigir, proporcionando-se meios de os pagar.—Os poisios deviam repartir-se pelos soldados.—Como seria um bom Governo.—Aqui não entra «Politica» segundo hoje a entendem.—Declaração de qual é a do autor.—Como as Côrtes e o Governo podem felicitar sem custo a Nação.—Se elles o não fizerem, façam-n-o os particulares, associando se.

As associações agricolas hão-de diminuir as aversões publicas, e restituir o amor do trabalho.—A Sociedade Promotora da Agricultura Michaelense mostra o que taes sociedades valem.—Vantagens que já tem dado.—O seu exemplo ha-de ser imitado, mesmo em Portugal.—A convicção da necessidade de olhar pela Agricultura é já sentida geralmente.—As regenerações politicas só serão verdadeiras tendo por base a Agricultura.—Todas as revoluções teem origem na bolsa.—Tributos devem-se exigir, proporcionando-se meios de os pagar.—Os poisios deviam repartir-se pelos soldados.—Como seria um bom Governo.—Aqui não entra «Politica» segundo hoje a entendem.—Declaração de qual é a do autor.—Como as Côrtes e o Governo podem felicitar sem custo a Nação.—Se elles o não fizerem, façam-n-o os particulares, associando se.

Por um interessante periodico do Funchal, OMadeirense, vemos com prazer, que tambem ali se torna a olhar com amor para a terra,a grande Mãe, como philosophicamente lhe chamavam os Antigos.

A terra é o campo neutro, no qual, ainda hoje, se podem congregar os animos, que as contendas sociaes dissociaram e lançaram a monte. Não é senão no seio da Natureza immutavel, universal, inexhaurivel, que os homens podem encontrar novamente a convivencia de ideias, e a fraternidade, a que osleva o seu instincto, tanto como a sua razão. Se o trabalho é a condição indispensavel de todos os bens, se a união é a indispensavel condição de todo o trabalho de veras fecundo, ¿quem não vê que as Associações agricolas, além do grande beneficio de tornarem a enfeixar um pouco a familia humana, hão de promover o trabalho, Anjo custodio de saude e bons costumes? O que as Associações agricolas estão dando de si nos povos representantes e coripheus da civilisação, é historia já tão publica e corrente, que ainda aquelles que a não estudam a sabem pouco mais ou menos. Mas, preterindo, como logares communs, a França e a Inglaterra, figuras obrigadas em qualquer pagina dos nossos contemporaneos, como aquell’ outras de Grecia e Roma em cada escrito dos nossos paes, préguemos á nossa gente com o exemplo, muito mais persuasivo, dos «santos de casa.»

A Sociedade Promotora da Agricultura Michaelense é a demonstração viva do que taes corpos valem, e podem, para o aperfeiçoamento dos lavradores.

Nascida de hontem, se pode dizer, sem amparo algum externo, sem uma dotação larga, para converter em factos a decima parte dos seus bons desejos, constantemente a braços com as difficuldades dos tempos, ainda não apreciada nem comprehendida na propria terra, e com mais de metade das suas forças intrinzecas desaproveitadas, com um viver intermittente, reduzida a hibernarpor quasi toda a bella estação, e no inverno mesmo só incompletamente concorrida de seus membros e sem ouvintes para a animarem recolhendo-lhe o fruto das discussões; n’uma palavra: não havendo tido, por si até agora mais que tres ou quatro vontades perseverantes, mas inquebrantaveis, mas inflexiveis, mas cheias de fé e amor, esta Sociedade contém já nos seus fastos algumas paginas, que a gratidão da Historia ha-de doirar, e os futuros lavradores beijar com enternecimento.

O rusticissimo horror das innovações agrarias, esse ridiculo espantalho millanario de todas as ideias uteis, não se destruiu, porque não pode destruir-se; mas vai recuando para dentro dos limites de uma prudente e cautelosa espectativa; isto é: a curiosidade moderada, que não dá passo sem primeiro palpar o terreno, mas que, apenas o sente solido, adianta e assenta o pé para não retroceder, occupa já o logar do empyrismo intolerante e indomesticavel.

Não se instruiu ainda o camponez; a tarefa de seculos não cabe em dias; mas fez-se-lhe entrever a sua ignorancia; é uma grande passada no caminho do Progresso. Fez-se-lhe conjecturar, por factos sensiveis, que havia, fora da sombra do seu campanario, e mesmo dentro nas cidades, amigos seus e da terra, habilitados pelo estudo para mestres e guias; que os livros não eram todos sonhos vãos de charlatães, e que de muitos d’elles sabiam raios, luminosos como os do sol, que fertilisavam a terra largamente; que não havia sacrilegio em trocara enxada de Adão pelo instrumento só de hontem inventado, mas que multiplica as forças, as horas, os frutos, as moedas, os ocios innocentes, e os praseres.

Insinuou-se a pouco e pouco, e sem rumor, nas praticas do serão da Aldeia:

primeiro, a crença de que o Mundo era mais amplo que os confins da parochia ou do municipio, e muita planta boa, e muito animal prestadio opulentavam outros paizes, que, se viessem ao municipio e á parochia, lhes accrescentariam os haveres;

que se podia produzir mais e melhor em frutos e materias primas, para industrias que ao longe se enxergavam;

e que o pretender aperfeiçoar as raças brutas, as manadas, os rebanhos, e os animaes domesticos, não era absurdo nem impiedade, pois que a tudo isso se chegava sem mais feitiço que o entendimento que Deus nos deu.

Não queremos affirmar que o poisío secular, sêcco e maninho, dos espiritos da população rustica se ache já desmoitado. Affirmâmos porém, e poderia provar-se, que da fundação da Sociedade promotora data um progresso notavel na Agricultura d’este paiz; que ha hoje ahi em exercicio muito instrumento moderno de inquestionavel prestimo; que alguma raça de animaes caminha para o aperfeiçoamento; que as plantas preciosas estrangeiras são desejadas e bemvindas; que se vai pegando a curiosidade do experimentar. N’uma palavra: um observador attento e sagaz sente nas ideias rusticas o que quer que seja de vivaz, de vegetativo, demedrançoso; semelhante ao que se percebe nas hortas, de verão, pela calada da noite, quando ao luar se está suavemente devaneando: um rumor vago e tenue pela folhagem; um cheiro suave de vitalidade, que é circular de seiva, encorpar de hásteas, desabrolhar de gomos, explicar de folhas, nascer de botões, abrir de flores, enchar e amadurecer de frutos; são os fluidos impalpaveis do dia que passou, que por ali se estão ás escuras corporificando para abundancia; d’aquelle ruído sem nome, e quasi imperceptivel, é que lá para o diante se hão-de acogular as eiras, encher os celleiros e os lagares, assoberbar-se os carros, os portos, e os navios, nutrir-se os homens e os animaes, as aldeias e as cidades.

Deixae continuar em sua acção a causa impulsiva d’este movimento, que já se opera nos espiritos camponezes, e vereis as innovações cada vez menos repugnadas, a sciencia pratica avantajada de anno para anno, e com ella vir raiando um pouco tambem da sciencia especulativa, unica fonte dos progressos ulteriores e indefinidos.

Felizmente, este exemplo grande e nobre que a Sociedade Michaelense está dando a todos os dominios Portuguezes, e á metrópole mesma, é grão lançado em terreno, que nos parece achar-se já devida e sufficientemente preparado.

De toda a parte onde ha Portuguezes, isto é: de toda a parte onde sobre um solo fertilnegreja a penuria, saem gritos clamando pela Agricultura ausente, como pelo ultimo e unico Messias terrestre; e esses clamores, quando assim se tornam geraes, são sempre prophecia.

A convicção chegou a todos os animos: a uns pelo raciocinio, aos outros pelo mero instincto; mas em todos está; em quasi todos clama; e já em muitos se agita insoffrida, para se converter em obras.

Se os commodos da vida, isto é os deleites do corpo, os do coração, e os do espirito, são o alvo a que tiram de longe, e de encontrados pontos, todas as opiniões, todos os systemas, todas as parcialidades, a Agricultura para Portugal deve (e não pode deixar de ser) havida pela Politica suprema, pela Politica das Politicas; pois quando, renascida e adulta, a nossa Agricultura nos houver feito laboriosos, abastados, modestos, bons, unidos, e irmãos, então, e só então, é que as theorias deliberdadedeixarão de fluctuar e transformar-se ao sôpro das palavras, como as nuvens inconsistentes ao capricho dos ventos.

As instituições sociaes querem todas uma base; e não ha para ellas alicerce, como é a terra a desentranhar-se em riqueza; tanto assim, que o proprio regimen absoluto, e ainda o despótico, em quanto não faltam ao Povo com pão e um pouco de recreio, permanecem, não combatidos, nem quasi murmurados; ao mesmo passo que as mais philosophicas e altisonantes constituições em terra faminta, isto é em terra pelos homens desaproveitada, são victima, muitas vezesinnocente, mas sempre victima, dos irreconciliaveis odios da indigencia.

Não se ha mistér ser profundo sabedor na historia das revoluções, para reconhecer que todas ellas, proxima ou remotamente, teem na bolsa a sua origem; assim como é evidente, que em quasi toda a parte é a terra trabalhada quem enche a bolsa; ou, pelo menos, que é só ella quem, enchendo-a, pode prometter com affoiteza conserval-a cheia.

Um dos mais deploraveis erros, se não o mais deploravel, é procurar acudir aos males produzidos pela miseria, extorquindo aos proprios miseraveis com uma das mãos o que depois, bem ou mal, em todo ou em parte, se derrama sobre elles. O Thesoiro publico só é abastado, ou, mais verdadeiramente, só ha Thesoiro publico, onde se não é obrigado a arrecadar para elle sangue, lagrimas, e maldições.

Os tributos são uma necessidade; mas para os Governos justos e previdentes não no é menor subministrar aos governados meios de producção, com que satisfaçam aos tributos.

Facilitae-me encher a minha tulha, e pedi-me embora metade d’ella para remir o desamparo dos meus visinhos. Mas se pela minha porta aberta não vedes, em toda a minha poisada terrea, nem lume, nem pão, nem assento, nem mais vestido que os andrajos que andam no corpo, não me vendais parao tributo o bercinho nú do filho, e a enxerga desconchegada da mãe; não m’os vendais que o não quer Deus; não m’os vendais, não m’os vendais, que por um tostão ou dois os havereis matado a elles e a mim, e á vossa consciencia tambem; e todos estes mortos se alevantarão á hora prescrita, para matarem a vossa causa.

Se os haveres são o sangue do corpo social, e se o corpo social jaz por debilidade, ¿pensaria alguem cural-o abrindo-lhe as veias e as artérias?

Em quanto houver terras devoluto, a dar cardos e urzes em logar de trigo e azeite; em quanto houver braços com ociosas armas ás costas, ou encruzados sobre o peito descarnado; em quanto não repartirdes esses braços por essas terras, e essas terras por esses braços, com um alvião, um punhado de sementes, dois ou tres cruzados para uma choça de colmo, um cathecismosinho de Agricultura, e uma boa isenção de direitos até que a abençoada plantação se desate toda em frutos; em quanto fordes tolerando que o vicio, o ruim exemplo, a indiligencia, e a ignorancia, lancem quotidianamente na voragem sempre crescente da prostituição milhares de moças, nascidas com entendimento e coração para mães de familias, e a maior parte das quaes o haveriam ido ser, se o seu hediondo celibato não fôra effeito necessario do celibato forçado de tantos homens; em quanto, pelo concurso de tamanhos desconcertos, deixardes que permaneçam estereis, despresadas, e despresiveis, as duas mais formosas e mais santamenteproductivas coisas do mundo, a terra, e o seio da mulher; sereis mendigos a governar mendigos, sereis loucos a vexar attribulados.

Podereis chamar-vos Governo, segundo o Direito constituido, e pelas trombetas de uma parcialidade, da vossa; mas pela Natureza, mas pela philosophia, mas pelo vosso proprio senso intimo... nunca merecereis tal qualificação.

Damos por superfluo declarar que, se algum nescio, ou maligno, vir d’isso a que ahi chamamPoliticanas poucas linhas que deixamos escritas, não foi absolutamente nossa intenção, nem o é, nem o será nunca, descer das alturas serenas e claras do raciocinio até essas escuras e lodacentas encruzilhadas.

Não processâmos nenhum homem, nenhum bando, nenhum systema; ou processâmol-os todos.

Hoje (comprazemo-nos de o repetir) não commungâmos senão á Meza catholica da Philosophia. Todas as variações protestantes da egreja politica liberal nos são desconhecidas. Lançâmos ao ar e ao vento as palavras de bom conselho, com hombridade e sem odio, como todos devem; é a nossa consciencia a respirar alto.

A parcialidade que fizer obra do que nós só fazemos discurso, será essa a que nós bemdiremos. Os primeiros estadistas, que arvorarem por estandarte na ponta de sua lança sem ferro a relha da charrua e o saccoda semente, serão os que nos movam, sem que nol o peçam, a irmos á urna; e á fé que não votaremos senão por elles, porque esses nos haverão feito acreditar na edade de oiro. A edade de oiro não está no passado, como a sonharam os poetas, mas no porvir, e bem proxima se o quizermos. Não ha de baixar do Ceo com deuses, mas ha-de rebentar da terra com frutos e creanças, quando os homens se encurvarem para a invocar.

Segundo os axiomas que deixamos tocados, grandes, imperiosos, e urgentissimos são os deveres, que ás autoridades executivas e legislativas incumbem, de remover obstaculos, e proporcionar meios para que a Agricultura nacional se levante e cresça, com aquella espantosa rapidez, com aquelle vigor prodigioso, que todas as coisas nobres assumiram sempre em nossa terra, quando de veras as quizemos.

Legisladores e governantes, dizei «Faça-se»; de todos os cantos da Monarchia se repetirá em milhões de eccos: «Faça-se». E far-se-ha. E o Povo Portuguez reapparecerá aos olhos do mundo tão grande e magnifico nos seus trajos de lavrador, e coroado de oliveira, como outr’ora soldado e conquistador, coroado de loiros, e cicatrizes; mas com uma vantagem summa na sua nova transformação: que as conquistas e pelejas o matavam afogado em oiro e sangue; em quanto a Agricultura o haverá remoçado como o Esão da fabula, e opulentado do oiro vegetal,unico oiro que sustenta e se semeia para mais oiro.

Pois se acha emfim conhecido o caminho largo e facil que nos ha-de levar á felicidade; pois que tantos desejos o devoram já em espirito, ¿por que não nos poremos desde hoje em marcha para a conseguirmos quanto antes?

Se os Legisladores, se os Governantes, se as supremas Autoridades não souberem, ou não poderem, ou não ousarem, collocar se á nossa frente; se houver interesses, que se lhes representem maiores do que o interesse maximo; saibâmos e ousemos nós, nós os cidadãos, nós o Povo, nós que o podemos, progredir sem mais impulso que o nosso instincto salvador, sem mais guia que a razão demonstrada. Tambem uma columna de luz levou o Povo eleito, atravez do deserto, para a Terra da Promissão. ¿Quem nos dará força? a associação. ¿É ella possivel? facilima.

¿Como se organisará?

Vamos vel-o.

Agosto de 1848.

Agosto de 1848.


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