VIO Clero, e as Mulheres

VIO Clero, e as Mulheres

SUMMARIO

Na obra proposta, para todos ha tarefa: a dos escriptores é semear a palavra.—Defensa e apologia do Clero; necessidade e modo de o reformar.—Os Bispos, eleitos pelo Povo, apresentados pelo Governo, confirmados pelo Pontifice.—Um Seminario para cada Bispado, em que se ensinem, com as sciencias moraes e mysticas, os rudimentos das sciencias terrestres mais necessarias.—As Parochias providas pelos respectivos Bispos, e modo como.—Vantagens que d’ahi resultarão.—Justo panegyrico das mulheres.—Reivindicação para ellas do direito de votação.—Bens, que de um tal acto de justiça deveriam advir á sociedade.

Na obra proposta, para todos ha tarefa: a dos escriptores é semear a palavra.—Defensa e apologia do Clero; necessidade e modo de o reformar.—Os Bispos, eleitos pelo Povo, apresentados pelo Governo, confirmados pelo Pontifice.—Um Seminario para cada Bispado, em que se ensinem, com as sciencias moraes e mysticas, os rudimentos das sciencias terrestres mais necessarias.—As Parochias providas pelos respectivos Bispos, e modo como.—Vantagens que d’ahi resultarão.—Justo panegyrico das mulheres.—Reivindicação para ellas do direito de votação.—Bens, que de um tal acto de justiça deveriam advir á sociedade.

Os pensamentos do nosso coração acharam eccos; é porque o santo amor da terra e dos homens não morre nunca. O fogo existia; a nossa voz não fez mais do que assoprar de cima de uma parte d’elle a cinza que o occultava.

¿Com tão felizes auspicios, como poderiamos nós deixar de proseguir? Prosigâmos; não já a sonhar em voz alta, mas em voz alta a meditar, a propôr, a pedir.

Concordes estamos (dir-se-hia que por uma inspiração salvadora, baixada na horada angustia sobre todos nós ao mesmo tempo) concordes estamos, e convencidos, de que só a associação das nossas forças, tão malbaratadas até agora em mutuamente se espedaçarem, e apesar d’isso ainda tão grandes, tão sufficientes para uma façanha; applicando-se com fé, com ardor, com perseverança, á Agricultura, pode não só aguentar as nossas cidades, que a lanço e lanço se desabam, mas fundal-as novas, dilatar e multiplicar as aldeias, engrinaldadas de vegetação frutifera, transformar a guerra em amor, a mendicidade em trabalho, o roubo, a venalidade, a agiotagem, a alcunhadapolitica, e a prostituição, essas outras mendicidades, muito mais torpes e odiosas, em honesta e folgada vida, em producção, em virtude, em paz, em contentamento, em gloria, em liberdade, em poderio.

Fomos um grande Portugal; em nossa mão está sermos, e breve, um Portugal ainda maior, mais formoso, mais seguro, mais festejado, mais attractivo para estrangeiros, mais hospedador de suas prendas, de suas artes, de suas sciencias, de sua multiplice civilisação.

Queirâmos; queirâmos de veras. Congreguemo-nos fraternalmente; os dos campos, nos campos; os da cidade, com os olhos n’elles. Lavremos e semeemos todos; uns com o ferro e o grão, outros com o oiro, outros com a doutrina, que tambem é oiro; os legisladores com as Leis; os magistrados com a protecção; e nós, nós os apóstolos descalços, a quem a Providencia recusou terra, oiro, sciencia, e autoridade, mas aquem, em compensação de tudo isso, outorgou alguma alma e muitissimo amor, nós os escritores, semeemos tambem alguma coisa no chão da Patria, a que já está impendente larga benção de regeneração: semeemos a palavra.

Que nenhum de nós se acovarde por desconfiança de sua fraqueza; que nenhum sonegue o que tem por verdade, com medo de que os poderosos lh’o desprezem, os nescios lh’o impugnem, e os malignos lh’o escarneçam. Onde a boa vontade nos houver illudido, valer-nos-ha ella mesma de excusa; e, á falta de approvação, conciliar-nos-ha o tacito affecto dos homens de bem.

Quanto a nós individualmente, assás havemos já provado n’estes artigos, cujo fio vamos seguindo, quanto, apesar de conhecermos melhor que ninguem a nossa incompetencia, e a confessarmos a cada hora, propomos com lisura e franqueza, o que julgamos poder salvar a nossa moribunda.

Nem a lisonja, nem contemplações pusillanimes, nem medo a ruins interpretações, nem a indifferença d’aquelles mesmos por quem fazemos votos, nos demoveram ainda do nosso proposito, atrevido talvez, mas honrado de certo.

Com egual abnegação, com egual soltura, com ainda maior convicção, pois nos cresce de mez para mez, continuaremos a lavrar o nosso testamento de Portuguez, estas desenfeitadas linhas, mas para nós mais amadas, que toda quanta poesia nos florejou a mocidade.

Para dois pontos convocamos agora a attenção sizuda das nossas futuras Sociedades promotoras da Agricultura, do Parlamento de lavradores, que os seus esforços nos hão-de produzir, do Ministerio da Agricultura, que esses legisladores hão-de fundar, e finalmente do proprio Throno; para o que, novamente rogamos a todos os nobres missionarios da Imprensa levem os nossos alvitres, corroborados com o seu saber, e ungidos com a sua eloquencia, até onde o humilde e longinquo da nossa voz os não deixaria penetrar.

Estes dois assumptos, ambos grandes e ambos esquecidos, ambos de summa importancia, assim para o mal como para o bem, e ambos injusta e cruelmente desprezados, são: oSacerdocio, e asMulheres.

É o Sacerdocio Catholico uma instituição eminentemente social, e cuja origem divina é, por isso mesmo, impossivel não reconhecer.

Não renovaremos n’este logar disputações intempestivas, e já exhaustas, sobre os beneficios e as calamidades, de que em tal ou tal paiz, em tal ou tal seculo, o Clero tem sido, voluntaria ou forçada, activa ou passivamente, causador. Esses argumentos de alguns factos (ou de muitos factos) contra theses universaes e duas vezes millannarias, não podem servir para mais, que para lhes realçar a evidencia.

Quanto mais os da escolafossilde Voltaire, quanto mais os anachronicos citadores doCitador, e os mui respeitaveisCompadresdoAbbé Laurent, esperdiçarem o seu engenho para nos afeiarem em romances obscenos a vida licenciosa de um ou de outro, ou de muitos Sacerdotes; quanto mais nos affirmarem, sob sua palavra honrada, e á vista de umas estatisticas que só elles possuem, que o numero d’estes discolos é infinito; tanto mais, sem o sentirem, sem o quererem, engrandecem a força intrinzeca e divina de uma instituição, que, desde o tempo dos Apóstolos até nós, ainda não cessou de ser havida por mantenedora da arca-santa da Fé e dos costumes.

Se ella fosse humana, se ella fosse sobretudo ré da millionesima parte dos crimes e horrores, que os seus adversarios (¡varões probos e honestissimos!) lhe assacam, ¿como haveria resistido a dezoito seculos? ¿a trezentas revoluções na politica, e outras tantas nas ideias? ¿aos vaivens das seitas, e das chamadas philosophias? ¿ás minas surdas do indifferentismo? ¿ao fanatismo sanguinario de alguns de seus membros, e á perfidia e á deserção de tantos outros?

Neros e Sardanapálos appareceram mais de uma vez na cadeira de S. Pedro. Mãos em vão sagradas cavaram masmorras e accenderam fogueiras; seguraram os pulsos a povos, para que tirannos os agrilhoassem; afiaram os punhaes e as espadas para guerras fratricidas; e a Sciencia, filha do Ceo como a luz, em nome do Ceo a perseguiram.

E entretanto, atravez d’esses arroios de sangue e lagrimas, e d’esses montes de cinzas e ruinas, o esquadrão candido dos Levitas continuava a sua peregrinação para o Ceo, abençoando, e abençoado; penitenciando se em segredo pelos maleficios de que era innocente; vertendo lagrimas e chrysma sobre as feridas de seus irmãos; semeando na terra desconsolada o amor e as esperanças.

Ao notarem ignorancia e corrupção no Clero, os semi-philosophos imprevidentes votam, sem hesitar, a sua abolição. Os sabios, isto é os prudentes e amigos da humanidade, calculam caladamente: ¡o que se tornaria o rebanho, privado de pastores! ¡os costumes, sem doutrina nem censura! ¡as penas sem conforto! as prosperidades e soberbas, sem contrapezo! ¡os seis dias da terra, sem um dia do Ceo! Depois, comparam essa corrupção e essa ignorancia (desgraçadamente muito certas) com a corrupção e ignorancia ainda maiores de quasi todos os inimigos da Egreja; e, convencendo-se de que o mal não é sem cura, propõem, em vez de exterminio, que é sempre o primeiro recurso dos barbaros: contra aquella ignorancia, luz de sciencia; contra aquella dissolução, outra vez luz, disciplina, e vigilancia.

Não está o remedio em fechar a residencia parochial, depois de expulso d’ella o Cura indigno, deixando muda e ás escuras a casa da oração. Não está em despejar os paços episcopaes, para morada e pagode de especuladores enriquecidos, e as cathedraes paraquarteis, theatros, ou serrarias de madeira. Está, sim, em precaver por Leis sabias, como sem custo as ha-de fazer o nosso Parlamento agricola, que os Bispos e Parochos sejam sempre o que o seu nome, o seu caracter, a Lei da sua instituição, a utilidade, a necessidade, e a vontade do Povo, e a sua propria consciencia, lhes ordena que sejam.

¿Será isto exequivel? sim, sim; e tanto, e por tão faceis meios, que o que só admira e espanta é não se achar já de muito em execução, em praxe, e em costume.

O primeiro ponto, o primeiro passo, a primeira condição impreterivel para esta reformação tão necessaria e tão urgente, quer a consideremos á luz do Céo, quer á dos interesses temporaes, é a boa escolha dos Bispos.

Foram os Bispos, nos seculos doirados da Egreja, e nas terras onde ella mais floresceu, eleitos, cada um pelo proprio rebanho a que havia de presidir[4]. Nada mais liberal, nada mais natural e justo, nada mais conveniente, que essa usança; nada mais digno de se ressuscitar n’uma edade, que blasona de liberrima e philosophica.

A nomeação dos Prelados pelo Chefe do Estado civil, e só dependente da sancção do Pontifice, sancção em que tantas contemplações, tantos motivos extranhos ao meritoreal, podem influir, é, mesmo para os entendimentos mais myopes, viciosa, e mais que arriscadissima a desacerto. É esta uma verdade, que (¡ainda mal!) os factos teem repetidamente confirmado.

¡Que de vezes uma parcialidade vencedora, já para recompensar, já para predispôr serviços profanos e profanissimos, não tem enviado das catacumbas facciosas para os thronos episcopaes, ora lobos, ora apestados e leprosos, ora defuntos! ¡mãos geladas para as boas obras! ¡corações gelados para os bons desejos! ¡linguas geladas para as palavras de amor! O Céo nos defenda de citar exemplos; ¿e para quê? ¿ha ahi quem os não conheça, e os não deplore?

Escolhido, ou pelos Ecclesiasticos do Bispado, e em escrutinio secretissimo, aquelle d’entre seus membros, que por virtudes, luzes, patriotismo e prudencia, notavelmente se avantaja, ou (melhor e mais liberalmente ainda) votado tambem em escrutinio secreto por todos os fieis da Diocese, assim de um como de outro sexo, n’esse devemos presumir que está a idoneidade para o grande sacerdocio, para a relevantissima magistratura do Episcopado. O juizo do Povo haverá sido o juizo de Deus.

Ao Chefe temporal do Estado, liberto assim de uma responsabilidade tremenda, só resta levar com alegria a santa proposta aos pés do Throno do Vigario de Christo, para impetrar á obra terrestre a sancção suprema, e não desligar o interesse da parte, do formoso e admiravel systema da unidade catholica.

Sagrados nas sédes de todas as egrejas Prelados de tão altos abonos, é logicamente indispensavel deixar-lhes as mãos livres para o seu lavor, que é infinito e complicadissimo.

E quando não, consideremos, com madureza, o que é um homem collocado no centro de muitos milhares de homens, para acudir a todas as necessidades espirituaes, e a grande numero das temporaes, umas e outras imperativas, e sempre recrescentes.

A Oração Dominical cifra o seu espantoso encargo. Os seus primeiros predecessores, os Apóstolos, viveram e morreram a cumpril-o. Christo mesmo não curava só as almas, se não tambem os corpos; prégava as virtudes, e ao mesmo tempo multiplicava o pão e os peixes no deserto, e o vinho nas bodas. O seu Precursor na Lei escrita, ao mesmo passo que dava os mandamentos do Sinai, e extirpava a idolatria, libertava o povo do captiveiro, desentranhava os rochedos em fontes, o céo em maná e em aves, as nuvens em luz, debellava a peste, e encaminhava os peregrinos para a Terra da promissão e da abundancia.

Tudo isto, que fez Moisés, que fez Jesus, e em que os Apóstolos o imitaram, tudo isto ha-de emprehender, e ha-de conseguir até ás raias do impossivel, o Prelado que fôr digno da sua missão.

¿Mas como bastariam dois unicos braços, uma só lingua, para tanto instruir, e para tanto obrar? De nenhuma sorte. O amor, mesmo no homem, pode não ter limites; mas teem-n-os as fôrças.

É por isso, que de cada Sé brotaram emde redor d’ella quantidade de Parochias, como da arvore boa se transplantam ramos para lhe continuarem e multiplicarem os frutos em muitas partes ao mesmo tempo. A voz do grande Pastor, repetida pelos seus coadjutores, fez-se ouvir até da ovelha mais desgarrada, no reconcavo dos valles, ou no cume das serras; e os beneficios das suas mãos, transmittidos por mãos fieis, poderam diffundir-se para todos os quatro ventos do céo até ao horizonte.

D’esta simples consideração se deriva inquestionavelmente, que, sendo os Parochos nada menos que delegados e representantes dos Bispos, como os Bispos o são de uma Providencia paternal, e necessitando o Chefe conhecer e reconhecer, animar, e dirigir constantemente aos seus immediatos mandatarios, são elles tambem, elles sós, livres, liberrimos, independentes, os que os devem educar, preparar, eleger, conservar, suspender, ou excluir.

É logo necessario, que o Governo temporal seja por Lei inhibido de prover as freguezias; direito ou costume esse, ao qual principalmente se deve imputar a odiosa ruindade, e incapacidade absoluta, de tanto e tanto Parocho, que, mais que os livros dos impios, teem em toda a parte concorrido para o descredito da Religião.

O Governo só deve, quando muito, superintender, como vigia supremo do Estado, no comportamento dos Curas de almas como cidadãos, e no que o seu officio tiver de puramente secular. O de Cesar, a Cesar; o de Deus, a Deus. Nada mais orthodoxo.

Assim como ao obreiro, para se lhe poder tomar conta da obra, se hão-de primeiro dar materiaes e instrumentos, assim a cada Bispo hão-de umas Côrtes de juiso conceder, não em vans promessas escritas, mas effectivamente, com que organisar e manter um Seminario, com mestres a todos os respeitos dignissimos; de fora da Diocese, se n’ella os não ha; de fora do Reino, se os não ha no Reino. Para aqui, ¡mãos largas! ¡mãos rôtas! ¡mãos prodigas, se é licito dizel-o! que a máis nescia de todas as economias é a que nega adubío, sementes, e rega, ao solo de que pretende fruto.

¡Oh! ¡de que desperdicios não tem já sido causa a não entendida palavraeconomia!

Sob os olhos do Bispo, medrarão além de toda a esperança estes viveiros de Parochos, educados na theoria e pratica da Sciencia Divina por mestres, que serão ao mesmo tempo seus exemplares. Elles ahi aprenderão, com as sciencias moraes e mysticas, o que hoje seria imprudencia, temeridade, e infamia, querer d’ellas apartar: aprenderão as sciencias, que renovam e regeneram a terra, e que, matando a perguiça e a penuria, aplanam, atravéz de uma bemaventurança passageira, o caminho para outra, que não finda; a hygiene; os rudimentos da medicina domestica, e da veterinaria; a agricultura e a physica; as noções geraes da jurisprudencia do Estado, e os deveres politicos; um pouco da economía publica, muito da caseira;os methodos mais faceis de ensino para as materias mais necessarias; em summa: habilitar-se-hão para poderem e quererem ser, em tudo, o opposto a muitos dos deploraveis Parochos dos nossos dias.

Entre os Clerigos, alumnos de um mesmo Seminario, instruidos nas mesmas materias, e pelos mesmos professores, ha-de haver differenças de genios, de gostos, de talentos, de virtudes. Cada individuo tem a sua organisação; cada educação de infancia affeiçôa para o futuro um diverso homem.

Differenças, como as que se notam nos individuos, existem não menos entre as povoações. O Bispo, que, durante o longo curso de estudos, haverá podido reconhecer e verificar a aptidão especial de cada um dos seus alumnos, saberá depois distribuil-os segundo o caracter e necessidades das Parochias: para a mais inerte e atrazada, o mais progressivo e emprehendedor; para a mais licenciosa, o mais modesto; para a mais indigente, o mais caritativo; para a mais aspera, o mais soffredor; o mais conciliador para a mais desavinda; o menos rustico e o mais instruido para a mais cortesan.

Imaginae (se tendes imaginação que abranja o infinito) imaginae o que virão a ser, em alguns annos, as freguezias, mormente as ruraes, presididas por taes varões.

A Fé se reanimará, menos pela eloquencia das homilías, que pelos milagres da caridade.

Pelos predios sorrirá a abundancia, pelas vidas a harmonia.

Apertar-se-hão os laços entre os membros de cada familia, os dos visinhos com os visinhos, os dos cidadãos com os seus concidadãos.

A semana deslizará, como um ramal de horas de prata, nas festas da lavoira e da industria; o domingo nas festas do Senhor, e nos folguedos innocentes, que a Religião permitte e ama, e nos quaes se prepara o casto amor que reproduz as familias, e se podem exercitar a graça e dextreza corporal, que realçam a obra-prima do Creador.

Vêde ¡como á sombra fresca da parreira do presbyterio, no verão, e no inverno ao lume da sua cosinha terrea, veem contentes as creanças aprender, ora as letras, as contas, e a escrita, ora o cathecismo, ora os deveres sociaes em historias singelas e amoraveis!

Ouvi ¡como dos mesmos labios, que distribuem o biscato da alma a aquelles passarinhos implumes, sai o conselho de paz, que solda, melhorada, a amisade entre os desavindos, o consolo para o coração viuvo, a correcção benevola, mais efficaz que a severidade, a esperança precursora da Providencia e aurora da esmola, aqui uma consulta sobre o praso e melhor modo de uma plantação, de um córte de madeiras, ou do encaminhar as aguas de uma rega, ali uma supplica de filho, cujo pae cahiu com uma dor ou accidente repentino, e que não sabe como lhe acuda em quanto o medico não chega!

Todas as linguas fala o Parocho, excepto a da maledicencia. Para os males que não admittem remedio, ainda elle sabe e applica um balsamo: a conformidade.

O presbyterio é a côrte do logar, com ser a mais pobre casa de todo elle. Todos lá vão, tributar respeito ou pedir graças. Os grandes saem d’ali maiores porque aprenderam a humildade; os ricos, mais ricos porque aprenderam a dar; os infelizes, serenados porque viram um Anjo.

Governantes, este homem não fará eleições, mas fará subditos fieis, cidadãos pacificos e laboriosos.

Não mentirá em favor vosso, mas tambem contra vós não mentirá.

Se jamais no Sacrificio da Ara se implorou com fervor paz e concordia, d’aquella bocca se hão-de elevar quotidianamente taes orações, como perfume de incenso sem mistura.

Esquecei esse monarcha de espiritos no meio do seu povo; elle vos serve com mais zelo do que vós mesmos vos servis. Em torno d’elle intercede-se cada noite pela vida de bons e maus. Em quanto elle respirar, sabei que ha no Reino um recanto, em que a indigencia mesma não amaldiçôa. Os filhos se ufanarão de haver sido por elle baptisados; os esposos, de lhe terem recebido a benção; os moribundos, de lhe exhalarem no seio a alma, por elle já desenleada de espinhos, e já de antemão coroada das açucenas do Ceo.

Estes serão necessariamente os Parochos procedentes das escolas d’aquelles Bispos.Uma Lei de homens, mas de homens sãos e sizudos, haverá creado uma semelhança de paraizo.[5]

Falámos do sacerdocio de Deus; falemos do da Natureza; falemos das Mulheres.

Um phenomeno moral dos mais inexplicaveis, é a dependencia, a sujeição, a especie de tutella ignominiosa da mulher em todos os paizes, em todas as edades, em todos os graus da civilisação. Nascido d’ella, creado por ella e para ella, referindo a ella quasi todos os seus trabalhos, pensamentos, e ambições, proclamando-a soberana, acatando-a quasi como uma semi-divindade terrestre, o homem não cançou ainda de tratal-a de facto como serva.

O seu nome triumpha na lyra dos poetas; as suas graças, na tela dos pintores e no marmore dos estatuarios; o seu credito, na lança dos antigos paladins, na pistola e espada dos modernos duellistas; a sua apparição na sociedade é recebida com murmurio festivo e lisonjeiro, como a da aurora na espessura a que ella traz vida. Se desprende a voz, a razão parece mais bella passando pela sua bocca; a virtude perde o seu azedume; um feitiço indefinivel lhe careiatodos os animos; o tumulto se apazigúa; os vicios grosseiros escondem o rosto e emmudecem até a deixarem passar. O rasto de aromas, que os seus cabellos e os seus vestidos deixam apoz si, não egualam ao vago e voluptuoso affecto, que o mais leve dos seus movimentos coou até ao fundo dos corações. Respeita-se-lhe o juiso; ama-se-lhe o espirito, a modestia, a decencia, os instinctos bons, nobres e generosos, a timidez que não exclue a heroicidade. Colhem-se-lhe as palavras benevolas, como diamantes que se enthesoiram e defendem com ciume; fazem-se os maiores sacrificios para lh’as merecer. O mais soberbo sente-se ufano no dia em que obtem a sua mão; o mais avaro daria metade dos thesoiros pelo seu primeiro suspiro, e os thesoiros todos pelo seu primeiro beijo; o mais sabio a consulta, como a melhor e menos fallivel porção de si mesmo. N’uma palavra: o mais grave dos nossos interesses, a primeira educação moral dos nossos filhos, ¿a quem é commettida? dir-se-hia que a nossa alma, ainda tenra, se nutre no seio da sua, como entre os seus braços bebemos no leite de seus peitos o seu amor.

E todavia... Abri os codigos de todo o mundo, e perguntae-lhes o que é este ente, complexo de tantas maravilhas, creado para companhia do homem, mas depois do homem, como elle o fôra depois dos brutos, e os brutos depois dos entes insensitivos.

Todos os codigos vos responderão: «É uma escrava.» E alguns: «É uma victima.»

Os trabalhos continuos, obscuros, e inglorios, são a sua vida; e a sua morada umcarcere. Aqui, a excluem dos recreios mais honestos; além, a punem com o ridiculo, se deixa respirar o seu talento; uma decencia convencional e tirannica lhe impõe silencio quasi continuo. A acção, o passo, o dito mais indifferentes, lhe são interpretados. As Universidades lhe estão fechadas; defezas as magistraturas e os tribunaes; inaccessiveis o fôro e a tribuna. Só da caridade, dos hospitaes, das escolas de infancia, e do claustro da oração, a não poderam excluir.

¡Que dizemos! não só a Asia as vende, como se vendem as flores para os regalos dos opulentos, e a Inglaterra as deixa vender nos seus mercados como animaes de carga, se não que a propria França, a patria da cortesia e do melindre, a terra em que ellas mais imperam sobre as artes, o gosto, e a sociabilidade, a França mesma, lhes impõe nas suas Leis obediencia e respeito ás vontades de um marido.

Da sujeição filial, a unica reconhecida pela Natureza, lá passam para o captiveiro conjugal.

O anel de um noivado é o primeiro de um grilhão muitas vezes insoffrivel, e que nenhumas forças lhes poderão quebrar. O nome do seu senhor lhes é para logo imposto em vez do paterno; é a marca, é o ferrete do dominio; marca indelevel, que sobreviverá ao possuidor, e que só um possuidor novo encobrirá, substituindo a esse nome o seu nome, e á tirannia extincta uma segunda tirannia[6].

Ainda cerceámos o desenho; ainda enfraquecemos as côres do quadro; mas não haverá coração generoso, que ao encaral-o não estremeça.

O Homem Deus redimiu as nações do predominio romano, do fatalismo, e das paixões divinisadas; sublimou, sobre tudo, os pobres e os perseguidos a grau de humanos, e de mais que humanos.

A philosophia moderna restituiu a liberdade natural ao pensamento.

A politica, sua filha, desatou o jugo de ferro da cerviz dos povos, e o atirou feito pedaços para o abysmo do passado.

A philanthropia, ou talvez a especulação, aboliu a escravaria das povoações negras.

Á infancia mesma vai chegando o que é possivel de emancipação; asylos e escolas a convidam a instruir-se; e ao açoite, que d’antes lhe desfolhava os brios em flor, succederam a affabilidade e os carinhos, tão necessarios aos pequeninos como o pão.

¿Que dizemos? até para os irracionaespululam na Europa sociedades protectoras.

¿E a Mulher?! A Mulher, nossa mãe, nossa esposa, nossa filha, nossa irman, a Mulher, nossa ama, nossa educadora, nossa ecónoma, nossa enfermeira, a Mulher que nos civilisa, que nos adoça, nos encaminha, nos aconselha, nos acompanha e consola nos trabalhos, nos realça e requinta as alegrias, a Mulher, que não vive, que não quer, que não pode viver senão para nós, que nos soffre e nos perdoa de continuo, a Mulher que é toda amor, e a mais brilhante revelação do Céo, a Mulher...... é ainda escrava! ¡escrava em plena Europa! ¡em pleno Christianismo! ¡quasi como na Africa e na Asia sob os influxos do Korão! ¡escrava como na India, como na China, como na Tartária, como na Turquia, como na Russia, como entre os selvagens errantes, como entre os Romanos barbaros, escrava, como sempre e em toda a parte!

Já que ellas se não queixam (¡pobres victimas só feitas para soffrer!) ousemos nós defender os seus interesses apesinhados; e não contra os nossos, se não ainda em nosso beneficio.

Parlamento das nossas esperanças, congresso de lavradores, atrevei-vos a uma Lei, que vos doire na Historia, e vos immortalise. Decretae, depois de seis mil annos,a alforria da Mulher.

Não são a milicia, as magistraturas, os governos das provincias, que para ellas vos pedimos; não são as cadeiras de legisladores,nem as do magisterio; n’uma palavra: não são nenhuns dos cargos, que a prepotencia lhes disputaria, e de que a Natureza as tornou isentas (não por fracas, não por inferiores em espirito, mas porque foram fadadas para mães).

Dae-lhes porém o que sem injuria não poderieis recusar-lhes: reconhecei-lhes, como a seus esposos, como a seus paes, como a seus filhos, o direito de suffragio.

De que poderieis vós arrecear-vos franqueando-lhes o caminho á urna? ¿Não teem ellas tanto interesse como nós, em que Leis sabias rejam, e homens sabios administrem? ¿Não zelarão ellas o bem da terra em que vivem seus consortes e a sua prole? ¿Não são ellas dotadas para avaliar os meritos, para estremarem a verdade e a impostura, de uma maravilhosa sagacidade, occulta arma defensiva com que a Natureza as premuniu contra as offensivas do nosso sexo? ¿Não vivem mais longe do tumulto da praça, que a nós outros tanta vez nos desvaira, lançando-nos em turbilhões, já de odios, já de amores insensatos e contradictorios? ¿Não teem innatamente, além do instincto da harmonia, o espirito da justiça? ¿Não foi já por isso, que nas antigas allianças entre Carthaginezes e Gallos se estabeleceu, que, onde de parte a parte recrescessem rasões de queixa, fossem arbitros, por Carthago os seus magistrados, pelas Gallias as suas mulheres?

Mas—vos segredarão alguns com maligno sorriso—¿«conhecem ellas o grande jogo da Politica? ¿fazem ideia do que sejaa ordem publica? ¿com quem o aprendeu a sua roca para lh’o ensinar?»

Não, homens honrados, ellas não sabem a Politica; e eis ahi uma das grandes vantagens que nos levam para eleitoras; mas a ordem publica, se a não sabem, adivinhal-a-hão, que para isso, entre seus filhos e domesticos, são rainhas de pequenos reinos. Essa roca, alvo do epigramma ingrato e insolente, é o seu sceptro; e pode ser que acerca da felicidade commum da aldeia, da freguesia, e da provincia, lhes haja ella dito muito mais, nas caladas dos serões de inverno, que á maior parte dos nossos eleitores cortesãos a lampada parisiense entre os baralhos de cartas e os montes de oiro.

Mas concedamos-lhes que nossas esposas, nossas mães, e nossas filhas, nunca jamais até agora pensaram sobre os negocios do Estado, como vos elles dizem. Por isso mesmo, por isso mesmo, lhes deveis restituir mais depressa o seu usurpado e imprescriptivel direito de votação; porque essa indifferença, se n’ellas existe, é mais uma calamidade, pois são as educadoras da geração que nos ha-de succeder.

Concedamos ainda mais: que o precioso affecto da Liberdade é n’ellas quasi nullo. ¿De quem é a culpa? ¡D’ellas!! Não; mas de nós outros, que a poder de escravidão lh’o adormentámos.

Restitui ás Mulheres o seu quinhão legitimo de Liberdade, e vereis como ella se consolida sobre fundamentos de amor mais que duplicados.

¡Que miserrima contradicção é esta: queonde para a herança da Corôa a Lei salica não governa, onde á Mulher se reconhece aptidão para o cargo supremo do Estado, se lh’a denegue para votar como cidadan em mandatarios dos communs interesses!

De uma coisa podeis vós estar certos, Ó Deputados; e é: que as eleições em que ellas entrassem, por menos acertadas que a sua inexperiencia as produzisse, não dariam (porque era impossivel) mais vergonhosos resultados, que todas quantas á sua revelia havemos feito, e que, para vergonha nossa, lá ficam registadas na Historia.

¡Oh! ¡Se o humilde Portugal estava ainda guardado para dar do fundo do seu abysmo tão altas lições, tão esplendidos exemplos á Europa e ao Mundo! ¡Uma Representação nacional genuina e insophismada! ¡um Clero sabio, virtuoso, paternal! ¡a Mulher investida na plenitude dos seus destinos sociaes!....

No dia em que a Patria cingisse por suas mãos tres corôas tão magnificas, morriamos felizes. Teriamos vivido uma eternidade de bemaventurança.

Dezembro de 1848.

Dezembro de 1848.

NOTAS DE RODAPÉ:[4]Nullus invitis dandus est Episcopus; ille omnibus prœferendus, quem cleri ac plebis consensus concorditer elegerit.—S. Gregor.—Epist. ad Nastas.[5]Os nossos respeitos ás doutrinas canonicas é conhecido e provado. A innovação que propômos e que deverá ter iniciativa no Parlamento, para se tornar effectiva necessita da censura e regular approvação da Egreja.Castilho.[6]Com estas reflexões não pretendemos desapprovar a subordinação das mulheres a seus maridos nos termos em que a prescrevem os nossos livros sagrados. Só não queremos que esta dependencia se converta em escravidão, que a legitima autoridade marital degenere em tirannia. Eva, diz um Padre da Egreja commentando o Genesis, não foi formada da cabeça de Adão, para que não tivesse a presumpção de o querer dominar; nem tão pouco foi formada dos pés do homem, para que por elle não fosse considerada como serva; foi-o de uma costella, a fim de que se entendesse que era destinada a ser sua companheira.Castilho.

[4]Nullus invitis dandus est Episcopus; ille omnibus prœferendus, quem cleri ac plebis consensus concorditer elegerit.—S. Gregor.—Epist. ad Nastas.

[4]Nullus invitis dandus est Episcopus; ille omnibus prœferendus, quem cleri ac plebis consensus concorditer elegerit.—S. Gregor.—Epist. ad Nastas.

[5]Os nossos respeitos ás doutrinas canonicas é conhecido e provado. A innovação que propômos e que deverá ter iniciativa no Parlamento, para se tornar effectiva necessita da censura e regular approvação da Egreja.Castilho.

[5]Os nossos respeitos ás doutrinas canonicas é conhecido e provado. A innovação que propômos e que deverá ter iniciativa no Parlamento, para se tornar effectiva necessita da censura e regular approvação da Egreja.

Castilho.

[6]Com estas reflexões não pretendemos desapprovar a subordinação das mulheres a seus maridos nos termos em que a prescrevem os nossos livros sagrados. Só não queremos que esta dependencia se converta em escravidão, que a legitima autoridade marital degenere em tirannia. Eva, diz um Padre da Egreja commentando o Genesis, não foi formada da cabeça de Adão, para que não tivesse a presumpção de o querer dominar; nem tão pouco foi formada dos pés do homem, para que por elle não fosse considerada como serva; foi-o de uma costella, a fim de que se entendesse que era destinada a ser sua companheira.Castilho.

[6]Com estas reflexões não pretendemos desapprovar a subordinação das mulheres a seus maridos nos termos em que a prescrevem os nossos livros sagrados. Só não queremos que esta dependencia se converta em escravidão, que a legitima autoridade marital degenere em tirannia. Eva, diz um Padre da Egreja commentando o Genesis, não foi formada da cabeça de Adão, para que não tivesse a presumpção de o querer dominar; nem tão pouco foi formada dos pés do homem, para que por elle não fosse considerada como serva; foi-o de uma costella, a fim de que se entendesse que era destinada a ser sua companheira.

Castilho.


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