Chapter 3

Fotografia de Fialho d'Almeida.FIALHO D'ALMEIDA{81}Nenhumoutro documento mais interessante, se bem que mais difficil de ler, do que o primeiro livro dum Artista.Toda a obra de Arte tem a sua infancia que importa ver na prova-estreia do auctor, atravez dos seus defeitos, como das suas virtudes.Ora essa difficuldade eu senti ao ler osContosde Fialho, quer pela exuberancia de vida episodica de que esta obra se enreda, quer pelo tumulto dos recursos que já ali o auctor revela.Exemplificando.Abre elle este seu primeiro livro por uma historia, em parte de sua observação, e em parte de phantasia,—A Ruiva.{82}Pela intriga deste seu trabalho, vê-se que elle não chegou a realizar uma novella, no rigor geralmente attribuido ás composições deste nome. Bem pelo contrario, o que conseguiu foi uma serie de biographias, ou, mais propriamente, de exquisitas telas.Fialho, muito do Sul, é, como já vimos, um pintor; ou melhor, um painelista, no geito dos pintores da Hespanha meridional, logrando, pela penna, conforme o seu poder de descriptivo, dar a côr, tonalidades e almas tão distantes e irreaes e, no entretanto, tão signaladamente intimas e perfeitas, como só as encontramos nas prodigiosas collecções dalguns auctores da Andaluzia,—isto a averiguar da impressão das suas manchas, como das suas madonas e dos seus aleijados, ou seja de quasi toda a sua galeria de excelsas e de sinistros!{83}Assim, aRuiva, principal figura do conto em analyse, é uma especie de hyena de amor, transportando-se, quando os guardas do cemiterio saem, á casa do deposito, onde entra para escolher cadaveres!É pela calma mysteriosa e calada que elle descreve a necrophila Carolina, misto de miseravel e viciosa, tacteando os mortos adolescentes, quasi possuindo-os.Exquisita figura de virgem, a suave e brutal filha do coveiro, que Fialho trata com enthusiasmo, quasi carinhosamente, ainda na sua faina de amante de formas mortas!A Marcellina é o typo vulgar da harpia, velha e sabia, que tendo aprendido da miseria tudo o que de mau ella ensina, volvera a sua experiencia num capital que lhe ia servindo para viver...Para o caso, ella é a alcoveta que vende aRuivaa um rapazola, o João,{84}um precoce torpe, typo de bambino operario, official de marceneiro e fadista, que um momento a possue e quasi logo a abandona.É filho dum bebado e duma desgraçada que elle, ainda creança, vae encontrar, pela ultima vez, namorgue, depois que a acabaram os maus tratos do marido.E, tambem, dahi a sua historia, que em si resume a vida natural de todos os tresnoitados pelos portaes e escadas.Por fim, fecha o conto o relato da faina livre de Carolina (aRuiva), primeiro assalariada numa fabrica, depois pelos quartos andares, vendendo-se a todos os vicios, até que, roida da tuberculose, chega ao hospital, donde sáe aos pedaços, como um gesso em cacos!O seu enterro descreve-o o Artista no primeiro capitulo, como para impôr, logo de começo, o conto, de tal arte iniciado, á{85}maneira romantica, pelo seu episodio mais pio e sinistro.É ahi que apparece a figura do coveiro, pae da Ruiva, uma especie de Antonio Pedro noHamlet, acaso transportado á taberna doPescada, onde o Contista o apresenta, bebado, a commentar a morte da filha!Eis a noticia-summario do que temos pela estreia de Arte de Fialho, em 1878, ou tenha sido do tempo de quando elle, intencionalmente realista, com suas tintas de Hoffmann, se deu a iniciar a sua obra por uma figura, aliaz nada casual—aRuiva, cuja caveira nos aponta, ao fim do livro, sobre a sua banca de contista-medico, não se sabe bem, se como um despojo de estudioso, se como um cofre de osso de que antes, por capricho, se dera a extrahir uma novella...{86}Como quer que seja, esta realiza menos o que pretende ser—a biographia da filha do coveiro—do que a primeira galeria de figuras da sua maneira extranha de pintar, e onde aRuivaacaso surge como que sombreada daquella maceração e tinta de luar que Zurbaran parece ter composto já da eternidade para espectrar as figuras tão suavemente doentes dos seus monges!E, entretanto, como ali está, naquella simples novella todo o seu original processo, desde o poderosissimo descriptivo que lhe anima o melhor da obra, até á sua pintura, ainda narrativa, de costumes; a hesitação do Artista no papel violento ou declamatorio dos personagens; a sua maneira dispersa e fragmentaria; o dialogo; a imprecisão de traços; a preoccupação das grandes telas; a falta de peças no esqueleto do seu trabalho; a paixão de{87}certas figuras, como de certos logares; a sua dolorosa e sensual sanha de necrographo, de par dos seus carinhos, como dos seus sustos pela morte; o monstruoso dos typos, desgarrando, autónomos, um drama proprio; o sentido da vida no que ella tem de mais intimo, como no que pode suggerir de mais esparso; a falta de ajustamento e equilibrio no curso da acção; e, para alem destas qualidades e defeitos, dos typos, como das situações, o Auctor, exuberante da sua razão de belleza a esmo, desmedindo, revolucionando a Arte, por servir a Arte; no seu intimo medroso, e instinctivamente avesso, se não inimigo de todo o methodo;—e, entretanto, sempre elle, comsigo mesmo, fazendo valer o defeito pelo que nelle nos dá de grande e imprevisto; creando das suas desproporções, uma Arte propria; arruando de graça a cidade amoral dos seus viciosos; enscenando{88}a vida do verde-amarello da sua biliosa de pamphletario;—e tudo como quem empresta a sua fatalidade de exotico aos homens e coisas a tratar; e sempre para alem de todas as convenções, como de todos os moldes academicos!Particularizemos, ainda um pouco, este seu processo, não tanto por firmar principios, como por tratar do seu ousio de Artista, ou seja das suas figuras de imaginação, visto que esta não é, nos emotivos do seu destino, mero delirio do sentido, mas, pelo contrario, uma força ainda a avaliar das suas creações.Effectivamente, bem errada e mesquinhamente trabalham os que se dão a encaixar a vida num preceito!Pois que esta é, de si, infinita, recurso{89}algum, por minimo, deve escapar ao seu apercebimento.Ora este cuidado tinha Fialho bem affecto da sensibilidade, cuja ancia de representação, jámais deixou de archivar tudo quanto a vida real ou a phantazia lhe importavam, embora, ás vezes, á doida,—fosse numa pagina, ou numa simples linha.Assim, naquelle mesmo volume—(Contos), ha um capitulo,Os dois Primos, em que apparece a sombra de Albertina, uma actriz, e que vale menos pela belleza real da sua figurinha de exigua, que pela sua presença artificializada de quasi-dahlia—ao acaso cahida num palco de Lisboa, onde elle, o Artista, a surprehende, á luz da suatoilette, á qual, por fim, de todo, attribue o successo feliz da sua linha decocotte!Este ainda um exemplo do seu occultismo{90}de Arte,—do seu segredo e poder de imprevisto.Tambem a mesma graça quasi infantil, de tratar a phantasia a que deu o nome deChavena da China, como todos os seus objectos e figurinhas do mais delicado relevo, usa elle já no conto—Os dois patifes, do mesmo volume, ao escrever ácerca de dois gatitos, verdadeiras porcellanas vivas e mexidas, e de cujas correrias elle logrou a deliciosa tragicomedia do arrasamento duma cidade de cartão, prenda de annos do pequeno Arthur.Lê-se dum folgo a linda historia, como essa outra—Ninho d'Aguia, de que, por egual, o Artista tira o partido, já notavel, do seu engenho de considerar figuras suaves e innocentes, e em que, tambem, as pobres aves do conto são tratadas como{91}barros vivos, a que sempre alligou carinhos que jámais o vimos dispender no capitulo humano da sua Obra.E propositadamente nos referimos a estas suas pequeninas obras primas, menos por feriar-nos da historia magoante dos seus nevroticos—figuras quasi-anjos, ao lado de mulheres e bambinos quasi-flores—do que por mostrar as delicadezas da sua Arte, tão sinceramente desegual, quanto, por vezes, exhaustiva, á conta de certas insistencias e mal escolhidos episodios.Comtudo, verdadeiramente grande é só mais tarde, quando, muito para alem daquelle livro, sae a moldar do seu genio adulto, então notavel de extremos recursos, a vida monstruosa dos grandes e desafortunados typos do seu fabulario. Reportamo-nos ao tempo daMadona do Campo Santo,{92}doAnão, da monographia-Manuele principalmente dosPobres.E, pois que mal poderiamos concluir do seu grande poder de plasticizar da Imaginação, sem nos referirmos a estas obras, tratemo-las, embora passageiramente, menos para as ver que para as apontar.OManuelé, sem contestação, a mais sincera figura da sua galeria deNocturnos. É um ser que da sua propria alma o Escriptor edita; e, de si, nos dá como um ex-voto á sua tortura de humano quando, penitente da propria escravidão da sua Arte, della se entrega a versar o que de mais inquietante ella tem:—o indefinido da sua universalidade dolorosa e reveladora. Quer dizer, é ainda menos do que uma obra de Arte, um espelho doloroso, em que elle se transfigura dos seus{93}medos, como dos seus sonhos,—dando-se ahi, de facto, como melhor nos não podia surdir:—no espectaculo da sua figura de receio, ou seja no esgar caricatural e dramatico da sua afflicção de presciente.Mas reconstruamos, tanto quanto possivel, por palavras suas, a sinistra figura deManuel, ainda por melhor a esclarecer.Primeiramente a creança:—«Era aos nove annos como uma figurinha de aguarella, fina de carnes, os cabellos sem pigmento, as unhas longas, a voz avelludada e com demoras sentimentaes em certas inflexões—amando a solidão e as musicas plangentes, colleccionando estampas de castellos, terrivel no amor como no odio, e duma volubilidade tal na phantasia, que era impossivel prende-lo a uma lição por meia hora, sem elle cortar o assumpto com extravagancias de mimo eenfant gaté.»{94}Mais:—«Tinha a feminilidade da igreja, o nervosismo do incenso, paixões quasi physicas por imagens, sentido este que nunca se lhe apagou de todo, e que a reclusão de Campolide exasperou a um mysticismo de fazer inquietações aos proprios padres.»Quando já homem, «no typo de algarvio, branco de cera, idealmente puro como a afilada gravação dum camafeu, a sua belleza tinha transcendencias extaticas, uma pacificação de tinta lurenta, macerada, esfallecida de insomnia; e dava a impressão dum destes insexuaes no gosto da Seraphita, cujo mysterio desorienta,—por terem tudo o que faz sonhar, sublinhado por tudo o que faz soffrer.»Esta a epoca em que o Escriptor melhor fixa o drama deManuel, que já daquelles retratos, resulta menos uma figura autonoma do que uma imagem de{95}especial e entranha vocação, especie de seraphim de egreja, dahi fugido por viver a vida emprestada do Artista que o elegeu.Mas sigamos, ainda mais vagarosamente, o graphico doloroso das suas grandes azas de anjo bohemio...Manuelchega a Lisboa quando—diz o Artista—«a bem dizer já ninguem esperava por elle», isto é, «quando decrescia no Martinho a terrivel phalange dos revoltados á Byron, e entrava a achar-se um tic pulha nas attitudes procuradas, nas vozes de chibato, nos olhares revoltos, e mais artificios de que até ali os homens de lettras se revestiam em publico, por fugir ao molde burguez da outra gente.»Era uma figura «toda nervos, altivo como se viesse de berço real», a preceito recortado pelo Artista, do seu album intimo,—o que lhe reproduzia as sombras carinhosas dos «bellos seres de excepção do{96}seu cyclo, os da extranha lumininosidade interior» que ante a sua «mysantropia moral» conseguiam impor-se, pela mesma razão do seu genio,—de que elle via chispar, a par de extravagantes «inauditismos» «maravilhas minusculas» da mais emotiva Arte.Chegado a Lisboa, ei-lo, primeiramente perplexo, o pobreManuel, no papel de anjo despregado, e, como que por acaso, transferido da Egreja da sua aldeia ao museu vivo duma cidade tão falha de interesse que nem sequer tem torpeza propria;—depois vivendo o expediente dos sem-recursos, longe dos seus, luctando entre o seu pudor de Artista e a intranquilidade do seu genio atrabiliario e dispersivo.Esta inadaptação é a mesma que depois lhe dá a Tragedia—aquella «tragedia dum homem de genio obscuro», que Fialho extrae da sua caprichosa maneira de reagir,{97}tal como devia sahir-lhe, lavrada de ironias—como daquella philosophia e tristeza que enchem a obra a que o Artista dá o nome de—«Esculpturaem fragmentos» pois que «dos seus avulsos bocados» ninguem poderia tirar mais do que «mutilações de uma grande estatua...»Ora, dessa estatua nos apresenta elle, a par de bocados infimos, com extranhezas caricaturaes e laivos dum rir doente,boutadese dôr inferior, por demais fragmentada, quasi sem significação de Arte,—trechos formidaveis, como certas passagens da «Noite de Alcacer Kebir», aliaz tão lugubres e intensivamente trabalhadas como raro encontramos outras, ainda na obra de Fialho.E, entretanto, não é a Arte deManuelo que mais interessa da sua biographia.O que melhor vale, e della resalta, é a sua mesma reacção, ainda mais que de encontro{98}ao meio alheio, quando do ruflar do seu genio no intimo de si proprio!Esta lucta fóca-a o Artista da sua lente amarello-lugubre, desde a primeira infancia do bohemio até á edade da «fixação do seu typo de adolescente» que estatua da «hereditariedade», desenvolvendo-se, determinando-se, sobretudo, na vida de collegio—na sua reclusão de Campolide, onde toda a ordem de factores apropriados, ajustando-se-lhe «como serpes» se porfiam «a esfuriar nesse corpinho espurio» todos os instinctos do seu genio de tarado, e que de si erguem o perfeito modelo morbido que, effectivamente, chega a realizar.Na sua vontade lassa nada mais governa que o proprio instincto do luxo, do inesperado, da extravagancia da sua ideação frouxa e admiravel,—como a inclinação bohemia da sua vida de acaso, á{99}qual se dá, sem que alguma vez se interrogue.Ainda por dessedentar os nervos, logo de começo perros ás suas exigencias, entrega-se á embriaguez.Tinha necessidade de excitar-se, de viver violentamente os seus delirios, ainda como por melhor escutar a sua nevrose, de tal arte mais nitida á sua sensacional expectação.Intermittentemente cahia em marasmos; tinha «syncopes de intelligencia» que eram como que sombras daquella sobrexcitação e o derivavam do seu tumulto ao que Fialho chamou os seus «crepusculos intellectuaes com sobrelaivos de perseguição e delirio religioso.»«De resto na sua esthetica, como na sua vida, sobresaltos de louco!»Depois dum maior exgottamento de vida nervosa, adoeceu gravemente, e tão{100}gravemente, informa o Escriptor, que não era difficil «marcar na sua intelligencia o accesso vesperal da sua ennublação».A partir deste momento deu-se a errar...A sua enfermidade era como que uma obsessão de si proprio, sempre alerta contra ooutro, isto é, contra aquelle que a sua duplicidade mental dava como presente aos seus menores actos—e lhe embaraçava tudo o que deliberasse!Novos dias e elle cada vez mais doente, erratico, somnambulo, com a paixão do alcool e o susto de tudo.Certa madrugada accordou horrorizado com a idéa de que o estavam a enterrar vivo e o desejo «de que o deixassem apodrecer fóra da cova»...A partir deste dia a sua vida torna-se pavorosa; é a creatura sem rumo, equilibrando-se, ao justo, no acaso geral do arranjo commum.{101}É, sobretudo, como expoente de vontade que o homem vale; ora elle perdera absolutamente a vontade, mantendo-se como que, provisoriamente, a dentro do seu corpo, ao tempo já desconjunctado de fantochino, e que lhe sobrevivia por milagre, como num assomo de quasi extravagante apego pelo que fôra...O resto adivinha-se:—é a convulsão das ultimas horas; são restos de sonho; os derradeiros phantasmas, nos seus derradeiros dias; é elle gritando a sua agonia doida, numa casa de saude, a pelejar a morte, como se, de minuto a minuto, lhe rompessem cordões nervosos; finalmente elle ainda, mas com a vida a fugir-lhe e como que afilando-se-lhe até perder-se na noite rehabilitante da sua podridão...E, entretanto, a sua historia não acaba ahi!Como noutro logar affirmamos, ha, para{102}alem da sua vida de symbolo, o caso vivo, em aberto, duma real figura da qual o bohemio «um duplo», se accrescenta e desdobra, e que, a nosso ver, é, nem mais nem menos, do que o seu proprio revelador,—o Artista que, na alludida monographia, sinceramente, lugubremente, trata o caso da morte deManuelcomo se a espreitasse em si proprio!Passaremos adiante a miuda informação daquelle desenlace, ainda logico dentro da extravagante «Tragedia de um homem de genio obscuro», por ver, de relance, o Artista, ao pretexto do admiravel estudo em analyse.De facto, qual a figura que surde para alem da mascara deManuel?É, affirma-lo-emos ainda uma vez, nem mais nem menos do que o Auctor, embora transfigurado da sua Arte:—isto é o artista «violento e contradictorio» que{103}dahi resulta; ou seja o escriptor atavicamente «presciente do raro em arte», com o mais extranho «senso pictoral de certos aspectos sociaes», de par do maior «poder amplificador dos grotescos»; o artista, a um tempo «fragmentario e dispersivo»; o transfigurador; a creatura perdida «em assumpções de genio» e logo baixada dos «fulgurantes cimos da intelligencia», como que distrahido por casos minimos; o «de filiação hysteriça e infancia convulsiva, terrivel no amor como no odio», o «mystico» e necrographo, de «vontade frouxa, com antipathias invenciveis pelos grandes fanfarrões da sociedade e escriptores lançados»—o emotivo, emfim, que noManuelnão faz mais do que esmaltar de picaresco e lugubre a sua propria figura, errando nelle o seu drama de morbido, e parabolando-lhe, nas attitudes, como na desgraça, os seus grandes pavores{104}da morte, de par da duvida que lhe advinha da sua mesma Obra, que, no fundo, julgava irremediavelmente episodica e fragmentaria![2]Por isso, tambem, ao deixar o quarto, dooutro, agonisante, elle põe na boca do indio, o Pratas, velho confidente dos dois, como que o echo do seu pensamento intimo:—«O ideal seria que a alma delle não morresse, e nós ainda a encontrassemos, intacta e genial, num outro mundo insubmisso»!Ainda uma vez mais, elle formula o seu velho sonho:—não acabar! Em ultima analyse:—o seu drama em duas palavras[3].{105}Finalmente nada mais haveria a escrever de commentario ao extraordinario capitulo da obra de Fialho que principalmente nos demos a desarticular ainda por compor a figura que nelle foi—se não tivessemos de incluir um tal trabalho na parte que reservamos das suas melhores provas.Como demonstração de Arte, mal poderiamos deixar de alludir ás paginas que fecham a tragedia, em parte verdadeira, deManuel—e que tambem, de si, são, ainda de uma precisão e valor notaveis.De facto, velou elle o doente de duas figuras que mal apparecem no curso da acção e, no quarto do moribundo, apresenta{106}silenciosas,—duas esphinges de odio que o encaram e ao Pratas, o segundo companheiro deManuel, como se fossem elles os verdadeiros culpados da sua desgraça!A primeira é um velho, o pae do doente que, depois de lhe ter negado os recursos, tomando á conta de extravagancia todos os seus dispendios, como o seu irremissivel alcance de saude, vem assistir-lhe á morte.A segunda, e mais notavel das duas figuras, é aquella que o Artista designa na folha-cartaz da monographia por—essa mulher de negro!«É, segundo informa, quasi velha, com um vestido negro e uma gollilha bordada, em grandes bicos. Sobre as orelhas ha já cabellos brancos, tem a pallidez macerada duma santa, as mãos reaes, queixo voluntario... Emtanto essa rigidez guarda uma{107}boca pura de creança, e sae dessa magua, uma obra prima de martyrio.»«Tóco, narra, por fim, as mãos do agonisante, um marmore molhado. Está a amanhecer lá fóra, e os cinzentos azues dessa madrugada de inverno entram no quarto, com albescencias funeraes que me espantam. Pelas quatro horas Pratas que lhe sustinha o pulso, dá de repente um grito: é o momento: e o velho erguendo-se, em vez de correr ao filho morto, é contra nós que parece crescer, rigidamente...»Eis o final do drama!Mas quem é aquellamulher de negro?Eis o que mal nos diz. O que della se sabe é unicamente que fôra uma rara figura de dedicação, envelhecendo no sonho de ser noiva do bohemio, que lhe escrevia, e elle amara vagamente...De momento, aponta-a o Artista como um regelo de amor, acaso um symbolo{108}assomado ali ainda por enscenar as ultimas horas do bohemio.Derivando, no exame das suas obras primas, ás paginas que, dentre as citadas, maior contraste offerecem com aquella monographia, encontramo-nos com o seu admiravel conto,—oAnão.Este demonstra, alem de tudo, de par da mais frisante extravagancia imaginativa, o seu grande poder caricatural.Trata-se duma ligeira farça que o auctor compõe, mais que dos personagens, das suas situações.Por outro lado, o drama é um jogo de riso, em cujo taboleiro Fialho incluiu uma pedra dolorosa—o Carrasquinho, oAnão...Este é uma figura minima, minuscula{109}a ponto de se perder na copa dum chapeo de pello, e no bolso da madrinha quando do seu casamento; é um quasi monstro de fabula, entre humano e herbivoro, de «focinho aguçado e movel, mascando sempre, com as bosseladuras da testa de tendencias conicas para chibato, sensivel e espantadiço aos rumores dispersos do campo, a quem os bodes reconheciam um ar de familia, e por quem as cabrinhas amorosamente se roçavam» quando elle, o pobre cabreiro, se misturava com ellas no redil.Casou com a Rosa «um cavallão da mais desmedida estatura, que a mãe trouxera vinte e sete mezes no ventre e levára seis dias a expulsar!»O Anão dansava o fandango e era videiro. De principio tudo lhe foi bem; a boda correra-lhe alegre, bem folgada, depois da qual o manageiro de Torres, o{110}Jacinthinho, se installou por metade de cada dia em casa da Rosa.Esta a desgraça! Quando oAnãochega a mulher bate-lhe e o manageiro obriga-o a dansar...A seis mezes do casamento a Rosa dá-lhe um rapagão, forte como «um boi bravo».Tudo no conto são confrontos e confusões de animaes armados...O Anão, cada vez mais chibato, lá vae vivendo, ora em casa, ora entre os sementões, sempre lamentando-se, na sua «voz balada», até que um dia, tendo-o a mulher enfaixado (por confusão com o filho) e conduzido á missa, lá o povileo toma-o pelo proprio diabo, e logo um devoto bebado o arremessa da torre abaixo, e era uma vez o pobre Carrasquinho, esborrachado contra as lages sepulcraes do adro!...Tal o esqueleto da historia que o genio{111}do humorista vae depois folhando das situações mais ridiculas, e que, de tal arte, lhe decorre viva, hilariante pelo imprevisto e desproporcionado dos personagens, e em que o pobre «grão de milho», mal sobresae como uma figurinha de amuleto, errando ao acaso vida emprestada.E, entretanto, é num tão exiguo personagem que, principalmente, o Auctor se dá a desenrolar aquella aventura, toda ella uma farça de dolorosa escravidão!O mesmo sestro que levara Fialho a apolegar a gente miuda, por attingir a expansão maxima do seu inegualavel empirismo de Arte, de semelhante forma lhe pautou a solução da vida em riso, que a breve trecho e involuntariamente derivava em farça. Ainda mais, deliciou-se da união dos elementos mais difficeis, como impossiveis até, quando, pelo drama convulso da sua polypersonalidade, se deu a parabolar{112}da vida real o mundo imaginativo das suas extravagantes suggestões de artista.Dahi as phantasias, no genero daquellas, ao lado de outras em que sobresaem mulheres como aMadona do Campo Santo, a quem dota da galantaria e gestos nobres dos cysnes, figurinha de suave illuminura, e que, mais ainda que do seu vicio de comer flores, elle parece alimentar do pão azymo da sua Arte!Mas não nos antecipemos á referencia que della nos deixou.Reunamos os fragmentos da estatua daMadona:—«restos, diz o Escriptor, da mais assombrosa esculptura que tem visto o mundo, e que, soldados por agulhas de ferro, ornam hoje o tumulo de Judith.»{113}Fotografia e assinatura de Fialho d'Almeida.Ora aMadona do Campo Santo, foi tambem uma das creações mais tratadas pela suave idolatria de Fialho, e que elle, antes do apaixonado Albano, se deu a estatuar numa hora de quasi divina loucura!E não é ainda casualmente que escrevemos da sua idolatria.A verdade é que o grande Artista foi, alem de tudo, um pagão, embora por fatalidade da sua arte de Extranho, por amor daquella Arte que ainda, de egual maneira, o fez religioso ou, melhor, sectario de toda a Belleza, como jámais conhecemos outro.É ver as paginas que dedica áMadona do Campo Santo, ao lado de outras, como as que abrem oPaiz das Uvas, e a admiravelSymphoniadaCidade do Vicio!Em todas ellas, que de adoraveis espectros de faunos e de sylphos:—creações phantasticas{114}do genio mysterioso da grande jornada humana immemoravel; e que a elle, ao Poeta, o levam a cantar (a sua obra é ali um hymno)—um quasi amor contra a natureza, de tão extravagante e brutal!E, entretanto, é ainda á «vibratilidade dolorosa do sol» que elle escreve e nos diz da «vida allucinada» que lhe vae em roda.Dahi, tambem, a sua litteratura, na apparencia difficil e desajustada, como um romance da Mythologia, gritada de Evohés, com palmas á belleza e á ebriedade, pompas sem rito, casos de flora animada e fauna monstruosa, com a sua multidão de satyros e dryades, formando junto a Baccho—o Deus da boca fogueirada de risos, acaso os mesmos que, por vezes, parecem tingir da sua cambiante algumas das paginas mais notaveis, ainda por menos verosimeis, do transfigurador!É dum folgo que se leem estas passagens{115}que quasi nos suggerem a esperança dum suave mundo de deuses reaes, pleno de sentido novo, e em que exuberem, a esmo, os fructos, e cresçam divinamente os marmores!Ora, dum tal poder de imaginação, e influencia de tudo, facil nos é derivar ao mais do seuatelierde estatuario do Exquisito; e, mais propriamente, ao caso daMadona do Campo Santo, a cujo proposito trouxemos aquelles recursos.AMadonaé, na verdade, uma das suas obras primas de mais justificado renome:—typo de mulher-insecto, dentando flores, amando por instincto, comendo com dôr, tocada, ainda por uma razão de belleza, do susto humano de morrer, gracil como uma ave, de resto frouxa e luarada como convinha a uma creatura do outro mundo...{116}E tão deslocada fôra, tão doutro mundo ella era, que Fialho, querendo apontar-nos, no final da novella, a estatua que da sua memoria desbastou Albano, é assim que a descreve:«Era uma maravilha unica de genio! Desabrochava completa, estendendo os braços para invocar Deus, por um assombro de equilibrio lançada na attitude de quem desprende vôos, desennovelando-se da base como uma labareda de sarça, em zig-zags aéreos. Esse phenomeno de extranha belleza, era ao mesmo tempo um prodigio de audacia, palpitava, falava, sentia-se soffrer e respirar, como uma creatura.»Notavel trecho, de si eloquente até ao excesso, e bem de molde a resuscitar a pobre Judith!Entretanto, permitta-se-nos, ainda a tal proposito, um breve parentheses, ou seja o{117}glossario de faceis considerações, á conta da sua esculptura.É tão somente para frisar que, ainda em Fialho, como para o mais dos plasticos portuguezes, a estatuaria é sobretudo narrativa.O marmore daMadonanão é, effectivamente, um mero acaso da imaginação do contista; bem pelo contrario, estava na logica da sua educação, pois que lhe proveio directamente da mesma causa romantica, que ainda, ao presente, determina o grande numero dos nossos estatuarios.Ainda mais, o movimento liberal, que, entre nós, começou em 1820, deu á Arte portugueza um motivo de ornamentação tão extranho como detestavel,—a estatuaria rhetorica, se assim podemos defini-la e que, de logo, começou a animar{118}os nossos terreiros publicos, onde mais ou menos todas as memorias discursam!E, a tal ponto a nossa exuberancia de latinos, ligou ao gesto o seu sentido de eternidade que, ainda hoje, reputariamos inverosimil, entre nós, a estatua, á maneira ingleza, como significado de mera presença,—a figura-marco, tal como surde, nas praças de Londres, menos como ficção de vida, do que, pelo contrario, como uma forma abstracta, e a que o Artista procura dar sempre aquella attitude quasi sagrada que, definitivamente, volve em symbolos as memorias!Comtudo, dado o facto do supremo poder de Fialho, como plastico, força é admittir que bem foi para a memoria de Judith a sua estatua, tal qual elle a trabalhou, como todo o drama de que circumscreveu a sua prodigiosa e raphaelesca figura,{119}a cuja decomposição, por fim, assiste, indifferente, depois que ella, já morta, de «face marbreada de roxo» e a «expressão carrancuda» por lhe terem arrancado a mascara,—começa a abater, da sua gracil e suave forma de noiva dos «esponsaes da eternidade...»Finalmente, o ultimo conto das suas apontadas obras—Os Pobres, comprehende um trecho curto, e, no entretanto, ainda mais notavel que os anteriores.E tão notavel que só a custo poderemos desarticular essa singularissima peça de Arte, tal a selvageria que dá cohesão á novella, concebida para alem de todas as ficções litterarias!Trata-se dum casamento de monstros numas ruinas, de «duas virgindades adormecidas»,{120}informa o narrador, que num momento vingam o amor abstemio de tantos annos, e celebram, á cumplicidade de uma noite tenebrosa, o seu brutal noivado.Elle, o macho, é um ser desprezivel, vivendo de restos, especie de cyphotico, aleijado pelo lapis de Velasquez; valente pela sua vida de carreira, ao ar livre; humilde; torto e forte como um azinho; animal corrido de todas as mesas, piolhento que as raparigas enjeitam e escarnecem nos serões:—figura, emfim, perdida no «immenso irradouro» que é, para elle, o mundo.Segue da Vidigueira para Pedrogão ao acaso do vento, que o esfarrapa, confundindo-o com a urze.Leva-o o mesmo fim de sempre:—pedir, errar...Vae por entre a esteva que o açouta; «o vento fala-lhe»; e, no emtanto, elle nada{121}ouve, caminhando á ventura, como um elemento deslocado da mesma noite sinistra que o persegue...Entra, por acaso, numa ruina, onde o guia primeiramente um resto de brazido, depois um farrapo de oração, que sae dum canto, por fim o cheiro da femea, uma sombra que escabuja a seu lado, e, num momento, desdobra para elle fios occultos de uma voluptuosidade instinctiva, toda animal.Elle presente-a; e ella fala-lhe, numa voz que é um rôgo, de que elle não sabe deslindar-se, até que começam de tecer-se novos fios do desejo dos dois, do impulso mutuo que subito os impelle um para o outro, como duas forças dum mesmo systema que a luxuria move e dão de si o ruido de corpos escamosos, «rimando urros», diz o Artista, numa especie de noivado de potestades, com ferezas e grunhidos de varrascos!{122}Tal o relato-impressão que do estupendo conto nos ficou, e pelo qual chegamos, naturalmente, e, por ultimo, ao fim dos maiores recursos de Fialho; e que, a partir deste momento, nos permittem averiguar da sua obra em conjuncto, atravez das paginas exemplificadas, como daquelles seus mais caracteristicos personagens.Ora, o que, dumas e doutros, de logo se nota é que o mesmo titulo deDoentios, que indica o seu primeiro livro, inculca tambem o grande numero das suas figuras-motivos.Entretanto, o que mal pode explicar-se, fóra do seu caso de raça, é o segredo da sua forma, ainda tão exoticamente plastica,—como o seu grande conhecimento da Arte pairante alem-fronteiras, e que, cumulativamente, exerceu de par dos móres diabolismos, ainda e sobretudo ao pretexto da nossa comedia publica.{123}Como quer que seja, propositadamente guardamos, para final do presente estudo, a analyse generica destes recursos, de que, já agora, partiremos para a revolução artistica que da sua penna levantou, sobretudo contra o pantano classico, e rhetorica do momento.A todos os formalismos, de facto, elle deu batalha, não só vencendo, mas, mais ainda, trazendo á Arte novas intenções, de par de melhores impulsos e novos rumos.Houve contemporaneos, como João de Deus e Bordallo, cujo inauditismo é tanto mais para admirar, quanto mais occulta nos deixaram a sua razão de Arte.Não é este o caso de Fialho, cujo genio reagiu sobre uma cultura intensa, procurada como num anceio de quasi exhaustação.{124}Desde Balzac, o mais notavel dos mestres do pensamento novo, até aos exquisitos Goncourts, lavrantes quasi diabolicos dos mil nadas mundanos, apostolos da graça, como do mais extravagante japonesismo litterario, todos os grandes contemporaneos elle conheceu e estudou; do mesmo passo que o seu espirito, com escala por todas as representações de Arte:—museus, revistas, theatros, escolas, industrias de luxo, por todo o espectaculo, emfim, onde houvesse que aprender,—se repartiu, talvez menos por enriquecer-se dos seus ensinamentos, que por colher as suggestões que do seu interesse mais tarde desenvolveu.Ora duma curiosidade de tal forma animada foi que, naturalmente, sahiu a editar o melhor da sua obra, como tudo o que da sua sympathia pelo raro elle poude discorrer atravez da sua dolorosa fadiga de supersensibilizado!{125}Assim, tambem, talvez nenhum dos escriptores do seu tempo conseguisse surprehender a Arte dos etherisados e extranhos cumes donde elle se deu a vertiginá-la.É ver as paizagens, quasi irreaes do seu lapis de crayonista; as suas figurinhas hystericas de branda genealogia biblica; os seus aleijados; as suas porcellanas, como todo o mundo phantastico da sua inegualavel Arte!Tambem é de costume, tratando-se de Fialho, escrever do que vulgarmente se considera a sua obra critica.Não o faremos nós, ainda em attenção ao criterio proprio de que Fialho não foi um critico, mas um impressionista.E, a proposito, vem recordar o caso de Ramalho que, depois de uma vida longa,{126}perscrutando a canseira extranha, talvez menos pelo trabalho de a corrigir que pelo vicio de a desfiar; depois duma fadiga insana por ver do trabalho alheio, no proposito de deixar definitivas as suas notações de pedagogo, sáe, por fim, a desculpar-se, na pagina derradeira do seu papel de critico, denunciando a publico a sua aspiração até ahi occulta,—imagina-se lá de que!—nem mais nem menos do que de poeta lyrico...E, comtudo, como é de estimar, a nova triste daquelle velho, figura rigida de portuense, com suas tintas de trato inglez, escrevendo á garrocha no couro endurecido de Portugal do tempo, afinal sobre o motivo constante e commum a todos os criticos,—ácerca dos mais versateis casos de gosto burguez!Porque, fundamentalmente, foi o gosto burguez que elle tratou, embora como uma{127}especie de jogador de penna contra os cenaculos havidos então como tradicionaes, e de que um acaso de civilização o fizera transfuga.Entretanto, é bem de archivar aquella sua pagina de contrição, ainda como desfecho do seu ingrato mister. É que, de facto, elle era um artista, e dahi o ter vindo a publico indultar-se, como em final provação, dos seus cançados propositos criticos, se não legar-nos, á hora da sua agonia litteraria, uma derradeira ironia...Contrariamente outros dos seus melhores contemporaneos, e entre todos:—Fialho, Eça, Bordallo e ainda Junqueiro (a despeito da sua escravidão politica)—haviam sido mais do que reformadores da Arte,—seus verdadeiros revolucionarios, isto no melhor sentido da desacreditada palavra.Vejamos, a traços rapidos, a acção que de um tal confronto advem, pois que{128}obteremos, assim, a par da divergencia dos temperamentos de maior interesse na vida artistica do tempo,—a sua systematização e um fim commum, ou tenha sido a notavel revolução litteraria que das suas provas resultou.Comecemos por Bordallo, bem por certo, ainda hoje, o menos estudado.Raphael Bordallo, que conseguiu tornar poderosa uma arte, entre nós desacreditadissima, mercê da chusma dos habilidosos:—a Caricatura, foi, de facto, o genio em bruto, um oleiro de amalgama, misturando, na sua masseira de Jove do tempo, toda a sorte de civilização, por mais desencontrada; trabalhando, ora de phantasia, ora dos seus apontamentos de rua; e, finalmente, editando-se, tal como Fialho, ainda por seu innato valor.Eça, talvez o de menos influencia, se{129}bem que tambem o unico que logrou admirações incondicionaes, foi, de facto, dentre todos, o menos original, que não o menos brilhante.No seuateliernão faltou petrecho algum dos mais necessarios ao arranjo dos seus livros de Arte, aliaz sempre duma belleza meditada, a bem dizer medida, e em que perpassa todo um methodo opiado de ironias, por entre as suas demais preoccupações de consciente marmorista e penitenciario da prosa.Finalmente, Junqueiro foi dentre as figuras litterarias do momento o mais sagaz e ajustavel á sua extranha confusão.Por isso tambem, logo que appareceu, se fez mister consagrá-lo, de par dos seus alexandrinos, ainda undisonos e revoados, á Hugo, e que os do tempo immediatamente se deram a ouvir, mais do que com attenção devida a uma obra de Arte, religiosamente,{130}como se nas suas rolantes e evocativas estrophes o Poeta orchestrasse a propria musica do mar...Mas deixemos propriamente o caso da acção politica por parte da geração a que pertenceu Fialho para o vermos, a elle, tal como tem de ficar, nessa outra revolução litteraria que sobreleva aquella, e á qual devemos mais attento exame.Fialho foi, bem por certo, sob tal ponto de vista, o maior do seu tempo, pois que realizou um verdadeiro revolucionario da Arte, que, partindo da admiração dos typos classicos, das paginas mais academicas, seguiu directamente o filão popular, colhendo e escrevendo, sem o corromper, o sentimento plebeu, sempre que este sentimento lhe poude expressar uma verdade, ou refundir{131}da phantasia situações e estados litterarios novos.E não se imagine que, ainda no capitulo menos original e mais facil da sua obra, como pamphetario, elle deixasse de mostrar os melhores ensinamentos e boa fé.É ver o que nos diz duma possivel Lisboa monumental, á sua maneira; dos seus propositos de substituição duma cidade á moderna, como a fizeram,—facil e incaracteristica,—por uma cidade-memoria!Ainda mais:—antes delle creara-se uma especie de constitucionalismo das Lettras, aliaz sempre, mais ou menos regradas ao gosto classico, o que, de egual maneira, satisfazia leitores e auctores...Ora Fialho foi um dos raros que, entre nós, com melhor ousio praticou o direito da escripta a flux, sem medos, como sem os{132}bardos aramados da covencional Litteratura anterior.Muito justas as suas paginas de theatro onde versou a nossa miserabilissima flora dramatica, e onde nem sequer teve a descontar á auctoridade com que a viu a pecha dalguma vez a ter tentado. O que elle nos diz dessas peçasinhas de acaso, que lá fóra seriam inverosimeis num theatro de suburbio, e que, entre nós, tão facilmente são alçadas, segundo a categoria jornalistica ou politica dos auctores, a peças de grande effeito, por um publico, ás vezes educado, mas sem coragem para patear ou sahir a meio da semsaboria em que, por via de regra, nos nossos palcos, as peças decaem!{133}Da Hespanha do Sul, sua visinha, vimos como soube orchestrar a luz, tanto do seu pincel, de par do mais da vida natural que, como ninguem, teve o poder de aperceber.Tambem elle, se vivesse em Hespanha, onde a sua intenção revolucionaria seria inopportuna, teria completado, talvez, o capitulo mais desfalcado de quanto escreveu:—referimo-nos, sobretudo, á sua maneira de tratar figuras e seus demais esboços de novellista.Entre nós, dados os multiplices acasos da mesquinhez publica, que affecta a nossa vida de livraria, e onde a maior parte dos auctores, de olhos fitos nacoterie, raro sabe trabalhar independentemente,—elle que começou por demolir, e demolirà outrance, gastando, a paginas plenas, talento e nervos, deixou-se, talvez, desviar, demasiadamente, pelas reclamações que do seu{134}valor o publico exigia; e dahi aquellas faltas, de que, por fim, a visão clara da derradeira hora lhe deu os mais angustiosos clarões!E, entretanto, se onde quer que está, chega a memoria do que vae passando,—com que surpresa ha de sentir (se lá ha surpresas) tudo isso que para ahi ficou após de si!É que, bem péor do que no seu tempo, os Artistas são hoje, para o grande numero dos mentores officiaes, meras figuras de acaso, cujos agoiros elles, os revolucionarios de hontem, por cautela, se dão a amordaçar; e, isto sómente, porque se não perturbe a troça a que a Nacionalidade desceu,—ou seja uma ceia de politicos, pela cerrada noite fóra, que vem de longe, e onde um teclado de dentes, instrumentando o desforço de fomes velhas, nem sequer deixa ouvir, por attenuar, a voz dosbaccarats...{135}Mas abandonemos, por uma razão de sensibilidade, a noticia do inopportuno festim.E pois que, sobre uma tal noite, acertou de baixar escuridão mais tragica, a que ameaça de subverter a raça, que, ainda por sua admiravel fatalidade, terá de triumphar,—vamos nós inventariando tudo o que ao presente de grande existe e futuramente possa servir-nos.Ora, no extranho conjuncto da nossa obra escripta, já hoje extrema,—têem, como acabamos de ver, o maior interesse, as paginas de Fialho, quer no seu valor intrinseco, quer pelo que representam em confronto com os demais e alheios padrões de Arte.Uma obra, unicamente, elle não teve de seu intento; e, conseguintemente, não logrou escrever, como a não escreveram, talvez, por a supporem então menos necessaria,{136}os que o precederam, e que, no entretanto, de momento, se torna preciso, quanto antes, compor, ainda por servir aquelle resurgimento.Reportamo-nos, (quem ainda o não sentiu?) á falta de umManual de Sensibilidade, o que equivale a informar—duma nova Cartilha, com destino á futura mocidade portugueza, e onde caibam as delicadezas porque sempre nos affirmamos, ainda atravez do mais accidentado da nossa jornada historica; e que hoje, mais do que nunca de opportunidade é que desde já occupem quem, para alem de todos os sectarismos—sinta, mais do que por si, pela Nacionalidade, a carinhosa obrigação de as versar!Trata-se, de resto, dum livro facil, pois que nos não é preciso mais do que editá-lo dum bem orientado sentido popular, ou seja do nosso velho espirito de generosidade{137}e isenção, aliaz, de si, ainda latente, quando não expresso, na obra dos nossos maiores auctores,—tambem, quanto a nós, os melhores, se não, até hoje, os unicos interpretes da verdadeira alma de Portugal.Ancede, novembro de 1916.

Fotografia de Fialho d'Almeida.FIALHO D'ALMEIDA

Fotografia de Fialho d'Almeida.

FIALHO D'ALMEIDA

{81}

Nenhumoutro documento mais interessante, se bem que mais difficil de ler, do que o primeiro livro dum Artista.

Toda a obra de Arte tem a sua infancia que importa ver na prova-estreia do auctor, atravez dos seus defeitos, como das suas virtudes.

Ora essa difficuldade eu senti ao ler osContosde Fialho, quer pela exuberancia de vida episodica de que esta obra se enreda, quer pelo tumulto dos recursos que já ali o auctor revela.

Exemplificando.

Abre elle este seu primeiro livro por uma historia, em parte de sua observação, e em parte de phantasia,—A Ruiva.{82}

Pela intriga deste seu trabalho, vê-se que elle não chegou a realizar uma novella, no rigor geralmente attribuido ás composições deste nome. Bem pelo contrario, o que conseguiu foi uma serie de biographias, ou, mais propriamente, de exquisitas telas.

Fialho, muito do Sul, é, como já vimos, um pintor; ou melhor, um painelista, no geito dos pintores da Hespanha meridional, logrando, pela penna, conforme o seu poder de descriptivo, dar a côr, tonalidades e almas tão distantes e irreaes e, no entretanto, tão signaladamente intimas e perfeitas, como só as encontramos nas prodigiosas collecções dalguns auctores da Andaluzia,—isto a averiguar da impressão das suas manchas, como das suas madonas e dos seus aleijados, ou seja de quasi toda a sua galeria de excelsas e de sinistros!{83}

Assim, aRuiva, principal figura do conto em analyse, é uma especie de hyena de amor, transportando-se, quando os guardas do cemiterio saem, á casa do deposito, onde entra para escolher cadaveres!

É pela calma mysteriosa e calada que elle descreve a necrophila Carolina, misto de miseravel e viciosa, tacteando os mortos adolescentes, quasi possuindo-os.

Exquisita figura de virgem, a suave e brutal filha do coveiro, que Fialho trata com enthusiasmo, quasi carinhosamente, ainda na sua faina de amante de formas mortas!

A Marcellina é o typo vulgar da harpia, velha e sabia, que tendo aprendido da miseria tudo o que de mau ella ensina, volvera a sua experiencia num capital que lhe ia servindo para viver...

Para o caso, ella é a alcoveta que vende aRuivaa um rapazola, o João,{84}um precoce torpe, typo de bambino operario, official de marceneiro e fadista, que um momento a possue e quasi logo a abandona.

É filho dum bebado e duma desgraçada que elle, ainda creança, vae encontrar, pela ultima vez, namorgue, depois que a acabaram os maus tratos do marido.

E, tambem, dahi a sua historia, que em si resume a vida natural de todos os tresnoitados pelos portaes e escadas.

Por fim, fecha o conto o relato da faina livre de Carolina (aRuiva), primeiro assalariada numa fabrica, depois pelos quartos andares, vendendo-se a todos os vicios, até que, roida da tuberculose, chega ao hospital, donde sáe aos pedaços, como um gesso em cacos!

O seu enterro descreve-o o Artista no primeiro capitulo, como para impôr, logo de começo, o conto, de tal arte iniciado, á{85}maneira romantica, pelo seu episodio mais pio e sinistro.

É ahi que apparece a figura do coveiro, pae da Ruiva, uma especie de Antonio Pedro noHamlet, acaso transportado á taberna doPescada, onde o Contista o apresenta, bebado, a commentar a morte da filha!

Eis a noticia-summario do que temos pela estreia de Arte de Fialho, em 1878, ou tenha sido do tempo de quando elle, intencionalmente realista, com suas tintas de Hoffmann, se deu a iniciar a sua obra por uma figura, aliaz nada casual—aRuiva, cuja caveira nos aponta, ao fim do livro, sobre a sua banca de contista-medico, não se sabe bem, se como um despojo de estudioso, se como um cofre de osso de que antes, por capricho, se dera a extrahir uma novella...{86}

Como quer que seja, esta realiza menos o que pretende ser—a biographia da filha do coveiro—do que a primeira galeria de figuras da sua maneira extranha de pintar, e onde aRuivaacaso surge como que sombreada daquella maceração e tinta de luar que Zurbaran parece ter composto já da eternidade para espectrar as figuras tão suavemente doentes dos seus monges!

E, entretanto, como ali está, naquella simples novella todo o seu original processo, desde o poderosissimo descriptivo que lhe anima o melhor da obra, até á sua pintura, ainda narrativa, de costumes; a hesitação do Artista no papel violento ou declamatorio dos personagens; a sua maneira dispersa e fragmentaria; o dialogo; a imprecisão de traços; a preoccupação das grandes telas; a falta de peças no esqueleto do seu trabalho; a paixão de{87}certas figuras, como de certos logares; a sua dolorosa e sensual sanha de necrographo, de par dos seus carinhos, como dos seus sustos pela morte; o monstruoso dos typos, desgarrando, autónomos, um drama proprio; o sentido da vida no que ella tem de mais intimo, como no que pode suggerir de mais esparso; a falta de ajustamento e equilibrio no curso da acção; e, para alem destas qualidades e defeitos, dos typos, como das situações, o Auctor, exuberante da sua razão de belleza a esmo, desmedindo, revolucionando a Arte, por servir a Arte; no seu intimo medroso, e instinctivamente avesso, se não inimigo de todo o methodo;—e, entretanto, sempre elle, comsigo mesmo, fazendo valer o defeito pelo que nelle nos dá de grande e imprevisto; creando das suas desproporções, uma Arte propria; arruando de graça a cidade amoral dos seus viciosos; enscenando{88}a vida do verde-amarello da sua biliosa de pamphletario;—e tudo como quem empresta a sua fatalidade de exotico aos homens e coisas a tratar; e sempre para alem de todas as convenções, como de todos os moldes academicos!

Particularizemos, ainda um pouco, este seu processo, não tanto por firmar principios, como por tratar do seu ousio de Artista, ou seja das suas figuras de imaginação, visto que esta não é, nos emotivos do seu destino, mero delirio do sentido, mas, pelo contrario, uma força ainda a avaliar das suas creações.

Effectivamente, bem errada e mesquinhamente trabalham os que se dão a encaixar a vida num preceito!

Pois que esta é, de si, infinita, recurso{89}algum, por minimo, deve escapar ao seu apercebimento.

Ora este cuidado tinha Fialho bem affecto da sensibilidade, cuja ancia de representação, jámais deixou de archivar tudo quanto a vida real ou a phantazia lhe importavam, embora, ás vezes, á doida,—fosse numa pagina, ou numa simples linha.

Assim, naquelle mesmo volume—(Contos), ha um capitulo,Os dois Primos, em que apparece a sombra de Albertina, uma actriz, e que vale menos pela belleza real da sua figurinha de exigua, que pela sua presença artificializada de quasi-dahlia—ao acaso cahida num palco de Lisboa, onde elle, o Artista, a surprehende, á luz da suatoilette, á qual, por fim, de todo, attribue o successo feliz da sua linha decocotte!

Este ainda um exemplo do seu occultismo{90}de Arte,—do seu segredo e poder de imprevisto.

Tambem a mesma graça quasi infantil, de tratar a phantasia a que deu o nome deChavena da China, como todos os seus objectos e figurinhas do mais delicado relevo, usa elle já no conto—Os dois patifes, do mesmo volume, ao escrever ácerca de dois gatitos, verdadeiras porcellanas vivas e mexidas, e de cujas correrias elle logrou a deliciosa tragicomedia do arrasamento duma cidade de cartão, prenda de annos do pequeno Arthur.

Lê-se dum folgo a linda historia, como essa outra—Ninho d'Aguia, de que, por egual, o Artista tira o partido, já notavel, do seu engenho de considerar figuras suaves e innocentes, e em que, tambem, as pobres aves do conto são tratadas como{91}barros vivos, a que sempre alligou carinhos que jámais o vimos dispender no capitulo humano da sua Obra.

E propositadamente nos referimos a estas suas pequeninas obras primas, menos por feriar-nos da historia magoante dos seus nevroticos—figuras quasi-anjos, ao lado de mulheres e bambinos quasi-flores—do que por mostrar as delicadezas da sua Arte, tão sinceramente desegual, quanto, por vezes, exhaustiva, á conta de certas insistencias e mal escolhidos episodios.

Comtudo, verdadeiramente grande é só mais tarde, quando, muito para alem daquelle livro, sae a moldar do seu genio adulto, então notavel de extremos recursos, a vida monstruosa dos grandes e desafortunados typos do seu fabulario. Reportamo-nos ao tempo daMadona do Campo Santo,{92}doAnão, da monographia-Manuele principalmente dosPobres.

E, pois que mal poderiamos concluir do seu grande poder de plasticizar da Imaginação, sem nos referirmos a estas obras, tratemo-las, embora passageiramente, menos para as ver que para as apontar.

OManuelé, sem contestação, a mais sincera figura da sua galeria deNocturnos. É um ser que da sua propria alma o Escriptor edita; e, de si, nos dá como um ex-voto á sua tortura de humano quando, penitente da propria escravidão da sua Arte, della se entrega a versar o que de mais inquietante ella tem:—o indefinido da sua universalidade dolorosa e reveladora. Quer dizer, é ainda menos do que uma obra de Arte, um espelho doloroso, em que elle se transfigura dos seus{93}medos, como dos seus sonhos,—dando-se ahi, de facto, como melhor nos não podia surdir:—no espectaculo da sua figura de receio, ou seja no esgar caricatural e dramatico da sua afflicção de presciente.

Mas reconstruamos, tanto quanto possivel, por palavras suas, a sinistra figura deManuel, ainda por melhor a esclarecer.

Primeiramente a creança:

—«Era aos nove annos como uma figurinha de aguarella, fina de carnes, os cabellos sem pigmento, as unhas longas, a voz avelludada e com demoras sentimentaes em certas inflexões—amando a solidão e as musicas plangentes, colleccionando estampas de castellos, terrivel no amor como no odio, e duma volubilidade tal na phantasia, que era impossivel prende-lo a uma lição por meia hora, sem elle cortar o assumpto com extravagancias de mimo eenfant gaté.»{94}

Mais:—«Tinha a feminilidade da igreja, o nervosismo do incenso, paixões quasi physicas por imagens, sentido este que nunca se lhe apagou de todo, e que a reclusão de Campolide exasperou a um mysticismo de fazer inquietações aos proprios padres.»

Quando já homem, «no typo de algarvio, branco de cera, idealmente puro como a afilada gravação dum camafeu, a sua belleza tinha transcendencias extaticas, uma pacificação de tinta lurenta, macerada, esfallecida de insomnia; e dava a impressão dum destes insexuaes no gosto da Seraphita, cujo mysterio desorienta,—por terem tudo o que faz sonhar, sublinhado por tudo o que faz soffrer.»

Esta a epoca em que o Escriptor melhor fixa o drama deManuel, que já daquelles retratos, resulta menos uma figura autonoma do que uma imagem de{95}especial e entranha vocação, especie de seraphim de egreja, dahi fugido por viver a vida emprestada do Artista que o elegeu.

Mas sigamos, ainda mais vagarosamente, o graphico doloroso das suas grandes azas de anjo bohemio...

Manuelchega a Lisboa quando—diz o Artista—«a bem dizer já ninguem esperava por elle», isto é, «quando decrescia no Martinho a terrivel phalange dos revoltados á Byron, e entrava a achar-se um tic pulha nas attitudes procuradas, nas vozes de chibato, nos olhares revoltos, e mais artificios de que até ali os homens de lettras se revestiam em publico, por fugir ao molde burguez da outra gente.»

Era uma figura «toda nervos, altivo como se viesse de berço real», a preceito recortado pelo Artista, do seu album intimo,—o que lhe reproduzia as sombras carinhosas dos «bellos seres de excepção do{96}seu cyclo, os da extranha lumininosidade interior» que ante a sua «mysantropia moral» conseguiam impor-se, pela mesma razão do seu genio,—de que elle via chispar, a par de extravagantes «inauditismos» «maravilhas minusculas» da mais emotiva Arte.

Chegado a Lisboa, ei-lo, primeiramente perplexo, o pobreManuel, no papel de anjo despregado, e, como que por acaso, transferido da Egreja da sua aldeia ao museu vivo duma cidade tão falha de interesse que nem sequer tem torpeza propria;—depois vivendo o expediente dos sem-recursos, longe dos seus, luctando entre o seu pudor de Artista e a intranquilidade do seu genio atrabiliario e dispersivo.

Esta inadaptação é a mesma que depois lhe dá a Tragedia—aquella «tragedia dum homem de genio obscuro», que Fialho extrae da sua caprichosa maneira de reagir,{97}tal como devia sahir-lhe, lavrada de ironias—como daquella philosophia e tristeza que enchem a obra a que o Artista dá o nome de—«Esculpturaem fragmentos» pois que «dos seus avulsos bocados» ninguem poderia tirar mais do que «mutilações de uma grande estatua...»

Ora, dessa estatua nos apresenta elle, a par de bocados infimos, com extranhezas caricaturaes e laivos dum rir doente,boutadese dôr inferior, por demais fragmentada, quasi sem significação de Arte,—trechos formidaveis, como certas passagens da «Noite de Alcacer Kebir», aliaz tão lugubres e intensivamente trabalhadas como raro encontramos outras, ainda na obra de Fialho.

E, entretanto, não é a Arte deManuelo que mais interessa da sua biographia.

O que melhor vale, e della resalta, é a sua mesma reacção, ainda mais que de encontro{98}ao meio alheio, quando do ruflar do seu genio no intimo de si proprio!

Esta lucta fóca-a o Artista da sua lente amarello-lugubre, desde a primeira infancia do bohemio até á edade da «fixação do seu typo de adolescente» que estatua da «hereditariedade», desenvolvendo-se, determinando-se, sobretudo, na vida de collegio—na sua reclusão de Campolide, onde toda a ordem de factores apropriados, ajustando-se-lhe «como serpes» se porfiam «a esfuriar nesse corpinho espurio» todos os instinctos do seu genio de tarado, e que de si erguem o perfeito modelo morbido que, effectivamente, chega a realizar.

Na sua vontade lassa nada mais governa que o proprio instincto do luxo, do inesperado, da extravagancia da sua ideação frouxa e admiravel,—como a inclinação bohemia da sua vida de acaso, á{99}qual se dá, sem que alguma vez se interrogue.

Ainda por dessedentar os nervos, logo de começo perros ás suas exigencias, entrega-se á embriaguez.

Tinha necessidade de excitar-se, de viver violentamente os seus delirios, ainda como por melhor escutar a sua nevrose, de tal arte mais nitida á sua sensacional expectação.

Intermittentemente cahia em marasmos; tinha «syncopes de intelligencia» que eram como que sombras daquella sobrexcitação e o derivavam do seu tumulto ao que Fialho chamou os seus «crepusculos intellectuaes com sobrelaivos de perseguição e delirio religioso.»

«De resto na sua esthetica, como na sua vida, sobresaltos de louco!»

Depois dum maior exgottamento de vida nervosa, adoeceu gravemente, e tão{100}gravemente, informa o Escriptor, que não era difficil «marcar na sua intelligencia o accesso vesperal da sua ennublação».

A partir deste momento deu-se a errar...

A sua enfermidade era como que uma obsessão de si proprio, sempre alerta contra ooutro, isto é, contra aquelle que a sua duplicidade mental dava como presente aos seus menores actos—e lhe embaraçava tudo o que deliberasse!

Novos dias e elle cada vez mais doente, erratico, somnambulo, com a paixão do alcool e o susto de tudo.

Certa madrugada accordou horrorizado com a idéa de que o estavam a enterrar vivo e o desejo «de que o deixassem apodrecer fóra da cova»...

A partir deste dia a sua vida torna-se pavorosa; é a creatura sem rumo, equilibrando-se, ao justo, no acaso geral do arranjo commum.{101}

É, sobretudo, como expoente de vontade que o homem vale; ora elle perdera absolutamente a vontade, mantendo-se como que, provisoriamente, a dentro do seu corpo, ao tempo já desconjunctado de fantochino, e que lhe sobrevivia por milagre, como num assomo de quasi extravagante apego pelo que fôra...

O resto adivinha-se:—é a convulsão das ultimas horas; são restos de sonho; os derradeiros phantasmas, nos seus derradeiros dias; é elle gritando a sua agonia doida, numa casa de saude, a pelejar a morte, como se, de minuto a minuto, lhe rompessem cordões nervosos; finalmente elle ainda, mas com a vida a fugir-lhe e como que afilando-se-lhe até perder-se na noite rehabilitante da sua podridão...

E, entretanto, a sua historia não acaba ahi!

Como noutro logar affirmamos, ha, para{102}alem da sua vida de symbolo, o caso vivo, em aberto, duma real figura da qual o bohemio «um duplo», se accrescenta e desdobra, e que, a nosso ver, é, nem mais nem menos, do que o seu proprio revelador,—o Artista que, na alludida monographia, sinceramente, lugubremente, trata o caso da morte deManuelcomo se a espreitasse em si proprio!

Passaremos adiante a miuda informação daquelle desenlace, ainda logico dentro da extravagante «Tragedia de um homem de genio obscuro», por ver, de relance, o Artista, ao pretexto do admiravel estudo em analyse.

De facto, qual a figura que surde para alem da mascara deManuel?

É, affirma-lo-emos ainda uma vez, nem mais nem menos do que o Auctor, embora transfigurado da sua Arte:—isto é o artista «violento e contradictorio» que{103}dahi resulta; ou seja o escriptor atavicamente «presciente do raro em arte», com o mais extranho «senso pictoral de certos aspectos sociaes», de par do maior «poder amplificador dos grotescos»; o artista, a um tempo «fragmentario e dispersivo»; o transfigurador; a creatura perdida «em assumpções de genio» e logo baixada dos «fulgurantes cimos da intelligencia», como que distrahido por casos minimos; o «de filiação hysteriça e infancia convulsiva, terrivel no amor como no odio», o «mystico» e necrographo, de «vontade frouxa, com antipathias invenciveis pelos grandes fanfarrões da sociedade e escriptores lançados»—o emotivo, emfim, que noManuelnão faz mais do que esmaltar de picaresco e lugubre a sua propria figura, errando nelle o seu drama de morbido, e parabolando-lhe, nas attitudes, como na desgraça, os seus grandes pavores{104}da morte, de par da duvida que lhe advinha da sua mesma Obra, que, no fundo, julgava irremediavelmente episodica e fragmentaria![2]

Por isso, tambem, ao deixar o quarto, dooutro, agonisante, elle põe na boca do indio, o Pratas, velho confidente dos dois, como que o echo do seu pensamento intimo:—«O ideal seria que a alma delle não morresse, e nós ainda a encontrassemos, intacta e genial, num outro mundo insubmisso»!

Ainda uma vez mais, elle formula o seu velho sonho:—não acabar! Em ultima analyse:—o seu drama em duas palavras[3].{105}

Finalmente nada mais haveria a escrever de commentario ao extraordinario capitulo da obra de Fialho que principalmente nos demos a desarticular ainda por compor a figura que nelle foi—se não tivessemos de incluir um tal trabalho na parte que reservamos das suas melhores provas.

Como demonstração de Arte, mal poderiamos deixar de alludir ás paginas que fecham a tragedia, em parte verdadeira, deManuel—e que tambem, de si, são, ainda de uma precisão e valor notaveis.

De facto, velou elle o doente de duas figuras que mal apparecem no curso da acção e, no quarto do moribundo, apresenta{106}silenciosas,—duas esphinges de odio que o encaram e ao Pratas, o segundo companheiro deManuel, como se fossem elles os verdadeiros culpados da sua desgraça!

A primeira é um velho, o pae do doente que, depois de lhe ter negado os recursos, tomando á conta de extravagancia todos os seus dispendios, como o seu irremissivel alcance de saude, vem assistir-lhe á morte.

A segunda, e mais notavel das duas figuras, é aquella que o Artista designa na folha-cartaz da monographia por—essa mulher de negro!

«É, segundo informa, quasi velha, com um vestido negro e uma gollilha bordada, em grandes bicos. Sobre as orelhas ha já cabellos brancos, tem a pallidez macerada duma santa, as mãos reaes, queixo voluntario... Emtanto essa rigidez guarda uma{107}boca pura de creança, e sae dessa magua, uma obra prima de martyrio.»

«Tóco, narra, por fim, as mãos do agonisante, um marmore molhado. Está a amanhecer lá fóra, e os cinzentos azues dessa madrugada de inverno entram no quarto, com albescencias funeraes que me espantam. Pelas quatro horas Pratas que lhe sustinha o pulso, dá de repente um grito: é o momento: e o velho erguendo-se, em vez de correr ao filho morto, é contra nós que parece crescer, rigidamente...»

Eis o final do drama!

Mas quem é aquellamulher de negro?

Eis o que mal nos diz. O que della se sabe é unicamente que fôra uma rara figura de dedicação, envelhecendo no sonho de ser noiva do bohemio, que lhe escrevia, e elle amara vagamente...

De momento, aponta-a o Artista como um regelo de amor, acaso um symbolo{108}assomado ali ainda por enscenar as ultimas horas do bohemio.

Derivando, no exame das suas obras primas, ás paginas que, dentre as citadas, maior contraste offerecem com aquella monographia, encontramo-nos com o seu admiravel conto,—oAnão.

Este demonstra, alem de tudo, de par da mais frisante extravagancia imaginativa, o seu grande poder caricatural.

Trata-se duma ligeira farça que o auctor compõe, mais que dos personagens, das suas situações.

Por outro lado, o drama é um jogo de riso, em cujo taboleiro Fialho incluiu uma pedra dolorosa—o Carrasquinho, oAnão...

Este é uma figura minima, minuscula{109}a ponto de se perder na copa dum chapeo de pello, e no bolso da madrinha quando do seu casamento; é um quasi monstro de fabula, entre humano e herbivoro, de «focinho aguçado e movel, mascando sempre, com as bosseladuras da testa de tendencias conicas para chibato, sensivel e espantadiço aos rumores dispersos do campo, a quem os bodes reconheciam um ar de familia, e por quem as cabrinhas amorosamente se roçavam» quando elle, o pobre cabreiro, se misturava com ellas no redil.

Casou com a Rosa «um cavallão da mais desmedida estatura, que a mãe trouxera vinte e sete mezes no ventre e levára seis dias a expulsar!»

O Anão dansava o fandango e era videiro. De principio tudo lhe foi bem; a boda correra-lhe alegre, bem folgada, depois da qual o manageiro de Torres, o{110}Jacinthinho, se installou por metade de cada dia em casa da Rosa.

Esta a desgraça! Quando oAnãochega a mulher bate-lhe e o manageiro obriga-o a dansar...

A seis mezes do casamento a Rosa dá-lhe um rapagão, forte como «um boi bravo».

Tudo no conto são confrontos e confusões de animaes armados...

O Anão, cada vez mais chibato, lá vae vivendo, ora em casa, ora entre os sementões, sempre lamentando-se, na sua «voz balada», até que um dia, tendo-o a mulher enfaixado (por confusão com o filho) e conduzido á missa, lá o povileo toma-o pelo proprio diabo, e logo um devoto bebado o arremessa da torre abaixo, e era uma vez o pobre Carrasquinho, esborrachado contra as lages sepulcraes do adro!...

Tal o esqueleto da historia que o genio{111}do humorista vae depois folhando das situações mais ridiculas, e que, de tal arte, lhe decorre viva, hilariante pelo imprevisto e desproporcionado dos personagens, e em que o pobre «grão de milho», mal sobresae como uma figurinha de amuleto, errando ao acaso vida emprestada.

E, entretanto, é num tão exiguo personagem que, principalmente, o Auctor se dá a desenrolar aquella aventura, toda ella uma farça de dolorosa escravidão!

O mesmo sestro que levara Fialho a apolegar a gente miuda, por attingir a expansão maxima do seu inegualavel empirismo de Arte, de semelhante forma lhe pautou a solução da vida em riso, que a breve trecho e involuntariamente derivava em farça. Ainda mais, deliciou-se da união dos elementos mais difficeis, como impossiveis até, quando, pelo drama convulso da sua polypersonalidade, se deu a parabolar{112}da vida real o mundo imaginativo das suas extravagantes suggestões de artista.

Dahi as phantasias, no genero daquellas, ao lado de outras em que sobresaem mulheres como aMadona do Campo Santo, a quem dota da galantaria e gestos nobres dos cysnes, figurinha de suave illuminura, e que, mais ainda que do seu vicio de comer flores, elle parece alimentar do pão azymo da sua Arte!

Mas não nos antecipemos á referencia que della nos deixou.

Reunamos os fragmentos da estatua daMadona:—«restos, diz o Escriptor, da mais assombrosa esculptura que tem visto o mundo, e que, soldados por agulhas de ferro, ornam hoje o tumulo de Judith.»{113}

Fotografia e assinatura de Fialho d'Almeida.

Fotografia e assinatura de Fialho d'Almeida.

Ora aMadona do Campo Santo, foi tambem uma das creações mais tratadas pela suave idolatria de Fialho, e que elle, antes do apaixonado Albano, se deu a estatuar numa hora de quasi divina loucura!

E não é ainda casualmente que escrevemos da sua idolatria.

A verdade é que o grande Artista foi, alem de tudo, um pagão, embora por fatalidade da sua arte de Extranho, por amor daquella Arte que ainda, de egual maneira, o fez religioso ou, melhor, sectario de toda a Belleza, como jámais conhecemos outro.

É ver as paginas que dedica áMadona do Campo Santo, ao lado de outras, como as que abrem oPaiz das Uvas, e a admiravelSymphoniadaCidade do Vicio!

Em todas ellas, que de adoraveis espectros de faunos e de sylphos:—creações phantasticas{114}do genio mysterioso da grande jornada humana immemoravel; e que a elle, ao Poeta, o levam a cantar (a sua obra é ali um hymno)—um quasi amor contra a natureza, de tão extravagante e brutal!

E, entretanto, é ainda á «vibratilidade dolorosa do sol» que elle escreve e nos diz da «vida allucinada» que lhe vae em roda.

Dahi, tambem, a sua litteratura, na apparencia difficil e desajustada, como um romance da Mythologia, gritada de Evohés, com palmas á belleza e á ebriedade, pompas sem rito, casos de flora animada e fauna monstruosa, com a sua multidão de satyros e dryades, formando junto a Baccho—o Deus da boca fogueirada de risos, acaso os mesmos que, por vezes, parecem tingir da sua cambiante algumas das paginas mais notaveis, ainda por menos verosimeis, do transfigurador!

É dum folgo que se leem estas passagens{115}que quasi nos suggerem a esperança dum suave mundo de deuses reaes, pleno de sentido novo, e em que exuberem, a esmo, os fructos, e cresçam divinamente os marmores!

Ora, dum tal poder de imaginação, e influencia de tudo, facil nos é derivar ao mais do seuatelierde estatuario do Exquisito; e, mais propriamente, ao caso daMadona do Campo Santo, a cujo proposito trouxemos aquelles recursos.

AMadonaé, na verdade, uma das suas obras primas de mais justificado renome:—typo de mulher-insecto, dentando flores, amando por instincto, comendo com dôr, tocada, ainda por uma razão de belleza, do susto humano de morrer, gracil como uma ave, de resto frouxa e luarada como convinha a uma creatura do outro mundo...{116}

E tão deslocada fôra, tão doutro mundo ella era, que Fialho, querendo apontar-nos, no final da novella, a estatua que da sua memoria desbastou Albano, é assim que a descreve:

«Era uma maravilha unica de genio! Desabrochava completa, estendendo os braços para invocar Deus, por um assombro de equilibrio lançada na attitude de quem desprende vôos, desennovelando-se da base como uma labareda de sarça, em zig-zags aéreos. Esse phenomeno de extranha belleza, era ao mesmo tempo um prodigio de audacia, palpitava, falava, sentia-se soffrer e respirar, como uma creatura.»

Notavel trecho, de si eloquente até ao excesso, e bem de molde a resuscitar a pobre Judith!

Entretanto, permitta-se-nos, ainda a tal proposito, um breve parentheses, ou seja o{117}glossario de faceis considerações, á conta da sua esculptura.

É tão somente para frisar que, ainda em Fialho, como para o mais dos plasticos portuguezes, a estatuaria é sobretudo narrativa.

O marmore daMadonanão é, effectivamente, um mero acaso da imaginação do contista; bem pelo contrario, estava na logica da sua educação, pois que lhe proveio directamente da mesma causa romantica, que ainda, ao presente, determina o grande numero dos nossos estatuarios.

Ainda mais, o movimento liberal, que, entre nós, começou em 1820, deu á Arte portugueza um motivo de ornamentação tão extranho como detestavel,—a estatuaria rhetorica, se assim podemos defini-la e que, de logo, começou a animar{118}os nossos terreiros publicos, onde mais ou menos todas as memorias discursam!

E, a tal ponto a nossa exuberancia de latinos, ligou ao gesto o seu sentido de eternidade que, ainda hoje, reputariamos inverosimil, entre nós, a estatua, á maneira ingleza, como significado de mera presença,—a figura-marco, tal como surde, nas praças de Londres, menos como ficção de vida, do que, pelo contrario, como uma forma abstracta, e a que o Artista procura dar sempre aquella attitude quasi sagrada que, definitivamente, volve em symbolos as memorias!

Comtudo, dado o facto do supremo poder de Fialho, como plastico, força é admittir que bem foi para a memoria de Judith a sua estatua, tal qual elle a trabalhou, como todo o drama de que circumscreveu a sua prodigiosa e raphaelesca figura,{119}a cuja decomposição, por fim, assiste, indifferente, depois que ella, já morta, de «face marbreada de roxo» e a «expressão carrancuda» por lhe terem arrancado a mascara,—começa a abater, da sua gracil e suave forma de noiva dos «esponsaes da eternidade...»

Finalmente, o ultimo conto das suas apontadas obras—Os Pobres, comprehende um trecho curto, e, no entretanto, ainda mais notavel que os anteriores.

E tão notavel que só a custo poderemos desarticular essa singularissima peça de Arte, tal a selvageria que dá cohesão á novella, concebida para alem de todas as ficções litterarias!

Trata-se dum casamento de monstros numas ruinas, de «duas virgindades adormecidas»,{120}informa o narrador, que num momento vingam o amor abstemio de tantos annos, e celebram, á cumplicidade de uma noite tenebrosa, o seu brutal noivado.

Elle, o macho, é um ser desprezivel, vivendo de restos, especie de cyphotico, aleijado pelo lapis de Velasquez; valente pela sua vida de carreira, ao ar livre; humilde; torto e forte como um azinho; animal corrido de todas as mesas, piolhento que as raparigas enjeitam e escarnecem nos serões:—figura, emfim, perdida no «immenso irradouro» que é, para elle, o mundo.

Segue da Vidigueira para Pedrogão ao acaso do vento, que o esfarrapa, confundindo-o com a urze.

Leva-o o mesmo fim de sempre:—pedir, errar...

Vae por entre a esteva que o açouta; «o vento fala-lhe»; e, no emtanto, elle nada{121}ouve, caminhando á ventura, como um elemento deslocado da mesma noite sinistra que o persegue...

Entra, por acaso, numa ruina, onde o guia primeiramente um resto de brazido, depois um farrapo de oração, que sae dum canto, por fim o cheiro da femea, uma sombra que escabuja a seu lado, e, num momento, desdobra para elle fios occultos de uma voluptuosidade instinctiva, toda animal.

Elle presente-a; e ella fala-lhe, numa voz que é um rôgo, de que elle não sabe deslindar-se, até que começam de tecer-se novos fios do desejo dos dois, do impulso mutuo que subito os impelle um para o outro, como duas forças dum mesmo systema que a luxuria move e dão de si o ruido de corpos escamosos, «rimando urros», diz o Artista, numa especie de noivado de potestades, com ferezas e grunhidos de varrascos!{122}

Tal o relato-impressão que do estupendo conto nos ficou, e pelo qual chegamos, naturalmente, e, por ultimo, ao fim dos maiores recursos de Fialho; e que, a partir deste momento, nos permittem averiguar da sua obra em conjuncto, atravez das paginas exemplificadas, como daquelles seus mais caracteristicos personagens.

Ora, o que, dumas e doutros, de logo se nota é que o mesmo titulo deDoentios, que indica o seu primeiro livro, inculca tambem o grande numero das suas figuras-motivos.

Entretanto, o que mal pode explicar-se, fóra do seu caso de raça, é o segredo da sua forma, ainda tão exoticamente plastica,—como o seu grande conhecimento da Arte pairante alem-fronteiras, e que, cumulativamente, exerceu de par dos móres diabolismos, ainda e sobretudo ao pretexto da nossa comedia publica.{123}Como quer que seja, propositadamente guardamos, para final do presente estudo, a analyse generica destes recursos, de que, já agora, partiremos para a revolução artistica que da sua penna levantou, sobretudo contra o pantano classico, e rhetorica do momento.

A todos os formalismos, de facto, elle deu batalha, não só vencendo, mas, mais ainda, trazendo á Arte novas intenções, de par de melhores impulsos e novos rumos.

Houve contemporaneos, como João de Deus e Bordallo, cujo inauditismo é tanto mais para admirar, quanto mais occulta nos deixaram a sua razão de Arte.

Não é este o caso de Fialho, cujo genio reagiu sobre uma cultura intensa, procurada como num anceio de quasi exhaustação.{124}

Desde Balzac, o mais notavel dos mestres do pensamento novo, até aos exquisitos Goncourts, lavrantes quasi diabolicos dos mil nadas mundanos, apostolos da graça, como do mais extravagante japonesismo litterario, todos os grandes contemporaneos elle conheceu e estudou; do mesmo passo que o seu espirito, com escala por todas as representações de Arte:—museus, revistas, theatros, escolas, industrias de luxo, por todo o espectaculo, emfim, onde houvesse que aprender,—se repartiu, talvez menos por enriquecer-se dos seus ensinamentos, que por colher as suggestões que do seu interesse mais tarde desenvolveu.

Ora duma curiosidade de tal forma animada foi que, naturalmente, sahiu a editar o melhor da sua obra, como tudo o que da sua sympathia pelo raro elle poude discorrer atravez da sua dolorosa fadiga de supersensibilizado!{125}

Assim, tambem, talvez nenhum dos escriptores do seu tempo conseguisse surprehender a Arte dos etherisados e extranhos cumes donde elle se deu a vertiginá-la.

É ver as paizagens, quasi irreaes do seu lapis de crayonista; as suas figurinhas hystericas de branda genealogia biblica; os seus aleijados; as suas porcellanas, como todo o mundo phantastico da sua inegualavel Arte!

Tambem é de costume, tratando-se de Fialho, escrever do que vulgarmente se considera a sua obra critica.

Não o faremos nós, ainda em attenção ao criterio proprio de que Fialho não foi um critico, mas um impressionista.

E, a proposito, vem recordar o caso de Ramalho que, depois de uma vida longa,{126}perscrutando a canseira extranha, talvez menos pelo trabalho de a corrigir que pelo vicio de a desfiar; depois duma fadiga insana por ver do trabalho alheio, no proposito de deixar definitivas as suas notações de pedagogo, sáe, por fim, a desculpar-se, na pagina derradeira do seu papel de critico, denunciando a publico a sua aspiração até ahi occulta,—imagina-se lá de que!—nem mais nem menos do que de poeta lyrico...

E, comtudo, como é de estimar, a nova triste daquelle velho, figura rigida de portuense, com suas tintas de trato inglez, escrevendo á garrocha no couro endurecido de Portugal do tempo, afinal sobre o motivo constante e commum a todos os criticos,—ácerca dos mais versateis casos de gosto burguez!

Porque, fundamentalmente, foi o gosto burguez que elle tratou, embora como uma{127}especie de jogador de penna contra os cenaculos havidos então como tradicionaes, e de que um acaso de civilização o fizera transfuga.

Entretanto, é bem de archivar aquella sua pagina de contrição, ainda como desfecho do seu ingrato mister. É que, de facto, elle era um artista, e dahi o ter vindo a publico indultar-se, como em final provação, dos seus cançados propositos criticos, se não legar-nos, á hora da sua agonia litteraria, uma derradeira ironia...

Contrariamente outros dos seus melhores contemporaneos, e entre todos:—Fialho, Eça, Bordallo e ainda Junqueiro (a despeito da sua escravidão politica)—haviam sido mais do que reformadores da Arte,—seus verdadeiros revolucionarios, isto no melhor sentido da desacreditada palavra.

Vejamos, a traços rapidos, a acção que de um tal confronto advem, pois que{128}obteremos, assim, a par da divergencia dos temperamentos de maior interesse na vida artistica do tempo,—a sua systematização e um fim commum, ou tenha sido a notavel revolução litteraria que das suas provas resultou.

Comecemos por Bordallo, bem por certo, ainda hoje, o menos estudado.

Raphael Bordallo, que conseguiu tornar poderosa uma arte, entre nós desacreditadissima, mercê da chusma dos habilidosos:—a Caricatura, foi, de facto, o genio em bruto, um oleiro de amalgama, misturando, na sua masseira de Jove do tempo, toda a sorte de civilização, por mais desencontrada; trabalhando, ora de phantasia, ora dos seus apontamentos de rua; e, finalmente, editando-se, tal como Fialho, ainda por seu innato valor.

Eça, talvez o de menos influencia, se{129}bem que tambem o unico que logrou admirações incondicionaes, foi, de facto, dentre todos, o menos original, que não o menos brilhante.

No seuateliernão faltou petrecho algum dos mais necessarios ao arranjo dos seus livros de Arte, aliaz sempre duma belleza meditada, a bem dizer medida, e em que perpassa todo um methodo opiado de ironias, por entre as suas demais preoccupações de consciente marmorista e penitenciario da prosa.

Finalmente, Junqueiro foi dentre as figuras litterarias do momento o mais sagaz e ajustavel á sua extranha confusão.

Por isso tambem, logo que appareceu, se fez mister consagrá-lo, de par dos seus alexandrinos, ainda undisonos e revoados, á Hugo, e que os do tempo immediatamente se deram a ouvir, mais do que com attenção devida a uma obra de Arte, religiosamente,{130}como se nas suas rolantes e evocativas estrophes o Poeta orchestrasse a propria musica do mar...

Mas deixemos propriamente o caso da acção politica por parte da geração a que pertenceu Fialho para o vermos, a elle, tal como tem de ficar, nessa outra revolução litteraria que sobreleva aquella, e á qual devemos mais attento exame.

Fialho foi, bem por certo, sob tal ponto de vista, o maior do seu tempo, pois que realizou um verdadeiro revolucionario da Arte, que, partindo da admiração dos typos classicos, das paginas mais academicas, seguiu directamente o filão popular, colhendo e escrevendo, sem o corromper, o sentimento plebeu, sempre que este sentimento lhe poude expressar uma verdade, ou refundir{131}da phantasia situações e estados litterarios novos.

E não se imagine que, ainda no capitulo menos original e mais facil da sua obra, como pamphetario, elle deixasse de mostrar os melhores ensinamentos e boa fé.

É ver o que nos diz duma possivel Lisboa monumental, á sua maneira; dos seus propositos de substituição duma cidade á moderna, como a fizeram,—facil e incaracteristica,—por uma cidade-memoria!

Ainda mais:—antes delle creara-se uma especie de constitucionalismo das Lettras, aliaz sempre, mais ou menos regradas ao gosto classico, o que, de egual maneira, satisfazia leitores e auctores...

Ora Fialho foi um dos raros que, entre nós, com melhor ousio praticou o direito da escripta a flux, sem medos, como sem os{132}bardos aramados da covencional Litteratura anterior.

Muito justas as suas paginas de theatro onde versou a nossa miserabilissima flora dramatica, e onde nem sequer teve a descontar á auctoridade com que a viu a pecha dalguma vez a ter tentado. O que elle nos diz dessas peçasinhas de acaso, que lá fóra seriam inverosimeis num theatro de suburbio, e que, entre nós, tão facilmente são alçadas, segundo a categoria jornalistica ou politica dos auctores, a peças de grande effeito, por um publico, ás vezes educado, mas sem coragem para patear ou sahir a meio da semsaboria em que, por via de regra, nos nossos palcos, as peças decaem!{133}

Da Hespanha do Sul, sua visinha, vimos como soube orchestrar a luz, tanto do seu pincel, de par do mais da vida natural que, como ninguem, teve o poder de aperceber.

Tambem elle, se vivesse em Hespanha, onde a sua intenção revolucionaria seria inopportuna, teria completado, talvez, o capitulo mais desfalcado de quanto escreveu:—referimo-nos, sobretudo, á sua maneira de tratar figuras e seus demais esboços de novellista.

Entre nós, dados os multiplices acasos da mesquinhez publica, que affecta a nossa vida de livraria, e onde a maior parte dos auctores, de olhos fitos nacoterie, raro sabe trabalhar independentemente,—elle que começou por demolir, e demolirà outrance, gastando, a paginas plenas, talento e nervos, deixou-se, talvez, desviar, demasiadamente, pelas reclamações que do seu{134}valor o publico exigia; e dahi aquellas faltas, de que, por fim, a visão clara da derradeira hora lhe deu os mais angustiosos clarões!

E, entretanto, se onde quer que está, chega a memoria do que vae passando,—com que surpresa ha de sentir (se lá ha surpresas) tudo isso que para ahi ficou após de si!

É que, bem péor do que no seu tempo, os Artistas são hoje, para o grande numero dos mentores officiaes, meras figuras de acaso, cujos agoiros elles, os revolucionarios de hontem, por cautela, se dão a amordaçar; e, isto sómente, porque se não perturbe a troça a que a Nacionalidade desceu,—ou seja uma ceia de politicos, pela cerrada noite fóra, que vem de longe, e onde um teclado de dentes, instrumentando o desforço de fomes velhas, nem sequer deixa ouvir, por attenuar, a voz dosbaccarats...{135}

Mas abandonemos, por uma razão de sensibilidade, a noticia do inopportuno festim.

E pois que, sobre uma tal noite, acertou de baixar escuridão mais tragica, a que ameaça de subverter a raça, que, ainda por sua admiravel fatalidade, terá de triumphar,—vamos nós inventariando tudo o que ao presente de grande existe e futuramente possa servir-nos.

Ora, no extranho conjuncto da nossa obra escripta, já hoje extrema,—têem, como acabamos de ver, o maior interesse, as paginas de Fialho, quer no seu valor intrinseco, quer pelo que representam em confronto com os demais e alheios padrões de Arte.

Uma obra, unicamente, elle não teve de seu intento; e, conseguintemente, não logrou escrever, como a não escreveram, talvez, por a supporem então menos necessaria,{136}os que o precederam, e que, no entretanto, de momento, se torna preciso, quanto antes, compor, ainda por servir aquelle resurgimento.

Reportamo-nos, (quem ainda o não sentiu?) á falta de umManual de Sensibilidade, o que equivale a informar—duma nova Cartilha, com destino á futura mocidade portugueza, e onde caibam as delicadezas porque sempre nos affirmamos, ainda atravez do mais accidentado da nossa jornada historica; e que hoje, mais do que nunca de opportunidade é que desde já occupem quem, para alem de todos os sectarismos—sinta, mais do que por si, pela Nacionalidade, a carinhosa obrigação de as versar!

Trata-se, de resto, dum livro facil, pois que nos não é preciso mais do que editá-lo dum bem orientado sentido popular, ou seja do nosso velho espirito de generosidade{137}e isenção, aliaz, de si, ainda latente, quando não expresso, na obra dos nossos maiores auctores,—tambem, quanto a nós, os melhores, se não, até hoje, os unicos interpretes da verdadeira alma de Portugal.

Ancede, novembro de 1916.


Back to IndexNext