A ESCOLA DE FLIRT

L'art et la science sont independants. La morale ne doit avoir aucune prise sur eux; jamais l'artiste, avant de faire une statue, jamais le philosophe avant de faire une loi, ne doivent se demander si cette statue sera utile aux mœurs, si cette loi portera les hommes à la vertu. L'artiste n'a pour but que de produire le beau, le savant n'a pour but que de trouver le vrai. Les changer en predicateurs, c'est les detruire. Il n'y a plus de science ni art dès que l'art et la science devienent des instruments de pedagogie et de gouvernement.H. TAINE.{8}{9}A ESCOLA DE FLIRTAOCONDE DEFIGUEIRÓ{10}{11}AESCOLA DEFLIRTOPROFESSOR.—Sem edade, 25 ou 40, tudo lhe convém. Uma mocidade que envelheceu, ou mocidade que duraquand même, «je meurs où je m'attache». Toda a pelle do rosto é sulcada por imperceptiveis rugas finissimas; a boca tem um sorriso de cético, mas os olhos ainda brilham. Parece ter conhecido tudo ou advinhado tudo. Se se olha para a boca, sente-se que conheceu, para os olhos, pensa-se que adivinhou.Elegante, uma ponta de preciosismo,—muito pouco!—apenas presentida na maneira como olha para as mãos deliciosamente cuidadas, como as d'uma senhora, viajou por toda a parte, indo mais ás festas mundanas do que aos museus, leu mais jornaes do que livros.ADISCIPULA.—Uma ingenuidade, que quer conhecer tudo, ignorando tudo. Vestida um poucoà la diable, seria positivamentefagotéesem a elegancia do corpo fino e leve e o brilho e o riso dos olhos e dos labios côr de rosa.A discipula vae procurar o professor da Escola de Flirt, discretamente annunciada por meio de circulares em papel lilaz com dois corações em chamas estilisados à maneira moderna. É n'um minusculo jardim seculoXVIIIportuguez, com um delgado repuxo a partir-se n'um pequeno tanque sem lavores e canteiros bordados por buxeiros. No centro d'um, uma anagua forma uma copa verde-clara de onde pendem as campanulas brancas que perfumam.OPROFESSOR—É v. ex.ª que...ADISCIPULA—Sim, senhor... Venho aqui tomar algumas lições. Fiz a minha educação{12}no convento; não tive occasião de aprender os rendimentos do Flirt. Casei sem amor, sem noivado, sem lua de mel... Um casamento de conveniencia... para o meu tutor. Escusou de prestar contas. Vim ha pouco para Lisboa. Aqui, toda a gente flirtea um pouco. Troçam do meu acanhamento, chamam-me Pires, até Possidonia, dizem que sou «old style», do tempo da rainha Anna... Recommendaram-me esta escola. Se não ensinam aqui as cortezias, dança, diversas maneiras de trazer asmouches, como no tempo de Moliére, mostram-nos como se conduz um flirt com a pericia com que o Jeronymo Condeixa guiavafour-in-hands.OPROFESSOR—V. ex.ª é intelligente?ADISCIPULA—(Modestamente)—Sou.OPROFESSOR—Formosa, vejo que é. (A discipula agradece) Gosta de toilettes?ADISCIPULA—Fagotéedurante a minha interminavel mocidade—vinte annos na provincia!—não possuo a complicada arte dafanfreluche.OPROFESSOR—Mas tem tendencias?ADISCIPULA—Enormes! Passo horas ao espelho a compor o meu pobre cabello, a pôr uma fita...OPROFESSOR—Mais tout ça c'est l'affaire de la femme de chambre!ADISCIPULA—(Indignada) Entregar-me a mãos mercenarias?!{13}OPROFESSOR—Mas minha senhora! Deve v. ex.ª fazer... permitta-me a expressão—as proprias meias? Passar as noites em compridos serões a alinhavar os corpetes com essas mãos que adivinho lindas sob a pellica da luva? (A discipula agradece.) Com certeza que não. Bem o vejo nos seus olhos que são, deixe-me dizer-lhe, d'um brilho incomparavel. (A discipula torna a agradecer.) Todos esses cuidados pertencem aos fornecedores. É por acaso a propria rosa que póda a roseira? Não! Ha jardineiros de mãos calosas e almas rudimentares que preparam a eclosão das orgulhosas flores que são o pasmo e o encantamento dos jardins. Ha creaturas que se dobram dias inteiros sobre sedas e rendas, pensando em cosinhadas e roes de roupa suja, e constroem fantasticas teias em que nos vamos prender, as deliciosas toilettes dos Redfern e dos Rouff... Porque se não deixa preparar por ellas? Ha cabelleireiras habeis que ageitam deliciosos penteados. Seja paciente, consinta que ellas a penteiem.ADISCIPULA—É absolutamente preciso? Não poderei prescindir?OPROFESSOR—Absolutamente... absolutamente... não... A formosura de v. ex.ª suppre muito... tudo... Mas é util.ADISCIPULA—Bem... E depois?OPROFESSOR—Sabe conversar?{14}ADISCIPULA—Meu Deus! No convento, no que conversavamos mais era nas Irmãs... para dizer mal d'ellas.OPROFESSOR—Dizer mal... é bom... mas de quando em quando... Senão cae-se nas soirées doSporting.—Lê?ADISCIPULA—ODiario Illustrado, todas as manhãs...OPROFESSOR—É pouco. Bourget—fala do coração. É um bom tema. Tudo o que se disser é verdadeiro e falso, de fórma que uma opinião é voltada do avesso com a maior facilidade. Falla de mulheres,toilettese almas, pezares e córtestailleurs, amores e rendas de corpetes...—umamacedoineque, para a conversação, tem o encanto da variedade.ADISCIPULA—Tenho o Larousse.OPROFESSOR—Bah! O Larousse é muito comprido. Não se pode falar em sociedade, como se não deve falar no diabo e em outras coisas do uso diario. Outro: Theuriet—é sentimental, cheio de lamurias; no campo, um chorão, n'uma sala, um piano. É optimo para as noites de luar, na praia, emquanto se faz a digestão.ADISCIPULA—Uma pastilha de Vichy em trezentas paginas.OPROFESSOR—Pouco mais ou menos. É um filho de Lamartine... Olhe, este é preciso cital-o... ás vezes... a troçar... Depois, todos osvient-de-paraitre. OFigaroassignala-os.{15}A proposito: são muitos. Leia dez paginas no começo, vinte no meio e as tres ultimas. Terá assim um verniz literario... completo.ADISCIPULA—Tenho entendido.OPROFESSOR—Mas isto é longo. Prefere entrar? Quer a primeira lição aqui ou na aula? Aqui?ADISCIPULA—Sim. Acho melhor. Sob as arvores, junto ás flores, a ouvir o murmurio dolente da agua que corre.OPROFESSOR—É poetica?ADISCIPULA—Quasi, ás vezes.OPROFESSOR—Não fica mal um pouco de poesia... Falar do mar e do estremecimento da lua sobre as aguas inquietas, comparar-se á agua movediça e infiel... Emfim são coisas para mais tarde. Vamos aos preliminares. Ah! Antes de mais nada: o nome de v. ex.ª?ADISCIPULA—Carmo... Maria do Carmo. As minhas amigas chamam-me a Carminho.OPROFESSOR—Um nome lindo...ADISCIPULA—Não se presta a madrigaes.OPROFESSOR—Um nome sabendo a flores silvestres...ADISCIPULA—Pires...OPROFESSOR—(Vae tomando calor)—Pelo contrario. Um nome que se desfaz na boca como umfondant, nome para murmurar nas horas perturbantes, nome que finalisa n'um franzir de labios, como para um beijo... Delicioso!{16}ADISCIPULA—Muito obrigada.OPROFESSOR—Bem. Bem. Passemos á lição. (Toma um falso ar amavel, faz brilhar na boca um sorriso, retorce o bigode loiro.)ADISCIPULA—Ouvil-o-hei com toda a attenção.OPROFESSOR—(Agradece com um gesto largo).Flirté uma palavra ingleza que deriva do francez. Já tem fóros de portugueza: Garrett empregou-a. É como uma batalha de flores entre duas pessoas de diferente sexo.ADISCIPULA—Com os espinhos?OPROFESSOR—Conforme: ha varias especies de flirt. Ha um em que as rosas são quasi todas guardadas por numerosos regimentos de espinhos: é o flirt agressivo, feito de recriminações. Ha quem lhe encontre encanto. Pff! Não lh'o aconselho. É bom para velhas de sessenta annos com osvieux beauxque foram seus namoros. Ha o flirt sentimental, aquelle a quem me referi ha pouco, comclair-de-lunee regatos prateados, o flirt com Theuriet e Alfred de Musset dos proverbios, um assucareiro em que caiu agua e vae entornando calda que pinga e lambusa. Horrivel! Mas tem os seus adoradores, missessur le retour, tias, meninas da Baixa espremidas nos espartilhos de baleia e aço—crosta d'um peixe que a ichtyologia ignora; é muito usado lá para os lados excentricos da Estefania. Ha—tome toda a attenção, pois{17}é o que convem ao seu genero de belleza...ADISCIPULA—V. Ex.ª confunde-me...OPROFESSOR—O que ha de mais sincero!... Ha um genero, o meu predilecto... (Ageita-se no banco, torna a retorcer o bigode, olha amorosamente para as unhas rosadas). É o flirt perfumado e finissimo, o fumo das cassoletas com perfumes leves, como se queimassem flores, petalas tremulas d'anemonas...ADISCIPULA—Como V. Ex.ª é eloquente!OPROFESSOR(Baboso)—É V. Ex.ª que me inspira!ADISCIPULA—Os seus olhos sublinham com tal calor as frases!OPROFESSOR—Um pouco de luz que vem dos seus!... Um reflexo do seu admiravel olhar! É por isso que falo assim. (Approxima-se d'ella). É o flirt em que o coração apenas perfuma... O que tem de bom uma flor? A propria materia? Não, que essa é unica, a mesma na couve lombarda e no lyrio. É o perfume e a côr. Do coração, tambem, só devemos permutar o perfume. Ora imagine: entregar um coração cheio de sangue, a palpitar como um peixe quando acaba de ser pescado!ADISCIPULA—Até mete medo!OPROFESSOR—Tem razão. Até mete medo. V. Ex.ª tem sempre razão.ADISCIPULA—Muito obrigada.OPROFESSOR—As pessoas formosas—e V.{18}Ex.ª é divinamente formosa—teem sempre razão.ADISCIPULA—V. Ex.ª é muito lisonjeiro.OPROFESSOR—A lisonja é o aroma da verdade. V. Ex.ª merece tudo.ADISCIPULA—V. Ex.ª é extraordinariamente amavel.OPROFESSOR—Podesse eu ser amavel para que todas as senhoras bonitas me amassem!ADISCIPULA—Todas?OPROFESSOR—Quando digo todas... V. Ex.ª comprehende que me refiro a uma só.ADISCIPULA—Feliz aquella...OPROFESSOR—Acha feliz?ADISCIPULA—Deve sentir o peito em festa...OPROFESSOR—Oh minha senhora!ADISCIPULA—Lembrar-me-hei de si. Nas noites infindaveis, quando me sento ao piano e os meus dedos correm sem fito sobre o teclado...OPROFESSOR—Como nardos que andassem...ADISCIPULA—Como póde dizer isso, se nunca as viu?OPROFESSOR—Adivinho-as. Mas gostaria de as vêr (Toma-lhe a mão). Estas luvas são de Paris?ADISCIPULA—Não senhor: são dos Gatos.OPROFESSOR—(Um pouco desapontado). Não importa. As mãos são lindas. (Vae desabotoando uma das luvas).{19}ADISCIPULA—(Consentindo). O que faz?OPROFESSOR—Estes botões são feios. Mas a pelle é finissima.ADISCIPULA—A da luva?OPROFESSOR—Não, a da mão.ADISCIPULA—Agradecida.OPROFESSOR—(Curva mais a cabeça approximando-se mais, assim, da mão).ADISCIPULA—(Sem a retirar). O que faz?OPROFESSOR—Nada, minha senhora... ia vêr melhor o grão da pelle.ADISCIPULA—(Ligeiramente desapontada). Ah! julguei...OPROFESSOR—Oh minha senhora! Pensar tal a meu respeito! Não sabe que o flirt é o amor sem desejo, a sombra do Amor? Eu não podia dar-lhe um beijo!{20}{21}FLIRTSA ANTONIOBANDEIRA{22}{23}FLIRTSMaria do Carmo, curvada sobre a meza, folheia os ultimosenvoisde Paquin e Redfern. Um candieiro com um largo quebra-luz de seda e rendas lança-lhe sobre o cabello uma aureola de oiro. O corpo está mergulhado na penumbra. Na sala, os moveis tomam aspectos fantasticos. Os espelhos teem um brilho pallido. Gonçalo, ao entrar, beija a mão que Maria do Carmo lhe estende, sem levantar os olhos dos papeis.MARIA DO CARMO—trinta annos, com dez de casamento. Sem filhos. A vida passa-se-lhe em visitas,raouts, recéções e bailes. Alguns livros da moda, recommendados por Marcel Ballot, noFigaro, e Jean Lorrain, por curiosidade. Interessante como um enigma, ás vezes perversa. Não se lhe conhece um amante, mas indicam-se muitos. Não toca piano.GONÇALO—não tem uma branca, mas no meio da animação, ficticia, vê-se um grande cançaço de viver, como se tivesse experimentado tudo. Procura por toda a parte, como umgourmet, o manjar fino. Epicurista, delicadamente depravado, como umrouéda Restauração, ou um elegante do fim da republica romana.—Ainda bem que veiu!... Preciso do seu bom conselho...—Como sempre, depois de ter feito alguma tolice?...—Impertinente!—É sempre assim. Pede-me o conselho depois de não precisar d'elle! De resto, dá na mesma: ninguem segue conselhos.{24}—Não. Tenho aqui estes dois albuns. De Paquin... De Redfern... São as ultimas creações. Estou tentada a escolher quasi tudo e a não escolher nenhum... Quer acreditar que tenho dias vazios na minha vida? Dias sem vontade, d'uma grande lassidão, em que nem sequer tenho forças para fingir que sorrío!...—Ame um pouco...—É coisa que se encommende? Acordo um dia, com a resolução de amar. É logo. O primeiro que me apparece na Avenida, aquelle que melhor dorme em S. Carlos, o caixeiro que me vende as fitas no Martins! Vê-se bem que nunca amou!—Não amei! Mas eu nãosou, euamo. É a minha maneira de existir. Um nasce cego; nasci amoroso...—Calle-se! Diga lá, qual d'estes vestidos prefere?—Sabe que é muito difficil escolher um vestido pelos desenhos feitosd'aprèsos manequins? O mesmo vestido toma aspectos differentes conforme as pessoas...—Não faça filosofia. Olhe este de Paquin: ligeiro, todo em rendas, em coisas leves, parece feito com flôres; o Redfern é mais hieratico; mesmo nos vestidos de baile conserva araideurdos córtestailleur. São vestidos para a Bouro, que parece ameaçar-nos constantemente com a sua corôa de marqueza. Este?{25}—Não lhe irá bem, talvez... O talhe da saia engrossa a sua figura, a que não vão bem...—O senhor treslê... Tudo me vae bem... Deixe lá os figurinos... Não sabe nada de vestidos... É como do coração. Aconselha-me a que ame...—E dou-lhe um bom conselho. Nem parece que sou seu amigo.—Trouxe hoje a alma de cinico?—Era a que tinha mais á mão. Estava ao cimo da gaveta...—Continuo a dizer: não percebe nada dos negocios do coração...—Não ha negocios do coração. O coração dá-se...—Não; troca-se...—Para quê? Não é preciso, no amor, ser-se correspondido. Basta amar. É possivel que para a felicidade seja necessaria a permuta...—O amor é o choque...—Muitas vezes o cheque.—Quejeu de motstão velho! É o choque de duas almas. É preciso que girem bem, no encontro. São duas electricidades que se combinam. Conhece a theoria das duas metades da maçã?—Conheço: é uma figura de rétorica...—Não é. Andam duas creaturas por esse mundo, ignorando o seu futuro, achando a vida sem rasão, idiota...{26}—Escolhe uma mentira vital, como diz Ibsen. Conheço-lhe ocharabia...—Deixe-me acabar. Corre mundos, faz tolices, fecha-se dias em casa, até vae ao circo ver as focas... E nada! Um dia, sem saber como nem porquê, uns olhos encontram-se com os seus, numa multidão. Ha a faisca... Pode ser um santo ou um bandido, lindo como o Rubempré, estupido como um tenor, candidato á grilheta ou futil como um janota. Fica-se presa; somos d'elle para toda a vida, ficamos amarradas a elle, como uma sombra... É assim o Amor, é feito de imprevistos... Não tem rasão alguma de ser, mas é.—Uma coisa fatal? Tem que ser?—Sim.—Permite-me que discorde?—É teimoso.—Sou. Já viu alguma discussão dar resultado? O amor é sempre creado por nós. Não amamos senão a pessoa que queremos amar. É, como tudo, um acto voluntario. Ha escolha. Vemos uma mulher, vinte, trinta vezes, sem nos fazer impressão alguma. Um dia ella repara em nós. Se é bonita, elegante, calça no Chapelle e veste na Lippman, pelo menos, a nossa vaidade sente-se satisfeita e começamos a descobrir-lhe encantos, a crear alguns, a afeiçoal-a ao nosso geito. Ao conversar com ella, pomos intensão nas frases ôcas que diz, vemos mysterio{27}no seu sorriso... Estamos presos.—Um bello dia, porém, por qualquer motivo, torna-se util acabar com o pesadello da mulher que aparece em toda a parte: sae das brasas do fogão, a que nos aquecemos, da pagina que lemos, do fumo do cigarro, do papel em branco em que vamos escrever ao nosso procurador. Repara-se um pouco nella. Descobre-se o primeiro defeito. Exageramol-o para o grotesco. E da deusa perfeita tambem as flores e fica uma caração que faz rir.—Uma theoria...—Não é, creia. Acontece-me isso duas ou tres vezes por anno. Sabe que ando sempre com uma paixoneta... ou mais. Levo oito dias a fazel-as cair do peito.—E vive feliz?—Inteiramente feliz. Saber contentar-se não é a suprema sabedoria? Para que se inventou oflirt?—Oflirt?Que horrivel coisa? É a «sombra chineza» do Amor...—É melhor. É o perfume. Os delicados contentam-se. É preciso comer uma flor? Não, basta respirar-lhe o aroma. Ora essas conversas, meio sentimentaes, a um canto, ditas em voz baixa, sublinhadas pelos olhos que toda a alma illumina, são como o roçar de azas que fossem flores. Ha o ligeiro premir dos dedos, sob os leques, certos tremores de labios, como se os beijos n'elles esvoaçassem, uma concentração{28}de todo o ser, que parece boiar no ether, leve... As phrases não se arrastam, n'um espasmo. Teem palpitações, lançam-se n'uma curva larga, até desapparecer em estrella. Não conhece oflirt. Todo o ser é livre e vae entregar-se, rendido... Cada palavra toma um sentido misterioso... Vou-lhe contar umflirt... Estava na Suissa.—Internacional?—Cosmopolita. N'um d'esses cantos, que ultimamente o Cook estraga, na Engadine. Paisagem de gelo, hotel de gente podre...—De chic?—De chic. Conheci uma americana, deliciosa como um fructo acre, que vivia fora dacoterie swell. O americano vae-se tornando terrivelmenterasta. Trinta annos? Talvez... Mas trinta annos frescos, sem rugas, viuva depois de dois mezes de escasso matrimonio com um formidavelbrasseur d'affairesde New-York, cerebro em ebulição permanente que acabou n'uma neurasthenia aguda. Iamos passear sós, pelo gelo. Sentavamo-nos nos pontos de vista que o Bœdeker não indica, paisagens tristes de tanta brancura, sem uma mancha. Fugiamos dosfive-ó-clock, daspartiesbulhentas em complicada companhia. Comecei a amal-a. Tinhamos lido os mesmos livros, sobre elles fallavamos: gostavamos das mesmas musicas, d'esse Schumann cheio de côr, dolente e envenenado;{29}preferiamos aos flamengos gordurosos e aos hespanhoes sombrios, o delicado misterio dos Vinci, a graça fina e brilhante de Raphael.A fallar de quadros e de romances, as nossas almas tocavam-se, porque um sentido novo brilhava em cada palavra; e parecia que cada frase terminava n'um beijo. Ás vezes, levemente, as nossas mãos tocavam-se. Era rapido e delicioso. D'esse contacto ficava uma lembrança, como d'um perfume. Amor platonico? Não. Umflirt. Sem arroubamentos. Sempre a Alma livre, sempre o beijo a tremer na bocca, sem cair... Uma ou outra vez, comprehende, por esquecimento...—Comprehendo. Sem malicia...—Essa mulher tinha realisado todo o meu sonho! De resto acontece-me isto muitas vezes. O sonho varía com as mulheres que nos interessam. Mas essa parecia realisar tudo. No seu corpo ambiguo, de egipcia, parecia conservar-se, como um fructo no gelo, uma adolescencia eterna. As suas mãos finas, pesadas de tantos anneis em que Vever pozera todo o seu genio estranho, floriam gestos d'uma caricia delicada e terna. A sua alma, que parecia ter visto tudo, ainda sentia a vida com frescura. As horas que passei junto d'ella! O perfume, uma mistura sabia d'Houbigants, entãodernier bateau, perturbava... Longe d'ella, não pensava n'outra coisa. Recordava-me dos gestos, os pequenos{30}detalhes datoilettee da conversa, um rosar de pelle sob as rendas, uma palavra, umgrain de beauté, que tinha na nuca. Sabe como acabou? Ella propoz-me casar. Fechei-me no quarto, horrorisado. Casar, eu? Uma mulher que me julgava capaz d'isso! Era preciso abater esse amor orgulhoso, que crescia no meu peito. Que defeito tinha ella? A principio não vi nenhum... Fui procurando. Tinha, ás vezes, quando fallavamos em francez, erros de grammatica deliciosos. Comecei a achar ridiculo essa ignorancia. D'ahi passou para os vestidos, para o corpo, o peito chato, sem ancas... Tudo caiu. Essa mulher pareceu-me horrorosa... Comecei a troçar d'ella, do seubas-bleuismo... Por fim ella resolveu partir. Lembro-me perfeitamente. O gerente do hotel levou-lhe um enorme ramo debluets, os raros amigos tambem lhe levaram flôres. Todo o carro estava cheio de flôres. Sentou-se entre ellas, afagava-as, cortára algumas para cheirar. Chorára. Ainda me deitou um molho, que tinha beijado. O carro partiu, como se fosse um açafate. E a sua face branca era como uma flôr triste... Não tive pena. O amor já caira. A gente ou gosta ou não gosta, conforme quer.—Vamos fazer umflirtpara experimentar?{31}LOGICAA ANTONIO DACOSTACABRAL (THOMAR){32}{33}LOGICAN'umgarden-party. Emquanto notennisse cruzam as palavras inglezas, e no kiosque, d'onde caem chuveiros de glicinias, se discutem mãos debridge, afastados, junto a um roseiral, Joanna, Maria e Miguel veem jogar.JOANNA—Toda a face branca é illuminada por dois largos olhos negros. Casada ha dois annos com umsportsman enragé, que prefere o cabo de umaraquette, o leme d'umoutrigger, oguidond'um automovel, á mais terna caricia da mulher. Usando e abusando do flirt, um em cada dia, ás vezes dois, tem periodos de fidelidade: quando quer torturar alguem. Provoca-o, chama-o, fal-o entontecer com promessas. Quando o vê absolutamente rendido, foge, para pensar n'outra coisa, ou em coisa alguma. Não vae ao fim de nada. Desenha, mas nunca terminou um esboço; toca piano, mas deixa sempre o trecho de musica suspenso a meio d'um compasso. Tem medo de acabar. É uma natureza hesitante.MIGUEL—Nada intellectual. Um bom animal intelligente. Tem viajado. Mas prefere osteeple-chasede Auteuil a umapremièreno Vaudeville. Admira a força. É um leal. Dá o seu coração sem reservas. É, actualmente, o flirt fixo de Joanna.MARIA—Vão-lhe falhando os admiradores. Os cabellos brancos não lhe ficam bem. Não sente muito a falta, nem se irrita com a felicidade alheia. Natureza simpatica, hoje rara.MARIA—... Encontrou o Cerqueira a passear d'um lado para o outro, no terraço do Hotel, a balbuciar phrases, os olhos fechados, um livro na mão.—Que estás tu a fazer?—Tenho{34}hoje de fazer uma declaração á Clotilde. Estou a estudar aqui no Bourget duas phrases tezas!...(Joanna e Miguel riem-se, mas deixam cair a conversa).MARIA—A Clotilde merecia-o. Quando se começaram a usar osflous, para que é precisopostiches, ella tinha escrupulos e explicava:—«Sei lá se o cabello pertenceu a alguma creatura damnada! E hei-de pôr na minha cabeça uma coisa de alguem que hoje está a arder nas profundas dos infernos!» O que acham vocês?(Joanna e Miguel tornam a rir-se, sem responder).MARIA—Já comprehendo. Vocês querem ficar sós... (levanta-se).JOANNA(sem convicção)—Não. Deixa-te estar...MIGUEL(a mesma coisa)—Pelo amor de Deus!...(Maria afasta-se, voltando ainda a cabeça para sorrir-lhes).MIGUEL(aprincipio, parece hesitar, por fim decide-se)—Afinal, o que quer de mim, ao certo?JOANNA—Eu?MIGUEL—Sim. O que quer de mim?JOANNA—Não comprehendo...MIGUEL—É bem facil!...JOANNA—Quer chamar-me estupida? Ha de concordar que é pouco amavel!...{35}MIGUEL—Não desvie a conversa. Sabe que mesmo que o pensasse não lh'o diria...JOANNA—Então pensa-o?MIGUEL—Não o penso; sabe isso muito bem.JOANNA—Uff! Respiro... Não poderia entrar na Academia, se fizesse tal conceito da minha intelectualidade... Não é assim que se diz, nos meiostrès dernier bateau?MIGUEL—Oh! por mim!...JOANNA—É o seu ambiente, o meio cosmopolita; é inseparavel dos diplomatas, delicia-se no Tyrol e em Roma...MIGUEL—Quer outra vez mudar a conversa. Não é verdade?JOANNA—Confesso-lhe que sim... Não percebo o que quer!...MIGUEL—Repito-lhe: é facil. O que quer de mim?JOANNA—Olhe: dê-me d'ali a minha sombrinha... N'este momento é a unica coisa que quero de si.(Miguel traz-lhe a sombrinha vermelha, que ella abre. A luz parece incendiar-lhe o chapeu branco, e toda a face branca).MIGUEL—Fallemos a serio, um pouco...JOANNA—Já me viu brincar? Na minha edade!...MIGUEL—Fishing for compliments?JOANNA—Será, se quizer... Oiço-lh'os tão poucas vezes!{36}MIGUEL—Queria passar a vida, como um d'esses pagens antigos, sentado a seus pés a cantar-lhe endeixas. Mas o seu sorriso paralisa, na minha bocca, o amor que vae a sair.JOANNA—É o que o Cerqueira chamava uma phrase tesa!MIGUEL—Porque troça de mim? Porque faz de mim seu joguete? Eu andava feliz e livre, sem mulher alguma que me preocupasse. Nunca andei tão alegre. Vivia a minha vida, livremente. Todas as mulheres bonitas me pareciam eguaes. Joanna começou a chamar-me, a dizer-me phrases que me prendiam, que me entonteciam. Tinha olhares para mim tão cheios de promessas, que corri como um esfomeado, diante d'uma mão que se lhe estende, carregada de vitualhas. E junto de si senti-me perturbado. Foram para mim as palavras mais carinhosas, aquellas que tinham um sentido ambiguo, banal para os estranhos, para mim precioso e comovido. Parecia um flirt terno. Subitamente, tudo mudou. Parece escolher tudo o que possa desagradar para dizer-me. É o flirt agressivo, em que d'uma das partes não ha amor, ou o quer esconder. E a conversa é toda feita de botes de florete, que muitas vezes arranham e podem até matar o amor.JOANNA—Tout passe, tout casse, tout lasse... Porque não ha de ser assim o Amôr?...MIGUEL—Mas deixe-o acabar por si, como{37}uma flôr n'um jardim deserto, que se desfolha aos poucos...JOANNA—Para apodrecer?...MIGUEL—Ó não, não apodrece. Evapora-se como uma essencia e deixa um perfume suave—uma recordação...JOANNA—Outra phrase tesa. Está terrivel!MIGUEL—Faça-me a justiça de pensar que não a li...JOANNA—Não. Ouviu-a em alguma peça... Você diz-me que não lê nada...MIGUEL—Leio oSeculo, todas as manhãs.JOANNA—Não acredito...MIGUEL—Palavra! Por causa das cotações da bolsa. Tenho uns dinheiros nos fundos russos... Mas não sobem... Ando infeliz em tudo: no jogo e nos amores.JOANNA—Nos amores? Diz isso a mim? Você é muito ingrato, Miguel!MIGUEL—Continua a brincar comigo!JOANNA—Agora é occasião de eu tambem fallar a serio. E faço-lhe a mesma pergunta que me fez ha pouco:—O que quer de mim?MIGUEL—(não atina com a resposta) Eu?JOANNA—Sim. O que quer? Tem um flirt comigo... É o meu preferido...MIGUEL—Diga antes favorito, como se tratasse d'um cavallo de corridas.JOANNA—É o meu favorito, seja. Gosta de mim? Muito. É o que ia a dizer, com alguma{38}rétorica. Não gosto eu de si? Não me ponho pelos cantos a fallar comsigo, a sós? Não estou aqui a apanhar sol, só por sua causa, para poder estar comsigo, em liberdade, sem ter ninguem que nos oiça? Não vou á Avenida todas as tardes para o vêr? Não olho para si sempre no theatro? Não lhe digo os dias em que voushoppingpelo Chiado? Para quê? Para estarmos juntos! Então que quer? Quer casar comigo? Mas sou casada e felizmente não ha o divorcio entre nós.MIGUEL(tristemente)—Felizmente?JOANNA—Sim! Felizmente. Primeiro, é contra a religião; depois, escusa a gente de se arrepender varias vezes de ter casado. Assim arrepende-se uma só. Não pode casar commigo. Então o que quer?(Miguel olha-a estupefacto. Não encontra resposta. A expressão de Joanna é equivoca. Miguel não sabe se falla ingenuamente, se quer mystifical-o. Cala-se).JOANNA—Então bem vê que não tem razão para se queixar de mim!MIGUEL(Tem o ar de quem apanhou de surpresa uma grande pancada. Olha para Joanna, para si, para os outros. Pensa que o desfrutam. Acodem-lhe á boca frases energicas. Levanta-se, ageita o fraque e despede-se).—Muito boa tarde!{39}ROMANTICOAO CONDE DEARNOSO{40}{41}ROMANTICO—Ajude-me a servir o chá, primo...Levantou-se. Na quasi obscuridade da sala, que tinha uma luz violacea—coada pelos vitraes onde se curvam lirios roxos—Clara parecia nascer dos tapetes, como uma graciosa e alta flôr de espuma. «Toilette» branca e ligeira, como pennas de ave, toda em musselinas, apenas indicando a elegancia do seu corpo fino, ia morrer no tapete branco...Ia por entre os moveis, offerecendo as chavenas onde fumegava o chá perfumado, que da China trazem lentas caravanas, por tortuosos caminhos. O seu corpo agil descrevia carinhosas curvas. O ruido das conversas continuava... Um «flirt» a um canto murmurava, como se as palavras ficassem nos labios. Paulo, de grupo em grupo, uma chavena na mão, contente por ser alguma coisa, junto d'ella, tinha na bôcca um sorriso beato.N'aquella tarde nem conversava. Entravam{42}e saiam as visitas, umas apressadas,—«apenas para saber de ti, Clara»—outras morosas, dando «rendez-vous» no salão elegante e discreto, onde na meia luz quasi se não conheciam as pessoas, podia-se estar sem ser visto. E Paulo, calado, n'um fauteuil a um canto, sorria para si proprio, olhando a figura indecisa de Clara, os cabellos loiros, na sala como enevoada onde apenas o fogão, por baixo do para-feu, tinha um brilho vermelho.Lembrava-se de todo o comprido caminho percorrido desde aquella noite em Cascaes, em que o impressionara a graciosidade de Clara, o seu aspecto de flôr fresca, sempre em «toilettes» leves, abundantes em gazas, crepons tenues. Certamente que, companheiro e parente, admirára sempre a belleza da prima, mas seguira outros caminhos, nunca reparára bem para o enigma perturbante dos olhos verdes, para a elegancia moderna, feita de graça, a gentil figurinha de Boldini, princeza de cera e de seda, cujas mãos eram dignas de vêr florir entre os dedos os anneis mais preciosos que Vever e Lalique inventam, em combinações de moribundas gemas. Nunca olhára bem para ella com olhos de vêr. Habituára-se desde a puberdade a vêl-a. E seus cubiçosos olhares procuravam outras mais distantes, que julgava conhecer menos, pelo encanto do imprevisto.Mas essa noite! Como lhe apparecia ainda,{43}depois de tantos mezes, nitidamente, essa noite d'um ceu leitoso, com uma lua enevoada, que se espalhava sobre o mar, sem brilho. Na varanda do Casino, quasi deserta, os Auers incidiam fortemente sobre Clara. No mar, em baixo, fogachos prateados tremiam. E além, as raras luzes da Cidadella; na Esplanada os focos esverdeados tiravam da sombra manchas de palmeiras e listravam de luz a agua inquieta, gemebunda e misteriosa.Paulo, recostado n'uma cadeira, olhava a mancha mais negra do yacht real, apagado, apezar das suas lanternas que tremeluziam no mar. O charuto caíra-lhe da boca. Foi uma frase preciosa de Clara que o acordou:—Quem me dirá um dia a cantilena do mar? Como ella embala! Como seria bom dormir a ouvir junto de nós a suave cantilena!Paulo olhou para ella surprehendido. Pois quê? Clara, a ultima florescencia dosraoutse dosteas, teria phrases de heroina de Rosseti, seria leitora de Ruskin? Foi então que reparou nos olhos cheios de sonhos e de misterio, na bocca dolorosa, a vermelha e fina bocca, no seu collo de infanta apenas nubil, em toda a adolescencia que se conservava intacta no corpo precioso, como um fructo no gelo.Começou então a seguil-a. Dura lhe foi a vida em theatros, jantares e bailes. Não faltava a umasauterie, a umaparty, que d'antes{44}o deixavam indifferente, ficando nas interminaveis partidas debluff. A dolorosa expressão que na bocca se vincára n'aquella noite do Casino desapparecera; um grande contentamento da vida parecia boiar á flor dos olhos garços e os movimentos rythmicos, que ella fazia, como se fosse ao som d'uma musica, eram livres, felizes, sem promessas.Não voltar o abandono d'aquella noite! Paulo desejava que Clara outra vez abrisse a sua alma, para elle sentir a caricia deliciosa.Mas a mulher amada conservava-se indifferente, risonha, um poucocoquette.Para os seus madrigaes escolhidos, preparados com antecedencia, buscados em livros de auctores novos, phrases perturbantes de Lorrain, perfumados disticos de Henri de Regnier, licenciosas palavras de Lionel des Rieux, com um sabor antigo, até o proprio d'Annunzio servira para a pilhagem,—para todos esses periodos carinhosos ella tinha o mesmo riso, que abria a bocca fina, descórada, que o traço de carmim violentaria a macerada pallidez da sua face:—Ah! Paulo! Ah! Paulo! Apaixonado por mim! Tenho-lhe conhecido tantas paixões? Só na semana passada, tres!—Se não penso senão em si!—Quando está commigo? Nem isso!—Clara! Clara! Se me conhecesse bem, veria{45}como a minha alma se fez para si um fresco bordão de assucenas...E outro riso claro cantava na bocca exangue, a troçar da phrase pretenciosa.Uma tarde, n'umgarden party, emquanto nocourtdetennisas palavras inglezas crusavam-se e os jogadores corriam, araquetteno ar, elles um pouco afastados, juntos a um macisso de jasmineiros que floria, cobrindo-se d'uma renda fina e branca de pequeninos jasmins, Paulo, esquecendo-se das phrases decoradas nos romances, deixou sair da bocca, livremente, toda a força e toda a anciedade do amor que parecia abrir-lhe uma chaga no peito, teve palavras em que fulgiam desejos, os olhos brilhavam, enternecidos, agarrou-lhe nas mãos, encheu de beijos as palmas roseas, puxou-a para si, e pôde dar-lhe, de surpresa, um grande beijo na bocca, soffrego, que Clara não pôde evitar.Voltada a si do pasmo, espantada pelo insolito atrevimento que a sua ligeiracoquetterienão permitira, quiz zangar-se; mas voltou a rir-se, como se esse beijo, que lhe deixara na boca um calor de chama, tivesse sido apenas uma phrase, das grandes phrases de Annunzio, tão cheias de volupia que entontecem, como os largos calices das magnolias n'um pequeno jardim fechado. E sempre a sentir na bocca a impressão ardente d'esse beijo, Clara correu{46}para otennis, a querer jogar tambem para esquecer-se.Era d'esse beijo que Paulo vivia, tomado de assalto, como n'uma pilhagem de egreja.E, apesar de Clara continuar a ser indifferente e risonha para elle, lembrava-se da perturbação que levára á alma ligeira da preciosa bonequinha de Nuremberg; olhos abertos, continuava a sonhar que esmagava os labios exangues sobre a pressão da sua bocca ávida.Paulo era um romantico. Paulo vivia de pouco, como as aves do ceu.{47}A BISANTINAA LUIZFERREIRA DECASTRO{48}{49}A BisantinaNo café, diante dococktailvulgar, eu esperava um amigo. Fôra mais cedo para a entrevista, de maneira que antes da hora lêra os jornaes, folheára as revistas, olhára para o relogio, consultára até o barometro, interessado. Iam saindo os clientes, aos poucos. Conforme se levantavam das mezas, o criado, n'umcracapagava a lampada electrica. Eu ficára já, n'um canto, quasi na meia luz. No fundo da sala as lampadas faiscavam nos espelhos, telintavam os pratos, as discussões cruzavam-se.Esperava em vão... Comecei a ceiar.D'ahi a pouco um rapaz veiu sentar-se ao pé de mim. Conhecia-o de o vêr nos cafés nocturnos, quasi sempre em companhia de mulheres faceis, estardalhando, contando façanhas de orgias nasvadrouillesde Montmartre; de quando em quando, como n'uma expansão, falava de um quadro que entrevira n'um museu, alguma{50}luminosa festa da Renascença, um nú veneziano, ou preciosas figurinhas dos primitivos, simples e mal desenhadas, entre brocados de oiro.Mas nunca me ligára, correndo a minha vida n'outra direcção. N'essa noite, admirei-me de elle deixar a bulhenta sociedade quesabrait le champagne, para se acolher ao silencio, á quasi obscuridade.A principio bebeu a pequenos goles o Bucellas que mandou buscar. Tinha o ar de quem hesita em praticar um acto, o recolhimento subito d'um gesto esboçado, ensimesmava-se, enchia novamente o copo, lia attentamente o rotulo da garrafa.Por fim debruçou-se para a minha meza:—O senhor gosta de coisas exoticas, das mulheres finamente perversas, do brilho das podridões...—Ó, não! Apenas dofaisandé!...—É uma questão de palavras... Tudo o que é ambiguo, perturbante, insexual, tenta-o; compraz-se no esmiuçamento das taras, é o chronista do irregular, doà coté. Prefere as monstruosas orchideas ás rosas, o enigma dos Vincis, á belleza forte dos Rubens. Deixa-me contar-lhe uma historia?Por certo que a minha phisionomia traiu o receio da maçada eminente. Toda a gente imagina que a sua vida é um «motivo» interessante{51}para um livro. E eu tenho deixado cair, como folhas secas, tantos casos que me contam, compridamente, com meandros de detalhes!—O senhor tem o dever de me ouvir e não se arrependerá! O senhor é um psicologo...—Não faço profissão...—Não importa. Tem obrigação.—N'esse caso...Resignei-me.O noctambulo começou a contar. Tinha a linguagem pittoresca, imageada, parecia comprazer-se com a sua phrase. Notei-lhe grande copia de estrangeirismos. Mas o caso pareceu-me interessante. Aqui o deixo registado.—Comprehende que eu,fetardcançado, que tenho visto museus entre duas ceias no Maxim ou no Carlton, que aprecio mais otea-roomdo Grand Hotel, de Roma, que oSalon Carrédo Louvre ou a sala de Velasquez, no Prado, só lhe poderei fallar da mulher ou do amor. E das mulheres que tenho conhecido, um pouco por todo o mundo, d'aquellas que teem ficado com um pouco da minha mocidade entre os dentes brancos ou os dedos esguios, só me recordo da ultima, que é a melhor e a peior, a que faz rir e soluçar, curva-nos n'uma somnolencia em que nos apparece muito mais bella do que é realmente, cingida com todas as joias com que a nossa phantasia a enfeita, mais cruel tambem, porque o amor torna mais cruciante{52}as dores, intensifica o desespero, cria a halucinação da Magua, inventa a Chiméra da turtura, essa Chimera de afiadas garras que nos retalham... Estou muito eloquente. Faça-me signal, quando lhe parecer Cicero...Imagine que conheci, n'uma pequena cidade italiana onde me fôra curar d'uma paixoneta recente, uma creatura singular, cujo encanto me prendeu quasi de subito. Era uma figura de bisantina, atavismo talvez, influencia das pinturas de Ravenna, onde passára a mocidade. E, artista, cultivava essa feição, arranjava penteados hieraticos, sem complicadas e rutilantes gemas, que o cofre do pae, mediscatro qualquer, não era abundante, mas com flores, essas rosas vermelhas de Pæstum, que ella propria cultivava, amorosamente, no pequeno jardim de sua casa. O que tinha de bisantina realmente, era a bocca fresca, a bocca innocente que sorria apenas, n'uma candura de primeira commungante, uma bocca que deixava em nós a impressão de que era um seraphim a sorrir. E não apetecia beijal-a: apenas quedar-se a gente deante d'ella á espera que nascesse a claridade auroral do sorriso, em que mostrava levemente o traço branco dos pequeninos dentes. Mas os olhos escuros desmentiam toda a infantilidade da bocca, o aspecto angelical do seu corpo magro d'adolescente, o collo branco e purissimo. Os olhos brilhavam como n'um{53}assalto, a ferir, sem ternura, no fundo uma repulsão ou um escarneo...Essa mulher tentou-me. Largos mezes fui todos os dias á sua casa onde me recebeu com palavras dulcissimas. Estendia-me a mão deliciosa para beijar, dizia-me frases que entonteciam como um vinho aspero, fazia passar por mim o perfume forte que punha nos longos cabellos, que ás vezes caíam pesadamente da cabeça, estendiam-se pelas costas, como uma rosa que se desfolha, d'uma vez, da haste. Ás vezes furtivamente, apertava-me a mão com força. E sorria-se ingenuamente a face de perola, eu via a innocencia de toda aquella figura, porque ella fechava os olhos, como se todo o seu ser adormecesse n'um espasmo.Ao sair, tinha remorsos de não ter beijado a bocca fresquissima, de não ter, sob a pressão dos meus labios, maguado os olhos maus.E toda a noite soluçava, enraivecido a desejal-a, até que de tarde ia visital-a, encontrava-a estendida, n'uma atitude de imperatriz, bisantina, em sedasmoirées, toda a gama do verde e do lilaz, a garganta descoberta. E n'um gesto estudado, estendia-me a mão, que eu beijava longamente, essa mão em que as gemas não brilhavam: escuras, opacas, pedras finas, opalas, como gottas de agua d'um lago envenenado.E a scena repetia-se. Eram perturbadores oaristos, que deixavam os nervos tensos e vibrantes.{54}Na voz amortecida e doce, dizia as palavras magicas que accendem fogachos. E quando ella via toda a minha Alma arremessada para ella, tinha o fechar de olhos, abria o sorriso celeste, e eu fugia com medo de mim e com medo d'ella. Como? Uma creança ingenua! Era preciso fugir!Um dia tive que partir.Tinha, na pequena cidade, perdido largos mezes. Fui a uma ultima entrevista, chorei como uma creança ao dizer-lhe a magua immensa de a deixar. Contei-lhe toda a tortura d'aquelle tempo de infinita delicia e infinita tortura; pela primeira vez disse-lhe claramente, entre lagrimas tristes, quanto amára todo o seu ser, todo o seu corpo flexivel, todo o seu espirito cançado, mas mesmo assim brilhante. Que me dissesse uma palavra de esperança, que me deixasse levar uma harmonia divina, uma palavra de amor!Teve uma frase, apenas, com uma expressão de immenso sentimento:—E não trouxe um fonografo!{55}

L'art et la science sont independants. La morale ne doit avoir aucune prise sur eux; jamais l'artiste, avant de faire une statue, jamais le philosophe avant de faire une loi, ne doivent se demander si cette statue sera utile aux mœurs, si cette loi portera les hommes à la vertu. L'artiste n'a pour but que de produire le beau, le savant n'a pour but que de trouver le vrai. Les changer en predicateurs, c'est les detruire. Il n'y a plus de science ni art dès que l'art et la science devienent des instruments de pedagogie et de gouvernement.H. TAINE.{8}{9}A ESCOLA DE FLIRTAOCONDE DEFIGUEIRÓ{10}{11}AESCOLA DEFLIRTOPROFESSOR.—Sem edade, 25 ou 40, tudo lhe convém. Uma mocidade que envelheceu, ou mocidade que duraquand même, «je meurs où je m'attache». Toda a pelle do rosto é sulcada por imperceptiveis rugas finissimas; a boca tem um sorriso de cético, mas os olhos ainda brilham. Parece ter conhecido tudo ou advinhado tudo. Se se olha para a boca, sente-se que conheceu, para os olhos, pensa-se que adivinhou.Elegante, uma ponta de preciosismo,—muito pouco!—apenas presentida na maneira como olha para as mãos deliciosamente cuidadas, como as d'uma senhora, viajou por toda a parte, indo mais ás festas mundanas do que aos museus, leu mais jornaes do que livros.ADISCIPULA.—Uma ingenuidade, que quer conhecer tudo, ignorando tudo. Vestida um poucoà la diable, seria positivamentefagotéesem a elegancia do corpo fino e leve e o brilho e o riso dos olhos e dos labios côr de rosa.A discipula vae procurar o professor da Escola de Flirt, discretamente annunciada por meio de circulares em papel lilaz com dois corações em chamas estilisados à maneira moderna. É n'um minusculo jardim seculoXVIIIportuguez, com um delgado repuxo a partir-se n'um pequeno tanque sem lavores e canteiros bordados por buxeiros. No centro d'um, uma anagua forma uma copa verde-clara de onde pendem as campanulas brancas que perfumam.OPROFESSOR—É v. ex.ª que...ADISCIPULA—Sim, senhor... Venho aqui tomar algumas lições. Fiz a minha educação{12}no convento; não tive occasião de aprender os rendimentos do Flirt. Casei sem amor, sem noivado, sem lua de mel... Um casamento de conveniencia... para o meu tutor. Escusou de prestar contas. Vim ha pouco para Lisboa. Aqui, toda a gente flirtea um pouco. Troçam do meu acanhamento, chamam-me Pires, até Possidonia, dizem que sou «old style», do tempo da rainha Anna... Recommendaram-me esta escola. Se não ensinam aqui as cortezias, dança, diversas maneiras de trazer asmouches, como no tempo de Moliére, mostram-nos como se conduz um flirt com a pericia com que o Jeronymo Condeixa guiavafour-in-hands.OPROFESSOR—V. ex.ª é intelligente?ADISCIPULA—(Modestamente)—Sou.OPROFESSOR—Formosa, vejo que é. (A discipula agradece) Gosta de toilettes?ADISCIPULA—Fagotéedurante a minha interminavel mocidade—vinte annos na provincia!—não possuo a complicada arte dafanfreluche.OPROFESSOR—Mas tem tendencias?ADISCIPULA—Enormes! Passo horas ao espelho a compor o meu pobre cabello, a pôr uma fita...OPROFESSOR—Mais tout ça c'est l'affaire de la femme de chambre!ADISCIPULA—(Indignada) Entregar-me a mãos mercenarias?!{13}OPROFESSOR—Mas minha senhora! Deve v. ex.ª fazer... permitta-me a expressão—as proprias meias? Passar as noites em compridos serões a alinhavar os corpetes com essas mãos que adivinho lindas sob a pellica da luva? (A discipula agradece.) Com certeza que não. Bem o vejo nos seus olhos que são, deixe-me dizer-lhe, d'um brilho incomparavel. (A discipula torna a agradecer.) Todos esses cuidados pertencem aos fornecedores. É por acaso a propria rosa que póda a roseira? Não! Ha jardineiros de mãos calosas e almas rudimentares que preparam a eclosão das orgulhosas flores que são o pasmo e o encantamento dos jardins. Ha creaturas que se dobram dias inteiros sobre sedas e rendas, pensando em cosinhadas e roes de roupa suja, e constroem fantasticas teias em que nos vamos prender, as deliciosas toilettes dos Redfern e dos Rouff... Porque se não deixa preparar por ellas? Ha cabelleireiras habeis que ageitam deliciosos penteados. Seja paciente, consinta que ellas a penteiem.ADISCIPULA—É absolutamente preciso? Não poderei prescindir?OPROFESSOR—Absolutamente... absolutamente... não... A formosura de v. ex.ª suppre muito... tudo... Mas é util.ADISCIPULA—Bem... E depois?OPROFESSOR—Sabe conversar?{14}ADISCIPULA—Meu Deus! No convento, no que conversavamos mais era nas Irmãs... para dizer mal d'ellas.OPROFESSOR—Dizer mal... é bom... mas de quando em quando... Senão cae-se nas soirées doSporting.—Lê?ADISCIPULA—ODiario Illustrado, todas as manhãs...OPROFESSOR—É pouco. Bourget—fala do coração. É um bom tema. Tudo o que se disser é verdadeiro e falso, de fórma que uma opinião é voltada do avesso com a maior facilidade. Falla de mulheres,toilettese almas, pezares e córtestailleurs, amores e rendas de corpetes...—umamacedoineque, para a conversação, tem o encanto da variedade.ADISCIPULA—Tenho o Larousse.OPROFESSOR—Bah! O Larousse é muito comprido. Não se pode falar em sociedade, como se não deve falar no diabo e em outras coisas do uso diario. Outro: Theuriet—é sentimental, cheio de lamurias; no campo, um chorão, n'uma sala, um piano. É optimo para as noites de luar, na praia, emquanto se faz a digestão.ADISCIPULA—Uma pastilha de Vichy em trezentas paginas.OPROFESSOR—Pouco mais ou menos. É um filho de Lamartine... Olhe, este é preciso cital-o... ás vezes... a troçar... Depois, todos osvient-de-paraitre. OFigaroassignala-os.{15}A proposito: são muitos. Leia dez paginas no começo, vinte no meio e as tres ultimas. Terá assim um verniz literario... completo.ADISCIPULA—Tenho entendido.OPROFESSOR—Mas isto é longo. Prefere entrar? Quer a primeira lição aqui ou na aula? Aqui?ADISCIPULA—Sim. Acho melhor. Sob as arvores, junto ás flores, a ouvir o murmurio dolente da agua que corre.OPROFESSOR—É poetica?ADISCIPULA—Quasi, ás vezes.OPROFESSOR—Não fica mal um pouco de poesia... Falar do mar e do estremecimento da lua sobre as aguas inquietas, comparar-se á agua movediça e infiel... Emfim são coisas para mais tarde. Vamos aos preliminares. Ah! Antes de mais nada: o nome de v. ex.ª?ADISCIPULA—Carmo... Maria do Carmo. As minhas amigas chamam-me a Carminho.OPROFESSOR—Um nome lindo...ADISCIPULA—Não se presta a madrigaes.OPROFESSOR—Um nome sabendo a flores silvestres...ADISCIPULA—Pires...OPROFESSOR—(Vae tomando calor)—Pelo contrario. Um nome que se desfaz na boca como umfondant, nome para murmurar nas horas perturbantes, nome que finalisa n'um franzir de labios, como para um beijo... Delicioso!{16}ADISCIPULA—Muito obrigada.OPROFESSOR—Bem. Bem. Passemos á lição. (Toma um falso ar amavel, faz brilhar na boca um sorriso, retorce o bigode loiro.)ADISCIPULA—Ouvil-o-hei com toda a attenção.OPROFESSOR—(Agradece com um gesto largo).Flirté uma palavra ingleza que deriva do francez. Já tem fóros de portugueza: Garrett empregou-a. É como uma batalha de flores entre duas pessoas de diferente sexo.ADISCIPULA—Com os espinhos?OPROFESSOR—Conforme: ha varias especies de flirt. Ha um em que as rosas são quasi todas guardadas por numerosos regimentos de espinhos: é o flirt agressivo, feito de recriminações. Ha quem lhe encontre encanto. Pff! Não lh'o aconselho. É bom para velhas de sessenta annos com osvieux beauxque foram seus namoros. Ha o flirt sentimental, aquelle a quem me referi ha pouco, comclair-de-lunee regatos prateados, o flirt com Theuriet e Alfred de Musset dos proverbios, um assucareiro em que caiu agua e vae entornando calda que pinga e lambusa. Horrivel! Mas tem os seus adoradores, missessur le retour, tias, meninas da Baixa espremidas nos espartilhos de baleia e aço—crosta d'um peixe que a ichtyologia ignora; é muito usado lá para os lados excentricos da Estefania. Ha—tome toda a attenção, pois{17}é o que convem ao seu genero de belleza...ADISCIPULA—V. Ex.ª confunde-me...OPROFESSOR—O que ha de mais sincero!... Ha um genero, o meu predilecto... (Ageita-se no banco, torna a retorcer o bigode, olha amorosamente para as unhas rosadas). É o flirt perfumado e finissimo, o fumo das cassoletas com perfumes leves, como se queimassem flores, petalas tremulas d'anemonas...ADISCIPULA—Como V. Ex.ª é eloquente!OPROFESSOR(Baboso)—É V. Ex.ª que me inspira!ADISCIPULA—Os seus olhos sublinham com tal calor as frases!OPROFESSOR—Um pouco de luz que vem dos seus!... Um reflexo do seu admiravel olhar! É por isso que falo assim. (Approxima-se d'ella). É o flirt em que o coração apenas perfuma... O que tem de bom uma flor? A propria materia? Não, que essa é unica, a mesma na couve lombarda e no lyrio. É o perfume e a côr. Do coração, tambem, só devemos permutar o perfume. Ora imagine: entregar um coração cheio de sangue, a palpitar como um peixe quando acaba de ser pescado!ADISCIPULA—Até mete medo!OPROFESSOR—Tem razão. Até mete medo. V. Ex.ª tem sempre razão.ADISCIPULA—Muito obrigada.OPROFESSOR—As pessoas formosas—e V.{18}Ex.ª é divinamente formosa—teem sempre razão.ADISCIPULA—V. Ex.ª é muito lisonjeiro.OPROFESSOR—A lisonja é o aroma da verdade. V. Ex.ª merece tudo.ADISCIPULA—V. Ex.ª é extraordinariamente amavel.OPROFESSOR—Podesse eu ser amavel para que todas as senhoras bonitas me amassem!ADISCIPULA—Todas?OPROFESSOR—Quando digo todas... V. Ex.ª comprehende que me refiro a uma só.ADISCIPULA—Feliz aquella...OPROFESSOR—Acha feliz?ADISCIPULA—Deve sentir o peito em festa...OPROFESSOR—Oh minha senhora!ADISCIPULA—Lembrar-me-hei de si. Nas noites infindaveis, quando me sento ao piano e os meus dedos correm sem fito sobre o teclado...OPROFESSOR—Como nardos que andassem...ADISCIPULA—Como póde dizer isso, se nunca as viu?OPROFESSOR—Adivinho-as. Mas gostaria de as vêr (Toma-lhe a mão). Estas luvas são de Paris?ADISCIPULA—Não senhor: são dos Gatos.OPROFESSOR—(Um pouco desapontado). Não importa. As mãos são lindas. (Vae desabotoando uma das luvas).{19}ADISCIPULA—(Consentindo). O que faz?OPROFESSOR—Estes botões são feios. Mas a pelle é finissima.ADISCIPULA—A da luva?OPROFESSOR—Não, a da mão.ADISCIPULA—Agradecida.OPROFESSOR—(Curva mais a cabeça approximando-se mais, assim, da mão).ADISCIPULA—(Sem a retirar). O que faz?OPROFESSOR—Nada, minha senhora... ia vêr melhor o grão da pelle.ADISCIPULA—(Ligeiramente desapontada). Ah! julguei...OPROFESSOR—Oh minha senhora! Pensar tal a meu respeito! Não sabe que o flirt é o amor sem desejo, a sombra do Amor? Eu não podia dar-lhe um beijo!{20}{21}FLIRTSA ANTONIOBANDEIRA{22}{23}FLIRTSMaria do Carmo, curvada sobre a meza, folheia os ultimosenvoisde Paquin e Redfern. Um candieiro com um largo quebra-luz de seda e rendas lança-lhe sobre o cabello uma aureola de oiro. O corpo está mergulhado na penumbra. Na sala, os moveis tomam aspectos fantasticos. Os espelhos teem um brilho pallido. Gonçalo, ao entrar, beija a mão que Maria do Carmo lhe estende, sem levantar os olhos dos papeis.MARIA DO CARMO—trinta annos, com dez de casamento. Sem filhos. A vida passa-se-lhe em visitas,raouts, recéções e bailes. Alguns livros da moda, recommendados por Marcel Ballot, noFigaro, e Jean Lorrain, por curiosidade. Interessante como um enigma, ás vezes perversa. Não se lhe conhece um amante, mas indicam-se muitos. Não toca piano.GONÇALO—não tem uma branca, mas no meio da animação, ficticia, vê-se um grande cançaço de viver, como se tivesse experimentado tudo. Procura por toda a parte, como umgourmet, o manjar fino. Epicurista, delicadamente depravado, como umrouéda Restauração, ou um elegante do fim da republica romana.—Ainda bem que veiu!... Preciso do seu bom conselho...—Como sempre, depois de ter feito alguma tolice?...—Impertinente!—É sempre assim. Pede-me o conselho depois de não precisar d'elle! De resto, dá na mesma: ninguem segue conselhos.{24}—Não. Tenho aqui estes dois albuns. De Paquin... De Redfern... São as ultimas creações. Estou tentada a escolher quasi tudo e a não escolher nenhum... Quer acreditar que tenho dias vazios na minha vida? Dias sem vontade, d'uma grande lassidão, em que nem sequer tenho forças para fingir que sorrío!...—Ame um pouco...—É coisa que se encommende? Acordo um dia, com a resolução de amar. É logo. O primeiro que me apparece na Avenida, aquelle que melhor dorme em S. Carlos, o caixeiro que me vende as fitas no Martins! Vê-se bem que nunca amou!—Não amei! Mas eu nãosou, euamo. É a minha maneira de existir. Um nasce cego; nasci amoroso...—Calle-se! Diga lá, qual d'estes vestidos prefere?—Sabe que é muito difficil escolher um vestido pelos desenhos feitosd'aprèsos manequins? O mesmo vestido toma aspectos differentes conforme as pessoas...—Não faça filosofia. Olhe este de Paquin: ligeiro, todo em rendas, em coisas leves, parece feito com flôres; o Redfern é mais hieratico; mesmo nos vestidos de baile conserva araideurdos córtestailleur. São vestidos para a Bouro, que parece ameaçar-nos constantemente com a sua corôa de marqueza. Este?{25}—Não lhe irá bem, talvez... O talhe da saia engrossa a sua figura, a que não vão bem...—O senhor treslê... Tudo me vae bem... Deixe lá os figurinos... Não sabe nada de vestidos... É como do coração. Aconselha-me a que ame...—E dou-lhe um bom conselho. Nem parece que sou seu amigo.—Trouxe hoje a alma de cinico?—Era a que tinha mais á mão. Estava ao cimo da gaveta...—Continuo a dizer: não percebe nada dos negocios do coração...—Não ha negocios do coração. O coração dá-se...—Não; troca-se...—Para quê? Não é preciso, no amor, ser-se correspondido. Basta amar. É possivel que para a felicidade seja necessaria a permuta...—O amor é o choque...—Muitas vezes o cheque.—Quejeu de motstão velho! É o choque de duas almas. É preciso que girem bem, no encontro. São duas electricidades que se combinam. Conhece a theoria das duas metades da maçã?—Conheço: é uma figura de rétorica...—Não é. Andam duas creaturas por esse mundo, ignorando o seu futuro, achando a vida sem rasão, idiota...{26}—Escolhe uma mentira vital, como diz Ibsen. Conheço-lhe ocharabia...—Deixe-me acabar. Corre mundos, faz tolices, fecha-se dias em casa, até vae ao circo ver as focas... E nada! Um dia, sem saber como nem porquê, uns olhos encontram-se com os seus, numa multidão. Ha a faisca... Pode ser um santo ou um bandido, lindo como o Rubempré, estupido como um tenor, candidato á grilheta ou futil como um janota. Fica-se presa; somos d'elle para toda a vida, ficamos amarradas a elle, como uma sombra... É assim o Amor, é feito de imprevistos... Não tem rasão alguma de ser, mas é.—Uma coisa fatal? Tem que ser?—Sim.—Permite-me que discorde?—É teimoso.—Sou. Já viu alguma discussão dar resultado? O amor é sempre creado por nós. Não amamos senão a pessoa que queremos amar. É, como tudo, um acto voluntario. Ha escolha. Vemos uma mulher, vinte, trinta vezes, sem nos fazer impressão alguma. Um dia ella repara em nós. Se é bonita, elegante, calça no Chapelle e veste na Lippman, pelo menos, a nossa vaidade sente-se satisfeita e começamos a descobrir-lhe encantos, a crear alguns, a afeiçoal-a ao nosso geito. Ao conversar com ella, pomos intensão nas frases ôcas que diz, vemos mysterio{27}no seu sorriso... Estamos presos.—Um bello dia, porém, por qualquer motivo, torna-se util acabar com o pesadello da mulher que aparece em toda a parte: sae das brasas do fogão, a que nos aquecemos, da pagina que lemos, do fumo do cigarro, do papel em branco em que vamos escrever ao nosso procurador. Repara-se um pouco nella. Descobre-se o primeiro defeito. Exageramol-o para o grotesco. E da deusa perfeita tambem as flores e fica uma caração que faz rir.—Uma theoria...—Não é, creia. Acontece-me isso duas ou tres vezes por anno. Sabe que ando sempre com uma paixoneta... ou mais. Levo oito dias a fazel-as cair do peito.—E vive feliz?—Inteiramente feliz. Saber contentar-se não é a suprema sabedoria? Para que se inventou oflirt?—Oflirt?Que horrivel coisa? É a «sombra chineza» do Amor...—É melhor. É o perfume. Os delicados contentam-se. É preciso comer uma flor? Não, basta respirar-lhe o aroma. Ora essas conversas, meio sentimentaes, a um canto, ditas em voz baixa, sublinhadas pelos olhos que toda a alma illumina, são como o roçar de azas que fossem flores. Ha o ligeiro premir dos dedos, sob os leques, certos tremores de labios, como se os beijos n'elles esvoaçassem, uma concentração{28}de todo o ser, que parece boiar no ether, leve... As phrases não se arrastam, n'um espasmo. Teem palpitações, lançam-se n'uma curva larga, até desapparecer em estrella. Não conhece oflirt. Todo o ser é livre e vae entregar-se, rendido... Cada palavra toma um sentido misterioso... Vou-lhe contar umflirt... Estava na Suissa.—Internacional?—Cosmopolita. N'um d'esses cantos, que ultimamente o Cook estraga, na Engadine. Paisagem de gelo, hotel de gente podre...—De chic?—De chic. Conheci uma americana, deliciosa como um fructo acre, que vivia fora dacoterie swell. O americano vae-se tornando terrivelmenterasta. Trinta annos? Talvez... Mas trinta annos frescos, sem rugas, viuva depois de dois mezes de escasso matrimonio com um formidavelbrasseur d'affairesde New-York, cerebro em ebulição permanente que acabou n'uma neurasthenia aguda. Iamos passear sós, pelo gelo. Sentavamo-nos nos pontos de vista que o Bœdeker não indica, paisagens tristes de tanta brancura, sem uma mancha. Fugiamos dosfive-ó-clock, daspartiesbulhentas em complicada companhia. Comecei a amal-a. Tinhamos lido os mesmos livros, sobre elles fallavamos: gostavamos das mesmas musicas, d'esse Schumann cheio de côr, dolente e envenenado;{29}preferiamos aos flamengos gordurosos e aos hespanhoes sombrios, o delicado misterio dos Vinci, a graça fina e brilhante de Raphael.A fallar de quadros e de romances, as nossas almas tocavam-se, porque um sentido novo brilhava em cada palavra; e parecia que cada frase terminava n'um beijo. Ás vezes, levemente, as nossas mãos tocavam-se. Era rapido e delicioso. D'esse contacto ficava uma lembrança, como d'um perfume. Amor platonico? Não. Umflirt. Sem arroubamentos. Sempre a Alma livre, sempre o beijo a tremer na bocca, sem cair... Uma ou outra vez, comprehende, por esquecimento...—Comprehendo. Sem malicia...—Essa mulher tinha realisado todo o meu sonho! De resto acontece-me isto muitas vezes. O sonho varía com as mulheres que nos interessam. Mas essa parecia realisar tudo. No seu corpo ambiguo, de egipcia, parecia conservar-se, como um fructo no gelo, uma adolescencia eterna. As suas mãos finas, pesadas de tantos anneis em que Vever pozera todo o seu genio estranho, floriam gestos d'uma caricia delicada e terna. A sua alma, que parecia ter visto tudo, ainda sentia a vida com frescura. As horas que passei junto d'ella! O perfume, uma mistura sabia d'Houbigants, entãodernier bateau, perturbava... Longe d'ella, não pensava n'outra coisa. Recordava-me dos gestos, os pequenos{30}detalhes datoilettee da conversa, um rosar de pelle sob as rendas, uma palavra, umgrain de beauté, que tinha na nuca. Sabe como acabou? Ella propoz-me casar. Fechei-me no quarto, horrorisado. Casar, eu? Uma mulher que me julgava capaz d'isso! Era preciso abater esse amor orgulhoso, que crescia no meu peito. Que defeito tinha ella? A principio não vi nenhum... Fui procurando. Tinha, ás vezes, quando fallavamos em francez, erros de grammatica deliciosos. Comecei a achar ridiculo essa ignorancia. D'ahi passou para os vestidos, para o corpo, o peito chato, sem ancas... Tudo caiu. Essa mulher pareceu-me horrorosa... Comecei a troçar d'ella, do seubas-bleuismo... Por fim ella resolveu partir. Lembro-me perfeitamente. O gerente do hotel levou-lhe um enorme ramo debluets, os raros amigos tambem lhe levaram flôres. Todo o carro estava cheio de flôres. Sentou-se entre ellas, afagava-as, cortára algumas para cheirar. Chorára. Ainda me deitou um molho, que tinha beijado. O carro partiu, como se fosse um açafate. E a sua face branca era como uma flôr triste... Não tive pena. O amor já caira. A gente ou gosta ou não gosta, conforme quer.—Vamos fazer umflirtpara experimentar?{31}LOGICAA ANTONIO DACOSTACABRAL (THOMAR){32}{33}LOGICAN'umgarden-party. Emquanto notennisse cruzam as palavras inglezas, e no kiosque, d'onde caem chuveiros de glicinias, se discutem mãos debridge, afastados, junto a um roseiral, Joanna, Maria e Miguel veem jogar.JOANNA—Toda a face branca é illuminada por dois largos olhos negros. Casada ha dois annos com umsportsman enragé, que prefere o cabo de umaraquette, o leme d'umoutrigger, oguidond'um automovel, á mais terna caricia da mulher. Usando e abusando do flirt, um em cada dia, ás vezes dois, tem periodos de fidelidade: quando quer torturar alguem. Provoca-o, chama-o, fal-o entontecer com promessas. Quando o vê absolutamente rendido, foge, para pensar n'outra coisa, ou em coisa alguma. Não vae ao fim de nada. Desenha, mas nunca terminou um esboço; toca piano, mas deixa sempre o trecho de musica suspenso a meio d'um compasso. Tem medo de acabar. É uma natureza hesitante.MIGUEL—Nada intellectual. Um bom animal intelligente. Tem viajado. Mas prefere osteeple-chasede Auteuil a umapremièreno Vaudeville. Admira a força. É um leal. Dá o seu coração sem reservas. É, actualmente, o flirt fixo de Joanna.MARIA—Vão-lhe falhando os admiradores. Os cabellos brancos não lhe ficam bem. Não sente muito a falta, nem se irrita com a felicidade alheia. Natureza simpatica, hoje rara.MARIA—... Encontrou o Cerqueira a passear d'um lado para o outro, no terraço do Hotel, a balbuciar phrases, os olhos fechados, um livro na mão.—Que estás tu a fazer?—Tenho{34}hoje de fazer uma declaração á Clotilde. Estou a estudar aqui no Bourget duas phrases tezas!...(Joanna e Miguel riem-se, mas deixam cair a conversa).MARIA—A Clotilde merecia-o. Quando se começaram a usar osflous, para que é precisopostiches, ella tinha escrupulos e explicava:—«Sei lá se o cabello pertenceu a alguma creatura damnada! E hei-de pôr na minha cabeça uma coisa de alguem que hoje está a arder nas profundas dos infernos!» O que acham vocês?(Joanna e Miguel tornam a rir-se, sem responder).MARIA—Já comprehendo. Vocês querem ficar sós... (levanta-se).JOANNA(sem convicção)—Não. Deixa-te estar...MIGUEL(a mesma coisa)—Pelo amor de Deus!...(Maria afasta-se, voltando ainda a cabeça para sorrir-lhes).MIGUEL(aprincipio, parece hesitar, por fim decide-se)—Afinal, o que quer de mim, ao certo?JOANNA—Eu?MIGUEL—Sim. O que quer de mim?JOANNA—Não comprehendo...MIGUEL—É bem facil!...JOANNA—Quer chamar-me estupida? Ha de concordar que é pouco amavel!...{35}MIGUEL—Não desvie a conversa. Sabe que mesmo que o pensasse não lh'o diria...JOANNA—Então pensa-o?MIGUEL—Não o penso; sabe isso muito bem.JOANNA—Uff! Respiro... Não poderia entrar na Academia, se fizesse tal conceito da minha intelectualidade... Não é assim que se diz, nos meiostrès dernier bateau?MIGUEL—Oh! por mim!...JOANNA—É o seu ambiente, o meio cosmopolita; é inseparavel dos diplomatas, delicia-se no Tyrol e em Roma...MIGUEL—Quer outra vez mudar a conversa. Não é verdade?JOANNA—Confesso-lhe que sim... Não percebo o que quer!...MIGUEL—Repito-lhe: é facil. O que quer de mim?JOANNA—Olhe: dê-me d'ali a minha sombrinha... N'este momento é a unica coisa que quero de si.(Miguel traz-lhe a sombrinha vermelha, que ella abre. A luz parece incendiar-lhe o chapeu branco, e toda a face branca).MIGUEL—Fallemos a serio, um pouco...JOANNA—Já me viu brincar? Na minha edade!...MIGUEL—Fishing for compliments?JOANNA—Será, se quizer... Oiço-lh'os tão poucas vezes!{36}MIGUEL—Queria passar a vida, como um d'esses pagens antigos, sentado a seus pés a cantar-lhe endeixas. Mas o seu sorriso paralisa, na minha bocca, o amor que vae a sair.JOANNA—É o que o Cerqueira chamava uma phrase tesa!MIGUEL—Porque troça de mim? Porque faz de mim seu joguete? Eu andava feliz e livre, sem mulher alguma que me preocupasse. Nunca andei tão alegre. Vivia a minha vida, livremente. Todas as mulheres bonitas me pareciam eguaes. Joanna começou a chamar-me, a dizer-me phrases que me prendiam, que me entonteciam. Tinha olhares para mim tão cheios de promessas, que corri como um esfomeado, diante d'uma mão que se lhe estende, carregada de vitualhas. E junto de si senti-me perturbado. Foram para mim as palavras mais carinhosas, aquellas que tinham um sentido ambiguo, banal para os estranhos, para mim precioso e comovido. Parecia um flirt terno. Subitamente, tudo mudou. Parece escolher tudo o que possa desagradar para dizer-me. É o flirt agressivo, em que d'uma das partes não ha amor, ou o quer esconder. E a conversa é toda feita de botes de florete, que muitas vezes arranham e podem até matar o amor.JOANNA—Tout passe, tout casse, tout lasse... Porque não ha de ser assim o Amôr?...MIGUEL—Mas deixe-o acabar por si, como{37}uma flôr n'um jardim deserto, que se desfolha aos poucos...JOANNA—Para apodrecer?...MIGUEL—Ó não, não apodrece. Evapora-se como uma essencia e deixa um perfume suave—uma recordação...JOANNA—Outra phrase tesa. Está terrivel!MIGUEL—Faça-me a justiça de pensar que não a li...JOANNA—Não. Ouviu-a em alguma peça... Você diz-me que não lê nada...MIGUEL—Leio oSeculo, todas as manhãs.JOANNA—Não acredito...MIGUEL—Palavra! Por causa das cotações da bolsa. Tenho uns dinheiros nos fundos russos... Mas não sobem... Ando infeliz em tudo: no jogo e nos amores.JOANNA—Nos amores? Diz isso a mim? Você é muito ingrato, Miguel!MIGUEL—Continua a brincar comigo!JOANNA—Agora é occasião de eu tambem fallar a serio. E faço-lhe a mesma pergunta que me fez ha pouco:—O que quer de mim?MIGUEL—(não atina com a resposta) Eu?JOANNA—Sim. O que quer? Tem um flirt comigo... É o meu preferido...MIGUEL—Diga antes favorito, como se tratasse d'um cavallo de corridas.JOANNA—É o meu favorito, seja. Gosta de mim? Muito. É o que ia a dizer, com alguma{38}rétorica. Não gosto eu de si? Não me ponho pelos cantos a fallar comsigo, a sós? Não estou aqui a apanhar sol, só por sua causa, para poder estar comsigo, em liberdade, sem ter ninguem que nos oiça? Não vou á Avenida todas as tardes para o vêr? Não olho para si sempre no theatro? Não lhe digo os dias em que voushoppingpelo Chiado? Para quê? Para estarmos juntos! Então que quer? Quer casar comigo? Mas sou casada e felizmente não ha o divorcio entre nós.MIGUEL(tristemente)—Felizmente?JOANNA—Sim! Felizmente. Primeiro, é contra a religião; depois, escusa a gente de se arrepender varias vezes de ter casado. Assim arrepende-se uma só. Não pode casar commigo. Então o que quer?(Miguel olha-a estupefacto. Não encontra resposta. A expressão de Joanna é equivoca. Miguel não sabe se falla ingenuamente, se quer mystifical-o. Cala-se).JOANNA—Então bem vê que não tem razão para se queixar de mim!MIGUEL(Tem o ar de quem apanhou de surpresa uma grande pancada. Olha para Joanna, para si, para os outros. Pensa que o desfrutam. Acodem-lhe á boca frases energicas. Levanta-se, ageita o fraque e despede-se).—Muito boa tarde!{39}ROMANTICOAO CONDE DEARNOSO{40}{41}ROMANTICO—Ajude-me a servir o chá, primo...Levantou-se. Na quasi obscuridade da sala, que tinha uma luz violacea—coada pelos vitraes onde se curvam lirios roxos—Clara parecia nascer dos tapetes, como uma graciosa e alta flôr de espuma. «Toilette» branca e ligeira, como pennas de ave, toda em musselinas, apenas indicando a elegancia do seu corpo fino, ia morrer no tapete branco...Ia por entre os moveis, offerecendo as chavenas onde fumegava o chá perfumado, que da China trazem lentas caravanas, por tortuosos caminhos. O seu corpo agil descrevia carinhosas curvas. O ruido das conversas continuava... Um «flirt» a um canto murmurava, como se as palavras ficassem nos labios. Paulo, de grupo em grupo, uma chavena na mão, contente por ser alguma coisa, junto d'ella, tinha na bôcca um sorriso beato.N'aquella tarde nem conversava. Entravam{42}e saiam as visitas, umas apressadas,—«apenas para saber de ti, Clara»—outras morosas, dando «rendez-vous» no salão elegante e discreto, onde na meia luz quasi se não conheciam as pessoas, podia-se estar sem ser visto. E Paulo, calado, n'um fauteuil a um canto, sorria para si proprio, olhando a figura indecisa de Clara, os cabellos loiros, na sala como enevoada onde apenas o fogão, por baixo do para-feu, tinha um brilho vermelho.Lembrava-se de todo o comprido caminho percorrido desde aquella noite em Cascaes, em que o impressionara a graciosidade de Clara, o seu aspecto de flôr fresca, sempre em «toilettes» leves, abundantes em gazas, crepons tenues. Certamente que, companheiro e parente, admirára sempre a belleza da prima, mas seguira outros caminhos, nunca reparára bem para o enigma perturbante dos olhos verdes, para a elegancia moderna, feita de graça, a gentil figurinha de Boldini, princeza de cera e de seda, cujas mãos eram dignas de vêr florir entre os dedos os anneis mais preciosos que Vever e Lalique inventam, em combinações de moribundas gemas. Nunca olhára bem para ella com olhos de vêr. Habituára-se desde a puberdade a vêl-a. E seus cubiçosos olhares procuravam outras mais distantes, que julgava conhecer menos, pelo encanto do imprevisto.Mas essa noite! Como lhe apparecia ainda,{43}depois de tantos mezes, nitidamente, essa noite d'um ceu leitoso, com uma lua enevoada, que se espalhava sobre o mar, sem brilho. Na varanda do Casino, quasi deserta, os Auers incidiam fortemente sobre Clara. No mar, em baixo, fogachos prateados tremiam. E além, as raras luzes da Cidadella; na Esplanada os focos esverdeados tiravam da sombra manchas de palmeiras e listravam de luz a agua inquieta, gemebunda e misteriosa.Paulo, recostado n'uma cadeira, olhava a mancha mais negra do yacht real, apagado, apezar das suas lanternas que tremeluziam no mar. O charuto caíra-lhe da boca. Foi uma frase preciosa de Clara que o acordou:—Quem me dirá um dia a cantilena do mar? Como ella embala! Como seria bom dormir a ouvir junto de nós a suave cantilena!Paulo olhou para ella surprehendido. Pois quê? Clara, a ultima florescencia dosraoutse dosteas, teria phrases de heroina de Rosseti, seria leitora de Ruskin? Foi então que reparou nos olhos cheios de sonhos e de misterio, na bocca dolorosa, a vermelha e fina bocca, no seu collo de infanta apenas nubil, em toda a adolescencia que se conservava intacta no corpo precioso, como um fructo no gelo.Começou então a seguil-a. Dura lhe foi a vida em theatros, jantares e bailes. Não faltava a umasauterie, a umaparty, que d'antes{44}o deixavam indifferente, ficando nas interminaveis partidas debluff. A dolorosa expressão que na bocca se vincára n'aquella noite do Casino desapparecera; um grande contentamento da vida parecia boiar á flor dos olhos garços e os movimentos rythmicos, que ella fazia, como se fosse ao som d'uma musica, eram livres, felizes, sem promessas.Não voltar o abandono d'aquella noite! Paulo desejava que Clara outra vez abrisse a sua alma, para elle sentir a caricia deliciosa.Mas a mulher amada conservava-se indifferente, risonha, um poucocoquette.Para os seus madrigaes escolhidos, preparados com antecedencia, buscados em livros de auctores novos, phrases perturbantes de Lorrain, perfumados disticos de Henri de Regnier, licenciosas palavras de Lionel des Rieux, com um sabor antigo, até o proprio d'Annunzio servira para a pilhagem,—para todos esses periodos carinhosos ella tinha o mesmo riso, que abria a bocca fina, descórada, que o traço de carmim violentaria a macerada pallidez da sua face:—Ah! Paulo! Ah! Paulo! Apaixonado por mim! Tenho-lhe conhecido tantas paixões? Só na semana passada, tres!—Se não penso senão em si!—Quando está commigo? Nem isso!—Clara! Clara! Se me conhecesse bem, veria{45}como a minha alma se fez para si um fresco bordão de assucenas...E outro riso claro cantava na bocca exangue, a troçar da phrase pretenciosa.Uma tarde, n'umgarden party, emquanto nocourtdetennisas palavras inglezas crusavam-se e os jogadores corriam, araquetteno ar, elles um pouco afastados, juntos a um macisso de jasmineiros que floria, cobrindo-se d'uma renda fina e branca de pequeninos jasmins, Paulo, esquecendo-se das phrases decoradas nos romances, deixou sair da bocca, livremente, toda a força e toda a anciedade do amor que parecia abrir-lhe uma chaga no peito, teve palavras em que fulgiam desejos, os olhos brilhavam, enternecidos, agarrou-lhe nas mãos, encheu de beijos as palmas roseas, puxou-a para si, e pôde dar-lhe, de surpresa, um grande beijo na bocca, soffrego, que Clara não pôde evitar.Voltada a si do pasmo, espantada pelo insolito atrevimento que a sua ligeiracoquetterienão permitira, quiz zangar-se; mas voltou a rir-se, como se esse beijo, que lhe deixara na boca um calor de chama, tivesse sido apenas uma phrase, das grandes phrases de Annunzio, tão cheias de volupia que entontecem, como os largos calices das magnolias n'um pequeno jardim fechado. E sempre a sentir na bocca a impressão ardente d'esse beijo, Clara correu{46}para otennis, a querer jogar tambem para esquecer-se.Era d'esse beijo que Paulo vivia, tomado de assalto, como n'uma pilhagem de egreja.E, apesar de Clara continuar a ser indifferente e risonha para elle, lembrava-se da perturbação que levára á alma ligeira da preciosa bonequinha de Nuremberg; olhos abertos, continuava a sonhar que esmagava os labios exangues sobre a pressão da sua bocca ávida.Paulo era um romantico. Paulo vivia de pouco, como as aves do ceu.{47}A BISANTINAA LUIZFERREIRA DECASTRO{48}{49}A BisantinaNo café, diante dococktailvulgar, eu esperava um amigo. Fôra mais cedo para a entrevista, de maneira que antes da hora lêra os jornaes, folheára as revistas, olhára para o relogio, consultára até o barometro, interessado. Iam saindo os clientes, aos poucos. Conforme se levantavam das mezas, o criado, n'umcracapagava a lampada electrica. Eu ficára já, n'um canto, quasi na meia luz. No fundo da sala as lampadas faiscavam nos espelhos, telintavam os pratos, as discussões cruzavam-se.Esperava em vão... Comecei a ceiar.D'ahi a pouco um rapaz veiu sentar-se ao pé de mim. Conhecia-o de o vêr nos cafés nocturnos, quasi sempre em companhia de mulheres faceis, estardalhando, contando façanhas de orgias nasvadrouillesde Montmartre; de quando em quando, como n'uma expansão, falava de um quadro que entrevira n'um museu, alguma{50}luminosa festa da Renascença, um nú veneziano, ou preciosas figurinhas dos primitivos, simples e mal desenhadas, entre brocados de oiro.Mas nunca me ligára, correndo a minha vida n'outra direcção. N'essa noite, admirei-me de elle deixar a bulhenta sociedade quesabrait le champagne, para se acolher ao silencio, á quasi obscuridade.A principio bebeu a pequenos goles o Bucellas que mandou buscar. Tinha o ar de quem hesita em praticar um acto, o recolhimento subito d'um gesto esboçado, ensimesmava-se, enchia novamente o copo, lia attentamente o rotulo da garrafa.Por fim debruçou-se para a minha meza:—O senhor gosta de coisas exoticas, das mulheres finamente perversas, do brilho das podridões...—Ó, não! Apenas dofaisandé!...—É uma questão de palavras... Tudo o que é ambiguo, perturbante, insexual, tenta-o; compraz-se no esmiuçamento das taras, é o chronista do irregular, doà coté. Prefere as monstruosas orchideas ás rosas, o enigma dos Vincis, á belleza forte dos Rubens. Deixa-me contar-lhe uma historia?Por certo que a minha phisionomia traiu o receio da maçada eminente. Toda a gente imagina que a sua vida é um «motivo» interessante{51}para um livro. E eu tenho deixado cair, como folhas secas, tantos casos que me contam, compridamente, com meandros de detalhes!—O senhor tem o dever de me ouvir e não se arrependerá! O senhor é um psicologo...—Não faço profissão...—Não importa. Tem obrigação.—N'esse caso...Resignei-me.O noctambulo começou a contar. Tinha a linguagem pittoresca, imageada, parecia comprazer-se com a sua phrase. Notei-lhe grande copia de estrangeirismos. Mas o caso pareceu-me interessante. Aqui o deixo registado.—Comprehende que eu,fetardcançado, que tenho visto museus entre duas ceias no Maxim ou no Carlton, que aprecio mais otea-roomdo Grand Hotel, de Roma, que oSalon Carrédo Louvre ou a sala de Velasquez, no Prado, só lhe poderei fallar da mulher ou do amor. E das mulheres que tenho conhecido, um pouco por todo o mundo, d'aquellas que teem ficado com um pouco da minha mocidade entre os dentes brancos ou os dedos esguios, só me recordo da ultima, que é a melhor e a peior, a que faz rir e soluçar, curva-nos n'uma somnolencia em que nos apparece muito mais bella do que é realmente, cingida com todas as joias com que a nossa phantasia a enfeita, mais cruel tambem, porque o amor torna mais cruciante{52}as dores, intensifica o desespero, cria a halucinação da Magua, inventa a Chiméra da turtura, essa Chimera de afiadas garras que nos retalham... Estou muito eloquente. Faça-me signal, quando lhe parecer Cicero...Imagine que conheci, n'uma pequena cidade italiana onde me fôra curar d'uma paixoneta recente, uma creatura singular, cujo encanto me prendeu quasi de subito. Era uma figura de bisantina, atavismo talvez, influencia das pinturas de Ravenna, onde passára a mocidade. E, artista, cultivava essa feição, arranjava penteados hieraticos, sem complicadas e rutilantes gemas, que o cofre do pae, mediscatro qualquer, não era abundante, mas com flores, essas rosas vermelhas de Pæstum, que ella propria cultivava, amorosamente, no pequeno jardim de sua casa. O que tinha de bisantina realmente, era a bocca fresca, a bocca innocente que sorria apenas, n'uma candura de primeira commungante, uma bocca que deixava em nós a impressão de que era um seraphim a sorrir. E não apetecia beijal-a: apenas quedar-se a gente deante d'ella á espera que nascesse a claridade auroral do sorriso, em que mostrava levemente o traço branco dos pequeninos dentes. Mas os olhos escuros desmentiam toda a infantilidade da bocca, o aspecto angelical do seu corpo magro d'adolescente, o collo branco e purissimo. Os olhos brilhavam como n'um{53}assalto, a ferir, sem ternura, no fundo uma repulsão ou um escarneo...Essa mulher tentou-me. Largos mezes fui todos os dias á sua casa onde me recebeu com palavras dulcissimas. Estendia-me a mão deliciosa para beijar, dizia-me frases que entonteciam como um vinho aspero, fazia passar por mim o perfume forte que punha nos longos cabellos, que ás vezes caíam pesadamente da cabeça, estendiam-se pelas costas, como uma rosa que se desfolha, d'uma vez, da haste. Ás vezes furtivamente, apertava-me a mão com força. E sorria-se ingenuamente a face de perola, eu via a innocencia de toda aquella figura, porque ella fechava os olhos, como se todo o seu ser adormecesse n'um espasmo.Ao sair, tinha remorsos de não ter beijado a bocca fresquissima, de não ter, sob a pressão dos meus labios, maguado os olhos maus.E toda a noite soluçava, enraivecido a desejal-a, até que de tarde ia visital-a, encontrava-a estendida, n'uma atitude de imperatriz, bisantina, em sedasmoirées, toda a gama do verde e do lilaz, a garganta descoberta. E n'um gesto estudado, estendia-me a mão, que eu beijava longamente, essa mão em que as gemas não brilhavam: escuras, opacas, pedras finas, opalas, como gottas de agua d'um lago envenenado.E a scena repetia-se. Eram perturbadores oaristos, que deixavam os nervos tensos e vibrantes.{54}Na voz amortecida e doce, dizia as palavras magicas que accendem fogachos. E quando ella via toda a minha Alma arremessada para ella, tinha o fechar de olhos, abria o sorriso celeste, e eu fugia com medo de mim e com medo d'ella. Como? Uma creança ingenua! Era preciso fugir!Um dia tive que partir.Tinha, na pequena cidade, perdido largos mezes. Fui a uma ultima entrevista, chorei como uma creança ao dizer-lhe a magua immensa de a deixar. Contei-lhe toda a tortura d'aquelle tempo de infinita delicia e infinita tortura; pela primeira vez disse-lhe claramente, entre lagrimas tristes, quanto amára todo o seu ser, todo o seu corpo flexivel, todo o seu espirito cançado, mas mesmo assim brilhante. Que me dissesse uma palavra de esperança, que me deixasse levar uma harmonia divina, uma palavra de amor!Teve uma frase, apenas, com uma expressão de immenso sentimento:—E não trouxe um fonografo!{55}

L'art et la science sont independants. La morale ne doit avoir aucune prise sur eux; jamais l'artiste, avant de faire une statue, jamais le philosophe avant de faire une loi, ne doivent se demander si cette statue sera utile aux mœurs, si cette loi portera les hommes à la vertu. L'artiste n'a pour but que de produire le beau, le savant n'a pour but que de trouver le vrai. Les changer en predicateurs, c'est les detruire. Il n'y a plus de science ni art dès que l'art et la science devienent des instruments de pedagogie et de gouvernement.H. TAINE.

L'art et la science sont independants. La morale ne doit avoir aucune prise sur eux; jamais l'artiste, avant de faire une statue, jamais le philosophe avant de faire une loi, ne doivent se demander si cette statue sera utile aux mœurs, si cette loi portera les hommes à la vertu. L'artiste n'a pour but que de produire le beau, le savant n'a pour but que de trouver le vrai. Les changer en predicateurs, c'est les detruire. Il n'y a plus de science ni art dès que l'art et la science devienent des instruments de pedagogie et de gouvernement.

H. TAINE.

{8}{9}

AOCONDE DEFIGUEIRÓ

{10}{11}

OPROFESSOR.—Sem edade, 25 ou 40, tudo lhe convém. Uma mocidade que envelheceu, ou mocidade que duraquand même, «je meurs où je m'attache». Toda a pelle do rosto é sulcada por imperceptiveis rugas finissimas; a boca tem um sorriso de cético, mas os olhos ainda brilham. Parece ter conhecido tudo ou advinhado tudo. Se se olha para a boca, sente-se que conheceu, para os olhos, pensa-se que adivinhou.Elegante, uma ponta de preciosismo,—muito pouco!—apenas presentida na maneira como olha para as mãos deliciosamente cuidadas, como as d'uma senhora, viajou por toda a parte, indo mais ás festas mundanas do que aos museus, leu mais jornaes do que livros.ADISCIPULA.—Uma ingenuidade, que quer conhecer tudo, ignorando tudo. Vestida um poucoà la diable, seria positivamentefagotéesem a elegancia do corpo fino e leve e o brilho e o riso dos olhos e dos labios côr de rosa.A discipula vae procurar o professor da Escola de Flirt, discretamente annunciada por meio de circulares em papel lilaz com dois corações em chamas estilisados à maneira moderna. É n'um minusculo jardim seculoXVIIIportuguez, com um delgado repuxo a partir-se n'um pequeno tanque sem lavores e canteiros bordados por buxeiros. No centro d'um, uma anagua forma uma copa verde-clara de onde pendem as campanulas brancas que perfumam.

OPROFESSOR.—Sem edade, 25 ou 40, tudo lhe convém. Uma mocidade que envelheceu, ou mocidade que duraquand même, «je meurs où je m'attache». Toda a pelle do rosto é sulcada por imperceptiveis rugas finissimas; a boca tem um sorriso de cético, mas os olhos ainda brilham. Parece ter conhecido tudo ou advinhado tudo. Se se olha para a boca, sente-se que conheceu, para os olhos, pensa-se que adivinhou.

Elegante, uma ponta de preciosismo,—muito pouco!—apenas presentida na maneira como olha para as mãos deliciosamente cuidadas, como as d'uma senhora, viajou por toda a parte, indo mais ás festas mundanas do que aos museus, leu mais jornaes do que livros.

ADISCIPULA.—Uma ingenuidade, que quer conhecer tudo, ignorando tudo. Vestida um poucoà la diable, seria positivamentefagotéesem a elegancia do corpo fino e leve e o brilho e o riso dos olhos e dos labios côr de rosa.

A discipula vae procurar o professor da Escola de Flirt, discretamente annunciada por meio de circulares em papel lilaz com dois corações em chamas estilisados à maneira moderna. É n'um minusculo jardim seculoXVIIIportuguez, com um delgado repuxo a partir-se n'um pequeno tanque sem lavores e canteiros bordados por buxeiros. No centro d'um, uma anagua forma uma copa verde-clara de onde pendem as campanulas brancas que perfumam.

OPROFESSOR—É v. ex.ª que...

ADISCIPULA—Sim, senhor... Venho aqui tomar algumas lições. Fiz a minha educação{12}no convento; não tive occasião de aprender os rendimentos do Flirt. Casei sem amor, sem noivado, sem lua de mel... Um casamento de conveniencia... para o meu tutor. Escusou de prestar contas. Vim ha pouco para Lisboa. Aqui, toda a gente flirtea um pouco. Troçam do meu acanhamento, chamam-me Pires, até Possidonia, dizem que sou «old style», do tempo da rainha Anna... Recommendaram-me esta escola. Se não ensinam aqui as cortezias, dança, diversas maneiras de trazer asmouches, como no tempo de Moliére, mostram-nos como se conduz um flirt com a pericia com que o Jeronymo Condeixa guiavafour-in-hands.

OPROFESSOR—V. ex.ª é intelligente?

ADISCIPULA—(Modestamente)—Sou.

OPROFESSOR—Formosa, vejo que é. (A discipula agradece) Gosta de toilettes?

ADISCIPULA—Fagotéedurante a minha interminavel mocidade—vinte annos na provincia!—não possuo a complicada arte dafanfreluche.

OPROFESSOR—Mas tem tendencias?

ADISCIPULA—Enormes! Passo horas ao espelho a compor o meu pobre cabello, a pôr uma fita...

OPROFESSOR—Mais tout ça c'est l'affaire de la femme de chambre!

ADISCIPULA—(Indignada) Entregar-me a mãos mercenarias?!{13}

OPROFESSOR—Mas minha senhora! Deve v. ex.ª fazer... permitta-me a expressão—as proprias meias? Passar as noites em compridos serões a alinhavar os corpetes com essas mãos que adivinho lindas sob a pellica da luva? (A discipula agradece.) Com certeza que não. Bem o vejo nos seus olhos que são, deixe-me dizer-lhe, d'um brilho incomparavel. (A discipula torna a agradecer.) Todos esses cuidados pertencem aos fornecedores. É por acaso a propria rosa que póda a roseira? Não! Ha jardineiros de mãos calosas e almas rudimentares que preparam a eclosão das orgulhosas flores que são o pasmo e o encantamento dos jardins. Ha creaturas que se dobram dias inteiros sobre sedas e rendas, pensando em cosinhadas e roes de roupa suja, e constroem fantasticas teias em que nos vamos prender, as deliciosas toilettes dos Redfern e dos Rouff... Porque se não deixa preparar por ellas? Ha cabelleireiras habeis que ageitam deliciosos penteados. Seja paciente, consinta que ellas a penteiem.

ADISCIPULA—É absolutamente preciso? Não poderei prescindir?

OPROFESSOR—Absolutamente... absolutamente... não... A formosura de v. ex.ª suppre muito... tudo... Mas é util.

ADISCIPULA—Bem... E depois?

OPROFESSOR—Sabe conversar?{14}

ADISCIPULA—Meu Deus! No convento, no que conversavamos mais era nas Irmãs... para dizer mal d'ellas.

OPROFESSOR—Dizer mal... é bom... mas de quando em quando... Senão cae-se nas soirées doSporting.—Lê?

ADISCIPULA—ODiario Illustrado, todas as manhãs...

OPROFESSOR—É pouco. Bourget—fala do coração. É um bom tema. Tudo o que se disser é verdadeiro e falso, de fórma que uma opinião é voltada do avesso com a maior facilidade. Falla de mulheres,toilettese almas, pezares e córtestailleurs, amores e rendas de corpetes...—umamacedoineque, para a conversação, tem o encanto da variedade.

ADISCIPULA—Tenho o Larousse.

OPROFESSOR—Bah! O Larousse é muito comprido. Não se pode falar em sociedade, como se não deve falar no diabo e em outras coisas do uso diario. Outro: Theuriet—é sentimental, cheio de lamurias; no campo, um chorão, n'uma sala, um piano. É optimo para as noites de luar, na praia, emquanto se faz a digestão.

ADISCIPULA—Uma pastilha de Vichy em trezentas paginas.

OPROFESSOR—Pouco mais ou menos. É um filho de Lamartine... Olhe, este é preciso cital-o... ás vezes... a troçar... Depois, todos osvient-de-paraitre. OFigaroassignala-os.{15}A proposito: são muitos. Leia dez paginas no começo, vinte no meio e as tres ultimas. Terá assim um verniz literario... completo.

ADISCIPULA—Tenho entendido.

OPROFESSOR—Mas isto é longo. Prefere entrar? Quer a primeira lição aqui ou na aula? Aqui?

ADISCIPULA—Sim. Acho melhor. Sob as arvores, junto ás flores, a ouvir o murmurio dolente da agua que corre.

OPROFESSOR—É poetica?

ADISCIPULA—Quasi, ás vezes.

OPROFESSOR—Não fica mal um pouco de poesia... Falar do mar e do estremecimento da lua sobre as aguas inquietas, comparar-se á agua movediça e infiel... Emfim são coisas para mais tarde. Vamos aos preliminares. Ah! Antes de mais nada: o nome de v. ex.ª?

ADISCIPULA—Carmo... Maria do Carmo. As minhas amigas chamam-me a Carminho.

OPROFESSOR—Um nome lindo...

ADISCIPULA—Não se presta a madrigaes.

OPROFESSOR—Um nome sabendo a flores silvestres...

ADISCIPULA—Pires...

OPROFESSOR—(Vae tomando calor)—Pelo contrario. Um nome que se desfaz na boca como umfondant, nome para murmurar nas horas perturbantes, nome que finalisa n'um franzir de labios, como para um beijo... Delicioso!{16}

ADISCIPULA—Muito obrigada.

OPROFESSOR—Bem. Bem. Passemos á lição. (Toma um falso ar amavel, faz brilhar na boca um sorriso, retorce o bigode loiro.)

ADISCIPULA—Ouvil-o-hei com toda a attenção.

OPROFESSOR—(Agradece com um gesto largo).Flirté uma palavra ingleza que deriva do francez. Já tem fóros de portugueza: Garrett empregou-a. É como uma batalha de flores entre duas pessoas de diferente sexo.

ADISCIPULA—Com os espinhos?

OPROFESSOR—Conforme: ha varias especies de flirt. Ha um em que as rosas são quasi todas guardadas por numerosos regimentos de espinhos: é o flirt agressivo, feito de recriminações. Ha quem lhe encontre encanto. Pff! Não lh'o aconselho. É bom para velhas de sessenta annos com osvieux beauxque foram seus namoros. Ha o flirt sentimental, aquelle a quem me referi ha pouco, comclair-de-lunee regatos prateados, o flirt com Theuriet e Alfred de Musset dos proverbios, um assucareiro em que caiu agua e vae entornando calda que pinga e lambusa. Horrivel! Mas tem os seus adoradores, missessur le retour, tias, meninas da Baixa espremidas nos espartilhos de baleia e aço—crosta d'um peixe que a ichtyologia ignora; é muito usado lá para os lados excentricos da Estefania. Ha—tome toda a attenção, pois{17}é o que convem ao seu genero de belleza...

ADISCIPULA—V. Ex.ª confunde-me...

OPROFESSOR—O que ha de mais sincero!... Ha um genero, o meu predilecto... (Ageita-se no banco, torna a retorcer o bigode, olha amorosamente para as unhas rosadas). É o flirt perfumado e finissimo, o fumo das cassoletas com perfumes leves, como se queimassem flores, petalas tremulas d'anemonas...

ADISCIPULA—Como V. Ex.ª é eloquente!

OPROFESSOR(Baboso)—É V. Ex.ª que me inspira!

ADISCIPULA—Os seus olhos sublinham com tal calor as frases!

OPROFESSOR—Um pouco de luz que vem dos seus!... Um reflexo do seu admiravel olhar! É por isso que falo assim. (Approxima-se d'ella). É o flirt em que o coração apenas perfuma... O que tem de bom uma flor? A propria materia? Não, que essa é unica, a mesma na couve lombarda e no lyrio. É o perfume e a côr. Do coração, tambem, só devemos permutar o perfume. Ora imagine: entregar um coração cheio de sangue, a palpitar como um peixe quando acaba de ser pescado!

ADISCIPULA—Até mete medo!

OPROFESSOR—Tem razão. Até mete medo. V. Ex.ª tem sempre razão.

ADISCIPULA—Muito obrigada.

OPROFESSOR—As pessoas formosas—e V.{18}Ex.ª é divinamente formosa—teem sempre razão.

ADISCIPULA—V. Ex.ª é muito lisonjeiro.

OPROFESSOR—A lisonja é o aroma da verdade. V. Ex.ª merece tudo.

ADISCIPULA—V. Ex.ª é extraordinariamente amavel.

OPROFESSOR—Podesse eu ser amavel para que todas as senhoras bonitas me amassem!

ADISCIPULA—Todas?

OPROFESSOR—Quando digo todas... V. Ex.ª comprehende que me refiro a uma só.

ADISCIPULA—Feliz aquella...

OPROFESSOR—Acha feliz?

ADISCIPULA—Deve sentir o peito em festa...

OPROFESSOR—Oh minha senhora!

ADISCIPULA—Lembrar-me-hei de si. Nas noites infindaveis, quando me sento ao piano e os meus dedos correm sem fito sobre o teclado...

OPROFESSOR—Como nardos que andassem...

ADISCIPULA—Como póde dizer isso, se nunca as viu?

OPROFESSOR—Adivinho-as. Mas gostaria de as vêr (Toma-lhe a mão). Estas luvas são de Paris?

ADISCIPULA—Não senhor: são dos Gatos.

OPROFESSOR—(Um pouco desapontado). Não importa. As mãos são lindas. (Vae desabotoando uma das luvas).{19}

ADISCIPULA—(Consentindo). O que faz?

OPROFESSOR—Estes botões são feios. Mas a pelle é finissima.

ADISCIPULA—A da luva?

OPROFESSOR—Não, a da mão.

ADISCIPULA—Agradecida.

OPROFESSOR—(Curva mais a cabeça approximando-se mais, assim, da mão).

ADISCIPULA—(Sem a retirar). O que faz?

OPROFESSOR—Nada, minha senhora... ia vêr melhor o grão da pelle.

ADISCIPULA—(Ligeiramente desapontada). Ah! julguei...

OPROFESSOR—Oh minha senhora! Pensar tal a meu respeito! Não sabe que o flirt é o amor sem desejo, a sombra do Amor? Eu não podia dar-lhe um beijo!{20}{21}

A ANTONIOBANDEIRA

{22}{23}

Maria do Carmo, curvada sobre a meza, folheia os ultimosenvoisde Paquin e Redfern. Um candieiro com um largo quebra-luz de seda e rendas lança-lhe sobre o cabello uma aureola de oiro. O corpo está mergulhado na penumbra. Na sala, os moveis tomam aspectos fantasticos. Os espelhos teem um brilho pallido. Gonçalo, ao entrar, beija a mão que Maria do Carmo lhe estende, sem levantar os olhos dos papeis.MARIA DO CARMO—trinta annos, com dez de casamento. Sem filhos. A vida passa-se-lhe em visitas,raouts, recéções e bailes. Alguns livros da moda, recommendados por Marcel Ballot, noFigaro, e Jean Lorrain, por curiosidade. Interessante como um enigma, ás vezes perversa. Não se lhe conhece um amante, mas indicam-se muitos. Não toca piano.GONÇALO—não tem uma branca, mas no meio da animação, ficticia, vê-se um grande cançaço de viver, como se tivesse experimentado tudo. Procura por toda a parte, como umgourmet, o manjar fino. Epicurista, delicadamente depravado, como umrouéda Restauração, ou um elegante do fim da republica romana.

Maria do Carmo, curvada sobre a meza, folheia os ultimosenvoisde Paquin e Redfern. Um candieiro com um largo quebra-luz de seda e rendas lança-lhe sobre o cabello uma aureola de oiro. O corpo está mergulhado na penumbra. Na sala, os moveis tomam aspectos fantasticos. Os espelhos teem um brilho pallido. Gonçalo, ao entrar, beija a mão que Maria do Carmo lhe estende, sem levantar os olhos dos papeis.

MARIA DO CARMO—trinta annos, com dez de casamento. Sem filhos. A vida passa-se-lhe em visitas,raouts, recéções e bailes. Alguns livros da moda, recommendados por Marcel Ballot, noFigaro, e Jean Lorrain, por curiosidade. Interessante como um enigma, ás vezes perversa. Não se lhe conhece um amante, mas indicam-se muitos. Não toca piano.

GONÇALO—não tem uma branca, mas no meio da animação, ficticia, vê-se um grande cançaço de viver, como se tivesse experimentado tudo. Procura por toda a parte, como umgourmet, o manjar fino. Epicurista, delicadamente depravado, como umrouéda Restauração, ou um elegante do fim da republica romana.

—Ainda bem que veiu!... Preciso do seu bom conselho...

—Como sempre, depois de ter feito alguma tolice?...

—Impertinente!

—É sempre assim. Pede-me o conselho depois de não precisar d'elle! De resto, dá na mesma: ninguem segue conselhos.{24}

—Não. Tenho aqui estes dois albuns. De Paquin... De Redfern... São as ultimas creações. Estou tentada a escolher quasi tudo e a não escolher nenhum... Quer acreditar que tenho dias vazios na minha vida? Dias sem vontade, d'uma grande lassidão, em que nem sequer tenho forças para fingir que sorrío!...

—Ame um pouco...

—É coisa que se encommende? Acordo um dia, com a resolução de amar. É logo. O primeiro que me apparece na Avenida, aquelle que melhor dorme em S. Carlos, o caixeiro que me vende as fitas no Martins! Vê-se bem que nunca amou!

—Não amei! Mas eu nãosou, euamo. É a minha maneira de existir. Um nasce cego; nasci amoroso...

—Calle-se! Diga lá, qual d'estes vestidos prefere?

—Sabe que é muito difficil escolher um vestido pelos desenhos feitosd'aprèsos manequins? O mesmo vestido toma aspectos differentes conforme as pessoas...

—Não faça filosofia. Olhe este de Paquin: ligeiro, todo em rendas, em coisas leves, parece feito com flôres; o Redfern é mais hieratico; mesmo nos vestidos de baile conserva araideurdos córtestailleur. São vestidos para a Bouro, que parece ameaçar-nos constantemente com a sua corôa de marqueza. Este?{25}

—Não lhe irá bem, talvez... O talhe da saia engrossa a sua figura, a que não vão bem...

—O senhor treslê... Tudo me vae bem... Deixe lá os figurinos... Não sabe nada de vestidos... É como do coração. Aconselha-me a que ame...

—E dou-lhe um bom conselho. Nem parece que sou seu amigo.

—Trouxe hoje a alma de cinico?

—Era a que tinha mais á mão. Estava ao cimo da gaveta...

—Continuo a dizer: não percebe nada dos negocios do coração...

—Não ha negocios do coração. O coração dá-se...

—Não; troca-se...

—Para quê? Não é preciso, no amor, ser-se correspondido. Basta amar. É possivel que para a felicidade seja necessaria a permuta...

—O amor é o choque...

—Muitas vezes o cheque.

—Quejeu de motstão velho! É o choque de duas almas. É preciso que girem bem, no encontro. São duas electricidades que se combinam. Conhece a theoria das duas metades da maçã?

—Conheço: é uma figura de rétorica...

—Não é. Andam duas creaturas por esse mundo, ignorando o seu futuro, achando a vida sem rasão, idiota...{26}

—Escolhe uma mentira vital, como diz Ibsen. Conheço-lhe ocharabia...

—Deixe-me acabar. Corre mundos, faz tolices, fecha-se dias em casa, até vae ao circo ver as focas... E nada! Um dia, sem saber como nem porquê, uns olhos encontram-se com os seus, numa multidão. Ha a faisca... Pode ser um santo ou um bandido, lindo como o Rubempré, estupido como um tenor, candidato á grilheta ou futil como um janota. Fica-se presa; somos d'elle para toda a vida, ficamos amarradas a elle, como uma sombra... É assim o Amor, é feito de imprevistos... Não tem rasão alguma de ser, mas é.

—Uma coisa fatal? Tem que ser?

—Sim.

—Permite-me que discorde?

—É teimoso.

—Sou. Já viu alguma discussão dar resultado? O amor é sempre creado por nós. Não amamos senão a pessoa que queremos amar. É, como tudo, um acto voluntario. Ha escolha. Vemos uma mulher, vinte, trinta vezes, sem nos fazer impressão alguma. Um dia ella repara em nós. Se é bonita, elegante, calça no Chapelle e veste na Lippman, pelo menos, a nossa vaidade sente-se satisfeita e começamos a descobrir-lhe encantos, a crear alguns, a afeiçoal-a ao nosso geito. Ao conversar com ella, pomos intensão nas frases ôcas que diz, vemos mysterio{27}no seu sorriso... Estamos presos.—Um bello dia, porém, por qualquer motivo, torna-se util acabar com o pesadello da mulher que aparece em toda a parte: sae das brasas do fogão, a que nos aquecemos, da pagina que lemos, do fumo do cigarro, do papel em branco em que vamos escrever ao nosso procurador. Repara-se um pouco nella. Descobre-se o primeiro defeito. Exageramol-o para o grotesco. E da deusa perfeita tambem as flores e fica uma caração que faz rir.

—Uma theoria...

—Não é, creia. Acontece-me isso duas ou tres vezes por anno. Sabe que ando sempre com uma paixoneta... ou mais. Levo oito dias a fazel-as cair do peito.

—E vive feliz?

—Inteiramente feliz. Saber contentar-se não é a suprema sabedoria? Para que se inventou oflirt?

—Oflirt?Que horrivel coisa? É a «sombra chineza» do Amor...

—É melhor. É o perfume. Os delicados contentam-se. É preciso comer uma flor? Não, basta respirar-lhe o aroma. Ora essas conversas, meio sentimentaes, a um canto, ditas em voz baixa, sublinhadas pelos olhos que toda a alma illumina, são como o roçar de azas que fossem flores. Ha o ligeiro premir dos dedos, sob os leques, certos tremores de labios, como se os beijos n'elles esvoaçassem, uma concentração{28}de todo o ser, que parece boiar no ether, leve... As phrases não se arrastam, n'um espasmo. Teem palpitações, lançam-se n'uma curva larga, até desapparecer em estrella. Não conhece oflirt. Todo o ser é livre e vae entregar-se, rendido... Cada palavra toma um sentido misterioso... Vou-lhe contar umflirt... Estava na Suissa.

—Internacional?

—Cosmopolita. N'um d'esses cantos, que ultimamente o Cook estraga, na Engadine. Paisagem de gelo, hotel de gente podre...

—De chic?

—De chic. Conheci uma americana, deliciosa como um fructo acre, que vivia fora dacoterie swell. O americano vae-se tornando terrivelmenterasta. Trinta annos? Talvez... Mas trinta annos frescos, sem rugas, viuva depois de dois mezes de escasso matrimonio com um formidavelbrasseur d'affairesde New-York, cerebro em ebulição permanente que acabou n'uma neurasthenia aguda. Iamos passear sós, pelo gelo. Sentavamo-nos nos pontos de vista que o Bœdeker não indica, paisagens tristes de tanta brancura, sem uma mancha. Fugiamos dosfive-ó-clock, daspartiesbulhentas em complicada companhia. Comecei a amal-a. Tinhamos lido os mesmos livros, sobre elles fallavamos: gostavamos das mesmas musicas, d'esse Schumann cheio de côr, dolente e envenenado;{29}preferiamos aos flamengos gordurosos e aos hespanhoes sombrios, o delicado misterio dos Vinci, a graça fina e brilhante de Raphael.

A fallar de quadros e de romances, as nossas almas tocavam-se, porque um sentido novo brilhava em cada palavra; e parecia que cada frase terminava n'um beijo. Ás vezes, levemente, as nossas mãos tocavam-se. Era rapido e delicioso. D'esse contacto ficava uma lembrança, como d'um perfume. Amor platonico? Não. Umflirt. Sem arroubamentos. Sempre a Alma livre, sempre o beijo a tremer na bocca, sem cair... Uma ou outra vez, comprehende, por esquecimento...

—Comprehendo. Sem malicia...

—Essa mulher tinha realisado todo o meu sonho! De resto acontece-me isto muitas vezes. O sonho varía com as mulheres que nos interessam. Mas essa parecia realisar tudo. No seu corpo ambiguo, de egipcia, parecia conservar-se, como um fructo no gelo, uma adolescencia eterna. As suas mãos finas, pesadas de tantos anneis em que Vever pozera todo o seu genio estranho, floriam gestos d'uma caricia delicada e terna. A sua alma, que parecia ter visto tudo, ainda sentia a vida com frescura. As horas que passei junto d'ella! O perfume, uma mistura sabia d'Houbigants, entãodernier bateau, perturbava... Longe d'ella, não pensava n'outra coisa. Recordava-me dos gestos, os pequenos{30}detalhes datoilettee da conversa, um rosar de pelle sob as rendas, uma palavra, umgrain de beauté, que tinha na nuca. Sabe como acabou? Ella propoz-me casar. Fechei-me no quarto, horrorisado. Casar, eu? Uma mulher que me julgava capaz d'isso! Era preciso abater esse amor orgulhoso, que crescia no meu peito. Que defeito tinha ella? A principio não vi nenhum... Fui procurando. Tinha, ás vezes, quando fallavamos em francez, erros de grammatica deliciosos. Comecei a achar ridiculo essa ignorancia. D'ahi passou para os vestidos, para o corpo, o peito chato, sem ancas... Tudo caiu. Essa mulher pareceu-me horrorosa... Comecei a troçar d'ella, do seubas-bleuismo... Por fim ella resolveu partir. Lembro-me perfeitamente. O gerente do hotel levou-lhe um enorme ramo debluets, os raros amigos tambem lhe levaram flôres. Todo o carro estava cheio de flôres. Sentou-se entre ellas, afagava-as, cortára algumas para cheirar. Chorára. Ainda me deitou um molho, que tinha beijado. O carro partiu, como se fosse um açafate. E a sua face branca era como uma flôr triste... Não tive pena. O amor já caira. A gente ou gosta ou não gosta, conforme quer.—Vamos fazer umflirtpara experimentar?{31}

A ANTONIO DACOSTACABRAL (THOMAR)

{32}{33}

N'umgarden-party. Emquanto notennisse cruzam as palavras inglezas, e no kiosque, d'onde caem chuveiros de glicinias, se discutem mãos debridge, afastados, junto a um roseiral, Joanna, Maria e Miguel veem jogar.JOANNA—Toda a face branca é illuminada por dois largos olhos negros. Casada ha dois annos com umsportsman enragé, que prefere o cabo de umaraquette, o leme d'umoutrigger, oguidond'um automovel, á mais terna caricia da mulher. Usando e abusando do flirt, um em cada dia, ás vezes dois, tem periodos de fidelidade: quando quer torturar alguem. Provoca-o, chama-o, fal-o entontecer com promessas. Quando o vê absolutamente rendido, foge, para pensar n'outra coisa, ou em coisa alguma. Não vae ao fim de nada. Desenha, mas nunca terminou um esboço; toca piano, mas deixa sempre o trecho de musica suspenso a meio d'um compasso. Tem medo de acabar. É uma natureza hesitante.MIGUEL—Nada intellectual. Um bom animal intelligente. Tem viajado. Mas prefere osteeple-chasede Auteuil a umapremièreno Vaudeville. Admira a força. É um leal. Dá o seu coração sem reservas. É, actualmente, o flirt fixo de Joanna.MARIA—Vão-lhe falhando os admiradores. Os cabellos brancos não lhe ficam bem. Não sente muito a falta, nem se irrita com a felicidade alheia. Natureza simpatica, hoje rara.

N'umgarden-party. Emquanto notennisse cruzam as palavras inglezas, e no kiosque, d'onde caem chuveiros de glicinias, se discutem mãos debridge, afastados, junto a um roseiral, Joanna, Maria e Miguel veem jogar.

JOANNA—Toda a face branca é illuminada por dois largos olhos negros. Casada ha dois annos com umsportsman enragé, que prefere o cabo de umaraquette, o leme d'umoutrigger, oguidond'um automovel, á mais terna caricia da mulher. Usando e abusando do flirt, um em cada dia, ás vezes dois, tem periodos de fidelidade: quando quer torturar alguem. Provoca-o, chama-o, fal-o entontecer com promessas. Quando o vê absolutamente rendido, foge, para pensar n'outra coisa, ou em coisa alguma. Não vae ao fim de nada. Desenha, mas nunca terminou um esboço; toca piano, mas deixa sempre o trecho de musica suspenso a meio d'um compasso. Tem medo de acabar. É uma natureza hesitante.

MIGUEL—Nada intellectual. Um bom animal intelligente. Tem viajado. Mas prefere osteeple-chasede Auteuil a umapremièreno Vaudeville. Admira a força. É um leal. Dá o seu coração sem reservas. É, actualmente, o flirt fixo de Joanna.

MARIA—Vão-lhe falhando os admiradores. Os cabellos brancos não lhe ficam bem. Não sente muito a falta, nem se irrita com a felicidade alheia. Natureza simpatica, hoje rara.

MARIA—... Encontrou o Cerqueira a passear d'um lado para o outro, no terraço do Hotel, a balbuciar phrases, os olhos fechados, um livro na mão.—Que estás tu a fazer?—Tenho{34}hoje de fazer uma declaração á Clotilde. Estou a estudar aqui no Bourget duas phrases tezas!...

(Joanna e Miguel riem-se, mas deixam cair a conversa).

MARIA—A Clotilde merecia-o. Quando se começaram a usar osflous, para que é precisopostiches, ella tinha escrupulos e explicava:—«Sei lá se o cabello pertenceu a alguma creatura damnada! E hei-de pôr na minha cabeça uma coisa de alguem que hoje está a arder nas profundas dos infernos!» O que acham vocês?

(Joanna e Miguel tornam a rir-se, sem responder).

MARIA—Já comprehendo. Vocês querem ficar sós... (levanta-se).

JOANNA(sem convicção)—Não. Deixa-te estar...

MIGUEL(a mesma coisa)—Pelo amor de Deus!...

(Maria afasta-se, voltando ainda a cabeça para sorrir-lhes).

MIGUEL(aprincipio, parece hesitar, por fim decide-se)—Afinal, o que quer de mim, ao certo?

JOANNA—Eu?

MIGUEL—Sim. O que quer de mim?

JOANNA—Não comprehendo...

MIGUEL—É bem facil!...

JOANNA—Quer chamar-me estupida? Ha de concordar que é pouco amavel!...{35}

MIGUEL—Não desvie a conversa. Sabe que mesmo que o pensasse não lh'o diria...

JOANNA—Então pensa-o?

MIGUEL—Não o penso; sabe isso muito bem.

JOANNA—Uff! Respiro... Não poderia entrar na Academia, se fizesse tal conceito da minha intelectualidade... Não é assim que se diz, nos meiostrès dernier bateau?

MIGUEL—Oh! por mim!...

JOANNA—É o seu ambiente, o meio cosmopolita; é inseparavel dos diplomatas, delicia-se no Tyrol e em Roma...

MIGUEL—Quer outra vez mudar a conversa. Não é verdade?

JOANNA—Confesso-lhe que sim... Não percebo o que quer!...

MIGUEL—Repito-lhe: é facil. O que quer de mim?

JOANNA—Olhe: dê-me d'ali a minha sombrinha... N'este momento é a unica coisa que quero de si.

(Miguel traz-lhe a sombrinha vermelha, que ella abre. A luz parece incendiar-lhe o chapeu branco, e toda a face branca).

MIGUEL—Fallemos a serio, um pouco...

JOANNA—Já me viu brincar? Na minha edade!...

MIGUEL—Fishing for compliments?

JOANNA—Será, se quizer... Oiço-lh'os tão poucas vezes!{36}

MIGUEL—Queria passar a vida, como um d'esses pagens antigos, sentado a seus pés a cantar-lhe endeixas. Mas o seu sorriso paralisa, na minha bocca, o amor que vae a sair.

JOANNA—É o que o Cerqueira chamava uma phrase tesa!

MIGUEL—Porque troça de mim? Porque faz de mim seu joguete? Eu andava feliz e livre, sem mulher alguma que me preocupasse. Nunca andei tão alegre. Vivia a minha vida, livremente. Todas as mulheres bonitas me pareciam eguaes. Joanna começou a chamar-me, a dizer-me phrases que me prendiam, que me entonteciam. Tinha olhares para mim tão cheios de promessas, que corri como um esfomeado, diante d'uma mão que se lhe estende, carregada de vitualhas. E junto de si senti-me perturbado. Foram para mim as palavras mais carinhosas, aquellas que tinham um sentido ambiguo, banal para os estranhos, para mim precioso e comovido. Parecia um flirt terno. Subitamente, tudo mudou. Parece escolher tudo o que possa desagradar para dizer-me. É o flirt agressivo, em que d'uma das partes não ha amor, ou o quer esconder. E a conversa é toda feita de botes de florete, que muitas vezes arranham e podem até matar o amor.

JOANNA—Tout passe, tout casse, tout lasse... Porque não ha de ser assim o Amôr?...

MIGUEL—Mas deixe-o acabar por si, como{37}uma flôr n'um jardim deserto, que se desfolha aos poucos...

JOANNA—Para apodrecer?...

MIGUEL—Ó não, não apodrece. Evapora-se como uma essencia e deixa um perfume suave—uma recordação...

JOANNA—Outra phrase tesa. Está terrivel!

MIGUEL—Faça-me a justiça de pensar que não a li...

JOANNA—Não. Ouviu-a em alguma peça... Você diz-me que não lê nada...

MIGUEL—Leio oSeculo, todas as manhãs.

JOANNA—Não acredito...

MIGUEL—Palavra! Por causa das cotações da bolsa. Tenho uns dinheiros nos fundos russos... Mas não sobem... Ando infeliz em tudo: no jogo e nos amores.

JOANNA—Nos amores? Diz isso a mim? Você é muito ingrato, Miguel!

MIGUEL—Continua a brincar comigo!

JOANNA—Agora é occasião de eu tambem fallar a serio. E faço-lhe a mesma pergunta que me fez ha pouco:—O que quer de mim?

MIGUEL—(não atina com a resposta) Eu?

JOANNA—Sim. O que quer? Tem um flirt comigo... É o meu preferido...

MIGUEL—Diga antes favorito, como se tratasse d'um cavallo de corridas.

JOANNA—É o meu favorito, seja. Gosta de mim? Muito. É o que ia a dizer, com alguma{38}rétorica. Não gosto eu de si? Não me ponho pelos cantos a fallar comsigo, a sós? Não estou aqui a apanhar sol, só por sua causa, para poder estar comsigo, em liberdade, sem ter ninguem que nos oiça? Não vou á Avenida todas as tardes para o vêr? Não olho para si sempre no theatro? Não lhe digo os dias em que voushoppingpelo Chiado? Para quê? Para estarmos juntos! Então que quer? Quer casar comigo? Mas sou casada e felizmente não ha o divorcio entre nós.

MIGUEL(tristemente)—Felizmente?

JOANNA—Sim! Felizmente. Primeiro, é contra a religião; depois, escusa a gente de se arrepender varias vezes de ter casado. Assim arrepende-se uma só. Não pode casar commigo. Então o que quer?

(Miguel olha-a estupefacto. Não encontra resposta. A expressão de Joanna é equivoca. Miguel não sabe se falla ingenuamente, se quer mystifical-o. Cala-se).

JOANNA—Então bem vê que não tem razão para se queixar de mim!

MIGUEL(Tem o ar de quem apanhou de surpresa uma grande pancada. Olha para Joanna, para si, para os outros. Pensa que o desfrutam. Acodem-lhe á boca frases energicas. Levanta-se, ageita o fraque e despede-se).—Muito boa tarde!{39}

AO CONDE DEARNOSO

{40}{41}

—Ajude-me a servir o chá, primo...

Levantou-se. Na quasi obscuridade da sala, que tinha uma luz violacea—coada pelos vitraes onde se curvam lirios roxos—Clara parecia nascer dos tapetes, como uma graciosa e alta flôr de espuma. «Toilette» branca e ligeira, como pennas de ave, toda em musselinas, apenas indicando a elegancia do seu corpo fino, ia morrer no tapete branco...

Ia por entre os moveis, offerecendo as chavenas onde fumegava o chá perfumado, que da China trazem lentas caravanas, por tortuosos caminhos. O seu corpo agil descrevia carinhosas curvas. O ruido das conversas continuava... Um «flirt» a um canto murmurava, como se as palavras ficassem nos labios. Paulo, de grupo em grupo, uma chavena na mão, contente por ser alguma coisa, junto d'ella, tinha na bôcca um sorriso beato.

N'aquella tarde nem conversava. Entravam{42}e saiam as visitas, umas apressadas,—«apenas para saber de ti, Clara»—outras morosas, dando «rendez-vous» no salão elegante e discreto, onde na meia luz quasi se não conheciam as pessoas, podia-se estar sem ser visto. E Paulo, calado, n'um fauteuil a um canto, sorria para si proprio, olhando a figura indecisa de Clara, os cabellos loiros, na sala como enevoada onde apenas o fogão, por baixo do para-feu, tinha um brilho vermelho.

Lembrava-se de todo o comprido caminho percorrido desde aquella noite em Cascaes, em que o impressionara a graciosidade de Clara, o seu aspecto de flôr fresca, sempre em «toilettes» leves, abundantes em gazas, crepons tenues. Certamente que, companheiro e parente, admirára sempre a belleza da prima, mas seguira outros caminhos, nunca reparára bem para o enigma perturbante dos olhos verdes, para a elegancia moderna, feita de graça, a gentil figurinha de Boldini, princeza de cera e de seda, cujas mãos eram dignas de vêr florir entre os dedos os anneis mais preciosos que Vever e Lalique inventam, em combinações de moribundas gemas. Nunca olhára bem para ella com olhos de vêr. Habituára-se desde a puberdade a vêl-a. E seus cubiçosos olhares procuravam outras mais distantes, que julgava conhecer menos, pelo encanto do imprevisto.

Mas essa noite! Como lhe apparecia ainda,{43}depois de tantos mezes, nitidamente, essa noite d'um ceu leitoso, com uma lua enevoada, que se espalhava sobre o mar, sem brilho. Na varanda do Casino, quasi deserta, os Auers incidiam fortemente sobre Clara. No mar, em baixo, fogachos prateados tremiam. E além, as raras luzes da Cidadella; na Esplanada os focos esverdeados tiravam da sombra manchas de palmeiras e listravam de luz a agua inquieta, gemebunda e misteriosa.

Paulo, recostado n'uma cadeira, olhava a mancha mais negra do yacht real, apagado, apezar das suas lanternas que tremeluziam no mar. O charuto caíra-lhe da boca. Foi uma frase preciosa de Clara que o acordou:

—Quem me dirá um dia a cantilena do mar? Como ella embala! Como seria bom dormir a ouvir junto de nós a suave cantilena!

Paulo olhou para ella surprehendido. Pois quê? Clara, a ultima florescencia dosraoutse dosteas, teria phrases de heroina de Rosseti, seria leitora de Ruskin? Foi então que reparou nos olhos cheios de sonhos e de misterio, na bocca dolorosa, a vermelha e fina bocca, no seu collo de infanta apenas nubil, em toda a adolescencia que se conservava intacta no corpo precioso, como um fructo no gelo.

Começou então a seguil-a. Dura lhe foi a vida em theatros, jantares e bailes. Não faltava a umasauterie, a umaparty, que d'antes{44}o deixavam indifferente, ficando nas interminaveis partidas debluff. A dolorosa expressão que na bocca se vincára n'aquella noite do Casino desapparecera; um grande contentamento da vida parecia boiar á flor dos olhos garços e os movimentos rythmicos, que ella fazia, como se fosse ao som d'uma musica, eram livres, felizes, sem promessas.

Não voltar o abandono d'aquella noite! Paulo desejava que Clara outra vez abrisse a sua alma, para elle sentir a caricia deliciosa.

Mas a mulher amada conservava-se indifferente, risonha, um poucocoquette.

Para os seus madrigaes escolhidos, preparados com antecedencia, buscados em livros de auctores novos, phrases perturbantes de Lorrain, perfumados disticos de Henri de Regnier, licenciosas palavras de Lionel des Rieux, com um sabor antigo, até o proprio d'Annunzio servira para a pilhagem,—para todos esses periodos carinhosos ella tinha o mesmo riso, que abria a bocca fina, descórada, que o traço de carmim violentaria a macerada pallidez da sua face:

—Ah! Paulo! Ah! Paulo! Apaixonado por mim! Tenho-lhe conhecido tantas paixões? Só na semana passada, tres!

—Se não penso senão em si!

—Quando está commigo? Nem isso!

—Clara! Clara! Se me conhecesse bem, veria{45}como a minha alma se fez para si um fresco bordão de assucenas...

E outro riso claro cantava na bocca exangue, a troçar da phrase pretenciosa.

Uma tarde, n'umgarden party, emquanto nocourtdetennisas palavras inglezas crusavam-se e os jogadores corriam, araquetteno ar, elles um pouco afastados, juntos a um macisso de jasmineiros que floria, cobrindo-se d'uma renda fina e branca de pequeninos jasmins, Paulo, esquecendo-se das phrases decoradas nos romances, deixou sair da bocca, livremente, toda a força e toda a anciedade do amor que parecia abrir-lhe uma chaga no peito, teve palavras em que fulgiam desejos, os olhos brilhavam, enternecidos, agarrou-lhe nas mãos, encheu de beijos as palmas roseas, puxou-a para si, e pôde dar-lhe, de surpresa, um grande beijo na bocca, soffrego, que Clara não pôde evitar.

Voltada a si do pasmo, espantada pelo insolito atrevimento que a sua ligeiracoquetterienão permitira, quiz zangar-se; mas voltou a rir-se, como se esse beijo, que lhe deixara na boca um calor de chama, tivesse sido apenas uma phrase, das grandes phrases de Annunzio, tão cheias de volupia que entontecem, como os largos calices das magnolias n'um pequeno jardim fechado. E sempre a sentir na bocca a impressão ardente d'esse beijo, Clara correu{46}para otennis, a querer jogar tambem para esquecer-se.

Era d'esse beijo que Paulo vivia, tomado de assalto, como n'uma pilhagem de egreja.

E, apesar de Clara continuar a ser indifferente e risonha para elle, lembrava-se da perturbação que levára á alma ligeira da preciosa bonequinha de Nuremberg; olhos abertos, continuava a sonhar que esmagava os labios exangues sobre a pressão da sua bocca ávida.

Paulo era um romantico. Paulo vivia de pouco, como as aves do ceu.{47}

A LUIZFERREIRA DECASTRO

{48}{49}

No café, diante dococktailvulgar, eu esperava um amigo. Fôra mais cedo para a entrevista, de maneira que antes da hora lêra os jornaes, folheára as revistas, olhára para o relogio, consultára até o barometro, interessado. Iam saindo os clientes, aos poucos. Conforme se levantavam das mezas, o criado, n'umcracapagava a lampada electrica. Eu ficára já, n'um canto, quasi na meia luz. No fundo da sala as lampadas faiscavam nos espelhos, telintavam os pratos, as discussões cruzavam-se.

Esperava em vão... Comecei a ceiar.

D'ahi a pouco um rapaz veiu sentar-se ao pé de mim. Conhecia-o de o vêr nos cafés nocturnos, quasi sempre em companhia de mulheres faceis, estardalhando, contando façanhas de orgias nasvadrouillesde Montmartre; de quando em quando, como n'uma expansão, falava de um quadro que entrevira n'um museu, alguma{50}luminosa festa da Renascença, um nú veneziano, ou preciosas figurinhas dos primitivos, simples e mal desenhadas, entre brocados de oiro.

Mas nunca me ligára, correndo a minha vida n'outra direcção. N'essa noite, admirei-me de elle deixar a bulhenta sociedade quesabrait le champagne, para se acolher ao silencio, á quasi obscuridade.

A principio bebeu a pequenos goles o Bucellas que mandou buscar. Tinha o ar de quem hesita em praticar um acto, o recolhimento subito d'um gesto esboçado, ensimesmava-se, enchia novamente o copo, lia attentamente o rotulo da garrafa.

Por fim debruçou-se para a minha meza:

—O senhor gosta de coisas exoticas, das mulheres finamente perversas, do brilho das podridões...

—Ó, não! Apenas dofaisandé!...

—É uma questão de palavras... Tudo o que é ambiguo, perturbante, insexual, tenta-o; compraz-se no esmiuçamento das taras, é o chronista do irregular, doà coté. Prefere as monstruosas orchideas ás rosas, o enigma dos Vincis, á belleza forte dos Rubens. Deixa-me contar-lhe uma historia?

Por certo que a minha phisionomia traiu o receio da maçada eminente. Toda a gente imagina que a sua vida é um «motivo» interessante{51}para um livro. E eu tenho deixado cair, como folhas secas, tantos casos que me contam, compridamente, com meandros de detalhes!

—O senhor tem o dever de me ouvir e não se arrependerá! O senhor é um psicologo...

—Não faço profissão...

—Não importa. Tem obrigação.

—N'esse caso...

Resignei-me.

O noctambulo começou a contar. Tinha a linguagem pittoresca, imageada, parecia comprazer-se com a sua phrase. Notei-lhe grande copia de estrangeirismos. Mas o caso pareceu-me interessante. Aqui o deixo registado.

—Comprehende que eu,fetardcançado, que tenho visto museus entre duas ceias no Maxim ou no Carlton, que aprecio mais otea-roomdo Grand Hotel, de Roma, que oSalon Carrédo Louvre ou a sala de Velasquez, no Prado, só lhe poderei fallar da mulher ou do amor. E das mulheres que tenho conhecido, um pouco por todo o mundo, d'aquellas que teem ficado com um pouco da minha mocidade entre os dentes brancos ou os dedos esguios, só me recordo da ultima, que é a melhor e a peior, a que faz rir e soluçar, curva-nos n'uma somnolencia em que nos apparece muito mais bella do que é realmente, cingida com todas as joias com que a nossa phantasia a enfeita, mais cruel tambem, porque o amor torna mais cruciante{52}as dores, intensifica o desespero, cria a halucinação da Magua, inventa a Chiméra da turtura, essa Chimera de afiadas garras que nos retalham... Estou muito eloquente. Faça-me signal, quando lhe parecer Cicero...

Imagine que conheci, n'uma pequena cidade italiana onde me fôra curar d'uma paixoneta recente, uma creatura singular, cujo encanto me prendeu quasi de subito. Era uma figura de bisantina, atavismo talvez, influencia das pinturas de Ravenna, onde passára a mocidade. E, artista, cultivava essa feição, arranjava penteados hieraticos, sem complicadas e rutilantes gemas, que o cofre do pae, mediscatro qualquer, não era abundante, mas com flores, essas rosas vermelhas de Pæstum, que ella propria cultivava, amorosamente, no pequeno jardim de sua casa. O que tinha de bisantina realmente, era a bocca fresca, a bocca innocente que sorria apenas, n'uma candura de primeira commungante, uma bocca que deixava em nós a impressão de que era um seraphim a sorrir. E não apetecia beijal-a: apenas quedar-se a gente deante d'ella á espera que nascesse a claridade auroral do sorriso, em que mostrava levemente o traço branco dos pequeninos dentes. Mas os olhos escuros desmentiam toda a infantilidade da bocca, o aspecto angelical do seu corpo magro d'adolescente, o collo branco e purissimo. Os olhos brilhavam como n'um{53}assalto, a ferir, sem ternura, no fundo uma repulsão ou um escarneo...

Essa mulher tentou-me. Largos mezes fui todos os dias á sua casa onde me recebeu com palavras dulcissimas. Estendia-me a mão deliciosa para beijar, dizia-me frases que entonteciam como um vinho aspero, fazia passar por mim o perfume forte que punha nos longos cabellos, que ás vezes caíam pesadamente da cabeça, estendiam-se pelas costas, como uma rosa que se desfolha, d'uma vez, da haste. Ás vezes furtivamente, apertava-me a mão com força. E sorria-se ingenuamente a face de perola, eu via a innocencia de toda aquella figura, porque ella fechava os olhos, como se todo o seu ser adormecesse n'um espasmo.

Ao sair, tinha remorsos de não ter beijado a bocca fresquissima, de não ter, sob a pressão dos meus labios, maguado os olhos maus.

E toda a noite soluçava, enraivecido a desejal-a, até que de tarde ia visital-a, encontrava-a estendida, n'uma atitude de imperatriz, bisantina, em sedasmoirées, toda a gama do verde e do lilaz, a garganta descoberta. E n'um gesto estudado, estendia-me a mão, que eu beijava longamente, essa mão em que as gemas não brilhavam: escuras, opacas, pedras finas, opalas, como gottas de agua d'um lago envenenado.

E a scena repetia-se. Eram perturbadores oaristos, que deixavam os nervos tensos e vibrantes.{54}Na voz amortecida e doce, dizia as palavras magicas que accendem fogachos. E quando ella via toda a minha Alma arremessada para ella, tinha o fechar de olhos, abria o sorriso celeste, e eu fugia com medo de mim e com medo d'ella. Como? Uma creança ingenua! Era preciso fugir!

Um dia tive que partir.

Tinha, na pequena cidade, perdido largos mezes. Fui a uma ultima entrevista, chorei como uma creança ao dizer-lhe a magua immensa de a deixar. Contei-lhe toda a tortura d'aquelle tempo de infinita delicia e infinita tortura; pela primeira vez disse-lhe claramente, entre lagrimas tristes, quanto amára todo o seu ser, todo o seu corpo flexivel, todo o seu espirito cançado, mas mesmo assim brilhante. Que me dissesse uma palavra de esperança, que me deixasse levar uma harmonia divina, uma palavra de amor!

Teve uma frase, apenas, com uma expressão de immenso sentimento:

—E não trouxe um fonografo!{55}


Back to IndexNext