CLARAA JULIO DESOUSA.{198}{199}CLARAFriorenta, encolhida no fundo do coupé, tudo era indeciso na figurinha que passou rapidamente, na tarde a escurecer.Nascia da penumbra, sem presisão nos contornos, como certos retratos de Columbano e de Henner. E entre o chapeu preto e a face branca, o cabello loiro punha uma esmaecida aureola como uma tenue poeira d'ambar. A boa, derenard bleu, ainda aumentava o indeciso, o fluctuante d'essa mulher; os olhos claros não brilhavam; o vermelho da bocca desmaiava... Figurinha de cera e de seda, que passava, olhando para a rua sem attentar talvez em ninguem, levando o nosso desejo de decifrar enigmas, indefferente, graciosa, impressionou-me... Ao amigo que me acompanhava recorri para saber d'ella. Quando me voltei para perguntar, vi que Roberto se pusera pallido; parecia que á bocca se lhe afivelára uma boqueira de pedra, mascara trágica a emudecer.{200}Seguiu com os olhos a carruagem que trotava pela Avenida até se perder entre as arvores em Valle de Pereiro.—Quem é? gaguejou. Alguma aventureira cosmopolita que veiufaire le Portugal. Um pastel de Antonio de la Gandara, maquilhada como uma infanta de Velasquez, mais artificial que uma boneca de Nuremberg, sem vicio, talvez, amante enternecida d'algumcroupierdeCercleordinario... Sei lá!... encolheu, impaciente, os hombros, a concluir.Houve um silencio. Raras carruagens passavam. Estava triste a Avenida. Descemos. Abriam, simultaneamente, as grandes flôres geladas e luminosas das lampadas electricas. Rapidos, fulgiam os americanos. Outra vez a mulher passou, mais indeciso o vulto, apenas destincto o palôr da face branca nocoupéescuro.—Porque teria vindo cá, essa mulher? perguntou Roberto, colerico.—Conhecel-a?—Se a conheço?! Tenho querido arrancal-a de mim, como se arranca d'um boi uma farpa—violentamente. Tenho querido fugir de mim, para a esquecer! E quando estou quasi a conseguil-o, quando a tortura da sua lembrança é em mim apenas uma cicatriz, eil-a que apparece a reavivar a chaga antiga, a tornal-a mais dolorosa! Clara veiu aqui só por minha causa, ouves? Para fazer-me soffrer!{201}Agarrava-se-me ao braço, a apertal-o violentamente. Na bocca accentuava-se-lhe, aspero, o vinco da amargura.—Foi esta mulher que me fez fugir de tudo, perder o amor a tudo, desterrar-me para esta passividade, eu que amava a vida dolorosamente, gosando com tudo, intensamente!«Conhecia-a em Hespanha! N'um inverno humido deixei Lisboa e acolhi-me a Sevilha. Os dias gloriosos de sol que lá gosei pelas margens do Guadalquivir azul! Andava ebrio de tanta luz que enchia d'oiro e de triumpho a cidade alegre. Saia para os campos, logo de manhã, a rir-me com os trigaes e com as flôres. Ia ao parque vêr o sol fulgir nas caudas abertas dos pavões orgulhosos; descia ao caes para vêr brilhar na agua incendiada os cobres polidos dos navios; enchiam-me de prazer a barulheira dos carregadores, o chiar aspero dos guindastes, o estridulo das sereias, nos vapores que partiam... Tudo era alegria na cidade maravilhosa mesmo á noite, as lampadas incendiavam aSierpeebrilhante, onde se apertava uma multidão palradora. Das janellas dos casinos, das portas dos cafés, dos mostradores das lojas, vinham chapadas de luz. Misturava-me a toda aquella vida insolente, ria com todos os risos, todos os labios frescos me chamavam, rodeavam-me todas as cabelleiras fartas, cheias de flôres. O donaire das andaluzas d'olhar de volupia fazia-me{202}achar mais bella a Vida. Era como um poema a enaltecer a obra de Deus. Por todos amar, não amava nenhuma.Comprei o sineiro da Cathedral. Do alto da Giralda, uma noite, possui a cidade, senti que todo o tumulto confuso que até mim chegava, era o seu sangue que pulsava por mim nas suas arterias; aquella resplandecencia, brilho de joias com que cobria a nudez. Os tranvias iluminados, cortando em mil direcções a cidade, eram pedrarias, aqui se apagando uma, para alem se accender outra, conforme as ia eu tocando com os meus olhos amorosos. Ella, em baixo, abria os seus braços, entregava todo o seu corpo, a morena Sevilha, offegante e lasciva!«Era feliz, poderosamente feliz. Sentia, em cada palpitação cardiaca, o sangue remoçado que se espraiava pelo corpo. Foi então que conheci Clara. Ella passava pelaSierpes, junto aoCredit, enygmatica, como a viste. A elegancia do seu porte, ultima florescencia da moda franceza, quasi immaterial, contrastava com a forte humanidade das sevilhanas cheias de vida, de sangue e de desejos. Todos se voltaram para ella e lhe abriram caminho, como se passasse um andor. Fui logo preso pelo encanto decadente e artificial, esqueci a Vida e a gloria de viver ao sol nos campos fecundos. Regressei á hyper-civilisação; segui-a e alegre entrei, atraz d'ella, para o seu e meu hotel.{203}«Vergonhosamente a segui como um cão fiel. Vergonhosamente mendiguei um olhar dos seus olhos parados; e contente fiquei ao vel-a um dia no salão da leitura, por que pude dirigir-lhe a palavra e pedir-lhe licença para fumar. Apesar da resposta secca, insisti e entabolámos conhecimento.«Doces foram para mim os dias, em que visitámos Sevilha. A casa de Pilatos e as suas penumbras em que esmaecem estuques e o patio claro de marmores harmoniosos ouviram as palavras aladas que lhe disse; diante das Assumpções do Murillo e dos frades de Zurbaran, no museu deserto, contei-lhe o poema do meu desejo; naCaridad, a mostrar-lhe a estatua de Herrera, ouviu a perfumada e embaladora cantilena. Na Giralda, a vêr Sevilha doirada, deitada na planicie que ondulava, até perder-se no horisonte circular, offereci-lhe toda a minha alma e toda a minha vida. Houve momentos em que seus braços foram a levantar-se para apertar o meu pescoço; julguei sentir o seu peito leve arfar de commoção: muitas vezes a boca se apertou para a florescencia dos beijos e seus olhos verdes se encheram de luz; mas rapido, tudo se desmanchava, e um sorriso tremia na boca desmaiada, a mostrar a linha branca dos dentes.O flirt desabrochava. Uma tarde, nos jardins do Alcaçar, á porta dos banhos de Maria Padilla,{204}passou por mim o corpo delgado, agil, pela cara roçou o cabello que tinha um perfume penetrante; fallou-me do seu corpo e, sentados no salão dos Embaixadores, estendia a perna, para mostrar o tornosello fino e a meiaajourée, que deixou vêr a pele branquissima. Todas as noites eu pensava, que no dia seguinte beijaria a boca perfumada. E todas as manhãs via cair a minha esperança, como as folhas murchas que o vento sacode dos ramos seccos.«Certamente que as minhas palavras deviam ser perturbantes, porque sahiam d'um coração perturbado. E, pesadas de tanto amor, cahiam da boca vagarosamente. Ás vezes os cilios de oiro abatiam-se sobre os olhos, como n'um espasmo. Mas logo o sorriso abria-lhe a pequenina boca!«Longos dias, longas semanas, durou o encantado oaristo. Já não cuidava da gloria da natureza; das apoteóses do sol sobre as aguas azues do rio. Só pensava n'ella, só vivia d'ella.«Um dia, porem, eu soube! Alguem, com palavras que julgou caridosas, veiu pôr no meu coração as sete espadas! A creaturinha delicada e deliciosa, princeza de balada d'hoje, urna de perfume, a quem me entregava como um collegial, era uma aventureira das que frequentam aRivierano inverno, Aix no verão, Paris na primavera, e que a Sevilha viera atraz d'um{205}clown, que no circo fazia rebentar estrépitos de gargalhadas... Ao seu morbido encanto me prendera, e atraz d'ella me fui a soluçar, flor de lameiro em que puz todo o perfume suave... Fôra nas mãos d'ella um saxe fragil como que se brinca!«Ah, meu amigo! O desespero e a raiva puzeram mãos assassinas a estrangular-me! N'um impeto, como uma aura que se nos levanta do peito e nos atira para o ataque epileptico, decidi-me. Levei-a n'um trem para o campo, para alem da Cartuja, com um cocheiro de confiança. E alli, desapiedadamente, bati-lhe, arranquei-lhe as sedas e as rendas—parecia, nua entre os trigaes verdes, uma magnolia enorme!—e o seu corpo cobriu-se todo de sangue. Clara gemeu, implorando; as lagrimas empastavam a maquilhagem; via-a sordida, enrolando-se para escapar ás chicotadas, e fugi, ebrio, doido, a correr, diante do cocheiro espantado que me metteu no trem e me levou a Sevilha.—Senorito, la navaja era mejor, aconselhou-me.«Parti. Nunca mais soube d'ella. Trouxe-a dentro de mim como um espinho. A dôr que lhe causei augmentou a minha pena. De ter visto o corpo magro e branco, ficou-me a ancia de o beijar. Andei de noite, pelas ruas, a correr sem forças para fugir de mim e d'ella, porque a figura surgia deante dos meus olhos,{206}bella de toda a perversidade e de toda a lascivia, como uma invencivel tentação, a que o maior santo succumbe.«Ás vezes conseguia distrahir-me; de repente ella surgia, sentava-se na minha frente, mostrava os vergões das chicotadas, todo o corpo impudico perfumava e brilhava, e a boca sorria a escarnecer de mim!«Foi algum philtro que me deu.«Ia a esquecel-a e eil-a que novamente me apparece, a prender-me, a levar-me, outra vez para a allucinação, a atiçar o incendio que me queimava!«Talvez queira vingar-se!Não. Não queria vingar-se. Clara veiu a Lisbôa, soube-o mais tarde, atraz d'um comprimario de S. Carlos, seuamant de coeur.{207}IDILIO TRISTEA EDUARDOVALERIOVILLAÇA.{208}{209}IDILIO TRISTENo jardim, a tarde de oiro era perfumada pelas rosas e pelos cravos. Nos canteiros, os cravos levantavam-se impertinentes, risonhos, em delgadas hastes. E, por toda a parte, entremeiando-se com os buxos, enroscando-se a uma macieira em flôr, serpenteando pelos muros, subindo pelas sebes, uma opulenta floração de rosas de toda a côr, rosas de oiro pallido, rosas roseas, rosas vermelhas a estremecer, como labios de que vão cair os beijos, rosas escuras, enormes, sensuaes e dolorosas, umas ainda em botão, misteriosas como as adolescentes, outras já totalmente abertas, sem enigma, como as amantes antigas—todas ellas misturavam o seu perfume no jardim quieto, em que as pombas arrulhavam, beijavam-se e depois partiam em vôos curvos, as azas brancas a brilhar ao sol.Os dois amantes iam calados, elle a olhal-a intensamente, como a querer apreendel-a, como se os olhos fossem bocas e podessem beijar,{210}braços e conseguissem abraçar—ella um pouco aborrecida, a desfazer entre os dedos longos uma orchidea azul listrada de vergões esverdinhados.—Pensei em ti sempre, dizia elle. No Prado, diante dos tapetes de Goya, disse o teu louvor. As raparigas esbeltas, que vão á fonte, as bilhas esguias á cabeça, como as princezas de Homero, não tinham a tua elegancia... Ás infantas de Velazquez, artificiaes, cadaveres de bonecas, em que apenas os olhos attonitos teem vida, faltava a tua belleza. As santas hirtas de Memling não tinham na bôca a primavera que ruboresce os teus labios... Só na curva do braço de Danae, de Ticiano, pude ver uma attitude como tens... Por todo o museu me perseguia a tua imagem, como um canon, para avaliar as obras. As gordurosas flamengas de Rubens, as cigarreiras sensuaes e extaticas de Murillo, as energicas mulheres de salteadores em que Ribera se compraz, eram muito diferentes de ti, d'ellas fugia o meu olhar. Em Raphael havia alguma coisa da tua doçura risonha, mas demasiado passiva; em Greco, a tua distincção, mas severa; apenas Leonardo te saberia pintar, quasi irreal por seres tão bella, indecifravel, como uma esfinge sem segredos... Como uma esfinge sem segredos... Que segredos teria a suave mulher do Jocondo? Que segredos terás, alheia a tudo, passando pela vida, ligeiramente,{211}como a agua que vae n'um ribeiro, correndo e cantando? Vi-te em toda a parte. Levei-te sempre commigo! Talvez o Moro te tivesse pintado...—Viste bem o museu...—Vi, porque te buscava... Um dia, ao aproximar-me da escadaria, vi fugir, n'um automovel ligeiro, uma mulher, que se parecia comtigo... Era um carro vermelho... Por toda a parte tive ahantisedos automoveis vermelhos. NoRetiroe naCastellana, o meu olhar prescrutava, revolvia todos os automoveis, todas as carruagens, a ver se te encontrava. Todas as manhãs, pelo museu, andava á tua espera, embora te soubesse aqui, indiferente. Como te não encontrava, procurei vêr o teu retrato, n'algum quadro antigo. E puz, em muitos, o reflexo da tua belleza, porque n'uma atitude, n'um olhar, havia alguma coisa de ti...—O governo hespanhol agradeceu-te a valorisação dos quadros?—Ri-te. Ri-te de mim... A tua boca, ao abrir-se n'um riso, é uma flor de nácar e prata...—A principio, procurei-te... Depois, como a tortura fosse muita, quiz fugir da tua imagem. Fui para Sevilha onde tudo é Amor e resplandece. Deixáras de escrever-me... Só sabia que não pensavas em mim. Ali, tudo é alegre e luminoso. O sol é o sangue da cidade... Doira a planicie e as palmeiras de S. Fernando. Levanta{212}scintillações do calado Guadalquivir azul e da cupula inflamada da Torre del Oro. Enche de vida o jardim do Alcazar, com seus repuxos com enjoalhadas lagrimas. Tudo é luminoso e perfumado. O amor, ali, não aniquilla, escalda. Entre os cravos que guarnecem as grades das janellas, as mulheres olham os seus namorados com um olhar d'assalto. Ha uma voluptuosidade suspensa no ar. Tudo vive, tudo ama, parece que tudo é feliz. Ha uma embriaguez de côr. E nas varetas dos leques saltitam os beijos que caem das bocas. A Sierpes, á noite, palpita com todo o anceio de tumultuosa cidade... Nos pateos, sob as pequenas palmeiras e musas, os flirts sussurram palavras de entontecer... Como tudo brilha! Só o meu coração se apagava e murchava com saudades... Nos banhos silenciosos de Maria Padilla, pensei no afortunado amor de favorita, nos lentos passeios pelo jardim, nas casas de fresca sombra, onde luzem os estuques policromos e os azulejos... E não deixei de sentir-te ao meu lado...—Acredita que não foi por minha culpa...—Fugias-me. Deixavas-me a tua imagem, para torturar-me. Mandavas-m'a, a envenenar-me de longe... A belladona é doce e envenena... Muito mel embriaga... Tão real a sentia, que, á noite, olhos fechados, queria abraçar-te, e tinha a desillusão de Pan, quando perseguiu a ninfa Seringe... Como quem corre atraz do sol{213}e se encontra encerrado n'um bêco. Nunca mais me escreveste!Deixaste cair o teu amor do peito, como as flores que levaste ao baile...—Depois d'uma noite de baile, as flores já não perfumam. O amor precisa do viço. É necessario podar o coração...—Bem sei. Não te recrimino. Lamento-me...—Lamartiniano!... Julgava-te mais forte e mais moderno. Parecia-me que a cultura intensiva do Eu tornava impossivel um amor sem esperanças... Filosofos!...—Amar-te, não é para mim uma função: é a propria essencia do meu ser. Julgo ás vezes que não existes, material e tangivel, que existes mais real: nasceste e vives no meu cerebro, tanto se casa a tua figura ao meu sonho de belleza. Pintor, se idealisasse uma mulher, o meu quadro pareceria o teu retrato, embora nunca te tivesse visto. Poeta, o teu misterio seduz-me, alma que se guarda, avidamente, sem que ninguem a adivinhe. Todos passam por ti, sem a possuir, como as quilhas dos navios que cortam as ondas não maculam a eterna virgindade do mar... Foi ao ver o mar, que mais pensei em ti. Pelo Mediterraneo socegado, estudei a onda, sem conseguir conhecel-a. As ondas são graciosas, as suas curvas teem ternos desenvolvimentos: dir-se-iam mulheres que brincam na relva fresca. E desfazem-se em flocos de espuma,{214}quebram-se umas contra as outras com fragilidade de cristaes, são leves como leques, e no emtanto matam, levantam-se em vagalhões que sacodem os couraçados, despedaçam os navios. Carinhosas, riem e fogem, como tu; a onda de esmeralda que saltita, enfeitada de rendas, subitamente é uma gigantesca aza d'abutre que se curva, para apreender... É um abismo que ri... As mutações rapidas do mar fizeram-me lembrar o teu amor que desapareceu sem se saber porquê...Nem sequer recrimino. «Não me esqueço», prometeste. E as tuas palavras que guardei, como guardaria uma estrella, ainda cantam nos meus ouvidos. E ha tanto que te esqueceste! Vivo do passado. Vive o meu coração do passado, como as velhinhas, que foram actrizes, e no asilo se lembram das aclamações quando faziam papeis de rainhas sumptuosas com luzidas cortes a seguil-as e galãs esbeltos a segredar frases d'amor...Mas o passado esgota-se, como as cisternas, quando durante muito tempo não chove...»Ella cortara e desfolhára as margaridas de uma moita viridente. O sol ia a morrer, n'uma catástrofe... Um rebanho de nuvens encharcava-se em sangue. N'uma fita delgada, um repuxo subia, dobrava-se e estilhaçava-se na agua do tanque.O amante chorava...{215}PERFIL D'AVENTUREIROA EDUARDO DEMAYACARDOZO.{216}{217}PERFIL D'AVENTUREIRODesvairada, a ministra da Esclavonia perseguia sir Arnold Davis, que, de sala para sala, passava em revista as senhoras em toilettes de baile. Ia-lhe na piugada, metia-se pelos corredores, apressadamente, para crusar-se com elle, receber um olhar, fazel-o parar, prendel-o no vão d'uma janella, onde os seus olhos pareciam tomar d'assalto o rosto glabro de sir Arnold, mordia a boca fortemente carminada, como para reter os beijos, que queriam saír.As suas mãos magras e longas, as mãos que teem as doadoras e as santas nos quadros góticos, tremiam ao apertar as de sir Arnold onde opalas desmaiavam, maléficas e misteriosas.Carlota von Hameghen não via o baile, não se rodeava, como de costume, de politicos e diplomatas, a sondal-os, a irrital-os,allumeuseinternacional á cata de segredos, para vender a todas as chancelarias que pagassem, generosas e discretas.{218}A condessa Carlota von Hameghen, mulher do ministro de Esclavonia, era quasi fiel ao marido. Apenas grande necessidade, um aperto de dinheiro, um segredo muito importante, que só se confia nas horas de completo aniquilamento, depois dos beijos, é que a faziam esquecer o marido, ainda novo, que trepára na «Carreira» empurrado pela mulher, apesar de morphimano e um pouco imbecil. Fóra disto, esposa exemplar. Espirito d'honestidade? Não: impassibilidade; a cirurgia, com uma operação dolorosa, em Londres, tirára-lhe o vigor da sensação. Vivia para a ambição, uma vida farta, proporcionada pelos cheques de varias embaixadas e legações, menos a de Esclavonia que pagava pouco e, por complicações de finanças internas, a más horas.Alguns diplomatas, ao facto do temperamento da condessa, estranhavam aquelle assalto insistente ao moço inglez, alheio aos segredos das chancelarias, pouco rico para a condessa, servedoiro de milhões.O ministro da Dinamarca, ageitando, como de costume a unica farripa de cabello que lhe guarnecia o craneo rubro:—Ha de ser uma desforra! Sir Arnold vingar-nos-ha...—Não ha de levar a melhor...—Aposto! Não sabem a força de sir Arnold. Conheço-o muito bem.{219}—A Hameghen é uma fortaleza inexpugnavel.—Praça sitiada, praça tomada...—Mas quem sitía é a condessa!...—Estão enganados. Com o ar de quem se defende, sir Arnold ataca vigorosamente. Conheço-lhe a tática. É toda de sapa. Minas e conminas. O campo parece tranquilo e mil picaretes abrem galerias. É de primeira força! Praça a saque, d'aqui a duas semanas, o maximo.—Não seja como Port-Arthur que todos os dias é tomado...—Verão. Vae custar á condessa, coisa d'um milhão. Sir Arnold lança pesadas contribuições de guerra.—Que paiz pagará?—Mr. Alphonse?—Il faut vivre. Il n'y a pas de sot metier. A Mariam Ringen...—Aquella judia fanhosa?—Sim. E que tinha seis dedos em cada pé... Gastou mais de dez mil libras em tres mezes.—É ante-semita. Ébien né, o ser-se ante-semita! O começo da liquidação... E depois, douze dedos. Parecia-lhe menos.—Contava muito depressa... 12 de cada vez...—Se é que contava pelos pés!{220}—Sir Arnold interessa-me. Tenho-o examinado, na batalha. É impassivel. Nunca procura primeiro uma mulher. Aquelle bello corpo d'Apollo adrescente fascina. Os olhos claros, misteriosos, desequilibram os nervos das nossas mulheres. E as opalas cheias de maleficios, que para elle sãoporte-bonheur, dão um quebranto magico. A terrivel fama de que tão justamente gosa e o precede como uma tenebrosa arauto faz-lhe um halo. Luz do inferno, que importa? É uma aureola. Se não tivesse motivos para ter um tal nome, caluniar-se-ia. É capaz de tudo, até d'uma boa ação... que o não prejudique. Não faz o mal por arte. Para fazer o mal por principio é necessario afirmar. Sir Arnold nada afirma nem nega. Negar é, d'alguma fórma, afirmar. E isso é um esforço que elle se não permite. Se quizesse ser diplomata, estaria hoje embaixador, membro do Tribunal da Haya, ministro dos negocios estrangeiros. Encaminharia a politica ingleza com menos soberba que Salisbury e mais firmeza que Lansdowne, sem a literatura, o romantismo de Rosebery. Nos tempos da vadiagem diplomatica, dos verdadeiros plenipotenciarios—hoje os nossos plenos poderes ficam na secretaria, que nol-os vae mandando por conta e pelo telegrafo—nesse tempo, talharia um imperio para o soberano que o empregasse. Não, para si. Sir Arnold é um egoista formidavel. Julga-se o centro do Universo. Nihil{221}humani a me alienum puto. Nada do que pertence ao homem lhe é alheio, isto é tem direitos sobre tudo, traduz elle. Não tem outra moral.Nietzche estabeleceu os principios que nelle eram instinto. Cuido que nunca se deu ao trabalho de ler um só volume do discipulo de Stirner...A conversa não interessava já. O dinamarquez tinha um pouco a mania oratoria. O grupo dispersou-se, pelas salas, onde os pares deslisavam ao som d'uma valsa da moda, langorosa e morbida... Fiquei com elle. Fomo-nos dirigindo para a estufa. O ministro continuou:—Gósto de sir Arnold... pelo lado scientifico, como filósofo. É um poderoso dissolvente. Todas as dissoluções apressam a evolução. Davis é um força social.—Na boca d'um ministro d'um paiz monarchico, essas palavras são imprevistas, sorri-me.—Tenho uma opinião como diplomata e outra como filósofo. Como diplomata, sou conservador, como filósofo, anarchista... mas anarchista com palacios, festas, condecorações... Quando quero pensar como diplomata, visto a farda, ponho duas gran-cruzes, uma para cada lado—tenho a Corôa da Prussia—e todas as placas. Quando me decido a pensar como filósofo, cólo umas barbas postiças, fico emrobe-de-chambre. Defronte da minha psyché{222}imperio, dou-me a ideia d'uma Diogenes limpo. O mais usual, porem, é não pensar... Estou dispepético: o pensamento é terrivel para nós. Isto não impede que lhe conte um episodio da vida de Davis. Simpatiso com elle, dou-me até com elle. Conheci-o em Aix-les-Bains ha seis ou sete annos. Estavamos no mesmo hotel. Os nossos aposentos eram seguidos. A sacada era a mesma. Conversavamos muito. Venha para aqui.Fomos para um canto isolado da estufa onde agonisavam, minadas por um mal estranho, orchideas esverdeadas. Nasciam chagas nas suas petalas recurvas, torcidas, listradas de vergões, varioladas. Sentamo-nos num sofá. O ministro ofereceu-me um cigarro de Nestor Gianaclis, perfumado e adormecedor. Escutei-o.—Como lhe disse, sir Arnold é um egoista. Quer aumentar o poder, para empregar a formula de Nietzche. Desenvolve energicamente a personalidade, segundo ou contra a moral, é-lhe indiferente, torneando os preceitos dos codigos penaes e os usos sociaes, de maneira a se lhe não fecharem os palcos onde se exibe, os salões cosmopolitas, mais faceis e, sobre tudo, mais indulgentes. Elle não diz como o poeta: «je porte fiérement la honte d'être beau»; não, para Davis não é uma vergonha, pelo contrario, trata de fazer valer, por toilettes e atitudes longamente estudadas, por meios artificiaes, a sua belleza clara, loira, a que os olhos transparentes{223}dão um encanto misterioso, uma sedução que empolga, fascina, arrasta os pobres mulheres que desmaiam, sucumbem, diante desse Apollo adolescente e terno, cuja força se adivinha apenas nas mãos, de dedos firmes, de pelle, apesar dos cosmeticos, um pouco aspera. Viu-o bem? Reparou em como todo o seu corpo harmonioso d'atléta toma atitudes cançadas, como os seus olhos pareciam dissolver-se, ao olhar para a pequena Von Hameghen e a sua boca de labios finos e imberbes, se contraíam para o espasmo d'um beijo? Ha sete annos era o mesmo. Parece que para elle o mundo e os dias se conservam imoveis. Dir-se-hia que essa adolescencia se guarda no gelo. Que pacto teria feito este homem com o demonio?—Talvez o mesmo que Dorian Grey...—Bah! Dorian Grey matou Basil... Julga que será Sargent, realista, amando a força concentrada e não a belleza, quem fará o novo retrato magico! Ou Lazló?Já não ha Basil. Talvez em Hespanha... Sorolla ou Zuloaga... Mas os hespanhoes são naturalistas e republicanos. Veja Ibañez... A «Catedral» liquida em artigo de fundo.—E Davis? atalhei, pondo um dique á divagação abundante.O ministro sorriu-se. Certamente que se lembrou do epigrama de Marcial.—Ah, sim! Davis e Aix-les-Bains. Estou{224}prolixo como o bom Tito Livio. Entro em materia.Ali, no canto da estufa, abaixando a voz quando alguem se aproximava, para o afastar, o dinamarquez contou:—Estava no «Splendide» lady Hanswell, que depois de tratar do reumatismo, com massagens e duchas, chorava poeticamente, pelas alturas vicejantes do Bourget, os dez annos de casamento feliz com lord Vivian Hanswell esse extraordinario homem, misto de Heroe, de Poeta e de doido, que, começando por fazer odes extranhas aos venenos, aos assassinios e ás traições, acabára em Middlefontain, voluntario da Rainha, o primeiro na escalada d'uma collina, o monoculo entalado no olho, um livro de versos na algibeira do kaki enlameado e a cartucheira já vasia, de tantos tiros dados friamente, como nas suas coutadas ferteis da Irlanda.A viuva amára em seu marido a belleza adolescente, todo aquelle ar gracioso como o d'uma mulher, os largos olhos claros, transparentes, como gotas d'agua azul; amára o seu espirito extranho de comedor d'opio, cambiante e misterioso, deleitando-se na posse de coisas frageis, de flôres que, mal cortadas se fanam, os cristaes finos, as filigranas, as ceras, os linhos que envolvem, fumos, as mumias egipcias e quasi se pulverisam ao tocar-se-lhes, os leques de rendas; o imprevisto das suas áções sem logica,{225}que nada faziam prever, quasi sem realidade, como essas arvores que teem um metro de raizes fóra da terra.Lady Hanswell, já passado o segundo anno de viuvez ainda carpia nas palavras baixas em que recordava o marido, nos olhos que de tantas lagrimas regadas eram frescos como fetos nascidos á beira dos regatos, nas toilettes lilas, com que se vestia, foncées de manhã, claras á noite, nas perolas cinsentas com que se enfeitava, gargantilhas pesadas, collares multiplos, caindo sobre o collo, anneis de castães largos, que, á luz, pareciam cinzas...Foi sobre ella que Davis se lançou, decidido, acirrado não só pelos seus dois milhões de libras, mas tambem pela pelle fina, mate, macerada em banhos prolongados de perfumes, pelos olhos em que brilhava uma volupia indecisa, a afogar-se na tristeza, como um reflexo impreciso de estrella num tanque.—A mulher deve ser como o Champagne:extra dry.Vi-o n'esse cerco, a sitiar a praça, a fazer-se valer, fugindo de lady Hanswell, de todos, indo pouco ao Grand Cercle e á Villa des Fleurs, tomando, de manhã, nos Banhos, e á meza, atitudes d'uma tristeza profunda, maniaca, que interessasse.Só á noite, quando fumavamos o derradeiro charuto na varanda, sacudia a mascara e falava-me{226}do desenvolvimento da personalidade, toda a theoria de Spencer e de Stirner, poetisada e dramatisada por Nietzche, nelle menos literaria, menos filosofica, mas mais sincera, floração inconsciente do seu Ego, sumula emfim da sua maneira de ser, animal forte, que sabe que a Vida existe e quer apreender sem esforço, desenvolver-se avidamente, até com detrimento dos outros.—É necessario viver a nossa vida, disse-me.N'essa noite, Davis, que era d'uma sobriedade exemplar, por calculo talvez, para impressionar byronicamente lady Hanswell ou por impulso atavico—gerações a alascar-se em Port-Wine pesam esmagadoramente—por qualquer motivo, Davis acompanhou todo o jantar de Cliquot. Saimos juntos, tomamos peloBoulevard des Côtes, que vae contornando a montanha e mostrando-nos, em cada curva, um aspecto novo d'Aix e do campo, aqui a massa d'arvores illuminadas dos parques dos dois casinos, alem a rua deGenéve, apagada e quieta, mais alem as montanhas cujos perfis se recortam docemente no ceu enluarado, n'um outro cotovello o lago do Bourget, que parece, na noite clara, de mercurio incendiado. Caminhavamos apressados, subindo sempre, até á nascente d'essa agua choca que os medicos nos fazem beber de manhã, em jejum.Sir Arnold falava com fluencia:{227}—Todas as creaturas devem ser, para nós, elementos de desenvolvimento do poder, utilidades. Extraido d'ellas o que nos pode servir devemos pol-as á margem. É o que o organismo faz, inconscientemente... Quem sobrecarrega com sentimentos inuteis o seu coração, apodrece, morre. Devo todo este ensinamento filosofico, não aos livros, nem ás conferencias, mas a uma pobrecaissière, Eva Farland, d'um pequeno restaurante do Strand onde eu jantava economicamente nos dias em que não encontrava emprego para o meu mister agradavel depique-assietes. Ali, por um shelling e meio tinha uma boa talhada demuttone uma caneca de cerveja, para desalterar.Essa pobre rapariga prendeu-se nos olhos azues de Davis; prenderam-a seus braços fortes, a sua boca que ao beijar mordia. E foi para elle como uma escrava, atenta, paciente, devotada, gastando o seu ultimo penny em futilidades que Davis atirava para o lado, com desdem, dando-lhe quarto, copiando á noite escritas, para pagar a luz, a lenha, a agua, porque Davis fôra viver com ella, por economia—era um periodo deguigneextraordinaria!—persuadindo-se a pobre Eva que era por amôr. Doce e abençoada mentira que a tornava feliz, dava-lhe coragem para continuar a vida dura, fornecia-lhe a energia necessaria para estar á caixa todo o longo dia, esperar, ás vezes, por elle{228}toda a inferminavel noite, quando o jogo o segurava com a caricia aspera das suas mãos de aço; resignar-se ás longas ausencias, porque Sir Arnold, em ganhando alguns guineus, reentrava na sociedade, ia jantar ao club, frequentava osmusic-hallsnos camarotes do club, reencadernava-se, emfim, de gentleman.Eva era o seu cão, mas cão de cego, util, chorando ás escondidas e pouco, para não afear o soberbo rosto, não avermelhar os grandes olhos sensuaes e tristes.N'um periodo mais largo de miseria, não chegando para os dois o salario da amante, nem as copias, ella punha o chapeu, á noite, e ia pelo Picadilly, misturando-se aos soldados, a fazer-lhes concorrencia, á caça do guineu pondo em cada sorriso, um soluço.Davis via-a sofrer, indiferente, achando rasoavel que por elle outrem penasse, continuando descuidado, até que um dia a fortuna sorriu-lhe pela boca desdentada d'uma rainha de qualquer coisa na America, porco salgado ou azeite de fóca. Nunca mais soube d'Eva, de quem nem sequer se despediu, e que, se não morreu de dor—o que é pouco provavel—teve com certeza uma lancinante crise de desespero.Ora essa mulher, que por elle fez todos os sacrificios, incluindo o do pudor da amante, considerava-a elle o seu mestre de egoismo, pois habituára-o a pensar que o amôr pode ser um{229}modo de vida e a belleza extranha e fascinante suprir as aptidões para a lucta pela vida.Foi a confissão que me fez n'uma noite de vinho, em que o Cliquot d'oiro levára ao seu coração impassivel o desejo de expandir-se.Não tornámos a falar no assunto, persuadi-me até de que elle não tinha consciencia da propria indiscrição e continuei a examinal-o no interessante combate travado com lady Hanswell.Parece que a embriaguez produziu o seu efeito, porque lady Hanswell começou a lançar-lhe, por vezes, obliquamente, olhares em que punha alguma coisa de caloroso, as lagrimas deixaram de borbulhar-lhe nos olhos, que andavam secos do desejo que ardia dentro.Ao começo d'ataque da ingleza, respondeu sir Arnold com um simulacro de retirada, um mergulho na sua aparente tristeza, abstinencia de comida, que o levava ás escondidas ao American Bar todas as noites, a leitura constante do resignado Shelley e do desesperado Byron, cujos livros deixava ficar sobre as mezas com marcas nos versos adequados á circunstancia pensando que lady Hanswell não deixaria de ir folhear os volumes.Ia realmente, sofrega, já esquecida do marido, estudando toilettes, não já ruskinianas, com toda a tristeza doce das figuras dos primitivos, mas as que fizessem realçar a sua elegancia,{230}largos decótes que mostravam a flor nevada do seu cólo opulento, fulgiam-lhe nas mãos os largos costões esverdeados de berilos que Lalique lançára n'esse anno, remoçava a sua boca escarlate uma primavera de beijos, que se ofereciam, como as laranjeiras que nos quintaes murados veem sacudir para a estrada as laranjas d'oiro.Lady Hanswell atacava vigorosamente, num assalto de desespero, pondo na conquista de Davis toda a pertinacia da raça, toda a galantaria e vaidade do sexo.Davis fugia, mas forneceu-lhe a ocasião d'ella se lhe dirigir, entabolaram relações, elle mais dobrou a sua alma, melancolicamente, falara-lhe de amôres purissimos, que vicejam nas almas candidas, como desbotadas flores nas planicies geladas da Noruega.Falou-lhe n'uma especie de amor duplo, um amôr platonico por uma, em que a alma vae em primeira cumungante, e o desejo se dirige para outra.E, diante d'ella, passeou pelas alamedas da Villa des Fleurs com Blanche Lely, e, ostensivamente, durante alguns dias recolheu de manhã, a hora em que lady Hanswell costumava sair para o banho.A tristeza voltou á face branca da ingleza. Durante o jantar olhava para a porta constantemente, a cada movimento doparaventestremecia,{231}lançava nos olhares para mim curiosas innterrogações que a minha face muda deixava sem resposta. Voltou a chorar depois das ducha e das massagens, como antigamente pelo defunto marido, e, de manhã, quando se encontrava com sir Arnold o seu olhar tinha caricias, parecia que lhe lambia a face linda.Foi ella que o levou, fremente, na ancia de não perder a presa, já no carro a cerral-o entre os braços, para as Gorges du Sierroz, onde, depois do almoço, no gabinete do restaurante rustico, os beijos arderam e ella poude morder a boca em sangue de sir Arnold.Quanto custaram á consolada viuva esses beijos?N'esse momento, sir Arnold Davis passou, levando pelo braço a franzina Carlota Von Hameghen, que lhe encostava a cabeça ao hombro olhando para elle n'uma suplica, que o sorriso dos labios finos apoiava fortemente.{232}{233}FUMOA LUIZO'NEIL.{234}{235}FUMOPara fugir da exotica humanidade que enchia as salas do Kursaal de Genebra, saimos, apezar da noite fria, para o amplo terraço sobre o Léman tranquillo.Eu levára Roberto ali para mostrar-lhe Chiara, a dançarina italiana, que nas suas danças bisantinas me surpreendera e comovera no Alhambra de Londres.Era a Volupia feita luz e feita dança. N'ummaillotde seda, parecia nua. Uma cintura de oiro, marchetada de largas pedras brilhantes segurava-lhe os seios firmes. Grossas manilhas mordiam os braços finos e os tornozellos. Um diadema apertava a massa luminosa dos seus cabellos loiros. E, na face branca, eram d'um brilho de gema os olhos azues, quasi violeta-de-Parma. A musica que a acompanhava tinha um envenenado langor. Chiara deslisava, mal pousando os pés nús sobre o tapete de Smyrna.{236}E do brilho das joias, como da florescencia musical dos gestos, brotavam lascivias, ardiam desejos, que faziam correr fremitos por toda a sala incendiada por lampadas poderosas.Aquella dança sabia, apenas ritmada pelas vozes das flautas e das liras que tocadoras de flauta e tocadoras de lira, vestidas á grega, no palco tocavam! Uma ou outra vez um pé nú fazia vibrar o bronze dos crotalos. Era como um grito de vitória, um beijo mordido n'uma boca sedenta. Chiara tomava então uma atitude de entrega, todo o seu corpo flexivel e delgado parecia tombar, como uma haste fragil que cede ao explendor de uma enorme rosa vermelha, e verga e sucumbe.A grande flôr d'oiro e luz, em que as abelhas das joias picavam e pareciam morder, fixas nas lhamas dos engastes! Como a vejo ainda nitidamente, ramo d'oiro e de rosas, fazendo nascer desejos cintillantes, chuveiros d'elles, rapidos, fulgentes, descendo como estrellas d'oiro, como os bocados de astros que voam no ar escuro, nas noites quietas d'agosto!E preso á tentação de vêr a dançarina, deixei Aix e as duchas,Villa des Fleurse o seu rebanho de cocottes e, com Roberto, á pressa envergados os smokings, fomos para o Kursaal. Mas no salão, um aviso e um certificado medico diziam a doença de Chiara. Um grande desanimo abateu-me as espaduas. Como passar{237}uma noite na cidade alinhada e mecanica como um relogio? Em todo o Kursaal, nem um rosto interessante. Ranchos do Cook, das segundas classes, lyonezas rotundas e vermelhas, suissas frescas, que parecem esculpidas em manteiga e em cujas faces contentes os olhos são parados e azues... Caixeiros de Lyon, aproveitando comboios a preços reduzidos, apertavam-se em volta das compridas mezas dospetits chevaux. Dois americanos silenciosos chupavam por palhinhas os violentos cocktails.Fugimos.Na noite escura, o lago era azul escuro. Os focos electricos dos caes punham na agua fitas brancas, que dançavam e se quebravam contra as ondas. Pareciam pestanejar as pequenas lanternas vermelhas dosbateaux-mouches. Tudo parecia dormir. Uma brisa ligeira trazia até junto de nós o silencio da cidade. Apenas do Kursaal as luzes coavam-se pelas ramadas e, amortecidas, as walsas que acompanhavam mimambos e acrobatas.Um de nós disse:—Talvez fosse melhor não ter visto Chiara. Um com a recordação, de que viu, outro com a imaginação, teem uma imagem mais bella, por incompleta, e em parte mentirosa, da dançarina e do seu bailado. A melhor maneira de gosar é criar imagens, viver dentro de nós, alheio ao mundo. Recordando, vive-se na imprecisão,{238}sem as arestas. Tudo mergulha num nevoeiro, que, deformando a real aparencia, nimba de misterio; desejando, ilumina-se mais. Viver deve ser recordar e desejar.—Pode-se viver recordando e desejando apenas, no momento presente; mas para recordar é necessario ter vivido, para desejar é preciso conhecer. O desejo ilimitado põe a angustia na alma. É mister alguma coisa de definido a desejar.—Quando chegamos á nossa edade, já vivemos tudo. Conhecemos o efemero feminino. Andámos com o coração por todos os amores, por todas as angustias. Provámos todos oscrús, atravessámos mares, dormimos sob todos os ceus. Podemos recordar. E, como conhecemos tudo, podemos escolher e desejar.—A vida do homem é, como a de toda a natureza, um continuo movimento, fluxo e refluxo permanentes.—Então é preciso agir?—É fatal.—S. Simeão Stylita gastou anos sobre uma coluna, a orar. Vinham de desencontradas partes os crentes á espera de milagres. Esposas estereis tocavam no plinto, certas de que tempo depois amamentariam o filho desejado; os leprosos, os cegos, os atacados do «mal divino», arrastavam-se pelos desertos queimados, até á coluna onde o santo resava... E elle, indiferente,{239}como indiferente era aos soes asperos, ás ventanias e ás chuvas, continuava a orar. Viveu dentro de si. A vida deve ser toda interior.—A vida do espirito é toda interior, como a vida digestiva. Precisamos do mundo exterior para d'elle apreendermos as imagens e os alimentos.—Ter comido, é melhor quecomer.Ter gosadoé melhor quegosar. O momento da posse é doloroso e vão. É melhor recordar.—Recordar implica esquecer. E quando das imagens não ficar senão uma mancha, como preencher a vida?—Desejando.—Mas a faculdade de desejar desapparece com os annos. O velho dos Goncourt, quando no restaurante lhe perguntam:—O que deseja? responde:—Desejava ter um desejo. Viver é agir. Colher todas flores e todos os espinhos, violar todos os cimos, mergulhar em todos os lodos, sentir intensamente, pensar todas as doutrinas, apreender do Universo tudo o que fôr possivel, ver tudo, ouvir tudo! Viver é entrar na harmonia do Mundo! É ser como o eucalipto, subir para o sol, triunfalmente, lançar ramadas por todos os lados, espalhar avidas raizes egoistas e crueis!—Viver é recordar e desejar. A vida deve ser feita por nós, como a composição d'um quadro{240}é arranjada por um pintor. Não devemos ser o espelho de mostrador que refléte toda a rua, mas a psiché doboudoird'uma mulher elegante que só refléte atitudes graciosas, sedas, rendas, brilhos de pedrarias...—Viver...Despejava-se o Kursaal. Apagaram-se as lampadas. Fomos para a estação esperar o expresso de Paris.FIM
CLARAA JULIO DESOUSA.{198}{199}CLARAFriorenta, encolhida no fundo do coupé, tudo era indeciso na figurinha que passou rapidamente, na tarde a escurecer.Nascia da penumbra, sem presisão nos contornos, como certos retratos de Columbano e de Henner. E entre o chapeu preto e a face branca, o cabello loiro punha uma esmaecida aureola como uma tenue poeira d'ambar. A boa, derenard bleu, ainda aumentava o indeciso, o fluctuante d'essa mulher; os olhos claros não brilhavam; o vermelho da bocca desmaiava... Figurinha de cera e de seda, que passava, olhando para a rua sem attentar talvez em ninguem, levando o nosso desejo de decifrar enigmas, indefferente, graciosa, impressionou-me... Ao amigo que me acompanhava recorri para saber d'ella. Quando me voltei para perguntar, vi que Roberto se pusera pallido; parecia que á bocca se lhe afivelára uma boqueira de pedra, mascara trágica a emudecer.{200}Seguiu com os olhos a carruagem que trotava pela Avenida até se perder entre as arvores em Valle de Pereiro.—Quem é? gaguejou. Alguma aventureira cosmopolita que veiufaire le Portugal. Um pastel de Antonio de la Gandara, maquilhada como uma infanta de Velasquez, mais artificial que uma boneca de Nuremberg, sem vicio, talvez, amante enternecida d'algumcroupierdeCercleordinario... Sei lá!... encolheu, impaciente, os hombros, a concluir.Houve um silencio. Raras carruagens passavam. Estava triste a Avenida. Descemos. Abriam, simultaneamente, as grandes flôres geladas e luminosas das lampadas electricas. Rapidos, fulgiam os americanos. Outra vez a mulher passou, mais indeciso o vulto, apenas destincto o palôr da face branca nocoupéescuro.—Porque teria vindo cá, essa mulher? perguntou Roberto, colerico.—Conhecel-a?—Se a conheço?! Tenho querido arrancal-a de mim, como se arranca d'um boi uma farpa—violentamente. Tenho querido fugir de mim, para a esquecer! E quando estou quasi a conseguil-o, quando a tortura da sua lembrança é em mim apenas uma cicatriz, eil-a que apparece a reavivar a chaga antiga, a tornal-a mais dolorosa! Clara veiu aqui só por minha causa, ouves? Para fazer-me soffrer!{201}Agarrava-se-me ao braço, a apertal-o violentamente. Na bocca accentuava-se-lhe, aspero, o vinco da amargura.—Foi esta mulher que me fez fugir de tudo, perder o amor a tudo, desterrar-me para esta passividade, eu que amava a vida dolorosamente, gosando com tudo, intensamente!«Conhecia-a em Hespanha! N'um inverno humido deixei Lisboa e acolhi-me a Sevilha. Os dias gloriosos de sol que lá gosei pelas margens do Guadalquivir azul! Andava ebrio de tanta luz que enchia d'oiro e de triumpho a cidade alegre. Saia para os campos, logo de manhã, a rir-me com os trigaes e com as flôres. Ia ao parque vêr o sol fulgir nas caudas abertas dos pavões orgulhosos; descia ao caes para vêr brilhar na agua incendiada os cobres polidos dos navios; enchiam-me de prazer a barulheira dos carregadores, o chiar aspero dos guindastes, o estridulo das sereias, nos vapores que partiam... Tudo era alegria na cidade maravilhosa mesmo á noite, as lampadas incendiavam aSierpeebrilhante, onde se apertava uma multidão palradora. Das janellas dos casinos, das portas dos cafés, dos mostradores das lojas, vinham chapadas de luz. Misturava-me a toda aquella vida insolente, ria com todos os risos, todos os labios frescos me chamavam, rodeavam-me todas as cabelleiras fartas, cheias de flôres. O donaire das andaluzas d'olhar de volupia fazia-me{202}achar mais bella a Vida. Era como um poema a enaltecer a obra de Deus. Por todos amar, não amava nenhuma.Comprei o sineiro da Cathedral. Do alto da Giralda, uma noite, possui a cidade, senti que todo o tumulto confuso que até mim chegava, era o seu sangue que pulsava por mim nas suas arterias; aquella resplandecencia, brilho de joias com que cobria a nudez. Os tranvias iluminados, cortando em mil direcções a cidade, eram pedrarias, aqui se apagando uma, para alem se accender outra, conforme as ia eu tocando com os meus olhos amorosos. Ella, em baixo, abria os seus braços, entregava todo o seu corpo, a morena Sevilha, offegante e lasciva!«Era feliz, poderosamente feliz. Sentia, em cada palpitação cardiaca, o sangue remoçado que se espraiava pelo corpo. Foi então que conheci Clara. Ella passava pelaSierpes, junto aoCredit, enygmatica, como a viste. A elegancia do seu porte, ultima florescencia da moda franceza, quasi immaterial, contrastava com a forte humanidade das sevilhanas cheias de vida, de sangue e de desejos. Todos se voltaram para ella e lhe abriram caminho, como se passasse um andor. Fui logo preso pelo encanto decadente e artificial, esqueci a Vida e a gloria de viver ao sol nos campos fecundos. Regressei á hyper-civilisação; segui-a e alegre entrei, atraz d'ella, para o seu e meu hotel.{203}«Vergonhosamente a segui como um cão fiel. Vergonhosamente mendiguei um olhar dos seus olhos parados; e contente fiquei ao vel-a um dia no salão da leitura, por que pude dirigir-lhe a palavra e pedir-lhe licença para fumar. Apesar da resposta secca, insisti e entabolámos conhecimento.«Doces foram para mim os dias, em que visitámos Sevilha. A casa de Pilatos e as suas penumbras em que esmaecem estuques e o patio claro de marmores harmoniosos ouviram as palavras aladas que lhe disse; diante das Assumpções do Murillo e dos frades de Zurbaran, no museu deserto, contei-lhe o poema do meu desejo; naCaridad, a mostrar-lhe a estatua de Herrera, ouviu a perfumada e embaladora cantilena. Na Giralda, a vêr Sevilha doirada, deitada na planicie que ondulava, até perder-se no horisonte circular, offereci-lhe toda a minha alma e toda a minha vida. Houve momentos em que seus braços foram a levantar-se para apertar o meu pescoço; julguei sentir o seu peito leve arfar de commoção: muitas vezes a boca se apertou para a florescencia dos beijos e seus olhos verdes se encheram de luz; mas rapido, tudo se desmanchava, e um sorriso tremia na boca desmaiada, a mostrar a linha branca dos dentes.O flirt desabrochava. Uma tarde, nos jardins do Alcaçar, á porta dos banhos de Maria Padilla,{204}passou por mim o corpo delgado, agil, pela cara roçou o cabello que tinha um perfume penetrante; fallou-me do seu corpo e, sentados no salão dos Embaixadores, estendia a perna, para mostrar o tornosello fino e a meiaajourée, que deixou vêr a pele branquissima. Todas as noites eu pensava, que no dia seguinte beijaria a boca perfumada. E todas as manhãs via cair a minha esperança, como as folhas murchas que o vento sacode dos ramos seccos.«Certamente que as minhas palavras deviam ser perturbantes, porque sahiam d'um coração perturbado. E, pesadas de tanto amor, cahiam da boca vagarosamente. Ás vezes os cilios de oiro abatiam-se sobre os olhos, como n'um espasmo. Mas logo o sorriso abria-lhe a pequenina boca!«Longos dias, longas semanas, durou o encantado oaristo. Já não cuidava da gloria da natureza; das apoteóses do sol sobre as aguas azues do rio. Só pensava n'ella, só vivia d'ella.«Um dia, porem, eu soube! Alguem, com palavras que julgou caridosas, veiu pôr no meu coração as sete espadas! A creaturinha delicada e deliciosa, princeza de balada d'hoje, urna de perfume, a quem me entregava como um collegial, era uma aventureira das que frequentam aRivierano inverno, Aix no verão, Paris na primavera, e que a Sevilha viera atraz d'um{205}clown, que no circo fazia rebentar estrépitos de gargalhadas... Ao seu morbido encanto me prendera, e atraz d'ella me fui a soluçar, flor de lameiro em que puz todo o perfume suave... Fôra nas mãos d'ella um saxe fragil como que se brinca!«Ah, meu amigo! O desespero e a raiva puzeram mãos assassinas a estrangular-me! N'um impeto, como uma aura que se nos levanta do peito e nos atira para o ataque epileptico, decidi-me. Levei-a n'um trem para o campo, para alem da Cartuja, com um cocheiro de confiança. E alli, desapiedadamente, bati-lhe, arranquei-lhe as sedas e as rendas—parecia, nua entre os trigaes verdes, uma magnolia enorme!—e o seu corpo cobriu-se todo de sangue. Clara gemeu, implorando; as lagrimas empastavam a maquilhagem; via-a sordida, enrolando-se para escapar ás chicotadas, e fugi, ebrio, doido, a correr, diante do cocheiro espantado que me metteu no trem e me levou a Sevilha.—Senorito, la navaja era mejor, aconselhou-me.«Parti. Nunca mais soube d'ella. Trouxe-a dentro de mim como um espinho. A dôr que lhe causei augmentou a minha pena. De ter visto o corpo magro e branco, ficou-me a ancia de o beijar. Andei de noite, pelas ruas, a correr sem forças para fugir de mim e d'ella, porque a figura surgia deante dos meus olhos,{206}bella de toda a perversidade e de toda a lascivia, como uma invencivel tentação, a que o maior santo succumbe.«Ás vezes conseguia distrahir-me; de repente ella surgia, sentava-se na minha frente, mostrava os vergões das chicotadas, todo o corpo impudico perfumava e brilhava, e a boca sorria a escarnecer de mim!«Foi algum philtro que me deu.«Ia a esquecel-a e eil-a que novamente me apparece, a prender-me, a levar-me, outra vez para a allucinação, a atiçar o incendio que me queimava!«Talvez queira vingar-se!Não. Não queria vingar-se. Clara veiu a Lisbôa, soube-o mais tarde, atraz d'um comprimario de S. Carlos, seuamant de coeur.{207}IDILIO TRISTEA EDUARDOVALERIOVILLAÇA.{208}{209}IDILIO TRISTENo jardim, a tarde de oiro era perfumada pelas rosas e pelos cravos. Nos canteiros, os cravos levantavam-se impertinentes, risonhos, em delgadas hastes. E, por toda a parte, entremeiando-se com os buxos, enroscando-se a uma macieira em flôr, serpenteando pelos muros, subindo pelas sebes, uma opulenta floração de rosas de toda a côr, rosas de oiro pallido, rosas roseas, rosas vermelhas a estremecer, como labios de que vão cair os beijos, rosas escuras, enormes, sensuaes e dolorosas, umas ainda em botão, misteriosas como as adolescentes, outras já totalmente abertas, sem enigma, como as amantes antigas—todas ellas misturavam o seu perfume no jardim quieto, em que as pombas arrulhavam, beijavam-se e depois partiam em vôos curvos, as azas brancas a brilhar ao sol.Os dois amantes iam calados, elle a olhal-a intensamente, como a querer apreendel-a, como se os olhos fossem bocas e podessem beijar,{210}braços e conseguissem abraçar—ella um pouco aborrecida, a desfazer entre os dedos longos uma orchidea azul listrada de vergões esverdinhados.—Pensei em ti sempre, dizia elle. No Prado, diante dos tapetes de Goya, disse o teu louvor. As raparigas esbeltas, que vão á fonte, as bilhas esguias á cabeça, como as princezas de Homero, não tinham a tua elegancia... Ás infantas de Velazquez, artificiaes, cadaveres de bonecas, em que apenas os olhos attonitos teem vida, faltava a tua belleza. As santas hirtas de Memling não tinham na bôca a primavera que ruboresce os teus labios... Só na curva do braço de Danae, de Ticiano, pude ver uma attitude como tens... Por todo o museu me perseguia a tua imagem, como um canon, para avaliar as obras. As gordurosas flamengas de Rubens, as cigarreiras sensuaes e extaticas de Murillo, as energicas mulheres de salteadores em que Ribera se compraz, eram muito diferentes de ti, d'ellas fugia o meu olhar. Em Raphael havia alguma coisa da tua doçura risonha, mas demasiado passiva; em Greco, a tua distincção, mas severa; apenas Leonardo te saberia pintar, quasi irreal por seres tão bella, indecifravel, como uma esfinge sem segredos... Como uma esfinge sem segredos... Que segredos teria a suave mulher do Jocondo? Que segredos terás, alheia a tudo, passando pela vida, ligeiramente,{211}como a agua que vae n'um ribeiro, correndo e cantando? Vi-te em toda a parte. Levei-te sempre commigo! Talvez o Moro te tivesse pintado...—Viste bem o museu...—Vi, porque te buscava... Um dia, ao aproximar-me da escadaria, vi fugir, n'um automovel ligeiro, uma mulher, que se parecia comtigo... Era um carro vermelho... Por toda a parte tive ahantisedos automoveis vermelhos. NoRetiroe naCastellana, o meu olhar prescrutava, revolvia todos os automoveis, todas as carruagens, a ver se te encontrava. Todas as manhãs, pelo museu, andava á tua espera, embora te soubesse aqui, indiferente. Como te não encontrava, procurei vêr o teu retrato, n'algum quadro antigo. E puz, em muitos, o reflexo da tua belleza, porque n'uma atitude, n'um olhar, havia alguma coisa de ti...—O governo hespanhol agradeceu-te a valorisação dos quadros?—Ri-te. Ri-te de mim... A tua boca, ao abrir-se n'um riso, é uma flor de nácar e prata...—A principio, procurei-te... Depois, como a tortura fosse muita, quiz fugir da tua imagem. Fui para Sevilha onde tudo é Amor e resplandece. Deixáras de escrever-me... Só sabia que não pensavas em mim. Ali, tudo é alegre e luminoso. O sol é o sangue da cidade... Doira a planicie e as palmeiras de S. Fernando. Levanta{212}scintillações do calado Guadalquivir azul e da cupula inflamada da Torre del Oro. Enche de vida o jardim do Alcazar, com seus repuxos com enjoalhadas lagrimas. Tudo é luminoso e perfumado. O amor, ali, não aniquilla, escalda. Entre os cravos que guarnecem as grades das janellas, as mulheres olham os seus namorados com um olhar d'assalto. Ha uma voluptuosidade suspensa no ar. Tudo vive, tudo ama, parece que tudo é feliz. Ha uma embriaguez de côr. E nas varetas dos leques saltitam os beijos que caem das bocas. A Sierpes, á noite, palpita com todo o anceio de tumultuosa cidade... Nos pateos, sob as pequenas palmeiras e musas, os flirts sussurram palavras de entontecer... Como tudo brilha! Só o meu coração se apagava e murchava com saudades... Nos banhos silenciosos de Maria Padilla, pensei no afortunado amor de favorita, nos lentos passeios pelo jardim, nas casas de fresca sombra, onde luzem os estuques policromos e os azulejos... E não deixei de sentir-te ao meu lado...—Acredita que não foi por minha culpa...—Fugias-me. Deixavas-me a tua imagem, para torturar-me. Mandavas-m'a, a envenenar-me de longe... A belladona é doce e envenena... Muito mel embriaga... Tão real a sentia, que, á noite, olhos fechados, queria abraçar-te, e tinha a desillusão de Pan, quando perseguiu a ninfa Seringe... Como quem corre atraz do sol{213}e se encontra encerrado n'um bêco. Nunca mais me escreveste!Deixaste cair o teu amor do peito, como as flores que levaste ao baile...—Depois d'uma noite de baile, as flores já não perfumam. O amor precisa do viço. É necessario podar o coração...—Bem sei. Não te recrimino. Lamento-me...—Lamartiniano!... Julgava-te mais forte e mais moderno. Parecia-me que a cultura intensiva do Eu tornava impossivel um amor sem esperanças... Filosofos!...—Amar-te, não é para mim uma função: é a propria essencia do meu ser. Julgo ás vezes que não existes, material e tangivel, que existes mais real: nasceste e vives no meu cerebro, tanto se casa a tua figura ao meu sonho de belleza. Pintor, se idealisasse uma mulher, o meu quadro pareceria o teu retrato, embora nunca te tivesse visto. Poeta, o teu misterio seduz-me, alma que se guarda, avidamente, sem que ninguem a adivinhe. Todos passam por ti, sem a possuir, como as quilhas dos navios que cortam as ondas não maculam a eterna virgindade do mar... Foi ao ver o mar, que mais pensei em ti. Pelo Mediterraneo socegado, estudei a onda, sem conseguir conhecel-a. As ondas são graciosas, as suas curvas teem ternos desenvolvimentos: dir-se-iam mulheres que brincam na relva fresca. E desfazem-se em flocos de espuma,{214}quebram-se umas contra as outras com fragilidade de cristaes, são leves como leques, e no emtanto matam, levantam-se em vagalhões que sacodem os couraçados, despedaçam os navios. Carinhosas, riem e fogem, como tu; a onda de esmeralda que saltita, enfeitada de rendas, subitamente é uma gigantesca aza d'abutre que se curva, para apreender... É um abismo que ri... As mutações rapidas do mar fizeram-me lembrar o teu amor que desapareceu sem se saber porquê...Nem sequer recrimino. «Não me esqueço», prometeste. E as tuas palavras que guardei, como guardaria uma estrella, ainda cantam nos meus ouvidos. E ha tanto que te esqueceste! Vivo do passado. Vive o meu coração do passado, como as velhinhas, que foram actrizes, e no asilo se lembram das aclamações quando faziam papeis de rainhas sumptuosas com luzidas cortes a seguil-as e galãs esbeltos a segredar frases d'amor...Mas o passado esgota-se, como as cisternas, quando durante muito tempo não chove...»Ella cortara e desfolhára as margaridas de uma moita viridente. O sol ia a morrer, n'uma catástrofe... Um rebanho de nuvens encharcava-se em sangue. N'uma fita delgada, um repuxo subia, dobrava-se e estilhaçava-se na agua do tanque.O amante chorava...{215}PERFIL D'AVENTUREIROA EDUARDO DEMAYACARDOZO.{216}{217}PERFIL D'AVENTUREIRODesvairada, a ministra da Esclavonia perseguia sir Arnold Davis, que, de sala para sala, passava em revista as senhoras em toilettes de baile. Ia-lhe na piugada, metia-se pelos corredores, apressadamente, para crusar-se com elle, receber um olhar, fazel-o parar, prendel-o no vão d'uma janella, onde os seus olhos pareciam tomar d'assalto o rosto glabro de sir Arnold, mordia a boca fortemente carminada, como para reter os beijos, que queriam saír.As suas mãos magras e longas, as mãos que teem as doadoras e as santas nos quadros góticos, tremiam ao apertar as de sir Arnold onde opalas desmaiavam, maléficas e misteriosas.Carlota von Hameghen não via o baile, não se rodeava, como de costume, de politicos e diplomatas, a sondal-os, a irrital-os,allumeuseinternacional á cata de segredos, para vender a todas as chancelarias que pagassem, generosas e discretas.{218}A condessa Carlota von Hameghen, mulher do ministro de Esclavonia, era quasi fiel ao marido. Apenas grande necessidade, um aperto de dinheiro, um segredo muito importante, que só se confia nas horas de completo aniquilamento, depois dos beijos, é que a faziam esquecer o marido, ainda novo, que trepára na «Carreira» empurrado pela mulher, apesar de morphimano e um pouco imbecil. Fóra disto, esposa exemplar. Espirito d'honestidade? Não: impassibilidade; a cirurgia, com uma operação dolorosa, em Londres, tirára-lhe o vigor da sensação. Vivia para a ambição, uma vida farta, proporcionada pelos cheques de varias embaixadas e legações, menos a de Esclavonia que pagava pouco e, por complicações de finanças internas, a más horas.Alguns diplomatas, ao facto do temperamento da condessa, estranhavam aquelle assalto insistente ao moço inglez, alheio aos segredos das chancelarias, pouco rico para a condessa, servedoiro de milhões.O ministro da Dinamarca, ageitando, como de costume a unica farripa de cabello que lhe guarnecia o craneo rubro:—Ha de ser uma desforra! Sir Arnold vingar-nos-ha...—Não ha de levar a melhor...—Aposto! Não sabem a força de sir Arnold. Conheço-o muito bem.{219}—A Hameghen é uma fortaleza inexpugnavel.—Praça sitiada, praça tomada...—Mas quem sitía é a condessa!...—Estão enganados. Com o ar de quem se defende, sir Arnold ataca vigorosamente. Conheço-lhe a tática. É toda de sapa. Minas e conminas. O campo parece tranquilo e mil picaretes abrem galerias. É de primeira força! Praça a saque, d'aqui a duas semanas, o maximo.—Não seja como Port-Arthur que todos os dias é tomado...—Verão. Vae custar á condessa, coisa d'um milhão. Sir Arnold lança pesadas contribuições de guerra.—Que paiz pagará?—Mr. Alphonse?—Il faut vivre. Il n'y a pas de sot metier. A Mariam Ringen...—Aquella judia fanhosa?—Sim. E que tinha seis dedos em cada pé... Gastou mais de dez mil libras em tres mezes.—É ante-semita. Ébien né, o ser-se ante-semita! O começo da liquidação... E depois, douze dedos. Parecia-lhe menos.—Contava muito depressa... 12 de cada vez...—Se é que contava pelos pés!{220}—Sir Arnold interessa-me. Tenho-o examinado, na batalha. É impassivel. Nunca procura primeiro uma mulher. Aquelle bello corpo d'Apollo adrescente fascina. Os olhos claros, misteriosos, desequilibram os nervos das nossas mulheres. E as opalas cheias de maleficios, que para elle sãoporte-bonheur, dão um quebranto magico. A terrivel fama de que tão justamente gosa e o precede como uma tenebrosa arauto faz-lhe um halo. Luz do inferno, que importa? É uma aureola. Se não tivesse motivos para ter um tal nome, caluniar-se-ia. É capaz de tudo, até d'uma boa ação... que o não prejudique. Não faz o mal por arte. Para fazer o mal por principio é necessario afirmar. Sir Arnold nada afirma nem nega. Negar é, d'alguma fórma, afirmar. E isso é um esforço que elle se não permite. Se quizesse ser diplomata, estaria hoje embaixador, membro do Tribunal da Haya, ministro dos negocios estrangeiros. Encaminharia a politica ingleza com menos soberba que Salisbury e mais firmeza que Lansdowne, sem a literatura, o romantismo de Rosebery. Nos tempos da vadiagem diplomatica, dos verdadeiros plenipotenciarios—hoje os nossos plenos poderes ficam na secretaria, que nol-os vae mandando por conta e pelo telegrafo—nesse tempo, talharia um imperio para o soberano que o empregasse. Não, para si. Sir Arnold é um egoista formidavel. Julga-se o centro do Universo. Nihil{221}humani a me alienum puto. Nada do que pertence ao homem lhe é alheio, isto é tem direitos sobre tudo, traduz elle. Não tem outra moral.Nietzche estabeleceu os principios que nelle eram instinto. Cuido que nunca se deu ao trabalho de ler um só volume do discipulo de Stirner...A conversa não interessava já. O dinamarquez tinha um pouco a mania oratoria. O grupo dispersou-se, pelas salas, onde os pares deslisavam ao som d'uma valsa da moda, langorosa e morbida... Fiquei com elle. Fomo-nos dirigindo para a estufa. O ministro continuou:—Gósto de sir Arnold... pelo lado scientifico, como filósofo. É um poderoso dissolvente. Todas as dissoluções apressam a evolução. Davis é um força social.—Na boca d'um ministro d'um paiz monarchico, essas palavras são imprevistas, sorri-me.—Tenho uma opinião como diplomata e outra como filósofo. Como diplomata, sou conservador, como filósofo, anarchista... mas anarchista com palacios, festas, condecorações... Quando quero pensar como diplomata, visto a farda, ponho duas gran-cruzes, uma para cada lado—tenho a Corôa da Prussia—e todas as placas. Quando me decido a pensar como filósofo, cólo umas barbas postiças, fico emrobe-de-chambre. Defronte da minha psyché{222}imperio, dou-me a ideia d'uma Diogenes limpo. O mais usual, porem, é não pensar... Estou dispepético: o pensamento é terrivel para nós. Isto não impede que lhe conte um episodio da vida de Davis. Simpatiso com elle, dou-me até com elle. Conheci-o em Aix-les-Bains ha seis ou sete annos. Estavamos no mesmo hotel. Os nossos aposentos eram seguidos. A sacada era a mesma. Conversavamos muito. Venha para aqui.Fomos para um canto isolado da estufa onde agonisavam, minadas por um mal estranho, orchideas esverdeadas. Nasciam chagas nas suas petalas recurvas, torcidas, listradas de vergões, varioladas. Sentamo-nos num sofá. O ministro ofereceu-me um cigarro de Nestor Gianaclis, perfumado e adormecedor. Escutei-o.—Como lhe disse, sir Arnold é um egoista. Quer aumentar o poder, para empregar a formula de Nietzche. Desenvolve energicamente a personalidade, segundo ou contra a moral, é-lhe indiferente, torneando os preceitos dos codigos penaes e os usos sociaes, de maneira a se lhe não fecharem os palcos onde se exibe, os salões cosmopolitas, mais faceis e, sobre tudo, mais indulgentes. Elle não diz como o poeta: «je porte fiérement la honte d'être beau»; não, para Davis não é uma vergonha, pelo contrario, trata de fazer valer, por toilettes e atitudes longamente estudadas, por meios artificiaes, a sua belleza clara, loira, a que os olhos transparentes{223}dão um encanto misterioso, uma sedução que empolga, fascina, arrasta os pobres mulheres que desmaiam, sucumbem, diante desse Apollo adolescente e terno, cuja força se adivinha apenas nas mãos, de dedos firmes, de pelle, apesar dos cosmeticos, um pouco aspera. Viu-o bem? Reparou em como todo o seu corpo harmonioso d'atléta toma atitudes cançadas, como os seus olhos pareciam dissolver-se, ao olhar para a pequena Von Hameghen e a sua boca de labios finos e imberbes, se contraíam para o espasmo d'um beijo? Ha sete annos era o mesmo. Parece que para elle o mundo e os dias se conservam imoveis. Dir-se-hia que essa adolescencia se guarda no gelo. Que pacto teria feito este homem com o demonio?—Talvez o mesmo que Dorian Grey...—Bah! Dorian Grey matou Basil... Julga que será Sargent, realista, amando a força concentrada e não a belleza, quem fará o novo retrato magico! Ou Lazló?Já não ha Basil. Talvez em Hespanha... Sorolla ou Zuloaga... Mas os hespanhoes são naturalistas e republicanos. Veja Ibañez... A «Catedral» liquida em artigo de fundo.—E Davis? atalhei, pondo um dique á divagação abundante.O ministro sorriu-se. Certamente que se lembrou do epigrama de Marcial.—Ah, sim! Davis e Aix-les-Bains. Estou{224}prolixo como o bom Tito Livio. Entro em materia.Ali, no canto da estufa, abaixando a voz quando alguem se aproximava, para o afastar, o dinamarquez contou:—Estava no «Splendide» lady Hanswell, que depois de tratar do reumatismo, com massagens e duchas, chorava poeticamente, pelas alturas vicejantes do Bourget, os dez annos de casamento feliz com lord Vivian Hanswell esse extraordinario homem, misto de Heroe, de Poeta e de doido, que, começando por fazer odes extranhas aos venenos, aos assassinios e ás traições, acabára em Middlefontain, voluntario da Rainha, o primeiro na escalada d'uma collina, o monoculo entalado no olho, um livro de versos na algibeira do kaki enlameado e a cartucheira já vasia, de tantos tiros dados friamente, como nas suas coutadas ferteis da Irlanda.A viuva amára em seu marido a belleza adolescente, todo aquelle ar gracioso como o d'uma mulher, os largos olhos claros, transparentes, como gotas d'agua azul; amára o seu espirito extranho de comedor d'opio, cambiante e misterioso, deleitando-se na posse de coisas frageis, de flôres que, mal cortadas se fanam, os cristaes finos, as filigranas, as ceras, os linhos que envolvem, fumos, as mumias egipcias e quasi se pulverisam ao tocar-se-lhes, os leques de rendas; o imprevisto das suas áções sem logica,{225}que nada faziam prever, quasi sem realidade, como essas arvores que teem um metro de raizes fóra da terra.Lady Hanswell, já passado o segundo anno de viuvez ainda carpia nas palavras baixas em que recordava o marido, nos olhos que de tantas lagrimas regadas eram frescos como fetos nascidos á beira dos regatos, nas toilettes lilas, com que se vestia, foncées de manhã, claras á noite, nas perolas cinsentas com que se enfeitava, gargantilhas pesadas, collares multiplos, caindo sobre o collo, anneis de castães largos, que, á luz, pareciam cinzas...Foi sobre ella que Davis se lançou, decidido, acirrado não só pelos seus dois milhões de libras, mas tambem pela pelle fina, mate, macerada em banhos prolongados de perfumes, pelos olhos em que brilhava uma volupia indecisa, a afogar-se na tristeza, como um reflexo impreciso de estrella num tanque.—A mulher deve ser como o Champagne:extra dry.Vi-o n'esse cerco, a sitiar a praça, a fazer-se valer, fugindo de lady Hanswell, de todos, indo pouco ao Grand Cercle e á Villa des Fleurs, tomando, de manhã, nos Banhos, e á meza, atitudes d'uma tristeza profunda, maniaca, que interessasse.Só á noite, quando fumavamos o derradeiro charuto na varanda, sacudia a mascara e falava-me{226}do desenvolvimento da personalidade, toda a theoria de Spencer e de Stirner, poetisada e dramatisada por Nietzche, nelle menos literaria, menos filosofica, mas mais sincera, floração inconsciente do seu Ego, sumula emfim da sua maneira de ser, animal forte, que sabe que a Vida existe e quer apreender sem esforço, desenvolver-se avidamente, até com detrimento dos outros.—É necessario viver a nossa vida, disse-me.N'essa noite, Davis, que era d'uma sobriedade exemplar, por calculo talvez, para impressionar byronicamente lady Hanswell ou por impulso atavico—gerações a alascar-se em Port-Wine pesam esmagadoramente—por qualquer motivo, Davis acompanhou todo o jantar de Cliquot. Saimos juntos, tomamos peloBoulevard des Côtes, que vae contornando a montanha e mostrando-nos, em cada curva, um aspecto novo d'Aix e do campo, aqui a massa d'arvores illuminadas dos parques dos dois casinos, alem a rua deGenéve, apagada e quieta, mais alem as montanhas cujos perfis se recortam docemente no ceu enluarado, n'um outro cotovello o lago do Bourget, que parece, na noite clara, de mercurio incendiado. Caminhavamos apressados, subindo sempre, até á nascente d'essa agua choca que os medicos nos fazem beber de manhã, em jejum.Sir Arnold falava com fluencia:{227}—Todas as creaturas devem ser, para nós, elementos de desenvolvimento do poder, utilidades. Extraido d'ellas o que nos pode servir devemos pol-as á margem. É o que o organismo faz, inconscientemente... Quem sobrecarrega com sentimentos inuteis o seu coração, apodrece, morre. Devo todo este ensinamento filosofico, não aos livros, nem ás conferencias, mas a uma pobrecaissière, Eva Farland, d'um pequeno restaurante do Strand onde eu jantava economicamente nos dias em que não encontrava emprego para o meu mister agradavel depique-assietes. Ali, por um shelling e meio tinha uma boa talhada demuttone uma caneca de cerveja, para desalterar.Essa pobre rapariga prendeu-se nos olhos azues de Davis; prenderam-a seus braços fortes, a sua boca que ao beijar mordia. E foi para elle como uma escrava, atenta, paciente, devotada, gastando o seu ultimo penny em futilidades que Davis atirava para o lado, com desdem, dando-lhe quarto, copiando á noite escritas, para pagar a luz, a lenha, a agua, porque Davis fôra viver com ella, por economia—era um periodo deguigneextraordinaria!—persuadindo-se a pobre Eva que era por amôr. Doce e abençoada mentira que a tornava feliz, dava-lhe coragem para continuar a vida dura, fornecia-lhe a energia necessaria para estar á caixa todo o longo dia, esperar, ás vezes, por elle{228}toda a inferminavel noite, quando o jogo o segurava com a caricia aspera das suas mãos de aço; resignar-se ás longas ausencias, porque Sir Arnold, em ganhando alguns guineus, reentrava na sociedade, ia jantar ao club, frequentava osmusic-hallsnos camarotes do club, reencadernava-se, emfim, de gentleman.Eva era o seu cão, mas cão de cego, util, chorando ás escondidas e pouco, para não afear o soberbo rosto, não avermelhar os grandes olhos sensuaes e tristes.N'um periodo mais largo de miseria, não chegando para os dois o salario da amante, nem as copias, ella punha o chapeu, á noite, e ia pelo Picadilly, misturando-se aos soldados, a fazer-lhes concorrencia, á caça do guineu pondo em cada sorriso, um soluço.Davis via-a sofrer, indiferente, achando rasoavel que por elle outrem penasse, continuando descuidado, até que um dia a fortuna sorriu-lhe pela boca desdentada d'uma rainha de qualquer coisa na America, porco salgado ou azeite de fóca. Nunca mais soube d'Eva, de quem nem sequer se despediu, e que, se não morreu de dor—o que é pouco provavel—teve com certeza uma lancinante crise de desespero.Ora essa mulher, que por elle fez todos os sacrificios, incluindo o do pudor da amante, considerava-a elle o seu mestre de egoismo, pois habituára-o a pensar que o amôr pode ser um{229}modo de vida e a belleza extranha e fascinante suprir as aptidões para a lucta pela vida.Foi a confissão que me fez n'uma noite de vinho, em que o Cliquot d'oiro levára ao seu coração impassivel o desejo de expandir-se.Não tornámos a falar no assunto, persuadi-me até de que elle não tinha consciencia da propria indiscrição e continuei a examinal-o no interessante combate travado com lady Hanswell.Parece que a embriaguez produziu o seu efeito, porque lady Hanswell começou a lançar-lhe, por vezes, obliquamente, olhares em que punha alguma coisa de caloroso, as lagrimas deixaram de borbulhar-lhe nos olhos, que andavam secos do desejo que ardia dentro.Ao começo d'ataque da ingleza, respondeu sir Arnold com um simulacro de retirada, um mergulho na sua aparente tristeza, abstinencia de comida, que o levava ás escondidas ao American Bar todas as noites, a leitura constante do resignado Shelley e do desesperado Byron, cujos livros deixava ficar sobre as mezas com marcas nos versos adequados á circunstancia pensando que lady Hanswell não deixaria de ir folhear os volumes.Ia realmente, sofrega, já esquecida do marido, estudando toilettes, não já ruskinianas, com toda a tristeza doce das figuras dos primitivos, mas as que fizessem realçar a sua elegancia,{230}largos decótes que mostravam a flor nevada do seu cólo opulento, fulgiam-lhe nas mãos os largos costões esverdeados de berilos que Lalique lançára n'esse anno, remoçava a sua boca escarlate uma primavera de beijos, que se ofereciam, como as laranjeiras que nos quintaes murados veem sacudir para a estrada as laranjas d'oiro.Lady Hanswell atacava vigorosamente, num assalto de desespero, pondo na conquista de Davis toda a pertinacia da raça, toda a galantaria e vaidade do sexo.Davis fugia, mas forneceu-lhe a ocasião d'ella se lhe dirigir, entabolaram relações, elle mais dobrou a sua alma, melancolicamente, falara-lhe de amôres purissimos, que vicejam nas almas candidas, como desbotadas flores nas planicies geladas da Noruega.Falou-lhe n'uma especie de amor duplo, um amôr platonico por uma, em que a alma vae em primeira cumungante, e o desejo se dirige para outra.E, diante d'ella, passeou pelas alamedas da Villa des Fleurs com Blanche Lely, e, ostensivamente, durante alguns dias recolheu de manhã, a hora em que lady Hanswell costumava sair para o banho.A tristeza voltou á face branca da ingleza. Durante o jantar olhava para a porta constantemente, a cada movimento doparaventestremecia,{231}lançava nos olhares para mim curiosas innterrogações que a minha face muda deixava sem resposta. Voltou a chorar depois das ducha e das massagens, como antigamente pelo defunto marido, e, de manhã, quando se encontrava com sir Arnold o seu olhar tinha caricias, parecia que lhe lambia a face linda.Foi ella que o levou, fremente, na ancia de não perder a presa, já no carro a cerral-o entre os braços, para as Gorges du Sierroz, onde, depois do almoço, no gabinete do restaurante rustico, os beijos arderam e ella poude morder a boca em sangue de sir Arnold.Quanto custaram á consolada viuva esses beijos?N'esse momento, sir Arnold Davis passou, levando pelo braço a franzina Carlota Von Hameghen, que lhe encostava a cabeça ao hombro olhando para elle n'uma suplica, que o sorriso dos labios finos apoiava fortemente.{232}{233}FUMOA LUIZO'NEIL.{234}{235}FUMOPara fugir da exotica humanidade que enchia as salas do Kursaal de Genebra, saimos, apezar da noite fria, para o amplo terraço sobre o Léman tranquillo.Eu levára Roberto ali para mostrar-lhe Chiara, a dançarina italiana, que nas suas danças bisantinas me surpreendera e comovera no Alhambra de Londres.Era a Volupia feita luz e feita dança. N'ummaillotde seda, parecia nua. Uma cintura de oiro, marchetada de largas pedras brilhantes segurava-lhe os seios firmes. Grossas manilhas mordiam os braços finos e os tornozellos. Um diadema apertava a massa luminosa dos seus cabellos loiros. E, na face branca, eram d'um brilho de gema os olhos azues, quasi violeta-de-Parma. A musica que a acompanhava tinha um envenenado langor. Chiara deslisava, mal pousando os pés nús sobre o tapete de Smyrna.{236}E do brilho das joias, como da florescencia musical dos gestos, brotavam lascivias, ardiam desejos, que faziam correr fremitos por toda a sala incendiada por lampadas poderosas.Aquella dança sabia, apenas ritmada pelas vozes das flautas e das liras que tocadoras de flauta e tocadoras de lira, vestidas á grega, no palco tocavam! Uma ou outra vez um pé nú fazia vibrar o bronze dos crotalos. Era como um grito de vitória, um beijo mordido n'uma boca sedenta. Chiara tomava então uma atitude de entrega, todo o seu corpo flexivel e delgado parecia tombar, como uma haste fragil que cede ao explendor de uma enorme rosa vermelha, e verga e sucumbe.A grande flôr d'oiro e luz, em que as abelhas das joias picavam e pareciam morder, fixas nas lhamas dos engastes! Como a vejo ainda nitidamente, ramo d'oiro e de rosas, fazendo nascer desejos cintillantes, chuveiros d'elles, rapidos, fulgentes, descendo como estrellas d'oiro, como os bocados de astros que voam no ar escuro, nas noites quietas d'agosto!E preso á tentação de vêr a dançarina, deixei Aix e as duchas,Villa des Fleurse o seu rebanho de cocottes e, com Roberto, á pressa envergados os smokings, fomos para o Kursaal. Mas no salão, um aviso e um certificado medico diziam a doença de Chiara. Um grande desanimo abateu-me as espaduas. Como passar{237}uma noite na cidade alinhada e mecanica como um relogio? Em todo o Kursaal, nem um rosto interessante. Ranchos do Cook, das segundas classes, lyonezas rotundas e vermelhas, suissas frescas, que parecem esculpidas em manteiga e em cujas faces contentes os olhos são parados e azues... Caixeiros de Lyon, aproveitando comboios a preços reduzidos, apertavam-se em volta das compridas mezas dospetits chevaux. Dois americanos silenciosos chupavam por palhinhas os violentos cocktails.Fugimos.Na noite escura, o lago era azul escuro. Os focos electricos dos caes punham na agua fitas brancas, que dançavam e se quebravam contra as ondas. Pareciam pestanejar as pequenas lanternas vermelhas dosbateaux-mouches. Tudo parecia dormir. Uma brisa ligeira trazia até junto de nós o silencio da cidade. Apenas do Kursaal as luzes coavam-se pelas ramadas e, amortecidas, as walsas que acompanhavam mimambos e acrobatas.Um de nós disse:—Talvez fosse melhor não ter visto Chiara. Um com a recordação, de que viu, outro com a imaginação, teem uma imagem mais bella, por incompleta, e em parte mentirosa, da dançarina e do seu bailado. A melhor maneira de gosar é criar imagens, viver dentro de nós, alheio ao mundo. Recordando, vive-se na imprecisão,{238}sem as arestas. Tudo mergulha num nevoeiro, que, deformando a real aparencia, nimba de misterio; desejando, ilumina-se mais. Viver deve ser recordar e desejar.—Pode-se viver recordando e desejando apenas, no momento presente; mas para recordar é necessario ter vivido, para desejar é preciso conhecer. O desejo ilimitado põe a angustia na alma. É mister alguma coisa de definido a desejar.—Quando chegamos á nossa edade, já vivemos tudo. Conhecemos o efemero feminino. Andámos com o coração por todos os amores, por todas as angustias. Provámos todos oscrús, atravessámos mares, dormimos sob todos os ceus. Podemos recordar. E, como conhecemos tudo, podemos escolher e desejar.—A vida do homem é, como a de toda a natureza, um continuo movimento, fluxo e refluxo permanentes.—Então é preciso agir?—É fatal.—S. Simeão Stylita gastou anos sobre uma coluna, a orar. Vinham de desencontradas partes os crentes á espera de milagres. Esposas estereis tocavam no plinto, certas de que tempo depois amamentariam o filho desejado; os leprosos, os cegos, os atacados do «mal divino», arrastavam-se pelos desertos queimados, até á coluna onde o santo resava... E elle, indiferente,{239}como indiferente era aos soes asperos, ás ventanias e ás chuvas, continuava a orar. Viveu dentro de si. A vida deve ser toda interior.—A vida do espirito é toda interior, como a vida digestiva. Precisamos do mundo exterior para d'elle apreendermos as imagens e os alimentos.—Ter comido, é melhor quecomer.Ter gosadoé melhor quegosar. O momento da posse é doloroso e vão. É melhor recordar.—Recordar implica esquecer. E quando das imagens não ficar senão uma mancha, como preencher a vida?—Desejando.—Mas a faculdade de desejar desapparece com os annos. O velho dos Goncourt, quando no restaurante lhe perguntam:—O que deseja? responde:—Desejava ter um desejo. Viver é agir. Colher todas flores e todos os espinhos, violar todos os cimos, mergulhar em todos os lodos, sentir intensamente, pensar todas as doutrinas, apreender do Universo tudo o que fôr possivel, ver tudo, ouvir tudo! Viver é entrar na harmonia do Mundo! É ser como o eucalipto, subir para o sol, triunfalmente, lançar ramadas por todos os lados, espalhar avidas raizes egoistas e crueis!—Viver é recordar e desejar. A vida deve ser feita por nós, como a composição d'um quadro{240}é arranjada por um pintor. Não devemos ser o espelho de mostrador que refléte toda a rua, mas a psiché doboudoird'uma mulher elegante que só refléte atitudes graciosas, sedas, rendas, brilhos de pedrarias...—Viver...Despejava-se o Kursaal. Apagaram-se as lampadas. Fomos para a estação esperar o expresso de Paris.FIM
A JULIO DESOUSA.
{198}{199}
Friorenta, encolhida no fundo do coupé, tudo era indeciso na figurinha que passou rapidamente, na tarde a escurecer.
Nascia da penumbra, sem presisão nos contornos, como certos retratos de Columbano e de Henner. E entre o chapeu preto e a face branca, o cabello loiro punha uma esmaecida aureola como uma tenue poeira d'ambar. A boa, derenard bleu, ainda aumentava o indeciso, o fluctuante d'essa mulher; os olhos claros não brilhavam; o vermelho da bocca desmaiava... Figurinha de cera e de seda, que passava, olhando para a rua sem attentar talvez em ninguem, levando o nosso desejo de decifrar enigmas, indefferente, graciosa, impressionou-me... Ao amigo que me acompanhava recorri para saber d'ella. Quando me voltei para perguntar, vi que Roberto se pusera pallido; parecia que á bocca se lhe afivelára uma boqueira de pedra, mascara trágica a emudecer.{200}
Seguiu com os olhos a carruagem que trotava pela Avenida até se perder entre as arvores em Valle de Pereiro.
—Quem é? gaguejou. Alguma aventureira cosmopolita que veiufaire le Portugal. Um pastel de Antonio de la Gandara, maquilhada como uma infanta de Velasquez, mais artificial que uma boneca de Nuremberg, sem vicio, talvez, amante enternecida d'algumcroupierdeCercleordinario... Sei lá!... encolheu, impaciente, os hombros, a concluir.
Houve um silencio. Raras carruagens passavam. Estava triste a Avenida. Descemos. Abriam, simultaneamente, as grandes flôres geladas e luminosas das lampadas electricas. Rapidos, fulgiam os americanos. Outra vez a mulher passou, mais indeciso o vulto, apenas destincto o palôr da face branca nocoupéescuro.
—Porque teria vindo cá, essa mulher? perguntou Roberto, colerico.
—Conhecel-a?
—Se a conheço?! Tenho querido arrancal-a de mim, como se arranca d'um boi uma farpa—violentamente. Tenho querido fugir de mim, para a esquecer! E quando estou quasi a conseguil-o, quando a tortura da sua lembrança é em mim apenas uma cicatriz, eil-a que apparece a reavivar a chaga antiga, a tornal-a mais dolorosa! Clara veiu aqui só por minha causa, ouves? Para fazer-me soffrer!{201}
Agarrava-se-me ao braço, a apertal-o violentamente. Na bocca accentuava-se-lhe, aspero, o vinco da amargura.
—Foi esta mulher que me fez fugir de tudo, perder o amor a tudo, desterrar-me para esta passividade, eu que amava a vida dolorosamente, gosando com tudo, intensamente!
«Conhecia-a em Hespanha! N'um inverno humido deixei Lisboa e acolhi-me a Sevilha. Os dias gloriosos de sol que lá gosei pelas margens do Guadalquivir azul! Andava ebrio de tanta luz que enchia d'oiro e de triumpho a cidade alegre. Saia para os campos, logo de manhã, a rir-me com os trigaes e com as flôres. Ia ao parque vêr o sol fulgir nas caudas abertas dos pavões orgulhosos; descia ao caes para vêr brilhar na agua incendiada os cobres polidos dos navios; enchiam-me de prazer a barulheira dos carregadores, o chiar aspero dos guindastes, o estridulo das sereias, nos vapores que partiam... Tudo era alegria na cidade maravilhosa mesmo á noite, as lampadas incendiavam aSierpeebrilhante, onde se apertava uma multidão palradora. Das janellas dos casinos, das portas dos cafés, dos mostradores das lojas, vinham chapadas de luz. Misturava-me a toda aquella vida insolente, ria com todos os risos, todos os labios frescos me chamavam, rodeavam-me todas as cabelleiras fartas, cheias de flôres. O donaire das andaluzas d'olhar de volupia fazia-me{202}achar mais bella a Vida. Era como um poema a enaltecer a obra de Deus. Por todos amar, não amava nenhuma.
Comprei o sineiro da Cathedral. Do alto da Giralda, uma noite, possui a cidade, senti que todo o tumulto confuso que até mim chegava, era o seu sangue que pulsava por mim nas suas arterias; aquella resplandecencia, brilho de joias com que cobria a nudez. Os tranvias iluminados, cortando em mil direcções a cidade, eram pedrarias, aqui se apagando uma, para alem se accender outra, conforme as ia eu tocando com os meus olhos amorosos. Ella, em baixo, abria os seus braços, entregava todo o seu corpo, a morena Sevilha, offegante e lasciva!
«Era feliz, poderosamente feliz. Sentia, em cada palpitação cardiaca, o sangue remoçado que se espraiava pelo corpo. Foi então que conheci Clara. Ella passava pelaSierpes, junto aoCredit, enygmatica, como a viste. A elegancia do seu porte, ultima florescencia da moda franceza, quasi immaterial, contrastava com a forte humanidade das sevilhanas cheias de vida, de sangue e de desejos. Todos se voltaram para ella e lhe abriram caminho, como se passasse um andor. Fui logo preso pelo encanto decadente e artificial, esqueci a Vida e a gloria de viver ao sol nos campos fecundos. Regressei á hyper-civilisação; segui-a e alegre entrei, atraz d'ella, para o seu e meu hotel.{203}
«Vergonhosamente a segui como um cão fiel. Vergonhosamente mendiguei um olhar dos seus olhos parados; e contente fiquei ao vel-a um dia no salão da leitura, por que pude dirigir-lhe a palavra e pedir-lhe licença para fumar. Apesar da resposta secca, insisti e entabolámos conhecimento.
«Doces foram para mim os dias, em que visitámos Sevilha. A casa de Pilatos e as suas penumbras em que esmaecem estuques e o patio claro de marmores harmoniosos ouviram as palavras aladas que lhe disse; diante das Assumpções do Murillo e dos frades de Zurbaran, no museu deserto, contei-lhe o poema do meu desejo; naCaridad, a mostrar-lhe a estatua de Herrera, ouviu a perfumada e embaladora cantilena. Na Giralda, a vêr Sevilha doirada, deitada na planicie que ondulava, até perder-se no horisonte circular, offereci-lhe toda a minha alma e toda a minha vida. Houve momentos em que seus braços foram a levantar-se para apertar o meu pescoço; julguei sentir o seu peito leve arfar de commoção: muitas vezes a boca se apertou para a florescencia dos beijos e seus olhos verdes se encheram de luz; mas rapido, tudo se desmanchava, e um sorriso tremia na boca desmaiada, a mostrar a linha branca dos dentes.
O flirt desabrochava. Uma tarde, nos jardins do Alcaçar, á porta dos banhos de Maria Padilla,{204}passou por mim o corpo delgado, agil, pela cara roçou o cabello que tinha um perfume penetrante; fallou-me do seu corpo e, sentados no salão dos Embaixadores, estendia a perna, para mostrar o tornosello fino e a meiaajourée, que deixou vêr a pele branquissima. Todas as noites eu pensava, que no dia seguinte beijaria a boca perfumada. E todas as manhãs via cair a minha esperança, como as folhas murchas que o vento sacode dos ramos seccos.
«Certamente que as minhas palavras deviam ser perturbantes, porque sahiam d'um coração perturbado. E, pesadas de tanto amor, cahiam da boca vagarosamente. Ás vezes os cilios de oiro abatiam-se sobre os olhos, como n'um espasmo. Mas logo o sorriso abria-lhe a pequenina boca!
«Longos dias, longas semanas, durou o encantado oaristo. Já não cuidava da gloria da natureza; das apoteóses do sol sobre as aguas azues do rio. Só pensava n'ella, só vivia d'ella.
«Um dia, porem, eu soube! Alguem, com palavras que julgou caridosas, veiu pôr no meu coração as sete espadas! A creaturinha delicada e deliciosa, princeza de balada d'hoje, urna de perfume, a quem me entregava como um collegial, era uma aventureira das que frequentam aRivierano inverno, Aix no verão, Paris na primavera, e que a Sevilha viera atraz d'um{205}clown, que no circo fazia rebentar estrépitos de gargalhadas... Ao seu morbido encanto me prendera, e atraz d'ella me fui a soluçar, flor de lameiro em que puz todo o perfume suave... Fôra nas mãos d'ella um saxe fragil como que se brinca!
«Ah, meu amigo! O desespero e a raiva puzeram mãos assassinas a estrangular-me! N'um impeto, como uma aura que se nos levanta do peito e nos atira para o ataque epileptico, decidi-me. Levei-a n'um trem para o campo, para alem da Cartuja, com um cocheiro de confiança. E alli, desapiedadamente, bati-lhe, arranquei-lhe as sedas e as rendas—parecia, nua entre os trigaes verdes, uma magnolia enorme!—e o seu corpo cobriu-se todo de sangue. Clara gemeu, implorando; as lagrimas empastavam a maquilhagem; via-a sordida, enrolando-se para escapar ás chicotadas, e fugi, ebrio, doido, a correr, diante do cocheiro espantado que me metteu no trem e me levou a Sevilha.
—Senorito, la navaja era mejor, aconselhou-me.
«Parti. Nunca mais soube d'ella. Trouxe-a dentro de mim como um espinho. A dôr que lhe causei augmentou a minha pena. De ter visto o corpo magro e branco, ficou-me a ancia de o beijar. Andei de noite, pelas ruas, a correr sem forças para fugir de mim e d'ella, porque a figura surgia deante dos meus olhos,{206}bella de toda a perversidade e de toda a lascivia, como uma invencivel tentação, a que o maior santo succumbe.
«Ás vezes conseguia distrahir-me; de repente ella surgia, sentava-se na minha frente, mostrava os vergões das chicotadas, todo o corpo impudico perfumava e brilhava, e a boca sorria a escarnecer de mim!
«Foi algum philtro que me deu.
«Ia a esquecel-a e eil-a que novamente me apparece, a prender-me, a levar-me, outra vez para a allucinação, a atiçar o incendio que me queimava!
«Talvez queira vingar-se!
Não. Não queria vingar-se. Clara veiu a Lisbôa, soube-o mais tarde, atraz d'um comprimario de S. Carlos, seuamant de coeur.{207}
A EDUARDOVALERIOVILLAÇA.
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No jardim, a tarde de oiro era perfumada pelas rosas e pelos cravos. Nos canteiros, os cravos levantavam-se impertinentes, risonhos, em delgadas hastes. E, por toda a parte, entremeiando-se com os buxos, enroscando-se a uma macieira em flôr, serpenteando pelos muros, subindo pelas sebes, uma opulenta floração de rosas de toda a côr, rosas de oiro pallido, rosas roseas, rosas vermelhas a estremecer, como labios de que vão cair os beijos, rosas escuras, enormes, sensuaes e dolorosas, umas ainda em botão, misteriosas como as adolescentes, outras já totalmente abertas, sem enigma, como as amantes antigas—todas ellas misturavam o seu perfume no jardim quieto, em que as pombas arrulhavam, beijavam-se e depois partiam em vôos curvos, as azas brancas a brilhar ao sol.
Os dois amantes iam calados, elle a olhal-a intensamente, como a querer apreendel-a, como se os olhos fossem bocas e podessem beijar,{210}braços e conseguissem abraçar—ella um pouco aborrecida, a desfazer entre os dedos longos uma orchidea azul listrada de vergões esverdinhados.
—Pensei em ti sempre, dizia elle. No Prado, diante dos tapetes de Goya, disse o teu louvor. As raparigas esbeltas, que vão á fonte, as bilhas esguias á cabeça, como as princezas de Homero, não tinham a tua elegancia... Ás infantas de Velazquez, artificiaes, cadaveres de bonecas, em que apenas os olhos attonitos teem vida, faltava a tua belleza. As santas hirtas de Memling não tinham na bôca a primavera que ruboresce os teus labios... Só na curva do braço de Danae, de Ticiano, pude ver uma attitude como tens... Por todo o museu me perseguia a tua imagem, como um canon, para avaliar as obras. As gordurosas flamengas de Rubens, as cigarreiras sensuaes e extaticas de Murillo, as energicas mulheres de salteadores em que Ribera se compraz, eram muito diferentes de ti, d'ellas fugia o meu olhar. Em Raphael havia alguma coisa da tua doçura risonha, mas demasiado passiva; em Greco, a tua distincção, mas severa; apenas Leonardo te saberia pintar, quasi irreal por seres tão bella, indecifravel, como uma esfinge sem segredos... Como uma esfinge sem segredos... Que segredos teria a suave mulher do Jocondo? Que segredos terás, alheia a tudo, passando pela vida, ligeiramente,{211}como a agua que vae n'um ribeiro, correndo e cantando? Vi-te em toda a parte. Levei-te sempre commigo! Talvez o Moro te tivesse pintado...
—Viste bem o museu...
—Vi, porque te buscava... Um dia, ao aproximar-me da escadaria, vi fugir, n'um automovel ligeiro, uma mulher, que se parecia comtigo... Era um carro vermelho... Por toda a parte tive ahantisedos automoveis vermelhos. NoRetiroe naCastellana, o meu olhar prescrutava, revolvia todos os automoveis, todas as carruagens, a ver se te encontrava. Todas as manhãs, pelo museu, andava á tua espera, embora te soubesse aqui, indiferente. Como te não encontrava, procurei vêr o teu retrato, n'algum quadro antigo. E puz, em muitos, o reflexo da tua belleza, porque n'uma atitude, n'um olhar, havia alguma coisa de ti...
—O governo hespanhol agradeceu-te a valorisação dos quadros?
—Ri-te. Ri-te de mim... A tua boca, ao abrir-se n'um riso, é uma flor de nácar e prata...—A principio, procurei-te... Depois, como a tortura fosse muita, quiz fugir da tua imagem. Fui para Sevilha onde tudo é Amor e resplandece. Deixáras de escrever-me... Só sabia que não pensavas em mim. Ali, tudo é alegre e luminoso. O sol é o sangue da cidade... Doira a planicie e as palmeiras de S. Fernando. Levanta{212}scintillações do calado Guadalquivir azul e da cupula inflamada da Torre del Oro. Enche de vida o jardim do Alcazar, com seus repuxos com enjoalhadas lagrimas. Tudo é luminoso e perfumado. O amor, ali, não aniquilla, escalda. Entre os cravos que guarnecem as grades das janellas, as mulheres olham os seus namorados com um olhar d'assalto. Ha uma voluptuosidade suspensa no ar. Tudo vive, tudo ama, parece que tudo é feliz. Ha uma embriaguez de côr. E nas varetas dos leques saltitam os beijos que caem das bocas. A Sierpes, á noite, palpita com todo o anceio de tumultuosa cidade... Nos pateos, sob as pequenas palmeiras e musas, os flirts sussurram palavras de entontecer... Como tudo brilha! Só o meu coração se apagava e murchava com saudades... Nos banhos silenciosos de Maria Padilla, pensei no afortunado amor de favorita, nos lentos passeios pelo jardim, nas casas de fresca sombra, onde luzem os estuques policromos e os azulejos... E não deixei de sentir-te ao meu lado...
—Acredita que não foi por minha culpa...
—Fugias-me. Deixavas-me a tua imagem, para torturar-me. Mandavas-m'a, a envenenar-me de longe... A belladona é doce e envenena... Muito mel embriaga... Tão real a sentia, que, á noite, olhos fechados, queria abraçar-te, e tinha a desillusão de Pan, quando perseguiu a ninfa Seringe... Como quem corre atraz do sol{213}e se encontra encerrado n'um bêco. Nunca mais me escreveste!
Deixaste cair o teu amor do peito, como as flores que levaste ao baile...
—Depois d'uma noite de baile, as flores já não perfumam. O amor precisa do viço. É necessario podar o coração...
—Bem sei. Não te recrimino. Lamento-me...
—Lamartiniano!... Julgava-te mais forte e mais moderno. Parecia-me que a cultura intensiva do Eu tornava impossivel um amor sem esperanças... Filosofos!...
—Amar-te, não é para mim uma função: é a propria essencia do meu ser. Julgo ás vezes que não existes, material e tangivel, que existes mais real: nasceste e vives no meu cerebro, tanto se casa a tua figura ao meu sonho de belleza. Pintor, se idealisasse uma mulher, o meu quadro pareceria o teu retrato, embora nunca te tivesse visto. Poeta, o teu misterio seduz-me, alma que se guarda, avidamente, sem que ninguem a adivinhe. Todos passam por ti, sem a possuir, como as quilhas dos navios que cortam as ondas não maculam a eterna virgindade do mar... Foi ao ver o mar, que mais pensei em ti. Pelo Mediterraneo socegado, estudei a onda, sem conseguir conhecel-a. As ondas são graciosas, as suas curvas teem ternos desenvolvimentos: dir-se-iam mulheres que brincam na relva fresca. E desfazem-se em flocos de espuma,{214}quebram-se umas contra as outras com fragilidade de cristaes, são leves como leques, e no emtanto matam, levantam-se em vagalhões que sacodem os couraçados, despedaçam os navios. Carinhosas, riem e fogem, como tu; a onda de esmeralda que saltita, enfeitada de rendas, subitamente é uma gigantesca aza d'abutre que se curva, para apreender... É um abismo que ri... As mutações rapidas do mar fizeram-me lembrar o teu amor que desapareceu sem se saber porquê...
Nem sequer recrimino. «Não me esqueço», prometeste. E as tuas palavras que guardei, como guardaria uma estrella, ainda cantam nos meus ouvidos. E ha tanto que te esqueceste! Vivo do passado. Vive o meu coração do passado, como as velhinhas, que foram actrizes, e no asilo se lembram das aclamações quando faziam papeis de rainhas sumptuosas com luzidas cortes a seguil-as e galãs esbeltos a segredar frases d'amor...
Mas o passado esgota-se, como as cisternas, quando durante muito tempo não chove...»
Ella cortara e desfolhára as margaridas de uma moita viridente. O sol ia a morrer, n'uma catástrofe... Um rebanho de nuvens encharcava-se em sangue. N'uma fita delgada, um repuxo subia, dobrava-se e estilhaçava-se na agua do tanque.
O amante chorava...{215}
A EDUARDO DEMAYACARDOZO.
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Desvairada, a ministra da Esclavonia perseguia sir Arnold Davis, que, de sala para sala, passava em revista as senhoras em toilettes de baile. Ia-lhe na piugada, metia-se pelos corredores, apressadamente, para crusar-se com elle, receber um olhar, fazel-o parar, prendel-o no vão d'uma janella, onde os seus olhos pareciam tomar d'assalto o rosto glabro de sir Arnold, mordia a boca fortemente carminada, como para reter os beijos, que queriam saír.
As suas mãos magras e longas, as mãos que teem as doadoras e as santas nos quadros góticos, tremiam ao apertar as de sir Arnold onde opalas desmaiavam, maléficas e misteriosas.
Carlota von Hameghen não via o baile, não se rodeava, como de costume, de politicos e diplomatas, a sondal-os, a irrital-os,allumeuseinternacional á cata de segredos, para vender a todas as chancelarias que pagassem, generosas e discretas.{218}
A condessa Carlota von Hameghen, mulher do ministro de Esclavonia, era quasi fiel ao marido. Apenas grande necessidade, um aperto de dinheiro, um segredo muito importante, que só se confia nas horas de completo aniquilamento, depois dos beijos, é que a faziam esquecer o marido, ainda novo, que trepára na «Carreira» empurrado pela mulher, apesar de morphimano e um pouco imbecil. Fóra disto, esposa exemplar. Espirito d'honestidade? Não: impassibilidade; a cirurgia, com uma operação dolorosa, em Londres, tirára-lhe o vigor da sensação. Vivia para a ambição, uma vida farta, proporcionada pelos cheques de varias embaixadas e legações, menos a de Esclavonia que pagava pouco e, por complicações de finanças internas, a más horas.
Alguns diplomatas, ao facto do temperamento da condessa, estranhavam aquelle assalto insistente ao moço inglez, alheio aos segredos das chancelarias, pouco rico para a condessa, servedoiro de milhões.
O ministro da Dinamarca, ageitando, como de costume a unica farripa de cabello que lhe guarnecia o craneo rubro:
—Ha de ser uma desforra! Sir Arnold vingar-nos-ha...
—Não ha de levar a melhor...
—Aposto! Não sabem a força de sir Arnold. Conheço-o muito bem.{219}
—A Hameghen é uma fortaleza inexpugnavel.
—Praça sitiada, praça tomada...
—Mas quem sitía é a condessa!...
—Estão enganados. Com o ar de quem se defende, sir Arnold ataca vigorosamente. Conheço-lhe a tática. É toda de sapa. Minas e conminas. O campo parece tranquilo e mil picaretes abrem galerias. É de primeira força! Praça a saque, d'aqui a duas semanas, o maximo.
—Não seja como Port-Arthur que todos os dias é tomado...
—Verão. Vae custar á condessa, coisa d'um milhão. Sir Arnold lança pesadas contribuições de guerra.
—Que paiz pagará?
—Mr. Alphonse?
—Il faut vivre. Il n'y a pas de sot metier. A Mariam Ringen...
—Aquella judia fanhosa?
—Sim. E que tinha seis dedos em cada pé... Gastou mais de dez mil libras em tres mezes.
—É ante-semita. Ébien né, o ser-se ante-semita! O começo da liquidação... E depois, douze dedos. Parecia-lhe menos.
—Contava muito depressa... 12 de cada vez...
—Se é que contava pelos pés!{220}
—Sir Arnold interessa-me. Tenho-o examinado, na batalha. É impassivel. Nunca procura primeiro uma mulher. Aquelle bello corpo d'Apollo adrescente fascina. Os olhos claros, misteriosos, desequilibram os nervos das nossas mulheres. E as opalas cheias de maleficios, que para elle sãoporte-bonheur, dão um quebranto magico. A terrivel fama de que tão justamente gosa e o precede como uma tenebrosa arauto faz-lhe um halo. Luz do inferno, que importa? É uma aureola. Se não tivesse motivos para ter um tal nome, caluniar-se-ia. É capaz de tudo, até d'uma boa ação... que o não prejudique. Não faz o mal por arte. Para fazer o mal por principio é necessario afirmar. Sir Arnold nada afirma nem nega. Negar é, d'alguma fórma, afirmar. E isso é um esforço que elle se não permite. Se quizesse ser diplomata, estaria hoje embaixador, membro do Tribunal da Haya, ministro dos negocios estrangeiros. Encaminharia a politica ingleza com menos soberba que Salisbury e mais firmeza que Lansdowne, sem a literatura, o romantismo de Rosebery. Nos tempos da vadiagem diplomatica, dos verdadeiros plenipotenciarios—hoje os nossos plenos poderes ficam na secretaria, que nol-os vae mandando por conta e pelo telegrafo—nesse tempo, talharia um imperio para o soberano que o empregasse. Não, para si. Sir Arnold é um egoista formidavel. Julga-se o centro do Universo. Nihil{221}humani a me alienum puto. Nada do que pertence ao homem lhe é alheio, isto é tem direitos sobre tudo, traduz elle. Não tem outra moral.
Nietzche estabeleceu os principios que nelle eram instinto. Cuido que nunca se deu ao trabalho de ler um só volume do discipulo de Stirner...
A conversa não interessava já. O dinamarquez tinha um pouco a mania oratoria. O grupo dispersou-se, pelas salas, onde os pares deslisavam ao som d'uma valsa da moda, langorosa e morbida... Fiquei com elle. Fomo-nos dirigindo para a estufa. O ministro continuou:
—Gósto de sir Arnold... pelo lado scientifico, como filósofo. É um poderoso dissolvente. Todas as dissoluções apressam a evolução. Davis é um força social.
—Na boca d'um ministro d'um paiz monarchico, essas palavras são imprevistas, sorri-me.
—Tenho uma opinião como diplomata e outra como filósofo. Como diplomata, sou conservador, como filósofo, anarchista... mas anarchista com palacios, festas, condecorações... Quando quero pensar como diplomata, visto a farda, ponho duas gran-cruzes, uma para cada lado—tenho a Corôa da Prussia—e todas as placas. Quando me decido a pensar como filósofo, cólo umas barbas postiças, fico emrobe-de-chambre. Defronte da minha psyché{222}imperio, dou-me a ideia d'uma Diogenes limpo. O mais usual, porem, é não pensar... Estou dispepético: o pensamento é terrivel para nós. Isto não impede que lhe conte um episodio da vida de Davis. Simpatiso com elle, dou-me até com elle. Conheci-o em Aix-les-Bains ha seis ou sete annos. Estavamos no mesmo hotel. Os nossos aposentos eram seguidos. A sacada era a mesma. Conversavamos muito. Venha para aqui.
Fomos para um canto isolado da estufa onde agonisavam, minadas por um mal estranho, orchideas esverdeadas. Nasciam chagas nas suas petalas recurvas, torcidas, listradas de vergões, varioladas. Sentamo-nos num sofá. O ministro ofereceu-me um cigarro de Nestor Gianaclis, perfumado e adormecedor. Escutei-o.
—Como lhe disse, sir Arnold é um egoista. Quer aumentar o poder, para empregar a formula de Nietzche. Desenvolve energicamente a personalidade, segundo ou contra a moral, é-lhe indiferente, torneando os preceitos dos codigos penaes e os usos sociaes, de maneira a se lhe não fecharem os palcos onde se exibe, os salões cosmopolitas, mais faceis e, sobre tudo, mais indulgentes. Elle não diz como o poeta: «je porte fiérement la honte d'être beau»; não, para Davis não é uma vergonha, pelo contrario, trata de fazer valer, por toilettes e atitudes longamente estudadas, por meios artificiaes, a sua belleza clara, loira, a que os olhos transparentes{223}dão um encanto misterioso, uma sedução que empolga, fascina, arrasta os pobres mulheres que desmaiam, sucumbem, diante desse Apollo adolescente e terno, cuja força se adivinha apenas nas mãos, de dedos firmes, de pelle, apesar dos cosmeticos, um pouco aspera. Viu-o bem? Reparou em como todo o seu corpo harmonioso d'atléta toma atitudes cançadas, como os seus olhos pareciam dissolver-se, ao olhar para a pequena Von Hameghen e a sua boca de labios finos e imberbes, se contraíam para o espasmo d'um beijo? Ha sete annos era o mesmo. Parece que para elle o mundo e os dias se conservam imoveis. Dir-se-hia que essa adolescencia se guarda no gelo. Que pacto teria feito este homem com o demonio?
—Talvez o mesmo que Dorian Grey...
—Bah! Dorian Grey matou Basil... Julga que será Sargent, realista, amando a força concentrada e não a belleza, quem fará o novo retrato magico! Ou Lazló?
Já não ha Basil. Talvez em Hespanha... Sorolla ou Zuloaga... Mas os hespanhoes são naturalistas e republicanos. Veja Ibañez... A «Catedral» liquida em artigo de fundo.
—E Davis? atalhei, pondo um dique á divagação abundante.
O ministro sorriu-se. Certamente que se lembrou do epigrama de Marcial.
—Ah, sim! Davis e Aix-les-Bains. Estou{224}prolixo como o bom Tito Livio. Entro em materia.
Ali, no canto da estufa, abaixando a voz quando alguem se aproximava, para o afastar, o dinamarquez contou:
—Estava no «Splendide» lady Hanswell, que depois de tratar do reumatismo, com massagens e duchas, chorava poeticamente, pelas alturas vicejantes do Bourget, os dez annos de casamento feliz com lord Vivian Hanswell esse extraordinario homem, misto de Heroe, de Poeta e de doido, que, começando por fazer odes extranhas aos venenos, aos assassinios e ás traições, acabára em Middlefontain, voluntario da Rainha, o primeiro na escalada d'uma collina, o monoculo entalado no olho, um livro de versos na algibeira do kaki enlameado e a cartucheira já vasia, de tantos tiros dados friamente, como nas suas coutadas ferteis da Irlanda.
A viuva amára em seu marido a belleza adolescente, todo aquelle ar gracioso como o d'uma mulher, os largos olhos claros, transparentes, como gotas d'agua azul; amára o seu espirito extranho de comedor d'opio, cambiante e misterioso, deleitando-se na posse de coisas frageis, de flôres que, mal cortadas se fanam, os cristaes finos, as filigranas, as ceras, os linhos que envolvem, fumos, as mumias egipcias e quasi se pulverisam ao tocar-se-lhes, os leques de rendas; o imprevisto das suas áções sem logica,{225}que nada faziam prever, quasi sem realidade, como essas arvores que teem um metro de raizes fóra da terra.
Lady Hanswell, já passado o segundo anno de viuvez ainda carpia nas palavras baixas em que recordava o marido, nos olhos que de tantas lagrimas regadas eram frescos como fetos nascidos á beira dos regatos, nas toilettes lilas, com que se vestia, foncées de manhã, claras á noite, nas perolas cinsentas com que se enfeitava, gargantilhas pesadas, collares multiplos, caindo sobre o collo, anneis de castães largos, que, á luz, pareciam cinzas...
Foi sobre ella que Davis se lançou, decidido, acirrado não só pelos seus dois milhões de libras, mas tambem pela pelle fina, mate, macerada em banhos prolongados de perfumes, pelos olhos em que brilhava uma volupia indecisa, a afogar-se na tristeza, como um reflexo impreciso de estrella num tanque.
—A mulher deve ser como o Champagne:extra dry.
Vi-o n'esse cerco, a sitiar a praça, a fazer-se valer, fugindo de lady Hanswell, de todos, indo pouco ao Grand Cercle e á Villa des Fleurs, tomando, de manhã, nos Banhos, e á meza, atitudes d'uma tristeza profunda, maniaca, que interessasse.
Só á noite, quando fumavamos o derradeiro charuto na varanda, sacudia a mascara e falava-me{226}do desenvolvimento da personalidade, toda a theoria de Spencer e de Stirner, poetisada e dramatisada por Nietzche, nelle menos literaria, menos filosofica, mas mais sincera, floração inconsciente do seu Ego, sumula emfim da sua maneira de ser, animal forte, que sabe que a Vida existe e quer apreender sem esforço, desenvolver-se avidamente, até com detrimento dos outros.
—É necessario viver a nossa vida, disse-me.
N'essa noite, Davis, que era d'uma sobriedade exemplar, por calculo talvez, para impressionar byronicamente lady Hanswell ou por impulso atavico—gerações a alascar-se em Port-Wine pesam esmagadoramente—por qualquer motivo, Davis acompanhou todo o jantar de Cliquot. Saimos juntos, tomamos peloBoulevard des Côtes, que vae contornando a montanha e mostrando-nos, em cada curva, um aspecto novo d'Aix e do campo, aqui a massa d'arvores illuminadas dos parques dos dois casinos, alem a rua deGenéve, apagada e quieta, mais alem as montanhas cujos perfis se recortam docemente no ceu enluarado, n'um outro cotovello o lago do Bourget, que parece, na noite clara, de mercurio incendiado. Caminhavamos apressados, subindo sempre, até á nascente d'essa agua choca que os medicos nos fazem beber de manhã, em jejum.
Sir Arnold falava com fluencia:{227}
—Todas as creaturas devem ser, para nós, elementos de desenvolvimento do poder, utilidades. Extraido d'ellas o que nos pode servir devemos pol-as á margem. É o que o organismo faz, inconscientemente... Quem sobrecarrega com sentimentos inuteis o seu coração, apodrece, morre. Devo todo este ensinamento filosofico, não aos livros, nem ás conferencias, mas a uma pobrecaissière, Eva Farland, d'um pequeno restaurante do Strand onde eu jantava economicamente nos dias em que não encontrava emprego para o meu mister agradavel depique-assietes. Ali, por um shelling e meio tinha uma boa talhada demuttone uma caneca de cerveja, para desalterar.
Essa pobre rapariga prendeu-se nos olhos azues de Davis; prenderam-a seus braços fortes, a sua boca que ao beijar mordia. E foi para elle como uma escrava, atenta, paciente, devotada, gastando o seu ultimo penny em futilidades que Davis atirava para o lado, com desdem, dando-lhe quarto, copiando á noite escritas, para pagar a luz, a lenha, a agua, porque Davis fôra viver com ella, por economia—era um periodo deguigneextraordinaria!—persuadindo-se a pobre Eva que era por amôr. Doce e abençoada mentira que a tornava feliz, dava-lhe coragem para continuar a vida dura, fornecia-lhe a energia necessaria para estar á caixa todo o longo dia, esperar, ás vezes, por elle{228}toda a inferminavel noite, quando o jogo o segurava com a caricia aspera das suas mãos de aço; resignar-se ás longas ausencias, porque Sir Arnold, em ganhando alguns guineus, reentrava na sociedade, ia jantar ao club, frequentava osmusic-hallsnos camarotes do club, reencadernava-se, emfim, de gentleman.
Eva era o seu cão, mas cão de cego, util, chorando ás escondidas e pouco, para não afear o soberbo rosto, não avermelhar os grandes olhos sensuaes e tristes.
N'um periodo mais largo de miseria, não chegando para os dois o salario da amante, nem as copias, ella punha o chapeu, á noite, e ia pelo Picadilly, misturando-se aos soldados, a fazer-lhes concorrencia, á caça do guineu pondo em cada sorriso, um soluço.
Davis via-a sofrer, indiferente, achando rasoavel que por elle outrem penasse, continuando descuidado, até que um dia a fortuna sorriu-lhe pela boca desdentada d'uma rainha de qualquer coisa na America, porco salgado ou azeite de fóca. Nunca mais soube d'Eva, de quem nem sequer se despediu, e que, se não morreu de dor—o que é pouco provavel—teve com certeza uma lancinante crise de desespero.
Ora essa mulher, que por elle fez todos os sacrificios, incluindo o do pudor da amante, considerava-a elle o seu mestre de egoismo, pois habituára-o a pensar que o amôr pode ser um{229}modo de vida e a belleza extranha e fascinante suprir as aptidões para a lucta pela vida.
Foi a confissão que me fez n'uma noite de vinho, em que o Cliquot d'oiro levára ao seu coração impassivel o desejo de expandir-se.
Não tornámos a falar no assunto, persuadi-me até de que elle não tinha consciencia da propria indiscrição e continuei a examinal-o no interessante combate travado com lady Hanswell.
Parece que a embriaguez produziu o seu efeito, porque lady Hanswell começou a lançar-lhe, por vezes, obliquamente, olhares em que punha alguma coisa de caloroso, as lagrimas deixaram de borbulhar-lhe nos olhos, que andavam secos do desejo que ardia dentro.
Ao começo d'ataque da ingleza, respondeu sir Arnold com um simulacro de retirada, um mergulho na sua aparente tristeza, abstinencia de comida, que o levava ás escondidas ao American Bar todas as noites, a leitura constante do resignado Shelley e do desesperado Byron, cujos livros deixava ficar sobre as mezas com marcas nos versos adequados á circunstancia pensando que lady Hanswell não deixaria de ir folhear os volumes.
Ia realmente, sofrega, já esquecida do marido, estudando toilettes, não já ruskinianas, com toda a tristeza doce das figuras dos primitivos, mas as que fizessem realçar a sua elegancia,{230}largos decótes que mostravam a flor nevada do seu cólo opulento, fulgiam-lhe nas mãos os largos costões esverdeados de berilos que Lalique lançára n'esse anno, remoçava a sua boca escarlate uma primavera de beijos, que se ofereciam, como as laranjeiras que nos quintaes murados veem sacudir para a estrada as laranjas d'oiro.
Lady Hanswell atacava vigorosamente, num assalto de desespero, pondo na conquista de Davis toda a pertinacia da raça, toda a galantaria e vaidade do sexo.
Davis fugia, mas forneceu-lhe a ocasião d'ella se lhe dirigir, entabolaram relações, elle mais dobrou a sua alma, melancolicamente, falara-lhe de amôres purissimos, que vicejam nas almas candidas, como desbotadas flores nas planicies geladas da Noruega.
Falou-lhe n'uma especie de amor duplo, um amôr platonico por uma, em que a alma vae em primeira cumungante, e o desejo se dirige para outra.
E, diante d'ella, passeou pelas alamedas da Villa des Fleurs com Blanche Lely, e, ostensivamente, durante alguns dias recolheu de manhã, a hora em que lady Hanswell costumava sair para o banho.
A tristeza voltou á face branca da ingleza. Durante o jantar olhava para a porta constantemente, a cada movimento doparaventestremecia,{231}lançava nos olhares para mim curiosas innterrogações que a minha face muda deixava sem resposta. Voltou a chorar depois das ducha e das massagens, como antigamente pelo defunto marido, e, de manhã, quando se encontrava com sir Arnold o seu olhar tinha caricias, parecia que lhe lambia a face linda.
Foi ella que o levou, fremente, na ancia de não perder a presa, já no carro a cerral-o entre os braços, para as Gorges du Sierroz, onde, depois do almoço, no gabinete do restaurante rustico, os beijos arderam e ella poude morder a boca em sangue de sir Arnold.
Quanto custaram á consolada viuva esses beijos?
N'esse momento, sir Arnold Davis passou, levando pelo braço a franzina Carlota Von Hameghen, que lhe encostava a cabeça ao hombro olhando para elle n'uma suplica, que o sorriso dos labios finos apoiava fortemente.{232}{233}
A LUIZO'NEIL.
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Para fugir da exotica humanidade que enchia as salas do Kursaal de Genebra, saimos, apezar da noite fria, para o amplo terraço sobre o Léman tranquillo.
Eu levára Roberto ali para mostrar-lhe Chiara, a dançarina italiana, que nas suas danças bisantinas me surpreendera e comovera no Alhambra de Londres.
Era a Volupia feita luz e feita dança. N'ummaillotde seda, parecia nua. Uma cintura de oiro, marchetada de largas pedras brilhantes segurava-lhe os seios firmes. Grossas manilhas mordiam os braços finos e os tornozellos. Um diadema apertava a massa luminosa dos seus cabellos loiros. E, na face branca, eram d'um brilho de gema os olhos azues, quasi violeta-de-Parma. A musica que a acompanhava tinha um envenenado langor. Chiara deslisava, mal pousando os pés nús sobre o tapete de Smyrna.{236}E do brilho das joias, como da florescencia musical dos gestos, brotavam lascivias, ardiam desejos, que faziam correr fremitos por toda a sala incendiada por lampadas poderosas.
Aquella dança sabia, apenas ritmada pelas vozes das flautas e das liras que tocadoras de flauta e tocadoras de lira, vestidas á grega, no palco tocavam! Uma ou outra vez um pé nú fazia vibrar o bronze dos crotalos. Era como um grito de vitória, um beijo mordido n'uma boca sedenta. Chiara tomava então uma atitude de entrega, todo o seu corpo flexivel e delgado parecia tombar, como uma haste fragil que cede ao explendor de uma enorme rosa vermelha, e verga e sucumbe.
A grande flôr d'oiro e luz, em que as abelhas das joias picavam e pareciam morder, fixas nas lhamas dos engastes! Como a vejo ainda nitidamente, ramo d'oiro e de rosas, fazendo nascer desejos cintillantes, chuveiros d'elles, rapidos, fulgentes, descendo como estrellas d'oiro, como os bocados de astros que voam no ar escuro, nas noites quietas d'agosto!
E preso á tentação de vêr a dançarina, deixei Aix e as duchas,Villa des Fleurse o seu rebanho de cocottes e, com Roberto, á pressa envergados os smokings, fomos para o Kursaal. Mas no salão, um aviso e um certificado medico diziam a doença de Chiara. Um grande desanimo abateu-me as espaduas. Como passar{237}uma noite na cidade alinhada e mecanica como um relogio? Em todo o Kursaal, nem um rosto interessante. Ranchos do Cook, das segundas classes, lyonezas rotundas e vermelhas, suissas frescas, que parecem esculpidas em manteiga e em cujas faces contentes os olhos são parados e azues... Caixeiros de Lyon, aproveitando comboios a preços reduzidos, apertavam-se em volta das compridas mezas dospetits chevaux. Dois americanos silenciosos chupavam por palhinhas os violentos cocktails.
Fugimos.
Na noite escura, o lago era azul escuro. Os focos electricos dos caes punham na agua fitas brancas, que dançavam e se quebravam contra as ondas. Pareciam pestanejar as pequenas lanternas vermelhas dosbateaux-mouches. Tudo parecia dormir. Uma brisa ligeira trazia até junto de nós o silencio da cidade. Apenas do Kursaal as luzes coavam-se pelas ramadas e, amortecidas, as walsas que acompanhavam mimambos e acrobatas.
Um de nós disse:
—Talvez fosse melhor não ter visto Chiara. Um com a recordação, de que viu, outro com a imaginação, teem uma imagem mais bella, por incompleta, e em parte mentirosa, da dançarina e do seu bailado. A melhor maneira de gosar é criar imagens, viver dentro de nós, alheio ao mundo. Recordando, vive-se na imprecisão,{238}sem as arestas. Tudo mergulha num nevoeiro, que, deformando a real aparencia, nimba de misterio; desejando, ilumina-se mais. Viver deve ser recordar e desejar.
—Pode-se viver recordando e desejando apenas, no momento presente; mas para recordar é necessario ter vivido, para desejar é preciso conhecer. O desejo ilimitado põe a angustia na alma. É mister alguma coisa de definido a desejar.
—Quando chegamos á nossa edade, já vivemos tudo. Conhecemos o efemero feminino. Andámos com o coração por todos os amores, por todas as angustias. Provámos todos oscrús, atravessámos mares, dormimos sob todos os ceus. Podemos recordar. E, como conhecemos tudo, podemos escolher e desejar.
—A vida do homem é, como a de toda a natureza, um continuo movimento, fluxo e refluxo permanentes.
—Então é preciso agir?
—É fatal.
—S. Simeão Stylita gastou anos sobre uma coluna, a orar. Vinham de desencontradas partes os crentes á espera de milagres. Esposas estereis tocavam no plinto, certas de que tempo depois amamentariam o filho desejado; os leprosos, os cegos, os atacados do «mal divino», arrastavam-se pelos desertos queimados, até á coluna onde o santo resava... E elle, indiferente,{239}como indiferente era aos soes asperos, ás ventanias e ás chuvas, continuava a orar. Viveu dentro de si. A vida deve ser toda interior.
—A vida do espirito é toda interior, como a vida digestiva. Precisamos do mundo exterior para d'elle apreendermos as imagens e os alimentos.
—Ter comido, é melhor quecomer.Ter gosadoé melhor quegosar. O momento da posse é doloroso e vão. É melhor recordar.
—Recordar implica esquecer. E quando das imagens não ficar senão uma mancha, como preencher a vida?
—Desejando.
—Mas a faculdade de desejar desapparece com os annos. O velho dos Goncourt, quando no restaurante lhe perguntam:—O que deseja? responde:—Desejava ter um desejo. Viver é agir. Colher todas flores e todos os espinhos, violar todos os cimos, mergulhar em todos os lodos, sentir intensamente, pensar todas as doutrinas, apreender do Universo tudo o que fôr possivel, ver tudo, ouvir tudo! Viver é entrar na harmonia do Mundo! É ser como o eucalipto, subir para o sol, triunfalmente, lançar ramadas por todos os lados, espalhar avidas raizes egoistas e crueis!
—Viver é recordar e desejar. A vida deve ser feita por nós, como a composição d'um quadro{240}é arranjada por um pintor. Não devemos ser o espelho de mostrador que refléte toda a rua, mas a psiché doboudoird'uma mulher elegante que só refléte atitudes graciosas, sedas, rendas, brilhos de pedrarias...
—Viver...
Despejava-se o Kursaal. Apagaram-se as lampadas. Fomos para a estação esperar o expresso de Paris.
FIM