II.

Mal diria Christo outr'ora,

Que seria posto agora

No peito d'um vendilhão!

E mais elle, que os tocava

Com terrivel azorrague!..

Mas os Judas vendem Christo,

Ponto é haver quem pague.

E o barão dos Alcatruzes

Neste seculo das luzes

Tambem fez de farizeu:

E, tambem, se é necessario,

Representa de Calvario,

Onde a cruz se suspendeu.

N'um salão vasto, opulento,

Um banquete se vai dar;

Nos christaes reflecte o ouro,

A fulgir, a scintillar.

Os rubis, e a côr da opala

Transfiguram esta sala

Em olympicas mansoens.

Mas a alma cae por terra,

Quando vê que alli se encerra

Duzia e meia de baroens.

Da terrina a caudal sopa

Em silencio é devorada.

Só então fingiram d'homens,

Porque não disseram nada.

Mas venceu a natureza!

Um barão por sobre a mesa

Estendendo o prato, diz:

«Ó compadre! isto é qu'é bô!

Venha sopa, e acabô!

Cá de mim, torno á matriz!»

O barão de Cogumelos

Junto estando á baroneza,

Que se diz dos Sacatrapos,

Quiz fazer-lhe uma fineza.

Arrastou p'ra junto d'ella

Um pirum, e a cabidela

No prato lhe despejou.

E lhe diz: «cá isto é nosso;

Cousa que não tenha osso

É p'ró estamago, e arrimou!»

Outro diz á gorda esposa,

Que bem perto de si tem:

«Bai-lhe bebendo po'riba,

Ó mulher, come-lhe bem!»

Este pede ao seu visinho:

«Que lh'atice bem no binho

Qu'é da belha companhia.»

Diz aquelle ao seu fronteiro:

«Que lhe chegue um frango inteiro

E biba a sancta alegria!»

As saudes já começam.

É um gosto agora vêl-os.

Estas caras representam

Tomates de cotovêlos.

E, a travez do escarlate

Do legitimo tomate,

Transsuda um oleo que brilha,

Cada qual tem as orelhas

Encarniçadas, vermelhas

Como as azas d'uma bilha.

Pega no copo, e exclama

O barão das Pimpinelas:

«Vito serio! um home fala

Sem preamblos nem aquellas!

Á saude e alegria

Desta bella companhia

E com toda a estifação!

P'ra que todos cá binhamos

Estifeitos como bamos

De casa do sôr barão!»

E os hurras retumbaram

Pela sala do festim.

Balthazar nos seus banquetes

Não ouviu gritar assim!

Sobre a mesa deram murros,

Saudaram com grandes urros

O barão dos Alcatruzes;

Mas alguns com magua sua,

Já cuidavam ver a lua,

Não podendo vêr as luzes.

Mas, entre elles, um existe,

Litterato em seu conceito.

A palavra pede, e reina

Um silencio de respeito.

Elle diz: «Risonhas gallas

Que refrangem n'estas salas

Repercutem, symbolisam

Acrimónias insoluveis,

Nos acrósticos voluveis

D'epopeas que eternisam.

Pandemonios exhauriveis

D'indeleveis congruencias.

Requintados se escurecem

Nos imporios das sciencias

E liberrimos se escudam

Nas façanhas que transsudam

Em fantasiosas luzes.

E, por tanto, a mais alludo,

Quando, fervido, saudo

O barão dos Alcatruzes!»

Succedeu o grito ao pasmo!

Nunca se viu cousa assim!

O orador foi abraçado

Com furor, com frenezim!

«Isto é qu'é!» dizia um,

Convertido em rubro atum,

Betarraba até não mais.

«Viva Cissro!» outro dizia,

Despejando a malvazia,

Com grasnidos infernaes.

E a pandega findou. Mas alta noute,

Disseram-nos fieis informaçoens;

Que grande movimento ouve de tripas,

E grande salto deram as torneiras

Das pipas convertidas em baroens

Ou antes dos baroens tornados pipas.

A uma dama, prodigio de fecundidade, que dá á luz tres romances, por semana, nos jornaes do Porto.

Atafona de romances,

És um carril a vapor!

Romantisas quanto achas,

E nos folhetins encaixas

Com satanico furor.

Cornocopia da toleima!

Nós fizemos-te algum mal?

Tu não sabes, escriptora,

Como zombam lá por fóra

Das lettras de Portugal?

Não lucrara mais a patria,

E lucráras tu tambem,

Se fiasses n'uma roca.

Com primor, a massaroca,

Que desprezas, com desdem?

Não te fôra mais airoso

Bispontar bem uns fundilhos

Para em tempo competente

Um remendo pôr decente

Nas cuecas de teus filhos?

Mal tu sabes que sciencia

Tem da meia o calcanhar!

Talvez penses que o romance

É mister de mais alcance

Que nas meias pontos dar!..

Eu por mim antes quizera

Nunca ter lido Camoens,

Nem romances d'uma tola,

Que vestir rôta a ciroula,

Ou camisa sem botoens.

Accredito seja um dia

A mulher emancipada;

Ha-de então ser regedora,

Escrivan, e contadora,

Eleitora, e deputada.

Nesse tempo, se existisses,

Tendo em vista essa pericia

Com que ostentas teu saber,

Que logar podias ter?

Eras cabo de policia.

Tenho pena, quando penso

Que serás formosa e meiga,

E encontro os teus escriptos

Nos embrulhos dos palitos

Do toucinho, e da manteiga!

Faz-me dó, pois tu bem podes

Bordar lenços de cambraia

Com bonito

petit-point

;

E, não sendo aqui ninguem,

Podes, ser tudo na Maia.

Instrumento do ceo, desceste ao Porto,

Corajoso mancebo, que desandas

Nos borlistas fataes sopapo ingente!

Oppresso longo tempo, ahi gemera

Nas entalas crueis d'um camarote

O misero assignante! Amargo calix

Em silencio tragava, ouvindo os passos

Do acerbo massador, impio borlista!

As notas de Rossini eram-lhe espinhos,

As fusas de Bellini eram-lhe fusos

Que o intimo das visceras lhe espetam!

E os duetos em

do Machbet

Eram-lhe cantos de raivosas górgonas!

O ferro fez-lhe vêr visoens do inferno!

A propria Jeny-Lind se cantasse,

Nesse palco, talvez, aos olhos d'elle

Não fosse mais gentil, que a

Cholera-morbus

[3]

É que a larva immortal do pesadello,

A sombra do borlista ergue-se impavida,

Synistra, nos umbraes do camarote!

Derreado e servil no corpo e alma,

Arrasta-se o borlista em cortesias,

Gagueja cumprimentos requentados,

Recebe em cada noute affrontas novas,

E, cynico, sorri, graceja sempre!

Mas cerram-se ao borlista os horisontes,

Apenas surges tu, Pedro-Eremita,

E aos povos um pregão de guerra envias!

De toda a parte bellicosa ferve

Raivosa indignação contra os

Bernardos

.

[4]

Aqui batata pôdre o povo ajunta,

Além prendem-se em páos bexigas tumidas,

E cebola grelada em grande escala

De Freixo de Numão o Porto importa.

Se no livro fatal d'altos destinos

Proscripta a extincção foi do borlista

Da borla a abolição a ti se deve,

De ti, visconde emana o nobre impulso!

Em nome dos sensiveis assignantes,

Recebe o galardão que o Porto envia

Ao caro filho seu que a patria salva

Do typho mais cruel--

typho-borlista!

[3]É uma cegonha, cousa duvidosa entre a forôa, e a giboia, que canta entre as coristas.[4]Quem não conhece o sr. Bernardo, digno Achiles doBarriense?

[3]É uma cegonha, cousa duvidosa entre a forôa, e a giboia, que canta entre as coristas.

[4]Quem não conhece o sr. Bernardo, digno Achiles doBarriense?

Que delicias não encerra

Esta bem fadada terra

N'um domingo, em mez d'Abril!

Nem eu sei se a natureza

Deu mais pompas a Veneza,

Que no mar reina gentil.

Não na ha terra mais linda

Nem sonhal-a eu pude ainda

Nos meus sonhos da manhan.

Uma só os dons lhe abate,

És só tu, patria do vate,

Donairosa Campanhan!

Mas, aqui, terra das auras,

Espontaneas brotam Lauras

Por entre sacas d'arroz.

E, quaes ferteis cogomelos,

Nascem Dantes de chinelos,

E Petrarcas d'albornoz.

Tudo vai do ceo formoso,

Que derrama ondas de goso

Nestas almas d'alfinim.

Ouem não viu anjos de saia,

Serafins d'alva cambraia

No fantastico

jardim

?

Inda, ha pouco, eu vi delicias

Invejei doces caricias,

Que lá vi... oxalá não!

Entre tantas a mais bella,

A rainha... ai! era ella...

D. Eusebia d'Assumpção!

Ella sempre!.. espectro! larva

Por quem fiz esta alma parva,

Por quem dei cavaco até!

E tão linda!.. impia cegonha,

Tão folhuda!.. era uma fronha,

Um travesseiro de pé!

E, tão tolo, eu quiz fallar-lhe

Quiz mysterios revelar-lhe


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