Mal diria Christo outr'ora,
Que seria posto agora
No peito d'um vendilhão!
E mais elle, que os tocava
Com terrivel azorrague!..
Mas os Judas vendem Christo,
Ponto é haver quem pague.
E o barão dos Alcatruzes
Neste seculo das luzes
Tambem fez de farizeu:
E, tambem, se é necessario,
Representa de Calvario,
Onde a cruz se suspendeu.
N'um salão vasto, opulento,
Um banquete se vai dar;
Nos christaes reflecte o ouro,
A fulgir, a scintillar.
Os rubis, e a côr da opala
Transfiguram esta sala
Em olympicas mansoens.
Mas a alma cae por terra,
Quando vê que alli se encerra
Duzia e meia de baroens.
Da terrina a caudal sopa
Em silencio é devorada.
Só então fingiram d'homens,
Porque não disseram nada.
Mas venceu a natureza!
Um barão por sobre a mesa
Estendendo o prato, diz:
«Ó compadre! isto é qu'é bô!
Venha sopa, e acabô!
Cá de mim, torno á matriz!»
O barão de Cogumelos
Junto estando á baroneza,
Que se diz dos Sacatrapos,
Quiz fazer-lhe uma fineza.
Arrastou p'ra junto d'ella
Um pirum, e a cabidela
No prato lhe despejou.
E lhe diz: «cá isto é nosso;
Cousa que não tenha osso
É p'ró estamago, e arrimou!»
Outro diz á gorda esposa,
Que bem perto de si tem:
«Bai-lhe bebendo po'riba,
Ó mulher, come-lhe bem!»
Este pede ao seu visinho:
«Que lh'atice bem no binho
Qu'é da belha companhia.»
Diz aquelle ao seu fronteiro:
«Que lhe chegue um frango inteiro
E biba a sancta alegria!»
As saudes já começam.
É um gosto agora vêl-os.
Estas caras representam
Tomates de cotovêlos.
E, a travez do escarlate
Do legitimo tomate,
Transsuda um oleo que brilha,
Cada qual tem as orelhas
Encarniçadas, vermelhas
Como as azas d'uma bilha.
Pega no copo, e exclama
O barão das Pimpinelas:
«Vito serio! um home fala
Sem preamblos nem aquellas!
Á saude e alegria
Desta bella companhia
E com toda a estifação!
P'ra que todos cá binhamos
Estifeitos como bamos
De casa do sôr barão!»
E os hurras retumbaram
Pela sala do festim.
Balthazar nos seus banquetes
Não ouviu gritar assim!
Sobre a mesa deram murros,
Saudaram com grandes urros
O barão dos Alcatruzes;
Mas alguns com magua sua,
Já cuidavam ver a lua,
Não podendo vêr as luzes.
Mas, entre elles, um existe,
Litterato em seu conceito.
A palavra pede, e reina
Um silencio de respeito.
Elle diz: «Risonhas gallas
Que refrangem n'estas salas
Repercutem, symbolisam
Acrimónias insoluveis,
Nos acrósticos voluveis
D'epopeas que eternisam.
Pandemonios exhauriveis
D'indeleveis congruencias.
Requintados se escurecem
Nos imporios das sciencias
E liberrimos se escudam
Nas façanhas que transsudam
Em fantasiosas luzes.
E, por tanto, a mais alludo,
Quando, fervido, saudo
O barão dos Alcatruzes!»
Succedeu o grito ao pasmo!
Nunca se viu cousa assim!
O orador foi abraçado
Com furor, com frenezim!
«Isto é qu'é!» dizia um,
Convertido em rubro atum,
Betarraba até não mais.
«Viva Cissro!» outro dizia,
Despejando a malvazia,
Com grasnidos infernaes.
E a pandega findou. Mas alta noute,
Disseram-nos fieis informaçoens;
Que grande movimento ouve de tripas,
E grande salto deram as torneiras
Das pipas convertidas em baroens
Ou antes dos baroens tornados pipas.
A uma dama, prodigio de fecundidade, que dá á luz tres romances, por semana, nos jornaes do Porto.
Atafona de romances,
És um carril a vapor!
Romantisas quanto achas,
E nos folhetins encaixas
Com satanico furor.
Cornocopia da toleima!
Nós fizemos-te algum mal?
Tu não sabes, escriptora,
Como zombam lá por fóra
Das lettras de Portugal?
Não lucrara mais a patria,
E lucráras tu tambem,
Se fiasses n'uma roca.
Com primor, a massaroca,
Que desprezas, com desdem?
Não te fôra mais airoso
Bispontar bem uns fundilhos
Para em tempo competente
Um remendo pôr decente
Nas cuecas de teus filhos?
Mal tu sabes que sciencia
Tem da meia o calcanhar!
Talvez penses que o romance
É mister de mais alcance
Que nas meias pontos dar!..
Eu por mim antes quizera
Nunca ter lido Camoens,
Nem romances d'uma tola,
Que vestir rôta a ciroula,
Ou camisa sem botoens.
Accredito seja um dia
A mulher emancipada;
Ha-de então ser regedora,
Escrivan, e contadora,
Eleitora, e deputada.
Nesse tempo, se existisses,
Tendo em vista essa pericia
Com que ostentas teu saber,
Que logar podias ter?
Eras cabo de policia.
Tenho pena, quando penso
Que serás formosa e meiga,
E encontro os teus escriptos
Nos embrulhos dos palitos
Do toucinho, e da manteiga!
Faz-me dó, pois tu bem podes
Bordar lenços de cambraia
Com bonito
petit-point
;
E, não sendo aqui ninguem,
Podes, ser tudo na Maia.
Instrumento do ceo, desceste ao Porto,
Corajoso mancebo, que desandas
Nos borlistas fataes sopapo ingente!
Oppresso longo tempo, ahi gemera
Nas entalas crueis d'um camarote
O misero assignante! Amargo calix
Em silencio tragava, ouvindo os passos
Do acerbo massador, impio borlista!
As notas de Rossini eram-lhe espinhos,
As fusas de Bellini eram-lhe fusos
Que o intimo das visceras lhe espetam!
E os duetos em
fá
do Machbet
Eram-lhe cantos de raivosas górgonas!
O ferro fez-lhe vêr visoens do inferno!
A propria Jeny-Lind se cantasse,
Nesse palco, talvez, aos olhos d'elle
Não fosse mais gentil, que a
Cholera-morbus
[3]
É que a larva immortal do pesadello,
A sombra do borlista ergue-se impavida,
Synistra, nos umbraes do camarote!
Derreado e servil no corpo e alma,
Arrasta-se o borlista em cortesias,
Gagueja cumprimentos requentados,
Recebe em cada noute affrontas novas,
E, cynico, sorri, graceja sempre!
Mas cerram-se ao borlista os horisontes,
Apenas surges tu, Pedro-Eremita,
E aos povos um pregão de guerra envias!
De toda a parte bellicosa ferve
Raivosa indignação contra os
Bernardos
.
[4]
Aqui batata pôdre o povo ajunta,
Além prendem-se em páos bexigas tumidas,
E cebola grelada em grande escala
De Freixo de Numão o Porto importa.
Se no livro fatal d'altos destinos
Proscripta a extincção foi do borlista
Da borla a abolição a ti se deve,
De ti, visconde emana o nobre impulso!
Em nome dos sensiveis assignantes,
Recebe o galardão que o Porto envia
Ao caro filho seu que a patria salva
Do typho mais cruel--
typho-borlista!
[3]É uma cegonha, cousa duvidosa entre a forôa, e a giboia, que canta entre as coristas.[4]Quem não conhece o sr. Bernardo, digno Achiles doBarriense?
[3]É uma cegonha, cousa duvidosa entre a forôa, e a giboia, que canta entre as coristas.
[4]Quem não conhece o sr. Bernardo, digno Achiles doBarriense?
Que delicias não encerra
Esta bem fadada terra
N'um domingo, em mez d'Abril!
Nem eu sei se a natureza
Deu mais pompas a Veneza,
Que no mar reina gentil.
Não na ha terra mais linda
Nem sonhal-a eu pude ainda
Nos meus sonhos da manhan.
Uma só os dons lhe abate,
És só tu, patria do vate,
Donairosa Campanhan!
Mas, aqui, terra das auras,
Espontaneas brotam Lauras
Por entre sacas d'arroz.
E, quaes ferteis cogomelos,
Nascem Dantes de chinelos,
E Petrarcas d'albornoz.
Tudo vai do ceo formoso,
Que derrama ondas de goso
Nestas almas d'alfinim.
Ouem não viu anjos de saia,
Serafins d'alva cambraia
No fantastico
jardim
?
Inda, ha pouco, eu vi delicias
Invejei doces caricias,
Que lá vi... oxalá não!
Entre tantas a mais bella,
A rainha... ai! era ella...
D. Eusebia d'Assumpção!
Ella sempre!.. espectro! larva
Por quem fiz esta alma parva,
Por quem dei cavaco até!
E tão linda!.. impia cegonha,
Tão folhuda!.. era uma fronha,
Um travesseiro de pé!
E, tão tolo, eu quiz fallar-lhe
Quiz mysterios revelar-lhe