ACTO TERCEIRO

*Maria*. Venho logo, minha mãe, venho logo.—Olhae: e não tenhaescuidado commigo: vai meu pae, vai o tio Jorge,—levo a minha aia, aDorothea… E, é verdade, o meu fiel escudeiro hade ir tambem, o meuTelmo.

*Magdalena*. E tua mãe, filha, deixa-la aqui so, a morrer de tristeza? (áparte) e de medo!

*Manuel*. Tua mãe tem razão: não hade ser assim, hoje não póde ser. (Maria fica triste e desconsolada.)

*Jorge*.—Ora pois; eu ja disse que não queria ver hoje ninguem triste n'esta casa.—Venha ca a minha donzella dolorida, (pegando-lhe pela mão) e faça aqui muitas festas ao tio frade, que eu fico a fazer companhia a sua mãe. E vá, vá satisfazer essa louvavel curiosidade que tem de ir ver aquella sancta freirinha que tanto deixou para deixar o mundo e se ir interrar n'um claustro. Vá, e venha… melhor de coração, não póde ser—que tu es boa como as que são boas, minha Maria—Mas quero-te mais fria de cabeça: ouves?

*Maria*,áparte. Fria!… quando ella estiver ôca!—(Alto)Vou-me apromptar, minha mãe?

*Magdalena*,sem vontade. Se teu pae quer…

*Manuel*. Dou licença: vai. (Maria sái a correr.)

*Manuel*. É preciso deixá-la espairecer, mudar de logar, distrahir-se: aquelle sangue está em chammas, arde sôbre si e consomme-se, a não o deixarem correr á vontade.—Hade vir melhor: verás.

*Magdalena*. Deus o queira!—Telmo que vá com ella; não o quero ca.

*Manuel*. Porquê?

*Magdalena*. Porque… Maria… Maria não está bem sem elle—e elle tambem… em estando sem Maria—que é a sua segunda vida, diz o pobre do velho,—sabes? Ja treslê muito… já está muito… e entra-me com scismas que…

*Manuel*. Está, está muito velho, coitado! Pois que vá: melhor é.

MANUEL DE SOUSA, MAGDALENA, JORGE; MARIAentrando comTELMO e DOROTHEA

*Maria*. Então vamos, meu pae.

*Manuel*. Pois vamos.

*Jorge*. E são horas; vão. Á Ribeira é um pedaço de rio; e até ás sette, o mais, tu precisas de estar de volta á porta da Oira, que é onde irão ter os nossos padres á espera do arcebispo.—Eu ca me desculparei com o prior. Vão.

Maria. Minha mãe! (abraçando-a) Então, se choraes assim, não vou.

*Manuel*. Nem eu, Magdalena. Ora pois! Eu nunca te vi assim.

*Magdalena*. Porque nunca assim estive…—Vão, vão… adeus!—Adeus, espôso do meu coração!—Maria, minha filha, toma sentido no ar, não te resfries. E o sol… não sáias debaixo do tôldo no bergantim. Telmo, não te tires d'aopé d'ella.—Dá-me outro abraço, filha.—Dorothea, levaes tudo? (Examina uma bolsa grande de damasco que Dorothea leva no braço) Póde haver qualquer coisa, molhar-se, ter frio para a tarde… (tendo examinado a bolsa) Vai tudo: bem!—(Baixo a Dorothea) Não me apartes os olhos d'ella, Dorothea. Ouve. (Falla baixo a Dorothea, que lhe responde baixo tambem; depois diz alto) Está bom.

*Manuel*. Não tenhas cuidado; vamos todos com ella. (Abraçam-se outra vez; Maria sái appressadamente, e para a mãe não ver que vai suffocada com chôro.)

*Magdalena*,seguindo com os olhos a filha e respondendo a Manuel de Sousa. Cuidados!… eu não tenho ja cuidados. Tenho este medo, este horror de ficar so… de vir a achar-me so no mundo…

*Manuel*. Magdalena!

*Magdalena*. Que queres? não está na minha mão.—Mas tu tens razão de te infadar com as minhas impertinencias. Não fallêmos mais n'isso. Vai. Adeus!—Outro abraço. Adeus!

*Manuel*. Oh querida mulher minha, parece que vou eu agora imbarcar n'um galeão para a India… Ora vamos: ao anoitecer, antes da noite, aqui estou.—E Jesus!… Olha a condessa de Vimioso, ésta Joanna de Castro que a nossa Maria tanto deseja conhecer… olha se ella faria esses prantos quando disse o último adeus ao marido…

*Magdalena*. Bemditta ella seja! Deu-lhe Deus muita fôrça, muita virtude. Mas não lh'a invejo, não sou capaz de chegar a essas perfeições.

*Jorge*. É perfeição verdadeira; é a do Evangelho: Deixa tudo e segue-me.

*Magdalena*. Vivos ambos… sem offensa um do outro, querendo-se, estimando-se… e separar-se cada um para sua cova! Verem-se com a mortalha ja vestida—e… vivos, sãos… depois de tantos annos de amor… e convivencia… condemnarem-se a morrer longe um do outro—sos, sos!—E quem sabe se n'essa tremenda hora… arrependidos!

*Jorge*. Não o permittirá Deus assim… oh, não. Que horrivel coisa seria!

*Manuel*. Não permitte, não.—Mas não pensêmos mais n'elles: estão intregues a Deus… (pausa) E que temos nós com isso? A nossa situação é tam differente… (pausa) Em todas nos póde Elle abençoar.—Adeus, Magdalena, adeus! até logo. Maria ja lá vai no caes a ésta hora… adeus! Jorge, não a deixes. (Abraçam-se; Magdalena vai até fóra da porta com elle.)

JORGEso

Eu faço por estar alegre, e queria vê-los contentes a elles… mas não sei ja que diga do estado em que vejo minha cunhada, a filha… até meu irmão o desconheço! A todos parece que o coração lhes adivinha desgraça… E eu quasi que tambem ja se me péga o mal. Deus seja comnosco!

*Magdalena*,fallando ao bastidor. Vai, ouves, Miranda? Vai e deixa-te lá estar até veres chegar o bergantim; e quando desimbarcarem, vem-me dizer para eu ficar descançada. (Vem para a scena) Não ha vento, e o dia está lindo. Ao menos não tenho sustos com a viagem. Mas a volta… quem sabe? o tempo muda tam depressa…

*Jorge*. Não, hoje não tem perigo.

*Magdalena*. Hoje… hoje! Pois hoje é o dia da minha vida que mais tenho receado… que ainda temo que não acabe sem muito grande desgraça… É um dia fatal para mim: faz hoje annos que… que casei a primeira vez—faz annos que se perdeu elrei D. Sebastião—e faz annos tambem que… vi pela primeira vez a Manuel de Sousa.

*Jorge*. Pois contaes essa entre as infelicidades da vossa vida?

*Magdalena*. Conto. Este amor—que hoje está sanctificado e bemditto no ceu, porque Manuel de Sousa é meu marido—começou com um crime, porque eu amei-o assim que o vi… e quando o vi—hoje, hoje… foi em tal dia como hoje!—D. João de Portugal ainda era vivo. O peccado estava-me no coração; a bôcca não o disse… os olhos não sei o que fizeram: mas dentro d'alma eu ja não tinha outra imagem senão a do amante… ja não guardava a meu marido, a meu bom… a meu generoso marido… senão a grosseira fidelidade que uma mulher bem nascida quasi que mais deve a si do que ao espôso. Permittiu Deus… quem sabe se para me tentar?… que n'aquella funesta batalha de Alcacer, entre tantos, ficásse tambem D. João…

*Miranda*,appressado. Senhora… minha senhora!

*Magdalena*,sobresaltada. Quem vos chamou, que quereis?—Ah! es tu,Miranda. Como assim! ja chegaram?… Não póde ser.

*Miranda*. Não, minha senhora: ainda agora irão passando o pontal. Mas não é isso…

*Magdalena*. Então que é? Não vos disse eu que não viesseis d'alli antes de os ver chegar?

*Miranda*. Para lá torno já, minha senhora: ha tempo de sobejo.—Mas venho trazer-vos recado… um estranho recado, por minha fe.

*Magdalena*. Dizei ja, que me estaes a assustar.

*Miranda*. Para tanto não é; nem coisa séria, antes quasi para rir. É um pobre velho peregrino, um d'estes romeiros que aqui estão sempre a passar, que veem das bandas d'Hespanha…

*Magdalena*. Um captivo… um remido?

*Miranda*. Não, senhora, não trás a cruz, nem é: é um romeiro—algum d'estes que vão a Sant'Iago: mas diz elle que vem de Roma e dos Sanctos-Logares.

*Magdalena*. Pois, coitado! virá. Agasalhae-o; e deem-lhe o que precisar.

*Miranda*. É que elle diz que vem da Terra-Sancta, e…

*Magdalena*. E porque não virá?—Ide, ide, e fazei-o accommodar ja.—É velho?

*Miranda*. Muito velho e com umas barbas!… Nunca vi tam formosas barbas de velho, e tam alvas.—Mas, senhora, diz elle que vem da Palestina e que vos trás recado…

*Magdalena*. A mim!

*Miranda*. A vós; e que por fôrça vos hade ver e fallar.

*Magdalena*. Ide vê-lo, Frei Jorge. Ingano hade ser: mas ide ver o pobre do velho.

*Miranda*. É escusado, minha senhora: o recado que trás, diz que a outrem o não dará senão a vós, e que muito vos importa sabê-lo.

*Jorge*. Eu sei o que é: alguma reliquia dos Sanctos-Logares—se elle comeffeito de lá vem!—que o bom do velho vos quer dar… como taes coisas se dão a pessoas da vossa qualidade… a trôco de uma esmolla avultada. É o que elle hade querer; é o costume.

*Magdalena*. Pois venha embora o romeiro! E trazei-m'o aqui, trazei.

*Jorge*. Que é precisa muita cautella com estes peregrinos! A vieira no chapeu e o bordão na mão, ás vezes não são mais que negaças para armar á charidade dos fieis. E n'estes tempos revoltos…

MAGDALENA, JORGE e MIRANDAque volta com oROMEIRO

*Miranda*,da porta. Aqui está o romeiro.

*Magdalena*. Que entre. E vós, Miranda, tornae para onde vos mandei; ide ja, e fazei como vos disse.

*Jorge*,chegando á porta da direita. Entrae, irmão, entrae. (O romeiro entra de vagar.) Ésta é a senhora D. Magdalena de Vilhena.—E' ésta a fidalga a quem desejaes fallar?

*Romeiro*. A mesma.

(A um signal de Frei Jorge, Miranda retíra-se.)

*Jorge*. Sois portuguez?

*Romeiro*. Como os melhores, espero em Deus.

*Jorge*. E vindes?…

*Romeiro*. Do Sancto-Sepulchro de Jesus Christo.

*Jorge*. E visitastes todos os Sanctos-Logares?

*Romeiro*. Não os visitei; morei lá vinte annos cumpridos.

*Magdalena*. Sancta vida levastes, bom romeiro.

*Romeiro*. Oxalá!—Padeci muita fome, e não soffri com paciencia: deram-me muitos trattos, e nem sempre os levei com os olhos n'Aquelle que alli tinha padecido tanto por mim… Queria rezar, e meditar os mysterios da Sagrada Paixão que alli se obrou… e as paixões mundanas, e as lembranças dos que se chamavam meus segundo a carne, travavam-me do coração e do espirito, que os não deixava estar com Deus, nem n'aquella terra que é toda sua.—Oh! eu não merecia estar onde estive: bem vêdes que não soube morrer lá.

*Jorge*. Pois bem: Deus quiz trazer-vos á terra de vossos paes; e quando for sua vontade, ireis morrer socegado nos braços de vossos filhos.

*Romeiro*. Eu não tenho filhos, padre.

*Jorge*. No seio da vossa familia…

*Romeiro*. A minha familia… Já não tenho familia.

*Magdalena*. Sempre ha parentes, amigos…

*Romeiro*. Parentes!… Os mais chegados, os que eu me importava achar… contaram com a minha morte, fizeram a sua felicidade com ella; hão de jurar que me não conhecem.

*Magdalena*. Haverá tam má gente… e tam vil que tal faça?

*Romeiro*. Necessidade póde muito.—Deus lh'o perdoará se podér!

*Magdalena*. Não façaes juizos temerarios, bom romeiro.

*Romeiro*. Não faço.—De parentes, ja sei mais do que queria: amigos, tenho um; com esse, conto.

*Jorge*. Ja não sois tam infeliz.

*Magdalena*. E o que eu podér fazer-vos, todo o amparo e gasalhado que podér dar-vos, contae commigo, bom velho, e com meu marido, que hade folgar de vos proteger…

*Romeiro*. Eu ja vos pedi alguma coisa, senhora?

*Magdalena*. Pois perdoae, se vos offendi, amigo.

*Romeiro*. Não ha offensa verdadeira senão as que se fazem aDeus.—Pedi-lhe vós perdão a Elle, que vos não faltará de quê.

*Magdalena*. Não, irmão, não decerto. E Elle terá compaixão de mim.

*Romeiro*. Terá…

*Jorge*,cortando a conversação. Bom velho, dissestes trazer um recado a ésta dama: dae-lh'o ja, que havereis mister de ir descançar…

*Romeiro*,surrindo amargamente. Quereis lembrar-me que estou abusando da paciencia com que me teem ouvido? Fizestes bem, padre: eu ia-me esquecendo… talvez me esquecesse de todo da mensagem a que vim… estou tam velho e mudado do que fui!

*Magdalena*. Deixae, deixae, não importa; eu folgo de vos ouvir: dir-me-heis vosso recado quando quizerdes… logo, ámanhan…

*Romeiro*. Hoje hade ser. Ha tres dias que não durmo nem descanço, nem pousei ésta cabeça, nem pararam estes pés dia nem noite, para chegar aqui hoje, para vos dar meu recado… e morrer depois… ainda que morrêsse depois; porque jurei… faz hoje um anno… quando me libertaram, dei juramento sôbre a pedra sancta do Sepulchro de Christo…

*Magdalena*. Pois ereis captivo em Jerusalem?

*Romeiro*. Era: não vos disse que vivi lá vinte annos?

*Magdalena*. Sim, mas…

*Romeiro*. Mas o juramento que dei foi que, antes de um anno cumprido, estaria deante de vós e vos diria da parte de quem me mandou…

*Magdalena*,aterrada. E quem vos mandou, homem?

*Romeiro*. Um homem foi,—e um honrado homem… a quem unicamente devi a liberdade… aninguemmais. Jurei fazer-lhe a vontade, e vim.

*Magdalena*. Como se chama?

*Romeiro*. O seu nome nem o da sua gente nunca o disse a ninguem no captiveiro.

*Magdalena*. Mas emfim, dizei vós…

*Romeiro*. As suas palavras, trago-as escriptas no coração com as lagrymas de sangue que lhe vi chorar, que muitas vezes me cahiram n'estas mãos, que me correram por éstas faces. Ninguem o consolava senão eu… e Deus! Vêde se me esqueceriam as suas palavras.

*Jorge*. Homem, acabae.

*Romeiro*. Agora acabo; soffrei, que elle tambem soffreu muito.—Aqui estão as suas palavras: «Ide a D. Magdalena de Vilhena, e dizei-lhe que um homem que muito bem lhe quiz… aqui está vivo… por seu mal… e d'aqui não pôde sahir nem mandar-lhe novas suas de ha vinte annos que o trouxeram captivo.»

*Magdalena*,na maior anciedade. Deus tenha misericordia de mim!—E esse homem, esse homem… Jesus! esse homem era… esse homem tinha sido… levaram-n'o ahi de donde!… de Africa?

*Romeiro*. Levaram.

*Magdalena*. Captivo?…

*Romeiro*. Sim.

*Magdalena*. Portuguez?… captivo da batalha de?…

*Romeiro*. De Alcacer-Kebir.

*Magdalena*,espavorida. Meu Deus, meu Deus! Que se não abre a terra debaixo dos meus pés?… que não cahem éstas paredes, que me não sepultam ja aqui?…

*Jorge*. Callae-vos, D. Magdalena: a misericordia de Deus é infinita; esperae. Eu duvido, eu não creio… éstas não são coisas para se crerem de leve. (Reflecte, e logo como por uma idea que lhe acccudiu derepente) Oh! inspiração divina… (Chegando ao romeiro) Conheceis bem esse homem, romeiro: não é assim?

*Romeiro*. Como a mim mesmo.

*Jorge*. Se o vireis… ainda que fôra n'outros trajes… com menos annos—pintado, digamos—conhece-lo-heis?

*Romeiro*. Como se me visse a mim mesmo n'um espelho.

*Jorge*. Procurae n'estes retrattos, e dizei-me se algum d'elles póde ser.

*Romeiro*,sem procurar, e apontando logo para o retratto de D. João.É aquelle.

*Magdalena*,com um grito espantoso. Minha filha, minha filha, minha filha!… (em tom cavo e profundo) Estou… estás… perdidas, deshonradas… infames! (Com outro grito do coração) Oh minha filha, minha filha!… (Foge espavorida e n'este gritar.)

JORGE e o ROMEIRO, que seguiu Magdalena com os olhos, e está alçado no meio da casa com aspecto severo e tremendo.

*Jorge*. Romeiro, romeiro! quem es tu?

*Romeiro*,apontando com o bordão para o retratto de D. João dePortugal. Ninguem.

(Frei Jorge cái prostrado no chão, com os braços estendidos, deante da tribuna. O panno desce lentamente.)

Parte baixa ao palacio de D. João de Portugal, communicando, pela porta á esquerda do espectador, com a capella da Senhora-da-Piedade na egreja de San'Paulo dos Dominicos d'Almada: é um casarão vasto sem ornato algum. Arrumadas ás paredes, em diversos pontos, escadas, tocheiras, cruzes, ciriaes e outras alfaias e guizamentos d'egreja de uso conhecido. A um lado um esquife dos que usam as confrarias; do outro uma grande cruz negra de tábua com o letreiro J. N. R. J., e toalha pendente, como se usa nas cerimonias da semana-sancta. Mais para a scena uma banca velha com dois ou tres tamboretes; a um lado uma tocheira baixa com tocha accesa e ja bastante gasta; sôbre a mesa um castiçal de chumbo, de credencia, baixo e com vela accesa tambem,—e um hábito completo de religioso dominico, tunica, escapulario, rosario, cinto, etc. No fundo, porta que dá para as officinas e aposentos que occupam o resto dos baixos do palacio.—É alta noite.

MANUEL DE SOUSA,sentado n'um tamborete, aopé da mesa, o rosto inclinado sôbre o peito, os braços cahidos e em completa prostração d'espirito e de corpo; n'um tamborete do outro ladoJORGE,meio incostado para a mesa, com as mãos postas, e os olhos pregados no irmão.

*Manuel*. Oh minha filha, minha filha! (Silencio longo) Desgraçada filha, que ficas orphan!… orphan de pae e mãe… (pausa)… e de familia e de nome, que tudo perdêste hoje… (Levânta-se com violenta afflição) A desgraçada nunca os teve!—Oh Jorge, que ésta lembrança é que me matta, que me desespera! (Appertando a mão do irmão, que se levantou após d'elle e o está consolando do gesto.) É o castigo terrivel do meu êrro… se foi êrro… crime sei que não foi. E sabe-o Deus, Jorge, e castigou-me assim, meu irmão!

*Jorge*. Paciencia, paciencia: os seus juizos são imperscrutaveis. (Acalma e faz sentar o irmão: tornam a ficar ambos como estavam.)

*Manuel*. Mas eu em que mereci ser feito o homem mais infeliz da terra,pôsto de alvo á irrisão e ao discursar do vulgo?… Manuel deSousa-Coutinho, o filho de Lopo de Sousa-Coutinho, o filho do nosso pae,Jorge!

*Jorge*. Tu chámas-te o homem mais infeliz da terra… Ja te esquecêste que ainda está vivo aquelle…

*Manuel*,cahindo em si. É verdade. (Pausa; e depois como quem se desdiz) Mas não é, nem tanto: padeceu mais, padeceu mais longamente, e bebeu até ás fezes o calix das amarguras humanas… (Levantando a voz) Mas fui eu, eu que lh'o preparei, eu que lh'o dei a beber, pelas mãos… innocentes mãos!… d'essa infeliz que arrastei na minha quéda, que lancei n'esse abysmo de vergonha, a quem cobri as faces—as faces puras, e que não tinham córado d'outro pejo senão do da virtude e do recato… cobri-lh'as de um veo d'infamia que nem a morte hade levantar, porque lhe fica, perpétuo e para sempre, lançado sôbre o tumulo a cobrir-lhe a memória de sombras… de manchas que se não lavam!—Fui eu o auctor de tudo isto, o auctor da minha desgraça e da sua deshonra d'elles… Sei-o, conheço-o; e não sou mais infeliz que nenhum?

*Jorge*. Ve a palavra que disseste: «deshonra»: lembra-te d'ella e de ti, e considera, se podes pleitear miserias com esse homem a quem Deus não quiz accudir com a morte antes de conhecer ess'outra agonia maior.—Elle não tem…

*Manuel*. Elle não tem uma filha como eu, desgraçado… (pausa)—uma filha bella, pura, adorada, sôbre cuja cabeça—oh! porque não é na minha!—vai cahir toda essa deshonra, toda a ignominia, todo o opprobrio que a injustiça do mundo, não sei porquê, me não quer lançar no rosto a mim, para pôr tudo na testa branca e pura de um anjo que não tem outra culpa senão a da origem que eu lhe dei.

*Jorge*. Não é assim, meu irmão; não te cegues com a dor, não te faças mais infeliz do que es. Ja não es pouco, meu pobre Manuel, meu querido irmão! e Deus hade levar em conta essas amarguras. Ja que te não póde apartar o calix dos beiços, o que tu padeces, hade ser descontado n'ella, hade resgatar a culpa…

*Manuel*. Resgate! sim, para o ceu: n'esse confio eu… mas o mundo?…

*Jorge*. Deixa o mundo e as suas vaidades.

*Manuel*. Estão deixadas todas. Mas este coração é de carne.

*Jorge*. Deus, Deus será o pae de tua filha.

*Manuel*. Olha, Jorge: queres que te diga o que sei decerto, e que devia ser consolação… mas não é, que eu sou homem, não sou anjo, meu irmão—devia ser consolação, e é desespêro, é a coroa d'espinhos de toda ésta paixão que estou passando… é que a minha filha… Maria… a filha do meu amor—a filha do meu peccado, se Deus quer que seja peccado—não vive, não resiste, não sobrevive a ésta affronta.

(Desata a soluçar, cái com os cotovelos fixos na mesa e as mãos appertadas no rosto: fica n'esta posição por longo tempo. Ouve-se de quando em quando um soluço comprimido. Frei Jorge está em pé, detrás d'elle, amparando-o com seu corpo, e os olhos postos no ceu.)

*Jorge*,chamando timidamente. Manuel!

*Manuel*. Que me queres, irmão?

*Jorge*,animando-o. Ella não está tam mal; já lá estive hoje…

*Manuel*. Estiveste?… oh! conta-me, conta-me; eu não tenho… não tive ainda ânimo de a ir ver.

*Jorge*. Haverá duas horas que entrei na sua camera, e estive aopé do leito. Dormia, e mais socegada da respiração. O accesso de febre, que a tomou quando chegámos de Lisboa e que viu a mãe n'aquelle estado,—parecia declinar… quebrar-se mais alguma coisa. Dorothea, e Telmo… pobre velho coitado!… estavam aopé d'ella, cada um de seu lado… disseram-me que não tinha tornado a… a…

*Manuel*. A lançar sangue?… Se ella deitou o do coração!… não tem mais. N'aquelle corpo tam franzino, tam delgado, que mais sangue hade haver?—Quando hontem a arranquei d'aopé da mãe e a levava nos braços, não m'o lançou todo ás golfadas aqui no peito? (Mostra um lenço branco todo manchado de sangue) Não o tenho aqui… o sangue… o sangue da minha víctima?… que é o sangue das minhas veias… que é o sangue da minha alma—é o sangue da minha querida filha! (Beija o lenço muitas vezes) Oh meu Deus, meu Deus! eu queria pedir-te que a levasses ja… e não tenho ânimo. Eu devia acceitar por mercê de tuas misericordias que chamasses aquelle anjo para junto dos teus, antes que o mundo, este mundo infame e sem commiseração, lhe cuspisse na cara com a desgraça do seu nascimento.—Devia, devia… e não posso, não quero, não sei, não tenho ânimo, não tenho coração. Peço-te vida, meu Deus (ajoelha e põe as mãos) peço-te vida, vida, vida… para ella, vida para a minha filha!… saude, vida para a minha querida filha!… e morra eu de vergonha, se é preciso; cubra-me o escarneo do mundo, deshonre-me o opprobrio dos homens, tape-me a sepultura uma loisa de ignominia, um epitaphio que fique a bradar por essas eras deshonra e infamia sôbre mim!… Oh meu Deus, meu Deus! (Cái de bruços no chão… Passado algum tempo, Frei Jorge se chega para elle, levanta-o quasi a pêso, e o torna a assentar.)

*Jorge*. Manuel, meu bom Manuel, Deus sabe melhor o que nos convem a todos: põe nas suas mãos esse pobre coração, põe-n'o resignado e contricto, meu irmão, e Elle fará o que em sua misericordia sabe que é melhor.

*Manuel*,com vehemencia e medo. Então desinganas-me… desinganas-me ja?… é isso que queres dizer? Falla, homem: não ha que esperar?… não ha que esperar d'alli, não é assim? dize: morre, morre?… (desanimado) Tambem fico sem filha!

*Jorge*. Não disse tal. Por charidade comtigo, meu irmão, não imagines tal. Eu disse-te a verdade: Maria pareceu-me menos opprimida; dormia…

*Manuel*,variando. Se Deus quizera que não acordásse!

*Jorge*. Valha-me Deus!

*Manuel*. Para mim aqui está ésta mortalha: (tocando no hábito) morri hoje… vou amortalhar-me logo; e adeus tudo o que era mundo para mim! Mas minha filha não era do mundo… não era, Jorge; tu bem sabes que não era: foi um anjo que veiu do ceu para me acompanhar na peregrinação da terra, e que me apontava sempre, a cada passo da vida, para a eterna pousada d'onde viera e onde me conduzia… Separou-nos o archanjo das desgraças, o ministro das iras do Senhor que derramou sôbre mim o vaso cheio das lagrymas, e a taça rasa das amarguras ardentes de sua cholera… (Cahindo de tom) Vou com ésta mortalha para a sepultura… e, viva ou morta, ca deixo a minha filha no meio dos homens que a não conheceram, que a não hãode conhecer nunca, porque ella não era d'este mundo nem para elle… (Pausa)—Torna lá, Jorge, vai vê-la outra vez, vai e vem-me dizer; que eu ainda não posso… mas heide ir, oh! heide ir vê-la e beijá-la antes de descer á cova… Tu não queres, não podes querer…

*Jorge*. Havemos de ir… quando estiveres mais socegado… havemos de ir ambos: descança, hasde vê-la.—Mas isto inda é cedo.

*Manuel*. Que horas serão?

*Jorge*. Quatro, quatro e meia. (Vai á porta da esquerda e volta) São cinco horas, pelo alvor da manhan que ja dá nos vidros da egreja. D'aqui a pouco iremos; mas socega.

*Manuel*. E a outra… a outra desgraçada, meu irmão?

*Jorge*. Está—imagina por ti—está como não podia deixar de estar: mas a confiança em Deus póde muito: vai-se conformando. O Senhor fará o resto.—Eu tenho fe n'este escapulario (tocando no hábito em cima da mesa) para ti e para ella. Foi uma resolução digna de vós, foi uma inspiração divina que os allumiou a ambos. Deixa estar; ainda póde haver dias felizes para quem soube consagrar a Deus as suas desgraças.

*Manuel*. E isso está tudo prompto? Eu não soffro n'estes hábitos, eu não aturo, com estes vestidos de vivo, a luz d'esse dia que vem a nascer.

*Jorge*. Está tudo concluido. O arcebispo mostrou-se bom e piedoso prelado n'esta occasião: e é um sancto homem, é. O arcebispo ja expediu todas as licenças e mais papeis necessarios. Coitado! o pobre do velho velou quasi toda a noite com o seu vigario para que não faltásse nada desde o romper do dia. Mandou-se ao provincial, e pela sua parte e pela nossa tudo está corrente. Frei João de Portugal, que é o prior de Bemfica, e tambem vigario do Sacramento, sabes, chegou haverá duas horas, noite fechada ainda, e ca está: é quem te hade lançar o hábito, a ti e a Dona… a minha irman.—Depois ireis, segundo o vosso desejo, um para Bemfica, outro para o Sacramento.

*Manuel*. Tu es um bom irmão, Jorge: (apperta-lhe a mão) Deus t'o hade pagar. (Pausa) Eu não me atrevo… tenho repugnancia… mas é forçoso perguntar-te por alguem mais. Onde estáelle… e o que fará!…

*Jorge*. Bem sei, não digas mais: o romeiro. Está na minha cella, e de lá não hade sahir—que foi ajustado entre nós—senão quando… quando eu lh'o disser. Descança: não verá ninguem, nem será visto de nenhum d'aquelles que o não devem ver. Demais, o segrêdo de seu nome verdadeiro está entre mim e ti—além do arcebispo, a quem foi indispensavel communicá-lo para evitar todas as formalidades e delongas que aliás havia de haver n'uma separação d'esta ordem.—Ainda ha outra pessoa com quem lhe prometti—não pude deixar de prometter, porque sem isso não queria elle entrar em accôrdo algum—com quem lhe prometti que havia de fallar hoje e antes de mais nada.

*Manuel*. Quem? será possivel?… Pois esse homem quer ter a crueldade de rasgar, fevra a fevra, os pedaços d'aquelle coração ja partido?—Não tem intranhas esse homem: sempre assim foi, duro, desapiedado como a sua espada.—É D. Magdalena que elle quer ver?…

*Jorge*. Não, homem; é o seu aio velho, é Telmo-Paes. Como lh'o havia de eu recusar?

*Manuel*. De nenhum modo: fizeste bem; eu é que sou injusto. Mas o que eu padeço é tanto e tal!…—Vamos; eu ainda me não intendo bem claro com ésta desgraça: dize-me, falla-me a verdade: minha mulher…—minha mulher! com que bôcca pronuncio eu ainda éstas palavras!—D. Magdalena o que sabe?

*Jorge*. O que lhe disse o romeiro n'aquella fatal sala dos retrattos… o que ja te contei. Sabe que D. João está vivo, mas não sabe aonde; suppõe-no na Palestina talvez; é onde o deve suppor pelas palavras que ouviu.

*Manuel*. Então não conhece, como eu, toda a extensão, toda a indubitavel verdade da nossa desgraça. Ainda bem! talvez possa duvidar, consolar-se com alguma esperança de incerteza.

*Jorge*. Hontem de tarde não; mas ésta noite começava a raiar-lhe no espirito alguma falsa luz d'essa van esperança. Deus lh'a deixe, se é para bem seu.

*Manuel*. Porque não hade deixar? Não é ja desgraçada bastante?—E Maria, a pobre Maria!… Essa confio no Senhor que não saiba, ao menos por ora…

*Jorge*. Não sabe. E ninguem lh'o disse, nem dirá. Não sabe senão o que viu: a mãe quasi nas agonias da morte. Mas o motivo, so se ella o adivinhar.—Tenho medo que o faça…

*Manuel*. Tambem eu.

*Jorge*. Deus será comnosco e com ella!—Mas não: Telmo não lhe diz nada por certo; eu já lhe asseverei—e accreditou-me—que a mãe estava melhor, que tu ias logo vê-la… E assim espero que, até lá por meio dia, a possamos conservar em completa ignorancia de tudo. Depois ir-se-lhe-ha dizendo, pouco a pouco, até onde for inevitavel. E Deus… Deus accudirá.

*Manuel*. Minha pobre filha, minha querida filha!

*Telmo*,batendo de fóra á porta do fundo. Acordou.

*Manuel*,sobresaltado. É a voz de Telmo?

*Jorge*. É. (Indo abrir a porta) Entrae, Telmo.

*Telmo*. Acordou.

*Jorge*. E como está?

*Telmo*. Melhor, muito melhor, parece outra. Está muito abatida, isso sim; muito fraca, a voz lenta, mas os olhos serenos, animados como d'antes e sem aquelle fusilar de hontem. Perguntou por vós… ambos.

*Manuel*. E pela mãe?

*Telmo*. Não: nunca mais fallou n'ella.

*Manuel*. Oh filha, filha!…

*Jorge*. Iremos vê-la. (péga na mão do irmão) Tu promettes-me?…

*Manuel*. Prometto.

*Jorge*. Vamos.—(Chamando a Telmo para a bôcca da scena) Ouvi, Telmo: lembraes-vos do que vos disse ésta manhan?

*Telmo*. Não me heide lembrar?

*Jorge*. Ficae aqui. Em nós sahindo, puchae aquella corda que vai dar á sineta da sachristia: virá um irmão converso; dizei-lhe o vosso nome, elle ir-se-ha sem mais palavra, e vós esperae. Fechae logo ésta porta por dentro, e não abraes senão á minha voz. Intendestes?

*Telmo*. Ide descançado.

TELMO,depois oIRMÃO CONVERSO

*Telmo*vai para deitar a mão á corda, pára suspenso algum tempo, e depois: Vamos: isto hade ser. (Ouve-se tocar longe uma sineta: Telmo fica pensativo, e com o braço alevantado e immovel.)

*Converso*. Quem sois?

*Telmo*,estremecendo. Telmo-Paes.

(O converso faz venia e vai-se.)

*Telmo*so. Virou-se-me a alma toda com isto: não sou ja o mesmo homem. Tinha um presentimento do que havia de acontecer… parecia-me que não podia deixar de succeder… e cuidei que o desejava em quanto não veiu.—Veiu, e fiquei mais aterrado, mais confuso que ninguem!—Meu honrado amo, o filho do meu nobre senhor está vivo… o filho que eu criei n'estes braços… vou saber novas certas d'elle—no fim de vinte annos de o julgarem todos perdido—e eu, eu que sempre esperei, que sempre suspirei pela sua vinda…—era um milagre que eu esperava sem o crer! Eu agora tremo… É que o amor d'est'outra filha, d'esta última filha, é maior, e venceu… venceu, apagou o outro. Perdoe-me Deus, se é peccado. Mas que peccado hade haver com aquelle anjo?—Se me ella viverá, se escapará d'esta crise terrivel!—Meu Deus, meu Deus! (ajoelha) levae o velho que já não presta para nada, levae-o por quem sois! (Apparece o romeiro á porta da esquerda, e vem lentamente approximando-se de Telmo que não dá por elle.) Contentae-vos com este pobre sacrificio da minha vida, Senhor, e não me tomeis dos braços o innocentinho que eu criei para vós, Senhor, para vós… mas ainda não, não m'o leveis ainda. Já padeceu muito, já traspassaram bastantes dores aquella alma: esperae-lhe com a da morte algum tempo!

TELMOe oROMEIRO

*Romeiro*. Que não oiça Deus o teu rôgo!

*Telmo*,sobresaltado. Que voz!—Ah! é o romeiro.—Que me não oiçaDeus! porquê?

*Romeiro*. Não pedias tu por teu desgraçado amo, pelo Filho que criáste?

*Telmo*,áparte. Já não sei pedir senão pela outra. (Alto) E que pedisse por elle, ou por outrem, porque me não hade ouvir Deus, se lhe peço a vida de um innocente?

*Romeiro*. E quem te disse que elle o era?

*Telmo*. Ésta voz… ésta voz!—Romeiro, quem es tu?

*Romeiro*,tirando o chapéu e alevantando o cabello dos olhos.Ninguem, Telmo, ninguem, se nem ja tu me conheces.

*Telmo*,deitando-se-lhe ás mãos para lh'as beijar. Meu amo, meu senhor… sois vós?—sois, sois.—D. João de Portugal, oh, sois vós, senhor?

*Romeiro*. Teu filho ja não?

*Telmo*. Meu filho!… Oh! é o meu filho todo; a voz, o rosto… Só estas barbas, este cabello não… Mais branco ja que o meu, senhor!

*Romeiro*. São vinte annos de captiveiro e miseria, de saudades, de âncias que por aqui passaram. Para a cabeça bastou uma noite como a que veiu depois da batalha d'Alcacer; a barba, acabaram de a curar o sol da Palestina e as aguas do Jordão.

*Telmo*. Por tam longe andastes?

*Romeiro*. E por tam longe eu morrêra!—Mas não quiz Deus assim.

*Telmo*. Seja feita a sua vontade.

*Romeiro*. Pêza-te?

*Telmo*. Oh, senhor!

*Romeiro*. Pêza-te?

*Telmo*. Hade-me pezar da vossa vida? (Á parte) Meu Deus! Parece-me que menti…

*Romeiro*. E porque não, se ja me pêza a mim d'ella, se tanto me pêza ella a mim?—Amigo, ouve… Tu es meu amigo?

*Telmo*. Não sou?

*Romeiro*. Es: bem sei. E comtudo, vinte annos d'ausencia, e de conversação de novos amigos, fazem esquecer tanto os velhos!…—Mas tu es meu amigo. E se tu o não fôras, quem o sería?

*Telmo*. Senhor!

*Romeiro*. Eu não quiz acabar com isto, não quiz pôr em effeito a minha última resolução sem fallar comtigo, sem ouvir da tua bôcca…

*Telmo*. O que quereis que vos diga, senhor?—Eu…

*Romeiro*. Tu, bem sei que duvidaste sempre da minha morte, que não quizeste ceder a nenhuma evidência; não me admirou de ti, meu Telmo. Mas tambem não posso—Deus me ouve—não posso criminar ninguem porque o accreditásse: as provas eram de convencer todo o ânimo; so lhe podia resistir o coração. E aqui… coração que fosse meu… não havia outro.

*Telmo*. Sois injusto.

*Romeiro*. Bem sei o que queres dizer.—E é verdade isso? é verdade que por toda a parte me procuraram, que por toda a parte… ella mandou mensageiros, dinheiro?

*Telmo*. Como é certo estar Deus no ceu, como é verdade ser aquella a mais honrada e virtuosa dama que tem Portugal.

*Romeiro*. Basta: vai dizer-lhe que o peregrino era um impostor, que desappareceu, que ninguem mais houve novas d'elle; que tudo isto foi vil e grosseiro imbuste dos inimigos de… dos inimigos d'esse homem-que ella ama… E que socegue, que seja feliz.—Telmo, adeus!

*Telmo*. E eu heide mentir, senhor, eu heide renegar de vós, como ruim villão que não sou?

*Romeiro*. Hasde, porque eu te mando.

*Telmo*,em grande anciedade. Senhor, senhor, não tenteis a fidelidade do vosso servo. É que vós não sabeis… D. João, meu senhor, meu amo, meu filho, vós não sabeis…

*Romeiro*. O quê?

*Telmo*. Que ha aqui um anjo… uma outra filha minha, senhor, que eu também criei…

*Romeiro*. E a quem já queres mais que a mim: dize a verdade.

*Telmo*. Não m'o pergunteis.

*Romeiro*. Nem é preciso. Assim devia de ser. Tambem tu!—Tiraram-me tudo. (Pausa)—E teem um filho elles?…—Eu não…—E mais, imagino… Oh passaram hoje peior noite do que eu. Que lh'o leve Deus em conta e lhes perdoe como eu perdoei ja.—Telmo, vai fazer o que te mandei.

*Telmo*. Meu Deus, meu Deus! que heide eu fazer?

*Romeiro*. O que te ordena teu amo.—Telmo, dá-me um abraço. (Abraçam-se) Adeus, adeus até…

*Telmo*. Até quando, senhor?

*Romeiro*. Até ao dia de juizo…

*Teimo*. Pois vós?…

*Romeiro*. Eu…—Vai, saberás de mim quando for tempo. Agora é preciso remediar o mal feito. Fui imprudente, fui injusto, fui duro e cruel. E para quê?—D. João de Portugal morreu no dia em que sua mulher disse que elle morrêra. Sua mulher honrada e virtuosa, sua mulher que elle amava… oh Telmo, Telmo, com que amor a amava eu! Sua mulher que elle ja não póde amar sem deshonra e vergonha!… Na hora em que ella accreditou na minha morte, n'essa hora morri. Com a mão que deu a outro riscou-me do número dos vivos. D. João de Portugal não hade deshonrar a sua viuva. Não: vai; ditto por ti terá dobrada fôrça: dize-lhe que fallaste com o romeiro, que o examináste, que o convencêste de falso e de impostor… dize o que quizeres, mas salva-a a ella da vergonha, e ao meu nome da affronta. De mim ja não ha senão esse nome, ainda honrado; a memória d'elle que fique sem mancha.—Está em tuas mãos, Telmo, intrego-te mais que a minha vida. Queres faltar-me agora?

*Telmo*. Não, meu senhor: a resolução é nobre e digna de vós. Mas póde ella approveitar ainda?

*Romeiro*. Porque não?

*Telmo*. Eu sei!—Talvez…

ROMEIRO, TELMO;eMAGDALENAde fóra á porta do fundo.

*Magdalena*. Espôso, espôso! abri-me, por quem sois. Bem sei que aqui estaes: abri.

*Romeiro*. É ella que me chama. Sancto Deus! Magdalena que chama por mim…

*Telmo*. Por vós!

*Romeiro*. Pois por quem?… não lhe ouvis gritar:—«Espôso, espôso?»

*Magdalena*. Marido da minha alma, pelo nosso amor te peço, pelos doces nomes que me déste, pelas memórias da nossa felicidade antiga, pelas saudades de tanto amor e tanta ventura, oh! não me negues este último favor.

*Romeiro*. Que incanto, que seducção! Como lhe heide resistir!

*Magdalena*. Meu marido, meu amor, meu Manuel!

*Romeiro*. Ah!… E eu tam cego que ja tomava para mim!…—Ceu e inferno! abra-se ésta porta…(investe para a porta com impeto; mas pára derepente) Não: o que é ditto, é ditto. (Vai precipitadamente á corda da sineta, toca com violencia; apparece o mesmo irmão converso, e a um signal do romeiro ambos desapparecem pela porta da esquerda.)

TELMO, MAGDALENA;depoisJORGEeMANUEL DE SOUSA

*Magdalena*,ainda de fóra. Jorge, meu irmão, Frei Jorge, vós estaes ahi, que eu bem sei; abri-me por charidade, deixae-me, dizer uma unica palavra a meu… a vosso irmão:—e não vos importuno mais, e farei tudo o que de mim quereis, e… (Ouve-se do mesmo lado ruido de passos appressados, e logo a voz de Frei Jorge.)

*Jorge*,de fóra. Telmo, Telmo, abri se podeis… abri ja.

*Telmo*,abrindo a porta. Aqui estou eu so.

*Magdalena*,entrando desgrenhada e fóra de si, procurando, com os olhos, todos os recantos da casa. Estaveis aqui so, Telmo! E elle para onde foi?

*Telmo*. Elle quem, senhora?

*Jorge*,vindo á frente. Telmo estava aqui aguardando por mim, e com ordem de não abrir a ninguem em quanto eu não viesse.

*Magdalena*. Aqui havia duas vozes que fallavam: distinctamente as ouvi.

*Telmo*,aterrado. Ouvistes?

*Magdalena*. Sim, ouvi. Onde está elle, Telmo? onde está meu marido…Manuel de Sousa?

*Manuel*,que tem estado no fundo, em quanto Magdalena, sem o ver, se adiantára para a scena, vem agora á frente. Esse homem está aqui, senhora; que lhe quereis?

*Magdalena*. Oh que ar, que tom, que modo esse com que me fallas!…

*Manoel*,internecendo-se. Magdalena… (Cahindo em si e gravemente) Senhora, como quereis que vos falle, que quereis que vos diga?—Não está tudo ditto entre nós?

*Magdalena*. Tudo! quem sabe? Eu parece-me que não. Olha: eu sei?… mas não dariamos nós, com demasiada precipitação, uma fe tam cega, uma crença tam implicita a essas mysteriosas palavras de um romeiro, um vagabundo… um homem emfim que ninguem conhece? Pois dize…

*Telmo*,áparte a Jorge. Tenho que vos dizer, ouvi. (Conversam ambos áparte.)

*Manuel*. Oh Magdalena, Magdalena! não tenho mais nada que te dizer.—Crê-me, que t'o juro na presença de Deus: a nossa união, o nosso amor é impossivel.

*Jorge*,continuando a conversação com Telmo, e levantando a voz com aspereza. É impossivel j'agora…—e sempre o devia ser.

*Magdalena*,virando-se para Jorge. Tambem tu, Jorge!

*Jorge*,virando-se para ella. Eu fallava com Telmo, minha irman.—(Para Telmo) Ide Telmo, ide onde vos disse, que sois mais preciso lá. (Falla-lhe ao ouvido; depois alto) Não m'a deixes um instante, ao menos até passar a hora fatal.

(Telmo sái com repugnancia, e rodeando para ver se chega aopé de Magdalena. Jorge, que o percebe, faz-lhe um signal imperioso; elle recúa, e finalmente se retira pelo fundo.)

*Magdalena*. Jorge, meu irmão, meu bom Jorge, vós, que sois tam prudente e reflectido, não dais nenhum pêso ás minhas dúvidas?

*Jorge*. Tomára eu ser tam feliz que podésse, querida irman.

*Magdalena*. Pois intendeis?…

*Manuel*. Magdalena… senhora! Todas éstas coisas são ja indignas de nós.—Até hontem, a nossa desculpa, para com Deus e para com os homens, estava na boa fe e seguridade de nossas consciencias. Essa acabou. Para nós ja não ha senão éstas mortalhas, (tomando os habitos de cima da banca) e a sepultura d'um claustro.—A resolução que tomámos é a unica possivel; e ja não ha que voltar atrás… Ainda hontem fallavamos dos condes de Vimioso… Quem nos diria… oh incomprehensiveis mysterios de Deus!… Ánimo, e ponhamos os olhos n'aquella cruz!—Pela última vez, Magdalena… pela derradeira vez n'este mundo, querida… (Vai para a abraçar e recúa) Adeus, adeus! (Foge precipitadamente pela porta da esquerda.)

MAGDALENA, JORGE,côro dos frades dentro.

*Magdalena*. Ouve, espera; uma so, uma so palavra: Manuel de Sousa!… (Toca o orgam dentro.)

*Côro*,dentro. De profundis clamavi ad te, Domine; Domine, exaudi vocem meam.

*Magdalena*,indo abraçar-se, com a cruz. Oh Deus, Senhor meu! pois ja, ja? nem mais um instante, meu Deus?—Cruz do meu Redemptor, oh cruz preciosa, refúgio d'infelizes, ampara-me tu, que me abandonaram todos n'este mundo, e ja não posso com as minhas desgraças… e estou feita um espectaculo de dor e d'espanto para o ceu e para a terra!—Tomae, Senhor, tomae tudo…—A minha filha também?… Oh! a minha filha, a minha filha… tambem essa vos dou, meu Deus.—E agora, que mais quereis de mim, Senhor? (Toca o orgam outra vez.)

*Côro*,dentro. Fiant aures tuæ intendentes; in vocem deprecationis meæ.

*Jorge*. Vinde, minha irman, é a voz do Senhor que vos chama. Vai começar a sancta cerimonia.

*Magdalena*,inchugando as lagrymas e com resolução. Elle foi?

*Jorge*. Foi sim, minha irman.

*Magdalena*,levantando-se. E eu vou. (Sahem ambos pela porta do fundo.)

Corre o panno do fundo, e apparece a egreja de San'Paulo: os frades sentados no côro. Em pé juncto ao altar-mór, oPRIOR DE BEMFICA.Sôbre o altar dois escapularios dominicanos. MANUEL DE SOUSAde joelhos com o hábito de noviço vestido, á direita do Prior. OARCEBISPOde capa-magna e barrete no seu throno, rodeado dos seus clerigos em sobrepelizes. Pouco depois entraJORGEacompanhandoMAGDALENAtambem ja vestida de noviça e que vai ajoelhar á esquerda do Prior.—Toca o orgam.

*Côro*. Si iniquitates observaveris, Domine; Domine, quis sustinebit?

*Prior*,tomando os escapularios de cima do altar. Manuel de Sousa-Coutinho, irmão Luiz de Sousa, pois em tudo quizestes despir o homem velho, abandonando tambem ao mundo o nome que n'elle tinheis!—Soror Magdalena! Vós ambos, que ja fostes nobres senhores no mundo, e aqui estais prostrados no pó da terra, n'esse humilde hábito de pobres noviços; que deixastes tudo, até vos deixar a vós mesmos… filhos de Jesus Christo, e agora de nosso padre San'Domingos, recebei com este bento escapulario…

O PRIOR DE BEMFICA,oARCEBISPO, MANUEL DE SOUSA, MAGDALENA, etc. MARIA,que entra precipitadamente pela egreja em estado de completa alienação; traz umas roupas brancas, desalinhadas e cahidas, os cabellos soltos, o rosto macerado, mas inflammado com as rosetas ethicas, os olhos desvairados; pára um momento, reconhece os pais e vai direita a elles.—Espanto geral: a cerimonia interrômpe-se.

*Maria*. Meu pae, meu pae, minha mãe! levantae-vos, vinde. (Toma-os pelas mãos; elles obedecem machinalmente, veem ao meio da scena: confusão geral.)

*Magdalena*. Maria! minha filha!

*Manuel*. Filha, filha!… Oh, minha filha!… (Abraçam-se ambos n'ella.)

*Maria*,separando-se com elles da outra gente, e trazendo-os para a bôcca da scena. Esperae: aqui não morre ninguem sem mim. Que quereis fazer? Que cerimonias são éstas? Que Deus é esse que está n'esse altar, e quer roubar o pae e a mãe a sua filha?—(Para os circumstantes) Vós quem sois, espectros fataes?… quereis-m'os tirar dos meus braços?… Esta é a minha mãe, este é o meu pae… Que me importa a mim com o outro? Que morrêsse ou não, que esteja com os mortos ou com os vivos—que se fique na cova ou que resuscite agora para me mattar?… Matte-me, matte-me, se quer, mas deixe-me este pae, ésta mãe, que são meus.—Não ha mais do que vir ao meio de uma familia e dizer: «Vós não sois marido e mulher?… e ésta filha do vosso amor, ésta filha criada ao collo de tantas meiguices, de tanta ternura, ésta filha é…»—Mãe, mãe, eu bem o sabia… nunca t'o disse, mas sabia-o: tinha-m'o ditto aquelle anjo terrivel que me apparecia todas as noites para me não deixar dormir… aquelle anjo que descia com uma espada de chammas na mão, e a atravessava entre mim e ti, que me arrancava dos teus braços quando eu adormecia n'elles… que me fazia chorar quando meu pae ia beijar-me no teu collo.—Mãe, mãe, tu não hasde morrer sem mim… Pae, dá ca um panno da tua mortalha… dá ca, eu quero morrer antes que elle venha: (incolhendo-se no hábito do pae) quero-me esconder aqui, antes que venha esse homem do outro mundo dizer-me na minha cara e na tua—aqui deante de toda ésta gente: «Essa filha é a filha do crime e do peccado!…» Não sou; dize, meu pae, não sou… dize a essa gente toda, dize que não sou. (Vai para Magdalena) Pobre mãe! tu não podes… coitada!… não tens ánimo…—nunca mentiste?… Pois mente agora para salvar a honra de tua filha, para que lhe não tirem o nome de seu pae.

*Magdalena*. Misericordia, meu Deus!

*Maria*. Não queres? Tu tambem não, pae?—Não querem. E eu heide morrer assim… e elle vem ahi…

MARIA, MAGDALENA, MANUEL; o ROMEIRO e TELMOque apparecem no fundo da scena sahindo detrás do altar-mór.

*Romeiro*,para Telmo. Vai, vai; ve se ainda é tempo: salva-os, salva-os, que ainda podes… (Telmo dá alguns passos para deante.)

*Maria*,apontando para o romeiro. É aquella voz, é elle, é elle.—Já não é tempo… Minha mãe, meu pae, cobri-me bem éstas faces, que morro de vergonha… (Esconde o rosto no seio da mãe) morro, morro… de vergonha… (Cái e fica morta no chão. Manuel de Sousa e Magdalena prostram-se ao pé do cadaver da filha.)

*Manuel*,depois de algum espaço, levânta-se de joelhos. Minha irman, rezemos por alma… incommendemos a nossa alma a este anjo que Deus levou para si.—Padre prior, podeis-me lançar aqui o escapulario?

*Prior*,indo buscar os escapularios ao altar-mór e tornando. Meus irmãos, Deus afflige n'este mundo áquelles que ama. A coroa de glória não se dá senão no céu.

(Toca o orgam; e cái o panno.)

Depois do brilhantissimo livro «Viagens na minha terra», de que os maiores escriptores, como Rebello da Silva, Castilho, Gomes d'Amorim, Theophilo Braga, etc., disseram ser um monumento immorredouro da litteratura portugueza, a melhor obra de Garrett é, sem contestação, o «Frei Luiz de Sousa». Vegezzi Ruscalla, na revista «Cornelia» de Florença, diz, a pag. 180, que Portugal tem no auctor do «Frei Luiz de Sousa» o seu Goethe, o seu Byron, o seu Lamartine e o seu Manzoni, ajuntando: «Questo drama é un vero capolavoro». A. P. Lopes de Mendonça («Memorias da litteratura contemporanea», Lisboa 1855) escreveu: «…talvez pareçam demasiadamente singelos os dados d'esta funebre tragedia, e todavia cremos que a litteratura moderna não possue monumentos de mais superior e acabado molde…» Th. Braga («Questões de litteratura e arte portugueza», Lisboa 1882, pag. 384) chama-lhetragedia unica, e sem rival nas litteraturas modernas. Rebello da Silva acha que as scenas do terceiro acto do «Frei Luiz de Sousa» são as mais tragicas que conhece, e o quarto acto é o maior esforço dramatico de que tem noticia.

«Frei Luiz de Sousa» tem tres traducções francezas; está tambem vertido em hespanhol, italiano, inglez e allemão. Foi representado em Paris. Muito se tem escripto sobre a grandiosa tragedia, sendo a ultima producção—«Frei Luiz de Sousa» de Garrett—Notas com um prefacio de Th. Braga, por Joaquim d'Araujo.


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