CANNAS.

CANNAS.Leite de Vasconcellos, dá-nos relativamente ás cannas a seguinte lenda colhida em Rebordinhos, Bragança:Havia uma vez tres irmãos. O mais novo tinha tres maçãsinhas de ouro, e os outros, para ver se lh'as tiravam, mataram-no e enterraram-no n'um monte. Depois nasceu na sepultura uma canna. Certo dia passou por lá um pastor que cortou um pedaço da canna para fazer uma flauta; começou a tocar, mas a flauta, em vez de tocar, dizia:Toca, toca, ó pastor,Os meus irmãos me mataramPor tres maçãsinhas de ouro,E ao cabo não as levaram.O pastor, quando ouviu isto, chamou um carvoeiro e deu-lhe a flauta. O carvoeiro começou tambem a tocar, mas a gaita dizia o mesmo. O carvoeiro passou-a a outra pessoa, e assim ella foi andando de mão em mão, até que chegou ao pae e á mãe do morto; a flauta dizia ainda o mesmo. Chamaram o pastor que disse onde tinha cortado a canna. Foram lá e encontraram o cadaver com as tres maçãs de ouro.NARCISO.Narciso era um mancebo de uma formosura sem igual, formosura de que se orgulhava em extremo.Um dia, debruçando-se sobre um regato, envaideceu-se tanto com a frescura e correcção do rosto reflectido na agua que se julgou superior em belleza a todos os sêres celestiaes. Estes, em castigo, transformaram-o na flôr que em memoria do facto ainda hoje lhe conserva o nome.Pausanias diz que Narciso se afogou pensando vêr na agua, onde o seu rosto se reflectia, a imagem de uma irmã bem amada.Gubernatis crê que esta lenda representa o sol poente que contempla no espelho do mar, onde vae desapparecer, a imagem de sua irmã a lua.ALGODÃO.Sacaibu, o primeiro homem, tinha um filho Rairu a quem profundamente odiava. Resolvendo desfazer-se d'elle, abriu uma grande cóva na terra, cóva que ia ter a um profundo poço natural, e collocou n'ella um porco apenas com a cauda de fóra, e esta untada de visco, e ordenou ao filho que lhe trouxesse o porco senão que o matava. Rairu obedeceu, mas mal agarrou a cauda, ficou com as mãos presas e foi arrastado pelo animal para o fundo do poço, d'onde só pôde sahir á custa de innumeras fadigas. Chegado á terra, correu a contar ao pae que no interior do sólo existiam muitos homens e mulheres que poderiam ir buscar e fazer d'elles escravos que os auxiliassem nos seus trabalhos de cultura. Sacaibu então semeou pela primeira vez o algodão, cuja semente Deus lhe déra, e com elle teceu uma corda que lhe serviu para descer ao poço. Os primeiros homens que tirou eram pequenos e feios, depois extrahiu outros mais formosos e de côr differente e cada vez que descia ao poço a côr variava, até que por ultimo tirou uns completamente brancos. Quando pretendeu depois d'isso tornar a descer, a corda partiu e Sacaibu morreu da queda, razão pelo que não mais appareceram homens superiores em belleza e perfeição aos homens brancos.CHORÃO.N'outros tempos era o chorão uma magestosa arvore levantando nos ares a bella e finissima ramagem. Orgulhoso do seu extraordinario crescimento protestou que havia de chegar ao céo e Deus, em castigo da ousadia, condemnou-o a não poder erguer para o céo os ramos, pois quanto mais crescessem mais haviam de virar para o sólo.LARANGEIRA.É assaz conhecido o emprego nupcial das flores de laranjeira, como emblema da castidade, da puresa absoluta e completa.Este vegetal é celebrado desde tempos immemoriaes, não só pelo aroma sem rival das suas formosas flores, mas tambem pelos seus bellos e deliciosos fructos.Gubernatis escreve o seguinte relativamente á laranjeira:«Nos contos populares piemonteses, o reino por excellencia, o reino rico, maravilhoso, é o reino dePortugal; e no Piemonte chamam sempreportogallottiás laranjas. Portugal é a região mais occidental da Europa; no ceu, é tambem no extremo occidente, onde o sol se esconde, que acreditam estar situado o reino dos bemaventurados, o paraizo. Foi tambem no extremo occidente que Héraclés descobriu o jardim das Hespérides com a arvore de fructos d'oiro. Por isso assim como o Portugal, a região occidental, o paraizo e o jardim das Hespérides são no mytho, um mesmo e unico paix, assim tambem a laranja, oportogallottoe a maçã das Hespérides, são na linguagem mythica um unico e mesmo fructo. Os gregos como os piemonteses, chamam ás laranjasπορτογαλιάos albanesesprotokalee os proprios kurdosportoghal.Como explicar tal denominação? Será porque as laranjas são melhores e mais abundantes em Portugal do que em qualquer outra parte? Não, mas é porque foi de Portugal que a cultura da laranjeira se propagou na Europa.O jesuita Le Comte, que viveu muitos annos na China, na segunda edição das suasNouveaux mémoires sur l'état présent de la Chine(Paris, 1697, tom. I, pag. 173), dá-nos a seguinte e curiosa informação: «Chamam-lhe em França laranjas da China, porque as que vimos pela primeira vez tinham sido trazidas d'alli. A primeira e unica laranjeira da qual dizem provieram todas, existe ainda em Lisboa na casa do conde de S. Lourenço; é aos portuguezes que devemos um fructo tão excellente».A longa e angustiosa peregrinação da Virgem para fugir com o divino filho aos que o queriam assassinar deu origem a grande numero de lendas, muitas das quaes se referem aos vegetaes, pertencendo a esse numero a que apresentamos relativa á laranjeira.A sagrada familia veio descançar uma tarde á sombra de uma laranjeira guardada por um cego. A Virgem pediu ao cego uma laranja para dar ao filho e aquelle respondeu-lhe que colhesse quantas quizesse pois todas eram d'ella. Então a Virgem colheu tres, uma para o Christo, outra para si e a terceira para S. José. E em paga da caridade do cego restituiu-lhe a vista.CARDO.Os escoceses fizeram do cardo planta nacional em virtude do seguinte e lendario facto:Nas cruas guerras que em tempos immemoriaes a Escocia sustentou com a Dinamarca, uma noite, em que o exercito escocez fatigadissimo dos combates diurnos dormia descansadamente proximo da mar, os dinamarqueses desembarcaram e, caminhando cautelosamente, estavam prestes a surprehendel-os quando um soldado dinamarquez, tendo inadvertidamente calcado um cardo, picou-se tão valentemente que não pôde deixar de soltar agudo grito, que fez acordar os escocezes e permittir-lhes que podessem derrotar o inimigo obrigando-o a reembarcar em fuga desordenada.MAÇÃ.A maçã é um simbolo da geração e da immortalidade.Sapho compara a virgem á maçã a quem todos desejam emquanto está na arvore, mas que já ninguem a quer quando cae ao sólo velha e pôdre.Na Sicilia, no dia de S. João, cada rapariga casadoira atira para a rua uma maçã e fica á espreita a ver quem a apanha. Se fôr um homem é signal de que casará dentro de um anno, sendo uma mulher só d'ahi a mais de um anno, um padre então morrerá virgem, e se os viandantes passarem sem fazer caso do fructo é prova evidente de que casando enviuvará.No Montenegro as noivas antes de entrarem para a nova casa que vão habitar, atiram-lhe para o telhado uma maçã; se esta ficar no telhado o casamento será abençoado com muitos filhos e se rolar vindo caír no sólo é porque a felicidade não sorrirá á noiva nem ella terá filhos.A lenda da maçã colhida por Eva e comida de sociedade com Adão, e que foi causa da perda da immortalidade, dando-lhe o conhecimento do bem e do mal e com elle o trabalho e a fadiga, é uma lenda puramente phallica, simbolisando a geração origem dos maximos praseres e das maiores amarguras.Na lenda biblica Eva colhe a maçã, mas nas lendas indianas, d'onde claramente foi aproveitada, o fructo colhido pela primeira mulher e compartilhado pelo primeiro homem, é um fructo rico em sementes, ora a romã, ora a laranja, o figo e a maçã.Relativamente á maçã ha tambem uma lindissima lenda christã. A Virgem Maria procurava adormecer o seu divino filho que, chorando, não lhe queria socegar no cólo. Então a Virgem, para o entreter, dá-lhe duas maçãs que Jesus brincando atirou aos ares, transformando-se logo uma na lua e outra no sol que nos alumia e aquece.FIGUEIRA DA INDIA.A figueira da India (Ficus religiosa) é venerada na India principalmente pelos sectarios de Buddha, não a cortando nem lhe tocando nunca com ferro, para não offender o Deus n'ella occulto.Não só a arvore é adorada mas tambem o local onde alguma viveu é considerado local sagrado. A veneração dos indios peloficus religiosa, é devida á seguinte lenda:Buddha, apóz a conversão, ia sempre orar sob aquelle vegetal; a rainha, sua esposa, despeitada por aquelle facto, mandou cortar a arvore, e Buddha, quando o soube, sentiu tamanho desgosto que declarou que se a arvore não tornasse a rebentar morreria de pesar. Mandou depois reunir cem bilhas de leite e regar com elle o tronco do vegetal, donde logo brotaram ramos, que cresceram rapidamente, attingindo a altura que hoje téem.MAIAS.No numero 4, vol. VI, outubro de 1889 daRevista de Guimarães, o dr. Abilio de Magalhães Brandão descreve-nos assim a poetica lenda das maias:«Houve antigamente um rei chamado Herodes que ao saber que tinha nascido, em Belem, um menino, a que o povo, por toda a parte, chamava o rei dos Judeus, tão furioso ficou que ordenou immediatamente aos seus soldados que degolassem todas as creanças menores de dous annos, que encontrassem em Belem.Herodes presumia que o rei dos Judeus não escaparia d'esta carnificina,—tal era o odio de morte que votava ao menino—que os prophetas tinham vaticinado rei de Israel. Ao anoutecer do dia 30 de abril, cercaram os judeus os muros de Belem, mas esperaram pela madrugada do dia 1.º de maio para começarem a dar cumprimento ás ordens do malvado rei. Apesar de todas as providencias e cautelas, ainda receiavam os judeus que lhes escapasse o menino e por isso se informaram logo da sua morada—que tinha á porta umramo de maiascomo signal,—mas, ao romper do sol do 1.º de maio, todas as casas appareceram milagrosamente com os mesmos ramos á porta.Os judeus ficaram tão furiosos que entraram logo em todas as casas e degolaram todos os meninos, como tinha ordenado Herodes, e só escapou o que procuravam, porque seus paes, José e Maria, tinham fugido com elle, ainda de noute, para o Egypto.Um judeu, que viu passar a mãe do menino, a cavallo n'uma jumentinha, ainda lhe perguntou o que levava nos braços, envolto no manto com que se cobria, ao que ella respondeo: «Levo meu filho!» mas o judeu retorquiu: «Se o levasses não o dirias». E d'este modo, e pelo milagre dasmaias, salvou-se milagrosamente o rei dos judeus».ABOBORA.Os povos orientaes consideram a abobora como o imperador dos vegetaes; é tambem para elles o emblema da saude pelo seu bello e rotundo aspecto e da fecundidade pelo numero extraordinario de sementes que possue.A abobora tem dado origem a muitas lendas, e d'entre aquellas de que temos conhecimento, aproveitamos as duas mais curiosas e principaes, de que as restantes não são mais que incorrectas variantes.Houve tempo em que os lobos não eram carnivoros, mas sim se sustentavam de fructos. Um dia uma porca, procurando alimento, encontrou uma enorme abobora e fazendo-lhe um pequeno orificio, começou a comer-lhe o interior. N'isto vê ao longe um corpulento lobo, e cheia de susto, pois aquelle animal andava em guerra aberta com ella, e sempre que a encontrava, não deixava de a mimosear com uma dentada, escondeu-se dentro da abobora. O lobo encontrando tão bello manjar dispoz-se a devoral-o sem mais cerimonia, mas a porca que estava escondida dentro, cheia de susto, fez desenvolver com os excrementos que expelliu um tão insupportavel fetido, que o lobo, julgando a abobora pôdre, fugiu a toda a pressa e tão nauseado ficou que desde então não mais quiz os vegetaes começando a regalar-se com a carne dos animais que podia caçar.A segunda lenda—lenda americana—explica assim o diluvio.Jaià um homem muito poderoso e forte tinha um filho unico que lhe morreu de repente. O pae, querendo dar-lhe uma sepultura differente da de todos os outros humanos, metteu-o dentro de uma enormissima abobora que foi depor no cimo de elevado monte. Dias depois, cheio de saudades pelo filho estremecido, quiz contemplal-o mais uma vez e partiu para o local onde depozera a abobora, mas ao tocar-lhe saíram-lhe de dentro enorme quantidade de peixes e diversos monstros marinhos. Jaià fugiu aterrado e veio narrar o caso para a sua aldeia. Quatro irmãos gemeos quizeram verificar o facto, e quando estavam a procurar mover a colossal abobora a fim de lhe examinar o conteúdo, chegou Jaià tão furioso pela violação a que ia ser sujeito o tumulo do filho que os quatro rapazes, aterrados, deixaram rolar a abobora pelo monte abaixo, e esta, batendo de encontro ás pedras que encontrou no caminho, fendeu-se sahindo-lhe do interior tal quantidade d'agua que toda a terra ficou inundada.ARROZ.É o arroz symbolo da vida, da geração e da abundancia, representando por isso nas ceremonias nupciaes da India um grande e importante papel. Lá lançam o arroz sobre a cabeça dos nubentes, como entre nós se deitam flores e confeitos; é um prato de arroz o primeiro alimento que os esposos comem juntos, e é com arroz humedecido em manteiga e lançado ao fogo que, finda a ceremonia nupcial, impetram a protecção dos deuses para que os façam felizes e lhes dêem muitos e muitos filhos.Logo que uma creança nasce, collocam-a em cima de um sacco cheio de arroz para a livrar dos maus olhados, e nenhum indiano tóca no arroz sem antes ter feito as suas abluções.Para todos os sectarios de Buhdha é elle planta sagrada, destinada ás offerendas á divindade, e a ser servida nos banquetes religiosos e nas ceremonias funerarias.A sementeira do arroz é feita na India com grande ceremonial religioso, com musicas e bençãos dos brahmanes.Na China, por occasião das sementeiras, os padres fazem sacrificios ao fogo para que permitta que o anno seja fertil. Para isso andam com resas á volta de uma fogueira, tendo nas mãos um vaso cheio de arroz e sal de que lançam de tempos a tempos um punhado ao fogo. Aqui o fogo symbolisa o sol, que com o seu excessivo calor póde prejudicar inteiramente a producção do arroz que só se dá bem com um excesso de humidade, e é por isso que lhe imploram a sua protecção, o beneficio de uma menor intensidade dos seus raios seccadores.Para os arabes tambem o arroz é sagrado. Crêem que elle nasceu de uma gotta de suor de Mahomet e que oKuskussú, o querido manjar nacional fabricado com arroz, foi revelado a Mahomet por o anjo Gabriel. Mahomet, sempre que partia para a guerra ou tinha relações com qualquer mulher, comia antes um pouco deKuskussú.A mais curiosa das lendas do arroz é, porém, a lenda japoneza.Conta-se no paiz do sol nascente que outr'ora, o unico alimento alli conhecido, era as raizes e as hervas. Porém um dia um bonzo viu um minusculo e formosissimo rato entrar n'uma cavidade proxima da sua habitação, arrastando uma pequenina espiga d'um cereal para elle desconhecido. Querendo saber d'onde viria aquella preciosidade, seguiu o rato, que o levou muito longe, a um paiz ignorado, onde todos os campos estavam cobertos de arroz e onde o bonzo aprendeu a cultival-o, introduzindo-o depois no seu paiz.Foi d'aqui que nasceu a adoração das populações japonezas pobres, pelo rato, que conservam em casa mumificado, considerando-o como symbolo da abundancia.ZIMBRO.Na Italia, assim como em França, Suissa e nos paizes do norte é o zimbro planta obrigatoria para a ornamentação das mezas de jantar, no santo dia do Natal.A causa d'este antiquissimo uso vem da seguinte lenda:Quando a Virgem fugia com o Filho aos crueis soldados de Herodes, esteve um dia quasi a ser agarrada, e deveu a salvação a um zimbro que os escondeu, cobrindo-os com os ramos, de fórma que os perseguidores passaram proximo sem os descobrirem. A virgem abençoou então o zimbro e disse-lhe que em recompensa do beneficio que lhe prestára, seria para sempre querido e estimado por toda a christandade, que o associaria annualmente á sua mais doce e sympathica festa.NOGUEIRA.A nogueira foi considerada pelos antigos como arvore sinistra e funeraria, sob a qual se reunem as feiticeiras, especialmente na noite de S. João, para celebrarem os seus horridos festins, ao passo que o fructo de tão má arvore foi sempre symbolo da abundancia e da geração.Foi em cascas de nozes que, segundo uma lenda slava, escaparam ao diluvio os homens que depois repovoaram o mundo. Eram cascas de nozes os maravilhosos trens das boas fadas protectoras de nossos antepassados que—ai de nós!—para sempre desappareceram do mundo, e eram estes saborosos fructos os que se distribuiam outr'ora nas bodas como de feliz e prolifico agouro para os noivos.Na Belgica, no dia de S. Miguel, as donzellas casadoiras abrem cuidadosamente algumas nozes, tiram-lhe o conteudo o collam depois as duas cascas vazias com todo o cuidado, de modo a parecerem intactas, e deitam n'um sacco um numero egual de nozes vazias e nozes cheias. Misturam-as bem, e depois, fechando os olhos, mettem a mão no sacco e tiram uma noz. Se acertam tirar uma cheia é signal de que casarão dentro de um anno, mas se acontece vir uma das vazias, então ainda téem que esperar muito pelo anciado marido...Entre nós, especialmente no Porto, ha uns leves vestigios d'esta tradição. No dia de S. Miguel é costume, na cidade invicta, comer-se nozes com trigo, o que, dizem, dá a felicidade e a abundancia em casa. E á gente nova, á gente solteira, temos nós ouvido repetidas vezes dizer que «no dia de S. Miguel, nozes com regueifa sabe a casar»...No sul de França creem que o meio infallivel de conhecer um feiticeiro é collocar-lhe uma noz debaixo da cadeira quando elle estiver sentado, pois não se poderá mais erguer do logar onde estiver emquanto não retirarem a noz. É d'aqui que os camponezes de Bolonha penduram uma noz ao pescoço dos filhos para os livrar de maus olhados. Tem para elles a noz o mesmo valor da nossa figa.Para os judeus a arvore do bem e do mal era uma nogueira, e o fructo que Deus prohibira a Adão que comesse, uma noz.CLEMATIS INTEGRIFOLIA.Gubernatis conta-nos assim esta formosa lenda:«Um dos nomes populares que na Russia se dá a esta planta éTziganca(planta dos Bohemios) ouZabii kruéaouSinii lomonos. A proposito d'este vegetal dizem, n'aquelle paiz, que outr'ora, quando os cossacos andavam em guerra com os tartaros, os primeiros, n'um combate encarniçadissimo, possuiram-se de tal terror, que começaram a debandar ante o inimigo, sem attenderem aos chefes, que os incitavam á resistencia. Ohetman, não os podendo conter, desesperado, suicidou-se espetando a lança na cabeça. N'isto desencadeou-se uma tempestade medonha que, envolvendo os cossacos cobardes e traidores, os desfez em mil pedaços, misturando-os com a terra dos tartaros.Pouco depois, do sólo, sepultura dos fugitivos, brotou aClematis integrifolia. Mas as almas dos cossacos, que não tinham descanço por os corpos estarem sepultados na terra dos tartaros, tanto pediram a Deus, que este mandou semear aClematisna Ukranie. E desde então, em memoria do facto, as donzellas cossacas enfeitam-se com grinaldas daTziganka, que passou a ser uma planta nacional».MOSTARDA.Pela facilidade da multiplicação, a semente da mostarda é entre os povos orientaes symbolo da geração.Tambem serve o oleo da mostarda para a descoberta das feiticeiras. Para isto basta, segundo os Indús, encher um grande vaso de vidro com agua e derramar-lhe dentro o oleo gotta a gotta, pronunciando no momento da quéda de cada gotta na agua o nome de uma mulher. Se na occasião da quéda da gotta a agua se turva e n'ella se vê apparecer uma como sombra de mulher, aquella cujo nome coincidiu com o lançamento do oleo na agua é, sem a menor duvida, uma grande feiticeira.A mais curiosa lenda, da India, relativa á mostarda, é a da fada Bakanali, onde claramente se frisa o valor gerativo d'este vegetal.O deus Indra, em castigo de grave falta, transformou a fada Bakanali em estatua de marmore, condemnando-a a permanecer assim durante doze annos no templo de Ceylão.O rei d'aquelle paiz, por um dos maleficos caprichos a que amiudadas vezes estão sujeitos os reis, arrasou o templo e reduziu todas as estatuas a pó. Dias depois, o local onde esteve o templo, appareceu todo coberto d'uma planta até então desconhecida.Quando a planta deu semente, o jardineiro do rei extrahiu d'ella um oleo tão aromatico, que a rainha, a quem foi offerecido, quiz logo proval-o. Mal porém o chegou aos labios, ella, que era esteril, sentiu-se immediatamente gravida, e nove mezes depois deu á luz uma filha, que não era mais que a fada Bakanali, novamente recuperando a sua fórma terrestre.TILIA.D'uma brilhante chronica de Emygdio de Oliveira, publicada no jornal portuenseDiario do Commercio, extrahimos a seguinte e deliciosa lenda sobre a tilia:«O Porto é a cidade das tilias. Aposto que ainda não repararam n'isso! Que por toda a parte, pela beira do rio, no miradouro das Virtudes, na maior parte das ruas da cidade cresce, coberta de pequeninas flores doiradas, a arvore encantadora da tilia? Pois é verdade. Emquanto os senhores conselheiros municipaes se esforçam, dia e noite, sonhando e combinando, em fazer da nossa querida terra o foco de pestilencias, cubiçadas pelo microbio (o microbio é o Legrand do mundo fétido), a divina providencia, singelamente, n'um sorriso, como mulher que se entrega, sem lagrimas, sem phrases, sublimemente, persiste em fazer do Porto uma das mais bellas cidades da Europa, dando-lhe o mais esplendido céo azul escuro, a frescura salina das brisas do oeste e a prodigiosa vegetação de arbustos e de flores, de que ha memoria nas terras peninsulares.Ah! como são bellas as tilias portuenses!Pois de todas essas bellas tilias, a mais bella é a da Praça de D. Pedro. Eu gosto das creaturas audaciosas, e—confessem! confessem!—nascer, rebentar, estender-se para o céo, encher-se de folhas, ramilhetar-se de pequeninas flores perfumadas, n'uma elegante toilettepompadour, na Praça de D. Pedro—é o cumulo da audacia e do protesto contra omeio, mesmo em face dodomus municipalis, que é o grande laboratorio das coisas sujas.Depois... eu tenho uma intima e profunda sympathia pela legenda, pelos avatares do sentimentalismo antigo, cavalheiresco, cheio de crendices, á João V; e é graciosa a legenda da tilia da Praça de D. Pedro.Dizem os pardalitos que se acoitam alli, de noite, que aquella arvore graciosa, tão cheia de encantamento e de aroma, nasceu na terrivel epoca, em que os visionarios da liberdade eram fatalmente assassinados no centro da Praça, a fradaria bebendo e fazendo toasts pelos desventurados que, como morriam de mais alto, viam até mais longe.Um d'elles era um bello rapaz, de olhar ousado e scintillante, que tivera a audacia de chamar meretriz áquella mulher que vivera no regio palacio, conspirando contra a patria e contra o esposo, que era então rei de Portugal.Foi enforcado. N'aquella noite de outubro, uma creatura celeste, depois de muitas allucinações e muitas lagrimas, caíu sobre o sólo, beijando uma gotta de sangue.Foi n'esse mesmo logar que a primavera seguinte fez brotar, crescer, florir aquella gentilissima tilia, que todos os annos se cobre de lagrimas doiradas, como lagrimas de amante que se despede para outra vida, em noites de luar.Ah! como eu amo as tilias».LEITUGA.A leituga foi considerada nos tempos antigos como planta nefasta, apreciada pelo demonio, que d'ella se servia para os seus maleficios.Sonhar-se com leitugas, era signal certo de proximo e irremediavel dissabôr.Alberto o Grande, no seu curioso livroDe secretis mulierumdiz que a leituga serve para conhecer, sem o menor engano, se uma mulher é ou não virgem:Accipe fructum lactucæ et pone ante nares ejus; si tunc est corrupta, statim mingit.Esta planta servia-se outr'ora nos jantares funerarios em memoria da morte do filho de Myrrha; era tambem tida como causadora de impotencia.Adonis, mancebo d'uma proverbial e extraordinaria formosura, nasceu do incesto de Cyniras, rei de Chypre, com sua filha Myrrha. Foi doidamente amado por quasi todas as deusas, especialmente por Venus e Prosérpina. Estando Adonis um dia a dormir n'um descampado, a deusa Aphrodite, que por alli passou, fez brotar á volta d'elle, para o resguardar dos ardores do sol, um massiço de leitugas.Um corpulento javali, attrahido pelas leitugas, começou a devoral-as sofregamente, pisando e ferindo tão cruelmente o bello Adonis que elle morreu pouco tempo depois.Jupiter, o rei dos deuses, condoído dos choros de Venus, deu novamente a vida a Adonis, mas Prosérpina, rainha dos infernos, só accedeu a isto com a condição de que elle passaria seis mezes do anno em sua companhia e outros seis na de Venus.Venus, porém findos os seis mezes não o quiz restituir a Prosérpina, o que originou grande discussão entre os deuses, e então Jupiter ordenou que Adonis pertencesse quatro mezes a Venus, quatro a Prosérpina e ficasse livre os restantes quatro.OLIVEIRA.A oliveira representou sempre importante papel nas crenças populares antigas. A oliveira era o simbolo da paz e da abundancia. Foi um ramo de oliveira que a pomba trouxe para a arca, a Noé, em signal de as aguas já se terem afastado da terra, e a paz estar feita entre Deus e os homens. Era com corôas feitas de ramos de oliveiras e de louro que se enfeitavam os vencedores dos jogos olimpicos e os guerreiros victoriosos.Em quasi toda a Europa meridional substituem no domingo de Ramos as folhas de palmeira por ramos de oliveira, e crêem que estes, queimados em occasião de temporal, abrandam a furia dos elementos desencadeados e livram do raio. Nos Abruzzos, no dia de S. Marcos, vão plantar no meio dos campos um ramo de oliveira, na esperança de boa colheita e de os livrar do granizo e das inundações.Diziam os antigos que as feiticeiras e o diabo não podiam entrar na casa onde houvesse ramo de oliveira abençoado pelos padres.As leis athenienses castigavam severamente todo aquelle que fizesse mal ás oliveiras, ou se servisse da sua madeira para o lume.Em Ombria e na Terra de Otranto as raparigas que querem saber se chegarão a casar vão, no dia de Pascoella, nuas, colher um ramo de oliveira. Chegadas a casa tiram uma folha, humedecem-a com saliva e lançam-a ao fogo pronunciando o seguinte:Si me vuo' bene, salta salticchia,Si me vuo' male stá fissa fissa.Se a folha saltar tres vezes ou se voltar no fogo é signal de que hão-de casar. Se a folha arder sem fazer o menor movimento podem perder completamente a esperança de encontrar marido.Na Italia meridional as noivas, no dia do casamento, quando recolhidas no quarto, batem levemente no marido com um ramo de oliveira em signal de que no quarto de cama quem manda é a mulher.Na Grecia antiga acreditava-se que a oliveira devia o nascimento a Minerva a deusa da sabedoria.Discutindo Neptuno e Minerva qual daria o nome a uma cidade fundada por Cecrops, os deuses chamados para resolver a questão, determinaram que seria aquelle que fizesse a mais util creação para os humanos. Neptuno batendo na terra com o tridente, fez d'ella sahir um cavallo e Minerva, ferindo o sólo com a lança, fez apparecer uma oliveira carregada de fructo. Os deuses decidiram a contenda em favor de Minerva que deu á cidade o nome de Athenas.Uma lenda allemã diz que a oliveira brotou da sepultura do primeiro homem, de Adão, e que foi do tronco da oliveira que os hebreus fabricaram a cruz em que pregaram Christo.Tambem ha uma lenda grega que diz que foi da oliveira e não do carvalho que nasceu da maça de Hercules, e uma lenda hebraica narra que procurando as arvores um rei dirigiram-se primeiro á oliveira que não acceitou, por isso que não queria perder os seus bellos fructos sacrificados ás canceiras da realeza, depois á vide e á figueira que por motivo identico recusaram tambem, e por ultimo ao carvalho, que acceitou.O azeite, extrahido do fructo da oliveira era venerado pelos antigos. Os athenienses esfregavam o corpo com azeite para conservar a belleza da pelle, e os christãos fizeram d'elle o oleo santo que applicam aos moribundos como simbolo da vida eterna.A oliveira era para os antigos a arvore da vida por isso que produzia o azeite, que arde nas lampadas, conservando a luz durante a noite, a luz a origem de toda a vida terrestre.MYOSOTIS.O myosotis (Hieracium pilosella) a deliciosa florsinha das margens dos regatos, aNontiscordar di medos italianos, aVergissmeinnichtdos allemães, e aOreja de ratondos hespanhoes, tem sido cantada pelos poetas de todos os tempos e apreciada por todos os povos, que lhe dedicam particular e especial estima.E na verdade a bella flôr de um azul tão doce e tão suave, de uma côr de que ella quasi que guarda o exclusivo em todo o reino vegetal, merece o apreço em que é tida pela sua excepcional formosura, que modestamente esconde entre a larga vegetação das margens dos regatos.É a flôr dos namorados, que como ella procuram a solidão, os logares cheios de sombras e de serenidade para trocarem as suas intimas confidencias, as suas apaixonadas caricias amorosas.Uma antiga ballada italiana narra da seguinte fórma o apparecimento do myosotis no nosso globo.Um pobre camponez ao vêr-se atraiçoado pela noiva que o trocou por outro mais rico e que mais lhe podia proporcionar os gosos que ambicionava, afogou-se de pezar.As aguas do rio balouçaram durante dias o corpo do desditoso e as nimphas condoídas da sorte do infeliz, tão novo e tão formoso, imploraram para elle a protecção dos deuses. Levantou-se então enorme temporal e as aguas arremessaram para longe de si o cadaver retido, que ao tocar na margem, foi immediatamente metamorphoseado nas bellas flores com que as nymphas depois constantemente se enfeitaram.MYRTHO.O myrtho foi consagrado a Venus e a Minerva. Venus, após o nascimento, tendo-se na ilha de Chypre envergonhado da sua nudez, escondeu-se atraz de um myrtho, adoptando-o depois em signal de reconhecimento, como planta bem amada.Minerva e a nympha Myrsiné desafiaram-se um dia a vêr qual era mais veloz na carreira. Venceu Myrsiné e Minerva despeitada, transformou-a em myrtho, planta com que em seguida se enfeitou para constantemente recordar o ultrage de que fôra victima.Na Grecia e em Roma antiga coroavam com myrtho os recem-casados, por isso que na sua qualidade de planta dedicada a Venus, a deusa do amor, não só tinha a virtude de fazer nascer um violento amor no coração dos esposos mas tambem de o conservar constante por toda a vida.Este uso ainda está ao presente em vigor em algumas localidades da Europa central, especialmente na Allemanha.Em todo o imperio romano era prohibido, sob severas penas, colocar ramos de myrtho nos altares daBona Dea, por isso que o myrtho fazia recordar aos fieis os gosos materiaes que no logar sagrado deviam ser completamente esquecidos.PINHEIRO.O pinheiro é simbolo da geração e da immortalidade.Da geração pela fórma do fructo que os antigos pensavam representar uma parte do corpo de Atys, sacerdote de Cybele, que violando o voto de castidade feito á deusa, mutilara-se, sendo em seguida transformado por Cybele em pinheiro.Da vida eterna por causa da folhagem sempre verde, mesmo sob as maiores neves, da solidez da madeira e por fructificar em pleno inverno.Na Russia enfeitam as mesas dos banquetes nupciaes com ramos de pinheiro e no Japão os noivos bebem tres pequenas taças desakédiante de um pinheiro, que significa a fidelidade conjugal e a perpetuidade do genero humano, a imagem de um grou simbolo tambem da fidelidade, a de uma tartaruga como desejo de longa vida, pois os orientaes acreditam que este chelonio vive dous mil annos, e de um grupo representando um velho e uma velha, secularmente celebres por causa do intenso amor e da harmonia em que vireram durante toda a longa vida.A resina do pinheiro é empregada desde tempos immemoriaes como o melhor remedio para as doenças pulmonares, e dos fructos do pinheiro extrahiam tambem os gregos e os romanos um remedio afamado para o mesmo fim.Os vinhos eram outr'ora conservados por meio de resina e de pinhas que deitavam de infusão nas vasilhas onde elle era guardado.Ha na Roumania uma lenda que diz que morrendo de pesar dois amantes violentamente separados pelas respectivas familias, e sendo sepultados no mesmo cemiterio foram transformados um em pinheiro e outro em vide, continuando a enlaçar-se ternamente mesmo depois da morte.O christianismo consagrou tambem o pinheiro. É a arvore empregada de preferencia na noite de Natal, a arvore querida e amada pelos povos do norte que a vêem verdejante e cheia de fructo na epocha em que as neves fazem desapparecer a vegetação da superficie da terra.Parece que o uso do pinheiro como arvore do Natal vem da seguinte e poetica lenda:Quando a sagrada familia fugia á perseguição de Herodes, apertada de perto pela soldadesca, chegou a um descampado onde havia apenas um pinheiro de quem a Virgem, chorosa, supplicou protecção.A arvore, compadecida, curvou os ramos até ao sólo e escondendo Jesus no centro de uma larga pinha retomou a primitiva posição natural. Passado o perigo Jesus abençoou a boa arvore, dando-lhe não só a particularidade de vegetar em todos os terrenos e resistir a todas as intemperies, mas tambem permittindo-lhe que em recordação da sua demorada estada na pinha esta conservasse, para sempre, no interior o signal da divina mão que a abençoara.PILRITEIRO.Polydoro, filho de Priamo e de Hecuba, foi morto após o cerco de Troya por Polymnestor, ancioso de se apoderar das immensas riquezas que Polydoro possuia.Depois de morto, Polydoro foi transformado em pilriteiro, e quando se cortava algum ramo ao vegetal corria logo sangue da parte contundida em signal do triste facto que elle simbolisava.SERRALHA.O diabo queixou-se um dia a Christo de que tendo ajudado Deus a crear o mundo nada recebera em paga dos seus trabalhos.A queixa sendo achada justa, Christo deu-lhe em paga o milho e a aveia.O diabo partiu saltando de contente, porém no caminho, com a alegria, esqueceu-se do nome das plantas que lhe tinham sido dadas.S. Pedro e S. Paulo a saberem da liberalidade de Christo lastimaram que tivesse feito ao diabo uma tão importante dadiva.—Agora o que dei, está dado, não o posso tornar a tirar, disse Christo.—Pois bem, replicou S. Paulo, vou fazer com que o diabo fique sem os bons vegetaes em troca de outros maus.E partindo a toda a pressa sahiu ao encontro do diabo. Este ia triste e cabisbaixo procurando lembrar-se das plantas que Christo lhe déra.—Que tendes, perguntou S. Paulo?—Christo deu-me dous vegetaes e eu não me lembro quaes são.—Eu sei, replicou S. Paulo, um é a canna...—É verdade, é a canna, atalhou o diabo esfregando as mãs de contente, mas o outro?—O outro é a serralha.—A serralha, a serralha, uivou o diabo, que fugiu sem dar os agradecimentos a S. Paulo, que d'esta fórma conseguiu livrar do poder do diabo dous dos mais uteis vegetaes dando-lhe em troca outros de insignificante valor.MANGERONA.A mangerona (Origanum majoranaL.) é aamarakosdos gregos. Os romanos serviam-se da mangerona para tecer corôas aos recem-casados e em Creta esta planta é ainda hoje o simbolo da honra, tendo a virtude de afugentar das mulheres os mal intencionados seductores.A lenda da mangerona é uma lenda grega. Amaracus era um favorito do rei de Chypre que este estimava immenso e a quem confiava serviços da maior confiança e da mais alta responsabilidade.Um dia encarregando-o o rei de lhe trazer um precioso vaso cheio de perfumes, Amaracus deixou-o cahir no sólo onde se fez em pedaços.Cheio de pesar e de susto pelo mal causado, cahiu com uma violenta sincope e então os deuses amerciados da sua grande e irremediavel dôr transformaram-o n'uma planta odorifera que ficou tendo o nome do desastrado Amaracus.LINHO.Gubernatis escreve o seguinte do linho:«A antiguidade indiana via no céo, na alva e na aurora, uma teia luminosa; a esposa divina, a aurora, tecia a camisa nupcial, o vestido do esposo divino, o sol. Os deuses vestiam-se com uma veste luminosa, d'um tecido branco ou vermelho, de prata ou de oiro. Os padres, na terra, adoptaram o mesmo costume branco na India, no Egypto, na Asia Menor, em Roma e nos paizes christãos, chamando-se ainda hojealvaá camisa branca dos padres e dos meninos de côro.O linho era de tal fórma estimado no norte que, até ao seculo XII, na ilha de Rugen, servia de moeda.«Apud Ranos, escrevia Helmold, I, 38, 7, citado por Hehn (Kulturpflanzen u. Hausthiere, Berlin, 1874)non habetur maneta, nec est in comparandis rebus consuetudo nummorum, sed quidquid in foro mercari volueris, panno lineo comparabis».Güldenstadt, no seculo passado, deparou ainda com uso identico no Caucaso. Nos contos populares falla-se muitas vezes de camisas ou vestidos tecidos com fios tão extraordinariamente finos, que podiam ser guardadas dentro da casca de uma noz. Hérodoto e Plinio mencionam um linho enviado da Grecia por o rei Amasis, cujo fio era composto de 360 ou 365 fios, allusão evidente aos dias do anno.Na canção popular veneziana do grillo e da formiga, o grillo fia linho e a formiga pede-lhe um fio evidentemente para continuar a fiar, pois os dois animaes figuram na mitologia zoologica em estações differentes. Os fios de linho são tidos como representando os raios do sol, e segundo uma superstição popular siciliana, attrahem-os tambem.Em Modica, na Sicilia, escreve o snr. Amabile, para fazer desapparecer as dôres de cabeça produzidas pela insolação, queimam, com acompanhamento de imprecações, estopa de linho n'um copo onde depois se deita agua; colocam em seguida o vidro n'um prato branco e este sobre a cabeça do doente; pretendem que, d'este modo, fazem desapparecer da cabeça e passar para o linho toda a doença causada pelo sol.No Valle Soana, no Piemonte, acreditam que vêr em sonhos, linho mergulhado na agua é um aviso de morte por todo o anno.O linho é simbolo da vida, da vegetação facil e abundante. É por isso que na Allemanha, quando uma creança cresce vagarosamente ou lhe custa a andar, na vespera do dia de S. João, a colocam núa no sólo, semeando-lhe linho em redor, e logo que o linho principiar a rebentar deve a creança começar a crescer e a andar».PLATANO.O platano era particularmente venerado na Grecia, sendo consagrado ao genio. Era sob os platanos que se reuniam os sabios gregos para discutirem os mais transcendentes assumptos, e sob elles que especialmente se abrigavam da chuva.A formosa Europa, dormia sob um platano quando foi roubada por Jupiter metamorphoseado em touro.Xerxes atravessando a Lydia, apaixonou-se tanto por um corpulento platano que o fez ornamentar de custosos collares e braceletes d'ouro.Na Grecia quando alguns noivos se separam trocam, em signal de fidelidade, duas metades de uma mesma folha de platano, e quando se tornam a encontrar apresentam-as, devendo as duas partes formar perfeitamente a primitiva folha. Se isto se não dér é porque aquelle cuja metade estiver defeituosa foi infiel durante a ausencia.TREVO.Diz Gubernatis que os druídas tinham o trevo em grande veneração, e que S. Patricio para explicar o misterio da Trindade aos irlandezes se servia de trevo, mostrando-lhes as tres folhas do vegetal n'uma mesma haste.Em França, Italia, Hespanha, e mesmo entre nós, o povo estima e venera particularmente o trevo de quatro folhas e crê que a pessoa que encontrar uma d'estas plantas, sendo mulher, casará dentro de um anno e, sendo homem, terá no mesmo espaço de tempo grandes felicidades.Aproveitamos do distincto sabio inglez, Brueyre a seguinte e deliciosa lenda metereologica relativa ao trevo:«N'uma tarde de verão, uma rapariga veio mugir as vaccas mais tarde que o costume, e as estrellas começavam a scintillar no firmamento, quando ella terminou a tarefa. Daisy, uma vacca encantada, era a unica que faltava para mugir, mas o cantaro estava tão cheio, que a rapariga deixou-a sem lhe tirar o leite.Antes de pôr o cantaro á cabeça a rapariga cortou um punhado de hervas differentes entre as quaes ia muito trevo, e com ellas fez uma almofada para levar mais commodamente o cantaro.Porém logo que colocou a almofada na cabeça viu centenas, milhares de pequeninos trasgos correndo de todos os lados para a vacca, que estava deitada no sólo, e agarrarem-se-lhe ás têtas, que mugiam em flores de trevo, sugando-as depois com delicia. As hervas que estavam junto as têtas de Daisy cresciam a olhos vistos, cercando por todos os lados a corpulenta vacca, e os trasgos corriam por entre ellas, levando bem-me-queres, verdeselhas, flores de digitalis e flores de trevo onde recolhiam o leite que corria das quatro têtas ao mesmo tempo, como abundante chuva da primavera. Sob uma das têtas a rapariga viu um trasgo maior que os outros, que, para se banquetear mais á vontade, se tinha deitado de costas, ficando os pés no ventre do animal, e com a têta agarrada nas mãos sugava avidamente.Chegando a casa a rapariga narrou o que tinha visto e todos foram concordes que ella devia, para que tal facto se desse, ter entre as hervas que collocara na cabeça trevo de quatro folhas, o que na verdade tinha acontecido».

Leite de Vasconcellos, dá-nos relativamente ás cannas a seguinte lenda colhida em Rebordinhos, Bragança:

Havia uma vez tres irmãos. O mais novo tinha tres maçãsinhas de ouro, e os outros, para ver se lh'as tiravam, mataram-no e enterraram-no n'um monte. Depois nasceu na sepultura uma canna. Certo dia passou por lá um pastor que cortou um pedaço da canna para fazer uma flauta; começou a tocar, mas a flauta, em vez de tocar, dizia:Toca, toca, ó pastor,Os meus irmãos me mataramPor tres maçãsinhas de ouro,E ao cabo não as levaram.O pastor, quando ouviu isto, chamou um carvoeiro e deu-lhe a flauta. O carvoeiro começou tambem a tocar, mas a gaita dizia o mesmo. O carvoeiro passou-a a outra pessoa, e assim ella foi andando de mão em mão, até que chegou ao pae e á mãe do morto; a flauta dizia ainda o mesmo. Chamaram o pastor que disse onde tinha cortado a canna. Foram lá e encontraram o cadaver com as tres maçãs de ouro.

Havia uma vez tres irmãos. O mais novo tinha tres maçãsinhas de ouro, e os outros, para ver se lh'as tiravam, mataram-no e enterraram-no n'um monte. Depois nasceu na sepultura uma canna. Certo dia passou por lá um pastor que cortou um pedaço da canna para fazer uma flauta; começou a tocar, mas a flauta, em vez de tocar, dizia:

Toca, toca, ó pastor,Os meus irmãos me mataramPor tres maçãsinhas de ouro,E ao cabo não as levaram.

O pastor, quando ouviu isto, chamou um carvoeiro e deu-lhe a flauta. O carvoeiro começou tambem a tocar, mas a gaita dizia o mesmo. O carvoeiro passou-a a outra pessoa, e assim ella foi andando de mão em mão, até que chegou ao pae e á mãe do morto; a flauta dizia ainda o mesmo. Chamaram o pastor que disse onde tinha cortado a canna. Foram lá e encontraram o cadaver com as tres maçãs de ouro.

Narciso era um mancebo de uma formosura sem igual, formosura de que se orgulhava em extremo.

Um dia, debruçando-se sobre um regato, envaideceu-se tanto com a frescura e correcção do rosto reflectido na agua que se julgou superior em belleza a todos os sêres celestiaes. Estes, em castigo, transformaram-o na flôr que em memoria do facto ainda hoje lhe conserva o nome.

Pausanias diz que Narciso se afogou pensando vêr na agua, onde o seu rosto se reflectia, a imagem de uma irmã bem amada.

Gubernatis crê que esta lenda representa o sol poente que contempla no espelho do mar, onde vae desapparecer, a imagem de sua irmã a lua.

Sacaibu, o primeiro homem, tinha um filho Rairu a quem profundamente odiava. Resolvendo desfazer-se d'elle, abriu uma grande cóva na terra, cóva que ia ter a um profundo poço natural, e collocou n'ella um porco apenas com a cauda de fóra, e esta untada de visco, e ordenou ao filho que lhe trouxesse o porco senão que o matava. Rairu obedeceu, mas mal agarrou a cauda, ficou com as mãos presas e foi arrastado pelo animal para o fundo do poço, d'onde só pôde sahir á custa de innumeras fadigas. Chegado á terra, correu a contar ao pae que no interior do sólo existiam muitos homens e mulheres que poderiam ir buscar e fazer d'elles escravos que os auxiliassem nos seus trabalhos de cultura. Sacaibu então semeou pela primeira vez o algodão, cuja semente Deus lhe déra, e com elle teceu uma corda que lhe serviu para descer ao poço. Os primeiros homens que tirou eram pequenos e feios, depois extrahiu outros mais formosos e de côr differente e cada vez que descia ao poço a côr variava, até que por ultimo tirou uns completamente brancos. Quando pretendeu depois d'isso tornar a descer, a corda partiu e Sacaibu morreu da queda, razão pelo que não mais appareceram homens superiores em belleza e perfeição aos homens brancos.

N'outros tempos era o chorão uma magestosa arvore levantando nos ares a bella e finissima ramagem. Orgulhoso do seu extraordinario crescimento protestou que havia de chegar ao céo e Deus, em castigo da ousadia, condemnou-o a não poder erguer para o céo os ramos, pois quanto mais crescessem mais haviam de virar para o sólo.

É assaz conhecido o emprego nupcial das flores de laranjeira, como emblema da castidade, da puresa absoluta e completa.

Este vegetal é celebrado desde tempos immemoriaes, não só pelo aroma sem rival das suas formosas flores, mas tambem pelos seus bellos e deliciosos fructos.

Gubernatis escreve o seguinte relativamente á laranjeira:

«Nos contos populares piemonteses, o reino por excellencia, o reino rico, maravilhoso, é o reino dePortugal; e no Piemonte chamam sempreportogallottiás laranjas. Portugal é a região mais occidental da Europa; no ceu, é tambem no extremo occidente, onde o sol se esconde, que acreditam estar situado o reino dos bemaventurados, o paraizo. Foi tambem no extremo occidente que Héraclés descobriu o jardim das Hespérides com a arvore de fructos d'oiro. Por isso assim como o Portugal, a região occidental, o paraizo e o jardim das Hespérides são no mytho, um mesmo e unico paix, assim tambem a laranja, oportogallottoe a maçã das Hespérides, são na linguagem mythica um unico e mesmo fructo. Os gregos como os piemonteses, chamam ás laranjasπορτογαλιάos albanesesprotokalee os proprios kurdosportoghal.Como explicar tal denominação? Será porque as laranjas são melhores e mais abundantes em Portugal do que em qualquer outra parte? Não, mas é porque foi de Portugal que a cultura da laranjeira se propagou na Europa.O jesuita Le Comte, que viveu muitos annos na China, na segunda edição das suasNouveaux mémoires sur l'état présent de la Chine(Paris, 1697, tom. I, pag. 173), dá-nos a seguinte e curiosa informação: «Chamam-lhe em França laranjas da China, porque as que vimos pela primeira vez tinham sido trazidas d'alli. A primeira e unica laranjeira da qual dizem provieram todas, existe ainda em Lisboa na casa do conde de S. Lourenço; é aos portuguezes que devemos um fructo tão excellente».

«Nos contos populares piemonteses, o reino por excellencia, o reino rico, maravilhoso, é o reino dePortugal; e no Piemonte chamam sempreportogallottiás laranjas. Portugal é a região mais occidental da Europa; no ceu, é tambem no extremo occidente, onde o sol se esconde, que acreditam estar situado o reino dos bemaventurados, o paraizo. Foi tambem no extremo occidente que Héraclés descobriu o jardim das Hespérides com a arvore de fructos d'oiro. Por isso assim como o Portugal, a região occidental, o paraizo e o jardim das Hespérides são no mytho, um mesmo e unico paix, assim tambem a laranja, oportogallottoe a maçã das Hespérides, são na linguagem mythica um unico e mesmo fructo. Os gregos como os piemonteses, chamam ás laranjasπορτογαλιάos albanesesprotokalee os proprios kurdosportoghal.

Como explicar tal denominação? Será porque as laranjas são melhores e mais abundantes em Portugal do que em qualquer outra parte? Não, mas é porque foi de Portugal que a cultura da laranjeira se propagou na Europa.

O jesuita Le Comte, que viveu muitos annos na China, na segunda edição das suasNouveaux mémoires sur l'état présent de la Chine(Paris, 1697, tom. I, pag. 173), dá-nos a seguinte e curiosa informação: «Chamam-lhe em França laranjas da China, porque as que vimos pela primeira vez tinham sido trazidas d'alli. A primeira e unica laranjeira da qual dizem provieram todas, existe ainda em Lisboa na casa do conde de S. Lourenço; é aos portuguezes que devemos um fructo tão excellente».

A longa e angustiosa peregrinação da Virgem para fugir com o divino filho aos que o queriam assassinar deu origem a grande numero de lendas, muitas das quaes se referem aos vegetaes, pertencendo a esse numero a que apresentamos relativa á laranjeira.

A sagrada familia veio descançar uma tarde á sombra de uma laranjeira guardada por um cego. A Virgem pediu ao cego uma laranja para dar ao filho e aquelle respondeu-lhe que colhesse quantas quizesse pois todas eram d'ella. Então a Virgem colheu tres, uma para o Christo, outra para si e a terceira para S. José. E em paga da caridade do cego restituiu-lhe a vista.

Os escoceses fizeram do cardo planta nacional em virtude do seguinte e lendario facto:

Nas cruas guerras que em tempos immemoriaes a Escocia sustentou com a Dinamarca, uma noite, em que o exercito escocez fatigadissimo dos combates diurnos dormia descansadamente proximo da mar, os dinamarqueses desembarcaram e, caminhando cautelosamente, estavam prestes a surprehendel-os quando um soldado dinamarquez, tendo inadvertidamente calcado um cardo, picou-se tão valentemente que não pôde deixar de soltar agudo grito, que fez acordar os escocezes e permittir-lhes que podessem derrotar o inimigo obrigando-o a reembarcar em fuga desordenada.

A maçã é um simbolo da geração e da immortalidade.

Sapho compara a virgem á maçã a quem todos desejam emquanto está na arvore, mas que já ninguem a quer quando cae ao sólo velha e pôdre.

Na Sicilia, no dia de S. João, cada rapariga casadoira atira para a rua uma maçã e fica á espreita a ver quem a apanha. Se fôr um homem é signal de que casará dentro de um anno, sendo uma mulher só d'ahi a mais de um anno, um padre então morrerá virgem, e se os viandantes passarem sem fazer caso do fructo é prova evidente de que casando enviuvará.

No Montenegro as noivas antes de entrarem para a nova casa que vão habitar, atiram-lhe para o telhado uma maçã; se esta ficar no telhado o casamento será abençoado com muitos filhos e se rolar vindo caír no sólo é porque a felicidade não sorrirá á noiva nem ella terá filhos.

A lenda da maçã colhida por Eva e comida de sociedade com Adão, e que foi causa da perda da immortalidade, dando-lhe o conhecimento do bem e do mal e com elle o trabalho e a fadiga, é uma lenda puramente phallica, simbolisando a geração origem dos maximos praseres e das maiores amarguras.

Na lenda biblica Eva colhe a maçã, mas nas lendas indianas, d'onde claramente foi aproveitada, o fructo colhido pela primeira mulher e compartilhado pelo primeiro homem, é um fructo rico em sementes, ora a romã, ora a laranja, o figo e a maçã.

Relativamente á maçã ha tambem uma lindissima lenda christã. A Virgem Maria procurava adormecer o seu divino filho que, chorando, não lhe queria socegar no cólo. Então a Virgem, para o entreter, dá-lhe duas maçãs que Jesus brincando atirou aos ares, transformando-se logo uma na lua e outra no sol que nos alumia e aquece.

A figueira da India (Ficus religiosa) é venerada na India principalmente pelos sectarios de Buddha, não a cortando nem lhe tocando nunca com ferro, para não offender o Deus n'ella occulto.

Não só a arvore é adorada mas tambem o local onde alguma viveu é considerado local sagrado. A veneração dos indios peloficus religiosa, é devida á seguinte lenda:

Buddha, apóz a conversão, ia sempre orar sob aquelle vegetal; a rainha, sua esposa, despeitada por aquelle facto, mandou cortar a arvore, e Buddha, quando o soube, sentiu tamanho desgosto que declarou que se a arvore não tornasse a rebentar morreria de pesar. Mandou depois reunir cem bilhas de leite e regar com elle o tronco do vegetal, donde logo brotaram ramos, que cresceram rapidamente, attingindo a altura que hoje téem.

No numero 4, vol. VI, outubro de 1889 daRevista de Guimarães, o dr. Abilio de Magalhães Brandão descreve-nos assim a poetica lenda das maias:

«Houve antigamente um rei chamado Herodes que ao saber que tinha nascido, em Belem, um menino, a que o povo, por toda a parte, chamava o rei dos Judeus, tão furioso ficou que ordenou immediatamente aos seus soldados que degolassem todas as creanças menores de dous annos, que encontrassem em Belem.Herodes presumia que o rei dos Judeus não escaparia d'esta carnificina,—tal era o odio de morte que votava ao menino—que os prophetas tinham vaticinado rei de Israel. Ao anoutecer do dia 30 de abril, cercaram os judeus os muros de Belem, mas esperaram pela madrugada do dia 1.º de maio para começarem a dar cumprimento ás ordens do malvado rei. Apesar de todas as providencias e cautelas, ainda receiavam os judeus que lhes escapasse o menino e por isso se informaram logo da sua morada—que tinha á porta umramo de maiascomo signal,—mas, ao romper do sol do 1.º de maio, todas as casas appareceram milagrosamente com os mesmos ramos á porta.Os judeus ficaram tão furiosos que entraram logo em todas as casas e degolaram todos os meninos, como tinha ordenado Herodes, e só escapou o que procuravam, porque seus paes, José e Maria, tinham fugido com elle, ainda de noute, para o Egypto.Um judeu, que viu passar a mãe do menino, a cavallo n'uma jumentinha, ainda lhe perguntou o que levava nos braços, envolto no manto com que se cobria, ao que ella respondeo: «Levo meu filho!» mas o judeu retorquiu: «Se o levasses não o dirias». E d'este modo, e pelo milagre dasmaias, salvou-se milagrosamente o rei dos judeus».

«Houve antigamente um rei chamado Herodes que ao saber que tinha nascido, em Belem, um menino, a que o povo, por toda a parte, chamava o rei dos Judeus, tão furioso ficou que ordenou immediatamente aos seus soldados que degolassem todas as creanças menores de dous annos, que encontrassem em Belem.

Herodes presumia que o rei dos Judeus não escaparia d'esta carnificina,—tal era o odio de morte que votava ao menino—que os prophetas tinham vaticinado rei de Israel. Ao anoutecer do dia 30 de abril, cercaram os judeus os muros de Belem, mas esperaram pela madrugada do dia 1.º de maio para começarem a dar cumprimento ás ordens do malvado rei. Apesar de todas as providencias e cautelas, ainda receiavam os judeus que lhes escapasse o menino e por isso se informaram logo da sua morada—que tinha á porta umramo de maiascomo signal,—mas, ao romper do sol do 1.º de maio, todas as casas appareceram milagrosamente com os mesmos ramos á porta.

Os judeus ficaram tão furiosos que entraram logo em todas as casas e degolaram todos os meninos, como tinha ordenado Herodes, e só escapou o que procuravam, porque seus paes, José e Maria, tinham fugido com elle, ainda de noute, para o Egypto.

Um judeu, que viu passar a mãe do menino, a cavallo n'uma jumentinha, ainda lhe perguntou o que levava nos braços, envolto no manto com que se cobria, ao que ella respondeo: «Levo meu filho!» mas o judeu retorquiu: «Se o levasses não o dirias». E d'este modo, e pelo milagre dasmaias, salvou-se milagrosamente o rei dos judeus».

Os povos orientaes consideram a abobora como o imperador dos vegetaes; é tambem para elles o emblema da saude pelo seu bello e rotundo aspecto e da fecundidade pelo numero extraordinario de sementes que possue.

A abobora tem dado origem a muitas lendas, e d'entre aquellas de que temos conhecimento, aproveitamos as duas mais curiosas e principaes, de que as restantes não são mais que incorrectas variantes.

Houve tempo em que os lobos não eram carnivoros, mas sim se sustentavam de fructos. Um dia uma porca, procurando alimento, encontrou uma enorme abobora e fazendo-lhe um pequeno orificio, começou a comer-lhe o interior. N'isto vê ao longe um corpulento lobo, e cheia de susto, pois aquelle animal andava em guerra aberta com ella, e sempre que a encontrava, não deixava de a mimosear com uma dentada, escondeu-se dentro da abobora. O lobo encontrando tão bello manjar dispoz-se a devoral-o sem mais cerimonia, mas a porca que estava escondida dentro, cheia de susto, fez desenvolver com os excrementos que expelliu um tão insupportavel fetido, que o lobo, julgando a abobora pôdre, fugiu a toda a pressa e tão nauseado ficou que desde então não mais quiz os vegetaes começando a regalar-se com a carne dos animais que podia caçar.

A segunda lenda—lenda americana—explica assim o diluvio.

Jaià um homem muito poderoso e forte tinha um filho unico que lhe morreu de repente. O pae, querendo dar-lhe uma sepultura differente da de todos os outros humanos, metteu-o dentro de uma enormissima abobora que foi depor no cimo de elevado monte. Dias depois, cheio de saudades pelo filho estremecido, quiz contemplal-o mais uma vez e partiu para o local onde depozera a abobora, mas ao tocar-lhe saíram-lhe de dentro enorme quantidade de peixes e diversos monstros marinhos. Jaià fugiu aterrado e veio narrar o caso para a sua aldeia. Quatro irmãos gemeos quizeram verificar o facto, e quando estavam a procurar mover a colossal abobora a fim de lhe examinar o conteúdo, chegou Jaià tão furioso pela violação a que ia ser sujeito o tumulo do filho que os quatro rapazes, aterrados, deixaram rolar a abobora pelo monte abaixo, e esta, batendo de encontro ás pedras que encontrou no caminho, fendeu-se sahindo-lhe do interior tal quantidade d'agua que toda a terra ficou inundada.

É o arroz symbolo da vida, da geração e da abundancia, representando por isso nas ceremonias nupciaes da India um grande e importante papel. Lá lançam o arroz sobre a cabeça dos nubentes, como entre nós se deitam flores e confeitos; é um prato de arroz o primeiro alimento que os esposos comem juntos, e é com arroz humedecido em manteiga e lançado ao fogo que, finda a ceremonia nupcial, impetram a protecção dos deuses para que os façam felizes e lhes dêem muitos e muitos filhos.

Logo que uma creança nasce, collocam-a em cima de um sacco cheio de arroz para a livrar dos maus olhados, e nenhum indiano tóca no arroz sem antes ter feito as suas abluções.

Para todos os sectarios de Buhdha é elle planta sagrada, destinada ás offerendas á divindade, e a ser servida nos banquetes religiosos e nas ceremonias funerarias.

A sementeira do arroz é feita na India com grande ceremonial religioso, com musicas e bençãos dos brahmanes.

Na China, por occasião das sementeiras, os padres fazem sacrificios ao fogo para que permitta que o anno seja fertil. Para isso andam com resas á volta de uma fogueira, tendo nas mãos um vaso cheio de arroz e sal de que lançam de tempos a tempos um punhado ao fogo. Aqui o fogo symbolisa o sol, que com o seu excessivo calor póde prejudicar inteiramente a producção do arroz que só se dá bem com um excesso de humidade, e é por isso que lhe imploram a sua protecção, o beneficio de uma menor intensidade dos seus raios seccadores.

Para os arabes tambem o arroz é sagrado. Crêem que elle nasceu de uma gotta de suor de Mahomet e que oKuskussú, o querido manjar nacional fabricado com arroz, foi revelado a Mahomet por o anjo Gabriel. Mahomet, sempre que partia para a guerra ou tinha relações com qualquer mulher, comia antes um pouco deKuskussú.

A mais curiosa das lendas do arroz é, porém, a lenda japoneza.

Conta-se no paiz do sol nascente que outr'ora, o unico alimento alli conhecido, era as raizes e as hervas. Porém um dia um bonzo viu um minusculo e formosissimo rato entrar n'uma cavidade proxima da sua habitação, arrastando uma pequenina espiga d'um cereal para elle desconhecido. Querendo saber d'onde viria aquella preciosidade, seguiu o rato, que o levou muito longe, a um paiz ignorado, onde todos os campos estavam cobertos de arroz e onde o bonzo aprendeu a cultival-o, introduzindo-o depois no seu paiz.

Foi d'aqui que nasceu a adoração das populações japonezas pobres, pelo rato, que conservam em casa mumificado, considerando-o como symbolo da abundancia.

Na Italia, assim como em França, Suissa e nos paizes do norte é o zimbro planta obrigatoria para a ornamentação das mezas de jantar, no santo dia do Natal.

A causa d'este antiquissimo uso vem da seguinte lenda:

Quando a Virgem fugia com o Filho aos crueis soldados de Herodes, esteve um dia quasi a ser agarrada, e deveu a salvação a um zimbro que os escondeu, cobrindo-os com os ramos, de fórma que os perseguidores passaram proximo sem os descobrirem. A virgem abençoou então o zimbro e disse-lhe que em recompensa do beneficio que lhe prestára, seria para sempre querido e estimado por toda a christandade, que o associaria annualmente á sua mais doce e sympathica festa.

A nogueira foi considerada pelos antigos como arvore sinistra e funeraria, sob a qual se reunem as feiticeiras, especialmente na noite de S. João, para celebrarem os seus horridos festins, ao passo que o fructo de tão má arvore foi sempre symbolo da abundancia e da geração.

Foi em cascas de nozes que, segundo uma lenda slava, escaparam ao diluvio os homens que depois repovoaram o mundo. Eram cascas de nozes os maravilhosos trens das boas fadas protectoras de nossos antepassados que—ai de nós!—para sempre desappareceram do mundo, e eram estes saborosos fructos os que se distribuiam outr'ora nas bodas como de feliz e prolifico agouro para os noivos.

Na Belgica, no dia de S. Miguel, as donzellas casadoiras abrem cuidadosamente algumas nozes, tiram-lhe o conteudo o collam depois as duas cascas vazias com todo o cuidado, de modo a parecerem intactas, e deitam n'um sacco um numero egual de nozes vazias e nozes cheias. Misturam-as bem, e depois, fechando os olhos, mettem a mão no sacco e tiram uma noz. Se acertam tirar uma cheia é signal de que casarão dentro de um anno, mas se acontece vir uma das vazias, então ainda téem que esperar muito pelo anciado marido...

Entre nós, especialmente no Porto, ha uns leves vestigios d'esta tradição. No dia de S. Miguel é costume, na cidade invicta, comer-se nozes com trigo, o que, dizem, dá a felicidade e a abundancia em casa. E á gente nova, á gente solteira, temos nós ouvido repetidas vezes dizer que «no dia de S. Miguel, nozes com regueifa sabe a casar»...

No sul de França creem que o meio infallivel de conhecer um feiticeiro é collocar-lhe uma noz debaixo da cadeira quando elle estiver sentado, pois não se poderá mais erguer do logar onde estiver emquanto não retirarem a noz. É d'aqui que os camponezes de Bolonha penduram uma noz ao pescoço dos filhos para os livrar de maus olhados. Tem para elles a noz o mesmo valor da nossa figa.

Para os judeus a arvore do bem e do mal era uma nogueira, e o fructo que Deus prohibira a Adão que comesse, uma noz.

Gubernatis conta-nos assim esta formosa lenda:

«Um dos nomes populares que na Russia se dá a esta planta éTziganca(planta dos Bohemios) ouZabii kruéaouSinii lomonos. A proposito d'este vegetal dizem, n'aquelle paiz, que outr'ora, quando os cossacos andavam em guerra com os tartaros, os primeiros, n'um combate encarniçadissimo, possuiram-se de tal terror, que começaram a debandar ante o inimigo, sem attenderem aos chefes, que os incitavam á resistencia. Ohetman, não os podendo conter, desesperado, suicidou-se espetando a lança na cabeça. N'isto desencadeou-se uma tempestade medonha que, envolvendo os cossacos cobardes e traidores, os desfez em mil pedaços, misturando-os com a terra dos tartaros.Pouco depois, do sólo, sepultura dos fugitivos, brotou aClematis integrifolia. Mas as almas dos cossacos, que não tinham descanço por os corpos estarem sepultados na terra dos tartaros, tanto pediram a Deus, que este mandou semear aClematisna Ukranie. E desde então, em memoria do facto, as donzellas cossacas enfeitam-se com grinaldas daTziganka, que passou a ser uma planta nacional».

«Um dos nomes populares que na Russia se dá a esta planta éTziganca(planta dos Bohemios) ouZabii kruéaouSinii lomonos. A proposito d'este vegetal dizem, n'aquelle paiz, que outr'ora, quando os cossacos andavam em guerra com os tartaros, os primeiros, n'um combate encarniçadissimo, possuiram-se de tal terror, que começaram a debandar ante o inimigo, sem attenderem aos chefes, que os incitavam á resistencia. Ohetman, não os podendo conter, desesperado, suicidou-se espetando a lança na cabeça. N'isto desencadeou-se uma tempestade medonha que, envolvendo os cossacos cobardes e traidores, os desfez em mil pedaços, misturando-os com a terra dos tartaros.

Pouco depois, do sólo, sepultura dos fugitivos, brotou aClematis integrifolia. Mas as almas dos cossacos, que não tinham descanço por os corpos estarem sepultados na terra dos tartaros, tanto pediram a Deus, que este mandou semear aClematisna Ukranie. E desde então, em memoria do facto, as donzellas cossacas enfeitam-se com grinaldas daTziganka, que passou a ser uma planta nacional».

Pela facilidade da multiplicação, a semente da mostarda é entre os povos orientaes symbolo da geração.

Tambem serve o oleo da mostarda para a descoberta das feiticeiras. Para isto basta, segundo os Indús, encher um grande vaso de vidro com agua e derramar-lhe dentro o oleo gotta a gotta, pronunciando no momento da quéda de cada gotta na agua o nome de uma mulher. Se na occasião da quéda da gotta a agua se turva e n'ella se vê apparecer uma como sombra de mulher, aquella cujo nome coincidiu com o lançamento do oleo na agua é, sem a menor duvida, uma grande feiticeira.

A mais curiosa lenda, da India, relativa á mostarda, é a da fada Bakanali, onde claramente se frisa o valor gerativo d'este vegetal.

O deus Indra, em castigo de grave falta, transformou a fada Bakanali em estatua de marmore, condemnando-a a permanecer assim durante doze annos no templo de Ceylão.

O rei d'aquelle paiz, por um dos maleficos caprichos a que amiudadas vezes estão sujeitos os reis, arrasou o templo e reduziu todas as estatuas a pó. Dias depois, o local onde esteve o templo, appareceu todo coberto d'uma planta até então desconhecida.

Quando a planta deu semente, o jardineiro do rei extrahiu d'ella um oleo tão aromatico, que a rainha, a quem foi offerecido, quiz logo proval-o. Mal porém o chegou aos labios, ella, que era esteril, sentiu-se immediatamente gravida, e nove mezes depois deu á luz uma filha, que não era mais que a fada Bakanali, novamente recuperando a sua fórma terrestre.

D'uma brilhante chronica de Emygdio de Oliveira, publicada no jornal portuenseDiario do Commercio, extrahimos a seguinte e deliciosa lenda sobre a tilia:

«O Porto é a cidade das tilias. Aposto que ainda não repararam n'isso! Que por toda a parte, pela beira do rio, no miradouro das Virtudes, na maior parte das ruas da cidade cresce, coberta de pequeninas flores doiradas, a arvore encantadora da tilia? Pois é verdade. Emquanto os senhores conselheiros municipaes se esforçam, dia e noite, sonhando e combinando, em fazer da nossa querida terra o foco de pestilencias, cubiçadas pelo microbio (o microbio é o Legrand do mundo fétido), a divina providencia, singelamente, n'um sorriso, como mulher que se entrega, sem lagrimas, sem phrases, sublimemente, persiste em fazer do Porto uma das mais bellas cidades da Europa, dando-lhe o mais esplendido céo azul escuro, a frescura salina das brisas do oeste e a prodigiosa vegetação de arbustos e de flores, de que ha memoria nas terras peninsulares.Ah! como são bellas as tilias portuenses!Pois de todas essas bellas tilias, a mais bella é a da Praça de D. Pedro. Eu gosto das creaturas audaciosas, e—confessem! confessem!—nascer, rebentar, estender-se para o céo, encher-se de folhas, ramilhetar-se de pequeninas flores perfumadas, n'uma elegante toilettepompadour, na Praça de D. Pedro—é o cumulo da audacia e do protesto contra omeio, mesmo em face dodomus municipalis, que é o grande laboratorio das coisas sujas.Depois... eu tenho uma intima e profunda sympathia pela legenda, pelos avatares do sentimentalismo antigo, cavalheiresco, cheio de crendices, á João V; e é graciosa a legenda da tilia da Praça de D. Pedro.Dizem os pardalitos que se acoitam alli, de noite, que aquella arvore graciosa, tão cheia de encantamento e de aroma, nasceu na terrivel epoca, em que os visionarios da liberdade eram fatalmente assassinados no centro da Praça, a fradaria bebendo e fazendo toasts pelos desventurados que, como morriam de mais alto, viam até mais longe.Um d'elles era um bello rapaz, de olhar ousado e scintillante, que tivera a audacia de chamar meretriz áquella mulher que vivera no regio palacio, conspirando contra a patria e contra o esposo, que era então rei de Portugal.Foi enforcado. N'aquella noite de outubro, uma creatura celeste, depois de muitas allucinações e muitas lagrimas, caíu sobre o sólo, beijando uma gotta de sangue.Foi n'esse mesmo logar que a primavera seguinte fez brotar, crescer, florir aquella gentilissima tilia, que todos os annos se cobre de lagrimas doiradas, como lagrimas de amante que se despede para outra vida, em noites de luar.Ah! como eu amo as tilias».

«O Porto é a cidade das tilias. Aposto que ainda não repararam n'isso! Que por toda a parte, pela beira do rio, no miradouro das Virtudes, na maior parte das ruas da cidade cresce, coberta de pequeninas flores doiradas, a arvore encantadora da tilia? Pois é verdade. Emquanto os senhores conselheiros municipaes se esforçam, dia e noite, sonhando e combinando, em fazer da nossa querida terra o foco de pestilencias, cubiçadas pelo microbio (o microbio é o Legrand do mundo fétido), a divina providencia, singelamente, n'um sorriso, como mulher que se entrega, sem lagrimas, sem phrases, sublimemente, persiste em fazer do Porto uma das mais bellas cidades da Europa, dando-lhe o mais esplendido céo azul escuro, a frescura salina das brisas do oeste e a prodigiosa vegetação de arbustos e de flores, de que ha memoria nas terras peninsulares.

Ah! como são bellas as tilias portuenses!

Pois de todas essas bellas tilias, a mais bella é a da Praça de D. Pedro. Eu gosto das creaturas audaciosas, e—confessem! confessem!—nascer, rebentar, estender-se para o céo, encher-se de folhas, ramilhetar-se de pequeninas flores perfumadas, n'uma elegante toilettepompadour, na Praça de D. Pedro—é o cumulo da audacia e do protesto contra omeio, mesmo em face dodomus municipalis, que é o grande laboratorio das coisas sujas.

Depois... eu tenho uma intima e profunda sympathia pela legenda, pelos avatares do sentimentalismo antigo, cavalheiresco, cheio de crendices, á João V; e é graciosa a legenda da tilia da Praça de D. Pedro.

Dizem os pardalitos que se acoitam alli, de noite, que aquella arvore graciosa, tão cheia de encantamento e de aroma, nasceu na terrivel epoca, em que os visionarios da liberdade eram fatalmente assassinados no centro da Praça, a fradaria bebendo e fazendo toasts pelos desventurados que, como morriam de mais alto, viam até mais longe.

Um d'elles era um bello rapaz, de olhar ousado e scintillante, que tivera a audacia de chamar meretriz áquella mulher que vivera no regio palacio, conspirando contra a patria e contra o esposo, que era então rei de Portugal.

Foi enforcado. N'aquella noite de outubro, uma creatura celeste, depois de muitas allucinações e muitas lagrimas, caíu sobre o sólo, beijando uma gotta de sangue.

Foi n'esse mesmo logar que a primavera seguinte fez brotar, crescer, florir aquella gentilissima tilia, que todos os annos se cobre de lagrimas doiradas, como lagrimas de amante que se despede para outra vida, em noites de luar.

Ah! como eu amo as tilias».

A leituga foi considerada nos tempos antigos como planta nefasta, apreciada pelo demonio, que d'ella se servia para os seus maleficios.

Sonhar-se com leitugas, era signal certo de proximo e irremediavel dissabôr.

Alberto o Grande, no seu curioso livroDe secretis mulierumdiz que a leituga serve para conhecer, sem o menor engano, se uma mulher é ou não virgem:Accipe fructum lactucæ et pone ante nares ejus; si tunc est corrupta, statim mingit.

Esta planta servia-se outr'ora nos jantares funerarios em memoria da morte do filho de Myrrha; era tambem tida como causadora de impotencia.

Adonis, mancebo d'uma proverbial e extraordinaria formosura, nasceu do incesto de Cyniras, rei de Chypre, com sua filha Myrrha. Foi doidamente amado por quasi todas as deusas, especialmente por Venus e Prosérpina. Estando Adonis um dia a dormir n'um descampado, a deusa Aphrodite, que por alli passou, fez brotar á volta d'elle, para o resguardar dos ardores do sol, um massiço de leitugas.

Um corpulento javali, attrahido pelas leitugas, começou a devoral-as sofregamente, pisando e ferindo tão cruelmente o bello Adonis que elle morreu pouco tempo depois.

Jupiter, o rei dos deuses, condoído dos choros de Venus, deu novamente a vida a Adonis, mas Prosérpina, rainha dos infernos, só accedeu a isto com a condição de que elle passaria seis mezes do anno em sua companhia e outros seis na de Venus.

Venus, porém findos os seis mezes não o quiz restituir a Prosérpina, o que originou grande discussão entre os deuses, e então Jupiter ordenou que Adonis pertencesse quatro mezes a Venus, quatro a Prosérpina e ficasse livre os restantes quatro.

A oliveira representou sempre importante papel nas crenças populares antigas. A oliveira era o simbolo da paz e da abundancia. Foi um ramo de oliveira que a pomba trouxe para a arca, a Noé, em signal de as aguas já se terem afastado da terra, e a paz estar feita entre Deus e os homens. Era com corôas feitas de ramos de oliveiras e de louro que se enfeitavam os vencedores dos jogos olimpicos e os guerreiros victoriosos.

Em quasi toda a Europa meridional substituem no domingo de Ramos as folhas de palmeira por ramos de oliveira, e crêem que estes, queimados em occasião de temporal, abrandam a furia dos elementos desencadeados e livram do raio. Nos Abruzzos, no dia de S. Marcos, vão plantar no meio dos campos um ramo de oliveira, na esperança de boa colheita e de os livrar do granizo e das inundações.

Diziam os antigos que as feiticeiras e o diabo não podiam entrar na casa onde houvesse ramo de oliveira abençoado pelos padres.

As leis athenienses castigavam severamente todo aquelle que fizesse mal ás oliveiras, ou se servisse da sua madeira para o lume.

Em Ombria e na Terra de Otranto as raparigas que querem saber se chegarão a casar vão, no dia de Pascoella, nuas, colher um ramo de oliveira. Chegadas a casa tiram uma folha, humedecem-a com saliva e lançam-a ao fogo pronunciando o seguinte:

Si me vuo' bene, salta salticchia,Si me vuo' male stá fissa fissa.

Se a folha saltar tres vezes ou se voltar no fogo é signal de que hão-de casar. Se a folha arder sem fazer o menor movimento podem perder completamente a esperança de encontrar marido.

Na Italia meridional as noivas, no dia do casamento, quando recolhidas no quarto, batem levemente no marido com um ramo de oliveira em signal de que no quarto de cama quem manda é a mulher.

Na Grecia antiga acreditava-se que a oliveira devia o nascimento a Minerva a deusa da sabedoria.

Discutindo Neptuno e Minerva qual daria o nome a uma cidade fundada por Cecrops, os deuses chamados para resolver a questão, determinaram que seria aquelle que fizesse a mais util creação para os humanos. Neptuno batendo na terra com o tridente, fez d'ella sahir um cavallo e Minerva, ferindo o sólo com a lança, fez apparecer uma oliveira carregada de fructo. Os deuses decidiram a contenda em favor de Minerva que deu á cidade o nome de Athenas.

Uma lenda allemã diz que a oliveira brotou da sepultura do primeiro homem, de Adão, e que foi do tronco da oliveira que os hebreus fabricaram a cruz em que pregaram Christo.

Tambem ha uma lenda grega que diz que foi da oliveira e não do carvalho que nasceu da maça de Hercules, e uma lenda hebraica narra que procurando as arvores um rei dirigiram-se primeiro á oliveira que não acceitou, por isso que não queria perder os seus bellos fructos sacrificados ás canceiras da realeza, depois á vide e á figueira que por motivo identico recusaram tambem, e por ultimo ao carvalho, que acceitou.

O azeite, extrahido do fructo da oliveira era venerado pelos antigos. Os athenienses esfregavam o corpo com azeite para conservar a belleza da pelle, e os christãos fizeram d'elle o oleo santo que applicam aos moribundos como simbolo da vida eterna.

A oliveira era para os antigos a arvore da vida por isso que produzia o azeite, que arde nas lampadas, conservando a luz durante a noite, a luz a origem de toda a vida terrestre.

O myosotis (Hieracium pilosella) a deliciosa florsinha das margens dos regatos, aNontiscordar di medos italianos, aVergissmeinnichtdos allemães, e aOreja de ratondos hespanhoes, tem sido cantada pelos poetas de todos os tempos e apreciada por todos os povos, que lhe dedicam particular e especial estima.

E na verdade a bella flôr de um azul tão doce e tão suave, de uma côr de que ella quasi que guarda o exclusivo em todo o reino vegetal, merece o apreço em que é tida pela sua excepcional formosura, que modestamente esconde entre a larga vegetação das margens dos regatos.

É a flôr dos namorados, que como ella procuram a solidão, os logares cheios de sombras e de serenidade para trocarem as suas intimas confidencias, as suas apaixonadas caricias amorosas.

Uma antiga ballada italiana narra da seguinte fórma o apparecimento do myosotis no nosso globo.

Um pobre camponez ao vêr-se atraiçoado pela noiva que o trocou por outro mais rico e que mais lhe podia proporcionar os gosos que ambicionava, afogou-se de pezar.

As aguas do rio balouçaram durante dias o corpo do desditoso e as nimphas condoídas da sorte do infeliz, tão novo e tão formoso, imploraram para elle a protecção dos deuses. Levantou-se então enorme temporal e as aguas arremessaram para longe de si o cadaver retido, que ao tocar na margem, foi immediatamente metamorphoseado nas bellas flores com que as nymphas depois constantemente se enfeitaram.

O myrtho foi consagrado a Venus e a Minerva. Venus, após o nascimento, tendo-se na ilha de Chypre envergonhado da sua nudez, escondeu-se atraz de um myrtho, adoptando-o depois em signal de reconhecimento, como planta bem amada.

Minerva e a nympha Myrsiné desafiaram-se um dia a vêr qual era mais veloz na carreira. Venceu Myrsiné e Minerva despeitada, transformou-a em myrtho, planta com que em seguida se enfeitou para constantemente recordar o ultrage de que fôra victima.

Na Grecia e em Roma antiga coroavam com myrtho os recem-casados, por isso que na sua qualidade de planta dedicada a Venus, a deusa do amor, não só tinha a virtude de fazer nascer um violento amor no coração dos esposos mas tambem de o conservar constante por toda a vida.

Este uso ainda está ao presente em vigor em algumas localidades da Europa central, especialmente na Allemanha.

Em todo o imperio romano era prohibido, sob severas penas, colocar ramos de myrtho nos altares daBona Dea, por isso que o myrtho fazia recordar aos fieis os gosos materiaes que no logar sagrado deviam ser completamente esquecidos.

O pinheiro é simbolo da geração e da immortalidade.

Da geração pela fórma do fructo que os antigos pensavam representar uma parte do corpo de Atys, sacerdote de Cybele, que violando o voto de castidade feito á deusa, mutilara-se, sendo em seguida transformado por Cybele em pinheiro.

Da vida eterna por causa da folhagem sempre verde, mesmo sob as maiores neves, da solidez da madeira e por fructificar em pleno inverno.

Na Russia enfeitam as mesas dos banquetes nupciaes com ramos de pinheiro e no Japão os noivos bebem tres pequenas taças desakédiante de um pinheiro, que significa a fidelidade conjugal e a perpetuidade do genero humano, a imagem de um grou simbolo tambem da fidelidade, a de uma tartaruga como desejo de longa vida, pois os orientaes acreditam que este chelonio vive dous mil annos, e de um grupo representando um velho e uma velha, secularmente celebres por causa do intenso amor e da harmonia em que vireram durante toda a longa vida.

A resina do pinheiro é empregada desde tempos immemoriaes como o melhor remedio para as doenças pulmonares, e dos fructos do pinheiro extrahiam tambem os gregos e os romanos um remedio afamado para o mesmo fim.

Os vinhos eram outr'ora conservados por meio de resina e de pinhas que deitavam de infusão nas vasilhas onde elle era guardado.

Ha na Roumania uma lenda que diz que morrendo de pesar dois amantes violentamente separados pelas respectivas familias, e sendo sepultados no mesmo cemiterio foram transformados um em pinheiro e outro em vide, continuando a enlaçar-se ternamente mesmo depois da morte.

O christianismo consagrou tambem o pinheiro. É a arvore empregada de preferencia na noite de Natal, a arvore querida e amada pelos povos do norte que a vêem verdejante e cheia de fructo na epocha em que as neves fazem desapparecer a vegetação da superficie da terra.

Parece que o uso do pinheiro como arvore do Natal vem da seguinte e poetica lenda:

Quando a sagrada familia fugia á perseguição de Herodes, apertada de perto pela soldadesca, chegou a um descampado onde havia apenas um pinheiro de quem a Virgem, chorosa, supplicou protecção.

A arvore, compadecida, curvou os ramos até ao sólo e escondendo Jesus no centro de uma larga pinha retomou a primitiva posição natural. Passado o perigo Jesus abençoou a boa arvore, dando-lhe não só a particularidade de vegetar em todos os terrenos e resistir a todas as intemperies, mas tambem permittindo-lhe que em recordação da sua demorada estada na pinha esta conservasse, para sempre, no interior o signal da divina mão que a abençoara.

Polydoro, filho de Priamo e de Hecuba, foi morto após o cerco de Troya por Polymnestor, ancioso de se apoderar das immensas riquezas que Polydoro possuia.

Depois de morto, Polydoro foi transformado em pilriteiro, e quando se cortava algum ramo ao vegetal corria logo sangue da parte contundida em signal do triste facto que elle simbolisava.

O diabo queixou-se um dia a Christo de que tendo ajudado Deus a crear o mundo nada recebera em paga dos seus trabalhos.

A queixa sendo achada justa, Christo deu-lhe em paga o milho e a aveia.

O diabo partiu saltando de contente, porém no caminho, com a alegria, esqueceu-se do nome das plantas que lhe tinham sido dadas.

S. Pedro e S. Paulo a saberem da liberalidade de Christo lastimaram que tivesse feito ao diabo uma tão importante dadiva.

—Agora o que dei, está dado, não o posso tornar a tirar, disse Christo.

—Pois bem, replicou S. Paulo, vou fazer com que o diabo fique sem os bons vegetaes em troca de outros maus.

E partindo a toda a pressa sahiu ao encontro do diabo. Este ia triste e cabisbaixo procurando lembrar-se das plantas que Christo lhe déra.

—Que tendes, perguntou S. Paulo?

—Christo deu-me dous vegetaes e eu não me lembro quaes são.

—Eu sei, replicou S. Paulo, um é a canna...

—É verdade, é a canna, atalhou o diabo esfregando as mãs de contente, mas o outro?

—O outro é a serralha.

—A serralha, a serralha, uivou o diabo, que fugiu sem dar os agradecimentos a S. Paulo, que d'esta fórma conseguiu livrar do poder do diabo dous dos mais uteis vegetaes dando-lhe em troca outros de insignificante valor.

A mangerona (Origanum majoranaL.) é aamarakosdos gregos. Os romanos serviam-se da mangerona para tecer corôas aos recem-casados e em Creta esta planta é ainda hoje o simbolo da honra, tendo a virtude de afugentar das mulheres os mal intencionados seductores.

A lenda da mangerona é uma lenda grega. Amaracus era um favorito do rei de Chypre que este estimava immenso e a quem confiava serviços da maior confiança e da mais alta responsabilidade.

Um dia encarregando-o o rei de lhe trazer um precioso vaso cheio de perfumes, Amaracus deixou-o cahir no sólo onde se fez em pedaços.

Cheio de pesar e de susto pelo mal causado, cahiu com uma violenta sincope e então os deuses amerciados da sua grande e irremediavel dôr transformaram-o n'uma planta odorifera que ficou tendo o nome do desastrado Amaracus.

Gubernatis escreve o seguinte do linho:

«A antiguidade indiana via no céo, na alva e na aurora, uma teia luminosa; a esposa divina, a aurora, tecia a camisa nupcial, o vestido do esposo divino, o sol. Os deuses vestiam-se com uma veste luminosa, d'um tecido branco ou vermelho, de prata ou de oiro. Os padres, na terra, adoptaram o mesmo costume branco na India, no Egypto, na Asia Menor, em Roma e nos paizes christãos, chamando-se ainda hojealvaá camisa branca dos padres e dos meninos de côro.O linho era de tal fórma estimado no norte que, até ao seculo XII, na ilha de Rugen, servia de moeda.«Apud Ranos, escrevia Helmold, I, 38, 7, citado por Hehn (Kulturpflanzen u. Hausthiere, Berlin, 1874)non habetur maneta, nec est in comparandis rebus consuetudo nummorum, sed quidquid in foro mercari volueris, panno lineo comparabis».Güldenstadt, no seculo passado, deparou ainda com uso identico no Caucaso. Nos contos populares falla-se muitas vezes de camisas ou vestidos tecidos com fios tão extraordinariamente finos, que podiam ser guardadas dentro da casca de uma noz. Hérodoto e Plinio mencionam um linho enviado da Grecia por o rei Amasis, cujo fio era composto de 360 ou 365 fios, allusão evidente aos dias do anno.Na canção popular veneziana do grillo e da formiga, o grillo fia linho e a formiga pede-lhe um fio evidentemente para continuar a fiar, pois os dois animaes figuram na mitologia zoologica em estações differentes. Os fios de linho são tidos como representando os raios do sol, e segundo uma superstição popular siciliana, attrahem-os tambem.Em Modica, na Sicilia, escreve o snr. Amabile, para fazer desapparecer as dôres de cabeça produzidas pela insolação, queimam, com acompanhamento de imprecações, estopa de linho n'um copo onde depois se deita agua; colocam em seguida o vidro n'um prato branco e este sobre a cabeça do doente; pretendem que, d'este modo, fazem desapparecer da cabeça e passar para o linho toda a doença causada pelo sol.No Valle Soana, no Piemonte, acreditam que vêr em sonhos, linho mergulhado na agua é um aviso de morte por todo o anno.O linho é simbolo da vida, da vegetação facil e abundante. É por isso que na Allemanha, quando uma creança cresce vagarosamente ou lhe custa a andar, na vespera do dia de S. João, a colocam núa no sólo, semeando-lhe linho em redor, e logo que o linho principiar a rebentar deve a creança começar a crescer e a andar».

«A antiguidade indiana via no céo, na alva e na aurora, uma teia luminosa; a esposa divina, a aurora, tecia a camisa nupcial, o vestido do esposo divino, o sol. Os deuses vestiam-se com uma veste luminosa, d'um tecido branco ou vermelho, de prata ou de oiro. Os padres, na terra, adoptaram o mesmo costume branco na India, no Egypto, na Asia Menor, em Roma e nos paizes christãos, chamando-se ainda hojealvaá camisa branca dos padres e dos meninos de côro.

O linho era de tal fórma estimado no norte que, até ao seculo XII, na ilha de Rugen, servia de moeda.

«Apud Ranos, escrevia Helmold, I, 38, 7, citado por Hehn (Kulturpflanzen u. Hausthiere, Berlin, 1874)non habetur maneta, nec est in comparandis rebus consuetudo nummorum, sed quidquid in foro mercari volueris, panno lineo comparabis».

Güldenstadt, no seculo passado, deparou ainda com uso identico no Caucaso. Nos contos populares falla-se muitas vezes de camisas ou vestidos tecidos com fios tão extraordinariamente finos, que podiam ser guardadas dentro da casca de uma noz. Hérodoto e Plinio mencionam um linho enviado da Grecia por o rei Amasis, cujo fio era composto de 360 ou 365 fios, allusão evidente aos dias do anno.

Na canção popular veneziana do grillo e da formiga, o grillo fia linho e a formiga pede-lhe um fio evidentemente para continuar a fiar, pois os dois animaes figuram na mitologia zoologica em estações differentes. Os fios de linho são tidos como representando os raios do sol, e segundo uma superstição popular siciliana, attrahem-os tambem.

Em Modica, na Sicilia, escreve o snr. Amabile, para fazer desapparecer as dôres de cabeça produzidas pela insolação, queimam, com acompanhamento de imprecações, estopa de linho n'um copo onde depois se deita agua; colocam em seguida o vidro n'um prato branco e este sobre a cabeça do doente; pretendem que, d'este modo, fazem desapparecer da cabeça e passar para o linho toda a doença causada pelo sol.

No Valle Soana, no Piemonte, acreditam que vêr em sonhos, linho mergulhado na agua é um aviso de morte por todo o anno.

O linho é simbolo da vida, da vegetação facil e abundante. É por isso que na Allemanha, quando uma creança cresce vagarosamente ou lhe custa a andar, na vespera do dia de S. João, a colocam núa no sólo, semeando-lhe linho em redor, e logo que o linho principiar a rebentar deve a creança começar a crescer e a andar».

O platano era particularmente venerado na Grecia, sendo consagrado ao genio. Era sob os platanos que se reuniam os sabios gregos para discutirem os mais transcendentes assumptos, e sob elles que especialmente se abrigavam da chuva.

A formosa Europa, dormia sob um platano quando foi roubada por Jupiter metamorphoseado em touro.

Xerxes atravessando a Lydia, apaixonou-se tanto por um corpulento platano que o fez ornamentar de custosos collares e braceletes d'ouro.

Na Grecia quando alguns noivos se separam trocam, em signal de fidelidade, duas metades de uma mesma folha de platano, e quando se tornam a encontrar apresentam-as, devendo as duas partes formar perfeitamente a primitiva folha. Se isto se não dér é porque aquelle cuja metade estiver defeituosa foi infiel durante a ausencia.

Diz Gubernatis que os druídas tinham o trevo em grande veneração, e que S. Patricio para explicar o misterio da Trindade aos irlandezes se servia de trevo, mostrando-lhes as tres folhas do vegetal n'uma mesma haste.

Em França, Italia, Hespanha, e mesmo entre nós, o povo estima e venera particularmente o trevo de quatro folhas e crê que a pessoa que encontrar uma d'estas plantas, sendo mulher, casará dentro de um anno e, sendo homem, terá no mesmo espaço de tempo grandes felicidades.

Aproveitamos do distincto sabio inglez, Brueyre a seguinte e deliciosa lenda metereologica relativa ao trevo:

«N'uma tarde de verão, uma rapariga veio mugir as vaccas mais tarde que o costume, e as estrellas começavam a scintillar no firmamento, quando ella terminou a tarefa. Daisy, uma vacca encantada, era a unica que faltava para mugir, mas o cantaro estava tão cheio, que a rapariga deixou-a sem lhe tirar o leite.Antes de pôr o cantaro á cabeça a rapariga cortou um punhado de hervas differentes entre as quaes ia muito trevo, e com ellas fez uma almofada para levar mais commodamente o cantaro.Porém logo que colocou a almofada na cabeça viu centenas, milhares de pequeninos trasgos correndo de todos os lados para a vacca, que estava deitada no sólo, e agarrarem-se-lhe ás têtas, que mugiam em flores de trevo, sugando-as depois com delicia. As hervas que estavam junto as têtas de Daisy cresciam a olhos vistos, cercando por todos os lados a corpulenta vacca, e os trasgos corriam por entre ellas, levando bem-me-queres, verdeselhas, flores de digitalis e flores de trevo onde recolhiam o leite que corria das quatro têtas ao mesmo tempo, como abundante chuva da primavera. Sob uma das têtas a rapariga viu um trasgo maior que os outros, que, para se banquetear mais á vontade, se tinha deitado de costas, ficando os pés no ventre do animal, e com a têta agarrada nas mãos sugava avidamente.Chegando a casa a rapariga narrou o que tinha visto e todos foram concordes que ella devia, para que tal facto se desse, ter entre as hervas que collocara na cabeça trevo de quatro folhas, o que na verdade tinha acontecido».

«N'uma tarde de verão, uma rapariga veio mugir as vaccas mais tarde que o costume, e as estrellas começavam a scintillar no firmamento, quando ella terminou a tarefa. Daisy, uma vacca encantada, era a unica que faltava para mugir, mas o cantaro estava tão cheio, que a rapariga deixou-a sem lhe tirar o leite.

Antes de pôr o cantaro á cabeça a rapariga cortou um punhado de hervas differentes entre as quaes ia muito trevo, e com ellas fez uma almofada para levar mais commodamente o cantaro.

Porém logo que colocou a almofada na cabeça viu centenas, milhares de pequeninos trasgos correndo de todos os lados para a vacca, que estava deitada no sólo, e agarrarem-se-lhe ás têtas, que mugiam em flores de trevo, sugando-as depois com delicia. As hervas que estavam junto as têtas de Daisy cresciam a olhos vistos, cercando por todos os lados a corpulenta vacca, e os trasgos corriam por entre ellas, levando bem-me-queres, verdeselhas, flores de digitalis e flores de trevo onde recolhiam o leite que corria das quatro têtas ao mesmo tempo, como abundante chuva da primavera. Sob uma das têtas a rapariga viu um trasgo maior que os outros, que, para se banquetear mais á vontade, se tinha deitado de costas, ficando os pés no ventre do animal, e com a têta agarrada nas mãos sugava avidamente.

Chegando a casa a rapariga narrou o que tinha visto e todos foram concordes que ella devia, para que tal facto se desse, ter entre as hervas que collocara na cabeça trevo de quatro folhas, o que na verdade tinha acontecido».


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