ARRHAS POR FORO D'HESPANHA (1371-2)

A Arraya-Miuda

O sino das ave-marias, ou da oração, tinha dado na torre da sé a ultima badalada, e pelas frestas e portas dessa multidão de casas, que apinhadas á roda do castello, e como enfeixadas e comprimidas pela apertada cincta das muralhas primitivas de Lisboa, pareciam mal caberem nellas, viam-se fulgurar aqui e acolá as luzes interiores, emquanto as ruas, tortuosas e immundas, jaziam como baralhadas e confusas sob o manto das trevas. Era chegada a hora dos terrores; porque durante a noite, naquelles bons tempos, a estreita senda de bosque deserto não era mais triste, temerosa e arriscada que a propria rua-nova, a mais opulenta e formosa da capital. O que, porém, havia ahi desacostumado e estranho era o completo silencio e a escuridão profunda em que jazia sepultado o paço d'apar S. Martinho, onde então residia elrei D. Fernando, ao mesmo tempo que pelos becos e encruzilhadas soava um tropear de passadas, um sussurro de vozes vagas, que indicavam terem sido agitadas as ondas populares pelo vento de Deus, e que ainda esse mar revolto não tinha inteiramente cahido na calma e somnolencia que vem após a procella.

E assim era, com effeito, como o leitor poderá averiguar por seus proprios olhos e ouvidos, se, manso, manso e disfarçado, quizer entrar comnosco na mui affamada e antiga taberna do velho Folco Taca, que nos fica bem perto, logo ao sair da sé, na rua que sobe para os paços da alcaçova, sete ou oito portas acima dos paços do concelho.

A taberna de micer Folco Taca, genovez, que viera a Portugal ainda impubere, como pagem d'armas do famoso almirante Lançarote Peçanha, e que havia annos abandonára o serviço maritimo para se dar á mercancia, era a mais celebre entre todas as de Lisboa, não só pelo luxo do seu adereço, e bondade dos liquidos encerrados nas cubas monumentaes que a pejavam, mas tambem porque em um aposento mais retirado e interior uma vasta banca de pinho e muitos assentos rasos, ou escabellos, offereciam todo o commodo aos tavolageiros de profissão, para perderem ou ganharem ahi, em noites de jogo infrene, os bellos alfonsins e maravedis de ouro, ou as estimadas dobras de D. Pedro I, que, ao contrario dos seus antecessores e successores, julgára ser mais rico e poderoso fazendo cunhar moeda de bom toque e peso, do que roubando-lhe o valor intrinseco, e augmentando-lhe o nominal, segundo o costume de todos os reis no começo de seu reinar.

Micer Folco soubera estender grossas nevoas sobre os olhos do corregedor da côrte e de todos os saiões, algozes e mais familia da nobre raça dos alguazis sobre a illegalidade de semelhante estabelecimento industrial. O elixir que elle empregára para produzir essa maravilhosa cegueira não sabemos nós qual fosse; mas é certo que não se perdeu com a alchimia, porque se vê que elle existe em mãos abençoadas, produzindo ainda hoje repetidos milagres em tudo analogos a este.

Era, pois, na taberna-tavolagem da porta do ferro, conhecida vulgarmente por tal nome em consequencia da vizinhança desta porta da antiga cêrca, onde os ruídos vagos e incertos, que sussurravam pelas ruas da cidade, soavam mais alta e distinctamente, como em sorvedouro marinho as ondas, remoinhando e precipitando-se, estrepitam no centro da voragem com mais soturno e retumbante fragor. A vasta quadra da taberna estava apinhada de gente, que trasbordava até o breve terreirinho da sé, falando todos a um tempo, accesos, ao que parecia, em violentas disputas, que ás vezem eram interrompidas pelo mais alto brado das pragas e blasphemias, indicio evidente de que o successo que motivava aquella assuada ou tumulto era negocio que excitava vivamente a colera popular.

Já no fim do seculo decimo-quarto era o povo, assim como boje, colerico. Então coleras da puericia; hoje aborrimentos de velhice.

Se na rua o borborinho era tempestuoso e confuso, dentro da casa de micer Folco a bulha podia chamar-se infernal. Para um dos lados, no meio de uma espessa mó de populares, ouviam-se palavras ameaçadoras, sem que fosse possivel perceber contra qual ou quaes individuos se accumulava tanta sanha. Para outra parte, d'entre o vozear de uma cerrada pinha de mulheres, cuja vida de perdição se revelava nos seus coromens de panno d'Arrás, nos cinctos escuros, nas camisas e véus desadornados e lisos, rompiam risadas discordes e esganiçadas, em que se sentia profundamente impresso o descaro e insolencia daquellas desgraçadas. Em cima dos bofetes viam-se picheis e taças vazias, e debaixo de alguns delles corpos estirados, que simulariam cadaveres, se os assovios e roncos que ás vezes sobresaíam através do ruído daquelle respeitavel congresso, não provassem que esses honrados cidadãos, suavemente embalados pelos vapores do vinho e do enthusiasmo, tinham adormecido na paz d'uma boa consciencia. Emfim, a composta e illustre taberna do antigo companheiro de gloria de micer Lançarote estava visivelmente prostituida e livelada com as mais immundas e vis baiúcas de Lisboa. O gigante popular tinha ahi assentado a sua curia feroz, e pela primeira vez o vicio e a corrupção tinham transposto aquelles umbraes sem a sua mascara de modestia e gravidade. Sobre os farrapos do povo não têem cabida os adornos de ouropel. É a unica differença moral que ha entre elle e as classes superiores, que se crêem melhores, porque no gymnasio da civilisação aprendem desde a infancia as destrezas e os momos de compostura hypocrita.

O astro que parecia alumiar com sua luz, aquecer com seu calor aquelle turbilhão de planetas; o centro moral, á roda do qual giravam todos aquelles espiritos, era um homem que dava mostras de ter bem quarenta annos, alto, magro, trigueiro, olhos encovados e scintilantes, cabello negro e revolto, barba grisalha e espessa. Encostado a um dos muitos bofetes que adornavam o amplo aposento, e rodeado de uma vasta pinha de populares de ambos os sexos, que o escutavam em respeitoso silencio, a sua voz grossa e sonora sobresaía no ruído, e só se confundia com alguma jura blasphema que se disparava do meio das outras pinhas de povo, ou com as modulações das risadas, que vibravam naquelle ambiente denso e abafado, de certo modo semelhantes a clarão affogueado que sulcasse rapidamente as trevas humidas e profundas da crypta subterranea de alguma igreja do sexto seculo.

De repente dous cavalleiros, cuja graduação se conhecia pelos barretes de veludo preto adornados de pluma ao lado, pelas calças de seda golpeadas, e pelos cinctos de pelle de gamo lavrados de prata, entraram na taberna, e, rompendo por entre o povo, que lhes alargava a passagem, chegaram ao pé do homem alto e trigueiro. Traziam os capeirotes puxados para a cara, de modo que nenhum dos circumstantes pôde conhecer quem eram. Bastantes desejos passaram por muitos daquelles cerebros vinolentos de o indagar; mas uma identica reflexão atou todas as mãos. Ao longo da côxa esquerda dos embuçados via-se reluzir a espada, e no lado direito, apertado no cincto, que a ponta erguida do capeirote deixava apparecer, descortinava-se o punhal. O passaporte para virem assim aforrados era digno de todo o respeito, e ainda que entre a turba se achassem alguns homens d'armas, principalmente bésteiros, quasi todos estavam desarmados. Tinha seus riscos, portanto, o pôr-lhes o visto popular.

Os dous desconhecidos falaram em segredo por alguns minutos ao homem alto e magro, que de quando em quando meneava a cabeça fazendo um gesto de assentimento: depois romperam por entre a turba, que os examinava com uma especie de receio misturado de respeito, e foram assentar-se em dous dos escabellos enfileirados ao correr da parede. Encostando os cotovelos em um bofete, com as cabeças apertadas entre os punbos, ficaram imoveis e como alheios ao sussurro que começava a alevantar-se de novo á roda delles.

Este durou breves instantes; um psiuh do homem alto e magro fez voltar todos os olhos para aquella banda. Subindo a um escabello, elle deu signal com a mão de que pretendia falar.

"Ouvide! Ouvide!"—bradaram alguns que pareciam os maioraes daquella multidão desordenada.

Todos os pescoços se alongaram a um tempo, e viram-se muitas mãos callosas erguerem-se encurvadas, e formarem em volta das orelhas de seus donos uma especie de annel acustico. O orador principiou:

"Arraya-miuda[1]! tendes vós já elegido, entre vós outros, cidadãos bem falantes e avisados para propôr vossos embargos e razoados contra este maldicto e descommunal casamento d'el-rei com a mulher de João Lourenço da Cunha?"

"Todos á uma entendemos que deveis ser vós, mestre Fernão Vasques: —respondeu um velho, cuja calva polida reverberava os raios d'uma das lampadas pendentes do tecto, e que parecia ser homem de conta entre os populares.—Quem ha ahi entre a arraya-miuda mais discreto e aposto para taes autos que vós? Quem com mais urgentes razões proporia nosso aggravo e a deshonra e vilta d'elrei, do que vós o fizestes hoje na mostra que démos ao paço esta tarde?"

"Alcacer, alcacer! por nosso capitão Fernão Vasques:—bradou unisona a chusma.

"Fico-vos obrigado, mestre Bartholomeu Chambão!—replicou Fernão Vasques, socegado o tumulto.—Pelo razoado de hoje terei em paga a forca, se a adultera chega a ser rainha: pelo do ámanhan terei as mãos decepadas em vida, se elrei com suas palavras mansas e enganosas souber apaziguar o povo. E tendes vós por averiguado, mestre Bartholomeu, que o carrasco sabe apertar melhor o nó da corda na garganta, que eu o ponto em peitilho de saio, ou em costura de redondel ou pelote, e que o cutelo do algoz entra mais rijo no gasnate de um christão que a vossa enchó n'uma aduela de pipa?"

"Nanja emquanto na minha aljava houver almazem, e a garrucha da bésta, me não estourar:—exclamou um bésteiro de conto, cambaleando e erguendo-se debaixo d'um bofete, para onde o haviam derribado certas perturbações d'enthusiasmo politico.

"Amendico Vobis!—gritou um beguino, cujas faces vermelhas e voz de Stentor brigavam com o habito de grosseiro burel e com as desconformes camandulas que lhe pendiam da cincta.

"Olé, Fr. Roy Zambrana, fala linguagem christenga, se queres vir nesse bordo por nossa esteira:—bradou um petintal d'Alfama, que, segundo parecia, capitaneava um grande troço de pescadores, barqueiros e galeotes daquelle bairro, então quasi exclusivamente povoado de semelhante gente.

"Digo por linguagem"—acudiu o beguino—"que ninguém como mestre Fernão Vasques é homem de cordura e sages para ámanhan falar a elrei aguisadamente sobre o feito do casamento de Leonor Telles, do mesmo modo que ninguem leva vantagem ao petintal Ayras Gil em ousadia para fugir ás galés de Castella e doestar os bons servos da igreja."

Era allusão pessoal. Uma risada ruidosa e longa correspondeu á mordente desforra de Fr. Roy, que abaixou os olhos com certo modo hypocritamente contrito, semelhante ao gato, que, depois de dar a unhada, vem roçar-se mansamente pela mão que ensanguentou.

Fr. Roy era tambem, como Ayras Gil, um idolo popular, e a má vontade que parecia haver entre o beguino e o petintal nascêra da emulação; de uma duvida cruel sobre a altura relativa do throno de encruzilhada, do throno de lama e farrapos, em que cada um delles se assentava.

Se, pois, aquella multidão não estivesse persuadida da superioridade intellectual do alfaiate Fernão Vasques, a opinião desses dous oraculos lhe não teria deixado a menor duvida sobre isso. Todavia, nas palavras de ambos havia um pensamento escondido; pensamento de odio que nascêra n'um dia, e n'um dia lançára profundas raizes nos corações de ambos. O marinheiro e o eremita tinham pensado ao mesmo tempo que, lisongeando esse homem mimoso do vulgo, tirariam juntamente dous resultados, o de ganharem mais credito entre este, e de aplanarem a estrada da forca ao novo rei das turbas, erguido, havia poucas horas, sobre os broqueis populares.

Mas que auto era este de que o povo falava? Sabe-lo-hemos remontando um pouco mais alto.

O amor cego d'el-rei D. Fernando pela mulher de João Lourenço da Cunha, D. Leonor Telles, havia muito que era o pasto saboroso da maledicencia do povo, dos calculos dos politicos e dos enredos dos fidalgos. Ligada por parentesco com muitos dos principaes cavalleiros de Portugal, D. Leonor, ambiciosa, dissimulada e corrompida, tinha empregado todas as artes do seu engenho prompto e agudo em formar entre a nobreza uma parcialidade que lhe fosse favoravel. Quanto a elrei, a paixão violenta em que este ardia lhe assegurava a ella o completo dominio no seu coração. Mas as miras daquella mulher, cuja alma era um abysmo de cubiça, de desenfreamento, de altivez e de ousadia, batiam mais alto do que na triste vangloria de vêr a seus pés um rei bom, generoso e gentil. Através do amor de D. Fernando ella só enxergava o refulgir da corôa, e o homem sumia-se nesse esplendor. O nome de rainha misturava-se em seus sonhos; era o significado de todas as suas palavras de ternura, o resumo de todas as suas caricias, a idéa primitiva de todas as suas idéas. Leonor Telles não amava elrei, como o provou o tempo; mas D. Fernando cria no amor della; e este principe, que seria um dos melhores monarchas portuguezes, e que a muitos respeitos o foi, deixou na historia, quasi sempre superficial, um nome deshonrado, por ter escripto esse nome na horrivel chronica da nossa Lucrecia Borgia. Uma difficuldade, quasi insuperavel para outra que não fosse D. Leonor, se interpunha entre ella e seus ambiciosos designios. Era casada! Um processo de divorcio por parentesco, julgado por juizes affectos a D. Leonor, ou que sabiam até onde chegava a sua vingança, a livrou desse tropeço. Seu marido, João Lourenço da Cunha, atterrado, fugiu para Castella, e D. Fernando, casado, segundo se dizia, a occultas com ella, muito antes da epocha em que começa esta narrativa, viu emfim satisfeito o seu amor insensato.

Aquelles d'entre os nobres, que ainda conservavam puras as tradições severas dos antigos tempos, indignavam-se pelo opprobrio da corôa e pelas consequencias que devia ter o repudio da infante de Castella, cujo casamento com elrei, ajustado e jurado, este desfizera com a leveza que se nota como defeito principal no caracter de D. Fernando. Entre os que altamente desapprovavam taes amores, o infante D. Diniz, o mais moço dos filhos de D. Ignez de Castro, e o velho Diogo Lopes Pacheco[2] eram, segundo parece, os cabeças da parcialidade contraria a D. Leonor; aquelle pela altivez de seu animo; este por gratidão a D. Henrique de Castella, em quem achára amparo e abrigo no tempo dos seus infortunios, e que o salvára da triste sorte de Alvaro Gonçalves Coutinho e de Pedro Coelho, seus companheiros no patriotico crime da morte de D. Ignez.

O casamento d'elrei, ou verdadeiro ou falso, era ainda um rumor vago, uma suspeita. Os nobres, porém, que o desapprovavam souberam transmittir ao povo os proprios temores; e a agitacão dos animos crescia á medida que os amores d'elrei se tornavam mais publicos. D. Fernando tinha já revelado aos seus conselheiros a resolução que tomára, e estes, posto que a principio lhe falassem com a liberdade que então se usava nos paços dos reis, vendo suas diligencias baldadas, contentaram-se de condemnar com o silencio essa malaventurada resolução. O povo, porém, não se contentou com isso.

Conforme as idéas desse tempo, além das considerações politicas, semelhante consorcio era monstruso aos olhos do vulgo, por um motivo de religião, o qual ainda de maior peso seria hoje, e sê-lo-ha em todos os tempos em que a moral social fòr mais respeitada do que o era naquella epocha. Tal consorcio constituia um verdadeiro adulterio, e os filhos que delle procedessem mal poderiam ser considerados como infantes de Portugal, e por consequencia como fiadores da successão da corôa.

A irritação dos animos, assoprada pela nobreza, tínha chegado ao seu auge, e a colera popular rebentára violenta na tarde que precedeu a noite em que começa esta historia.

Tres mil homens se tinham dirigido tumultuariamente ás portas do paço, dando apenas tempo a que as cerrassem. A vozeria e estrepito que fazia aquella multidão desordenada assustou elrei, que por um seu privado mandou perguntar o que lhes prazia e para que estavam assim reunidos. Então o alfaiate Fernão Vasques, capitão e procurador por elles, como lhe chama Fernão Lopes, affeiou em termos violentos as intenções d'elrei, liberalisando a D. Leonor os titulos de má mulher e feiticeira, e asseverando que o povo nunca havia de consentir em seu casamento adultero. A arenga rude e vehemente do alfaiate orador, acompanhada e victoriada de gritas insolentes e ameaçadoras do tropel que o seguia, moveu elrei a responder com agradecimentos ás injurias, e a affirmar que nem D. Leonor era sua mulher, nem o seria nunca, promettendo ir na manhan seguinte aclarar com elles este negocio no mosteiro de S. Domingos, para onde os emprasava. Com taes promessas pouco a pouco se aquietou o motim, e ao cahir da noite o terreiro d'apar S. Martinho estava em completo silencio. Como se, na solidão, elrei quizesse consultar comsigo o que havia de dizer ao seu bom e fiel povo de Lisboa, as vidraças córadas das esguias janellas dos paços reaes, que vertiam quasi todas as noites o ruido e o esplendor dos saráus, cerradas nesta hora e caladas como sepulchro, contrastavam com o reluzir dos fachos, com o estrepito das ruas, com o rir das mulheres perdidas e dos homens embriagados, com o perpassar contínuo dos magotes e pinhas de gente que se encontravam, uniam, separavam, retrocediam, vacillavam, ficavam immoveis, agglomeravam-se para se desfazer, desfaziam-se para se agglomerar de novo, sem vontade e sem constrangimento, sem motivo e sem objecto, vulto inerte, movido ao acaso, como as vagas do mar, tempestuoso e irreflectido como ellas. Feroz na sua colera razoada, ferocissimo no seu rir insensato, o vulgo passava, rei de um dia. Esse ruído, essa vertigem que o agitava era o seu baile, a sua festa de triumpho: e as estrellas de serena noite de agosto, semelhantes a lampadas pendentes de abobada profunda, alumiavam o saráu popular, as salas do seu folguedo, a praça e a encruzilhada. Era a um tempo truanesco e terrivel.

Na taberna de micer Folco (onde deixámos as personagens principaes desta historia, para inserir, talvez fóra de logar, o prologo ou introducção a ella) as acclamaçôes freneticas dos populares tinham tornado indubitavel que o propoedor para o ajunctamento do dia seguinte devia ser o mui avisado e sages mestre Fernão Vasques. Fr. Roy era de todos os circumstantes o que mais parecia ter a peito esta escolha, e o petintal Ayras Gil ajudava-o poderosamente com o ruido dos amplos pulmões dos galeotes d'Alfama, contrabidos como em voga arrancada, victoriando o seu capitão. O alfaiate não pôde resistir, nem porventura tinha vontade d'isso, a tanta popularidade, e em pé sobre o escabello, com a cabeça levemente inclinada para o peito, n'uma postura entre de resignação e de bemaventurança, tremulava-lhe nos labios semi-abertos um sorriso que revelava uma parte dos mysterios do seu coração. Emfim, quando a grita começou a asserenar, Fernão Vasques ergueu a cabeça, e com aspecto grave deu signal de que pretendia falar ainda.

Fez-se de novo silencio.

"Seja, pois, como quereis:—disse o alfaiate—mas vede o grão risco a que me ponho por vós outros. Falarei eu a elrei com liberdade portuguesa: proporei vosso aggravo e a deshonra e feio peccado de sua real senhoria, mas é necessario que vós todos quantos ahi sois estejaes de alcateia e ao romper d'alva no alpendre de S. Domingos. Dizem que a adultera é mulher de grande coração e ousados pensamentos; em Lisboa estão muitos cavalleiros seus parentes e parciaes. Bésteiros deste concelho, que não vos esqueçam em casa vossas béstas e aljavas! Pioada de Lisboa, levae vossas ascumas! Os trons e engenhos do castello—accrescentou o alfaiate em voz mais baixa e hesitando—não vos apoquentarão, ainda que elrei o quizesse, porque o alcaidemór João Lourenço Bubal não é dos affeiçoados a D. Leonor Telles. Sancta Maria e Sanctiago sejam comvosco! Alcacer, alcacer pela arraya-miuda! A repousar, amigos!"

—"Alcacer, alcacer!—respondeu a turbamulta.

"Morra a comborça!"—gritou Ayras Gil com voz de trovão.—"Morra a comborça!"—repetiram os galeotes e as virtuosas matronas dos coromens d'arrás e cinctos pretos, que assistiam áquelle conclave.

"Olha, Ayras, que S. Martinho fica perto, e contam que D. Leonor tem ouvido subtil:"—disse Fr. Roy ao petintal com um sorriso diabólico.

"Dor de levadigas te consumam, ichacorvos!"—replicou o petintal.—"Quando eu quero que me ouçam é que falo alto. Alcacer por sua senhoria o bom rei D. Fernando! Deus o livre de Castella e de feitiços!"

O petintal emendava a mão como podia. E entre morras e alcaceres; entre risadas e pragas; entre ameaças vans e insultos inuteis, aquella vaga de povo contida na taberna de micer Folco, espraiou-se pelas ruas, derivou pelas quelhas, vielas e becos, e embebeu-se pelas casinhas e choupanas, que nessa epocha jaziam muitas vezes deitadas juncto ás raízes dos palacios na velha e opulenta Lisboa.

Com os braços cruzados o alfaiate contemplava aquella multidão, que diminuia rapidamente, e cujo sussurro alongando-se era comparavel ao gemido do tufão, que passa de noite pelas sarças da campina. Ainda elle tinha os olhos fitos no portal por onde saíra o vulto indelineavel chamado povo, e já ninguem ahi estava, salvo os dous cavalleiros, que se tinham conservado immoveis na mesma postura que haviam tomado, e Fr. Roy, que se estirára sobre um dos bofetes, e já roncava e assobiava como em somno profundo.

Os dous cavalleiros ergueram-se e descobriram os rostos: a um ainda a barba de homem não pungia nas faces: o outro, na alvura das melenas brancas, que trazia cahidas sobre os hombros á moda de Castella, e no rosto sulcado de rugas, certificava ser já bem larga a historia da sua peregrinação na terra.

O mancebo olhou para Fernão Vasques, que parecia absorto, e depois para o velho com um gesto de impaciencia. Este olhou tambem para elle, e sorriu-se. Depois o ancião chamou o alfaiate em voz baixa, mas perceptivel.

Este, como se cahisse em terra da altura dos seus pensamentos, estremeceu, e, saltando do escabello, onde ainda se conservava em pé, encaminhou-se rapidamente para os dous cavalleiros:

"Senhor infante, que vossa mercê me perdôe e o senhor Diogo Lopes Pacheco! Á fé que, no meio d'este arruído, quasi me esquecêra de que ereis aqui. Estaes desenganados por vossos olhos de que posso responder pelo povo, e de que ámanhan não faltarão em S. Domingos?"

"Na verdade—respondeu o mancebo—que tu governas mais nelle que meu irmão com ser rei! Veremos se ámanhan te obedecem como te obedeceram hoje."

"És um notavel capitão:—accrescentou Diogo Lopes, rindo e batendo no hombro do alfaiate.—Se fosses capaz de reger assim em hoste uma bandeira de homens d'armas merecerias a alcaidaria de um castello."

"Que só entregaria, no alto e no baixo, irado e pagado, de noite ou de dia, áquelle que de mim tivesse preito e menagem."

"Bem dicto!—interrompeu o velho Pacheco, no mesmo tom em que começára.—Se t'a negarem não será por errares as palavras do preito. Tem a certeza, de que has-de ir longe, Fernão Vasques; muito longe! Assim eu a tivera, de que não me será preciso cozer á ponta de punhal a bôca de quem ousar dizer que o infante D. Diniz e Diogo Lopes Pacheco cruzaram esta noite a porta da taberna do gonovez Folco Taca."

Quando estas ultimas palavras, proferidas lentamente, saíram dos labios do que as proferia, os roncos e assobios do beguino que dormia foram mais rapidos e tremulos.

"Quem é aquelle ichacorvos?—proseguiu Diogo Lopes, apontando para Fr. Roy com um gesto de desconfiança.

"É um dos nossos:—respondeu o alfaiate—um dos que mais têem encarniçado a arraya-miuda contra a feiticeira adultera. Na assuada desta tarde foi dos que mais gritaram defronte dos paços d'el-rei. Por este respondo eu. Não tereis, senhor Diogo Lopes, de lhe cozer a bôca á ponta de vosso punhal."

"Responde por ti, honrado capitão da arraya-miuda—replicou o velho cortezão.—Quem me responde por elle é o seu dormir profundo: quem me responderia por elle, se acordando nos visse aqui, seria este ferro que trago na cincta. Agora o que importa. Em quanto ámanhan elrei se demorar em S. Domingos, um troço d'arraya-miuda e bésteiros ha-de commetter o paço, e ou do terreiro, ou rompendo pelos aposentos interiores, é necessario que uma pedra perdida, um tiro de bésta disparado por engano, uma ascuma brandida em algum corredor escuro, nos assegure que elrei não póde deixar de attender ás supplicas dos seus leaes vassallos e dos cidadãos de Lisboa."

"Morta!—exclamou o infante com um gesto de horror.—Não, não,Diogo Lopes; não ensanguenteis os paços de meu irmão, como …"

"Como ensanguentei os paços de Sancta Clara:—atalhou Pacheco—dizei-o francamente; porque nem remorsos me ficaram cá dentro. Senhor infante, vós esquecestes-vos d'isso, porque eu posso e valho com elrei de Castella! Senhor infante, a ambição tem que saltar muitas vezes por cima dos vestigios de sangue! Vós passastes ávante, e não vistes os do sangue de vossa mãe! Porque hesitareis ao galgar os do sangue de Leonor Telles? Senhor infante, quem sobe por sendas ingremes e por despenhadeiros tem a certeza de precipitar-se no fojo, se covardemente recúa."

D. Diniz tinha-se tornado pallido como cera. Não respondeu nada; mas dos olhos rebentaram-lhe duas lagrymas.

Fernão Vasques escutou a prelecção politica do velho matador de D. Ignez de Castro com religiosa attenção. E resolveu tambem lá comsigo não se deixar cahir no fojo.

"Far-se-ha como apontaes:—disse elle falando com Diogo Lopes—mas se os homens d'armas e bésteiros de João Lourenço Buval descerem do castello…"

"Não te disse, ainda ha pouco, que João Lourenço ficaria quedo no meio da revolta?—Podes estar socegado, que não te certifiquei d'isso só para animares o povo. É a realidade. Agora tracta de dispôr as cousas para que não seja um dia inutil o dia d'ámanhan."

Pegando então na mão do infante, o feroz Pacheco saíu da taberna, e tomou com elle o caminho da Alcaçova. Fernão Vasques ficou um pouco scismando: depois saíu, dirigindo-se para a porta do ferro, e repetindo em voz baixa:—"Não me precipitarei no fojo!"

Passados alguns instantes de silencio Fr. Roy alevantou devagarinho a cabeça, assentou-se no bofete e poz-se a escutar: depois saltou para o chão, apagou a lampada que ardia no meio da casa, abandonada por Folco Taca logo que o povo tumultuariamente a innundára, chegou á porta, escutou de novo alguns momentos, manso e manso encaminhou-se para a torre da sé da banda do norte, e como um fantasma, desappareceu cozido com a negra e alta muralha da cathedral.

[1] Fernão Lopes dá a entender (Chr. de D. João I. P. 1.ª c.44) que a denominação de arraya-miuda se começára a dar aos populares no principio da revolta a favor do Mestre d'Aviz, para os distinguir dos nobres, pela maior parte fautores de D. Leonor e dos castelhanos; mas este titulo chocarreiro o havia tomado para si o povo miudo já d'antes e com muita seriedade. Em um documento de 1305 (Chancell. de D. Diniz L. 3º das Doações fol. 42 v.) se diz que outorgavam certas cousas os cavalleiros, juizes e concelho de Bragança e toda a arraya-miuda.

[2] Fernão Lopes affirma que Pacheco não tornára ao reino desde que fugíra por escapar á vingança de D. Pedro I por causa da morte de D. Ignez, senão no anno de 72, em que viera por embaixador d'elrei D. Henrique. Isto parece inexacto; Fr. Manuel dos Santos affirma o contrario fundado na restituição de todos os seus bens e titulos feita por D. Fernando no começo do seu reinado. Não é isto que prova a assistencia de Pacheco em Portugal no anno de 1371, não só porque depois de vir podia voltar para Castella, mas tambem essa restituição podia ser feita estando e conservando-se elle ausente, visto que a fruição d'um titulo, ou de terras da corôa, por simples mercê, não obrigando a serviço pessoal, ao menos até o tempo de D. João I, não tornava necessaria a presença do donatario no reino. O que prova a verdade da opinião de Santos é a doação feita a Diogo Lopes em 1371 (Chancell. D. Fern. f.84) da terra de Trancoso para pagamento de sua quantia, o que supõe serviço pessoal; porque era pelas quantias que os fidalgos estavam obrigados a faze-lo.

O Beguino.

Quem hoje passa pela cadeia da cidade de Lisboa, edificio immundo, miseravel, insalubre, que por si só bastára a servir de castigo a grandes crimes[1], ainda vê na extermidade delle umas ruinas, uns entulhos amontoados, que separa da rua uma parede de pouca altura, onde se abre uma janella gothica. Esta parede e esta janella são tudo o que resta dos antigos paços d'apar S. Martinho, igreja que tambem já desappareceu, sem deixar sequer por memoria um panno de muro, uma fresta, de outro tempo. O Limoeiro é um dos monumentos de Lisboa sobre que revoam mais tradições de remotas eras. Nenhuns paços dos nossos reis da primeira e segunda dynastia foram mais vezes habitados por elles. Conhecidos successivamente pelos nomes de paços d'elrei, paços dos infantes, paços da moeda, paços do limoeiro, a sua historia vae sumir-se nas trevas dos tempos. Sâo da era mourisca? Fundaram-nos os primeiros reis portugueses? Ignoramo-lo. E que muito, se a origem de Sancta Maria Maior, da veneranda cathedral de Lisboa, é um mysterio! Se, transfigurada pelos terremotos, pelos incendios e pelos conegos, nem no seu archivo queimado, nem nas suas rugas caiadas e douradas póde achar a certidão do seu nascimento e dos annos da sua vida! Como as da igreja, as ruinas da monarchia dormem em silencio á roda de nós, e, involto nos seus eternos farrapos, o povo vive eterno em cima ou ao lado dellas, e nem sequer indaga porque jazem ahi!

Na memoravel noite em que se passaram os successos narrados no capítulo antecedente, essa janella dos paços d'elrei era a unica aberta em todo o vasto edificio, mas calada e escura como todas as outras. Só, de quando em quando, quem para lá olhasse attento do meio do terreiro enxergaria o que quer que era alvacento, que ora se chegava á janella, ora se retrahia. Mas o silencio que reinava naquelles sitios não era interrompido pelo menor ruído. De repente um vulto chegou debaixo da janella e bateu de vagarinho as palmas: a figura alvacenta chegou á janella, debruçou-se, disse algumas palavras em voz baixa, retirou-se, tornou a voltar e pendurou uma escada de corda que segurou por dentro. O vulto que chegára subiu rapidamente, e ambos desappareceram através dos corredores e aposentos do paço.

Em um destes ultimos, alumiado por tochas seguras por longos braços de ferro chumbados nas paredes, passeava um homem de meia idade e gentil. Os seus passos eram rapidos e incertos, e o seu aspecto carregado. De quando em quando parava e escutava a uma porta, cujo reposteiro se meneava levemente; depois continuava a passear, parando ás vezes com os braços cruzados e como entregue a cogitações dolorosas.

Por fim o reposteiro ondeou d'alto a baixo e franziu-se no meio: mão alva de mulher o segurava. Esta entrou, após ella um homem alto e robusto, vestido de burel e cingido de cincto de esparto, d'onde pendiam umas grossas camandulas. A dama atravessou vagarosamente a sala e foi sentar-se em um estrado de altura de palmo, que corria ao longo d'uma das paredes do aposento. O homem que passeava assentou-se também no unico escabello que alli havia. Fr. Roy, que o leitor já terá conhecido, ficou ao pé da porta por onde entrara, com a cabeça baixa e em postura abeatada.

"Aproxima-te, beguino!"—disse com voz trémula elrei; porque era elrei D. Fernando o homem que se assentára.

Fr. Roy deu uns poucos de passos para diante.

"Que ha de novo?"—perguntou elrei.

"O povo cada vez está mais alvorotado, e jura falar rijamente ámanhan a vossa senhoria. Mas essa não é a peior nova que eu trago!"

"Fala, fala, beguino!—acudiu elrei, estendendo a mão convulsa para o ichacorvos.

"É que ámanhan, em quanto vossa senhoria estiver em S. Domingos, o paço será accommettido. Pretendem matar…"

"Mentes, beguino!—gritou a dama, erguendo-se do estrado de um salto, semelhante a tigre descoberto pelos caçadores nos matagaes da Ásia.—Mentes! Podem não me querer minha: mas assassinar-me! Isso é impossivel. Amo muito o povo de Lisboa; tenho-lhe feito as mercês que posso, para que elle haja de me odiar assim de morte. Os fidalgos podem persuadi-lo a oppôr-se ao nosso casamento; mas nunca a pôr mãos violentas na pobre Leonor Telles."

"Prouvera a Deus que eu mentisse hoje! Seria a primeira vez na minha vida:—replicou o ichacorvos com ar contrito.—Mas ouvi com meus ouvidos a ordem para o feito e a promessa da execução, haverá tres credos, na taberna de Folco Taca."

"Miseraveis!—bradou erguendo-se tambem elrei, a quem o riscoda sua amante restituira por um momento a energia.—Miseraveis!Querem sobre a cerviz o jugo de ferro de meu pae? Te-lo-hão.Quem ousa ordenar tal cousa?"

"Diogo Lopes Pacheco, do vosso conselho, o disse ao alfaiate Fernão Vasques, o coudel dos revoltosos, e vosso irmão D. Diniz estava tambem com elles:"—respondeu Fr. Roy.

O beguino era o espia mais sincero e imperturbavel de todo o mundo.

"Velho assassino!—exclamou D. Fernando—cubriste de luto eterno o coração do pae! Queres cubrir o do filho. E tu, Diniz, que eu amei tanto, tambem entre os meus inimigos! Leonor, que faremos para te salvar?! Aconselha-me tu, que eu quasi que enlouqueci!"

O pobre e irresoluto monarcha cobriu o rosto com as mãos, arquejando violentamente. D. Leonor, cujos olhos centelhantes, cujos labios esbranquiçados revelavam mais odio que terror, lançou-lhe um olhar de desprezo, e em tom de mofa respondeu:

"Sim, senhor rei, na falta de vossos leaes conselheiros posso eu, triste mulher, dar-vos um bom conselho. Acordae vossos pagens, que vão pregar um poste à porta destes paços, e mandae-me amarrar a elle para que o vosso bom povo de Lisboa possa despedaçar-me tranquillamente ámanhan sem profanar os vossos aposentos reaes. Será mais uma grande mercê que lhe fareis em recompensa do seu amor á vossa pessoa, da sua obediencia aos vossos mandados."

"Leonor, Leonor, não me fales assim, que me matas!—gritou D. Fernando, deitando-se aos pés de D. Leonor e abraçando-a pelos joelhos, com um chôro convulso.—Que te fiz eu para me tractares tão cruelmente?"

"D. Fernando, lembra-te bem do que te vou dizer! O povo ou se rege com a espada do cavalleiro, ou elle vem collocar a ascuma do peão sobre o throno real. Quem não sabe brandir o ferro, cede; deixa-o reinar."

"Tens razão, Leonor!—disse D. Fernando, enxugando as lagrymas e alçando a fronte nobre e formosa, onde se pintava a indignação. —Serei filho de D. Pedro o cruel; serei successor de meu pae. Eu mesmo vou ao alcaçar examinar os engenhos mais valentes que cubram o terreiro de S. Martinho de pedras, de virotões e de cadaveres: os montantes e as béstas dos homens d'armas e bésteiros do meu alcaide-mór de Lisboa farão o resto. João Lourenço Bubal será fiel a seu rei. Se necessario fôr com minhas proprias mãos ajudarei a pôr fogo á cidade, para que nem um revoltoso escape. Adeus, Leonor: conta que serás vingada."

D. Fernando voltou-se rapido para a porta do aposento. Fr. Roy estava immovel diante delle.

"João Lourenço Bubal—disse o espia sem se alterar—é dos revoltosos.Ouvi-o da bôca do proprio Diogo Lopes, que o certificou a FernãoVasques. Os trons do alcacer estão desapparelhados; e a maior partedos homens d'armas e bésteiros do alcaide-mór eram na taberna deFolco Taca os mais furiosos contra a que elles chamam…."

"Cal-te, beguino!"—gritou elrei, empurrando-o com força e procurando tapar-lhe a bôca.

O ichacorvos parou onde o impulso recebido o deixou parar, e ficou outra vez immovel diante de D. Fernando, a quem este ultimo golpe lançava de novo na sua habitual perplexidade.

"… A adultera:—proseguiu Fr. Roy acabando a phrase, porque ainda a devia, e era escrupuloso e pontual do desempenho do seu ministerio.

"Beguino!—atalhou D. Leonor com voz trémula de raiva—melhor fôra que nunca essa palavra te houvesse passado pela bôca; porque talvez um dia ella seja fatal para os que a tiverem proferido."

"Mas que faremos!?—murmurou elrei com gesto d'indizivel agonia.

"Havia ainda ha pouco tres expedientes,—respondeu D. Leonor, recobrando apparente serenidade—combater, ceder, fugir. O primeiro é já impossível; o segundo!… Porque não o acceitas, Fernando? Prestes estou para tudo. Não me verás mais, ainda que, longe de ti, por certo estalarei de dor. Cede á força: os teus vassallos o querem; que-lo o teu povo. Esquece-te para sempre de mim!"

"Esquecer-me de ti? Não te vêr mais? Nunca! Obedecer á força? Quem ha ahi que ouse dizer ao rei de Portugal:—rei de Portugal, obedece á força?—Os peões de Lisboa?! Porque sou manso na paz, não crêem que a minha espada no campo de batalha córte arnezes como a do melhor cavalleiro? Bons escudeiros e homens d'armas da minha hoste, por onde andaes derramados? Dormis por vossas honras e solares? O povo vos acordará como me acordou a mim; bramirá como os lobos da serra ao redor de vossas moradas; saltear-vos-ha no meio de vossos banquetes, por entre o ruído de vossos folgares. No ardor de vossos amores dir-vos-ha:—desamae!—Elle ousa já dize-lo a seu rei e senhor… Oh desgraçado de mim, desgraçado de mim!"

"Não queres, pois, deixar-me entregue á minha estrella?—disse D. Leonor, com voz entre de chôro e de ternura, abraçando pelo pescoço o pobre monarcha, e chegando a sua fronte suave e pallida ás faces afogueadas de D. Fernando, que n'uma especie de delirio olhava espantado para ella.

"Não, não! Viver comtigo, ou morrer comtigo. Cahirei do throno, ou tu subirás a elle."

Um sorriso quasi imperceptivel se espraiou pelo rosto de Leonor Telles, que, recuando e tomando uma postura resoluta e ao mesmo tempo de resignação, proseguiu com voz lenta mas firme:

"Então resta o fugir."

"Fugir!"—exclamou elrei. E esta palavra só era mais expressiva que narração bem extensa dos atrozes martyrios que o malaventurado curtia no coração irresoluto mas generoso, com a idéa de um feito vil e covarde em qualquer escudeiro, vilissimo e torpissimo n'um rei de Portugal, em um neto de Affonso IV.

Elrei olhou para ella um momento. Era sereno o seu rosto angelico, semelhante ao de uma dessas virgens que se encontram nas illuminuras de antigos codices, o segredo de cujos toques, perdido no fim do seculo quinze, a arte moderna a muito custo pôde fazer resurgir. O mais experto physionomista difficultosamente adivinharia a negrura d'alma que se escondia debaixo das puras e candidas feições de D. Leonor, se não fossem duas rugas que lhe desciam da fronte e se uniam entre os sobr'olhos, contrahindo-se e deslisando-se rapidamente, como as vesiculas peçonhentas das fauces d'uma vibora.

"Seja, pois, assim! Fujamos:"—murmurou D. Fernando com o tom e gesto com que o suppliciado daria no alto do patibulo o perdão ao algoz.

D. Leonor tirou do largo cincto, com que apertava a airosa cinctura, uma bolça de ouropel, e atirou com ella aos pés do beguino, que, de mãos cruzadas sobre o peito e os olhos semi-abertos cravados na abobada do aposento, parecia extatico e engolfado nos pensamentos sublimes do ceu.

"Vinte dobras de D. Pedro por teu soldo, beguino: vinte pelo teu silencio. O resto da recompensa te-lo-has um dia, se a adultera atravessar triumphadora o portal por onde vae saír fugitiva."

O rir affavel de que estas palavras foram acompanhadas fizeram correr um calafrio pela medulla espinal do ichacorvos, cujas pernas vacillaram. Mas o contacto das quarenta dobras, que uniu immediatamente ao peito debaixo do escapulario, lhe restituiram o vigor natural.

Elrei havia-se assentado, quasi desfallecido, no escabello unico do aposento, e o seu aspecto demudado infundia ao mesmo tempo terror e compaixão. Quando o beguino alevantou a bolça, D. Fernando fitou nelle os olhos e estendeu a mão para o reposteiro sem dizer palavra.

Fr. Roy curvou a cabeça, cruzou de nova as mãos sobre o peito, e, recuando até a porta, desappareceu no corredor escuro por onde entrára.

Apenas os passos lentos e pesados do ichacorvos deixaram de soar, D. Leonor encaminhou-se para uma janella que dava para um vasto terrado, e affastou a cortina que servia durante o dia de mitigar a excessiva luz do sol. A noite ía em meio do seu curso, como o indicava o mortiço das tochas, que mal allumiavam o aposento, e a lua, já no minguante, começava a subir na abobada do firmamento, mergulhando no seu clarão sereno o brilho esplendido das estrellas. A janella estava aberta, e o escabello d'elrei ficava proximo e fronteiro: o luar batia de chapa no rosto bello e triste de D. Fernando, que, embebido no seu amargurado scismar, parecia alheio ao que passava á roda delle, e esquecido de que lhe restavam poucas horas para poder levar a cabo a resolução que tomára. Leonor Telles, encostada ao mainel da janella, poz-se a olhar attentamente. A cidade dormia; e apenas o ladro de algum cão cortava aquella especie de zumbido, que é como o respirar nocturno de uma grande povoação que repousa. Lá em baixo uma faixa trémula, semelhante a uma ponte de luz, cortava obliquamente o Téjo, d'onde mais largo se encurva pela margem esquerda. Os mastros de milhares de navios, emparelhados com a cidade desde Sacavem até o promontorio onde campeava fóra dos arrabaldes de S. Francisco, formavam uma especie de floresta lançada entre a cidade e a sua immensa bahia. Desde o terrado, para o qual dava a janella, até o rio, o bairro dos judeus, pendurado pela encosta ingreme e fechado com travezes e cadeias nos topos das ruas, desenhava uma especie de triangulo, cuja hase assentava sobre o lanço oriental da muralha mourisca, e cujo vertice, voltado para o occidente, se coroava com a synagoga, abrigada á sombra do vulto disforme da cathedral. Pouco distante do terrado, entre o palacio e a judearia, a claridade da lua batia de chapa em um terreiro irregular, rodeado de mesquinhas e meio-arruinadas casas, que pela maior parte pareciam deshabitadas. No meio delle o que quer que era se erguia semelhante ao arco de um portul romano. Parecia ser uma ruina, um fragmento de edíficío da antiga Olisipo, que esquecêra alli aos terremotos, ás guerras e aos incendios, e ao qual finalmente chegára a sua hora de desabar, porque uma alta escada de mão estava encostada á verga que assentava sobre os dous pilares lateraes e os unia, como se alli a tivessem posto para, em amanhecendo, os obreiros poderem subir acima e derribarem-no em terra.

Era para esse vulto que D. Leonor se pozera a olhar attentamente.

Depois voltou o rosto para elrei, que, com a cabeça baixa, os braços estendidos, e as mãos encurvadas sobre os joelhos, parecia vergar sob o peso da sua amargura: contemplou-o com um gesto de compaixão por alguns momentos, e, estendendo para elle os braços, exclamou:

"Fernando!"

Havia no tom com que foi proferida esta unica palavra um mundo de amor e voluptuosidade; mas no meio da brandura da voz de Leonor Telles havia tambem uma corda aspera; a lguma cousa do rugir do tigre.

Elrei deu um estremeção, como se pelos membros lhe houvera coado uma faisca electrica; ergueu-se e atirou-se a chorar aos braços de Leonor Telles.

"Ámanhan—disse elle com voz affogada,—o rei mais deshonrado da christandade serei eu: o cavalleiro mais vil das Hespanhas será D. Fernando de Portugal. Que me resta? Só o teu amor; mais nada. Porque não me pedem antes a corôa real, que para mim tem sido corôa de espinhos? Dera-a de boa vontade. Oh Leonor, Leonor! serias a mulher mais perversa se um dia me atraiçoasses."

Um beijo da adultera cortou as lastimas d'elrei. A formosura desta mulher tinha um toque divino á claridade da lua. D. Fernando, embriagado d'amor, esqueceu-se de que poucas horas lhe restavam para fugir do seu povo enganado e ludibriado por elle.

"Fernando!"—proseguiu D. Leonor—"jura-me ainda uma vez que serás sempre meu, como eu serei sempre tua."

Dizendo isto, affastou-o brandamente de si.

"Juro-t'o uma e mil vezes pela fé de leal cavalleiro que até hoje fui. Juro-t'o pelo ceu que nos cobre. Juro-t'o pelos ossos de meu nobre e valente avo, que àlli dorme juncto ao altar-mór da sé, debaixo das bandeiras infiéis que conquistou no Salado. Juro-t'o por mais que tudo isso: juro-t'o pelo meu amor!"

"Bem está, rei de Portugal!—atalhou D. Leonor.—Agora só uma cousa me resta para te pedir. Não é favor; é justiça."

"Não me peças Lisboa, que essa sabe Deus se tornará a ser minha, rica, povoada e feliz como eu a tornei, ou se repousarei ainda a cabeça nestes paços de meus antepassados, passando por cima das ruinas dela! Não me peças Lisboa, que talvez ámanhan deixe de me chamar seu rei: do resto de Portugal pede-me o que quizeres."

"Quero que me dês as minhas arrhas: quero o preço do meu corpo, segundo foro de Hespanha."

"Villa-viçosa é alegre como um horto de flores, e Villa-viçosa dar-t'a-hei eu. O casteilo d'Obidos é forte e roqueiro: são numerosos e prestes para a defesa os seus engenhos, e o castello d'Obidos será teu. Cintra pendura-se pela montanha entre lençoes d'aguas vivas, e respira o cheiro das hervas e flores que crescem á sombra das penedias: pódes ter por tua a Cintra. Alemquer é rica no meio de suas vinhas e pomares, e Alemquer te chamará senhora."

"Guarda as tuas villas, D. Fernando, que eu não t'as peço em dote: quero apenas uma promessa de cousa de bem pouca valia."

"De muita ou de pouca, não me importa! Dar-te-hei o que me pedires."

D. Leonor estendeu a mão para a especie de portada romana, que se erguia solitaria no meio do terreiro deserto:

"É alli que tu me darás o preço do meu corpo, se um dia a cerviz da orgulhosa Lisboa se curvar debaixo de teu jugo real."

Elrei lançou um rapido volver d'olhos para onde Leonor Telles tinha o braço estendido, mas recuou horrorisado. O vulto que negrejava no meio do terreiro, era o patibulo popular e peão: era a forca, tétrica, temerosa, maldicta!

"Leonor, Leonor!—disse elrei com um som de voz cavo e debil—porque vens tu misturar pensamentos de sangue com pensamentos d'amor? Porque interpões um instrumento de morte e de affronta entre mim e ti? Porque preferes o fructo do cadafalso ás villas e castellos de que te faço senhora? Porque trocas a estola do clerigo que ha-de unir-nos pelo baraço aspero do algoz?"

"Rei de Portugal!—respondeu a mulher de João Lourenço da Cunha com um brado de furor—ainda me perguntas porque o faço? Tu nunca serás digno do sceptro de teu pae! Queres saber porque ajuncto pensamentos de sangue a pensamentos d'amor? É porque esses de quem eu o peço pediram tambem o meu sangue. Queres saber porque interponho entre mim e ti um instrumento de morte e d'affronta? É porque o teu bom povo de Lisboa quiz também interpôr entre nós a morte, e saciar-me de affrontas. Queres que te diga porque prefiro o fructo do cadafalso ás villas e castellos que me offereces? É porque para os animos generosos não ha vender vinganças por ouro. Vingança, rei de Portugal, te pede em dote a tua noiva! Jura-me que um dia os teus vassallos que me perseguem serão tambem perseguidos, e que essa vil plebe, que cobre de injurias e pragas o meu nome, porque te amo, o amaldiçoem, porque levo os seus caudilhos ao patibulo. Este é o preço do meu corpo. Sem esse preço a neta de D. Ordonho de Leão[2] nunca será mulher de D. Fernando de Portugal."

E com um braço estendido para o logar sem nome[3] do supplicio, e com o outro curvado como quem affastava de si elrei, esta mulher vingativa era sublime de atrocidade.

"Tens razão, Leonor:—disse por fim D. Fernando, depois de largo silencio, em que os affectos inconstantes do seu caracter voluvel mudaram gradualmente.—Tens razão. A futura rainha de Portugal terá o seu desaggravo: as linguas que te offenderam calar-se-hão para sempre: os corações que te desejaram a morte deixarão de bater. No meu throno, até aqui de mansidão e bondade, assentar-se-ha a crueza. Com Judas o traidor seja eu sepultado no inferno se faltar ao juramento que te faço de lavar em sangue a tua e a minha injuria."

A estas palavras o aspecto severo de Leonor Telles mudou-se em um sorrir de inexplicavel doçura.

"Oh, como te hei-de amar sempre!"—murmurou ella. E estas palavras cahiam de seus labios meigos e suaves como o arrulhar de pomba amorosa.

Um beijo ardente, que sussurrou levado nas asas da brisa fresca da noite, assellou este pacto de odio e d'exterminio.

[1] Isto era escrípto em 1844.

[2] A familia de Leonor Telles suppunha-se descender de D. Ordonho II, rei de Leão.

[3] Logar sem nome. Nós pelo menos não nos atrevemos a pôr-lh'o. Sabemos só que em tempos remotos a forca esteve perto da igreja de S. João da Praça, freguezia cuja existencia data pelo menos do tempo de D. Affonso III. (Mem. para as Inquir. Doc. 2.º) Talvez o terreiro ou praça em que ella estava désse o cognome á parochia. Desconfiâmos, todavia, de que este terreiro se estendesse para o lado oriental da sé, e que nesse caso o nome fosse Aljami. D. João I fez mercê em 1392 ao bispo de Lisboa D. Martinho (Chancel. de D. João I, L. 2.°) de uns pardieiros no chão d'Aljami, que partem com os paços do dito bispo, para fazer umas casas e torre. Os paços dos bispos ficavam para o lado oriental da sé. Além d'isso Aljami parece derivar-se do arabico aljamea, que significa o laço com que se amarram o pescoço e as mãos.

Um bulhão e uma agulha d'alfaiate

O sol, que havia mais de meia hora subíra do oriente cingido da sua aureola de vermelhidão, no meio da atmosphera turva e cinzenta de um dia dos fins de agosto, dava de chapa no rocío ou praça onde avultava o mosteiro de S. Domingos, rodeado de hortas e pomares, que verdejavam pelo valle da Mouraria ao oriente, e pelo de Valverde ao norte. Já muitos bésteiros e peões armados de ascumas se derramavam ao longo da parede dos paços de Lançarote Peçanha fronteiros ao mosteiro, descendo uns por entre as vinhas d'Almafalla[1], outros do arrabalde da Pedreira, ou bairro do almirante[2], outros da banda da alcaçova, outros, emfim, desembocando das ruas estreitas e irregulares que íam dar á opulenta e celebre rua-nova[3]. Homens e mulheres apinhavam-se aos dez e aos doze no meio da praça e ás bocas das ruas; falavam, meneavam-se, riam, cbamavam-se uns aos outros. Ás vezes aquella mó de gente, cujo vulto engrossava de minuto para minuto, agitava-se como a superficie de um pego passando o tufão. Incerta, vacillante, informe, subitamente se configurava, alinhava-se, e semelhante a triangulo enorme, a quadrella gigante desfechada de trom monstruoso, vibrava-se contra a vasta alpendrada do mosteiro, cujas portas ainda estavam fechadas. Ahi hesitava, ondeava e retrahia-se, como resultaria a folha cortadora de uma acha d'armas quando não podesse romper as portas chapeadas de forte castello. Então aquella multidão tomava a fórma de meia lua, cujas pontas se encurvavam pelos lados de Valverde e da Mouraria, e vinham topar uma com outra por baixo do bairro ladeirento da Pedreira, d'onde, confundindo-se e irradiando-se de novo, se espalhavam pela vastidão do terreiro. O povo, que dorme ás vezes por seculos, fòra accommettido d'uma das suas raras insomnias, e vivia essa possante vida da praça publica, em que de ordinario é ridiculo e feroz; mas em que não raro é sublime e terrivel.

Era a manhan immediata á noite em que occorreram os successos narrados antecedentemente: o povo preparava-se para uma lucta moral com o seu rei, mas não se descuidára de vir prestes para uma lucta physica, se D. Fernando quizesse appellar para esse ultimo argumento. Era a primeira vez neste reinado que a arraya-miuda dava mostras da sua força e reivindicava o direito de dizer armada—não quero!—O elemento democratico erguia-se para influir activamente na monarchia; enxertava-se nella como principio politico a par da aristocracia, que com a manopla de ferro arrojava a plebe contra o throno, sem pensar que brevemente este, conhecendo assim a força popular, se valeria della para esmagar aquelles que ora sopravam os animos á revolta, e davam ao vulgo uma nova existencia.

A hora aprazada para a vinda d'elrei ainda não havia batido; mas o povo, orgulhoso da importancia que subitamente se lhe dera, embevecido na idéa de que obrigaria elrei a quebrar os laços adulterinos que o uniam a Leonor Telles, não media o tempo pelo curso do sol, mas pelo fervor da sua impaciencia. Duas vezes se espalhára a voz de que D. Fernando chegára, e duas vezes o povo corrêra para o alpendre do mosteiro. As portas da igreja estavam, porém, fechadas, bem como a portaria e as estreitas e agudas frestas do mosteiro gothico, que, formado apenas de um pavimento terreo e humilde, contrastava com a magnificencia do templo, em cujas portadas profundas, sobre os columnellos ponteagudos que sustinham os fechos e chaves da abobada, os animaes monstruosos e hybridos, os centauros, os satyros e os demonios, avultados na pedra dos capiteis por entre as folhagens de carvalho e de lodão, pareciam, com as visagens truanescas que nas faces mortas lhes imprimíra o esculptor, escarnecerem da colera popular, que, lenta como os éstos do oceano, começava a crescer e a trasbordar. Apenas lá dentro se ouviam de vez em quando as harmonias saudosas do orgão e do cantochão monotono dos frades, que offereciam a Deus as preces matutinas. Era então que o povo escutava: e retrahia-se arrastado pelas blasphemias e pragas que saíam de mil bôcas, e que eram repellidas do sanctuario pelo sussurro dos canticos que reboavam dentro da igreja, e que transsudavam por todos os poros do gigante de pedra um murmurio de paz, de resignação e de confiança em Deus.

O povo, porém, era como os homens robustos do Genesis: era impio, porque era robusto.

O dia crescia, e crescia com elle a desconfiança. As noticias corriam encontradas: ora se dizia que elrei cedêra aos desejos dos seus vassallos e dos peões, e que viria annuncíar ao povo a sua separação de Leonor Telles; ora pelo contrario se asseverava que elle era firme em sustentar a resolução contraria. Havia até quem asseverasse que na alcaçova e no terreiro de S. Martínho se começavam a ajunctar homens d'armas e bésteiros. A colera popular crescia, porque a atiçava já o temor.

No meio de uma pilha de galeotes, carniceiros, pescadores, moleiros, lagareiros e alfagemes, dous homens altercavam violentamente: eram Ayras Gil e Fr. Roy: objecto da disputa Fernão Vasques; arguente o petintal; defendente o beguino.

"Que não vira, vos digo eu:—gritava Ayras Gil.—Disse-m'o Garciodonez, o mercador de pannos, que mora ao cabo da rua-nova, aos açougues, defronte das taracenas d'elrei."

"Mentiu pela gorja como um perro judeu:—replicou Fr. Roy—Não era Fernão Vasques homem que faltasse a este auto, tendo-o a arraya-miuda elegido por seu propoedor."

"Medo ou dobras do paço podem tapar a boca aos mais ousados, e faze-los dormir até deshoras—retrucou o petintal.

"Que fazem falar as dobras do paço, sei eu:—tornou o beguino com riso sardonico, lembrando-se do que nessa noite passára:—medo sabeis vós que faz fugir: inveja sabemos nós todos que faz imaginar…"

"Descaro e gargantoice que faz mendigar:—interrompeu Ayras Gil, vermelho de colera, cerrando os punhos, e descahindo para o ichacorvos, como galé que vae afferrar outra em combate naval.

"Excommunicabo vos"—murmurou Fr. Roy, fazendo-se prestes para resistir ao abalroar do petintal.

E o vulgacho que estava de roda ria e batia as palmas.

N'isto os gritos de alcacer! alcacer! reboaram para outro lado da praça: o povo correu para lá. Os dous campeadores voltaram-se: era o alfaiate.

Sem dizer palavra, o beguino olhou com gesto de profundo despreso para Ayras Gil; e tomando uma postura entre heroica e de inspirado, estendeu o braço e o index para o logar onde passava Fernão Vasques. Depois partiu com a turbamulta que o rodeava, em quanto o petintal o seguia de longe, lento e cabisbaixo.

O alfaiate, cercado de outros cabeças da revolta da vespera, encaminhou-se para a alpendrada de S. Domingos. Trazia vestida uma sáia[4] de valencina reforçada, calças de bifa, çapatos de pelle de gamo, chapeirão de ingres com fita de momperle, e cincta de couro, tudo escuro ao modo popular. Com passos firmes subiu os degraus do alpendre. D'alli, em pé, com os braços cruzados, correu com os olhos a praça, onde entre o povo apinhado se fizera repentino silencio. Depois, tirando o chapeirão, cortejou a turbamulta para um e outro lado; os seus gestos e ademanes eram já os de um tribuno.

"Alcacer, alcacer pela arraya-miuda! Alcacer por elrei D. Fernando de Portugal, se desfizer nosso torto e sua vilta, senão!…"

Esta exclamação d'um alentado alfageme que estava pegado com a balaustrada do alpendre, foi repetido em grìta confusa por milhares de bôcas.

De repente da banda da rua de Gileanes sentiu-se um tropear de cavalgaduras, que pareciam correr á redea solta: todos os olhos se volveram para aquella banda: muitos rostos empallideceram.

Uma voz de terror girou pelo meio das turbas.—"São homens d'armas d'elrei!"—Aquelle oceano de cabeças humanas redemoinhou a estas palavras, e começou a dividir-se como o mar vermelho diante de Moysés. N'um momento viu-se uma larga faixa esbranquiçada cortar aquella superficie movel e escura: era ampla estrada que se abríra desde a rua de Gileanes até S. Domingos. As paredes desta adelgaçavam-se rapidamente. Para a banda da Mouraria e da Pedreira os becos e encruzilhadas apinhavam-se de gente, e os reflexos dos ferros das ascumas populares, que erguidas scintillavam ao sol, começaram a descer e a sumir-se como as luzinhas das bruxas em sitio brejoso aos primeiros assomos do alvorecer. Fernão Vasques olhou em redor de si: estava só. Descórou; mas ficou immovel.

Entretanto o tropear aproximava-se cada vez com mais alto ruído: os bésteiros do concelho, postados ao longo dos paços do almirante, eram talvez os unicos em quem o terror não fizera profunda impressão: alguns já haviam estendido sobre o braço da bésta os virotes hervados, e revolvendo a polé faziam encurvar o arco para o tiro. Os bésteiros de garrucha tinham já o dente desta embebido na corda, promptos a desfechar ao primeiro refulgir dos montantes nús dos cavalleiros e escudeiros reaes. Do resto do povo os ousados eram os que recuavam; porque o maior numero voltava as costas e internava-se pelas azinhagas dos hortos de Valverde e vinhas d'Almafalla, ou trepava pelas ruas escuras e malgradadas do bairro do almirante.

Mas no meio deste susto geral apparecêra um heroe. Era Fr. Roy. Ou fosse imprudente confiança no cargo occulto que lhe dera D. Leonor, ou fosse robustez d'animo, ou fosse finalmente a persuasão de que o habito de beguino lhe serviria de broquel, longe de recuar ou titubear, correu para a quina da rua d'onde rompía o ruído, e mirando pela aresta do angulo um breve espaço, voltou-se para o povo, e curvando-se com as mãos nas ilhargas, desatou em estrondosas gargalhadas.

Tudo ficou pasmado; mas vendo e ouvindo o rir descompassado do ichacorvos, o povo começou a refluir para a praça. Aquellas risadas produziam mais animo e enthusiasmo que os quarenta seculos vos contemplam de Napoleão, na batalha das Pyramides. Os amotinados recobraram n'um instante toda a anterior energia.

Esta scena tinha sido rapidissima: todavia ainda grande parte dos populares hesitava entre o ficar e o fugir, quando se conheceu claramente a causa daquelle temor que apertára por algum tempo todos os corações. Era a còrte que chegava.

Montados em mulas possantes, os officiaes da casa real, os ricos-homens, conselheiros e juizes do desembargo vinham assistir ao auto solemne, em que da bôca d'elrei a nação devia ouvir ou uma resolução conforme com os desejos tanto da arraya-miuda como dos senhores e cavalleiros, ou a confirmação de um casamento, mal agourado por muitos nobres e por todos os burguezes, e condemnado de um modo nada duvidoso por estes ultimos. No meio das variadas côres dos trajos cortezãos negrejavam as garnachas dos letrados e clerigos do paço, e entre o reluzir dos esplendidos arreios das mulas alentadas e fogosas dos vassallos seculares, dos alcaides-móres e senhores, viam-se rojar as gualdrapas dos mestres em leis e degredos, dos sabedores e letrados, que constituiam o supremo tribunal da monarchia, a curia ou desembargo d'elrei.

A numerosa cavalgada atravessou o terreiro por entre o povo apinhado, e em todos os rostos transluzia o receio ácerca de qual seria o desfecho deste drama terrivel e immenso, em que entravam representantes de todas as classes sociaes.

Entre os membros daquella lustrosa companhia distinguia-se por seu porte altivo o conde de Barcellos, D. João Affonso Tello, tio de D. Leonor, a quem nos diplomas dessa epocha se dá por excellencia o nome de fiel conselheiro. Quando os amores d'elrei com sua sobrinha começaram, elle fizera, sincera ou simuladamente, grandes diligencias para desviar o monarcha de levar ávante seus intentos. D. Fernando persistíra, todavia, nelles, e então o conde, junctamente com a infanta D. Beatriz[5] e com D. Maria Telles, irman de D. Leonor, suscitára a idéa de a divorciar de João Lourenço da Cunha. O povo sabia isto, e posto que houvesse estendido a sua má vontade a todos os parentes de Leonor Telles, odiava principalmente o conde como protector daquelles adulteros amores. Foi, portanto, nelle que se cravaram os olhos dos populares, que, tendo-se em poucas horas elevado até á altura do throno, ousavam tambem dar testemunho publico do seu odio contra o mais distincto membro da fidalguia[6].

"Velha raposa, em que te pese, não será a adultera rainha da boa terra de Portugal!—gritava um carniceiro, voltando-se para uma velha que estava ao pé delle, mas olhando de través para o conde que passava.

"Leal conselheiro de barregnices, por quanto vendeste a honra do compadre Lourenço?—perguntava um alfageme, fingindo falar com um vizinho, mas lançando tambem os olhos para D. João Affonso Tello.

"Que tendes vós com o lobo que empece ao lobo?—acudiu um lagareiro calvo e acurvado debaixo do peso dos annos.—Deixae-os morder uns aos outros, que é signal de Deus se amercear de nós."

"O que elles mereciam—interrompeu uma regaleira—era serem alagantados[7]—com boas tiras de couro cru."

"E ella, tia Dordia?—accrescentou um ferreiro.—Conheceis vós a comborça? As varas a quizera eu: uma do alcaide no chumaço; outra do coitado nas costas della![8]"

"É costume, ergo direita a pena:"—notou um procurador, que gravemente contemplava aquelle espectaculo, e que até alli guardára silencio.

Estas injurias, que, como o fogo de um pelotão, se disparavam ao longo das extensas e fundas fileiras dos populares, iam ferir os ouvidos do conde de Barcellos, que, fingindo não lhes dar attenção, empallidecia e córava successivamente, e mordia os beiços de colera.

De quando em quando o vociferar affrontoso da gentalha era affogado no ruído de risadas descompostas, mais insolentes cem vezes que as injurias; porque no rir do vulgo ha o que quer que seja tão cruel e insultuoso, que faz dar em terra o maior coração e o anímo mais robusto.

Entre os parciaes de D. Leonor que vinham naquella comitiva, viam-se, porém, muitos fidalgos e letrados, que ou eram pessoalmente seus inimigos, ou pelo menos desapprovavam alta e francamente a sua união com elrei. Diogo Lopes Pacheco era o principal entre elles, e o povo ao vê-lo passar saudou-o com um murmurio, que foi como a recompensa do velho pelas desventuras da sua vida, desventuras que devêra a um caso analogo, a morte de D. Ignez de Castro.

Quando os fidalgos, cavalleiros e letrados da casa e conselho d'elrei se apearam juncto aos degraus do alpendre do mosteiro, o alfaiate, que viera misturar-se com o povo logo que desembocaram na praça, subiu após elles, e esperou que se assentassem no extenso banco de castanho que corria ao longo da alpendrada. Depois voltou-se para a multidão apinhada ao redor:

"Se elrei ainda não é presente—disse em voz intelligivel e firme—ahi tendes para ouvir vossos aggravamentos os senhores do seu conselho: porventura que elles poderão dar-vos resposta em nome de sua senhoria, e elle virá depois confirmar o seu dicto."

"Senhor Fernão Vasques, sois o nosso propoedor: a vós toca o falar!"—replicou um do povo.

"Assim o queremos! assim o queremos!"—bradou a turbamulta.

O alfaiate voltou-se então para os cortezãos, conselheiros e letrados do desembargo d'elrei, e disse:

"Senhores, a mim deram carrego estas gentes que aqui estão junctas, de dizer algumas cousas a elrei nosso senhor, que entendem por sua honra e serviço; e porque é direito escripto, que sendo as partes principaes presentes, o officio de procurador deve de cessar no que ellas bem souberem dizer, vós outros que sois principaes partes neste feito, e a que isto mais tange que a nós, devieis dizer isto, e eu não; porém, não embargando que assim seja, eu direi aquillo de que me deram carrego, pois vós outros em ello não quereis pôr mão, mostrando que vos doeis pouco da honra e serviço d'elrei….[9]"

"Cal-te, villão!—bradou, erguendo-se, o conde de Barcellos com voz affogada de cólera, que já não podia conter—se não queres que seja eu quem te faça resfolgar sangue, em vez de injurias, por essa bôca sandia."

O velho Pacheco pôz-se tambem em pé, exclamando: "Conde de Barcellos, lembrae-vos de que os burguezes têem por costume antigo o direito de dizerem aos reis seus aggravamentos, de se queixarem, e de os reprehenderem. Nós somos menos que os reis."

Fernão Vasques tinha-se entretanto voltado para o povo apinhado ao redor do alpendre, com o rosto enfiado, mas era de indignação, e havia feito um signal com a cabeça. No mesmo instante o povo abríra uma larga clareira, e quando os fidalgos e conselheiros, attentos para o conde e para Diogo Lopes, voltaram os olhos para o rocío ao tropear da multidão, um semi-circulo de mais de quinhentos bésteiros e peões armados fazia uma grossa parede em frente dos populares.

Fernão Vasques encaminhou-se então para D. João Affonso Tello, e com a mão trémula de raiva, segurando-o por um braço, disse-lhe:

"Senhor conde, vós sois que doestaes os honrados burguezes desta leal cidade em minha pessoa; porque eu nada fiz senão repetir em voz alta o que cada um e todos me ordenaram repetisse. O que propuz, não é meu. Eis seus auctores! Pelo que a mim toca, senhor conde, nào receio vossas ameaças. Quando o nobre despe o gibão de ferro para vestir o de tela, não sei eu se este é mais forte que o do peão, e se também a sua bôca não póde golfar sangue como a de um pobre villão."

D. João forcejava por desasir-se do alfaiate, procurando levar a mão á cincta onde tinha o punhal; mas Fernão Vasques era mais forçoso, e o conde já tinha entrado na idade em que costuma minguar a robustez do homem. Não pôde chegar com a mão ao cincto.

"Conde de Barcellos:—proseguiu o alfaiate com um sorriso—não recorraes a esse argumento; porque eu também estou habituado a lidar com ferros azerados, ainda que mais delgados e curtos que o vosso bulhão."

Estas ultimas palavras, dictas em tom de escarneo, mal foram ouvidas: a grita na praça era já espantosa; as injurias, as pragas, as ameaças, cruzando-se nos ares, produziam aquelle rouco e grande brado da fúria popular, que só tem semelhança com o ruído de tufão abysmando-se por cavernas immensas.

Os fidalgos e letrados tinham rodeado os dous contendores; os parciaes de D. Leonor o conde; os outros, cujo numero era muito maior, o alfaiate. E tanto estes como aquelles trabalhavam em apazigua-los, posto que todos os animos estivessem quasi tão irritados como os dos dous contendores.

Finalmente o conde cedeu. O aspecto da multidão, que se agitava furiosa, contribuiu, porventura, mais para isso que todas as razoes e rogativas dos fidalgos e cavalleiros, attonitos com o espectaculo da ousadia popular; desta ousadia que, menoscabando as ameaças do primeiro entre os nobres, era mais incrivel que a da vespera, a qual apenas se atrevêra ao throno.

Que fazia, porém, o nosso beguino no meio destes preludios de uma eminente assuada? É o que o leitor verá no seguinte capitulo.

[1] Hoje o monte da Graça.

[2] Hoje o bairro dentro da rua larga de São Roque, Chiado, Rua do Ouro, Rocio e Calçada do Duque.

[3] Hoje Rua dos Capellistas

[4] Muitos dos trajos civis do seculo decimo-quarto eram communs a ambos os sexos, ou pelo menos tinham nomes communs, como se póde vêr da lei de D. Affonso IV ácerca dos trajos.

[5] D. Beatriz era irman dos infantes D. João e D. Diniz e meia irman d'elrei.

[6] O titulo de conde era o de maior preeminencia entre nós, e João Affonso Tello era então o unico que em Portugal tinha semelhante titulo.

[7] Açoutados.

[8] Segundo varios quadernos legaes do nosso direito consuctudinario e municipal, em certos casos applicava-se ás mulheres casadas a pena de que resa o discurso do ferreiro. O alcalde vinha a casa da criminosa punha no chão um travesseiro, pegava d'uma vara e começava a bater em cima delle, fazendo-lhe o compasso o marido da culpada nas costas desta: tal era o modo por que as mulheres estavam ás varas, pena que com menos apparato se applicava tambem aos homens por muitos e diversos crimes.


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