O CASTELLO DE FARIA (1373)

A breve distancia da villa do Barcellos, nas faldas do Franqueira, alveja ao longo um convento de Franciscanos. Aprazivel é o sitio, sombreado de velhas arvores. Sente-se alli o murmurar das aguas e a bafagem suave do vento, harmonia da natureza, que quebra o silencio daquella solidão, a qual, para nos servirmos de uma expressão de Fr. Bernardo de Brito, com a saudade de seus horisontes parece encaminha e chamar o espirito á contemplação das cousas celestes.

O monte que se alevanta ao pé do humilde convento, é formoso, mas aspero e severo como quasi todos os montes do Minho. Da sua corôa descobre-se ao longe o mar, semelhante a mancha azul entornada na face da terra. O espectador colloeado no cimo daquella eminencia volta-se para um e outro lado, e as povoações e os rios, e os prados e as fragas, e os soutos e os pinhaes apresentam-lhe o panorama variadissimo que se descobre de qualquer ponto elevado da província de Entre-Douro-e-Minho.

Este monte, ora ermo, silencioso e esquecido, já se viu regado de sangue: já sobre elle se ouviram gritos de combatentes, ancias de moribundos, estridor de habitações incendiadas, sibilar de setas, e estrondo de machinas de guerra. Claros signaes de que ahi viveram homens; porque é com estas balisas que elles costumam deixar assignalados os sitios que escolheram para habitar na terra.

O castello de Faria com suas torres e ameias, com sua barbacan e fosso, com seus postigos e alçapões ferrados, campeou ahi como dominador dos valles vizinhos. Castello real da meia idade, a sua origem some-se nas trevas dos tempos que já lá vão ha muito: mas a febre lenta que costuma devorar os gigantes de marmore e de granito, o tempo, coou-lhe pelos membros, e o antigo alcacer das eras dos reis de Leão desmoronou-se e cahiu. Ainda no seculo dezesete parte da sua ossada estava dispersa por aquellas encostas: no seculo seguinte já nenhuns vestigios delle restavam, segundo o testemunho de um historiador nosso. Um eremiterio fundado pelo celebre Egas Moniz era o unico eccho do passado que ahi restava. Na ermida servia de altar uma pedra trazida de Ceuta pelo primeiro duque de Bragança D. Affonso. Era esta lagea a mesa em que costumava comer Salat-ibn-Salat, ultimo senhor de Ceuta. D. Affonso, que seguíra seu pae D. João I na conquista daquella cidade, trouxe esta pedra entre os despojos que lhe pertenceram, levando-a comsigo para a villa de Barcellos, cujo conde era. De mesa de banquetes mouriscos converteu-se essa pedra em ara do christianismo. Se ainda existe, quem sabe qual será o seu futuro destino?

Serviram os fragmentos do castello de Faria para se construir o convento edificado ao sopé do monte. Assim se converteram em dormitorios as salas de armas, as ameias das torres em bordas de sepulturas, os umbraes das balhesteiras e postigos em janellas claustraes. O ruído dos combates calou no alto do monte, e nas faldas delle alevantou-se a harmonia dos psalmos e o sussurro das orações.

Este antigo castello tinha recordações de gloria. Os nossos maiores, porém, curavam mais de practicar façanhas, do que de conservar os monumentos dellas. Deixaram por isso, sem remorsos, sumir nas paredes de um claustro pedras que foram testemunhas de um dos mais heroicos feitos de corações portuguezes.

Reinava entre nós D. Fernando. Este principe, que tanto degenerára de seus antepassados em valor e prudencia, fôra obrigado a fazer paz com os castelhanos depois de uma guerra infeliz, intentada sem justificados motivos, e em que esgotou inteiramente os thesouros do estado. A condição principal, com que se poz termo a esta lucta desastrosa, foi que D. Fernando casasse com a filha d'elrei de Castella: mas brevemente a guerra se accendeu de novo; porque D. Fernando, namorado de D. Leonor Telles, sem lhe importar o contracto de que dependia o repouso dos seus vassallos, a recebeu por mulher, com affronta da princesa castelhana. Resolveu-se o pae a tomar vingança da injuria, ao que o aconselhavam ainda outros motivos. Entrou em Portugal com um exercito, e recusando D. Fernando acceitar-lhe batalha, veiu sobre Lisboa e cercou-a. Não sendo o nosso proposito narrar os successos deste sitio, volveremos o fio do discurso para o que succedeu no Minho.

O Adiantado de Galliza, Pedro Rodriguez Sarmento, entrou pela provincia de Entre-Douro-e-Minho com um grosso corpo de gente de pé e de cavallo, emquanto a maior parte do exercito portuguez trabalhava ou por defender ou por descercar Lishoa. Prendendo, matando e saqueando, veiu o Adiantado até as immediações de Barcellos sem achar quem lhe atalhasse o passo; aqui, porém, saíu-lhe ao encontro D. Henrique Manuel, conde de Cêa, e tio d'elrei D. Fernando, com a gente que pôde ajunctar. Foi terrivel o conflicto; mas por fim foram desbaratados os portuguezes, cahindo alguns nas mãos dos castelhanos.

Entre os prisioneiros contava-se o alcaide-mór do castello de Faria, Nuno Gonçalves. Saíra este com alguns soldados para soccorrer o conde de Cêa, vindo assim a ser companheiro na commum desgraça. Captivo, o valoroso alcaide pensava em como salvaria o castello d'elrei seu senhor das mãos dos inimigos. Governava-o em sua ausencia um seu filho; e era de crer que, vendo o pae em ferros, de bom grado désse a fortaleza para o libertar, muito mais quando os meios de defensão escaceavam. Estas considerações suggeriram um ardil a Nuno Gonçalves. Pediu ao Adiantado que o mandasse conduzir ao pé dos muros do castello; porque elle com suas exhortações faria com que seu filho o entregasse sem derramamento de sangue.

Um troço de bésteiros e de homens d'armas subia a encosta do monte da Franqueira, levando no meio de si o bom alcaide Nuno Gonçalves. O Adiantado de Galliza seguia atraz com o grosso da hoste, e a costaneira ou ala direita, capitaneada por João Rodriguez de Viedma, se estendia rodeando o castello pelo outro lado. O exercito victorioso ía tomar posse do castello de Faria, que lhe promettêra dar nas mãos o seu captivo alcaide.

De roda da barbacan alvejavam as casinhas da pequena povoação de Faria: mas silenciosas e ermas. Os seus habitantes, apenas enxergaram ao longe as bandeiras castelhanas, que esvoaçavam soltas ao vento, e viram o refulgir scintillante das armas inimigas, abandonando os seus lares, foram-se acolher no terreiro que se estendia entre os muros negros do castello e a cerca exterior ou barbacan.

Nas torres os atalaias vigiavam attentamente a campanha, e os almocadens corriam com a rolda[1] pelas quadrellas do muro, e subiam aos cubellos collocados nos angulos das muralhas. O terreiro aonde se haviam acolhido os habitantes da povoação, estava cuberlo de choupanas colmadas, nas quaes se abrigava a turba dos velhos, das mulheres, e das creanças, que alli se julgavam seguros da violencia de inimigos desapiedados.

Quando o troço dos homens d'armas, que levavam preso Nuno Gonçalves, vinha já a pouca distancia da barbacan, os bésteiros que coroavam as ameias encurvaram as béstas, os homens dos engenhos prepararam-se para arrojar sobre os contrarios os seus quadrellos e virotões, em quanto o clamor e o chôro se alevantava no terreiro, onde o povo inerme estava apinhado.

Um arauto saíu do meio da gente da vanguarda inimiga e caminhou para a barbacan: todas as béstas se inclinaram para o chão, e o ranger das machinas converteu-se n'um silencio profundo.

"Moço alcaide, moco alcaide!—bradou o arauto—teu pae captivo do mui nobre Pedro Rodriguez Sarmento, Adiantado de Galliza pelo muito excellente e temido D. Henrique de Castella, deseja falar comtigo de fóra de teu castello."

Gonçalo Nunes, o filho do velho alcaide, atravessou então o terreiro, e chegando à barbacan, disse ao arauto:—"A Virgem proteja meu pae: dizei-lhe que eu o espero."

O arauto voltou ao grosso de soldados que rodeavam Nuno Gonçalves, e depois de breve demora o tropel aproximou-se da barbacan. Chegados ao pé della, o velho guerreiro saíu d'entre os seus guardadores e falou com o filho:

"Sabes tu, Gonçalo Nunes, de quem é esse castello, que, segundo o regimento de guerra, entreguei á tua guarda quando vim em soccorro e ajuda do esforçado conde de Cêa?"

"É—respondeu Gonçalo Nunes—de nosso rei e senhor D. Fernando de Portugal, a quem por elle fizeste preito e menagem."

"Sabes tu, Gonçalo Nunes, que o dever de um leal alcaide é de nunca entregar, por nenhum caso, o seu castello a inimigos, embora fique enterrado debaixo das ruinas delle?"

"Sei, oh meu pae!—proseguiu Gonçalo Nunes em voz mais baixa, para não ser ouvido dos castelhanos, que começavam a murmurar.—Mas não vês que a tua morte é certa, se os inimigos percebem que me aconselhaste a resistencia?"

Nuno Gonçalves, como se não tivera ouvido as reflexões do filho, clamou então:—Pois se o sabes, cumpre o teu dever, alcaide do castello de Faria! Maldicto por mim, sepultado sejas tu no inferno, como Judas o traidor, na hora em que os que me cercam entrarem nesse castello, sem tropeçarem no teu cadaver."

"Morra!—gritou o almocadem castelhano—morra o que nos atraiçoou."—E Nuno Gonçalves cahiu no chão atravessado de muitas espadas e lanças.

"Defende-te, alcaide!"—foram as ultimas palavras que elle murmurou.

Gonçalo Nunes corria como louco ao redor da barbacan, clamando vingança. Uma nuvem de frechas partiu do alto dos muros: grande porção dos assassinos de Nuno Gonçalves misturaram o próprio sangue com o sangue do homem leal ao seu juramento.

Os castelhanos accommetteram o castello: no primeiro dia de combate o terreiro da barbacan ficou alastrado de cadaveres tisnados, e de colmos e ramos reduzidos a cinzas. Um soldado de Pedro Rodriguez Sarmento tinha sacudido com a ponta da sua longa chuça um colmeiro incendiado para dentro da cerca: o vento suão soprava nesse dia com violencia; e dentro em pouco os habitantes da povoação, que haviam buscado o amparo do castello, pereceram junctamente com as suas frageis moradas.

Mas Gonçalo Nunes lembrava-se da maldicção de seu pae: lembrava-se de que o vira moribundo no meio dos seus matadores, e ouvia a todos os momentos o ultimo grito do bom Nuno Gonçalves:—"Defende-te, alcaide!"

O orgulhoso Sarmento viu a sua soberba abatida diante dos torvos muros do castello de Faria. O moço alcaide defendia-se como um leão, e o exercito castelhano foi constrangido a levantar o cerco.

Gonçalo Nunes, acabada a guerra, era altamente louvado pelo seu brioso procedimento, e pelas façanhas que obrára na defensão da fortaleza, cuja guarda lhe fôra encommendada por seu pae no ultimo trance da vida. Mas a lembrança do horrivel successo estava sempre presente no espirito do moço alcaide; e, pedindo a elrei o desonerasse do cargo, que tão bem desempenhára, foi depôr ao pé dos altares a cervilheira e o saio de cavalleiro, para se cubrir com as vestes pacificas do sacerdocio. Ministro do sanctuario, era com lagrymas e preces que elle podia pagar a seu pae o ter cuberto de perpetua gloria o nome dos alcaides de Faria.

Mas esta gloria, não ha hoje ahi uma unica pedra que a atteste.As relações dos historiadores foram mais duradouras que o marmore.

[1] Roldas e sobreroldas eram os soldados e officiaes encarragados de rondarem os postos e atalaias.

O dia 6 de Janeiro do anno da Redempção 1401 tinha amanhecido puro e sem nuvens: os campos, cubertos aqui de relva, acolá de searas, que cresciam a olhos vistos com o calor benefico do sol, verdejavam ao longe, ricos de futuro para o pegureiro e para o lavrador. Era um destes formosissimos dias de inverno, mais gratos que os do estio, porque são de esperança, e a esperança vale mais do que a realidade; destes dias, que Deus só concedeu aos paizes do occidente, em que os raios do sol, que começa a subir na eclíptica, estirando-se vividos e tremulos por cima da terra, ennegrecida pela humidade, errando por entre os troncos pardos dos arvoredos, despidos pelas geadas, se assemelham a um bando de creanças no primeiro viço da vida a folgar e a rolar-se por cima da campa, sobre a qual ha muito sussurrou o ultimo ai da saudade, e que invadiram os musgos e abrolhos do esquecimento. Era um destes dias antipathicos aos poetas ossianico-regelo-nevoentos, que querem fazer-nos acceitar como cousa mui poetica

Esses gêlos do norte, esses brilhantesCaramellos dos tópes das montanhas,

sem se lembrarem de que

Do sol do meio-dia aos raios vividos,Parvos!—se lhes derretem: a brancuraPerdem co'a nitidez, e se convertemDe lucidos cristaes em agua chilre;

destes dias, emfim, em que a natureza sorri como a furto, rasgando o denso véu da estação das tempestades.

No adro do mosteiro de Santa Maria da Victoria, vulgarmente chamado da Batalha, fervia o povo entrando para a nova igreja, que de mui pouco tempo servia para as solemnidades religiosas. Os frades dominicanos, a quem elrei D. João I tinha doado esse magnifico mosteiro, cantavam a missa do dia debaixo daquellas altas abobadas, onde repercutiam os sons do orgam, e os ecchos das vozes do celebrante, que entoava os kyries.

Mas não era por ouvir a missa conventual que o povo se escoava pelo profundo portal do templo para dentro do recincto sonoro daquella maravilhosa fabrica: era por assistir ao auto da adoração dos reis, que com grande pompa se havia de celebrar nessa tarde dentro da igreja, e diante do rico presepe que os frades tinham alevantado juncto ao arco da capella do fundador então apenas começada. A concorrencia era grande, porque os habitantes da Canoeira, d'Aljubarrota, de Porto-de-Mós e dos mais logares vizinhos, desejosos de ver tão curioso espectaculo, tinham deixado desertas as povoações para vir povoar por algumas horas o ermo do mosteiro. Aprazivel cousa era o ver, descendo dos outeiros para o valle por sendas torcidas, aquellas multidões, vestidas de cores alegres, e semelhantes no seu todo a serpentes immensas, que, transpondo as assomadas, se rolassem pelas encostas abaixo, reflectindo ao longe as cores variegadas da pelle luzidia e lubrica. Atravessando a planicie, em que avultava o mosteiro, passava o rio Lena, cuja corrente tinham tornado caudal as chuvas da primeira metade da estação invernosa.

No campo contiguo ao edificio, aqui e acolá, alevantavam-se casarias irregulares, algumas fechadas com suas portas, outras apenas cubertas de madeira, e abertas para todos os lados, á maneira de simples telheiros: as casas fechadas e reparadas contra as injurias do tempo eram as moradas dos mestres e artifices que trabalhavam no edificio: debaixo dos telheiros viam-se, n'uns pedras só desbastadas, n'outros algumas onde se começavam a divisar lavores, n'outros, emfim, pedaços de cantaria, em que os mais habeis esculptores e entalhadores já tinham estampado os primores dos seus delicados cinzeis. Mas o que punha espanto era a innumeravel porção de pedras, lavradas, pulidas, e promptas para serem collocadas em seus logares, que jaziam espalhadas pelo grandissimo terreiro, que ao redor do edificio se alargava para todos os lados: maineis rendados, peças dos fustes, capiteis gothicos, laçarias de bandeiras, cordões de arcadas, ahi estavam tombados sobre grossas zorras, ou ainda no chão endurecido pelo contínuo perpassar de trabalhadores, officiaes, e mais obreiros desta maravilhosa machina. Quem de longe olhasse para aquelle extenso campo, alastrado de tantos primores de esculptura, julgára ver o assento de uma cidade antiquissima, arrasada pela mão dos homens ou dos seculos, de que só restára em pé um monumento, o mosteiro. E todavia, esses que pareciam restos de uma antiga Balbek não eram senão algumas pedras que faltavam para o acabamento d'um convento de frades dominicanos, o convento de Sancta Maria da Victoria, vulgarmente chamado a Batalha!

Um quadrante de pedra, assentado em um canto do adro, apontava meio-dia. A igreja tinha sorvido dentro do seu seio desmesurado os habitantes das proximas povoações, e de todo o ruido e algazarra que poucas horas antes soava por aquelles contornos, apenas traspassavam pelas frestas e portas do templo os sons do orgam, soltando a espaços suas melodias, que sussurravam e morriam ao longe, suaves como um pensamento do céu.

Não estava, porém, inteiramente ermo o terreiro da frontaria do edificio. Assentado sobre um troço de fuste, com os pés ao sol, e o resto do corpo resguardado de seus raios ardentes pela sombra de um telheiro, a qual se começava a prolongar para o lado do oriente, via-se um velho, veneravel de aspecto, que parecia embebido em profundas meditações: pendia-lhe sobre o peito uma comprida barba branca: tinha na cabeça uma touca foteada, um gibão escuro vestido, e sobre elle uma capa curta ao modo antigo. A luz dos olhos tinha-lha de todo apagado a velhice; mas as suas feições revelavam que dentro daquelles membros tremulos e enrugados morava um animo rico de alto imaginar: as faces do velho eram fundas, as maçans do rosto elevadas, a fronte espaçosa e curva, e o perfil do rosto quasi perpendicular. Tinha a testa enrugada como quem vivêra vida de continuo pensar, e correndo com a mão os lavores de pedra, sobre que estava assentado, ora carregando o sobrolho, ora deslisando as rugas da fronte, reprehendia ou approvava com eloquencia muda os primores ou as imperfeições do artifice, que copiára á ponta de cinzel aquella pagina do immenso livro de pedra, a que os espiritos vulgares chamam simplesmente o mosteiro da Batalha.

Emquanto o velho scismava sósinho, e palpava o canto subtilmente lavrado, sobre que repousava os membros entorpecidos, á portaria do mosteiro, que perto d'alli ficava, outras figuras e outra scena se viam. Dous frades estavam em pé no limiar da porta, e altercavam em voz alta: de vez em quando, pondo-se nos bicos dos pés, e estendendo os pescoços, parecia quererem descubrir no horisonte, que as cumiadas dos montes fechavam, algum objecto: depois de assim olharem um pedaço, encolhiam os pescoços, e voltando-se um para o outro, travavam de novo renhida disputa, que levava seus visos de não acabar.

"Oh homem!—dizia um dos dous frades, a quem a tez macilenta e as barbas e cabellos grisalhos davam certo ar de auctoridade sobre o outro, que mostrava nas faces coradas e cheias, e na côr negra da barba povoada e revolta, mais vigor de mocidade.—Já disse a vossa reverencia, que elrei me escreveu de seu proprio punho que viria assistir ao auto da adoração dos reis, e de caminho veria a casa do capitulo, a que hontem mestre Ouguet mandou tirar os simples que sustentavam a abobada."

"E nego eu isso?—replicou o outro frade.—O que digo é que me parece impossivel, que elrei venha de feito, conforme a vossa paternidade prometteu em sua carta. Ha muito que lá vae o meio-dia; daqui a pouco tocará a vesperas e ás duas por tres é noite. Não vêdes, padre mestre, a que horas virá a acabar o auto? E este povo, este devoto povo que ahi está, que ahi vem, ha-de ir com o escuro por esses descampados e serras com mulheres, com raparigas…"

"Tá, tá—interrompeu o prior.—Temos luar agora, e vão de consum. O caso não é esse, padre procurador, o caso é se está tudo aviado para agasalharmos elrei e os de sua companha."

"Oh lá, quanto a isso, nada falta. Desde hontem que tenho tido tanto descanço como hoste ou cavalgada de castelhanos diante das lanças do Condestavel: o peior é que, segundo me parece, e dizei o que quizerdes, opus et oleum perdidi.[1]"

"Não falta quem tarda: elrei não quebrará a palavra ao seu antigo confessor. O que quero é que todos os noviços e coristas, que tem de fazer suas representações no auto, estejam a ponto e vestidos, para elle começar logo que sua senhoria chegue."

"Nada receeis; que tudo está preparado: do que duvido é de que comecemos, se por elrei houvermos de esperar."

O frade mais velho fez a estas palavras um signal de impaciencia, e sem dar resposta ao seu pyrrhonico interlocutor, estendeu outra vez o gasnate para a banda da estrada, fazendo com a extremidade do habito uma especie de sobrecéu para resguardar os olhos dos raios do sol, que, já muito inclinado para o occidente, batia de chapa no portal onde os dous reverendos estavam altercando.

Porém, meio descoroçoado, o dominicano logo abaixou os olhos: nem o minimo vulto se enxergava no horisonte; e neste abaixar de olhos viu o cégo, que estava ainda assentado sobre o fuste da columna.

Para escapar talvez ás reflexões do seu companheiro, o reverendo bradou ao velho:

"Oh lá, mestre Affonso Domingues, bem aproveitaes o soalheiro! Não vos quero eu mal por isso; que um bom sol de inverno vale, na idade grave, mais que todos os remedios de longa vida, que em seus alforges trazem por ahi os physicos."

Dizendo e fazendo, o reverendo desceu os degraus do portal, e encaminhou-se para o cégo.

"Quem é que me fala?—perguntou este, alçando a cabeça.

"Fr. Lourenço Lamprêa, vosso amigo e servidor, honrado mestre Affonso. Tão esquecida anda já minha voz em vossas orelhas, que me não conheceis pela toada?"

"Perdoae-me, mui devoto padre prior:—atalhou o velho, tenteando com os pés o chão para erguer-se, no momento em que Fr. Lourenço Lamprêa chegava juncto delle seguido do seu confrade Fr. Joanne, procurador do mosteiro:—perdoae-me! Foi-se o vêr, vae-se o ouvir. Em distancia, já não acérto a distinguir as falas."

"Estae quedo; estae quedo, mestre Affonso:—disse Fr. Lourenço, segurando o cégo pelo braço:—O indigno prior do mosteiro da Victoria não consentirá que o mui sabedor architecto e imaginador Affonso Domingues, o creador da oitava maravilha do mundo, o que traçou este edificio doado pelo virtuoso de grandes virtudes rei D. João á nossa ordem, se alevante para estar em pé diante de pobre frade…"

"Mas esse religioso—interrompeu o cégo—é o mais abalisado theologo de Portugal, o amigo do mui excellente doutor João das Regras, e do grande Nunalvares, e privado e confessor d'elrei: Affonso Domingues é apenas uma sombra de homem, um troço de capitel partido e abandonado no pó das encruzilhadas, um velho tonto de quem já ninguem faz caso. Se vossa caridade e humildosa condição vos movem a doer-vos de mim e a lembrar-vos de que fui vivo, não achareis n'isso muitos de vossa igualha."

"De merencorio humor estaes hoje:—disse o prior sorrindo.—Não só eu vos amo e venero: elrei me fala sempre de vós em suas cartas. Não sois cavalleiro de sua casa? E a avultada tença que vos concedeu em paga da obra que traçastes, e dirigistes, em quanto Deus vos concedeu vista, não prova que não foi ingrato?"

"Cavalleiro!?"—bradou o velho—"Com sangue comprei essa honra! Comigo trago a escriptura."—Aqui mestre Affonso, puxando com a mão tremula as atacas do gibão, abriu-o e mostrou duas largas cicatrizes no peito.—"Em Aljubarrota foi escripto o documento á ponta de lança por mão castelhana: a essa mão devo meu foro, que não ao Mestre d'Aviz. Já lá vão quinze annos! Então ainda estes olhos viam claro, e ainda para este braço a acha d'armas era brinco. Elrei não foi ingrato, dizeis vós, veneravel prior, porque me concedeu uma tença!?—Que a guarde em seu thesouro; porque ainda ás portas dos mosteiros e dos castellos dos nobres se reparte pão por cégos e por aleijados."

Proferindo estas palavras, o velho não pôde continuar: a voz tinha-lhe ficado presa na garganta, e dos olhos embaciados cahiam-lhe pelas faces encovadas duas lagrymas como punhos. A Fr. Lourenço tambem se arrasaram os olhos d'agua, Frei Joanne, esse olhou fito para o cégo durante algum tempo com o olhar vago de quem não o comprehendia. Depois a idéa da tardança d'elrei e da tardança do auto, que entrando pelas horas de ceiar e dormir iria fazer uma brecha horrorosa na disciplina monastica, veio desperta-lo como espinho pungente. Começou a bufar e a bater o pé, semelhante ao corredor brioso do livro de Job e da Eneida. Entretanto o architecto havia-se posto em pé: um pensamento profundamente doloroso parecia reverberar-lhe pela fronte nobre e turbada, e houve um momento de silencio. Por fim segurando com força a manga do habito de Fr. Lourenço, disse-lhe:

"Sois letrado, reverendo padre: deveis ter visto algum traslado da Divina Comedia do florentino Dante."

"Li já, e mais de uma vez:—respondeu o prior:—É obra prima daquellas a que os gregos chamavam epos, id est, enarratio, et actio segundo Aristoteles; e se não houvesse nessa escriptura algumas ousadias contra o papa…"

"Pois sabei, reverendo padre,—proseguiu o architecto, atalhando o impeto erudito do prior,—que este mosteiro, que se ergue diante de nós, era a minha Divina Comedia, o cantico da minha alma: concebi-o eu; viveu comigo largos annos, em sonhos e em vigilia: cada columna, cada mainel, cada fresta, cada arco era uma pagina de canção immensa; mas canção que cumpria se escrevesse em marmore, porque só o marmore era digno della: os milhares de lavores que tracei em meu desenho eram milhares de versos; e porque ceguei arrancaram-me das mãos o livro, e nas paginas em branco mandaram escrever um estrangeiro! Loucos! Se os olhos corporaes estavam mortos, não o estavam os do espirito. O estranho a quem deram meu cargo não me entendia, e ainda hoje estes dedos descobriram nessa pedra que o meu alento não a bafejára. Que direito tinha o Mestre d'Aviz para sulcar com um golpe do seu montante a face de um archanjo que eu creára? Que direito tinha para me espremer o coração debaixo dos seus çapatos de ferro? Dava-lh'o o ouro que tem dispendido? O ouro! … Não! OMeslred'Aviz sabe que o ouro é vil; só nobre e puro o genio do homem. Enganaram-no: vassallos houve em Portugal, que enganaram seu rei! Este edificio era meu; porque o gerei; porque o alimentei com a substancia de minha alma; porque eu necessitava de me converter todo nestas pedras pouco a pouco, e de deixar, morrendo, o meu nome a sussurrar perpetuamente por essas columnas, e por baixo dessas arcarias. E roubaram-me o filho da minha imaginação, dando-me uma tença!… Com uma tença paga-se a gloria e a immortalidade? Agradeço-vos, senhor rei, a mercê!… sois em verdade generoso … mas o nome de mestre Ouguet enredar-se-ha no meu, ou talvez sumirá este no brilho de sua fama mentida…"

O cégo tremia de todos os membros: a vehemencia com que falára lhe exhaurira as forças: os joelhos vergaram-lhe, e assentou-se outra vez em cima do fuste. Os dous frades estavam em pé diante delle.

"Estaes mui perturbado pela paixão, mestre Affonso—disse Fr. Lourenço depois de uma larga pausa—por isso menoscabaes mestre Ouguet, que era talvez o unico homem que ahi havia capaz de vos substituir. Quanto a vós, pensaram os do conselho d'elrei que deviam propôr-lhe vos désse repouso e honrado sustentamento para os cansados dias. Ninguem teve em mente offender o mais sabedor e experto architecto de Portugal, cuja memoria será eterna, e nunca offuscada."

"Obrigado—atalhou o velho—aos conselheiros d'elrei pelos bons desejos que em meu prol têm. São politicos, almas de lodo, que não comprehendem senão proveitos materiaes. Dão-me o repouso do corpo, e assassinam-me o da alma! Ácêrca de mestre Ouguet, não serei eu quem negue suas boas manhas e sciencia de edificar: mas que ponha elle por obra suas traças, e deixem-me a mim dar vulto ás minhas. E demais: para entender o pensamento do mosteiro de Sancta Maria da Victoria cumpre ser portuguez; cumpre ter vivido com a revolução, que poz no throno o Mestre d'Aviz; ter tumultuado com o povo defronte dos paços da adultera[2]; ter pelejado nos muros de Lisboa; ter vencido cm Aljubarrota. Não é este edificio uma obra de reis, ainda que por um rei me fosse encommendado seu desenho e edificação, mas nacional, mas popular, mas da gente portugueza, que disse: não seremos servos do estrangeiro, e que provou seu dicto. Mestre Ouguet, escholar na sociedade dos irmãos obreiros[3], trabalhou nas sés de Inglaterra, de França, e de Alemanha: ahi subiu ao gráu de mestre, mas a sua alma não é aquecida á luz do amor de patria; nem, que o fosse, é para elle patria esta terra portugueza. Por engenho e mãos de portuguezes devia ser concebido e executado até seu final remate o monumento da gloria dos nossos; e eis-ahi que elle chamou do longes terras officiaes estranhos, e os naturaes lá foram mandados adornar de primorosos lavores a igreja de Guimarães. Sei que não seriam nem elles nem eu quem puzesse esse remate; mas nós deixariamos successores, que conservassem puras as tradições da arte. Perder-se-ha tudo; e, porventura, tempo virá em que, nesta obra dos seculos, não haja mãos vigorosas que prosigam os lavores que mãos cansadas não poderam levar a cabo. Então o livro de pedra, o meu cantico de victoria, ficará truncado. Mas Affonso Domingues tem uma pensão d'elrei!.."

Em uma das casas que ficavam mais proximas, e de que fizemos menção no principio deste capitulo, ergueu-se a adufa de uma janella no momento em que o cégo terminava estas palavras, e uma velha, em cuja cabeça alvejava uma toalha mui branca, gritou da janella:

"Mestre Affonso, quereis recolher-vos? Está prompta a cêa, e começa a cahir a orvalhada, que a tarde vae nevoenta."

"Vamos lá, vamos lá, Anna Margarida; vinde guiar-me."

E Anna Margarida, ama de mestre Affonso Domingues, saiu da porta com a roca ainda na cincta, e o fuso espetado entre o linho e o ourêlo que o apertava. Chegando ao pé do velho, tocou-lhe com o braço, em que elle se firmou, tornando a erguer-se.

"Boas tardes, padre prior:—disse a ama, fazendo sua mesura, seguida de um lamber de dedos, e de dous puxões nas barbas da estriga quasi fiada.

"Vá na graça do Senhor, filha:—respondeu Fr. Lourenço, e accresccntou dírigindo-se ao cégo:

"Meu irmão, Deus acceita só ao homem, em desconto da grande divida, a dor calada e soffrida. Resignae-vos na sua divina vontade."

"Na delle estou eu resignado ha muito: na dos homens é que nunca me resignarei."

E Anna Margarida, que tinha a cêa ainda ao lume, foi puxando o cégo para a porta de casa.

"Ai, Affonso Domingues, Affonso Domingues! vae-se-te após a vista o siso. Aborrida cousa é a velhice. Não vos parece, Fr. Joanne?"

Isto dizia o prior, voltando-se para o outro frade, que suppunha estaria atraz delle; mas Fr. Joanne tinha desapparecido d'alli manso e manso. Alongando os olhos ao redor de si, Fr. Lourenço viu-o em pé sobre uma pedra a alguma distancia.

O prior ia a perguntar-lhe o que fazia alli, quando o reverendo procurador saltou a correr, bradando:

"Ganhastes, padre prior; ganhastes!… Eis elrei que chega."

E, com effeito, Fr. Lourenço, volvendo os olhos para o cimo de um outeiro, viu uma lustrosa companhia de cavalleiros, que com grande açodamento descia para o vallc do mosteiro.

[1] Perdi o azeite e o trabalho: expressão proverbial.

[2] D. Leonor Telles, mulher d'elrei D. Fernando.

[3] Architectos sarracenos se espalharam pela Grecia, Sicilia, e outros paizes, durante certo tempo: um avultado numero de artifices christãos, principalmente gregos, se ajunctaram com elles, e formaram todos uma corporação, que tinha suas leis e estatutos secretos, e cujos membros se reconheciam por signaes. Esta foi a origem da Maçonaria. Conversation's Lexicon.

Uma das innumeraveis questões, que, em nosso entender, eternamente ficarão por decidir, é a que versa sobre qual dos dous dictados—voz do povo é voz de Deus—ou—voz do povo é voz do diabo—seja o que exprima a verdade. É indubitavel que o povo tem uma especie de presciencia innata, d'instincto divinatorio. Quantas vezes, sem que se saiba como ou porque, corre voz entre o povo, que tal navio saído do porto, tão rico de mercadorias como de esperanças, se perdeu em tal dia e a tal hora em praias estranhas. Passa o tempo, e a voz popular renlisa-se com exacção espantosa. Assim de batalhas; assim de mil factos. Quem dá estas noticias? Quem as trouxe? Como se derramaram? Mysterio é esse, que ainda ninguem soube explicar. Foi um anjo? Foi um demonio? Foi algum feiticeiro? Mysterio. Não ha, nem haverá, talvez, nunca, philosopho que o explique; salvo se tal phenomeno é uma das maravilhas do magnetismo animal. Esse meio inintelligivel de dar solução a tudo o que se não entende, é acaso a unica via de resolver a dúvida. Se o é, ahi damos mais um osso a roer aos physicos do magnetismo.

Foi o caso: quando a cavalgada, de que fizemos menção no fim do antecedente capitulo, vinha descendo a encosta sobranceira á planicie do mosteiro, entre o povo que estava dentro da igreja, impaciente já pela demora do auto, começou-se a espalhar um sussurro, que cada vez crescia mais: o motivo delle não era facil sabe-lo: nenhuma novidade occorrêra; ninguem tinha entrado ou saido. De repente toda aquella multidão se agitou, remoinhou pela igreja, e principiou a borbulhar pelo portal fóra, como por bico de funil o liquido deitado de alto. Tinham sabido que elrei chegava, e todos queriam vê-lo descalvagar, porque D. João I, plebeu por herança materna, nobre por ser filho do D. Pedro I, rei eleito por uma revolução, e confirmado por cincoenta victorias, era o mais popular, o mais amado, e o mais acatado de todos os reis da Europa. Vinha montado em uma possante mula, e assim mesmo em outras os fidalgos e cavalleiros de sua casa. Trazia vestida sobre a cota uma jórnea de veludo carmesim, monteira preta, e nebri em punho, em maneira de caçada. Chegando á porta do mosteiro, onde o esperava já Fr. Lourenco com parte da communidade, apeou-se de um salto, e com rosto risonho e a mão no barrete, agradeceu sua cortezia e amor aos populares, que gritavam apinhados à roda delle: —"viva D. João I de Portugal: morram os castelhanos!"—grito absurdo, mas semelhante aos vivas de todos os tempos; porque o povo, bem como o tigre, mistura sempre com o rugido de amor o bramido que revela a sua indole sanguinaria.

Por baixo daquellas suberbas arcadas desappareceu brevemente elrei da vista da multidão, que tornou a sumir-se no templo para ver o auto, que não podia tardar.

"Mui receioso estava que vossa real senhoria nos não honrasse nosso auto; porque o sol não tarda a sumir-se no poente:—dizia Fr. Lourenço a elrei, a cujo lado ia para o guiar ao seu aposento.

"Bofé, mui devoto padre prior, que por pouco estive a ponto de ter que levar a vossos pés mais uma mentira com os outros peccados, que me não fallecem, se ámanhan me quizesse confessar ao meu antigo confessor:—tornou-lhe elrei sorrindo-se.

"E certo estou de que entre todos os peccados de que terieis de vos accusar, este não fôra o menos grave, e de que eu muito a custo absolveria vossa mercê:—retrucou o prior, que tinha aprendido ainda mais depressa as manhas cortezans no paço, do que a theologia no noviciado da sua ordem.

"Mas para onde me guiaes, reverendissimo prior:—disse elrei, parando antes de subir uma escada, para a qual Fr. Lourenço o encaminhava.

"Ao vosso aposento, real senhor; por que tomeis alguma refeição, e repouseis um pouco do trabalho do caminho."

"Não foi grande o feito, para tomar repouso:—acudiu elrei:—que de Santarem aqui é uma corrida de cavallo; muito mais para quem, em vez de cota de malha, arnez e braçaes, traz vestidos de seda. Despi-los-hei bem depressa, já que elrei de Castella quer jogar mais lançadas, e não vieram a conclusão de treguas o Mestre de Sanctiago com o Condestavel. Mas vamos, meu doutissimo padre; mostrae-me a casa do capitulo, a que mestre Ouguet acabou de pôr seu fecho e remate. Onde está elle? Quero agradecer-lhe a boa diligencia."

"Beijo-vos as mãos pela mercê:"—disse mestre Ouguet, que, sabendo da chegada d'elrei, e certo de que elle desejaria vêr aquella grande obra, tinha corrido ao mosteiro, e estava entre os da comitiva:—"Se quereis vêr a casa do capitulo, vamos para a banda da crasta."—Dizendo isto, sem ceremonia tomou a dianteira, e encaminhou-se ao longo de um dos cubertos do claustro.

David Ouguet era um irlandez, homem mediano em quasi tudo; em idade, em estatura, em capacidade, e em gordura, salvo na barriga, cujos tegumentos tinham soffrido grande distensão, em consequencia da dura vida que a tyrannia do filho d'Erin lhe fazia padecer havia bem vinte annos. Desde muito moço que começára a produzir grande impressão no seu espirito a invectiva do apostolo contra os escravos do proprio ventre; e para evitar essa condemnavel fraqueza resolvêra traze-lo sempre sopeado. Não lhe dava treguas; se em Inglaterra o fizera muitos annos vergar sob o pêso de dez atmospheras de cerveja, em Portugal submettia-o ao mais fadigoso mister de cangirão permanente. Mortificava-o assim, para que não lhe acudissem suberbas e velleidades de senhorio e dominação. De resto David Ouguet era bom homem, excellente homem: não fazia aos seus semelhantes senão o mal absolutamente indispensavel ao proprio interesse: nunca matára ninguem, e pagava com pontualidade exemplar ao alfaiate e ao merceeiro. Prudente, positivo, e practico do mundo, não o havia mais: seria capaz de se empoleirar sobre o cadaver de seu pae para tocar a méta de qualquer designio ambicioso: com tres licções de phrases oucas dava panno para se engenharem delle dous grandes homens d'estado. Tendo vindo a Portugal como um dos cavalleiros do duque de Lancastre, procurou obter e alcançou a protecção da rainha D. Philippa, que, havendo Affonso Domingues cegado, o fez nomear mestre das obras do mosteiro da Batalha, mostrando elle por documentos authenticos ter na sua mocidade subido ao gráu de mestre na sociedade secreta dos obreiros edificadores.

Esta é em breve resumo a historia de David Ouguet, tirada de uma velha chronica, que, em tempos antigos, esteve em Alcobaça enquadernada em um volume junctamente com os traslados authenticos das Côrtes de Lamego, do Juramento de Affonso Henriques sobre a apparição de Christo, da Carta de feudo a Claraval, das Historias de Laimundo e Beroso, e de mais alguns papeis de igual veracidade e importancia, que por pirraça ás nossas glorias provavelmente os castelhanos nos levaram.

O lanço da crasta, fronteiro ao cuberto por onde ía elrei, estava ainda por acabar. Apenas D. João I entrou naquelle magnifico recincto, olhou para lá, e voltando-se para mestre Ouguet, disse:

"Parece-me que não vão tão aprimorados os lavores daquellas arcarias como os destas. Que me dizeis, mestre Ouguet?"

"Seguiu-se á risca nesta parte—tornou o architecto—o desenho geral do edificio, feito por mestre Affonso Domingues; porque seria grave erro destruir a harmonia desta peça: mas se vossa mercê m'o permitte, antes de entrardes no capitulo tenho alguma cousa que vos dizer ácerca do que ides presenciar."

"Falae desassombradamente:—respondeu elrei—que eu vos escuto."

"Tomei a ousadia—proseguiu mestre Ouguet—de seguir outro desenho no fechar da immensa abobada que cobre o capitulo: o que achei na planta geral contrastava as regras da arte, que aprendi com os melhores mestres de pedraria. Era até impossivel que se fizesse uma abobada tão achatada, como na primitiva traça se delineou: eu, pelo menos, assim o julgo."

"E consultastes o architecto Affonso Domingues, antes de fazer essa mudança no que elle havia traçado?—interrompeu elrei.

"Por escusado o tive:—replicou David Ouguet.—Cégo, e por isso inhabilitado para levar a cabo a edificação, teimaria que o seu desenho se póde executar, visto que hoje ninguem o obriga a prova-lo por obras. Sobra-lhe orgulho: orgulho de imaginador engenhoso. Mas que vale isso sem a sciencia, como dizia o veneravel mestre Vilhelmo de Wykeham? Menos engenho e mais estudo, eis do que havemos mister."

"Dizendo isto o architecto, mettêra ambas as mãos no cincto, estendêra a perna direita excessivamente empertigada, e com a fronte erecta volveu os olhos solemne e lentamente para os circumstantes.

"Mestre Ouguet—acudiu elrei com aspecto severo—lembrae-vos de que Affonso Domingues é o maior architecto portuguez. Não entendo de vossas distincções de sciencia e de engenho: sei só que o desenho de Sancta Maria da Victoria causa assombro a vossos proprios naturaes, que se gabam de ter no seu paiz os mais affamados edificios do mundo: e esse mestre Affonso, de quem vós falaes com pouco respeito, foi o primeiro architecto da obra que a vosso cargo está hoje."

"Vossa mercê me perdoe:—tornou mestre Ouguet, adocicando o tom orgulhoso com que falára.—Longe de mim menoscabar mestre Domingues: ninguem o venera mais do que eu; mas queria dar a razão do que fiz, seguindo as regras do mui excellente mestre Vilhelmo de Wykeham, a quem devo o pouco que sei, e cuja obra da cathedral de Winchestria tamanho ruido tem feito no mundo."

Com este dialogo chegou aquella comitiva ao portal, que dava para a casa do capitulo: Fr. Lourenço Lamprea, como dono da casa, correu o ferrolho com certo ar de auctoridade, e encostado ao umbral cortejou a elrei no momento de entrar, e aos mais fidalgos e cavalleiros que o acompanhavam. Mestre Ouguet, como pessoa tambem principalissima naquelle logar, collocou-se juncto do umbral fronteiro, repetindo, com aspecto sobranceiro-risonho, as mesuras do mui devoto padre prior.

Quando elrei entrou dentro daquella espantosa casa, apenas através da grande janella que a allumia entrava uma luz frouxa, porque o sol estava no fim de sua carreira, e o tecto profundo mal se divisava sem se affirmar muito a vista. Mestre Ouguet ficára á porta, mas Fr. Lourenço tinha entrado.

"Reverendo prior—disse elrei voltando-se para Fr. Lourenço—vim tarde para gosar desta maravilhosa vista: vamos ao auto da adoração, e ámanhan voltaremos aqui a horas de sol."

E seguiu para a banda da sacristia, cuja porta lhe foi abrir o prior.

Mestre Ouguet entrou na casa do capitulo, quando já os ultimos cavalleiros do sequito real íam saindo pelo lado opposto, caminho da igreja. Com as mãos mettidas no cincto de couro preto que trazia, e a passo mesurado, o architecto caminhou até o meio daquella desconforme quadra. O som dos passos dos cavalleiros tinha-se desvanecido; e mestre Ouguet dizia comsigo, olhando para a porta por onde elles haviam passado:

"Pobres ignorantes! que seria o vosso Portugal sem estrangeiros, senão um paiz sáfaro e inculto? Sois vós, homens brigosos, capazes dos primores das artes, ou sequer de entende-los?.. Lá vão, lá vão os frades celebrar um auto! Não serei eu que assista a elle; eu que vi os mysterios de Coventria e de Widkirk! Miseraveis selvagens, antes de tentardes representar mysterios fôra melhor que mandasseis vir alguns irmãos da sociedade dos escrivães de parochia de Londres[1], que vos ensinassem os verdadeiros momos, ademanes e tregeitos usados em semelhantes autos."

Mestre Ouguet estava embebido neste mudo soliloquio, em louvor da nação que lhe dava de comer, e o que deveria pesar-lhe ainda mais na consciencia, da nação que lhe dava de beber, quando erguendo casualmente os olhos para a macissa abobada, que sobre elle se arqueava, fez um gesto de indizivel horror, e como doudo correu a bom correr pela crasta solitaria, apertando a cabeça entre as mãos, e gritando a espaços:

"Oh, malaventurado de mim!"

[1] Pelas Chronicas de Stow se vê que no principio do seculo 15.° os mysterios eram representados em Londres pelos escrivães de parochia, incorporados em sociedade por Henrique 3.°, em 1409.

Juncto a uma das columnas da igreja de Sancta Maria da Victoria estava levantado um estrado, sobre o qual se via uma grande e macissa cadeira de espaldas, feita de castanho, e lavrada de curiosos bestiães e lavores: era este o logar onde elrei devia assistir ao auto da adoração dos reis. No mesmo estrado havia varios assentos rasos para nelles se assentarem os fidalgos e cavalleiros que o acompanhavam. Defronte do estrado e collocado ao pé do arco da capella do fundador corria para um e outro lado da parede um devoto presepio[1], mui erguido do chão, e representando serranias agrestes, ao sopé das quaes estava armada uma especie de choça, onde sobre a tradicional manjadoura se via reclinado o menino Jesus, e de joelhos juncto delle a Virgem e S. José, acompanhados de varios anjos, em acto de adoração. Diante da cabana corria, no mesmo nivel, um largo e grosseiro cadafalso de muitas táboas, para o qual, por um dos lados, davam serventia duas grossas e compridas pranchas de pinho, por onde deviam subir as personagens do auto.

Tanto que elrei saíu da porta do cruzeiro que dá para a sacristia, encaminhou-se pela igreja abaixo, e veio assentar-se na cadeira de espaldas, conduzido por Fr. Lourenço, que com todos os modos de homem cortezão offereceu os assentos rasos aos demais cavalleiros e fidalgos.

Pela mesma porta da sacristia saíram logo as primeiras figuras do auto, que, descendo ao longo da nave, subiram ao cadafalso pelas pranchas de que fizemos menção.

Estas primeiras figuras eram seis, formando uma especie de prologo ao auto. Tres que vinham adiante representavam a Fé, a Esperança, e a Caridade: após ellas vinham a Idolatria, o Diabo, e a Suberba; todas com suas insignias mui expressivas e a ponto; mas o que enlevava os olhos da grande multidão dos espectadores era o Diabo, vestido de pelles de cabra, e com um rabo que lhe arrastava pelo tablado, e seu forcado na mão, mui vistoso e bem posto. Feitas as venias a elrei, a Idolatria começou seu arrazoado contra a Fé, queixando-se de que ella a pretendia esbulhar da antiga posse em que estava de receber cultos de todo o genero-humano, ao que a Fé acudia com dizer que ab initio estava apontado o dia em que o imperio dos idolos devia acabar, e que ella Fé não era culpada de ter chegado tão asinha esse dia. Então o Diabo vinha lamentando-se de que a Esperança começasse de entrar nos corações dos homens; que elle Diabo tinha jus antiquissimo de desesperar toda a gente; que se dava ao démo por vêr as perrarias que a Esperança lhe fazia; e com isto careteava com taes momos e tregeitos, que o povo ria a rebentar, o mais devotamente que era possivel. Ainda que o Diabo fizesse de truão da festa, nem por isso a sua contendora, a Esperança, dava descargo de si com menos compostura do que a tão honrada virtude cumpria, dizendo que ella obedecia ao senhor de toda las cousas, e que este vendo e considerando os grandes desvairos que pelo mundo íam, e como os homens se arremessavam desacordadamente no inferno, a mandára para lhes apontar o direito caminho do céu; e por aqui seguia com razões mui devotas e discretas, que moveriam a devotissimas lagrymas os ouvintes, se a devoto riso os não movesse o Diabo com seus tregeitos e visagens, como, com bastante agudeza, reflecte o auctor da antiga chronica, de que fielmente vamos transcrevendo esta veridica historica. A Suberba, que estava impando, ouvidas as razões da Esperança, travou della mui rijo, e com voz torvada e rosto acceso, começou de bradar, que esta dona era sandía, porque entendera enganar os homens com vaidades de incertos futuros, e sustenta-los com fumo; que pretendia contra toda a ordem de boa razão, que a gente vil houvesse igual quinhão no céu com os senhores e cavalleiros, o que era descommunal ousadia, e fóra da geral opinião e direito, indo por aqui discursando com remoques mui orgulhosos, como a Suberba que era. Não soffreu, porém, o animo da Caridade tão descomposto razoar da sua figadal inimiga, e lh'o atalhou com tomar a mão naquelle ponto, e notar que os filhos de Adão eram todos uns aos olhos do Todo-Poderoso; que a Suberba inventára as vans distincções entre os homens, e que á vida eternal mais amorosamente eram os pequenos e humildosos chamados, do que os potentes, o que provou claramente á sua contraria com bastos textos das sanctas escripturas, de que a Suberba ficou mui corrida, por não ter contra tão grande auctoridade resposta cabal. E acabado o dizer da Caridade, um anjo subiu ao cadafalso, para dar sua sentença, que foi mandar recolher ao abysmo a Idolatria, o Diabo e a Suberba, e annunciar ás tres virtudes que as ía elevar ao céu, onde reinariam em gloria perduravel. Então o Diabo, fazendo horribilissimos biocos, pegou pelas mãos ás duas companheiras, e fugiu pela igreja fóra com grandes apupos e doestos dos espectadores. Guiando as tres virtudes, o anjo (por uma daquellas liberdades scenicas que ainda hoje se admittem, quando, nas vistas de marinha, o actor, que vem embarcado, desce dois ou tres degráus das ondas de papelão para a terra de soalho) em vez de subir ao céu, como annunciára, desceu pelas pranchas, que davam para o pavimento da igreja, e caminhando ao longo da nave se recolheu á sacristia, acompanhado da Fé, Esperança e Caridade, tão victoriadas pelos espectadores, como apupado fôra o Diabo e as suas infernaes companheiras.

Ainda bem não eram recolhidas estas figuras, quando, pela mesma porta do cruzeiro, saíram os tres reis magos, ricamente vestidos ao antigo, com roupas talares de fina téla, mantos reaes, e corôas na cabeça. Adiante vinha Balthasar, homem já velho, mas bem disposto de sua pessoa, com aspecto grave e auctorisado, e com umas barbas, posto que brancas, bem povoadas: logo após elle vinha o rei Belchior, e a este seguia-se Gaspar: traziam todos suas bocetas, em que eram guardados os preciosos dons, que ao recem-nascido vinham de longes terras offertar. Subindo ao cadafalso, disseram como uma estrella os guiára até Jerusalem, e como desta cidade, depois de mui trabalhado e duvidoso caminho, tinham acertado em vir a Bethlem, e com grande folgança encontravam ahi o presepe, para fazer seu offertorio, o que em verdade era cousa mui piedosa d'ouvir. O rei Balthasar, como mais velho e sisudo, foi o primeiro que ajoelhou juncto do presepe, e com voz mui entoada, e depondo ante o menino seus presentes, disse:

Sancto filho de David,DivinalSalvador da triste raçaHumanal,Que descestes lá do assentoCelestial;Vós da gloria imperadorEternal,Acceitae este offertorioNão real,Pobre si. É quanto posso:Não hei al.O que fôra compridoiroDe auto talBem o sei. Andei más vias,Por meu mal;Que dez dias prantei tendasDe arrayalNas soidões fundas d'Arabia,Mui fatal.Meus camellos ha tisnadoSol mortal;E um, de vento do deserto,Vendaval.O presente, que ahi vêdes,Pouco vai;É somente algum incensoOriental;Que o thesouro que eu trazia,Mui cabal,Soterrou-mo a tempestadeNo areal.

E com isto o veneravel rei Balthasar, depois de fazer sua oração em voz baixa, ergueu-se; e o rei Belchior, ajoelhando e depondo a urna que trazia nas mãos ante o presepe, disse:

Vindo sou Iá do CataioA adorar-vos alto infante,Redemptor:Não me poz na alma desmaioSer de lerra tào distanteRei, senhor!É bem torva a minha lace:Minhas mãos tingidas sãoDe negrura;Mas na terra onde o sol naceMais se cobre o coraçãoDe tristura;Porque o torpe MafamedeSua crença mui sandiaMandou lá;E não ha quem della arredeEssa gente, que aperfiaEm ser má.Real tronco de JesséMui fermoso, se eu podéraVos levára;E comvosco á vossa féOs incréus eu convertêra,E os salvára.Ora quero vêr se peitoSão José, que é vosso padre ….

Um sussurro, que começára no momento em que o rei preto ajoelhou, e que mal deixára ouvir a precedente loa (obra mui prima de certo leigo, affamado jogral daquelle tempo) cresceu neste momento a tal ponto, que o corista, que fazia o papel de Belchior, não pôde, continuar, com grande dissabor do poeta, que via murchar a corôa de louros, que neste auto esperava obter. O povo agitava-se, e do meio delle saíam gritos descompostos, que augmentavam o tumulto. Elrei tinha-se erguido, e junctamente os demais cavalleiros e fidalgos: todos indagavam a origem do motim; mas não havia acertar com ella. Emfim, um homem rompendo por entre a multidão, sem touca na cabeça, cabellos desgrenhados, bôca torcida e cuberto de escuma, olhos esgazeados, saltou para dentro da têa, que fazia um claro em roda do tablado. Apenas se viu dentro daquelle recincto, ficou immovel, com os braços estendidos para o tecto, as palmas das mãos voltadas para cima, e a cabeça encolhida entre os bombros, como quem cheio de horror via sobre si desabar aquellas altissimas e macissas arcarias.

"Mestre Ouguet!—exclamou elrei espantado.

"Mestre Ouguet!—gritou Fr. Lourenço, com todos os signaes de assombro.

"Mestre Ouguet!—repetiram os cavalleiros e fidalgos, para tambem dizerem alguma cousa.

"Quem fala aqui no meu nome?—rosnou David Ouguet, com uma voz comprimida e sepulchral.—Malvados! Querem assassinar-me?! Querem arrojar sobre mim esse montão de pedras, como se eu fôra um cão judeu, que merecesse ser apedrejado?! Oh meu Deus, salvae a minha alma!"—E depois de um breve silencio, em que pareceu tomar fôlego:— "Não vos chegueis ahi!—bradou elle.—Não vedes essas fendas profundas como o caminho do inferno? São escuras: mas atravez dellas lá enxergo eu o luar! Vós não, porque vossos olhos estão cegos … porque o vosso bom nome não se escoa por lá!… Cégos? Não vós!… mas elle!… Elle é que se ri e folga em sua orgulhosa suberba! Vêde como escancára aquella bôca hedionda; como revolve, debaixo das palpebras cubertas de vermelhidão, aquelles olhos embaciados!… Maldicto velho, foge diante de mim!… Maldicto, maldicto!… Curvada ja no centro … sentia-a escaliçar e ranger… Estavas tu assentado em cima della? Feiticeiro!… Anda, que eu bem ouço as tuas gargalhadas!… Não ha um raio que te confunda?.. Não!"

Dizendo isto, mestre Ouguet cubriu a cara com as mãos, e ficou outra vez immovel.

Elrei, os cavalleiros, os padres mais dignos, que estavam de roda do estrado real, os reis magos, os populares, todos olhavam pasmados para o architecto que assim interrompêra a solemnidade do auto. Um silencio profundo succedêra ao ruído, que a apparicào daquelle homem desvairado excitara. Milhares de olhos estavam fitos nesse vulto, que semelhava uma larva de condemnado saída das profundezas para turbar a festa religiosa. Por mais de um cérebro passou este pensamento: em mais de uma cabeça os cabellos se eriçaram de horror; mas dos que conheciam mestre Ouguet nenhum duvidou de que fosse elle em corpo e alma. Que proveito tiraria o demonio de tomar a figura do architecto para fazer uma das suas irreverentes diabruras? Só uma supposição havia, que não era inteiramente desarrazoada; David Ouguet podia estar possesso, em consequência de algum grave peccado; peccado que talvez tivesse escondido na ultima confissão, que fizera na vespera de Natal. Isto era possivel, e até natural; que não vivia elle a mais justificada vida. Suppôr que endoudecêra parecia grande desproposito; porque nenhum motivo havia para tal lhe acontecer, quando merecêra os gabos d'elrei e de todos, por ter levado a cabo a grandiosa obra que lhe estava encommendada. Estes e outros raciocinios, hoje ridículos, mas segundo as idéas daquella epocha hem fundados e correntes, fazia o reverendo padre procurador Fr. Joanne, que tinha vindo assistir ao auto, e estava em pé atraz do estrado, e perto de Fr. Lourenço Lamprêa. Revolvendo taes pensamentos, no meio daquelle silencio ancioso em que todos estavam, não pôde ter-se que, pé ante pé, se não chegasse ao prior, e lh'os communicasse em voz baixa, e ao ouvido.

"Não vou fóra disso:"—respondeu o prior, que, emquanto o outro frade lhe falára, estivera dando á cabeça em signal de approvação.—"O olhar espantado, o escumar, o estorcer os membros, o falar não sei de que feiticeiro; tudo me induz o crer que o demonio se chantou naquelle miseravel corpo, como vós aventaes. Se assim é, pouco juizo mostrou desta vez o diabo em vir com seus esgares e tropelias atalhar o mui devoto auto da adoração. Examinemos se assim é, eu vo-lo darei bem castigado."

Dizendo isto, Fr. Lourenço chegou-se a el-rei, e disse-lhe o que quer que foi. Elle escutou-o attentamente, e tanto que o prior acabou, sentou-se outra vez na sua cadeira de espaldas, e fez signal com a mão aos fidalgos e cavalleiros para que tambem se assentassem.

Fr. Lourenço, acompanhado de mais alguns frades, subiu pela igreja acima, e entrou na sacristia: todos ficaram esperando, silenciosos e immoveis como mestre Ouguet, o desfecho desta scena, que se encaixava no meio das scenas do auto.

Tinham passado obra de tres credos, quando, saindo outra vez da porta da sacristia, Fr. Lourenço voltou pela igreja abaixo, revestido com as vestes sacerdotaes, cbegou á têa, abriu-a, e encaminhou-se para mestre Ouguet. Depois, olhando de roda, e fazendo um aceno de aucloridade, disse:

"Ajoelhae, christãos, e orae ao Padre Eterno por este nosso irmão, tomado do espirito immundo."

A estas palavras, rei, cavalleiros, frades, povo, tudo se poz de joelhos. E ouvia-se ao longo das naves o sussurro das orações.

Só mestre Ouguet ficou sem se bulir com o rosto mettido entre as mãos.

O prior lançou a estola á roda do pescoço do possesso, e queria atar os tres nós do ritual; mas o paciente deu um estremeção, e tirando as mãos da cara, fez um gesto de horror, e gritou:

"Frade abominável, tambem tu és conluiado com o cégo?"

"Não ha duvida!—disse por entre os dentes o prior:—mestre Ouguet está endemoninhado."

Tirando então da manga um pergaminho, em que estavam escriptas varias cousas de doutrina, o poz sobre a cabeça do mestre, fazendo sobre elle tres vezes o signal da cruz.

David Ouguet soltou então uma destas risadas nervosas, que horrorisam, e que tão frequentes são quando o padecimento moral sobrepuja as forcas da natureza.

"Cão tinhoso—bradou Fr. Lourenço—espirito das trevas, enganador, maldicto, luxurioso, insipiente, ebrio, serpe, vibora, vil e refece demónio, emfim, castelhano[2]. Em nome do creador e senhor de todas las cousas, te mando que repitas o credo, ou sáias deste miseravel corpo."

Mestre Ouguet ficou immovel e calado.

"Não cedes?!"—proseguiu o prior—"Recorrerei ao septimo, ao mais terrivel exorcismo. Veremos se poderás a teu salvo escarnecer das creaturas feitas á imagem e semelhança de Deus."

Depois de varias ceremonias e orações, Fr. Lourenço chegou-se ao pobre irlandez, e começou a repetir o conjuro, fazendo-lhe uma cruz sobre a testa a cada uma das seguintes palavras, que proferia lentamente:

"Hel—Heloym—Heloa—Sabaoth—Helyon—Esereheye—Adonay—Iehova—Ya—Thetagrammaton—Saday—Messias—Hagios—Ischiros—Otheos—Athanatos—Sother—Emanuel—Agla—……

"Jesus!"—bradou a uma voz toda a gente que estava na igreja.

"Diabo!"—gritou mestre Ouguet; e caíu no chão como morto.

E houve um momento de angustia e terror, em que todos os corações deixaram de bater, e em que todos os olhos, braços e pernas ficaram fixos como se fossem de bronze.

Um ruído semelhante ao de cem bombardas, que se houvessem disparado dentro do mosteiro, e que soára da banda da sacristia, tinha arrancado aquelle grito de mil bôcas, e tinha convertido em estatuas essa multidão de povo.

Ha situações tão violentas, que se durassem, a morte se lhes seguiria em breve; mas a providente natureza parece restaurar com dobrada energia o vigor physico e espiritual do homem depois destes abalos espantosos; e então, melhor que nunca, elle sente em si que, posto que despenhado, não perdeu a sublimidade da sua origem divina. A reacção segue a acção; e quanto mais timido o individuo se mostrou, mais viva é a consciência da propria força, que depois disso renasce com o destemor e ousadia.

Foi o que succedeu a D. João I, aos cavalleiros do seu sequito, e ao povo que estava na igreja de Sancta Maria, passado aquelle instante de sobrenatural pavor. A terribilidade da ceremonia que Fr. Lourenço practicava; o ruído inesperado que rompêra o exorcismo; o grito blasphemo do architecto, no momento de cahir por terra; o logar; a hora, eram cousas que, reunidas, fariam pedir confissão a uma grande manada de philosophos encyclopedistas, e que por isso, não é de admirar fizessem uma impressão vivissima em homens de um seculo, não só crente, mas tambem supersticioso. Todavia o animo indomavel do Mestre d'Aviz brevemente fez cobrar alento a todos os que ahi estavam.

"É, em verdade, descommunal maravilha o que temos visto e ouvido—disse elle com voz firme, voltando-se para os que o rodeavam;—mas cumpre indagar d'onde procede o ruído que veiu interromper o mui devoto padre prior no exercicio de seu ministerio tremendo. Soou esse medonho estampido da banda do claustro: vamos examinar o que seja: se diabolico, estamos na casa de Deus, e a cruz é nosso amparo: se natural, que haverá no mundo capaz de pôr espanto em cavalleiros portuguezes?"

Dizendo isto, elrei desceu do estrado, e encaminhou-se para a sacristia. Os cavalleiros da comitiva, os frades, os tres reis magos (que ainda estavam em pé sobre o tablado) e uma grande parte do povo tomaram o mesmo caminho.

Elrei ía adiante, e o prior era o que mais de perto o seguia. Cruzaram o arco gothico, que dava communicação para a sacristia: ahi tudo estava em silencio: uma lampada que pendia do tecto dava uma luz frouxa e mortiça, e a esta luz incerta e baça encaminharam-se para a porta do capitulo. Ao chegar a ella todos recuaram de espanto, e um segundo grito soou, e veiu morrer sussurrando pelas naves da igreja quasi deserta:

"Jesus!"

As portas haviam estourado nos seus grossissimos gonzos, e muito cimento solto e pedras quebradas tinham rolado pelo portal fóra, entulhando-lhe quasi um terço da altura. Olhando para o interior daquella immensa quadra não se viam senão enormes fragmentos de cantos lavrados, de laçarias, de cornijas, de voltas e de relevos: a lua, que passava tranquilla nos céus, reflectia o seu clarão pallido sobre este montão de ruinas semelhantes aos monumentos irregulares de um cemiterio christão; e por cima daquelle temoroso silencio passava o frio leste da noite, e vinha bater nas faces turbadas dos que apinhados na sacristia contemplavam este lastimoso espectaculo. Dos olhos d'elrei e de Fr. Lourenço cahiram algumas lagrymas, que elles debalde tentavam reprimir.

A abobada do capitulo, acabada havia vinte e quatro boras, tinha desabado em terra!

[1] Presepio, ou presepe, significa propriamente um estabulo, ou estrebaria; mas a accepção vulgar desta palavra é a de uma especie de embrechado, ou paizagem de vulto, representando a choça de Belém, em que nasceu o Salvador.

[2] O inquisidor Sprenger, no livro intitulado Mallens Maleficarum, recommenda aos exorcistas que antes de tudo descomponham e injuriem quanto poderem os possessos, advertindo que não são propriamente estes que recebem as affrontas, mas sim o diabo, que tem no corpo. A conveniencia de taes doestos é que para o demonio, pae da suberba, não póde haver maior pirraça do que ser descomposto na sua cara, sem que elle se possa desaggravar. Veja-se o livro citado, edição de Lyão de 1604—Tom. 3. pág. 83.

Em uma quadra das que serviam de aposentos reaes no mosteiro da Batalha, á roda de um bufete de carvalho de lavor antigo, cujos pés, torneados em linha espiral, eram travados por uma especie de escabéllo, que pelos topos se embebia nelles, estavam assentadas varias personagens daquellas com quem o leitor já tractou nos antecedentes capitulos. Eram estas D. João I, Fr. Lourenço Lamprêa, e o procurador Fr. Joanne. Elrei estava á cabeceira da mesa, e no topo fronteiro o prior, tendo á sua esquerda Fr. Joanne. Além destes, outros individuos ahi estavam, que as pessoas lidas nas chronicas deste reino tambem conhecerão: taes eram os doutores João das Regras e Martim d'Ocem do conselho d'elrei, cavalleiros mui graves e auctorisados, e afóra elles mais alguns fidalgos, que D. João I particularmente estimava. Atraz da cadeira d'elrei um pagem esperava, em pé, as ordens de seu real senhor. O quadrante do terrado contiguo apontava meio-dia.

Em cima do bufete estava estendido um grande rolo de pergaminho, no qual todos os olhos dos circumstantes se fitavam: era a traça ou desenho do mosteiro, que delineára mestre Affonso Domingues, onde, além dos prospectos geraes do edificio, illuminados primorosamente, se viam todos os córtes e alçados de cada uma das partes dessa complicada e maravilhosa fabrica. Elrei tinha a mão estendida, e os dedos sobre o risco da casa capitular, ao passo que falava com o prior:

"Parece impossivel isso; porque natural desejo é de todos os homens alcançarem repouso e pão na velhice, e não vejo razão para mestre Affonso se doer da mercê que lhe fiz."

"Pois a conversação que vos relatei, tive-a com elle ainda hontem, pouco antes de vossa mercê chegar."

"E como vae David Ouguet?—perguntou elrei.

"Com grande melhoria:—respondeu o prior.—Dormiu bom espaço, e acordou em seu juizo. Contou-me que, entrando hontem após nós na casa do capitulo, e affirmando a vista na abobada, conhecêra que tinha gemido, e estava a ponto de desabar; que sentíra apertar-se-lhe o coração, e que com a sua afflicção corrêra pela crasta fóra como doudo; que no céu se lhe affigurava um relampaguear incessante e medonho; que via … nem elle sabe o que via, o pobre homem. Depois disso, diz que perdêra o tino, e de nada mais se recorda."

"Nem dos exorcismos?—perguntou em meia voz Martim d'Ocem, com um sorriso malicioso.

"Nem dos exorcismos:—retrucou Fr. Lourenço no mesmo tom, mas subindo-lhe ao rosto a vermelhidão da colera.—A proposito, doutor. Dizem-me que Annequim é morto[1], e que elrei proveu o cargo em um dos de seu conselho. Seria verdadeira esta mercê singular?"

E o frade media o letrado de alto a baixo com os olhos irritados. Este preparava-se para vibrar ao prior uma nova injuria indirecta, naquelle jogo de allusões que era as delicias do tempo, quando elrei acenou ao pagem, dizendo-lhe:

"Alvaro Vaz d'Almada, ide depressa á morada d'Affonso Domingues, dizei-lhe que eu quero falar-lhe, e guiae-o para aqui. Fazei isso com tento; e lembrae-vos de que elle é um antigo cavalleiro, que militou com vosso mui esforçado pae."

O pagem saíu a cumprir o mandado d'elrei.

"Dizeis vós—proseguiu este, dirigindo-se a João das Regras e a Martim d'Ocem—que talvez Affonso Domingues se enganasse em suppôr que era possivel fazer uma abobada tão pouco erguida, como é a que elle traçou para o capitulo. Não creio eu que tão entendido architecto assim se enganasse: mais inclinado estou a persuadir-me de que o lastimoso successo de hontem á noite procedesse da grave falta commettida por mestre Ouguet nesta edificação."

"E que falta foi essa, se a vossa mercê apraz dizer-m'o?—replicouJoão das Regras.

"A de não seguir de todo ponto o desenho de mestre Affonso:—tornou elrei.

"E se a execução de sua traça fosse impossivel?—acudiu o doutor.

"Impossivel!?"—atalhou elrei.—"E não contava elle com leva-la a effeito, se Deus o não tolhesse dos olhos?"

"E é disso que mais se doe mestre Affonso,"—interrompeu o prior.—"A sua grande canseira é que ninguem saberá continuar a edificação do mosteiro, ou, como elle diz, proseguir a escriptura do seu livro de pedra, porque ninguem é capaz de entender o pensamento que o dirigiu na concepção delle."

"Roncarías e feros são esses proprios de quem foi homem d'armas de Nunalvares:—disse o chanceller João das Regras.—Todos os de sua bandeira são como elle. Porque sabem jogar boas lançadas, teem-se em conta de principes dos discretos; e o cégo não se esqueceu ainda de que comeu da caldeira do condestavel."

João das Regras, emulo de Nunalvares, não perdeu este ensejo de lhe pôr pêcha; mas D. João I que conhecia serem esses dous homens as pedras angulares de seu throno, escutava-os sempre com respeito, salvo quando falavam um do outro; posto que o condestavel, homem mais de obras que de palavras, raras vezes menoscabava os meritos do chanceller, contentando-se com lançar na balança, em que João das Regras mostrava o grande peso da sua penna, o montante com que elle Nunalvares tinha em cem combates salvado a patria do dominio estranho, e a cabeça do chanceller das mãos do carrasco, de que não o livrariam nem os gráus de doutor de Bolonha, nem os textos das leis romanas.

"Deixae lá o condestavel, que não vem ao intento;—disse elrei:—o que me importa é ouvir mestre Affonso sobre este caso. Quizera antes perder um recontro com castelhanos, do que cuidar que o capitulo de Sancta Maria da Victoria ficará em ruinas. Mestre Ouguet com sua arte deixou-lhe vir ao chão a abobada: se Affonso Domingues fôr capaz de a tornar a erguer, e deixa-la firme, concluirei d'ahi que vale mais o cégo que o limpo de vista; e digo-vos que o restituirei ao antigo cargo, ainda que esteja, além de cégo, çopo[2] e mouco."

Neste momento entrava o velho architecto, agarrado ao braço de Alvaro Vaz d'Almada, que o veiu guiando para o topo da desmesurada banca de carvalho, á roda da qual se travára o dialogo, que acima transcrevemos.

"Dom donzel, onde é que está elrei?"—dizia Affonso Domingues ao pagem, caminhando com passos incertos ao longo do vasto aposento.

D. João I, que ouvira a pergunta, respondeu em vez do pagem:

"Agora nenhum rei está aqui, mas sim o Mestre d'Aviz, o vosso antigo capitão, nobre cavalleiro de Aljubarrota."

"Beijo-vos as mãos, senhor rei, por vos lembrardes ainda de um velho homem de armas, que para nada presta hoje. Vêde o que de mim mandaes; porque de vossa ordem aqui me trouxe este bom donzel."


Back to IndexNext