A MORTE DO LIDADOR

"Irá, irá!—respondeu o principe em voz tão alta que as suas palavras reboaram pelas abobadas do vasto aposento.—Que o legado tenha tento em si! Não sei eu se haveria ahi cardeal, ou apostolico[5] que me estendesse a mão para eu lh'a beijar, que pelo cotovello lh'a não cortasse fóra a minha boa espada. Que me importam a mim vilezas dos outros reis e senhores? Vilezas, não as farei eu!"

Isto foi o que se ouviu daquella conversação: os tres cavalleiros falaram com o principe ainda por muito tempo: mas em voz tão baixa, que ninguem percebeu mais nada.

6

Dous dias depois o legado do papa chegava a Coimbra: mas o bom do cardeal tremia em cima da sua nedia mula, como se maleitas o houveram tomado. As palavras do infante tinham sido ouvidas por muitos, e alguem as havia repetido ao legado.

Todavia, apenas passou a porta da cidade, revestindo-se de animo, encaminhou-se direito ao alcacer real.

O principe saíu a recebe-lo acompanhado de senhores e cavalleiros. Com modos cortezes guiou-o á sala de seu conselho, e ahi se passou o que ora ouvireis contar.

O infante estava assentado em uma cadeira de espaldas: diante delle o legado em um assento raso, posto em cima de um estrado mais elevado: os senhores e cavalleiros cercavam o filho do conde Henrique.

"Dom cardeal,—começou o principe—que viestes vós fazer a minha terra? Posto que de Roma só mal me tenha vindo, creio me trazeis agora algum ouro, que de seus grandes haveres me manda o senhor papa para estas hostes que faço, e com que guerreio noite e dia os infiéis da frontaria. Se isto trazeis, acceitar-vo-lo-hei: depois, desembaraçadamente podeis seguir vossa viagem."

No animo do legado a colera sobrepujou o temor, quando ouviu as palavras do principe, que eram de amargo escarneo.

"Não a trazer-vos riquezas,—atalhou elle—mas a ensinar-vos a fé vim eu; que della parece vos esquecestes, tractando violentamente o bispo D. Bernardo, e pondo em seu logar um bispo sagrado com vossas manoplas, victoriado só por vós com palavras blasphemas e maldictas…"

"Calae-vos, dom cardeal,—gritou Affonso Henriques—que mentís pela gorja! Ensinar-me a fé?! Tão bem em Portugal como em Roma sabemos que Christo nasceu da Virgem; tão certo como vós outros romãos cremos na sancta Trindade. Se a outra cousa vindes, ámanhan vos ouvirei: hoje podeis-vos ir."

E ergueu-se: os olhos chammejavam-lhe de furor. Toda a ousadia do legado desappareceu como fumo, e, sem atinar com resposta, saíu do alcacer.

7

O gallo tinha cantado tres vezes: pelo arrebol da manhan o cardeal partia aforradamente de Coimbra, cujos habitantes dormiam ainda repousadamente.

O principe foi um dos que despertaram mais tarde. Os sinos harmoniosos da sé costumavam acorda-lo tocando ás ave-marias: mas naquelle dia ficaram mudos; e quando elle se ergueu havia mais de uma hora que o sol subia para o alto dos ceus da banda do oriente.

"Misericordia! misericordia!"—gritavam devotamente homens e mulheres á porta do alcacer, com alarido infernal. O principe ouviu aquelle ruido.

"Que vozes são estas que soam?"—perguntou elle a um pagem.

O pagem respondeu-lhe chorando:

"Senhor, o cardeal excommungou esta noite a cidade, e partiu: as igrejas estão fechadas; os sinos já não ha quem os toque; os clerigos fecham-se em suas pousadas. A maldicção do sancto padre de Roma cahiu sobre nossas cabeças."

Outra vez soou á porta do alcacer:—Misericordia! Misericordia!"

"Que enfreiem e selem um cavallo de batalha. Pagem, que enfreiem e selem o meu melhor corredor!"

Isto dizia o principe, encaminhando-se para a sala d'armas. Ahi envergou á pressa um saio de malha, e pegou em um montante, que apenas dous portuguezes dos de hoje valeriam a alevantar do chão. O pagem tinha saído, e d'alli a pouco o melhor cavallo de batalha que havia em Coimbra tropeava e rinchava á porta do alcacer.

8

Um clerigo velho, montado em uma alentada mula branca, vindo de Coimbra seguia o caminho da Vimieira, e de instante a instante espicaçava os ilhaes da cavalgadura com seus acicates de prata: em duas outras mulas íam ao lado delle dous mancebos com caras e meneios de beatos, vestidos de opas e tonsurados, mostrando em seu porte e idade que aprendiam ainda as pueris ou ouviam as grammaticaes[6]. Eram o cardeal, que se ía a Roma, e dous sobrinhos seus que o haviam acompanhado.

Entretanto o principe partíra de Coimbra sósinho. Quando pela manhan Gonçalo de Sousa e Lourenço Viegas o procuraram em seus paços, souberam que era partido após o legado. Temendo o caracter violento de Affonso Henriques, os dous cavalleiros seguiram-lhe a pista á redea solta, e íam já muito longe quando viram o pó que elle levantava correndo ao longo da estrada, e o scintillar do sol batendo-lhe de chapa na cervilheira semelhante ao dorso de um crocodilo.

Os dous fidalgos esporearam com mais força os ginetes e breve alcançaram o infante.

"Senhor, senhor, aonde ides sem vossos leaes cavalleiros, tão cedo e açodadamente?"

"Vou pedir ao legado do papa que se amercêe de mim…"

A estas palavras os cavalleiros transpunham uma assomada que encobria o caminho: pela encosta abaixo ía o cardeal com os dous mancebos das opas e cabellos tonsurados.

"Oh!..—disse o principe. Esta unica interjeição lhe fugiu da bôca; mas que discurso houvera ahi que a igualasse? Era o rugido de prazer do tigre, no momento em que salta do fojo sobre a prêa descuidada.

"Memento mei, Domine, secundùm magnam misericordiam tuam!"—resou o cardeal em voz baixa e trémula, quando ouvindo o tropear dos cavallos, voltou os olhos, e conheceu Affonso Henriques.

Em um instante este o havia alcançado. Ao perpassar por elle, travou-lhe do cabeção do vestido, e em um relance ergueu o montante: felizmente os dous cavalleiros arrancaram as espadas, e cruzaram-nas debaixo do golpe que já descia sobre a cabeça do legado: os tres ferros feriram fogo; mas a pancada deu em vão, aliás o craneo do pobre clerigo teria ido fazer mais de quatro redemoinhos nos ares.

"Senhor, que vos perdeis, e nos perdeis, ferindo o ungido deDeus:"—gritaram os dous fidalgos com vozes afflictas.

"Principe"—disse o velho chorando—"não me faças mal; que estou á tua mercê!"—Os dous mancebos tambem choravam.

Affonso Henriques deixou descahir o montante, e ficou em silencio alguns momentos.

"Estás á minha mercê:—disse elle por fim.—Pois bem! Viverás, se desfizeres o mal que causaste. Que seja alevantada a excommunhão lançada sobre Coimbra, e jura-me em nome do apostolico, que nunca mais em meus dias será posto interdicto nesta terra portugueza, conquistada aos mouros por preço de tanto sangue. Em refens deste pacto ficarão teus sobrinhos. Se no fim de quatro mezes de Roma não vierem letras de bençam, tem tu por certo que as cabeças lhes voarão de cima dos hombros. Apraz-te este contracto?"

"Senhor, sim!—respondeu o legado com voz sumida.

"Juras?"

"Juro."

"Mancebos, acompanhae-me,"

Dizendo isto, o infante fez um aceno aos sobrinhos do legado, que com muitas lagrymas se despediu delles, e sósinho seguiu o caminho da terra de Sancta Maria.

D'ahi a quatro mezes D. Colleima dizia missa pontifical na capella-mór da sé de Coimbra, e os sinos da cidade repicavam alegremente. Tinham chegado letras de bençam de Roma; e os sobrinhos do cardeal, montados em boas mulas, íam cantando devotamente pelo caminho da Vimieira o psalmo que começa:

In exitu Israel de Ægypto.

Conta-se, todavia, que o papa levára a mal no principio, o pacto feito pelo legado; mas que por fim tivera dó do pobre velho, que muitas vezes lhe dizia:

"Se tu, sancto padre, víras sobre ti um cavalleiro tão bravo ter-te pelo cabeção, e a espada nua para te cortar a cabeça; e seu cavallo tão feroz arranhar a terra, que já te fazia a cova para te enterrar, não sómente deras as letras, mas o papado e a cadeira apostolical."

* * * * *

A lenda precedente é tirada das chronicas de Acenheiro, rol de mentiras e disparates publicado pela nossa Academia, que teria procedido mais judiciosamente em deixa-las no pó das bibliothecas, onde haviam jazido em paz por quasi tres seculos. A mesma lenda tinha sido inserida pouco anteriormente na chronica de Affonso Henriques por Duarte Galvão, formando a substancia de quatro capitulos, que foram supprimidos na edição deste auctor, e que mereceram da parte do academico D. Francisco de S. Luiz umagraverefutação. Toda a narrativa da prisão de D. Theresa, das tentativasopposicionistasdo bispo de Coimbra, da eleição do bispo negro, da vinda do cardeal, e da sua fuga contrastam a historia daquella epocha. A tradição é falsa a todas as luzes: mas tambem é certo que ella se originou de algum acto de violencia praticado nesse reinado contra algum cardeal legado. Um historiador coevo, e, posto que estrangeiro, bem informado geralmente ácerca dos successos do nosso paiz, o inglez Rogerio de Hoveden, narra um facto acontecido em Portugal, que, pela analogia que tem com o conto do bispo negro, mostra a origem da fabula. A narrativa do chronista está indicando que o acontecimento fizera certo ruído na Europa, e a propria confusão de datas e de individuos, que apparece no texto de Hoveden, mostra que o successo era anterior e andava já alterado na tradição. O que é certo é que o achar-se esta conservada fóra de Portugal desde o seculo duodecimo por um escriptor que Ruy de Pina e Acenheiro não leram (porque só foi publicado no seculo decimo-setimo) prova que ella remonta entre nós, por maioria de razão, tambem ao seculo duodecimo, embora desfigurada como já a vemos no chronista inglez. Eis a notavel passagem a que alludimos, e que se lê a pag. 640 da edição de Hoveden, por Savile:

"Nomesmo anno(1187) o cardealJacintho, então legado em toda a Hespanha, depôs muitos prelados(abbates)ou por culpas delles ou por impeto proprio, e como quizesse depôr o bispo de Coimbra, o reiAffonso(Henriques) não consentiu que elle fosse deposto, e mandou ao dicto cardeal que saísse da sua terra, quando não cortar-lhe-hia um pé."

* * * * *

[1] A sé velha de Coimbra é no todo, ou na maxima parte uma edificação dos fins do seculo duodecimo; mas acceitámos aqui a tradição que lhe attribue uma remotissima antiguidade.

[2] Hoje Terra da Feira, proxima do Porto, na estrada de Coimbra.

[3] É notavel coincidencia a seguinte: Em 1088um presbytero, por nome Zoleima,fez uma doaçãoá sé de Coimbra. Desta doação se lembra Fr. Antonio Brandão M. L. P. 3.ª L. 8.º Cap. 5.º pag. 13 col. 2.ª in fine.

[4]Clerigonaquella epocha não significava só o ecclesiastico revestido do sacerdocio, mas sim qualquer individuo empregado no serviço do culto. D'ahi a frequente menção nos documentos, declerigos casados.

[5] Papa.

[6] Estudos menores ou preparatorios. Assim parece se chamavam na idade média.Darin lernt ich puerilia,diz Hans Sachs no seuLebensbeschreibung, e o bispo do Porto, D. Pedro Affonso, affirma de seu predecessor D. João Gomes:erat bonus homo, et sinè aliqua malitia, sed jura aliqua non audiverat, immò nec grammaticalia, quod est plus.

(1170)

1

"Pagens! que arreiem o meu ginete murzello; e vós dae-me o meu lorigão de malha de ferro, e a minha boa toledana. Senhores cavalleiros, hoje contam-se noventa e cinco annos que recebi o baptismo, oitenta que visto armas, setenta que sou cavalleiro, e quero celebrar tal dia fazendo uma entrada por terras da frontaria dos mouros."

Isto dizia na sala de armas do castello de Béja Gonçalo Mendes da Maia, a quem, pelas muitas batalhas que pelejára, e por seu valor indomavel chamavam o Lidador. Affonso Henriques, depois do infeliz successo de Badajoz, e feitas pazes com elrei de Leão, o nomeára fronteiro da cidade de Béja, de pouco conquistada aos mouros. Os quatro Viegas, filhos do bom velho Egas Moniz, estavam com elle, e outros muitos cavalleiros afamados, entre os quaes D. Ligel de Flandres, e Mem Moniz, tio dos quatro Viegas.

"A la fé—disse Mem Moniz—-que a festa de vossos annos, senhor Gonçalo Mendes, será mais de mancebo cavalleiro, que de capitão encanecido e prudente. Deu-vos elrei esta frontaria de Béja para bem a haverdes de guardar, e não sei eu se arriscado é saír hoje á campanha, que dizem os escutas, chegados ao romper d'alva, que o famoso Almoleimar corre por estes arredores com dez vezes mais lanças do que todas as que estão encostadas nos lanceiros desta sala de armas."

"Voto a Christo—atalhou o Lidador—que não cria eu que o senhor rei me houvesse posto nesta torre de Béja para estar assentado á lareira da chaminé, como uma velha dona, a espreitar de quando em quando por uma séteira, se cavalleiros mouros vinham correr té a barbacan, para lhes cerrar as portas, e ladrar-lhes do cimo da torre da menagem, como usam os villãos. Quem achar que são duros de mais os arnezes dos infiéis póde ficar-se aqui."

"Bem dicto! bem dicto!"—clamaram, dando grandes risadas, os cavalleiros mancebos.

"Por minha boa espada!"—gritou Mem Moniz, atirando com o guante-ferrado ás lageas do pavimento—"que mente pela gorja quem disser que eu ficarei aqui, havendo dentro de dez leguas em redor lide com mouros. Senhor Gonçalo Mendes, podeis montar em vosso ginete, e veremos qual das nossas lanças bate primeiro em adarga mourisca."

"A cavallo, a cavallo!"—gritou outra vez a chusma, com grande alarido.

D'alli a pouco ouvia-se o retumbar dos sapatos de ferro de muitos cavalleiros descendo os degraus de marmore da torre de Béja, e passados alguns instantes soava só o tropear dos cavallos atravessando a ponte levadiça das fortificações exteriores, que davam para a banda da campanha, por onde costumava apparecer a mourisma.

2

Era um dia do mez de Julho, duas horas depois da alvorada, e tudo estava em grande silencio dentro da cerca de Béja: batia o sol nas pedras esbranquiçadas dos muros e torres que a defendiam: ao longe, pelas immensas campinas, que avizinham o teso, sobre que a povoação está assentada, viam-se ondear as searas maduras, cultivadas por mãos de agarenos para seus novos senhores christãos. Regados por lagrymas de escravos tinham sido esses campos quando em formoso dia de inverno os sulcou o ferro do arado; por lagrymas de servos seriam outra vez humedecidos, quando no mez de Agosto a paveia, cerceada pela fouce, pendesse sobre a mão do ceifeiro: chôro de amargura havia ahi, como cinco seculos antes o houvera: então de christãos conquistados, hoje de mouros vencidos. A cruz basteava-se outra vez sobre o crescente quebrado; os corucheus das mesquitas convertiam-se em campanarios de sés, e a voz do almuhaden trocava-se por toada de sinos, que chamavam á oração entendida por Deus. Era esta a resposta dada pela raça goda aos filhos d'Africa e do Oriente, que diziam mostrando os alfanges:—"é nossa a terra de Hespanha."—O dicto do arabe foi desmentido; mas a resposta gastou oito seculos a escrever-se: Pelaio entalhou com a espada a primeira palavra della nos cerros das Asturias; a ultima gravaram-na Fernando e Isabel com os pelouros de suas bombardas nos pannos das muralhas da formosa Granada: e a esta escriptura, estampada em alcantis de montanhas, em campos de batalha, nos portaes e torres dos templos, nos lanços dos muros das cidades e castellos, accrescentou no fim a mão da providencia:—"assim para todo o sempre!"

Nesta lucta de vinte gerações andavam lidando as gentes do Alemtejo. O servo mouro olhava todos os dias para o horisonte, onde se enxergavam as serranias do Algarve: de lá esperava elle salvação, ou ao menos vingança; ao menos um dia de combate, e corpos de christãos estirados na veiga para pasto dos açores bravios. A vista do sangue enxugava-lhes por algumas horas as lagrymas, embora os valentes d'Africa houvessem de fugir vencidos; embora as aves de rapina tivessem tambem abundante ceva em cadaveres de seus irmãos! E este ameno dia de julho devia ser um desses dias porque suspirava o servo ismaelita.

Almoleimar descêra com seus cavalleiros ás campinas de Béja. Pelas horas mortas da noite viam-se as almenáras das suas atalaias nos pincaros das serras remotas, semelhantes ás luzinhas, que em descampados e tremedaes accendem as bruxas em noites de seus folguedos; bem longe éstavam as almenáras, mas bem perto sentiam os escutas o resfolegar e o tropear de cavallos, e o ranger de folhas seccas, e o tinir a espaços de alfange batendo em ferro de canelleira, ou de coxote. Ao romper d'alva os cavalleiros do Lidador saíam mais de dous tiros de bésta alem das velhas muralhas de Béja; tudo, porém, estava em silencio, e só aqui e alli as searas calcadas davam rebate de que por aquelles sitios tinham vagueado almogaures mouros, como o leão do deserto rodeia pelo quarto de modorra as habitações dos pastores alem das encostas do Atlas.

No dia em que Gonçalo Mendes da Maia, o velho fronteiro de Béja, cumpria os noventa e cinco annos, ninguem saíra, pelo arrebol da manhan, a correr o campo; e, todavia, nunca tão de perto chegára Almoleimar; porque uma frecha fôra pregada á mão em um grosso carvalho, que sombreava uma fonte, a pouco mais de tiro de funda dos muros do castello. Era que nesse dia deviam ir mais longe os cavalleiros christãos: o Lidador pedíra aos pagens o seu lorigão de malha de ferro, e a sua boa toledana.

3

Trinta fidalgos, flor da cavallaria, corriam á redea solta pelas campinas de Béja; trinta, não mais, eram elles; mas orçavam por trezentos os homens d'armas, escudeiros e pagens que os acompanhavam. Entre todos avultava em robustez e grandeza de membros o Lidador, cujas barbas brancas lhe ondeavam como frocos de neve sobre o peitoral da cota d'armas, e o terrivel Lourenço Viegas, a quem pelos espantosos golpes da sua espada chamavam o Espadeiro. Era formoso espectaculo e esvoaçar dos balsões e signas, fóra de suas fundas, e soltos ao vento, o scintillar das cervilheiras, as cores variegadas das cotas, e as ondas de pó, que se alevantavam debaixo dos pés dos ginetes, como as alevanta o bulcão de Deus, varrendo a face da campina resequida, em tarde ardente de verão.

Ao largo, muito ao largo, dos muros de Béja vai a atrevida cavalgada em demanda dos mouros; e no horisonte não se vêem senão os topos pardo-azulados das serras do Algarve, que parece fugirem tanto quanto os cavalleiros caminham. Nem um pendão mourisco, nem um albornoz branco alveja ao longe sobre um cavallo murzello. Os corredores christãos volteiam na frente da linha dos cavalleiros, correm, cruzam para um e outro lado, embrenham-se nos matos, e transpõem-nos em breve; entram pelos cannaviaes dos ribeiros; apparecem, somem-se, tornam a saír ao claro: mas no meio de tal lidar apenas se ouve o trote compassado dos ginetes, e o grito monotono da cigarra, pousada nos raminhos da giesteira.

A terra que pisam é já de mouros; é já além da frontaria. Se olhos de cavalleiros portuguezes soubessem olhar para trás indo em som de guerra, os que para trás de si os volvessem a custo enxergariam Béja. Bastos pinhaes começavam já a cobrir mais ondeado territorio, cujos outeirinhos aqui e alli se alteavam suaves como seio de virgem em viço de mocidade. Pelas faces tostadas dos cavalleiros cobertos de pó corria o suor em bagas, e os ginetes alagavam de escuma as redes de ferro acaireladas de ouro, que os defendiam. A um signal do Lidador a cavalgada parou; era necessario repousar, que o sol ía no zenith e abrazava a terra: descavalgaram todos á sombra de um azinhal, e sem desenfrear os ginetes deixaram-nos pascer alguma relva, que crescia nas bordas de um arroio vizinho.

Tinha passado meia hora: por mandado do velho Fronteiro de Béja um almogavar montou a cavallo, e aproximou-se á rédea solta de uma selva extensa, que corria á mão direita: pouco, porém, correu; uma frecha despedida dos bosques sibilou no ar: o almogavar gritou por Jesus: a frecha tinha-se-lhe embebido no lado: o cavallo parou de repente, e elle, erguendo os braços ao ar com as mãos abertas, cahiu de bruços, tombando para o chão, e o ginete partiu desenfreado através das veigas, e desappareceu na selva. O almogavar dormia o ultimo somno dos valentes em terra de inimigos, e os cavalleiros da frontaria de Béja viram o seu trance do repousar eterno.

"A cavallo! a cavallo!"—bradou a uma voz toda a lustrosa companhia do Lidador; e o tinido dos guantes ferrados, batendo na cobertura de malha dos ginetes, soou unisono, quando todos os cavalleiros cavalgaram de um pulo: e os ginetes rincharam de prazer, como aspirando os combates.

Uma grita medonha troou ao mesmo tempo além do pinhal da direita.—"Allah! Almoleimar!"—era o que dizia a grita.

Enfileirados em uma longa linha, os cavalleiros arabes saíram á rédea solta de trás da escura selva que os encubria: o seu numero excedia cinco vezes o dos soldados da cruz: as suas armaduras lisas e polidas contrastavam com a rudeza das dos christãos, apenas defendidos por pesadas cervilheiras de ferro, e por grossas cotas de malha do mesmo metal: mas as lanças destes eram mais robustas, e as suas espadas mais volumosas do que as cimitarras mouriscas. A rudeza e a força da raça gothico-romana íam ainda mais uma vez provar-se com a destreza e com a perícia arabes.

4

Como uma longa fita de muitas côres, recamada de fios d'ouro, e reflectindo ao longe mil accidentes de luz, a extensa e profunda linha dos cavalleiros mouros sobresaía na veiga entre as searas pallidas que cubriam o campo: defronte delles os trinta cavalleiros portuguezes, com trezentos homens d'armas, pagens, e escudeiros cubertos dos seus escuros involtorios, e lanças em riste, esperavam o brado de accommetter. Quem visse aquelle punhado de christãos, diante da copia d'infiéis que os esperavam, diria que, não com brios de cavalleiros, mas com fervor de martyres, se offereciam a desesperado trance. Porém, não pensava assim Almoleimar, nem os seus soldados, que bem conheciam a têmpera das espadas e lanças portuguezas, e a rijeza dos braços que as meneavam. De um contra dez devia ser o eminente combate; mas se havia ahi algum coraçâo que batesse descompassado, algumas faces descoradas, não era entre os companheiros do Lidador que tal coração batia ou que taes faces descoravam.

Pouco a pouco a planura que separava as duas hostes tinha-se embebido debaixo dos pés dos cavallos, como no torculo se embebe a folha de papel saindo para o outro lado convertida em estampa primorosa. As lanças iam feitas: o Lidador bradára Sanctiago; e o nome de Allah soára em um só grito por toda a fileira mourisca.

Encontraram-se! Duas muralhas fronteiras, balouçadas por violento terremoto, desabando, não fariam mais ruido, ao bater em pedaços uma contra a outra, que este recontro de infiéis e christãos: as lanças topando em cheio nos escudos tiravam delles um som profundo, que se misturava com o estalar das que voavam despedaçadas. Do primeiro encontro muitos cavalleiros vieram ao chão: um mouro robusto foi derribado por Mem Moniz, que lhe falsou as armas, e traspassou o peito com o ferro de sua grossa lança.

Deixando-a depois cahir, o velho desembainhou a espada, e gritou ao Lidador, que perto delle estava:

"Senhor Gonçalo Mendes, alli tendes, no peito daquelle perro, aberta a séteira por onde eu, velha dona assentada á lareira, costumo vigiar a chegada de inimigos, para lhes ladrar como alcateia de villãos do cimo da torre de menagem."

O Lidador não lhe pôde responder. Quando Mem Moniz proferia as ultimas palavras, elle topára em cheio com o terrivel Almoleimar. As lanças dos dous contendores haviam-se feito pedaços, e o alfange do mouro cruzou-se com a boa toledana do Fronteiro de Béja.

Como duas torres de sete seculos, cujo cimento o tempo petrificou, os dous capitães inimigos estavam um defronte do outro, firmes em seus possantes cavallos: as faces pallidas e enrugadas do Lidador tinham ganhado a immobilidade que dá, nos grandes perigos, o habito de os affrontar: mas no rosto de Almoleimar divisavam-se todos os signaes de um valor colerico e impetuoso. Cerrando os dentes com força, descarregou um golpe tremendo sobre o seu adversario: o Lidador recebeu-o no escudo, onde o alfange se embebeu inteiro, e procurou ferir Almoleimar entre o fraldão e a couraça; mas a pancada falhou, e a espada desceu, faiscando, pelo coxote do mouro, que já desencravára o alfange. Tal foi a primeira saudação dos dous cavalleiros inimigos.

"Brando é o teu escudo, velho infiel; mais bem temperado é o metal do meu arnez. Veremos agora se na tua touca de ferro se embotam os fios deste alfange."

Isto disse Almoleimar, dando uma risada; e a cimitarra bateu em cima da cervilheira do Lidador com a mesma violencia com que bate no fundo do valle penedo desconforme desprendido do pincaro da montanha.

O Fronteiro vacillou, deu um gemido, e os braços ficaram-lhe pendentes: a espada ter-lhe-hia cahido no chão, se não estivesse presa ao punho do cavalleiro por uma cadeia de ferro: o ginete, sentindo as redeas frouxas, fugiu um bom pedaço pela campanha a todo o galope.

Mas o Lidador tornou a si: uma forte soffreada avisou o ginete de que seu senhor não morrêra. Á redea solta lá volta o Fronteiro de Béja; escorre-lhe o sangue, involto em escuma, pelos cantos da bôca: traz os olhos torvos de ira: ai de Almoleimar!

Semelhante ao vento de Deus, Gonçalo Mendes da Maia passou por entre christãos e mouros: os dous contendores viram-se, e, como o leão e o tigre, correram um para o outro: as espadas reluziram no ar: mas o golpe do Lidador era simulado, e o ferro, mudando de movimento no ar, foi bater de ponta no gorjal de Almoleimar, que cedeu á violenta estocada; e o sangue, saindo ás golfadas, cortou a ultima maldicção do agareno.

Mas a espada deste tambem não errára o golpe: vibrada com ancia, colhêra pelo hombro esquerdo o velho Fronteiro, e, rompendo a grossa malha do lorigão, penetrára na carne até o osso; e ainda mais uma vez a mesma terra bebeu nobre sangue godo misturado com sangue arabe.

"Perro maldicto! Sabe lá no inferno que a espada de Gonçalo Mendes é mais rija que a sua cervilheira."

E, dizendo isto, o Lidador cahiu amortecido: um dos seus homens de armas voou a soccorre-lo; mas o ultimo golpe d'Almoleimar fôra o brado da sepultura para o fronteiro de Béja: os ossos do hombro do bom velho estavam como triturados, e as carnes rasgadas pendiam-lhe para um e outro lado involtas nas malhas descosidas do lorigão.

5

Entretanto os mouros íam de vencida: Mem Moniz, D. Ligel, Godinho Fafes, Gomes Mendes Gedeão, e os outros cavalleiros daquella lustrosa companhia tinham practicado maravilhosas façanhas. Mas entre todos tornava-se notavel o Espadeiro. Com um pesado montante nas mãos, cuberto de pó, suor e sangue, pelejava a pé; que o seu agigantado ginete cahíra morto de muitos tiros de frecha e lançadas. De roda delle não se viam senão cadaveres e membros destroncados, por cima dos quaes trepavam, para logo recuarem ou baquearem no chão, os mais ousados cavalleiros arabes. Como um promontorio de escarpados alcantis, Lourenço Viegas estava immovel e sobranceiro no meio do embate daquellas vagas de pelejadores, que vinham desfazer-se contra o terrivel montante do filho de Egas Moniz.

Quando o Fronteiro cahiu, o grosso dos mouros fugia já para alem do pinhal; mas os mais valentes pelejavam ainda á roda do seu capitão mal ferido. O Lidador tinha sido posto em cima d'umas andas, feitas de troncos e franças de arvores; e quatro escudeiros, que restavam vivos dos dez que comsigo trouxera, o haviam transportado para a caga da cavalgada. O tinir dos golpes era já mui frouxo, e sumia-se no som dos gemidos, pragas, e lamentos, que soltavam os feridos derramados pela veiga ensanguentada. Se os mouros, porém, levavam, fugindo, vergonha e damno, a victoria não saíra barata aos portuguezes. Viam perigosamente ferido o seu velho capitão, e tinham perdido alguns cavalleiros de conta, e a maior parte dos homens de armas, escudeiros e pagens.

Foi n'este ponto, que ao longe se viu erguer uma nuvem de pó, que voava rapida para o logar da peleja: mais perto, aquelle turbilhão rareou, vomitando do seio um basto esquadrão de arabes; os mouros que fugiam, deram volta e gritaram:

"Ali-Abu-Hassan! Só Deus é Deus, e Mohammed o seu propheta!"

Era, com effeito, Ali-Abu-Hassan, rei de Tangere, que estava com seu exercito sobre Mertola, e que viera com mil cavalleiros em soccorro de Almoleimar.

6

Cansados do largo combater, reduzidos a menos de metade em numero, e cubertos de feridas, os cavalleiros de Christo invocaram o seu nome, e fizeram o signal da cruz. O Lidador perguntou com voz fraca a um pagem, que estava ao pé das andas, que nova revolta era aquella.

"Os mouros foram soccorridos por um grosso esquadrão:—respondeu tristemente o pagem.—A Virgem Maria nos acuda, que os senhores cavalleiros parece recuarem já."

O Lidador cerrou os dentes com força, e levou a mão á cincta.Buscava a sua boa toledana.

"Pagem, quero um cavallo. Onde está a minha espada?

"Aqui a tenho, senhor. Mas estaes tão quebrado de forças!…."

"Silencio! A espada, e um bom ginete."

O pagem deu-lhe a espada, e foi pelo campo buscar um ginete, dos muitos que andavam já sem dono. Quando voltou com elle, o Lidador, pallido e cuberto de sangue, estava em pé, e dizia, falando comsigo:

"Por Sanctiago, que não morrerei como villão de Behetria, onde entrou cavalgada de mouros!"

E o pagem ajudou-o a montar a cavallo.

Ei-lo vae o velho Fronteiro de Béja! Semelhava um espectro erguido de pouco em campo de finados: debaixo de muitos pannos involtos no braço e hombro esquerdo levava a propria morte; nos fios da espada, que a mão direita mal sustinha, levava porventura ainda a morte de muitos outros!

7

Para onde mais travada e accesa andava a peleja se encaminhou o Lidador. Os christãos affrouxavam diante daquella multidão d'infiéis, entre os quaes mal se enxergavam as cruzes vermelhas pintadas nas cimeiras dos portuguezes. Dous cavalleiros, porém, com vulto feroz, os olhos turvados de colera, e as armaduras crivadas de golpes, sustinham todo o peso da batalha. Eram estes o Espadeiro e Mem Moniz. Quando o Fronteiro assim os viu offerecidos a certa morte, algumas lagrymas lhe cahiram pelas faces, e esporeando o ginete, com a espada erguida abriu caminho por entre infiéis e christãos, e chegou aonde os dous, cada um com seu montante nas mãos, faziam larga praça no meio dos inimigos.

"Bem vindo, Gonçalo Mendes!—disse Mem Moniz.—Quizeste assistir comnosco a esta festa de morte? Vergonha era, de feito, que estivesses fazendo teu passamento, com todo o repouso, deitado lá na çaga, em quanto eu, velha dona, espreito os mouros com meu sobrinho juncto desta lareira…."

"Implacaveis sois vós outros, cavalleiros de Riba-Douro,"—respondeu o Lidador em voz sumida,—"que não perdoaes uma palavra sem malicia. Lembra-te Mem Moniz de que bem depressa estaremos todos diante do justo juiz."

"Velhos sois; bem o mostraes!"—acudiu o Espadeiro.—"Não cureis de vans porfias, mas de morrer como valentes. Demos nestes perros, que não ousam chegar-se a nós. Ávante, e Sanctiago!"

"Ávante, e Sanctiago!"—responderam Gonçalo Mendes e Mem Moniz: e os tres cavalleiros deram rijamente nos mouros.

8

Quem hoje ouvir recontar os bravos golpes que no mez de Julho de 1170 se deram na veiga da frontaria de Béja, nota-los-ha de fabulas sonhadas; porque nós homens corruptos e enfraquecidos por ocios e prazeres de vida afeminada, medimos por nosso animo e forças as forças e o animo dos bons cavalleiros portuguezes do seculo doze; e todavia esses golpes ainda soam através das eras nas tradições e chronicas, tanto christans como agarenas.

Depois de deixar assignadas muitas armaduras mouriscas, o Lidador vibrára pela ultima vez a espada, e abríra o elmo e o craneo de um cavalleiro arabe. O violento abalo que soffreu, fez-lhe rebentar em torrentes o sangue da ferida, que recebêra das mãos de Almoleimar, e cerrando os olhos, cahiu morto ao pé do Espadeiro, de Mem Moniz, e de Affonso Hermigues de Bayão, que com elles se ajunctára. Repousou finalmente Gonçalo Mendes da Maia de oitenta annos de combates!

Já a este tempo christãos e mouros se haviam descido dos cavallos, e pelejavam a pé. Traziam-se assim á vontade, e recrescia a crueza da batalha. Entre os cavalleiros de Béja espalhou-se logo a nova da morte do seu capitão, e não houve ahi olhos que ficassem enxutos. O despeito do proprio Mem Moniz deu logar á dor, e o velho de Riba-Douro exclamou entre soluços:

"Gonçalo Mendes, és morto! Nós todos quantos aqui somos, não tardará que te sigamos; mas ao menos, nem tu nem nós ficaremos sem vingança!"

"Vingança!"—bradou o Espadeiro, com voz rouca, e rangendo os dentes. Deu alguns passos, e viu-se o seu montante reluzir como uma centelha em céu procelloso.

Era Ali-Abu-Hassan: Lourenço Viegas o conhecêra pelo timbre real do morrião.

9

Se já vivestes vida de combates em cidade sitiada, tereis visto muitas vezes um vulto negro, que em linha diagonal corta os ares, sussurrando e gemendo. Rapido, como um pensamento criminoso em alma honesta, elle chegou das nuvens á terra, antes que vos lembrasseis do seu nome. Se encontrou na passagem angulo de torre secular, o marmore converte-se em pó; se atravessou pelas ramas de arvore basta e frondosa, a folha mais virente e fragil, o raminho mais tenro é dividido, como se com cutelo subtilissimo mão de homem lhe houvera cerceado attentamente uma parte: e, todavia, não é um ferro açacalado: é um globo de ferro; é a bomba, que passa, como a maldicção de Deus. Depois, debaixo della o chão achata-se, e a terra espadana aos ares; e como agitada, despedaçada por cem mil demonios, aquella machina do inferno estoura, e de roda della ha um zumbir sinistro: são mil fragmentos; são mil mortes que se derramam ao longe. Então faz-se um grande silencio, e após o silencio vêem-se corpos destroncados, poças de sangue, arcabuzes quebrados, e ouve-se o gemer dos feridos e o estertor de moribundos….

Tal desceu o montante do Espadeiro, bôto já de milhares de golpes, que o cavalleiro tinha descarregado. O elmo de Ali-Abu-Hassan faiscou, voando em pedaços pelos ares, e o ferro christão, esmigalhando o craneo do infiél, abriu-o até os dentes. Ali-Abu-Hassan cahiu.

"Lidador! Lidador!"—disse Lourenço Viegas, com voz comprimida. As lagrymas misturavam-se-lhe nas faces com o suor, o pó, e o sangue do agareno, de que ficou coberto. Não pôde dizer mais nada.

Tão espantoso golpe aterrou os mouros: os portuguezes seriam já apenas sessenta entre cavalleiros e homens d'armas; mas pelejavam como desesperados, e resolvidos a morrer. Mais de mil inimigos juncavam o campo de involta com os christãos. A morte de Ali-Abu-Hassan foi o signal da fugida.

Os portuguezes, senhores do campo, celebravam com prantos a victoria. Poucos havia que não estivessem feridos; nenhum que não tivesse as armas falsadas e rotas. O Lidador e os demais cavalleiros de grande conta, que naquella jornada tinham acabado, atravessados em cima de ginetes foram conduzidos a Béja. Após aquelle tristissimo prestito íam os cavalleiros a passo lento, e um sacerdote templario, que fôra na cavalgada, com a espada cheia de sangue mettida na bainha, psalmeava em voz baixa aquellas palavras do livro da Sabedoria:

"Justorum autem animæ in manu Dei sunt, et non tanget illos tormentum mortis."

* * * * *

(1825)

Como a philosophia é triste e arida! Ás vezes, na primavera, o vento norte atira-se pelas encostas, tombando dos visos da serra, como se uma intelligencia vivesse n'elle, intelligencia de maldade e destruição. De noite e de dia os troncos das arvores torcem-se e gemem, as ramas açoutam-nos, e despedaçam-se involtas nos braços longos e flexiveis da ventania: o demonio do septentrião sibilla no meio dellas um zumbido entre de lamento e d'escarneo. Debalde o bosque estende saudoso por um momento os seus mais altos raminhos para o sol que se vae alevantando no oriente: a rajada despega de novo da cumiada da montanha; o bosque curva-se para o meio-dia; e galgando por cima daquellas mil frontes inclinadas das plantas gigantes, das rainhas magestosas da vegetação, os turbilhões da atmosphera agitada rolam pela planicie coberta já de relva entresachada das primeiras florinhas. Então, relva e florinhas murcham-se esmagadas pelas mãos da procella, que tudo alcançam, fustigam e desbaratam. Os carvalhos frondosos e as boninas rasteiras, com a fronte pendida para a terra, como outros tantos symbolos do desalento, não ousam ergue-la para o céu. É que, rugindo, a rajada cahe da montanha em perenne catadura. Ás vezes, como por brinco infernal, o vento finge adormecer um instante, e depois remoinha e apruma os topos das arvores e as corolas das flores, mas é para logo as vergar com mais força, e apupar com o silvo insolente aquella rapida esperança, que se desvaneceu tão breve.

E quando o vento acalma é para saltar ao ponente ou ao sul. A rajada já não silva da montanha: uma bafagem tepida vem da banda do mar; mas o ceu está toldado e o ar humido: o dia passa melancholico e pesado sobre a bonina que a nortada açoutou: ella não pôde saudar o sol no oriente: está pendida e murcha como a ventania a deixára. A noite vem encontra-la n'uma especie de torpor, que é existir, mas que não é vegetar, e ainda menos viver.

Como a florinha do campo a alma por onde passou a procella da philosophia, esse turbilhão transitorio de doutrinas, de systemas, de opiniões, de argumentos, pende desanimada e triste; e na claridade baça do septicismo, que torna pesada e fria a atmosphera da intelligencia, não póde aquecer-se aos raios esplendidos do sol de uma crença viva.

Com Kant o universo é uma duvida: com Locke é duvida o nosso espirito: e n'um destes abysmos vem precipitar-se todas as philosophias.

A arvore da sciencia, transplantada do Eden, trouxe comsigo a dor, a condemnação e a morte: mas a sua peior peçonha guardou-se para o presente: foi o scepticismo.

Feliz a intelligencia vulgar e rude, que segue os caminhos da vida com os olhos fitos na luz e na esperança postas pela religião além da morte, sem que um momento vacille, sem que um momento a luz se apague ou a esperança se desvaneça! Para ella não ha abraçar-se com a cruz em impeto de agonia, e clamar a Jesus:—"Creio, creio, oh Nazareno! Creio em ti, porque a tua moral é sublime; porque eras humilde e virtuoso; porque filho da raça soffredora e austera chamada o povo, eras meu irmão, e não podias, tão bom, tão singelo, tão puro enganar teu pobre irmão. Creio, creio, oh Nazareno! porque até a hora do expirar na ignominia, até a hora da grande prova, nunca desmentiste a tua doutrina. Creio, creio, oh Nazareno! porque tu só nos explicaste o mysterio desta associação monstruosa da saude e do ouro, do poderio e dos crimes a um lado; a da enfermidade e da pobreza, da servidão e da innocencia a outro; porque nos explicaste como os destinos humanos se compensavam além do sepulchro. Creio, creio, oh Nazareno! porque só tu soubeste revelar a consolação á extrema miseria sem horisonte, e os terrores á completa felicidade sem termo na vida, collocando no logar do destino a providencia, e do nada a immortalidade! Creio, creio, oh Nazareno! porque a intensidade do teu viver é um impossivel humano; a victoria da tua doutrina severa contra a philosophia e o paganismo um milagre; a gloria do teu nome de suppliciado maior que todas as glorias das mais altas e virtuosas intelligencias do mundo. Mas foste, na verdade, um Deus?"

Não, o animo vulgar que nunca vacillou na fé, que nunca discutiu o Verbo, nunca julgou o Christo, possuido do insensato orgulho da sciencia, esse não sabe a dolorosa oração do que pede a Deus o crer; ignora quanto fel encerra a interrupção contínua de cada phrase, de cada palavra daquelle tormentoso orar; ignora o que é atirar-se aos pés da cruz por um impulso quasi phrenetico do coração, sentir a voz gelida, pesada, cruel do entendimento dizer-lhe tranquillamente—quem sabe!"—e cahir desanimado no lethargo da duvida, d'onde muitas vezes bem tarde se alevanta o espirito, opprimido e quebrado, porque nelle pelejaram horas largas o instincto religioso e o demonio implacavel a que chamam sciencia.

A sociedade é bem injusta quando ás faces do desgraçado, que assim lucta comsigo mesmo, sacode o lodo da injuria, dizendo-lhe: —hypocrita!—porque escondeu aos que o rodeiam, não as certezas, que não as tem, mas as duvidas terriveis da intelligencia, e lhes revelou só as inspirações, os desejos, as saudades do coração! —Hypocrita?! Tanto como o que, havendo-se transviado da estrada e cahido em fojo profundo, dorido, coberto de pisaduras e feridas, e ensanguentando as mãos e o rosto nas urzes do despenhadeiro, lidasse por saír delle e voltar ao caminho suave e plano, e bradasse aos que visse ao longe:—"não vos affasteis para aqui!"—Hypocritas são aquelles que mentem aos que os escutam; que simulam a paz do descrer tranquillo, quando vae lá dentro o tumultuar das incertezas. Como Satanaz elles dizem que o inferno é o ceu; dizem que a irreligiosidade tem o segredo do repouso e da ventura, quando o que ella dá é inquietação e desesperança.

Feliz a alma vulgar e rude que crê, e nem sequer sabe que a duvida existe no mundo! Está certa de que além da morte ha vida; conhece as suas condições; conhece-as como lh'as ensinaram, como conhece as condições dos corpos. Para ella as noites não tem os pesadellos monstruosos, nem os dias as meditações febris em que o sceptico involuntario se debate na orla do possivel, que toca por um lado nas solidões do nada, por outro na immensidade de Deus.

Mas ainda mais feliz a intelligencia superior ás do vulgo, aquella que a Providencia destinou á missão do poeta, nos annos da infancia e da juventude, antes que o arido bafo da sciencia a queimasse passando por cima della! Nesse espirito e nessa idade a religião não está só nos preceitos e nos dogmas; está na natureza inteira. A alegria de Deus, o aspirar das fragrancias celestes, a toada suavissima dos hymnos dos anjos, descem a ella nos raios do sol quando nasce e quando desapparece; tremulam no espelhar-se da lua nas aguas; misturam-se no cicio das arvores; entretecem-se com os mil gemidos da noite; vivem nas affeições domesticas, e sanctificam o primeiro bater do coração pelo amor. Tudo então é viçoso e puro, porque a alma poetica lhe empresta viço e pureza. As harmonias moldadas, na virilidade, pelas leis das linguas e das escholas, são apenas um eccho frouxo desses canticos da meninice e da primeira mocidade, que se evaporam sem se escreverem, que são um oceano de delicias ineffaveis em que se embala mollemente a imaginação e o sentir do homem, a quem o mundo ha-de chamar poeta. Nessa epocha da vida elle não abstrahe do real para salvar verdadeira e intacta a sua idealidade: faz mais; derrama esta, que é a seiva intima do seu viver, pelo universo, e converte-o n'uma cousa formosa, sancta, ideal, que o mundo está bem longe de ser.

Depois vem outra epocha da vida, em que a felicidade é mentida, mas ainda é felicidade, posto que já eivada de vaga inquietação, de ambições desregradas, de esperanças mesquinhas e contradictorias. São os annos qnc precedem e seguem immediatamente os vinte.

Abrem-se ante nós os caminhos do mundo como uma conquista. Gloria d'artistas, poderio, opulencia, acções generosas e grandes, amor sem termo, amizade sem perfidias, vida multiplicada indefinidamente pela infinidade de affectos; que ha, emfim, que não sonhemos nessa epocha de fervente loucura? A innocencia morreu, a poesia intima e crente desbaratou-se, o sentimento religioso esmoreceu; mas ficam os deleites dos sentidos, que nos embriagam; os applausos das multidões aos nossos hymnos descorados, que ellas ainda julgam energicos e brilhantes; applausos que nos desvairam: fica-nos uma philosophia orgulhosa e insensata, que se crê profunda, uma sciencia superficial, que se crê completa, pela qual dormimos tranquillos sobre a negação de todas as idéas mysticas, e de todas as lembranças de Deus.

Desta idade em diante é que chega o desfazer das illusões, até das illusões do orgulho. A poesia suave e pura da infancia e da puberdade passou: passa também o iris das paixões férvidas, das ambições insaciaveis, da crença na propria energia. Começa então o pardo crepusculo deste scepticismo, que, semelhante a herpes lentos, vae lavrando por todas as nossas opiniões e affectos, e os prostra e subjuga. Desde essa epocha a vida tem largas horas de tedio, em que o existir é uma carga pesada, porque nos falta um alicerce em que possamos firmar-nos; porque fluctuamos sobre as nevoas densas do duvidar de tudo.

O materialismo incredulo já tirou das phases espirituaes dos altos engenhos argumento contra a immortalidade. Com a sua logica miope persuadiu-se de que via as enfermidades e a decadencia da alma acompanharem as enfermidades e a decadencia do corpo; que via o entendimento cachetico esmorecer com a decrepidez; quiz que elle na morte ficasse perdido e annullado entre as cinzas da sepultura. Se o materialismo soubesse que a vida das summas intelligencias é a poesia, e que essa vida segue a ordem inversa do desinvolvimento physico; se conhecesse que a energia intima tem o seu apogeu nos annos debeis da infancia, e começa a desvanecer-se quando os orgãos se fortalecem, elle não teria achado a explicação do phenomeno nas suas tristes doutrinas. Nos destinos eternos dos homens iria encontrar a razão desse facto, que então veria á sua luz verdadeira. Os olhos da alma vão-se pouco a pouco ennevoando no meio das trevas do mundo: nesta atmosphera grosseira e corrupta ella resfolga a custo, e com o diminuir dos alentos diminuem-se-lhe successivamente os brios: cada dia lhe desfolha um affecto, lhe discute uma crença, lhe mata uma esperança, lhe traz um desengano cruel. Entre o espirito e o mundo partiram-se um a um todos os laços. Vós crêdes que a mente se definha, e ella apenas dormita para despertar vigorosa ao sol da eternidade, que rompe atrás do sepulchro.

Tomae-me esse octogenario tonto que foi um alto engenho: cavae no deserto do seu coração gasto e frio, e arrancae-me de lá uma daquellas paixões que ardem até o ultimo instante da existencia: vibrae uma corda das que lhe davam na idade viril um som estridente: dizei-lhe:—"teu filho querido foi arrastado ao tribunal como criminoso; espera-o o supplicio se não houver uma voz eloquente que o defenda: se ella se erguer será salvo; e tu foste na mocidade o mais eloquente dos homens!"—Dizei-lhe isto, e vereis esse engenho, que crêdes moribundo, atirar-se como um tigre ao meio dos juizes, e achar toda a energia dos vinte e cinco annos para defender aquella vida que a natureza ligou á sua pelas harmonias mysteriosas da paternidade. Se as palavras, se o orgão extenuado da linguagem não podér exprimir o pensamento daquella alma remoçada subitamente, o gesto, o olhar, os meneios substituirão a lingua, e se cansados e debeis não bastarem á violencia da idéa, o espirito despedaçará o quasi cadaver, e despedindo-se da terra provará que, se dormitava, não se extinguia, e que, despertando, partia o vaso fragil que já não o podia conter.

Tal é o destino da intelligencia neste breve desterro: dous dias conserva as recordações verdadeiras e puras da sua origem immortal: outros dous alumia-se ao fogo fatuo das paixões e esperanças: o resto delles revolve-se na lucta tormentosa das idéas, dos affectos, dos desenganos: depois vem o dormitar da velhice, e a regeneração da morte.

Eu, que já vou áquem do marco, onde começa o terceiro periodo da vida humana, a sós ás vezes com as minhas recordações infantis, ponho-me a comparar o aspecto prosaico e triste, que tem actualmente para mim o universo, com as fórmas suaves e poeticas em que elle me apparecia involto nesses tempos dourados. É uma comparação amarga; mas a saudade que encerra consola do seu amargor.

Hoje a lua no crescente alevanta-se ao anoitecer de um dia sereno do estio, e estende o manto de lhama de prata sobre a face levemente crespa das aguas: os seus raios, transparecendo por entre o verdenegro das copas do arvoredo, que se balouçam somnolentas, descem tremulos sobre o chão pardo, e mosqueam-lhe a superficie como um dorso de panthera. A viração tenuissima da tarde passa e murmura um cicio quasi imperceptivel na folhagem. Em volta do circulo alvacento que o luar esparge no ceu, scintillam algumas estrellas no azul do firmamento, que parece o leito recamado de saphyras em que se reclina a rainha da noite.

Ha quinze ou vinte annos uma tal noite tinha para mim um sem numero de mysteriosas harmonias, que eu não sabia explicar, mas que sabia sentir. Agora sei dizer-vos o que é a lua, a sua luz refracta, a noite, a viração, o vulto das aguas encrespadas, as estrellas, e as solidões do espaço; mas o que eu já não sei é verter lagrymas de ineffavel contentamento, que se me escoavam tepidas pelas faces ao contemplar as harmonias immateriaes e intimas, que vagavam pela atmosphera tranquilla, como uns echos longinquos de harpa angelica, tombando de astro em astro até se derramarem na terra.

Dae-me uma nota só dos canticos que eu então escutava; dar-vos-hei em troca toda a minha estupida e inutil sciencia!

Mas essa epocha da vida não voltará mais, porque não póde retroceder uma unica onda do rio impetuoso do tempo! Depois da taça do mel esgotada resta a do absinthio. Que se resigne e espere aquelle que vae devorando os dias da duvida e do desalento. Chegará a hora de renascer para a poesia e para a certeza: será a da morte. A Providencia foi ainda generosa comnosco, consentindo-nos que a espaços affastemos dos labios o calix do fel, e deixando que nestes momentos rasguem o nosso longo e tedioso crepusculo alguns raios transitorios de luz. A memoria é o instante de repouso, e a saudade o clarão suave que nos illumina.

Recordar-se—consolar-se.

* * * * *

Uma das cousas que nas recordações da juventude ainda espiram para mim poesia e saudade é a imagem de um velho prior d'aldeia que conheci na minha meninice. Hoje tão bondosos, tão alegres, tão veneraveis, ha-os por certo ahi, e muitos: eu é que não sei conhecê-los. A auréola, que então rodeava as cans do sacerdote ancião, desvaneceu-se pouco a pouco; desvaneceu-a a experiencia do mundo, como tantas mil crenças e imaginações de outr'ora! Elle morreu já, por certo; mas vivo que fosse, eu não sentiria ao vê-lo, ao falar-lhe, aquella especie de alegria timida, de confiança receiosa que nesse tempo o bom do velho me inspirava. Parecia-me que estando ao pé delle estava mais perto de Deus, cujo valído, por assim dizer, era o padre prior. Não sabia o sacerdote essa lingua que eu cria falar-se no ceu, o latim, que então era para mim cousa mysteriosa e sancta? Não trajava ás vezes os trajos da côrte celeste, o amicto, a casula, o pluvial, com que estavam vestidos alguns vultos de anjos pintados em tres ou quatro antiquissimos quadros do presbyterio? Quando nas suas practicas, depois da missa do dia, narrava os gosos da bemaventurança, os tormentos do purgatorio, e os tractos intoleraveis do inferno, não juraria qualquer que elle já peregrinára largos annos além do sepulchro, ou que voz de cima lhe revelava tantas maravilhas e tão solemnes terrores? Evidentemente o velho clerigo estava mais perto dos degraus do throno divino que toda a outra gente, e, por me servir da linguagem politica, exercia em nome do céu uma delegação na terra; era uma especie demissus dominicusda Providencia. E quando elle, apezar dos meus tenros annos, me escolhia para acolyto, para estafar a porção de latim do missal, que as rubricas inexoraveis subtrahiam ao seu imperio, sorriam-me as esperanças, algum tanto vaidosas, de obter de Deus deferimento ás minhas pretenções infantis, como costumam sorrir ao requerente, a quem deputado de grande conta mostra familiaridade na presença de omnipotente ministro.

Hoje o latim do padre prior parecer-me-hia um tanto barbaro, e talvez barbarissima a sua prosodia: nas vestes sacerdotaes acharia os trajos romanos do imperio atravessando, immutaveis como a igreja, por entre as transformações da moda e do luxo; nos quadros do presbyterio riria da ignorancia e mau gosto do pobre pintor; e nas descripções das venturas e tormentos da outra vida descubriria unicamente uma incarnação grosseira em imagens materiaes das revelações profundas do espiritualismo christão. É que nesse tempo tudo me chegava aos olhos da alma alumiado, risonho, variegado, porque tudo transparecia através de um prisma de sete côres, da innocencia singela e credula da infancia; e hoje tudo me parece como a folha que cahiu da arvore no outono, murcho e desbotado, passando através da atmosphera nevoenta e triste da sciencia e do orgulho. Então o velho parocho affigurava-se-me mais que um homem; hoje, na escala das desigualdades humanas, provavelmente só acharia para elle um bem modesto logar.

A aldeia em que o bom do clerigo pastoreava o seu rebanho espiritual estava assentada na falda de um monte, e pouco inferior a ella dilatava-se uma veiga, que ao longe, lá bastante ao longe, ía bater no mar. No alto da povoação ficava o presbyterio. Era a igreja, segundo hoje se me affigura (e tenho-a bem presente) daquelle gosto duvidoso entre a architectura christan que expirava, e a da restauração romana, que ainda se não comprehendia: era um desses templosinhos construidos nos fins do reinado de D. Manuel e durante o de D. João III, de que tão grande numero resta ainda pelas parochias de Portugal, e que são mais um argumento de que os nobres conquistadores da India, donatarios das terras e padroeiros das igrejas, não voltavam do oriente com as mãos vazias. A devoção nesses tempos era um objecto de luxo: edificar uma igreja ou uma capella equivalia a ter hoje um camarote em S. Carlos, ou um cocheiro com estrigas de linho na cabeça e chapeu triangular.

A portada da igreja, de arco tricentrico firmado em pilares polystylos de meio relevo, era o mais claro testemunho da idade provecta do presbyterio. A residencia parochial, originariamente do mesmo estylo, estava já civilisada: uma porta rectangular substituíra a antiga. Esquadriadas estavam tambem as duas janellas do sobrado de differentes dimensões, e affastadas uma da outra; e nos seus postigos da esquerda via-se o moderno conforto das vidraças. Não quero dizer com este elogio á morada do padre prior que a igreja tinha resistido, teimosa como um velho caturra, aos progressos da civilisação. Pelo contrario. Estava mais alindada ainda. Uma irmandade, ou não sei quem, que entendia na fabrica, havia pintado de ochre tudo o que era pedra, de vermelhão tudo o que era azulejo. As camaras municipaes das grandes cidades, os conegos das collegiadas e sés ainda não passaram do ochre; e uma pobre irmandade da aldeia já tinha ha vinte annos vencido a méta a que apenas hoje chegam o municipio e a cathedral.

O que, porém, escapou ao ochre e ao vermelhão dos mesarios do burgo foram dous seculares e formosos platanos que sombreavam o portal do presbyterio: na febre amarella, que grassa tão furiosa pelo senso esthetico dos nossos magistrados populares e das nossas dignidades ecclesiasticas, admira que tenha esquecido estender o beneficio da caiadura gemada aos troncos rugosos e carrancudos das velhas arvores, que rodeiam os edificios ou as praças. Verdade é que todos os dias alguma desaba sob os golpes do machado. Isto é melhor: mas porque não haveis de remoçar as que vão escapando com as lindezas e alegrias canonico-municipaes?

Bellos e veneraveis eram os dous platanos. O adro, cubriam-no todo com as suas sombras fechadas, e só pela volta da tarde, principalmente no outono, é que algumas resteas açafroadas do sol no poente se estiravam por debaixo delles, e lá íam bater frouxas no limiar da igreja pulído do contínuo perpassar, e na porta de um vermelho desbotado, onde nesse tempo começavam a alvejar os remendos brancos com que as revoluções converteram os áditos dos templos em pelourinhos eleitoraes.

Á entrada do adro alevantava-se uma grande cruz de madeira pintada de preto, em cuja haste mãos devotas tinham atado um ramo de flores, e este ramo, no meio do qual havia um pé de perpetuas, era a imagem das vaidades do mundo ao redor da religião do calvario, immutavel no meio dellas. As outras flores tinham-nas mirrado os ardores do estio: só restavam do morto ramilhete as immarcessiveis perpetuas.

Era n'um poial que servia de base á cruz, onde áquella hora do pôr do sol o padre prior vinha muitas vezes sentar-se; e alli estava tempo esquecido, ora alongando os olhos pelas solidões do mar, que lá em baixo no fundo do extenso valle quebrava nas rochas, ora traçando attentamente na terra com a sua grande bengala de castão de marfim diversas figuras, se geometricas não o sei dizer, porque hoje não creio tanto na geometria do padre prior como então cria nas suas terriveis revelações do outro mundo tiradas doSpeculum Vitae. O que, porém, eu sentia melhor do que hoje, sem então o saber explicar, era a suave e profunda poesia que respirava esse quadro do velho sacerdote juncto do symbolo religioso, áquella luz moribunda da ultima hora do dia, em que uma curta saudade melancholica vem como percursora da noite pousar-nos sobre o coração. Não o imaginava nesse tempo, mas imagino agora por onde vaguearia a mente do velho clerigo em quanto a bengala ía d'um para outro lado cruzando linhas tortuosas e incertas. Os ultimos instantes de moribundo, os quaes elle tinha adoçado com as consolações da fé; a esmola tirada da escassa congrua para enxugar lagrymas de viuvas e de orphãos; os conselhos paternaes dados á mocidade, salva assim por elle de largos dias de remorsos e amargura; os odios convertidos em perdão entre inimigos; as dissensões domesticas pacificadas pela conciliação do pastor; todo o bem, emfim, que por trinta ou quarenta annos elle havia semeado na aldeia, desde as ultimas casinhas de colmo que alvejavam caiadas na orla pallida dos campos até o altar do presbyterio, fructificava talvez ante os olhos da sua alma, n'esses momentos de extasi, em rica seára de esperanças, cujos fructos enthesourava no céu. Depois, a cruz hasteada juncto delle lhe viria lembrar o nada das diligencias que empregára, dos sacrificios que fizera para verter algum balsamo de ventura nas chagas dolorosas da vida; para remir da perdição as ovelhas transviadas do pobre rebanho que lhe fôra confiado. A cruz negra no seu eloquente silencio contava-lhe sacrificios infinitamente mais arduos que os delle, feitos, não em proveito d'uma aldeia ou d'um povo, mas para remir o genero-humano. Por isso lhe via ás vezes deixar pender a fronte calva sobre o peito, e tomar-lhe o rosto uma expressão singular, inexplicavel nessa epocha para mim, mas que era o desalento que lhe gerava no espirito a terrivel comparação das suas acções com as do Suppliciado do Calvario, ao qual tomára por modelo, e que jurára imitar. Muitas vezes espantava-me de que se conservasse assim engolfado em seus pensamentos até que o sino das ave-marias o vinha despertar; e na minha alegria da infancia, vendo-o tão triste e carrancudo, pensava comigo, que o padre prior se ía tornando com a idade tonto e aborrido. Todavia, era que o bom velho nesses momentos de meditação volvia atraz os olhos para os caminhos da sua vida, onde esperava achar alguns vestigios brilhantes de obras virtuosas; mas esses caminhos, sumidos na penumbra da cruz, não os percebia senão como uma nuvemsinha escura e duvidosa através da luz immortal das virtudes e dos beneficios do Christo.

Ao tocar, porém, das ave-marias todas aquellas imaginações desconsoladas, se elle as tinha, como hoje creio, desappareciam por um movimento habitual do espirito e do corpo; este para se erguer, aquelle para orar. Sobraçada a bengala, em pé, com as mãos postas, segurando ao mesmo tempo entre ellas o seu chapéu de tres ventos, com a cabeça um pouco inclinada para o chão, o padre prior murmurava em voz baixa aquella tão poetica oração do despedir do dia. Os trabalhadores, que, voltando das fadigas do campo, acontecia passarem por ahi nessa occasião, descobriam-se tambem, e encostando-se ao ancinho ou á enxada punham as mãos e resavam até que o reverendo, acabando os latinorios, que elles íam repetindo em vulgar, lhes dizia:—Boas noites, rapazes, vá a cobrir."—E os ganha-pães cobriam-se, respondendo:—Guarde-o Deus, padre prior:"—E partiam: e elle assentava-se outra vez a olhar para o poente, onde o sol, que se affundíra no mar, deixava entre si e a noite, precipitando-se após elle das alturas do céu, uma barra de vermelhidão e ouro, que se estirava para um e outro lado do horisonte como tentando embargar o caminho ás trevas. E alli estava scismando até que a tia Jeronyma alçava meia adufa de uma janella baixa, que dava claridade á cozinha, e o chamava para a ceia, ao que promptamente obedecia, porque cumpre advertir que o padre prior não só respeitava á carga cerrada todas as tradições do catholicismo romano, mas tambem a sabedoria tradicional do povo, que neste capitulo de ceia resa que deve ser comida sem sol, sem luz, e sem moscas, momento fugitivo do expirar do dia, que não consta deixasse jámais passar por alto a boa da tia Jeronyma.

Nunca me ha-de esquecer aquella hora na aldeia, a luz crepuscular da atmosphera, as gelosias dos aposentos inferiores da residencia parochial, e a sancta velha da tia Jeronyma que teria proporcionado mais um capitulo a Chateaubriand sobre a poesia das usanças christans, se esse illustre escriptor houvesse uma vez saboreado as filhós que ella compunha para celebrar o Carnaval;—e os seus bolos da Natividade—e a sua ôlha e o seu anho assado da Paschoa. Não!—Saudades de tudo isso, durante a minha vida inteira, em qualquer fortuna, no meio das mais graves cogitações, nunca hei-de affastar-vos impaciente quando vierdes, como creança travessa, baralhar-me um periodo de trabalhada prosa, ou aleijar-me com um verso parvo uma estrophe soffrivel. Vinde, meus amores antigos, que para vós esta fronte não saberá arrugar-se; esta bôca não terá esses monosyllabos duros e gelados com que se repellem importunações d'indifferentes. Vinde, e demorae-vos comigo, e palrae por uma hora, por um dia, por uma semana, que vos escutarei sempre sorrindo; e quando fôr ao sol posto, que os ouvidos da minha alma vos ouçam reproduzir vivas, harmoniosas, melancholicas as lentas badaladas das ave-marias, não como agora as ouço ás vezes no meio do ruído confuso, aspero, estridente do povoado, mas partindo da aldeia ainda deserta dos seus moradores, rolando pela veiga, espriguiçando-se pelo prado, rumorejando pelas quebradas da encosta ou pelo pinhal do cabeço, e indo morrer lá muito ao longe nas toadas duvidosas de uma cantiga de lavadeiras, ou no tinir das esquillas de um rebanho de ovelhas, que se encaminham pára o aprisco ao sibilar do pastor. Repeti-m'as assim, puras, campestres, vibradas n'um ar puro e sonoro, livres por um horisonte immenso, e ter-me-heis despertado um affecto consolador, o qual valerá mais que todas as ambições, que todos os contentamentos, que todas as esperanças do mundo.

Tem-se discutido os sinos, como se discute quanto ha no universo. Desde a existencia objectiva ou material deste mundo até a legitimidade do chocalho pendurado ao pescoço da cabra retouçando pelas ruas de qualquer capital, que resta ainda ahi para se lhe trazerem á praça os prós e os contras? Das definições possiveis do homem uma só é verdadeira: o homem é o animal que disputa. Os sinos têem tido amigos e inimigos: e porquê? Pela mesma razão porque sobre tudo ha duas opiniões contradictorias. É que tudo tem duas faces diversas. O vento sul é meigo para a arvore que veceja no recosto septentrional da montanha, e açoute da que vegeta no pendor opposto: o norte é o supplicio da primeira, e grato para a segunda. N'isto está cifrada a historia das contradicções humanas.

Os sinos, collocados em campanario de parochia aldeian, ou de mosteiro solitario, são uma cousa poetica e sancta: os sinos, pendurados nas torres garridas de garridissimas igrejas das cidades de hoje, são uma cousa estupida e mesquinha. O sino é um instrumento accorde com as vastas harmonias das serras e dos descampados. Assim como o orgão foi feito para reboar pelas arcarias profundas de uma cathedral gothica, para vibrar na atmosphera mal alumiada pelas frestas estreitas e ogivaes, do mesmo modo o sino foi perfilhado pelo christianismo para convocar os seus humildes sectarios occupados nos trabalhos campestres. Quando se associou o sino ao culto? Ignoramo-lo: ignoramo-lo, porque foi a religião serva e perseguida que o sanctificou: e quando os poderosos da terra a acceitaram para si, então entrou elle nas cidades soberbas. Lá converteu-se n'uma cousa insignificante e impertinente. É mais um ruído intoleravel para ajunctar aos outros ruídos discordes que troam por essas ruas e praças. O sino, tornado cortesão e fidalgo, é semelhante ao orgão trazido para o aposento do baile, ou, o que vale quasi o mesmo, para essas salas ao divino, bonitas, vaidosas, douradinhas, que insensatos edificam para as admirações de parvos.

E com estas digressões esquecemo-nos do padre prior. Não importa. Deixa-lo ceiar em paz, e resar o breviario. Eram estas, entre outras, duas phases graves e sérias de todos os seus dias. Depois, emquanto a velha Jeronyma punha em ordem a casa, elle pegava em um livro da pequena estante que lhe ficava á cabeceira, e lia ou uma lenda pia do Flos-Sanctorum de Rosario, ou um tracto d'aquellas grandes historias de Fr. Bernardo de Brito, até que o somno tranquillo de uma boa e san consciencia, apertando-lhe com os dedos rosados as palpebras, o entregava aos sonhos placidos que só a alvorada vinha interromper, quando o perigo imminente de alguma das suas ovelhas o não obrigava a erguer-se alta noite, ao som do resmungar malsoffrido e, até certo ponto, impio da tia Jeronyma. No horisonte limpo e sereno destas duas vidas innocentes, destes Philemon e Baucis celibatarios, que amparados um no outro íam peregrinando contentes para o sepulchro, havia um ponto negro e triste. O rendimento da parochia não consentia que o padre priorpossuisseessa especie de ilotain sacris, de servo de gleba sacerdotal, chamado o padre cura. As ventanias, as chuvas, as noitadas através das serras revertiam como a congrua e os benesses em beneficio, senão do corpo, ao menos da alma do reverendo prior.

A sua congrua era maravilhosamente estitica: o grosso dos dizimos da parochia, jogava-os á risca todas as noites em tertulias um digno commendador não sei de que ordem. Ai, que a extincção dos dizimos foi a morte da religião!

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