VIII

Segredo, segredo profundissimo (semelhante ao da nossa tão celebre conspiração de 1640 contra os castelhanos, da qual só talvez sabia o primeiro ministro de Castella) se guardou na azenha,olimde Ignacio Codeço, ácerca de todas aquellas tafularias. Quantas vezes não se vestiram a casaca e o vestido de seda! Quantas se não pozeram o chapéu de castor e o franzido! Que viravoltas se não deram, que visagens se não fizeram diante de um espelho de espinheiro com suas cortinas de panninho, que adornava a casa de fóra sobre uma commoda de vinhatico oleado, cujas puxadeiras de metal amarello luziam que nem ouro! Que disputas não houve sobre o abotoar e o desabotoar, o atacar e o desatacar, o pôr o chapéu assim, e o pôr o chapéu assado! E D. Thomazia, que presidia áquellas conclusões, da alteza da sciencia punha termo á questão com o seu parecer decisivo, magistral, oracular. No grande dia da festa a vaidade daquellas duas creançolas, satisfeita com a admiração popular, não valeria, não podia valer, o deleite que a antevista gloria desse dia lhes dava em imaginação. Ai, assim são todas as ambições e esperanças humanas! O goso é sempre o desengano mais ou menos ensosso das fascinações do desejo.

Mas havia uma nuvem negra que entenebrecia o brilho de tão completa felicidade. Era a lembrança do genio de Bartholomeu. Ás vezes, no meio dos mais festivos commentarios sobre a grande vista que haviam de fazer com as inopinadas secias, a figura do moleiro surgia terrivel, enrugada a testa pela severidade, os olhos-ervilhacas faiscantes de colera, a bôca borbulhando pragas. Bartholomeu cortava com o seu vulto ameaçador aquella linda pagina dos sonhos da vida, bem como o pingo de amarellado simonte (perdoe-se o enxovalhado do simile em favor da exacção) que, rolando insensivel pelo estendido beiço do velho sapateiro, vae cahir sobre o Carlos Magno, aberto em cima dos joelhos, e espalmando-se arredondado sobre as linhas mais interessantes do livro immortal, embacia e mata as chispas de Altaclara no momento em que ella rompe o arnez de Ferrabraz. E o mestre pára, e assoa-se; mas a interrupção fatal desvanece as illusões dos officiaes ouvintes, e descerrando-lhes os dentes, lhes quebra os brios com que puxavam a encerolada linha, ou cravavam os pinos no alteroso tacão.

Uma idéa, todavia, asserenava logo a alma de Manuel da Ventosa: o furacão paterno estava certo; mas devia ser passageiro. Elle não havia de pôr-se a ralhar nenhuns vinte annos. Era um dia ou dous; e aquellas louçainhas ficavam para toda a vida. E esta dilatava-se-lhe por horisontes tão illimitados! O bom do rapaz ainda não dobrara o melancholico padrão dos trinta annos, d'onde só se começa a medir bem com os olhos o curto caminho de ferro entre o berço e a cova, pelo qual vae correndo esta especie de locomotiva chamada existencia humana.

Aqui tem, pois, o leitor que gostar da historia lardeada de todas as investigações, exhibições e minudencias gravissimas, de que ella se costuma temperar, com tanto juizo e talento, nesta nossa terra, as causas e items mais remotos e reconditos da difficultosa situação em que achamos Bartholomeu á vista da descommunal tafularia do filho e da nora, cuja defesa tomára sem os conhecer, como verdadeiro paladino, e que dava de todo o coração ao demo desde que víra assim arder sem remedio o seu remedio, como diriam o elegante auctor dos Cristaes da Alma, ou os poetas da Phenix-renascida.

Banzou por alguns momentos o velho. A transição era demasiado violenta e rapida, e a revolução que se operava na sua alma vinha gravida de uma apoplexia. Indicavam-no as veias da fronte que engrossavam, a vermelhidão do rosto que ía tirando a rôxo. Semelhante ao hesitar da grimpa no topo do campanario, quando em trovoada eminente luctam dous ventos contrarios, Bartholomeu não sabia se repellisse as insolencias de Perpetua Rosa, que tivera a ousadia de chamar-lhe toirão, se descarregasse a colera que o asphyxiava sobre os dous barbaros delapidadores da quasi sua fazenda; quasi sua, digo, porque o moleiro bem sabia que a azenha comprada com o dote de Bernardina era em rigor delles, e por consequencia delles o seu rendimento, que por paternal precaução se encarregára de administrar e poupar.

Mas a avareza, superior ao orgulho no animo do velho, fez desembéstar para o lado dos noivos o vento da colera. Abandonando o arranhado e moído Gabriel, rompeu para os novos criminosos, que assim de subito ousavam apresentar-se no seu inexoravel tribunal. Andando, as mãos contrahiam-se-lhe por espasmo nervoso, como as garras aduncas do girifalte, e ao chegar ao pé delles lançou uma á gola da casaca do Manuel e outra ao braço de Bernardina. Eram duas tenazes de ferro.

"Que patifaria é esta, sô tratante?—disse, dirigindo-se ao filho em voz baixa, rouca, e de vez em quando apipiada pela indignação que lh'a tolhia.—Você não sabe que o dinheiro custa a ganhar? Para que é essa trapagem toda? Com quê já a sua jaqueta azul tem bichos? E cá a grandessissima tola não podia passar sem sedas! Não se lembra do tempo em que andava de sapatas atrás das vaccas da Josefa Enguia? Diga, senhora mosca morta?… Olha a sonsa, que parece não quebra um prato! Anda-se um homem a matar para lhes fazer casa, e vocemecês, senhores badamecos, a botar o suor da gente pela porta fóra. E eu sem saber nada d'isto! Com trezentas carradas de diabos! Pena tenho eu que essa mariolada os não pozesse n'um frangalho. Não têm vergonha de se fazerem alvo do povo, e de se arruinarem e arruinarem-me a mim, que toda a vida tenho labutado para viver com a minha cara descoberta?… Oh desalmado—proseguiu depois de um instante de silencio—que contas me has-de tu dar do dinheiro que extravaganciaste, e que é preciso para me acabar de desempenhar da compra da azenha?…"

Neste momento o discurso de Bartholomeu, que se ía encaminhando ao pathetico, foi interrompido por um rir esganiçado e tremulo, que lhe chiou ao pé dos ouvidos. Era o caso, que Perpetua Rosa o seguíra sem que elle reparasse em tal, e se pozera attentamente a escuta-lo. A ultima phrase que a boa da velha ouvíra tinha produzido nella tão subita alacridade.

"E ri-se você, sua atrevida?!"—exclamou o moleiro voltando-se paraPerpetua Rosa.—"É natural que fosse intrépece nesta alhada…"

"Pois vocecê nan quer que eu ria a arrebentar ouvindo-lhe essas lérias da compra da azenha? Calo-me eu, bem sei porque. Mas sempre lhe digo, que está paga e repaga. Meu dinheiro, teu dinheiro!… Entende-me, senhor Bertolameu! Minha filha não veio descalça…"

"Oh diabo de bruxa!—exclamou o moleiro fóra de si.—Dão-me inguinações de t'esganar! Olha a piolhosa, a estraga albardas, que me deu cabo de seis saccas, as melhores que eu tinha, por desmazelada…"

"Já lh'o disse, seu mirra-mofina, seu manita de carneiro assado, seu sovina-mór! Não me faça falar. Olhe que eu não tenho papas na lingua…"

"Um estupor tivesses tu nella, que te pozesse a bôca á banda, aldrabista de centopeia, basculho de chaminé, carraça do inferno! Falta agora que a senhora diga que a lesma da filha trouxe para o casal mundos e fundos!"

"Antão, como meche nessa borbulha,—acudiu Perpetua Rosa, agarrando o moleiro por uma das largas abas da veneranda casaca, e sacudindo-o com força,—é preciso que não faça da gente tola. Assim o quiz, assim o tenha. Saibam vocecês—isto dizia-o voltando-se para cinco ou seis velhas, que faziam roda e segredavam umas com outras.—Saibam vocecês que o senhor Bertolameu da Ventosa recebeu mais de cinco centos de mil réizes de dote…"

"Eu deito-me a perder com este diabo!—interrompeu o moleiro fazendo-se fulo, e soltando as mãos do braço de Bernardina e da gola do seu Manuel, para as lançar ao gasnate de Perpetua Rosa.—Oh lingua perversa! Quaes quinhentos mil réizes?!…"

"Os que meu amo tinha ajunctado grão a grão, como se lá diz, á custa do suor do seu rosto, com muitogloria in incelsismuito bem cantado, e muito enterro feito, e muitas bátegas d'agua nos ossos, e muito sermão prégado, e muito arranjo e poupança desta sua criada, senhor Bertolameu. Senhor Bertolameu, tenha perposito! que quem não diz, não ouve; que lá resa o dictado: manha do açougue, e com villão villão e meio. Foram setenta caras; salvo seja! Vi-as contar com estes olhos, que ha-de comer a terra. E quem as arrecebeu? Nanja eu. Assim compra-se muita coisa, e arrotam-se postas de pescada. Diz bem, senhora Perpetua Rosa; diz bem! Quem perdeu perdeu; mas não queiram metter os dedos pelos olhos á gente. Nunca vi creatura assim: t'arrenego!"

Este brilhante discurso, até certo ponto, e debaixo de certos aspectos, quasi parlamentar, fez volver o catavento de raiva do moleiro para a oradora, que não era ninguem menos que a tia Jeronyma, a qual abicára ao pé delle na alheta de Perpetua Rosa.

Bartholomeu andava-lhe já a cabeça á roda, e fugia-lhe o lume dos olhos. Largou os gorgomilos da sua estimavel consogra, e começou a menear os braços por tal geito, que faziam lembrar as vélas do moinho da Ventosa. Os olhos saíam-lhe das orbitas, e a escuma dos cantos da bôca: quasi não podia falar. Entretanto Perpetua Rosa, solta do feroz amplexo, exclamava:

"Pouca vergonha! pôr as mãos na cara de uma mulher velha, este gaiato!"

Á palavra gaiato, homens, rapazes, mulheres, que de instante a instante augmentavam a roda, ninguem se pôde conter, pelo contraste monstruoso entre semelhante epitheto e o vulto de capitão hollandez, rhomboidal, vermelho, rugoso, quadrangular, irritado do moleiro. Foi uma cachinnada, um palmear, um ah ah ah … ih ih ih … um assobiar de garotos, que fazia tremer as carnes. Debalde Bartholomeu tentava fazer ouvir as suas explicações: o estrepito opposicionista embaraçava a atrapalhada voz do ministro, que pretendia desemaranhar aquella inextricavel questão de orçamento. Ninguem se entendia: era completamente parlamentar.

Neste momento, á porta de um corredor que dava para a sacristia, appareceu de subito, já meio revestido, o padre prior. O motim do adro tinha ecchoado lá dentro. Á vista daquelle aspecto veneravel e venerado fez-se prompto e profundo silencio.

"Que estrupida é esta?"—perguntou o velho parocho com aspecto carregado e voz severa.—"É na vizinhança da casa de Deus, na hora em que vão celebrar-se os divinos mysterios, que os meus honrados parochianos vem tecer disputas e travar-se de razões, em vez de guardarem a compostura e devoção com que devem preparar-se para o tremendo sacrificio do altar? Rixas e apupadas no dia do bem-aventurado S. Pantaleão?! Não o soffro. Vamos, expliquem-me a causa de tal barulho. Que foi isto?"

"São estas descaradas…."—gritou Bartholomeu.

"Saiba vossenhoria….—acudiu ao mesmo tempo a tia Jeronyma.

"É este insolente…"—interrompeu Perpetua Rosa.

"Não é nada, padre prior; não é nada:"—diziam conjuntamente o Manuel e a Bernardina, mais com a mão, fazendo um gesto negativo, que com as palavras, enredadas inintelligivelmente com as do moleiro, da ama, e da lavadeira.

"Fale um!"—gritou o prior.—"Assim fico jejuando."

"Foi….."—disseram todos ao mesmo tempo.

"Peior!"—acudiu o parocho.—"Cada um por sua vez. Vamos."

"Saiba vossenhoria…"—vociferou o moleiro, ganiu Perpetua Rosa, flautou a ama, murmurou o Manuel, pipitou Bernardina, clamaram os circumstantes.

"Visto isso, é impossivel saber de que se tracta?"—interrompeu de novo o prior.—"Está bom… Não importa! Depois da festa averiguaremos o caso. Tudo para dentro já! Vá tomar o seu logar, Bartholomeu. Estão os mesarios á espera, e você entretido aqui com estas toleironas! Vamos. Nem mais uma palavra."

E dizendo e fazendo, recolhia-se para a sacristia. No relogio de sol o gnomon estendia exactamente a sua sombra sobre o ponto de intersecção marcado pelo X. As rebecas soltaram a sua chiadeira quasi harmonica, e o grupo, desfazendo-se, escoou-se pelo portal tricentrico, cujas pedras a broxa vandalica havia amarellado; e dentro de poucos instantes o adro ficou silencioso e deserto.

Os instrumentos tambem fizeram silencio passados alguns minutos, e sussurrou lá dentro uma voz humana, cansada e debil, que entoava com suave melopea:

"Introibo ad altare Dei."

* * * * *

Estamos á porta da igreja. A saloiada mettemo-la dentro. O padre mestre Prazeres, o padre Chaparro, e o padre prior não sei se d'aqui os vêm na capella-mór. Fr. Narciso gyra, mira, vira, revira tudo, na credencia, no altar, na banqueta. O ceremonial romano é um mundo de idéas, que elle dispoz nos diversos repartimentos cerebraes, com uma comprehensão, um tino, uma logica de por ahi além. Fr. Narciso tem d'olho o padre Chaparro, que foi toda a vida um tonto em liturgia, e assim ha-de morrer. General naquelle conflicto, Fr. Narciso está álerta; nem seiscentos Chaparros seriam capazes de lhe entortarem uma ou mil missas cantadas. Em semelhantes occasiões o veterano mestre de ceremonias contempla impassivel da altura da sciencia as evoluções dos seus subordinados: tudo abrange, tudo prevê, tudo dirige tranquillo. E não solta uma voz unica: não reprehende, não incita, não ameaça. Uns beiços estendidos e inclinados á esquerda fazem parar o missal, que ía a ser extemporaneamente arrebatado da banda da epistola para a do evangelho; uns olhos trasbordando pelas palpebras, acompanhados de um oscillar de cabeça rapido, horisontal e fugitivo, inteiriçam os joelhos que vão a vergar em genuflexão deslocada. Emfim, para que estarmo-nos a matar? Como o nome de Fr. Timotheo na parenetica, o de Fr. Narciso na liturgia será o nome que a historia transportará ás mais remotas eras, emquanto as glorias da familia arrabida durarem na posteridade.

Ointroiboentoou-se: o negocio está agora em mãos de mestre: podemos ficar descançados com a festividade. Como o calor da igreja é muito, venhamos, eu e o leitor, conversar um pouco á fresca sombra dos plátanos do adro. Tenho explicações indispensaveis que lhe fazer; dê por onde der, embora ouçamos a missa descabeçada.

Sou homem de bofes lavados, como diziam os nossos velhos, e não gósto de que me estejam a morder na pelle por causa de lacunas, mysterios, ou contradicções nas minhas narrativas. Menos isso. A historia é a historia, e não se hão-de deixar por aqui e por alli obscuridades e incertezas, que façam suar o topete ás academias futuras: muito mais que ha ahi uns quidams, cujo officio é esmiuçar, anatomisar e criticar os escriptos alheios, e que lhes fazem os mais crueis e desalmados processos verbaes, que é possivel imaginar, não lhes escapando periodo nem linha, ponto nem virgula. Critica rosnada pelos cantos é a destes, semelhante ao bisbilhotar da cozinheira com a creada da vizinha, á janella do saguão, sobre os talhos que a ama deu ao presunto, ou sobre o mais ou menos acogulado da medida dos feijões fradinhos. É por isso que a taes criticas chamo eu verbaes; verbaes, porque seus auctores d'ahi não podem passar. Coitados! escreveriam vinte heresias se copiassem o padre-nosso. São os alcaiotes doslapsus linguæ, os mexeriqueiros dos actos de memoria. No vento e com vento compõem: vivem de epigrammas agudos como tranca: morrem sem deixar vestigio. Litteratos a barbas enxutas, eruditos lendo ainda por baixo, passam nas trevas como a coruja; mas bem como a coruja roçando as azas, que salpicou na alampada, pela alva toalha do altar a deixa ennodoada, assim a pagina pura, affagada de tanto amor do artista, estudada com tão sincera consciencia, lá recebe, na tertulia de parvos, a dedada torpe e sebenta de um chapadissimo tolo.

Não sou dos mais queixosos; todavia guardo acatamento profundo a essas caricaturas de adibe, que, á falta de dentes para devorarem carniça, contentam-se de fazer empolas e brotoeja na pelle do proximo. Respeito-os a todos, altissimos e baixissimos; que os ha de todas as riscas da craveira social, no civil, no militar e no ecclesiastico. Estou, por isso, sempre com o credo na bôca quando escrevo uma linha, e antes quero que se queixem da frequencia dos prologos do que me condemnem sem me ouvirem.

Disse já que tinha de fazer uma explicação ao leitor. Tenho; e é indispensavel. Estou ouvindo um melenas arguir assim:—"Como soube a tia Jeronyma que as peças do padre prior se haviam esgueirado, com tanta magua sua, só para dotar Bernardina? Como o souberam os noivos, e Perpetua Rosa? Não se passou tudo particularmente entre o prior e o moleiro, ambos interessados no segredo do negocio, um por virtude, outro por avareza? Foi um duende que veio revelá-lo? Mas isso é fazer como Eugenio Sue, que logo desde o principio das suas novellas arranja um homem humanamente impossivel, e até uma entidade immortal, para nos casos difficultosos se desembrulhar das aperturas da situação. Isso é empalmar; isso não vale. Queremos saber por onde transpirou a generosa acção do velho parocho; mas por meios naturaes. Não admittimos tergiversação, nem milagres."

Tá, tá! Nem eu, falando de telhas abaixo. E era para explicar este mysterio naturalissimamente, que chamava agora o leitor para a fresca sombra dos plátanos do presbyterio. O caso foi este:

Quando o prior, dominado pela idéa de remediar a todo o custo a rapaziada que fizera o Manuel da Ventosa, deu comsigo ao romper da manhan no moinho de Bartholomeu, lembrados estarão de que o velho, accedendo aos desejos manifestados pelo seu parocho de ficar a sós com elle, pozera fóra da porta os moços com o grito derua! Se o homem fizesse como Polyphemo, quando tinha Ulysses e os seus camaradas encapoeirados no antro com os carneiros e como carneiros, o qual, á falta do unico olho que possuia e que lhe haviam vasado, ía apalpando e contando os que saíam, segundo mais largamente narra Homero, não succederia o que succedeu, e já as embrulhadas, picuinhas, dicterios e descomposturasad faciem ecclesiæ, de que antecedentemente dei conta, não teriam sobrevindo, com escandalo das pessoas graves e tementes a Deus. Era, como no logar competente deixei especificado, grande o tráfego no moinho á chegada do prior: duas récuas de machos a enquerir á porta; moços para dentro e moços para fóra; saccos de farinha a rolarem e a empoeirarem a atmosphera; bulha, encontrões, sapateada, arres, xós, pragas, diabos; um pandemonio, emfim, em miniatura. A chegada do prior foi tão inesperada e subita, que Bartholomeu, azoinado, não reparou nos que saíam á sua voz de commando. D'aqui o damno. Uma testemunha ficava ahi, sem que Bartholomeu désse por tal.

Esta testemunha era Gabriel. O pobre rapaz tinha andado, até á meia noite, do moinho para a fonte e da fonte para o moinho, com um macho e dous barris, a carrear agua. Depois, estirou-se a dormir atrás de uma pilha de saccos de trigo, com aquelle valente somno da primeira juventude, a que se não resiste nem n'um campo de batalha. Dormiu, dormiu, dormiu. Rompia a alva e ainda elle era pedra em poço. O grito de Bartholomeu despertou-o, na verdade; mas não teve animo de erguer-se: bocejou, bufou, espriguiçou-se, estendeu os braços para diante com os punhos cerrados, virou-se de barriga para o chão, metteu o nariz debaixo do sovaco, e proseguiu na interrompida tarefa. Felizmente para o pobre do moço, que se fosse presentido pelo moleiro teria de acordar de todo com o despertador infallivel de dous pontapés, Gabriel não resonava, ainda no mais profundo somno. Crendo estarem sós, os dous travaram a larga conversação que no principio desta famosa historia ficou fielmente trasladada.

Não faço eu tão fraca idéa de mim ou do leitor, que supponha assás falta de interesse a minha narrativa, ou o tenha a elle por um tal cabeça de vento, que se esquecesse da estrondosa gargalhada que desandou o padre prior ao manhoso saloio, quando este lhe propoz désse o dote a sua sobrinha Joanna, á falta de outra mais digna. A descommunal risada é que o somno de Gabriel, se não partido inteiramente, ao menos já estalado pelo grito de Bartholomeu, não pôde resistir. O rapaz fez uma viravolta, abriu os olhos, deu uma guinada ao corpo, ficou assentado, com as pernas estendidas, e a cabeça inclinada sobre o peito, meditabundo por alguns momentos, e immovel como um daquelles santões de que resa Fernão Mendes Pinto. Depois, levando as mãos á cabeça, começou a coçar rapido d'alto a baixo por cima das orelhas. Pouco durou, todavia, essa primeira furia. Como o som da harpa d'Ossian, alongando-se e esmorecendo por entre a nebrina das serras, aquelle coçar d'alma affrouxou e desvaneceu-se gradualmente; as mãos, confrangidas em fórma de garra, espalmaram-se flexiveis, os braços hirtos e erguidos despenharam-se mortaes ao longo do tronco, e a cabeça somnolenta balouçou á direita, depois á esquerda, depois pendeu de chofre para diante, e resaltou quasi ao bater sobre os joelhos, semelhante ao judeu martyrisado pela sancta inquisição, quando ao descer pendurado da polé, a corda, atada mais curta que o espaço médio entre o chão e a roldana, o desconjunctava, retendo-o subitamente alguns palmos acima do pavimento. Assim se desconjunctou aquella machina de somno, e Gabriel abriu seis vezes a bôca, engradou-a com outras tantas cruzes, esfregou os olhos com a parte anterior do canhão da jaqueta, mirou por entre os saccos os dous velhos, embasbacou de vêr alli o prior, e, sem tugir nem mugir, poz-se a escutar o dialogo, que se travára entre ambos.

Qual este foi e o seu desfecho sabe-o o leitor tão bem como eu.Apenas o prior se despediu, encaminhando-se pela encosta abaixo,

Bartholomeu recolhendo as setenta peças, que elle deixára sobre a arca das maquias, poz logo tudo em movimento; e Gabriel, por cuja falta naquelle primeiro impeto o moleiro não dera, teve arte de se confundir com os outros moços, que entravam e saíam, sem que o amo nem por sombras suspeitasse que havia uma terceira pessoa sabedora do importante negocio que se acabava de compôr, e sobre o qual, no meio do seu mandar, e ralhar, e lidar, já a ambição lhe ia alevantando na phantasia muitos castellos de vento.

Segredo em bôca de rapaz, outros dizem de mulher (eu, por decencia e pelos meus principios, sustento a moção relativa aos rapazes) é manteiga em nariz de cão. Elle, na verdade, contou-o com variantes para mais e para menos, mas contou-o, que é o caso. E a quem o havia de ir metter no bico? Á pessoa que mais interessada suppunha na historia; á senhora Perpetua Rosa, mas pedindo-lhe pela alma das suas obrigações e pela fortuna da sua Bernardina que não dissesse nada, porque o patrão, se tal soubesse, era capaz de esganá-lo. Prometteu-lh'o Perpetua Rosa; jurou-o e tresjurou-o. Pulava a boa da velha de contente, e a primeira vez que levou roupa á cidade fez das fraquezas forças, e trouxe de mimo a Gabriel um pião novo, uma gaiola de grilos cousa d'espavento, e uma abáda de castanhas do Maranhão e de figos passados, com que o bom do rapaz se regalou de pôr a bôca n'uma lastima. E o mais é que teve palavra. Apenas contou o caso a duas ou tres freguezas antigas de Lisboa, e á tia Jeronyma, com quem desde a mestra, podia-se dizer, era unha com carne. Aqui é que foram as ancias. Pelos domingos tiram-se os dias-sanctos. A ama do prior fez-se fula quando tal ouviu. A lanceta que sangrára a meia do forro da escada apparecia finalmente; e a tia Jeronyma, sem lhe importar o ver a mortificação da pobre Perpetua Rosa, desabafou á sua vontade; mas passado o primeiro estouro da dor, levou de seu brio nunca mais tornar a bulir nesta desagradavel materia.

Eis a verdade nua e crua de como se aventou o segredo. A alhada da porta da igreja, nascida daquellas tafularias tolas do Manuel da Ventosa e da sua companheira, acabou de divulgar o negocio, sem que n'isto andasse o fradinho de mão furada, nem os jesuitas, gente de poder mysterioso e terrivel, nem, finalmente, o judeu errante, que tantas maravilhas obra actualmente na terra. Mas se n'isto não entraram os irmãos do quinto voto, nem o caminheiro Ahasvero, com as suas sapatas tauxiadas de pregos em cruz e com os seus alforges de cholera morbus, entrou, a meu vêr, a Providencia, mas uma Providencia natural e simples nos seus meios, como ella o é sempre, sem milagres nem bruxarias. Cuidava o prior que a sua nobre e evangelica generosidade ficasse occulta; cuidava Bartholomeu que trévas perpetuas cobrissem a torpe cubiça e a sórdida avareza com que se houvera neste negocio. Vae, que faz Deus? Serve-se de um pobre rapaz, que ninguem tinha em conta de nada, e põe tudo ao olho do sol. E fique desde aqui dicto que essa é a moralidade da minha historia: a virtude exaltada, e o vicio punido. Nem mais nem menos, como o desfeixo daquellas grandes comedias, que, ha vinte ou trinta annos, eram as delicias de nossos paes, e a gloria dos nossos dramaturgos das tres unidades, que Deus haja… As tres unidades, entenda-se bem; porque os dramaturgos, esses o Senhor no-los conserve, emquanto podér ser, para nosso regalo e consolação.

Quem disse lá que as velhotas, testemunhas dositemsdo moleiro com as personagens que mais conjunctas lhe eram, entraram para a igreja e se pozeram a ouvir o cantar dos padres, e a musica do coreto, e o esbravejar do prégador? Por um oculo! Á sombra da sua victima, que fôra e que ía seu; á sombra de Bartholomeu, a quem todos abriam caminho para o deixarem approximar-se do banco dos festeiros, ellas atravessaram a mó dos homens, unidos como sardinha em tigela dos estrados para baixo até o guardavento, e chegaram ao meio do mulherio. Haja o apertão que houver, ainda não consta que saloia deixasse de fazer praça para si na igreja. Verdade é que a tia Jeronyma ía em frente com a cara de arremetter que Deus lhe dera, e que mais rebarbativa se tornára com a anterior refrega. Quem deixaria de dar campo á ama do prior, e, sobre tudo, áquella carranca? Seguiam-na os noivos, encolhidos e vergonhosos do escandalo que tinham causado, tornadas em fel e absintho as tão risonhas esperanças que, pouco havia, punham no seu garbo e bizarria; que n'isto vem a acabar muitas vezes as vanglorias do mundo. (Mais moralidade). Após elles vinha Perpetua Rosa, e após a lavadeira vinha a Veronica do Tiago, padeira gorda, vermelha e reverendaça, a Engracia Ripa, mulher do fogueteiro da aldeia, magra, alta, côr de enxofre, a Eufrasia Tasquinha, tia do Gabriel, e varias outras, mais anchas ou mais esguias, mais esgrouviadas ou mais repolhudas, que não sou eu nenhum Homero para estar, nem antes nem depois da batalha, a tecer catalogos de guerreiros.—"Dê licença!…"—"Ai, que me pisou!…"—"Perdoe!…"—"Não vê?…"—Eis o que se ouviu murmurar por alguns instantes. E no meio daquelle mar de cabeças adornadas de lenços de côr, listrados, e brancos, avultava a pinha das recem-vindas, que tentavam ajoelhar; pinha semelhante á embarcação rota a ponto de submergir-se, que balouça vacillante, e se atufa lentamente nas aguas. Manuel da Ventosa, que ficára em pé no topo inferior do estrado, sentia apertar-se-lhe o coração vendo a sua Bernardina no meio daquelle cahos de capotes e roupinhas, como uma avesinha do céu no meio de ninhada de sapos. As sedas, o chapéu, as flores, a romeira rangiam, achatavam-se, engorovinhavam-se entaladas entre aquellas baetas, pannos, camelões e durantes, do mesmo modo que sobre o cadaver da virgem se achatam e quebram as alvas roupas da innocencia e a corôa de rosas, debaixo da terra aspera, pesada, immunda, que o coveiro atira brutalmente sobre os restos do que foi bello, delicado e puro.—"Mas que remedio?—pensou Manuel. As cousas assim hão-de ser sempre, porque assim foram desde o principio do mundo."—Elle, de feito, cria que desde esse tempo existiam missas cantadas, saloias e apertões. Mas emfim ajoelharam, persignaram-se, e a festa principiou.

Não a descreverei eu. Quem não sabe o que é uma festividade de orago, e o que é a missa solemne celebrada n'um templo catholico? Ha ahi alguem, crente ou não-crente na fé que seus paes lhe ensinaram, que não tenha bem vivos na memoria esses dias festivos da sua meninice; esse culto, que sabe elevar o espirito para o céu com as pompas de espectaculo sensual, que parece deveriam faze-lo descer para a terra? Quem se não lembra daquelles bons dias sanctos dos doze annos, em que o sol era mais formoso que nos dias de trabalho, sem exceptuar a folgada quinta-feira do sueto escholastico? Quem se não lembra da epocha, em que o nosso parocho era para nós um ente quasi divino; porque, pobres creanças, ainda ignoravamos os caminhos por onde esses homens, chamados a uma existencia de sancta e sublime poesia, sabem vir despenhar-se no charco das miserias e torpezas humanas, e revolver-se ahi com aquelles de que deviam ser esperança, salvação e exemplo? Quem não se recorda com saudade do tempo em que o altar só lhe apparecia a certa distancia, com o seu frontal broslado e a sua toalha alvissima, assoberbado pela catadupa de lumes de um throno, perfumado pelas jarras de flores, involto no ambiente turvo pelos rolos de fumo raro e pallido do incenso, symbolo do mysterio? A quem não murmura ainda nos ouvidos o rythmo monotono e severo do psalmear sacerdotal, mais accorde com as doces tristezas do coração, que toda a musica sentida e dolorosa dos espectaculos scenicos, e que estes, na impotencia de o vencer, têm ido humildemente imitar nas creações dos modernos artistas (porque Meyerbeer, para ser o rei das harmonias, foi invadir o templo)? Quem, finalmente, não refugiu uma vez, cansado de scepticismo, para as memorias infantis das commoções geradas pela religião dos primeiros annos, religião toda de affectos, de inspirações, sem sciencia nem raciocinio, os quaes, semelhantes ao sal espalhado sobre a terra, podem fertilisar algum coração, mas esterilisam os mais delles? As impressões indestructiveis das festas religiosas guardam-nas os que crêm, como consolação do passado, e como esperança de regosijo futuro; e os que não crêm tambem as guardam, no longo crepusculo da sua alma, como guardamos no inverno as plantas odoriferas já murchas, que, debaixo de céu pardo e frio, ao pé da veiga nua e da arvore desfolhada, nos recordam o halito suave dos campos ao pôr do sol de um dia sereno do estio.

Eis-ahi porque não descrevo a festa. Era especular descaradamente com os leitores: era como se ao Bartholomeu se lhe mettesse em cabeça ir ensinar o ceremonial romano ao incomparavel Fr. Narciso.

E que terá Fr. Narciso, que já escarrou duas vezes, já se assoou quatro, já bufou seis, já arregalou os olhos para o corpo da igreja oito? É que as attenções estão distrahidas. Fortes brutos! Uma perfeição de ceremonias, que nem na capella sixtina no dia da bençãourbi et orbi!—"Olha o que lá vae! o que lá vae!—rosnava elle cheio de indignação.—Aquellas endiabradas… Quem vos decepára as linguas, tarameleiras! Até aqui! Louvado seja Deus! É de mais. Psiuhhhh!"

Tinha razão. Era um zum zum na igreja, que quasi galgava por cima das rebecas; e mais chiavam e desafinavam com alma. O arrastado psiuhhhh de Fr. Narciso restabeleceu, porém, a ordem, que nem n'um motim popular uma carga de cavallaria.

Mas para se restabelecer a ordem é necessario haver desordem. Quero vêr se tambem dizem os parvos que esta proposição é uma das minhas esquisitices, ou excentricidades, para lhes falar na sua algaravia. A cousa tinha saído do logar onde estavam a tia Jeronyma, Perpetua Rosa e a Bernardina. Qual cousa? Isso é o que não diz a historia. O que é certo é que era um bis bis que partia do centro para a circumferencia, como os circulos concentricos que encrespam a superficie do lago ao meio do qual se atirou uma pedra, e era ao mesmo tempo um balouçar de pontas de lenços sobre os cabeções dos capotes, um rir abafado, um sussurro, uma agitação entre o mulherío, tal, que attrahira a attenção e logo a colera de Fr. Narciso. O mais que se pôde perceber foram alguns fragmentos de dialogo entre a tia Jeronyma e a Engracia do Estanislau fogueteiro.

"Padre nosso que estaes nos céus:—dizia Engracia Ripa, deixando correr um dos bugalhos de umas contas da terra sancta que tinha nas mãos.—Ora essa!—Sanctificado seja o vosso nome.—Forte tractante!—Venha a nós o vosso reino.—E uma pessoa com a sua áquella de que era um home como se quer!—Seja feita a vossa vontade.—Safa!—Assim na terra como nos céus.—Com que então setenta?"

"Entregadinhas!—Ave Maria, gracia plena:—respondeu a tia Jeronyma, que latinisava furiosamente á força de viver com o prior.—Como lh'o hei-de dizer?—Domisteco.—Foi o demo que o tentou.—Benedités tu…"

Neste ponto a interessante conversação das duas matronas foi interrompida pelo psiu! raivoso de Fr. Narciso. Não podemos dizer sobre que ella versava, nem aonde iria dar comsigo: e quando n'uma chronica profunda e grave, como esta, faltam fundamentos plausiveis, é dever do chronista ser sobrio, ou antes abster-se de conjecturas. Direi só que ao saír a gente da festa, não havia cão nem gato que não soubesse tim-tim por tim-tim a historia do Manuel da Ventosa e da Bernardina.

Mais moralidade:—é o que elles tiraram das suas tolas tafularias.

Quando o prior saíu da igreja os rapazes desbarretavam-se, ainda com mais signaes de cortezia e respeito do que era costume; as raparigas affagavam-n'o com um sorrir e volver d'olhos affectuoso, que fazia scismar o bom do parocho. Todos olhavam para elle e falavam em voz baixa. O prior estava zangadissimo.

Mas qual foi o seu pasmo ao vêr chegarem-se a elle muitos velhos de cabeça branca (eram varios lavradores seus freguezes, hourados paes de familia) e beijarem-lhe a mão com os olhos arrasados de agua! Estava fumando. Uma onda se lhe ía outra se lhe vinha de destampar com tudo aquillo, e pregar uma descompostura solemne e por atacado nos velhos, nos rapazes, e nas raparigas.

E para isso não lhe faltava metralha. Mas lembrou-se de que era o dia do orago da aldeia, e teve mão em si. Só lá perguntava aos seus botões qual seria a causa deste destempero e doudice.

Como havia elle de atinar, se tinha o costume de esquecer-se do bem que fazia, porque, sendo fraco de memoria, reservava-a toda para o bem que recebia?

A historia do casamento feito pelo velho parocho, segundo depois me contaram (era eu pequeno, e lembra-me como se fosse hoje), chegou aos ouvidos do prelado diocesano, o qual disse ao famulo do famulo do seu secretario, um dia em que se levantou de dormir a sésta com vontade de galhofar, que na primeira visita que fizesse á diocese havia de elogiar publicamente aquelle digno pastor. Nunca, porém, houve occasião para a primeira visita, porque esta costumeira velha tinha passado já de moda. Eram pieguices só boas para os Bartholomeus dos Martyres e para os Caetanos Brandões; pobres homens, a quem Deus fale na alma, se é que valiam a pena d'isso.

Ajuda—novembro de 1844.

(1831)

Abandonavamos, emfim, o solo d'Inglaterra. Sería pela volta do meio dia quando saltámos no chasse-marée que devia conduzir-nos de Jersey a Saint-Maló, atravessando aquella estreita porção do canal que nos separava da França. Sentimentos encontrados eram nesse momento os meus. O sol resplandecia brilhante, e o ar estava puro e sereno: era um dia d'outono, tão bello como o que mais o fosse em Portugal. De um lado alteava-se a ilha com os seus outeiros e valles, solo anfractuoso semelhante ao nosso, e a povoação com os seus edificios cobertos de telha, que nos faziam esquecer aquelles horriveis tectos inglezes de lousa negra, especie de tabuletas dospleen, penduradas pelos bretões sobre as suas cidades, e em que parece ler-se a inscripção de Dante:

Per me si va nella cittá dolente.

Do outro lado estendia-se o mar, chão e espelhado, que se interpunha entre nós e a França; entre nós e esse paiz, que para a mocidade das nações occidentaes da Europa é como uma segunda patria; porque lá está o centro das idéas que hoje agitam os espiritos, tanto no que respeita ás questões sociaes, como no que interessa á sciencia e á litteratura; porque lá vivem os escriptores que melhor conhecemos; que, até, amâmos como se foram nossos: paiz, a cujos habitos, tradições, successos e glorias nos têm associado os seus livros, sem o sentirmos, sem, talvez, o querermos. Ao approximarmo-nos da França o coração não bate violento, nem se derramam lagrymas, como ao avistar a terra em que nascemos; mas o animo desaffoga-se, e abre-se á esperança; vamos tractar homens, que nunca vimos, mas com quem de largo tempo vivemos pelas intimas relações dos affectos e da intelligencia.

Eramos seis portuguezes a bordo do chasse-marée, além de dous marinheiros francezes e um grumete, entidades analogas aos nossos antigos desembargadores; porque cada um delles cumulava seis ou sete cargos daquella vacillante e pequena republica, cargos disparatados, que, todavia, as tres personagens desempenhavam perfeitamente, destruindo assim, em parte, a analogia radical, que tinham com esses magistrados de pedante e pesada memoria, que não desempenhavam bem nenhum. Um cão e tres inglezes completavam a collecção dos animaes inclusos entre as quatro taboas da fragil embarcação.

O chasse-marée é um transporte maritimo, que, na minha profunda ignorancia das cousas navaes, me parece semelhante ao hiate portuguez, ao menos na immundicie e na carencia absoluta de tudo o que seja commodidade. N'isto, entre parenthesis, não sou eu ignorante; porque tenho experimentado uns e outros, e posso asseverar que sería mui difficultoso de resolver qual dos dous generos de navios tem parentesco mais proximo com as rudes e acanhadas galés, em que, ha sete seculos, Guilherme o conquistador transportou, através daquelle mesmo canal, da Normandia para Inglaterra os ascendentes da actual aristocracia britannica.

Commoda ou incommoda, era necessario aproveitar aquella detestavel jangada para passarmos a França, e isto por duas razões urgentissimas; a primeira, porque nenhuma outra embarcação havia no porto de Saint-Hélier com destino immediato para a costa fronteira: a segunda, porque o preço da passagem era apenas uma libra esterlina, e uma libra esterlina era o folego maior que podia saír da bôca das nossas bolsas, cuja phtysica pulmonar ia já no ultimo periodo. Tendo-nos, portanto, ajustado com o marinheiro que capitaneava o outro marinheiro, e havendo mettido a bordo os nossos bahus, que, pelo leve e desempedido, podiam servir-nos de botes de salvação em caso de naufragio, saímos da caldeira de Saint-Hélier com uma brisa forte da terra, que brevemente nos arremessou para o largo. Era muito depois do meio dia. Algumas nuvens brancas do lado do poente recortavam as suas franjas irregulares sobre o chão do céu, que a luz do sol tornava de um azul desbotado. Raras e diaphanas, aquellas nuvenzinhas balouçavam-se no ar, ao que parecia, mais voluptuariamente do que nós, que sentiamos arfar, pinchando d'entre as vagas crespas, o nosso pequeno baixel. Pouco a pouco esses vapores accumulados, cujos contornos occidentaes barravam orlas de ouro, engrossaram, tomando fórmas determinadas. Depois, correndo gradualmente mais rapidas, e interpondo-se entre os raios do sol já inclinados e o vulto rugoso das aguas, lhes remendavam o dorso semelhante á pelle mosqueada do tigre. Este jogo da luz dava ao mar um aspecto verdadeiramente accorde com a sua natureza. Que é elle, de feito, senão a mais terrivel das bestas-feras?

E o vento refrescava de instante a instante, e os mastros do chasse-marée principiavam a soltar de quando em quando um gemido doloroso, curvando-se para as vélas quadrangulares retesadas diante delles.

O grumete ía ao leme: o marinheiro, que representava e resumia a companha, de bruços e com os joelhos sob o ventre, no ademan de um gato que se apresta a saltar sobre o murganho immovel de terror, parecia examinar os novellos de nuvens tenebrosas, que se rolavam no horisonte e cresciam para nós, como uma visualidade de camara obscura. A barlavento o arraes ou capitão (capitainelhe chamavamos nós pelo menos) que representava e resumia a officialidade do navio, com o corpo torcido, e encostado á amurada, firmando a barba nos braços cruzados em cima da borda, tambem parecia esquadrinhar o céu e o mar. Dir-se-hia que o encapellar das ondas se regulava e media pelas rugas que successivamente augmentavam em numero e profundeza na fronte tostada do antigo marujo. Um susto vago e inexplicavel como que pairava no meio de nós. Era que a postura e o gesto daquelles dous homens tinham um não sei que sinistro e mysterioso, semelhante ao bofar morno do vento que precede e annuncia a procella.

Nós os passageiros, assentados n'uma especie de canapé mal affeiçoado, que circumdava a coberta á pôpa, tinhamos insensivelmente cahido em completo silencio; ou, para falar com mais exacção, nós os portuguezes eramos os que nos haviamos calado; porque nem o cão, nem os tres inglezes tinham proferido, aquelle um só ladro, estes um só grasnido desde o momento em que saltaram a bordo, na abra de Saint-Hélier. O unico ruído que sussurrava era o ranger do baixel, e o sibilo de vento embatendo em nós, e abysmando-se nos nossos ouvidos, o que nos fazia escutar um som semelhante ao do pinhal que se estorce e vérga ao redemoinharem-lhe por entre as ramas os mil braços da tempestade nocturna.

Dos tres inglezes um velho de cabeça inteiramente branca e rosto inteiramente vermelho dava certidão, nas cans, de que a agua do baptismo passára por alli havia muitos annos, na côr da tez dava-a de que tambem não havia poucos que elle, levado de um sancto respeito pela materia do principal sacramento, abjurára de coração o tocar-lhe com os labios, contentando-se de humedece-los com os tres liquidos fundamentaes de todos os contentamentos possiveis entre os netos dos kimhris e saxonios—o rhum, o vinho e a cerveja. Dos outros dous, um mostrava ser inglez de cincoenta annos, outro de quarenta; o primeiro, magro, da altura de cinco para seis pés craveiros, faces encovadas, nariz meridional, ou antes judaico, isto é, prominente e adunco, tez não tanto morena como macilenta: o segundo, typo saxonico, isto é, rosto largo e achatado, olhos azues, guedelhas louras, bôca profundamente vincada nas extremidades do beiço inferior, de aspecto aborrido e orgulhoso, como se todo o fumo de carvão de pedra britannico o cercasse com a sua auréola de gloria nacional. De resto não havia que duvidar-lhes da patria: indicava-a o cheiro dos seus vestidos, suavemente impregnados do fartum sebaceo de carneiro, e aromatisados com os effluvios nauseantes da infusão do chá preto, os quaes constituem a formula odorifera da sociedade politica chamada os tres reinos unidos.

Pois tambem ha cheiros nacionaes?—dirá o leitor.—Que duvida! Cada nação tem a sua crença, a sua lingua, e o seu cheiro. O credo inglez é representado não sei ao certo por quantos centenares de seitas, que se mandam reciprocamente para o inferno, desde a igreja anglicana, em que os bispos e arcebispos (poetas, amphytriões, millionarios e politicos) bradam anathema contra as vaidades, luxo e cubiça de Roma, até os methodistas, que vão para os seus templos caçar as inspirações de cima, inspirações que muitas vezes são papadas por velha fanatica e tonta, e ouvidas pelos seus irmãos com uma compunção que daria vinte comedias a Gil Vicente se hoje vivesse, e viajasse peloMight Empiredo vapor e da cerveja.

A brisa, que ao saírmos de Jersey era em pôpa, rodou successivamente para noroeste, e antes do pôr do sol soprava já violenta do lado do oeste. Nós seguiamos, pouco mais ou menos, o rumo do sul, e a mudança do vento, posto que ameaçadora, tinha sido momentaneamente uma vantagem de commodidade: o chasse-marée corria á bolina, e por isso o seu arfar se tornára mais suave. No horisonte, quasi pela pôpa, divisavamos ainda o promontorio de Noirmont, e pela nossa esquerda prolongavam-se quasi imperceptivelmente as costas de França, como uma linha negra lançada ao través dos mares. O silencio que reinava a bordo dava certa melancolia solemne ao quadro do céu nublado, das vagas revoltas, e da terra que parecia quasi desvanecer-se na orla das solidões do oceano.

O inglez velho, que ía justamente assentado á minha direita, a pouco mais de meia milha de Saint-Hélier começou a empallidecer. O ar marinho é inimigo figadal do fastio, e por isso, teriamos apenas navegado duas horas, quando começámos a experimentar, nós os portuguezes pelo menos, a immutabilidade inflexivel desse axioma dietetico. Tirámos algumas das nossas provisões, e pozemo-nos a despachar os requerimentos do estomago. Offereci ao velho que tomasse parte naquella refeição; mas elle recusou, declarando-sesea-sick(enjoado); todavia para não perder, como verdadeiro inglez, os prós da minha boa vontade, entendeu que podia trocar uma obra de misericordia por outra, e, deixando-se escorregar do banco ao convez, fincou-me sobre os joelhos a cabeça entontecida, e cerrou os olhos. Recommendei então a Deus os meus pobres ossos cruraes, ameaçados de chegarem a França em estado de para nada prestarem, visto ser a cabeça do velho uma verdadeira cabeça ingleza; dura, pesada, e macissa, como o governo da Companhia na Asia.

Porque não repellia eu a familiaridade ominosa do bom do inglez; de um homem cuja nação, como portuguez, tenho a obrigação moral de desamar? Era porque em contrario havia duas considerações igualmente moraes. Uma cabeça branca é sempre respeitavel, ainda que assente sobre o tronco ermo de coração de um filho da Gran-Bretanha. Além d'isso, o cesto de verga em que íam as nossas provisões estava alli como um espectro, que me embargava sacudir a fronte do ancião para o travesseiro macio do convez gordurento. O porque desta acção sympathica do cesto sobre o meu espirito di-lo-hei em breves palavras: é uma historia como qualquer outra.

Miss Parker de Plymouth era uma donzella de sessenta annos; excellente creatura, que nos hospedára por dous mezes naquella cidade, mediante a bagatella de tres shellings semanaes por cabeça. A Inglaterra, como todos sabem, é o paiz da franca e sincera hospitalidade. Eramos ahi nove portuguezes, em seis camas e tres aposentos, o que dava certo ar pythagorico e mysterioso á familia, que, dirigida por Miss Parker, podia servir de modelo ás outras ninhadas de emigrados que ainda viviam em Plymouth. Ninguem tinha uma patroa como nós, e os seuslodgingseram a perola das albergarias de Plymouth. A principio havia-se encarregado de nos preparar a comida; mas poucos dias podémos resistir aos abominaveis temperos do paiz. É precisa uma raça de estomagos que ainda fosse antropophaga no meado do quinto seculo da era christan para luctar vantajosamente com a cosinha d'Inglaterra, e estes estomagos só os inglezes os possuem, segundo o testemunho do seu historiador Gibbon. Os nossos cederam a tão dura prova, e vimo-nos obrigados a dispensar Miss Parker do mister de nos envenenar. Quanto ao mais eramos verdadeiramente seus filhos em espirito, em espirito, digo, porque, afóra muitas reflexões pias de que se dignava fazer-nos, a nós pobres idolatras do catholicismo, obrigava-nos a respeitar o domingo no pleno rigor da igreja anglicana; isto é, a morrer de tedio e tristeza, prohibindo em sua casa todo o genero de divertimento, ainda o mais innocente, desde pela manhan até sol posto, momento em que naquelle abençoado paiz Deus cede ao diabo o resto do dia dominical, e em que a devassidão e a embriaguez, tripudiando nos prostibulos e nas tabernas, se vingam das dez ou doze horas de sermões impertinentes dosclergymen, e de psalmos desafinados pelas vozes roufenhas e prosaicas da turbamulta, debaixo das abobadas sanctas, poeticas e venerandas das antigas igrejas catholicas, repartidas hoje em camarotes de theatro pela pureza aristocratica e beata do protestantismo inglez.

Miss Parker foi o unico folego vivo da Gran-Bretanha, a quem, na minha estada em Inglaterra, devi um beneficio: quando partimos para Jersey deu-nos um cabazinho em que levassemos a nossa matalotagem, e derramou algumas lagrymas ao despedir-se de nós. Aquelle cabazinho era o que estava ante mim, e me sustinha em cima dos joelhos a cabeça do velho. Sobre as vagas procellosas do canal da Mancha eu soldava assim as minhas contas com a Inglaterra.

O vento continuava a rodar para sudoeste, e os nossos dous marinheiros colheram parte do panno e mudaram algum tanto de rumo: depois tornaram a assentar-se na mesma postura em que estavam, e tudo voltou ao anterior silencio, que só era interrompido pelo marulho das ondas espalmando-se no costado do chasse-marée.

Mas um flagicio, mais abominavel ainda que os condimentos ferozes da cozinha ingleza, veio cortar atrozmente este silencio triste, que representava no meio de nós a previsão de imminente procella.

O inglez alto, de gesto esguio, e nariz hebraisante, tinha-se assentado ao pé do outro inglez affeiçoado pelo typo saxonico, no topo esquerdo da banqueta corrida á pôpa. Duas ou tres vezes, desde que levámos ferro, elle dirigiu ao companheiro uma rosnadura, a que este respondeu com o estirado monossyllaboYes. Á quarta vez, aquella resposta laconica foi proferida com certa melopéa de resignação, que cortava os fios da alma, e acompanhada de um volver d'olhos azues, em que se pintava uma supplica de piedade. Mas o inglez aguçado carregou o sobr'olho, e, mettendo a mão ao seio, poz-se a procurar o que quer que era na algibeira interior de uma das quatro sobrecasacas que tinha vestidas. Eu observava esta scena; sabia o que póde o spleen, e o receio de algum anglicidio passou-me pela mente, ao contemplar o aspecto torvo de um e o gesto confrangido e timido de outro. O vento sibilava violento, as aguas começavam a tingir-se de negro, e o céu estava completamente toldado; era meio poema britannico. Um tiro de pistola e um cadaver baldeando no mar completariam uma epopéa. Nas feições do inglez esgrouviado parecia-me ler duas palavras—Spleen e Poeta—e por isso os meus temores não eram tão infundados, como, no primeiro momento, talvez os tenha julgado o leitor.

E o mais era que eu acertára farejando em Mr. Graham Senior (eram os dous inglezes irmãos, segundo depois soubemos) um fazedor das regrinhas, que na lingua ingleza correspondem ao que nas linguas do meio-dia é e se chama versos. O honrado Mr. Graham não procurava na algibeira o amago e substancia da idealidade e poesia britannicas, a pistola suicida. Não! Era cousa mais atrozmente assassina; era um quaderno grosso de letra microscopica, em que provavelmente se continham as suas inspirações ineditas! Estava explicada a longa taciturnidade dos dous. O perverso meditava aquelle fratricidio intellectual desde a partida de Saint-Hélier, e os quatro grunhidos abafados que lhe ouviramos tinham sido quatro tentativas para predispor a victima. De feito, quando elle sacou o alentado canhenho, Mr. Graham Junior parecia inteiramente resignado.

Aquelle atenazador das orelhas do proximo começou a sua leitura pela primeira pagina. Era um algoz de consciencia, e já se podia prever que tinha a boa tenção de atormentar-nos emquanto durasse o dia, que felizmente se inclinava a seu termo. Como me foi possivel, percebi aos trinta ou quarenta versos que era um poeta da eschola de Pope, ou como quem o dissesse entre nós, um poeta da Arcadia. Cá teria falado em Jove, Marte e Neptuno, nas musas, nos zagaes, nas nymphas, na tuba de Calliope, ou na sanfona não sei de que deusa: lá, nas inspirações de Mr. Graham, eram as paixões, os vicios, os affectos personalisados quem fazia o serviço dos seus poemas: aqui a esperança, alli o desalento; ora a temperança, logo a desenvoltura. Aquella poesia frigidissima fazia-me lembrar do Olympo, do Pindo e da Castalia dos nossos arcades, e de algum modo me consolava das miserias domesticas, ao vêr que a poesia cadaverica das fórmas e convenções não vivia unicamente entre nós, mas ainda ousava no canal da Mancha misturar as suas semsaborias academicas com o bramido terrivel do vento, e com o ferver estrepitoso das vagas, que entoavam accordes a sublime invocação da procella.

O poeta esguio declamava as suas regrinhas lentamente e com todos os requebros da melopea ingleza, genero de canto semelhante ao gemer rabugento de uma creança na primeira dentição. O pobre diabo, posto que provavelmente acreditasse que nenhum de nós o entendia, pensava por certo que, nova especie de Orpheu, bastavam os sons das suas palavras harmoniosas para nos arrebatarem e extasiarem, a nós selvagens da Europa, como com tanta graça e verdade denominam os escrevinhadores de John Bull os habitantes da Peninsula! Pensava assim, de certo; porque de quando em quando volvia para nós os olhos com aquelle sorriso de complacencia estupida, que é peculiar na cara de um inglez vaidoso e contente de si.

Um dos exemplos mais lamentaveis da cegueira do espirito humano é a persuasão em que os escriptores de Inglaterra estão de que possuem uma lingua litteraria falada; isto é, que os sons quasi inarticulados do seu chilrear e grunhir correspondem sufficientemente aos grupos de caractéres alphabeticos, de que elles se servem para representarem os proprios pensamentos. Todavia a lingua escripta de Inglaterra nada tem que ver com a linguagem em que a nação se exprime: são dous typos diversissimos, que dão fórma sensivel ao pensamento. Abri um livro escripto em qualquer outro idioma da Europa, e fazei ler por elle um estrangeiro completamente ignorante desse idioma: o natural do respectivo paiz, aquelle que o falou desde a infancia entenderá tudo ou quasi tudo, se escutar essa leitura. Fazei a mesma experiencia com um livro inglez: o natural de Inglaterra não entenderá provavelmente uma unica palavra. É que na realidade entre este povo, em tudo singular, os signaes chamados letras não tem um valor constante e determinado, e por isso não podem corresponder rigorosamente a um som.

A Inglaterra ha visto nascer no seu gremio grandes poetas. Shakspeare e Byron bastariam para lhe dar uma celebridade immensa. Mas a sua poesia reside toda no pensamento, na essencia da arte. As fórmas externas são rudes, barbaras, ou fluctuantes. Shakspeare e Byron foram dous selvagens, um porque estava além da civilisação, outro porque estava áquem della; mas foram talvez as duas almas mais sublimemente poeticas da Europa. Porque, pois, não souberam ajunctar a melodia material ás harmonias intimas das suas ideas? Foi porque não podiam converter em palavras humanas o intoleravel grasnido dos seus compatriotas.

Uma cousa que sempre me acontece em ouvindo falar um inglez é notar as mysteriosas analogias que ha constantemente entre a lingua de qualquer povo e os seus habitos de moralidade. Considerae por exemplo a lingua alleman: é um idioma perfeitamente accentuado; os vocabulos escriptos correspondem rigorosamente aos falados: não ha ahi luxo inutil de letras: todas se proferem; todas representam um som ou uma articulação. Os caractéres do alphabeto nunca serviram para enganar o estrangeiro. Não achaes n'isto uma expressão do animo leal, franco e singelo daquelle povo? ADeutsche Treue, afé germanica, não se reflecte como em um espelho da lingua desse paiz? Agora escutae um inglez: dous terços de cada palavra, como a representam os signaes alphabeticos, não se proferem: devora-os o leitor: são uma armadilha para obrigar os labios peregrinos a darem syllabadas: o inglez pronuncia com os dentes cerrados, como se temesse que essas palavras-ouriços lhe fizessem, ao perpassarem, os labios em sangue. Não achaes n'isto um typo de cubiça e avareza? Um pensamento enganoso? O algodão tecido á sorrelfa com a lan? Não descubris lá o pensamento do tractado de Methuen, ou do desembarque de Quiberon? Não se revela no coaxar das rans de Wordsworth e dos poetas dos lameiros oBritish Interest?

Taes eram as reflexões em que eu estava embebido emquanto o poeta mastareu acreditava ter-nos enleiados a todos com as mellifluas toadas do seu poetico lavor. A noite, entretanto, tombando de castello em castello de nuvens, lançava sobre o dorso do mar revolto o seu manto de obscuridade. O sectario de Pope cedeu então ás trévas: fechou o canhenho, e resguardou-o outra vez dos olhos profanos debaixo da meia fabrica de Leeds, que fora absorvida na mole immensa dos seus quatro casacões.

Mr. Graham Junior, apenas seu respeitavel irmão cessou de ler, volveu para elle o rosto melancholico, e murmurou, depois de um suspiro:

"Aye!—Very good!"

Com os tresYesprecedentes fazia a conta de seis palavras, ou grasnos, que despendêra naquelle dia Mr. Graham Junior.

Dous inglezes ridiculos são incontestavelmente as duas cousas mais ridiculas deste mundo.

O temporal que se preparára durante a tarde desfechou em cima de nós com o cerrar da noite. O vento saltára inteiramente ao sul, de modo que nos ficava ponteiro. As vagas accumulavam-se em serras, que, alçando-se e topando em cheio, se enlaçavam e confundiam como dous luctadores furiosos. Depois a mais possante, sumindo debaixo de si o grande vulto da sua contraria, erguia o topo esguio, que vacillava um instante, e cahia desfeita em catadupas de escuma nos valles profundos cavados momentaneamente em volta della. A lucta daquelles vagalhões gigantes, em pé sobre o abysmo das aguas, estreitando-se e despedaçando-se como as hyenas e tigres n'um circo romano, vista assim ao lusco-fusco sob um ceu achatado e cinzento, era uma sublime peleja! Todos os espectaculos da terra—dos homens ou da natureza—que são, ou que valem, comparados com a colera da procella que passa no oceano? Menos que farça semsabor de titeres comparada com o Hamlet ou com o Othelo representados por Betterton ou por Garrick. O mysterio dos mares é de todas as obras da creação aquella em que mais profundamente o Senhor estampou o seu verbo; a inscripção indelevel e indubitavel, que narrará perpetuamente ao genero humano o seu infinito poder.

O chasse-marée havia-se posto á capa. O vento não consentia já que surdissemos avante, e o arraes, depois de uma breve conferencia á prôa com o seu companheiro, veio declarar-nos que seria impossivel seguir o rumo de Saint-Maló; que era necessario pôr a prôa nas costas da Normandia, e dirigirmo-nos a Granville; e finalmente, que só ahi poderiamos tocar em terra na manhan seguinte. Recebemos esta desagradavel nova com mais heroica resignação, se é possivel, que a de Mr. Graham Junior ao levar a sova poetica das inspirações fraternas. E que não nos resignassemos! A immutabilidade do nosso destino proclamavam-n'a os silvos do vento, e, o que mais era, a declaração do arraes. Um capitão de qualquer baixel é o absolutismo incarnado: as suas decisões equivalem á fatalidade moslemica. Em muitos sermões politicos, que é a espécie mais impertinente do genero litterario—sermão—tenho lido comparações fulminantes contra os tyrannos, buscadas no despotismo asiatico. Se eu cahisse na miseria de fazer eloquencia politica, não ía tão longe busca-las. Saltava no primeiro hiate, chasse-marée, ou sloop, e travando do arraes dizia ao mundo:ecce homo; eis-aqui a flôr, a maravilha, o ideal de todos os despotismos possiveis. Os que andam incommodando Attila, Kulikan, ou Timur, para afferir por elles os tyrannetes quasi-ridiculos da Europa moderna, são dissertadores d'agua-doce, que (para me servir de uma phrase do auctor de Micer Harold) nunca pozeram a mão sobre a juba crespa do oceano. Tyrannia e arraes são synonimos: digam o que quizerem os extirpadores implacaveis das synonimias.

Maitre Jean Legris era um verdadeiro arraes normando: duro, carrancudo, e inexoravel como os piratas do seculo duodecimo seus antepassados, de que tão pavorosas memorias restam nas costas de Portugal e de Galliza. Ouvimo-lo com magoa, mas com respeito, porque não havia replicar. O chasse-marée obedecia ao leme, o leme ao marinheiro, o marinheiro ao capitão, e o capitão, pactuando com o vento, resolvêra empalmar-nos Saint-Maló e a Bretanha, para nos dar em troco Granville e a Normandia. Por isso, antes de nos communicar as suas intenções, mestre João tinha dado a pôpa á tempestade e tomado o rumo de leste. Contava d'antemão com a obediencia, que não lhe podiamos refusar.

Emfim anoitecera: a unica luz que viamos nas campinas do ceu e das aguas era aquella especie de branquejar phantastico e transitorio da escuma, que é para o luar o que um retrato de morte-côr para um vulto original—menos que frouxissima claridade, e mais que o crepusculo esbranquiçado e indeciso de um corpo alvo e que mal se divisa no meio das trevas.

O chasse-marée, galgando por cima das ondas, no meio do refluxo dellas, devia parecer, visto de longe, um baixel mysterioso e infernal, perseguido por espectros que surgiam successivamente dos abysmos, e que em roda delle dançavam danças maldictas, involtos em seus alvos sudarios.

Bem importavam a Mr. Graham, o fratricida psychologico, aquellas solemnes tristezas de uma noite procellosa! Tirou um frasquinho de aguardente que trazia a tiracollo, bebeu um largo trago, e alevantou-se, dirigindo-se á escotilha da especie de camara que nos ficava de baixo do tombadilho. Era um pinheiro! Quando o vi em pé receei que o sul o partisse; mas nem sequer rangeu. Se me não mente um calculo rapido, Mr. Graham era, ao menos physicamente, um poeta da força de oitenta cavallos, medida britannica: era um poeta de alta pressão: era um poetawarranted, para me exprimir como os laconicos letreiros de todas as peças de fazendas inglezas falsificadas. Mr. Graham Junior seguiu Mr. Graham Senior,non passibus aequis, como mais curto que era. Ouvimos lá embaixo ainda dous ou tres regougos; depois tudo cahiu de novo em silencio.

O velho, que se me encostára sobre os joelhos, apenas viu os seus compatriotas buscarem acolheita para a noite, ergueu-se, e cambaleando chegou á ingreme escada que conduzia á estreita camara. Poz um pé no primeiro degrau, poz o outro no segundo, tornou a pôr aquelle no ar, e disse com o corpo no fundo—pan!

Era o som d'umcaskde cerveja cahindo de vinte pés d'altura. Ouviu-se-lhe um grito rouco e mais dous grunhidos dos seus respeitaveis patricios. Tinha arrebentado o saxonio, ou espalmado o poeta? Talvez ambas as cousas. Corremos a acudir-lhes levados pelo primeiro impulso de humanidade. Os primeiros impulsos, nestes casos, não prestam nem para Deus, nem para o diabo, porque são estupidamente involuntarios. Seja isto dicto, com paz do leitor, como desculpa da nossa caridade, e como descargo de consciencia nacional.

Para clareza desta importante narração é de saber, que apenas viraramos de rumo, o marinheiro substituíra o grumete no governo do leme, como ministro responsavel de mestre João, e o grumete fôra assentar-se á proa no logar que deixára o seu successor, exactamente como um ministro demittido, que vae tomar assento nos bancos da opposição. D'alli olhava para o tombadilho, fazendo a segunda, com um assobiar monotono, ao bramido do vento.

Chegámos dous ou tres á escotilha onde soára o baque do velho.Iamos a descer, a risco de nos despenharmos tambem, quando acabeça de Mr. Graham Senior começou a surgir como uma visão deManfredo:

What dost thou see?—

I see a dusk and awful figure rise.

Á luz da bitacula, que enviava um raio frouxo ao rosto do grumete, o poeta acenou-lhe que se approximasse, sem se dignar sequer de olhar para nós humildes creaturas, que haviamos parado em roda de sua grandeza.

O rapaz chegou-se a Mr. Graham.

"Brandy![1]"—rosnou este, com o aspecto temerosamente carrancudo e imperativo de um Nelson dando a ordem de accommetter na batalha de Trafalgar. Dizendo e fazendo, mostrava o seu frasco de aguardente virado de boca para baixo. O rapaz poz-se de novo a assobiar.

Nós então ousámos perguntar a sua extensão se por ventura succedêra algum fracasso aos seus compatricios. Elle lançou-nos um olhar obliquo, e em voz mais alta bradou ao grumete:

"Rhum!"

"Não ha:—respondeu o rapaz entre dous assobios.

"Bring rhum, boy!—insistiu o cantor da temperança, já colerico, e fazendo-se desentendido.

"Chien d'anglais, não percebes?…"—exclamou o grumete na sua lingua nativa, com um gesto de impaciencia; e accrescentou voltando-se para nós:

"Que diz este diabo?"

"Que lhe ponhas para alli cachaça:"—ia eu a dizer, paraphraseando em francez os trez monosyllabos britannicos, quando fui interrompido por um mugido, subito, incisivo, retumbante, que sobrelevou o rugir da tempestade. Soltara-o Mr. Graham, que, cerrando os punhos, com todos os ademanes de um professor de sôcco, crescia já para o pobre grumete, o qual avaliára erradamente a linguistica do poeta. Elle percebêra ás mil maravilhas as duas personalidades decãoediabo, que ousára dirigir-lhe o imberbe e enfarruscado normando.

Felizmente para este, uma onda galgando exactamente nesse momento a pôpa, veio lavar o tombadilho, e em forte balanço, fazendo perder o equilibrio ao filho da Gran-Bretanha, o estendeu ao comprido na agua que passava em demanda da prôa, com grave perigo do precioso manuscripto do casacão. Estirado sobre a tilhá do chasse-marée, e colleando e bufando para se alevantar, Mr. Graham representava soffrivelmente o papel de um congro tirado naquelle instante do mar. Quando elle, emfim, pôde concluir o plagiato que fizera ao tombo do seu velho compatriota, o grumete tinha-se já retirado ao anterior posto, sobre os escovens, e continuava o seu acompanhamento de assobio ao estrepitar do vento.

Mr. Graham meditou um momento. Parece que o abalo da quéda e a frescura da agua lhe modificaram poderosamente o orgão dacombatividade; porque, sem dizer palavra, desceu outra vez para a limitada camara da fragil embarcação.

Este incidente, que passára com grande rapidez, podia ter dado motivo a uma séria desavença entre o arraes e o poeta, porque mestre João mostrava-se demasiado cioso da propria auctoridade, para não consentir que um dos seus subditos fosse punido por haver recusado uma cousa que talvez não houvesse realmente a bordo, e por ter dicto duas verdades duras a um conterraneo dos nevoeiros e dos beef-steaks. Mas porque não se exprimiu Mr. Graham de modo que o grumete o entendesse? Como imaginou elle que o pobre rapaz podesse perceber os seus tres monosyllabicos grunhidos? É que o orgulho e o patriotismo britannico andam aninhados em tudo. O que nos outros paizes se olha como um primor d'educação, em Inglaterra é uma indecencia. Um inglez parece envergonhar-se de saber algum idioma estranho, e muito mais o francez, que nos paizes continentaes não é permittido ignorar a qualquer individuo medianamente instruido.

A lingua franceza, pela sua simplicidade, regular sintaxe, determinada prosodia, e mais circumstancias que a tornam facil para os estrangeiros, tem obtido uma certa universalidade, que a vae convertendo, por assim dizer, em lingua geral, principalmente na Europa. Este predominio da lingua franceza deve ter talvez n'um remoto futuro graves consequencias politicas. É por essa razão, que aos inglezes doe excessivamente tal predominio. Primeira nação do mundo como potencia material; representando nos tempos modernos uma imagem da antiga Roma, a Inglaterra soffre de mau-grado o ser intellectualmente inferior á Allemanha e á França. A influencia moral que pelos seus livros esta ultima exercita na Europa, nomeadamente nos paizes occidentaes, tende a augmentar ahi a sua influencia social, na razão directa do progresso de civilisação desses paizes. A França actua pelas idéas, em quanto a Inglaterra o faz pelas esquadras: mas a acção das idéas cria a semelhança de crenças, de costumes e de affectos, em quanto o temor das esquadras, o apparato do poder, as insolencias do forte contra o fraco só geram odios fundos, que se vão legando de paes a filhos: que se vão accumulando no thesouro commum das gerações que vem surgindo. Estes odios são um incendio que lavra, e que póde abrasar a Inglaterra n'um desses dias aziagos, que amanhecem para as nações como para as familias. Uma crise basta para perder o Reino-Unido, e esta crise é facil n'um corpo moral cuja physiologia é monstruosa e antinomica. A Gran-Bretanha deve saber que os ecchos do continente repetem de contínuo a grande voz do povo, que, em mais de um paiz, murmura aquelle terrivel verso do poeta italiano:

Siam'servi, si:—ma servi ognor frementi!

Ninguem como os inglezes tem o instincto da vida politica. N'uns este instincto é ajudado pelo raciocinio, n'outros pelo orgulho nacional. A Inglaterra desejára tirar á França as influencias intellectuaes: para isso fôra necessario generalisar a propria lingua. Ahi é que bate o impossivel. Entretanto o inglez vae falando inglez na terra e nos mares, quer o entendam, quer não, e só em casos desesperados recorre a algum idioma estranho, não sem o torcer, estafar e mutilar, com toda a barbaridade de um verdadeiro Kimhri. É uma teima perpetua entre a Europa e a Gran-Bretanha:

"O mundo a porfiar que os bretões grunhem;E os bretões a teimar que o mundo mente"

Aquelle caso de Mr. Graham fôra mais um capitulo desta polemica eterna.

Nós os portuguezes pensámos então em buscar uma guarida para passarmos a noite, porque algumas pingas grossas de chuva nos annunciavam um aguaceiro imminente. Dirigimo-nos a mestre João, que nos declarou categoricamente ser impossivel dar-nos entrada na tóca miseravel, a que elle tivera a ousadia de pôr o nome de camara; e isto pela razão composta de que os tres inglezes a occupavam inteiramente, e não podiam ser d'alli expulsos, tendo pago trinta shellings por cabeça, em quanto nós pagáramos só vinte. O argumento era de uma solidez irreprehensivel. Pedimos-lhe todavia humildemente nos declarasse em que sitio nos poderiamos resguardar da agua do mar e do ceu; porque se houvessemos pretendido passar a nado de Jersey para França, escusáramos ter-lhe pago a mal-aventurada capitação d'uma libra esterlina, que nos fazia descer na escada social dez shellings, ou dez furos, abaixo dos tres inglezes.

Os selvagens têem mais que os homens civilisados a eloquencia do gesto, e o bom do normando, forçoso é confessa-lo, dava todos os indicios de verdadeiro botecudo. Tomando a postura sublime de umseekoenig, o rei do mar dos antigos sagas da Islandia, e com um—là!—que podia fazer ainda mui decente papel ao lado do—qu'il mourut—de Corneille, o arraes, especie de Buonaparte juncto ás Pyramides, nos apontava para a escotilha d'avante, a escotilha da boca do porão, e parecia dizer-nos no seu gesto mudo:—"Ahi quarenta dores rheumaticas vos esperam!"—Melhor era isso, comtudo, que amanhecer inteiriçados sobre a tolda; e assim, dando-nos por avisados, arremettemos com o abysmo.

Escada não a havia; e as trevas interiores não eram menos densas que as trevas exteriores, de que resa a Biblia, onde ha o chôro e o ranger de dentes. A altura, porém, não devia ser grande. Como os cavalleiros do Palmeirim d'lnglaterra, cada um de nós se encommendou á dama dos seus pensamentos, e do modo que pôde desceu áquella especie debolgiadantesca.

O chasse-marée, destinado a transportar gado de França para as ilhas do Canal, ía em lastro, e o lastro era d'areia. Se não fossem os terriveis balanços da embarcação, a pocilga em que nos achavamos poderia passar ao tacto, unico sentido de utilidade naquella situação, por uma praia deserta. Depois de apalparmos por largo tempo em volta de nós, achámos por fim uma véla e alguns cabos, lançados para uma extremidade do areal fluctuante. Ao menos tinhamos um leito, se não mais macio, ao menos mais enxuto que esse com que já contavamos. Uma pouca d'areia humida por pavimento, algumas braças de lona por leito, e por agasalho e cobertura a tolda d'um miseravel barco eram, com as trevas que nos rodeavam nesse momento, toda a nossa consolação e abrigo.

Se esta recordação escripta, humilde e obscura, como seu auctor, passar ante os olhos do major C***[2] elle ha-de por certo lembrar-se de que essa noite foi uma das bem dolorosas e tristes da sua larga vida de soffrimento e abnegação; da sua vida de honesto e valente soldado. Padecimentos antigos haviam crescido com os trabalhos e estreitezas do desterro, e posto que o seu animo de ferro lhe não consentisse o soltar um só queixume, o incendio lavrava lá dentro, e a dôr, que não podia subjugar-lhe o espirito, ás vezes se lhe revelava no gesto confrangido. O seu estado gerava em nós, que sinceramente o amavamos, serios receios. Mas como o padecer se não traduzia em gemidos, no meio da escuridão, e entretidos com a scena ridicula do poeta da temperança e da aguardente, haviamo-nos persuadido de que esse padecimento diminuira consideravelmente.

Deitados em cima da véla convertida em colchão, os meus companheiros breve adormeceram. Quando a consciencia está tranquilla a mocidade encontra facilmente o repouso ainda no mais duro leito. Só eu velei; porque lhes levava uma vantagem, talvez antes desvantagem, uma imaginação mais ardente. O major C*** tambem parecia dormir.


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