The Project Gutenberg eBook ofLuar de JaneiroThis ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.Title: Luar de JaneiroAuthor: Augusto GilRelease date: March 10, 2006 [eBook #17962]Most recently updated: April 18, 2006Language: PortugueseCredits: Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK LUAR DE JANEIRO ***
This ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.
Title: Luar de JaneiroAuthor: Augusto GilRelease date: March 10, 2006 [eBook #17962]Most recently updated: April 18, 2006Language: PortugueseCredits: Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
Title: Luar de Janeiro
Author: Augusto Gil
Author: Augusto Gil
Release date: March 10, 2006 [eBook #17962]Most recently updated: April 18, 2006
Language: Portuguese
Credits: Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
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Augusto Gil
Luar de Janeiro
[Figura: Olhos Olhae a Direito]
Luar de Janeiro
*Luar de Janeiro*
1909
Edição da empreza d'A Lanterna—Escriptorios, rua das Gaveas, 45, 2.^o
Typ. do Commercio, rua da Oliveira, ao Carmo, 10, Lisboa
Áquelles que virem, neste volume de liricas, uma reviravolta effectuada sobre a génese d'O Canto da Cigarraobjectarei, com antecipada promessa de facil prova, que os dois livros teem uma tão intima ligação como a existente entre os pontos extremos da curva d'amplitude dum pêndulo.
Aos que me censurem pela circumstancia de não ter logrado, na minha subalterna categoria de poeta menor, firmar-me numa posição d'equilibrio estavel, pergunto, em tom humilde, quem é que neste confuso seculo de latente misticismo humanitario, de demolidora negação e d'anciedade conjunctamente afflictiva e sceptica, terá a coragem de dizer que o encontrou—já não quero como artista, porque a esse as influencias ambientes lhe communicam entre-cruzadas e descoordenadas vibrações—mas na propria e mais serena esphera do pensamento. Se algum de vós me retorquir com oeurekado antigo geometra, ou é um sectario, ou um caturra,—ou um simples.
Sabio, como o de Syracusa, é que não é…
Adeante.
Novembro de (1)909.
O auctor
De la musique encore et toujours
* * * * *
Que ton vers soit la bonne aventureÉparse au vent crispé du matinQui va fleurant la menthe et le thym,Et tout le reste est litterature.
Verlaine
Et c'est pourquoi ce livre-ci (qu'il était peut-être bon d'écrire) nous savons, toi et moi, a quels mysterieux balbutiements le réduirait le tête-à-tête—et tout ce que je n'ai pas dit, qu'il ne fallait pas dire. Et tu sais combien de pages menteuses devront, pour des motifs de faiblesse personnelle ou de nécessité invencible, accompagner la bonne page, celle que ce livre encore annonce et ordone—tu sais, tu comprends et tu pardonnes…
Charles Morice.
A Coelho de Carvalho
Tout court, porque não ha adjectivos que não empallideçam ante aclaridade dos seus talentos.
Luar de janeiro,Fria claridade
Á luz delle foi talvezQue primeiroA bocca dum portuguêsDisse a palavra saudade…
Luar de platina,Luar que allumiaMas que não aquece,PhotographiaD'alegre meninaQue ha muitos annos já… envelhecesse.
Luar de janeiro,O gelo tornadoLuminosidade…Rosa sem cheiro,Amor passadoDe que ficasse apenas a amizade…
Luar das nevadas,Algido e lindo,Janellas fechadas,Fechadas as portasE elle fulgindo,Limpido e lindo,Como boquinhas de creanças mortas,Na morte geladas—E ainda sorrindo…
Luar de janeiro,Luzente candeiaDe quem não tem nada,—Nem o calor dum brazeiro,Nem pão duro para a ceia,Nem uma pobre morada…
Luar dos poetas e dos miseraveis,Como se um laço estreito nos unisse,São similhaveisO nosso mau destino e o que tens…
De nós, da nossa dôr, a turba—ri-se—E a ti, sagrado ladram-te os cães!
[Figura: A linda imagem pertence ao arruinado Mosteiro do Calvario, d'Evora, e constitue a unica mas encantadora manifestação d'arte desse pobrissimo convento. Foi doado ás monjas que o occupavam, por D. Izabel Juliana de Souza Coutinho, forçada noiva de José de Carvalho, filho do Marquez de Pombal. D. Izabel esteve enclausurada no Mosteiro do Calvario, por ordem do duro ministro, até se resolver a acceitar a mão do filho. Depois da morte do rei D. José, foi o matrimonio annullado, vindo D. Izabel a formar o tronco da casa Palmella pelo casamento com D. Alexandre de Souza. (Notas extrahidas dum artigo do erudito antiquario eborense Sr. José Barata. InSerões, Junho de (1)907)
O menino Jesus será obra de Machado de Castro?]
A João Barreira
«Em Evora vi um menino……Que a dois annos não chegava…Era de maravilhar»…
Garcia de Rezende.Miscellanea.
Num convento solitarioD'Evora, cidade clara,Claro celleiro de pão,Existe uma imagem raraObra dum imaginarioDos tempos que já lá vão…
É um menino Jesus,De bochechinha brunidaCôr de maçã camoeza,Mas no seu rosto transluzUma expressão doloridaQue enche a gente de tristeza…
De tantissimas imagensNenhuma vi que mais prenda,Que maior ternura expanda,Com suas calças de renda,Seu vestido de ramagens,—E corôa posta á banda…
Gordo, nedio, bem trajado,Deveria ser feliz,Deveria estar sorrindo;Mas o seu olhar maguado,Tão maguado, tão lindo,Que não o é, bem n'o diz…
Se não fosse por ser DeusE o seu poder infinitoTer sempre que o demonstrar,Cá na terra e lá nos ceus,Estenderia o beicito—E desatava a chorar!…
Corre o tempo descuidado,Passa uma hora, outra hora,Atraz desta outras se vãoE, quem o vê, encantado,Sem se poder ir emboraNuma perpetua attração…
Eu entrei com sol a pino.Pouco depois da chegada(Pouco a mim me pareceu)Deixei de ver o Menino…Não era a vista cançada,—Foi a noite que desceu…
Mesmo assim lá ficariaAbsorto em muda preceDe quem mal sabe rezar,Se o sacristão não viesse,Com rodas de Senhoria,Dizer-me que ia fechar…
Pudesse tel-o trazidoE não fosse eu rico, apenasDe phantasias, d'esp'ranças,Punha-o num nicho floridoPor sobre as camas pequenasDum hospital de creanças…
Dum hospital modelarSustentado por meus bens,Entre olaias e roseiras,Cheio de sol, cheio d'ar,E em que as boas enfermeiras—Seriam as proprias mães…
A mais ampla enfermariaDesse escolhido localDe bondade e soffrimento—Era o fundo naturalDa funda melancoliaDo Menino do convento…
Il pleure dans mon coeurComme il pleut sur la ville.
Verlaine
A Vicente Arnoso
Batem leve, levementeComo quem chama por mim…Será chuva? Será gente?Gente não é certamenteE a chuva não bate assim…
É talvez a ventania;Mas ha pouco, ha poucochinho,Nem uma agulha boliaNa quieta melancoliaDos pinheiros do caminho…
Quem bate assim levementeCom tão estranha levezaQue mal se ouve, mal se sente?…Não é chuva, nem é gente,Nem é vento com certeza.
Fui ver. A neve cahiaDo azul cinzento do ceuBranca e leve, branca e fria…—Ha quanto tempo a não via!E que saudades, Deus meu!
Olho-a atravez da vidraça.Poz tudo da côr do linho.Passa gente e quando passaOs passos imprime e traçaNa brancura do caminho…
Fico olhando esses signaesDa pobre gente que avançaE noto, por entre os mais,Os traços miniaturaisDuns pézitos de creança…
E descalcinhos, doridos…A neve deixa inda vel-osPrimeiro bem definidos,—Depois em sulcos compridos,Porque não podia erguel-os!…
Que quem já é peccadorSoffra tormentos, emfim!Mas as creanças, Senhor,Porque lhes daes tanta dôr?!…Porque padecem assim?!…
E uma infinita tristezaUma funda turbaçãoEntra em mim, fica em mim prêsa.Cae neve na natureza…—E cae no meu coração.
A Bertha Cayolla Gil Vianna, minha sobrinha
Oh Desgraça! vae-te embora,Que esta linda criancinhaAndou no meu ventre e agoraTrago-a nos braços. É minha!…
Do berço, segue-me os passos;Onde eu vou, seus olhos vão…E quando a aperto nos braços—Abraço o meu coração.
Quando o seu chôro receio,Embalo-a, faço que acceiteA alegria do meu seioNa brancura do meu leite…
E quando assim não descança,Que tristezas me consomem!—Mas antes chore em creançaQue depois, quando fôr homem…
Se ao dal-o ao mundo soffriTormentos, ancias mortaes,Desgraça, vae-te d'aqui,O que pretendes tu mais?!
Bate as azas, mas ao voares,Não me apagues esta estrella.Se alguem d'aqui precisares,—Aqui me tens, em vez della!
Tocam ás ave-marias.Foi-se o sol. Não vem a lua.Luzinha que me allumias,Que sorte será a tua?…
Riquezas tenhas tão grandes,E tal bondade tambem,Que ao redor d'onde tu andesNão fique pobre ninguem.
Que a todos chegue a ventura:Toda a bocca tenha pão,Toda a nudez cobertura,Toda a dôr, consolação…
Mas se o oiro é mau caminho,—Antes tu venhas a serO pobre mais pobrezinhoDe quantos pobres houver.
Iremos por esses montesAltos e azues, como os céus…Que onde ha fructos e onde ha fontes,—Está a meza de Deus!
E, quando a neve cahirE as seivas adormecerem,Iremos então pedir…(Acceitar o que nos derem!)
Andaremos á mercêDos genios bons, e dos falsos,Leguas e leguas a pé,Rotinhos, magros, descalços…
E onde houver urzes e tojos,Pedras que rasgam a pelle,Porei o corpo de rôjos—Passarás por cima delle!
Dorme, dorme, meu menino,Foi-se o sol. Nasceu a lua.Qual será o teu destino?Que sorte será a tua?…
Se um crime tens de fazer,Antes fique vago um throno,Antes um palacio a arder,—Do que uma enxada sem dono…
Se, porém, no teu destino,Ha tão cruentos signaes,Dorme, dorme, meu menino,—Não tornes a acordar mais!
A Antonio Arroyo
«Sonhar a vida é apenas entretel-a.Partamos della para nós, senãoLá vae o coração para uma estrellaE fica a gente sem o coração!»
GUEDES TEIXEIRA.Esperança Nossa
Quem vir—como eu os vejo—decorrerAnnos e annos duma vida rasaEm miseraveis quartos d'aluguer,
Frios no inverno e no estío em braza,—A um amôr sonhado de mulherAllía sempre o sonho duma casa…
O aspecto duma casa raro mente,A côr, as linhas duma frontariaDão logo a perceber nitidamente,
Melhor do que um vizinho o contaria,O genio e a indole da genteQue nella tem o lar, a moradia.
Vejam essescottagestanto em modaEntre os inglezes e os capitalistas,Com grades no jardim, a toda a roda…
Impenetraveis ás alheias vistas…Não abrem nunca uma janella toda…São mudos, graves, individualistas.
E aquelles caixotões de pedra e calQue surgem ao formar-se um bairro novo,No constante engordar da Capital,
(O que eu, aliás, muito aprecio e louvo…)—Não mostram bem, com o seu ar banal,A falta de caracter deste povo?
Quando uma santa e pobre rapariga,Em cujo olhar se abranda o meu soffrerE a cujo coração o meu se liga,
Puder chegar a ser minha mulher,Eu quero então que a nossa casa digaBondade e alegria de viver.
Terá um só andar. Grandes alturasCausam vertigens, trazem ambições.Os sonhos de riqueza e d'aventuras
Enchem as almas de desillusões.A f'licidade vem ás creaturasDa pacificação dos corações.
As portas sem degraus. Que sejam rentesDa terra. Portas largas e rasgadas,Convidativas, francas, attrahentes;
Ao rez da terra, para as aleijadas e os tropegos velhinhos indigentes Se não cançarem a subir escadas…
Amplas janellas para a natureza.Que o sol na sua clara irradiaçãoDissipe atravez dellas a tristeza;
Amplas—e baixas. Quem precise pão,E o vir da rua sobre a nossa meza,Que estenda o braço, que lhe lance a mão…
Ao lado um horto e um jardim fragrante,Sem grades aguçadas para o céu.A grade é agressiva, hostilisante,
E sempre a impressão cruel me deuDum dono que bradasse ao caminhante:—Tudo isto aqui é meu, sómente meu…
Sem gradeamento. Um murosito apenasRevestido de rosas de toucar,De ariolas, de glicinias, de verbenas.
Muro d'onde os que forem a passarVejam lilazes, cravos, assucenas…—E a paz, a doce paz do nosso lar.
Ao Conego Manuel do Nascimento Simão
Escrevo em testamento este poemaQue elle tenha, na angustia com que o ligo,O brilho rutilante duma gemmaAchada nos farrapos dum mendigo…
Ao vesperal crepusculo da vidaE sob o olhar da morte é que o componho;Erguendo assim, por minha despedida,O ultimo escalão dum alto sonho.
Nesse degrau que d'entre os soes dispersosHade attingir a cúpula dos céus,Direi ao mundo os derradeiros versos,Porei o coração nas mãos de Deus!
E as mãos de Deus que os astros têm guiadoComo se leve pluma cada um fôra,Hão de o sentir pesar, sollicitadoPelo logar da terra onde ella móra…
…Sei lá pintar!Se eu soubesse pintar, era pintor.
Guedes Teixeira
Na mais alta cidade portuguêsaNasceu, para abrandar meu fundo mal,A mais santa, a mais cheia de purezaDas moças deste lindo Portugal.
Os seus olhos são tristes e suggeremTodo um passado de resignação.São tristes, certamente por não veremO rosto incomparavel onde estão…
A voz é clara como as assucenasE dolorida, candida, modesta.É dolorida, porque sente penasD'abandonar a sua bocca honesta…
O riso, que é em nótulas delidasVibra em seus labios tão rapidamenteComo um beijo d'amor, ás escondidas,Na curva duma estrada em que vem gente…
A mão della, uma vez, poisou na minha;Pareceu-me ao sentir-lhe a commoção,Que era o seu proprio coração que eu tinhaA palpitar dentro da minha mão…
Se passa, ás tardes, e de traz cahindo,O sol abraza os longes da paizagem,A sombra que em sua frente vae seguindoÉ a luz—a abrir-se, p'ra lhe dar passagem…
Se passa, acalma os corações maguadosComo outr'ora as parabolas de ChristoAcalmavam a dôr aos desgraçados.Acalma os corações?! Não… não é isto.
As estrophes d'amor, a quem o sinta,Dão um trabalho cheio de tormento;O tenebroso liquido da tintaApaga, rouba a côr ao sentimento.
Quiz celebrar dum modo originalAs finas graças do seu corpo. Errei-as.Oh Fórma! És como um fato d'hospital.Palavras! Sois a nevoa das ideias…
(De Albert Samain)
Num andamentoDiscreto, lento,Mal se ouve o pêndulo lavrado e antigo.
Vamos vogandoNo lago brandoE sem limites do silencio amigo…
O ultimo e cavoAccorde do cravoFicou vibrando exclamativamente.
E, em espiralAscencional,Cingiu-nos num abraço enlanguescente.
Na alcatifa maciaEntrou na agoniaUma rosa sedenta e abandonada,
E a ambos nos invadeA mistica vontadeD'entrar na morte, no não ser, no nada…
Com seu docel vermelhoForrado d'oiro velho,Que evoca velhas eras d'esplendor,
O leito pesado,Como um deus concentrado,Remembra obscuramente o nosso amor…
Na atmosphera mornaO teu corpo entornaUm perfume subtil, sensual, complexo,
Aroma inapagavel,Philtro informulavelGerado á chama clara do teu sexo.
Teus olhos silentesE transparentesTeem, no fundo, verdes melancolicos,
E as brazas do fogão,Já quasi extinctas, dãoClarões hypnotisantes e symbolicos…
Amêmo-nos assimCom um amor sem fim,Verdadeiro na carne e nas ideias;
P'los dedos enlaçadosSejamos penetradosD'amor, até ás mais miudinhas veias.
Em extasis intensosQuedemo-nos suspensosPor sobre a terra ironica e brutal
Sem nada saber,Sem nada ver,—Numa vida isolada e musical…
Não fales. Não?Ou se o fizer's, entãoQue seja de vagar, muito baixinho,
Numa toada, leveComo o halito breveDuns labios d'anjo numa pel' d'arminho…
A Columbano
La fleur des traditions nationales est flétrie. Mais libre a tous de puiser, dans l'herbier cosmopolite des legendes, les admirables pretextes à fiction qu'il recèle.
(Litterature à Tout á L'Heure.)
Sahira Santo Antonio do convento,A dar o seu passeio costumadoE a decorar, num tom rezado e lento,Um candido sermão sobre o peccado.
Andando, andando sempre, repetiaO divino sermão piedoso e brando,E nem notou que a tarde esmorecia,Que vinha a noite placida baixando…
E andando, andando, viu-se num outeiro,Com arvores e casas espalhadas,Que ficava distante do mosteiroUma legua das fartas, das puxadas.
Surprehendido por se vêr tão longe,E fraco por haver andado tanto,Sentou-se a descançar o bom do monge,Com a resignação de quem é santo…
O luar, um luar clarissimo nasceu.Num raio dessa linda claridadeO Menino Jesus baixou do céu,Poz-se a brincar com o capuz do frade.
Perto, uma bica d'agua murmuranteJuntava o seu murmurio ao dos pinhaes.Os rouxinoes ouviam-se distante.O luar, mais alto, illuminava mais.
De braço dado, para a fonte, vinhaUm par de noivos todo satisfeito.Ella trazia ao hombro a cantarinha,Elle trazia… o coração no peito.
Sem suspeitarem de que alguem os visse,Trocaram beijos ao luar tranquillo.O menino, porém, ouviu e disse:—Oh Frei Antonio, o que foi aquillo?…
O santo, erguendo a manga de burelPara tapar o noivo e a namorada,Mentiu numa voz doce como o mel:—Não sei que fosse. Eu cá não ouvi nada…
Uma risada limpida, sonora,Vibrou com timbres d'oiro no caminho.—Ouviste, Frei Antonio? Ouviste agora?—Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho…
—Tu não estás com a cabeça boa…Um passarinho a cantar assim!…E o pobre Santo Antonio de LisboaCalou-se embaraçado, mas por fim,
Córado como as véstes dos cardeaes,Achou esta sahida redemptora:—Se o Menino Jesus pregunta mais,…Queixo-me á sua mãe, Nossa Senhora!
Voltando-lhe a carinha contra a luzE contra aquelle amôr sem casamento,Pegou-lhe ao collo e acrescentou: Jesus,São horas…—E abalaram p'r'ó convento.
A Lourenço Cayolla
Entraste com ar cançadoNuma egreja fria e triste.Ajoelhei-me ao teu lado—E nem ao menos me viste…
Ficaste a rezar alli,Naquella immensa tristeza.Rezei tambem, mas a ti,—Que aos anjos tambem se reza…
Ficaste a rezar atéManhã dentro, manhã alta.Como é que tens tanta fé—E a caridade te falta?…
A Santos Tavares
Por acaso, parou na minha frente,Deloupe dóminó de seda negra,Uma mulher d'olhar resplandecenteE mento breve de figura grega.
Tomei-lhe as mãos esguias entre as minhas…
E os seus olhos doirados reluziramComo os punhaes ao sol, quando se tiram,Aguçados e frios, das bainhas.
—Máscara, quem és tu?
—E tu quem és?…
—Um homem que te viu e te deseja…
E um riso vago, de desdem talvez,Floriu na sua bocca de cereja.
Ergui-lhe as mãos asceticas. Beijei-as.
Em vibrações entrecortadas, sêccas,Tiniam taças irisadas, cheias.E uma phrase d'amôr, toda em colcheias,Vibrava nas arcadas das rebecas.
Levei-a para o vão duma janella.—Máscara, quem és tu?
—Para que insistes?…
Outro riso subiu da bocca dellaAos olhos enigmaticos e tristes.
E descobriu a face. No capuzEmoldurou-se um rosto lindo e sério.
Que differente porém do que eu supuz!
A gente nunca deve entrar com luzNos divinos recantos do misterio…
A Amadeu de Freitas
«Muito vence quem se venceMuito diz quem não diz tudo,Porque a um discreto pertenceA tempo fazer-se mudo.»
(Copla do Infante D. Luiz.)
Sob este céu creadorDe manhã vergiliana,Apetece ser pastorE tocar frauta de cana;
Não, pastor d'autos d'amor,D'eclogas frias e velhas,Mas verdadeiro pastorDe verdadeiras ovelhas…
Não conhecer o talentoNem nada do que se ensina.Esta dôr do entendimentoÉ peor do que se imagina…
Guiar o meu coraçãoNum ingenuo christianismo.Esta civilisaçãoÉ cheia de pessimismo…
Comer pão negro, pão duro,Beber o leite das peáras.Pão de centeio é escuro,—Mas põe as almas ás claras…
Amar alguma pastoraCom palavras e com obras.Estas senhoras d'agoraSão mais falsas do que as cóbras…
E vêr crear com carinho,Com cuidados infinitos,Á companheira, um filhinho…E ás ovelhas, borreguitos…
A Celestino Steffanina
Vaidade de vaidades, disse o Ecclesiastes: vaidade de vaidades, e tudo vaidade.
(Capit. I, v. 1).
Semeador de iniquidades,Porque é que mandas sobre os teus eguaes?!O mando o que é?Vaidade de vaidades,Fumo que ao desfazer-se engrossa mais…
Oh minha vista o que é que foi que visteCá neste mundo impiedoso e rudo?
Que só a vaidade existe—Em todos nós, e em tudo!…
A Israel Anahory
Todas as coisas são difficeis; o homem não as póde explicar com palavras. Os olhos não se fartam de vêr nem o ouvido se enche de escutar.
(Capit. I, v. 8).
Palavras são palavras… Nada dizem.Teias d'aranha que jámais impedemQue as ideias se escapem e deslizem…
Nescios os homens são quando procedemComo quem a verdade sempre trajaE nunca della se encontrou despido…
Difficil é… o que mais simples haja—Quanto mais o que fôr mais escondido!…
Para que uma verdade vá julgar,Para que um sentimento vá sentir,Olhos: não vos canceis nunca d'olharE vós, ouvidos, não deixeis d'ouvir.
Mas por fimNem assim…
O mais profundo pensamentoÉ sempre insubsistente e aerio,Por que a todo o momento—Se perde no misterio…
A José Barbosa
Que é o que foi? É o mesmo que hade ser. Que é o que se fez? É omesmo que o que se hade fazer.
Que é o que foi?—O mesmo que hade ser…
A vida é como o passo egual dum boiQue vem dos campos ao anoitecer;Com o seu lento e resignado aspeito,Andou um passo, e logo um outro dá.
Tudo quanto foi feitoDe novo se fará…
A Ladislau Patricio
Os olhos do sabio estão na sua cabeça: o insensato anda em trevas: e aprendi que era uma e mesma a morte dum e doutro.
(Capit. II, v. 14)
O sabio tem os olhos da razãoAlém desses que tu na fronte levas,Oh nescio que sem guia e sem bordãoVaes pela vida a caminhar nas trevas…
(E d'ahi? E depois?Se surge um incidente,Fere indistinctamenteOu ambos elles, ou qualquer dos dois…)
A Adelaide Gil, minha irmã
Todas as coisas caminham a um logar: de terra foram feitas e em terra se hão de tornar do mesmo modo.
(Capit. III, v. 3).
Mas o que é, afinal, a perfeição?Como é que tudo, oh sabios, evolueSe as coisas todas caminhando vãoPara um egual e unico logar,Se o pó que as constitueEm pó se hade tornar?
A Eduardo Graça
Todas as coisas teem seu tempo e todas ellas passam debaixo do céu segundo o termo que a cada uma foi prescripto.
(Capit. III, v. 2).
Socega, coração attribulado,De toda a dôr se apaga todo o traço.Pois quanto ao mundo vem, traz já marcadoO seu tempo e tambem o seu espaço…
E queira Deus, coração,Que esta hora de anciedadeE de pranto e d'afflicção—Nunca te cause saudade!…
A Vianna da Motta
Quem por amôr se perdeuNão chore, não tenha pena.Uma das santas do céu—É Maria Magdalena…
Minha mãe foi o que eu sou.Eu sou o que tantas são.Que triste herança te dou,Filha do meu coração!
Meu pae foi para o degredoEra eu inda pequena.Se não morresse tão cedo,Morria agora—de pena…
E ha no mundo quem afronteUma mulher quando cae!Nasce agua limpa na fonte,Quem a suja é quem lá vae…
Aquelle que me roubouA virtude de donzellaSe outra honra lhe não dou,—É porque só tive aquella!…
Nós temos o mesmo fado,Oh fonte d'agua cantante,Quem te quer, pára um boccado.Quem não quer, pássa adeante…
O meu amôr, por amal-o,Poz-me o peito numa chaga:Deu-me facadas. Deixal-o.Mas ao menos não me paga!
Nem toda a agua do marPor estes olhos choradaDaria bem a mostrarO que eu sou de desgraçada!
Como querem vêr contenteEste paiz desgraçado,Se dão só livros á genteNas escolas do peccado…
Dormia o meu coraçãoCançado de fingimento.Bateste-me, e vae entãoAcordou nesse momento.
Se aquillo que a gente sente,Cá dentro, tivesse vóz,Muita gente… toda a genteTeria pena de nós!
«Um mover d'olhos brando e piedosoSem vêr de quê; um riso brando e honestoQuasi forçado; um doce e humilde gestoDe qualquer alegria duvidoso
* * * * *
Um encolhido ousar; uma brandura,Um medo sem ter culpa; um ar sereno,Um longo e obediente soffrimento.
* * * * *
Camões
Num quente e perturbante fim de tarde,Cujo magnetico e profundo enlevoAinda agora em mim crepita e arde,Como se fosse a tarde em que te escrevo,
Ergui os olhos distrahidamente,A ver se já brilhava alguma estrellaNo concavo do céu opalescente—E vi, numa varanda, os olhos della…
Do episodio que acabo de contar-teTão simples, tão banal, que dá vontade,Para lhe pôr um boccadinho d'arte,De lhe roubar um pouco de verdade,
Foi que este amor espiritual nasceu,Nasceu, cresceu e se tornou eterno…Repara, amigo, como olhando o céuA gente, ás vezes, póde achar o inferno.
Mas quem podia então adivinhal-o?O olhar dessa mulher era tão lindoQue deslumbrado me fiquei a olhal-o.Descera a noite. A lua ia subindo…
Era lua cheia e, para mais, d'agosto;Dava em toda a varanda. Assim, eu viaAs fórmas portuguêsas do seu rostoNitidamente, como á luz do dia.
E cá dentro de mim senti nascerA dúvida, a incerteza, a hesitaçãoSobre o que mais desejaria ser:Se o noivo della, se o primeiro irmão…
Uma estrella cadente reluziuPor sobre as torres da vizinha egreja,Pensei commigo: Deus o decidiu:É minha noiva que Elle quer que seja.
Não dizia ventura, mas desgraça,A claridade do signal aereo.(Na mesma direcção da egreja, passaA rua que vae dar ao cemiterio…)
Porém, como querendo agradecer-meA decisão que attribuira a Deus,Inclinou-se de leve para ver-meE os doces olhos demorou nos meus.
Sob a caricia desse olhar cinzento,Que ao abaixar-se parecia negro,O coração que me batia lento,Mudou o andamento para alegro.
Uma hora decorreu. Outras passaram.Passaram, foram-se; e naquelle enleioQue tempo os nossos olhos conversaram!…Estava a noite já em mais de meio.
Vinha dos montes uma brisa ardente.O céu ganhára tons d'azul cobalto.O luar cahia silenciosamente.Na sombra, os rouxinoes cantavam alto.
Arrependidos, ou então, cançadosDe se fitarem com demora em mim,Os seus olhos piedosos e sagradosAo dialogo d'amor puzeram fim.
Desviára-os; e entre as palpebras discretas,Poisára-os nas mãos claras e pequenas,Como se foram duas borboletasVoando para duas assucenas.
Ergueu-se. O busto delicado e finoTinha os suaves, religiosos traçosDa Virgem num altar. Só o MeninoFaltava na doçura dos seus braços…
Num olhar impregnado de candura,Disse-me adeus e recolheu. Depois…A luminosa noite fez-se escura.Calaram-se na sombra os rouxinoes.
Entrei em casa e quiz dormir. RaiáraA madrugada sem que o conseguisse.Quem um sonho tão limpido sonhára,Inutil se tornava que dormisse…
Annos felizes neste amor gastei.Vieram em seguida as horas más.O que nellas soffri, o que passei,Um dia, noutra carta, o saberás.
Dez da manhã. Vento da serra. Tres graus negativos
Mãos frias, coração quente!Quanta vez isto diziasCom o teu ar sorridente,Apertando-me as mãos frias…
Agora decerto o tenhoNum brazeiro, num vulcão.O frio é tanto, é tamanhoQue a penna cae-me da mão…
Q'ria dizer-te o que pensoE o que faço e premedito,Mas posso lá ser extensoCom este frio maldito!
Tu perdoas certamente,Tu não te zangas, pois não?Mãos frias, coração quente—Lá diz o velho rifão…
A João da Silva
«Anda a dôr dissimuladaMas ella dará seu fruito.»
Crisfal
«Vae ser pedida. Casa qualquer dia.»
(Trecho duma carta)
Tive noticias hoje a teu respeito:«Vae ser pedida. Casa qualquer dia».E o coração tranquillo no meu peito—Continuou a bater como batia…
Surpreso duma tal serenidade,Todo eu, intimamente, me sondava:Pois nem ciume? Nem sequer saudade?!—E nem ciumes, nem saudade achava…
Saudades, não; que o teu amor antigoGuardam-no as cinzas (neste coração)Como em Pompeia aquelles grãos de trigoQue após centenas d'annos deram pão…
Saudades! Mas de quê?! Pois não sei euA lei antiga como o proprio mundoDe que o prazer mal chega, já morreu,E só a dôr nas almas cava fundo?
Causei-te longas horas d'amargura,Não consegues voltar a ser feliz;A chaga que te abri não terá cura,E se curar—lá fica a cicatriz.
Á luz dum juramento que trahisteTu has de vêr-me toda a vida pois.Ergueste-o a Deus num dia amargo e tristeE Deus casou-nos esse dia, aos dois…
Ciumes tambem não, por te venderes.Desgraçadinha! Antes te houvesses dado;Não descerias tanto entre as mulheres,Seria mais humano o teu peccado.
Porém, embora a tua falta aponte,P'ra mim és a que foste (ou que eu suppuz);O sol desapparece no horisonte—E a gente vê-o ainda a dar-nos luz…
Póde a desgraça erguer em frente a mimAltas montanhas d'elevados cumes.O sol do amôr doiral-as-ha, e assim,Vendo-o tão alto, não terei ciumes.
Ciumes!Elleé que hade tel-os, quando,Em claras noites de luar silente,Ouvir vibrar alguma voz, cantandoOs versos que te fiz devotamente.
Versos para te ungirem os ouvidosE os labios d'anemica e de santa,Tão pobres, tão ingenuos, tão sentidos,Que o povo humilde os acolheu e os canta.
Então, se te olhar bem, logo adivinha…Logo sombriamente se convenceDe que a tua alma se fundiu na minha—E apenas o teu corpo lhe pertence.
Á Leo
Ao charco mais escuso e mais immundoChega uma hora no correr do diaEm que um raio de sol, claro e jocundo,O visita, o alegra, o alumía;
Pois eu, nesta desgraça em que me afundo,Nesta contínua e intérmina agonia,Nem tenho uma hora só dessa alegriaQue chega ás coisas infimas do mundo!…
Deus meu, acaso a roda do destinoA movimentam vossas mãos leaesNum aceno impulsivo e repentino,
Sem que na cega turbulencia a domem?!Senhor! Não é um seixo o que esmagaes;Olhae que é—o coração dum homem!…
A Mayer Garção
Descance de quando em quando…Passar assim toda a tardeSempre bordando, bordando,Sem que um momento desista,Até faz pena! Não lhe ardeNem se lhe perturba a vista?…
Descance de quando em quando…Erga os olhos do bordadoE veja quem vae passando.O trabalho alegra a gente,Mas assim, tão aturado,—Não lhe faz bem certamente.
Erga a carinha tranquilla,Erga esse rosto tão lindoE veja os moços da villaA passarem por aqui,Uns descendo, outros subindo,—E todos d'olhos em si…
Descance de quando em quandoE veja se escolhe algum;Já é tempo d'ir pensandoEm casar. Não é assim?…Se não lhe agrada nenhum,—Diga se gosta de mim.
Desde os começos do outonoQue eu a trago no sentido,Não como, não tenho sono,Tudo me dá ralação?Quer-me para seu marido?—Diga que sim ou que não…
A Cassianno Neves
Bocca talhada em milagrosas linhas,A luz augmenta com o seu falar.
Esta manhã um bando de andorinhasIa-se embora, atravessava o mar.
Chegou-lhes ás alturas, pela aragem,Um adeus suave que ella lhes dissera,
—E suspenderam todas a viagem,Julgando que voltára a primavera…
Acreditaram os romanticos que a arte residia principalmente na disformidade. Se atravez das proprias dores descessem ás profundas realidades da vida, teriam observado que… o viver do povo encerra em si uma poesia sagrada. Sentil-a e mostral-a não é tarefa de machinista; para tal, não é necessario juntar-lhe effeitos theatraes.
… O que é preciso é ter olhos para vêr na sombra, na pequenez e na humildade, é um coração que auxilie a vista nestes recessos do lar, nestas sombras de Rembrandt.
MICHELET.O Povo
A Manuel Penteado
Buscava em algum assunto adredeA versos que inculcassem novidade,Quando uma intensa e irreprimivel sêdeMe fez voltar do sonho á realidade.
E pedi agua (já se vê) que veioConsoante é d'uzo cá por entre o povoNum pucaro de barro ingenuo e feio,Servindo-lhe de salva um prato côvo.
Bebi o liquido dum trago só;E dito o «Deus te pague» habitual,Subi de novo a escada de JacobNo heroico intuito de escalar o ideal…
Mas o idealismo é como a nevoa ondeanteQue os rios erguem pela madrugada;O olhar destingue-a, quando está distante,E da que nos rodeia—não vê nada…
De que serve afinal tentar a genteReter, dentro das mãos, fumo de palha,Se aqui, aos nossos olhos, no existente,Ha tanta coisa que os attráia e valha?…
A agua vinda neste vaso fragilQue um ignorado artista modelouNum gesto—já mechanisado e agil—Á força d'imitar o que encontrou,
É um assunto cheio de belleza,Cheio de claro e alto ensinamento.Assim na branda fala portuguêsaO désse eu, como o tenho em pensamento!…
A agua é como a esp'rançaQue a tudo se sujeita…Onde quer que se deitaLá fica humildemente acommodada,Seja a concha da mão duma creança,Ou a taça lendaria da ballada…
Tanto saciaNum vaso tyrrêno dos da antiga Roma(Que um só valiaO rútilo oiro d'avaro banqueiro)Como a que se tomaNa argilla porosa,Alegre trabalho dum simples oleiro…
E éAtéBem mais saborosaNo barro suarentoDeixado á janella,Que num opulentoCopo lavradoQue seja pertença de rica baixellaE sonho gentil, cinzel phantasistaDalgum grande artistaDos raros d'agora, ou do tempo afastado…
Bichos humanos, féras em pé,Sêde bondosos como a agua o é…
No luzente alcantil da magnitude,Ou no áspero declive da pobreza,Nunca cerreis o espirito á virtude,Nunca fecheis os olhos á belleza.Que todo o coração,Desde o sabio de genio ao cavador,Seja o Calix de paz e de perdãoContendo a agua limpida e lustralDum irmanado e perpetuo amôr…
Agua que limpe a mácula do malE mitigue a miseria, a ancia, a maguaDesta cruenta e impiedosa guerraEm que tantas creaturas se consomem.
Nem só da aguaQue vem da terraTem sêde o homem…
Nasce uma fonteRumurejanteNa encosta dum monte;
E mal que do seioDa terra brotou,Logo o seu veioTransparenteE diligenteBuscou e achouMais baixo logar…
E sempre descendo,E sempre a cantar,Vae andando,Galgando,Vencendo,(Ou tenta vencer…)Folha, raíz, areia, o que tolherA sua descida…
Ao brotar da dura frágoa—É uma lagrima d'agua…
Mas esse humilde fiozinho,Que um destino bom impelle,Encontra pelo caminhoUm outro que é como elle…
Reunem-se, fundem-se os dois,Proseguem de companhia,E fica dupla depoisA força que os leva e guia…
Junta-se aos dois um terceiro,Outros confluindo vão,E o regato é já ribeiroE o ribeiro é rio então…
E nada agora o dominaAo fiozinho da fonte.Entre collina e collina,Ou entre um monte e outro monte,
Caminha sem descançar,Circula atravez do mundo—Até á beira do marOmnipotente e profundo…
Da altura em que estejaes (ou vos pareça;A vaidade é uma amante enganadora)Que o mais alto de vós se humilhe e desçaComo se humilde e pobre sempre fôra…
E que os demais desçam tambem de todoO orgulho e mando sobre escravas gentesAté ao valle, de lagrimas e lôdoOnde a miseria brada e range os dentes.
E como as aguas que se vão juntandoE juntas, e cantando, vão descendo,Reuni o choro derramado, quandoAtravessardes esse valle horrendo.
E o atoleiro que se havia feitoNo val, dantesco, pútrido, sombrio,Mudar-se-ha no irrigante leitoDum fertilisador e claro rio;
E o rio, andando, andando, hade alargar—Com biliões de lagrimas vertidas—Num infinito e luminoso marDe novas e amplas e cantantes vidas!
Outubro de 1909.
PrefacioDedicatoriaLuar de JaneiroSextilhas a um menino Jesus d'EvoraBallada da NeveToada para as mães acalentarem os filhosO nosso larO que o fogo poupou dum poemeto queimadoMelodia confidencialO passeio de Santo AntonioUm grão de incensoA máscaraIn promptum pastoralMeditações sobre themas do EcclesiastesA canção das perdidasCarta a um rapaz sentimentalMãos frias coração quenteNoivaDe profundis clamavi ad te domineJoanninhaQuando as andorinhas partiamA parábola do pucaro d'agua
Acabado de imprimir aos trinta e um de dezembro de 1909 em Lisboa, naTypographia do Commercio, Rua da Oliveira, 10, ao Carmo.