O adeusXII

O adeusXII

A despedida indifferente de Lupe premia-me o coração. Agitava-me imperiosa necessidade de a ver ainda, de lhe dizer algumas palavras amistosas no momento de nos separarmos seguramente para sempre.

OColimasó levantaria ferro á tardinha. Todos os passageiros desembarcaram.

Ninguem que viaje resiste ao prazer de pisar terra firme, beber agua fresca e variar de comida, após demorada travessia maritima.

Assás mofino Acapulcho! Ruas irregulares, desprovidas de calçamento, atulhadas de areia quente que tolhe e molesta os pés; raros transeuntes, caboclos na maioria; escassos recursos; predios somnolentos; atmosphera carregada de mórnas exhalações humidas; logarejo, em summa, antipathico e retrogrado, onde a gente sente-se indisposta e anciosa de se ir embora com maxima presteza.

Eu gyrava a esmo, em busca da moradia de Lupe. Ignorando o nome do tio, não me era facil descobril-a.

—Ah! já sei,—respondeu-me afinal um taverneiro. É a casa onde chegaram hoje duas fidalgas dosEstados Unidos. Espere que lhe vou mostrar o caminho.

Levou-me a acanhada rua de bairro remoto. Em face de uma vivenda baixa, caiada de amarello, agrupavam-se garotos, olhando curiosos para o interior. Occorria dentro alguma novidade.

—É alli,—ensinou o guia, apontando.

Agradeci e acerquei-me da porta designada.

Lupe e a mãi,—eis a novidade que desafiava o interesse dos ociosos. A moça falava, na sala que abria para a rua, a varias mulheres, entre as quaes algumas, como as pretas minas da Bahia, o collo e os braços nús, vestidas de simples camisas de renda decotadas e saias de babados, com muita roda.

Quando deu commigo, fez um movimento de quem se quer esconder.Á minha entrada, esgueiraram-se as outras para um commodo contiguo, d’onde se puzeram a me espiar.

—Vim dizer-lhe adeus, Lupe. Partiria cheio de remorsos se o praticasse sem a saudar.

—Mil graças. Agradeço-lhe tambem, ainda uma vez, as delicadezas que me dispensou noColima. As nossas conversações, dom brazileiro, foram os unicos momentos agradaveis da minha vida nos ultimos tempos.

E calou-se, baixando os olhos. Quão mudada em poucas horas! Esvahira-se-lhe, por encanto, a buliçosa expressão habitual. Intenso desconforto desbordava-se do seu todo.

Circumvaguei a vista pelo aposento; moveis estragados e insufficientes, aceio problematico, signaes manifestos de descuido ou penuria.

Enxergava-se o pateo central descoberto, peculiar ás habitações hespanholas. Alguem tocava a bomba do poço existente no meio d’este pateo; e esse alguem, a que eu lobrigava as costas, afigurou-se-me o guarda fiscal, tio de Lupe.

—Quaes seus projectos aqui?... indaguei, após alguns minutos de silencio.

—Viver, como Deus fôr servido. Não tenciono ser pesada a meu tio, que generoso nos acolhe. Sei coser; toco piano; entendo de modas; trabalharei. E ha outra solução, accrescentou com indizivel melancholia.

—Qual?

—Estou desacclimada... O vomito negro, febre amarella do Brazil, grassa em Acapulco endemicamente, não poupando os recem-chegados...

—Por quem é, Lupe, não alimente pensamentos funebres. Julgava-a mais valente. Deixe-se de semelhantes romantismos. Está moça, robusta, bella. Quem sabe o esplendoroso futuro que ainda lhe reserva a Providencia? Casará certamente com algum rapagão de bom gosto que a comprehenda e aprecie. Rever-se-ha na linda próle. Será feliz...

—Não!—interrompeu ella energicamente. Eu só desposaria aquelle a quem o meu coração pertencesse... E o meu coração... o meu coração... não pertencerá a ninguem.

N’isto, o tocador de bomba, terminada a tarefa, encaminhou-se para a nossa sala. Era, effectivamente, o dono da casa.

Tirara a fardeta e arregaçara as mangas da camisa, em cujos folhos abatidos nodoas côr de vinho transpareciam. Mas reatara á cintaa espada, que se arrastava tlintando medonha no assoalho.

Mal me viu, arremessou-se-me aos braços, n’um terno arrebatamento intempestivo.

Chamou-me effusivamente—illustre amigo—e convidou-me acto continuo a tomarpulque(a bebida popular mexicana, feita de uma planta denominadapulqueroe embriagadora, como o alcool), á saude da irman e da sobrinha. A vinda das duas, asseverava, voz em grita, cumulava-o de regosijo.

E berrou para trazerem o licôr offerecido:

—Ó Pancha... Ó Dolores... Ó alguem... Ó inferno!...

Como não acudissem, commentou furibundo:

—Caramba! Com oitocentos mil milhões de demonios!... Cambada de surdos!... Canalha!...

Lá se foi elle proprio, praguejando, buscar opulque. A durindana batia ás tontas nas cadeiras e portas.

Provei o liquido espesso que me apresentou n’um copo de barro. Desagradaveis o cheiro e o sabor, lembrando os de queijo velho. Quanto a elle, empinou consecutivamente duas vezes o vaso transbordante, estalando a lingua. E queria á força que Lupe o acompanhasse. Confirmavam-se-me desconfianças:—o homem embebedava-se.

Conheci que a minha assistencia áquella scena affligia sobremaneira a moça, que permanecia immovel, de pé.

—Adeus,senorita. É tempo de tornar para bordo.

A mexicana estendeu-me ambas as mãos, apertando as minhas com ardor.

—Adeus, dom brazileiro. Chegando ao Brazil, escreva-me. Mande-me o seu endereço, bem como vistas e livros de seu paiz. Promette?

—Prometto.

—Adeus,—repetio (e os seus dedos tremiam, entrelaçados nos meus), adeus. Se não nos encontrarmos mais n’esta vida, o que é provavel, até á outra, segundo a predicção de Miss Jackson...


Back to IndexNext