Nota(4.ª)Em quasi todas as circunstancias da vida, foi Alcoforado, digno de eterna memoria: Na guerra fazia maravilhas extremadas; na paz, o juizo deMr. Arago, dá bem a conhecer o caracter do nosso heroe.[27]Eis como elle o pinta.—Parabens, meu amigo; chegamos a Diely.[28]Dir-te-hei o modo porque fomos hospedados. Ás protestações de amisade cheias de franqueza, a maneiras honestas e frequente agrado, é difficil ajuntar mais polidez, nem mais desvelo para obsequiar-nos. Desde o primeiro dia a generosidade do Governador, mandou á nossa meza, com profusão, os manjares mais delicados. Queria mostrar, dizia elle, o prazer que sentia em brindar os patricios dos maiores sabios do mundo.Jantares sumptuosos, presididos pelas açafroadas bondades do paiz, cobertas de joias; festas encantadoras, onde reinava a galantaria, mais franca e mais activa, faziam desapparecer as horas, que voam nas azas do prazer.O Governador achou ainda outro modo de augmentar as provas da sua generosa affeição: fez acceitar, a quasi todos, presentes; e fingia não lhes dar valor para nos livrar de escrupulos. Chamava-se José Pinto Alcoforado de Azevedo e Souza: mancebo amavel, jovial, e de conhecimentos. O motivo de sua especie de degredo paraTimor, pelo que nos deu a entender, procedeu de causas politicas.[29]Ocupou-se com desvelo em felicitar o paiz que lhe foi confiado: a sua administração é doce. Os Rajaz não são aviltados pelo despotismo como succede em Coupang. Pelo contratrio são tratados com amor.—Já, em outras éras, menores virtudes de outro Souza foram assim cantadas.Le généreux Souza, qui sut domter l'amourDans ces climats ardens oú son feu nous dévore,Et q'aprés Scipion la vertunommeencore.Nota(5.ª)No dia 3 de Junho de 1810, cantou o honrado e benemerito cidadão José Baptista de Miranda e Lima as virtudes do nosso Arriaga pelo modo seguinte:Á sombra de frondifera oliveira,Por ti, ha tanto tempo, desejada,(Graças ao creador Omnipotente.)Te vejo, cara patria[1]reclinada.No pelago espaçoso, que te cerca,Ja não vês tremular hostis pendões[2].Não ouves rebombar os horisontes[3]Com horrorosos tiros de canhões[4].De salitroso pó[5]que antes serviaPara ao longe mandar lethaes pelourosSe ferreos tubos hoje tu carregas[6],É só por festejar c'os seus estouros.Centenares de Taós[7]prenhes de tygres,Que ao pé de ti rasgavam cruelmente[8]Meninas e donzelas delicadasA teu Pai sujeitou[9]o Eterno Ente.Teu benefico Pai, o Arriaga[10]Estes tygres de Hyrcania domouE a frondente oliveira, que te cobre,Cortando mil obstaculos, plantou.Jámais pois riscarão da fantasia[11]O nome deste Heroe da lusa gente:E agora, que celebras seu triumfo,De verde palma vai cingir-lhe a frente.Da victoria este emblema para ornares,Lindas flores procura designantesD'aquelles predicados appreciaveis,Neste filho de Lisia mui brilhantes.O louro girasol, que sempre segueO planeta, que os outros illumina[12]Designa a bem notoria lealdadeDo nosso Heroe á prole Bragantina.Os rubros amaranthos, que resistemAo vento, á calma, ao gelo, symbolisamA intrepida constancia nas empresas[13],Que o nome de Arriaga immortalizam.A candida açucena, que dispendeLiberalmente o corceo, de que gosaÉ symbolo do seu singello peito[14],Emblema da sua alma generosa.O Lirio, que nascendo d'alta vara,Sendo rei da florida monarquiaPara baixo a sublime frente inclina,Sua clemencia designa, e cortezia[15].Das mais virtudes symbolos procuraN'outros lindos matizes dos jardins;Não te esqueças das rosas rubicundas,Dos junquilhos, dos cravos, dos Jasmins.De ti receba agora esta corôaBem que inferior ao seu merecimento;Em quanto outra melhor se lhe preparaNo reino superior ao firmamento.Notas de Antonio Francisco de Miranda e Sousa, Deão da Sé de Macáo.1.ª A patria é a cidade de Macáo.2.ª As bandeiras vermelhas e pretas das duas columnas inimigas.3.ª ?4.ª Mil e oitocentas bombardas de diversos calibres entregou Cam-pau-sai, e mais de mil Apau-tai, chefes dos piratas.5.ª Polvora, cuja fabrica Miguel de Arriaga estabeleceu em Macáo em 1809, pelo Boticario J. J. dos Santos.6.ª Quando appareceu o retrato de El-Rei, na sala onde se celebrava o triunfo, e onde se achava a nobreza, o clero, e nos seus contornos, a melhor parte do povo da cidade.7.ª Embarcações de guerra. Cam-pau-sai entregou 3800 homens, Apautai 2000.8.ª Só no canal de Hiangsan mataram mais de 15000 pessoas.9.ª Entrega de Cam-pau-sai á benevolencia de Miguel de Arriaga, seu medianeiro para com o imperador da China.10.ª Miguel de Arriaga Brum da Silveira, ouvidor de Macáo.11.ª O nome de Miguel de Arriaga será lembrado não só na ilha de Macáo mas tambem no imperio da China, pois o Suntó o mandou gravar em seus annaes para haver delle eterna memoria.12.ª Grande e indefectivel zelo com que Arriaga trabalhou para dirigir o Senado e o Governador, contra os inglezes, a fim destes não arrebatarem esta cidade á nação portugueza.13.ª Contra a inveja, a intriga, e odio de alguns que mofaram da empreza. A constancia de Arriaga foi quem nos deu a victoria.14.ª A candura, e inteiresa com que tratou a Cam-pau-sai, e ao Suntó. Só o nosso Arriaga foi capaz de conciliar amizade entre aquelles desavindos.15.ª Despresando difficuldades tratou sempre em Macáo os máos, com a mesma clemencia que usava para com os bons, e tudo isso nascia da sua nobreza de coração e das altas e perfeitasvirtudes que possuia.Em recompensa de tão relevantes serviços o conservou El-Rei D. João VI, na ouvidoria de Macáo, sem limete de tempo, e d'ahi nasceram seus imfortunios, e sua morte prematura.Nota(6.ª)Entre os nossos heroes não haviam grandes patentes: a mais subida era a do chefe, José Pinto Alcoforado de Azevedo e Sousa: Capitão de artilheria. Em verdade para obrar grandes cousas não são precisos gráos elevados. No tempo dos Andrades, Sousas, Pachecos e outros, que obraram prodigios custosos de crer, por extraordinarios, tambem foram praticados por homens, que sabiam honrar-se com o gráo do seu nome!Para não ser extenso fallei só dos macaenses, que fizeram acções extremadas. Se mencionasse todos os que nos cinco annos da guerra contra os piratas, obraram cousas uteis,fariamui grosso o volume; porque muitos foram elles, e todos merecem elogio.Nota(7.ª)Quando os governos não excitam os homens á gloria, os concidadãos tem em pouco a estimaçãopublica. A maior parte dos homens são como o negociante avaro: se armam não é com esperança de immortalisar seu nome. Unicamente sensiveis ao ganho temem, que o navio se afaste do caminho já sulcado; por este sabem elles não haverem novas terras para descobrir. Com tudo recommendam ao piloto, que se por algum temporal for levado a ilha desconhecida, e obrigado a surgir, não a explore nem reconheça oshabitantes:tome agoae largue as velas ao seu destino sem lhe importar descobertas[30]. Já não ha Zarcos nem Gamas! Sobre os mares deste mundo, unicamente invejosos de honras, empregos, e riquezas poucos homens embarcam a fim de explorar a naturesa[31]. Todavia o governo de Macáo provou o muito que tinha excitado os seus concidadãos á gloria. Estes para merecela, não receberam pensões, arriscaram a vida e prestaram a fazenda.Graçasaos macaenses; pela gloria que adqueriram, e pelo desinteresse que mostraram, chegaram a par dos Castros e Albuquerques.SEGUNDA PARTE.INVASÃO DAS TROPAS INGLEZASEM MACÁOE SUA RETIRADA.PROLOGO DA SEGUNDA PARTE.A Virtude é o nexo da sociedade: e consiste em nos abstermos de fazer mal; não privar pessoa alguma das vantagens que desfructa; dar a cada um o que é devido; e promover a felicidade dos outros em geral. O homem só merece o nome de virtuoso se contribue para a utilidade e segurança da sociedade.A primeira das virtudes sociaes é a humanidade; esta pode considerar-se o centro comum de todas as outras. Ella dá aos entes da especie humana direitos sobre o nosso coração. Sim ella tem por base a sensibilidade, e esse sentimento dispõe-nos a fazer aos outros todo o bem de que as nossas faculdades são capazes. Seus effeitos são o amor, a beneficencia, a liberalidade, a indulgencia, e a piedade.Quando a humanidade reside na sociedade em que vivemos, constitue o amor da patria; isto é, produz a necessaria affeição nacional.A força deve só respeitar-se como virtude; quando defende a sociedade em que vivemos, quando se acha acompanhada de grandeza d'alma, valor, e moderação. A actividade tambem deve entrar na ordem das virtudes sociaes;as que tempor objecto o bem da sociedade devem ser efficazes e não inertes como outras quimericas e falsas, introduzidas pela impostura, ou fanatismo. A sociedade só agradece acções proveitosas: só essas merecem a sua estimação ereconhecimento.A justiça é o vinculo da união social; sustenta a balança em equilibrio entre os membros da sociedade; remedeia os males que resultam da differença que a natureza poz entre os homens; e faz servir essa mesma desigualdade ao bem geral. A justiça pelas leis da equiedade e sábia distribuição do premio e do castigo excita a virtude, reprime o vicio, e chama á ordem os que são tentados a obrar contra os entes da sua especie.Taes são as disposições que a sociedade deve exigir dos seus membros; tudo nos mostra a sua utilidade; são necessarias e invariaveis; pois tem por fundamento a naturezae as precisões constantes da especie humana. Faltando a justiça não ha ventura na sociedade; sem ella o estado social torna-se mais desagradavel do que o estado selvagem. É melhor viver só do que rodeado de homens injustos.A temprança é igualmente necessaria: a prudencia nasce da razão ou da experiencia das cousas. A razão eleva o homem ás causas, ensina-lhe a estudar a sua influencia, e a prevêr os effeitos. Sim, a razão compara os objectos, e despoja-os de apparencias falsas; e aproveita-se do preterito, e do futuro para não saír da meta conveniente na occasião opportuna.Do governo humano, activo, justo e prudente, resulta o bem estar da sociedade; o seu maior cuidado é fazer gosar os cidadãos, em paz e socego, o fructo dos seus trabalhos; conservalos exemptos dos vicios internos, e das invasões externas. O Senado de Macáo firme nestes principios, e sabendo quanto os sobrecargas inglezes ambicionavam aquelle nosso estabelecimento, poz-se em guarda contra os que pertendiam esbulha-lo dasua pósse, ou perturbar o socego publico.Aportando alli o Almirante Drury, com ordem de Lord Minto (Governador de Bengalla) para introduzir tropas inglezas em Macáo, ainda que elles diziam ser aquelle procedimento a nosso favor; com tudo o Senado desconfiou do empenho com que pertendiam verificar a offerta.Assim firme em sua resolução, sustentou entre os Chinezes e os britanicos a seguinte correspondencia.SEGUNDA PARTEAssim que o Almirante Drury aportou em Macáo, remeteu uma intimação de Lord Minto, a Bernardo Aleixo (Governador de Macáo)[32]e mandou Robert, (primeiro sobrecarga da companhia) em deputação ao Governador. Robert fallou neste espirito.[33]—Sou mandado pelo Almirante Drury participar-vos, que o seu intento é empregar as forças do seu commando na defeza de Macáo, contra os francezes! A explicação desta medida feita a V. Exc. por Lord Minto dispensa-me de repetir os motivos porque o Governo Britanico assim procede.O Almirante está disposto a conferir com vosco antes do desembarque das tropas: com tudo é preciso que o Senado esteja tambem disposto a cooperar com os inglezes para a segurança desta cidade e do commercio; se oplano proposto não tiver effeito por motivo do Senado, o Almirante, a seu pesar; terá conducta opposta.Setembro 11É para notar o ameaço que faz o sobre carga na primeira entre vista!É grato ao meu coração, tornou Bernardo Aleixo, ver o empenho que tomais em defender aspossessõeslusitanas: com tudo pela intima alliança dos nossos monarcas, pelas ordens que tenho do Sr. D. João VI, e pelos tratados feitos com os Chinezes, não devo consentir no desembarque das vossas tropas, sem ordem superior.Septembro12Não posso duvidar, replicou Drury, da vossa franquesa nem da convicção em que estais da intimidade dos nossos monarcas: sou sensivel á situação em que vos achaes: comtudo previno-vos, que pela grande distancia do logar donde podeis receber ordem superior, não a tereis tão cêdo, como é de meu dever cumprir o que me foi determinado por Lord Minto. Para a conclusão deste negocio desejo ter uma conferencia com vosco.Septembro 13Não só na primeira participação, mas tambem na primeira replica teve o Senadomotivo bastante para desconfiar das intenções britannicas; por tanto officiou ao Almirante pelo modo seguinte:[34]Suppondo-vos certo da razão que me assiste para não alterar as ordens que tenho; devo lisongiarme da vossa persuasão tanto da lealdade no desempenho dos meus deveres, como da certeza em que estou da intima alliança dos nossos monarcas: assim espero que modifiqueis as instruções de Lord Minto, em quanto não chegam ordens do Brazil, ou de Goa. Eu tambem demorarei a participação das vossas intenções ao Governo Chinez: intenções de dificil compreensão a povos altivos e desconfiados.Estimarei a vossa visita, farei tudo para satisfazer-vos, menos consentir no desembarque das vossas tropas. Terei a satisfação de aprender com vosco o modo de tirar a estes povos o receio, que lhe ficou em 1802, e agora renovado pela vossa pretenção.[35]O Imperio da China é o protector desta cidade ha 270 annos; nada mais é preciso para suadefeza. Sendo a coacção origem de disturbios e conhecendo vós a nossa razão, espero que se houver máo resultado na vossa empreza, não o imputareis ao governo de Macáo.Setembro 14Não havendo resposta do Almirante até o dia 16 o Senado intimou um protesto aos sobrecargas, e disse mais: Será infalivel a complicação dos negocios britanicos, se o vosso Almirante tentar contra os ajustes feitos em 1802 pelo Senado com o Governo Chinez, para não admittir auxilio extrangeiro.Sabendo agora pelo Governador de Bengalla, que tendes grande parte nesta empreza, é do meu dever segnificar-vos, que no caso não esperado, de continuarem as mesmas instancias para a admissão dasvossas tropasnesta cidade, farei pôr em execução o que no protesto junto declaro. É repugnante o vosso procedimento contra povos fieis e amigos da Caza de Bragança desde a sua restauração. Exijo que o protesto junto com a copia desta carta seja remettido ao Almirante.Não produzindo estes escriptos o effeito desejado, o Senado enviou a participação seguinte ao mandarim de Hiang-san.A dez de Setembro surgiram em frente desta cidade, uma náo, uma fragata, e um brigue da nação ingleza, sendo chefe desta força o Almirante Drury. Trouxe uma carta de Lord Minto, que diz mandar, da parte do seu rei, antigo alliado do nosso, soldados para defenderem esta cidade de alguma invasão franceza. O Almirante assegura não exceder os limites de defesa; porém como o seu desembarque nesta cidade, quebra os tractados deste governo com a celestial dynastia, somos obrigados a fazer-vos este aviso a fim de o levares ao Suntó, em virtude dos mesmos tractados.O Governo de Macáo, animado do ardente desejo de manter as relações politicas e commerciaes, que tem ligado esta cidade com os Chinezes, e varias nações da Europa; e tendo o mesmo empenho em continuar a merecer na opinião das nações, propria e extrangeiras, a consideração de leal e honrado, titulo nunca recusado a este Senado: julgou preciso offerecer ao publico a succinta e franca exposição dos factos acontecidos desde a chegada do Almirante Drury a este porto até hoje, no protesto seguinte.A dez de Setembro de 1808, chegou ao porto desta cidade a frota commandada pelo almirante Drury. A 11 recebi uma carta de Lord Minto, onde refere os desastres de Portugal; e o favor recebido, pelo nosso Rei, de George IV, para conservar as possessões da India e China; e que sendo esta de muita importancia para os inglezes, devia ser guarnecida com as suas tropas. Para esse fim mandava um destacamento a esta cidade, e pedia pelo vinculo de antiga amizade, a sua admissão e necessario arranjo.No mesmo acto disse, que pelos motivos da amizade expendida não deviam obrar de modo, que destruissem a independencia, que deviam querer segurar; nem admittia ser eu violentado a fazer o que não devo.Esperava desta resposta alguma moderação, e mais por saberem, que os chinezes não admittem novidades com que possam julgar menos segura a sua independencia. Com tudo reagiram, mandando intimar pelo chefe da companhia, que se não fossem admittidas as tropas, seria differente o seu procedimento.Firme nos meus principios, e na minhaprimeira resolução, assegurei-lhe a immutabilidade do meu pensar, e dos habitantes desta cidade, que jámais deram motivo para serem invadidos e atropellados por uma nação, que se dizia alliada: porém que a ter logar aquella intimação ameaçadora, eu me defenderia conforme o direito natural, e os limites desta praça, que sempre fora respeitada por todas as nações costumadas a descançar á sombra da bandeira portugueza.Vendo que os inglezes não socegavam, e que eram baldados os esforços da mais estudada prudencia; querendo salvar a honra, e a paz constrangida pelo nosso mais antigo alliado; não devo demorar por mais tempo a necessaria participação ao governo chinez. Este como protector da cidade fundada por sua concessão em seus dominios, da qual recebe foro a seu contento; prestará com brevidade os socorros precizos. Sou obrigado a participar-lhe todas as circunstancias, não obstante saberquãotristes se tornarão as suas providencias, se o almirante não cessar da sua contumacia.O senado tomará como hostil o procedimento que tiver por fim desembarcar tropasinglezas nesta cidade; declara que se defenderá até o ultimo extremo. Protesta contra taes procedimentos: a responsabilidade recaírá sobre os aggressores. A razão anima os habitantes desta cidade, que tanta honra e gloria tem dado á nação portugueza em sua não interrompida posse.Setembro 16Quem não esperaria moderação nos britannicos, pela leitura daquelle protesto? Retorquiram!—Sendo os offerecimentos liberaes de Lord Minto rejeitados pela desleal conducta do governo macaense[36], e os esforços da nossa parte a fim de livrar esta cidade da invasão franceza, e querendo nós conservar boa intelligencia entre o governo chinez e a nação britannica: somos arrastados pela inexperada conducta dos macaenses a tomar medidas, que podem offender os chinezes; mas o senado responderá por tudo.Achamos-nos levados ao penoso extremo de vos participar, que em breve os soldados inglezes occuparão Maçáo. A nossa tenção, quando chegar esse momento, é desembarcartambem os marinheiros, e tomar posse da cidade á ponta de bayoneta. Consideraremos qualquer opposição como rebelião directa. Para evitar o conflicto de soldados e marinheiros raivosos, deve o Senado admittir já as tropas britannicas.Setembro 19Foi recebida esta intimação, quando chegava outra dos mandarins do destricto, para não deixar o Senado, desembarcar as tropas inglezas. O governador remetteu-a por copia ao almirante, com a seguinte carta.Agora me foi presente a vossa intimação! Com pesar vejo nella,tratadade infiel a conducta do governo desta cidade por não admittir, contra o seu dever, guarnição ingleza! E que tomareis como acto hostil qualquer resistencia da nossa parte, dando para unico remedio a tantos males, introduzir aqui tropas britannicas! Tenho presente as rasões que vos expuz; extranho caracterisares este governo de mal intencionado no cumprimento dos seus deveres. Confesso que da minha parte os tenho modificado, julgando continuar assim a distincta amizade dos respectivos monarcas. Ponderei em pleno conselho a vossaintimação: sendo bem examinada a ultima parte em que dizeis cesserá o vosso rigor, admittindo-se um destacamento inglez, desejo saber como fareis isso sem nos dar motivo para desconfiar das intenções britannicas; e sem que os chinezes se offendam de tão escandaloso procedimento. Posso assegurar-vos, que elle não só ha de ser prejudicial a Macáo: a companhia ingleza soffrerá tambem os seus effeitos.No dia 20 os sobrecargas Roberts, Patlle, Brameston, Helphinstone, e Baring dirigiram ao governador a carta seguinte.—O protesto de Vossa Excellencia, será apresentado ao almirante, assim como a intimação dos mandarins. Nós sabemos o que elles são: o almirante não fará caso delles. Sendo preciso concluirá este negocio com o Suntó.É memoravel nos annaes macaenses, o dia 20 de Setembro de 1808. Achavam-se ás mãos com os piratas da China, e ameaçados, pelo almirante inglez, de serem atacados á bayoneta. Mas quanto maiores eram as adversidades, mais se engrandecia o animo dos macaenses... Assim que se publicou no Senadoa injusta, cruel, e atroz intimação da força ingleza, gritaram todos:—Só depois de morrermos na defesa destes muros levantados por nossos maiores, poderão entrar esses barbaros, que não podendo tomar nossas casas pela hypocrisia, tentam fazelo com ameaços. O capitão mór José Joaquim de Barros, ardendo em lavaredas de amor patriotico, disse para o governador;—Irei para o logar mais arriscado, lá darei a vida na defesa do meu posto—Bernardo Aleixo, consummado em prudencia, não soffreu ser vencido em valor. Dirigio-se aoMinistroArriaga, dizendo:—Honrado collega, com taes companheiros não serão arrebatadosos laresmacaenses. Devemos acabar de ter contemplação com homens, que mais parecem inimigos do que alliados. Deixo a minha residencia da praia grande; vou tomar o meu logar na fortaleza do monte, confiado em que ordenareis tudo para conservar o socego publico; e fiquem todos na intelligencia, que ella não se renderá em quanto eu existir.Quem poderá escrever os dons naturaes e do estudo, desenvolvidos pelo magnanimoArriaga neste conflicto? Soube moderar o valor exaltado que tinha accendidonos peitos macaenses,e persuadilos, que não se offendia em cousa alguma a honra nacional, desembarcando a tropa ingleza, compermissãodo Senado; e talvez isso desse novo realce á gloria dos portuguezes;afiançounão ser longa a demora dos inglezes em Macáo. Disse que todos sabiam ter o governo feito, quanto estava ao seu alcance para livrar a cidade da invasão ingleza; mas que em todo esse andamento haviam chegado os negocios a tal extremo, que a julgava necessaria para ensinar os britanicos, pela experiencia, que os macaenses não toleram invasores.Socegaram os animos; deram-se todas as providencias para se effectuar o desembarque sem disturbios. Entregaram-se as fortalezas a pessoas de confiança. O Governador foi para a do monte: e o Capitão mór para a de S.Francisco. Commandava então a guarnição da praça, o Senhor José Ozorio de Castro Cabral e Albuquerque; sempre mereceu elogios do Governo por saber conciliar as qualidades militares com as virtudes civicas.No dia 21 ao romper da alva desembarcaram os Capitães Robertson, e Claulfield, com plenos poderes para tractarem com o Governo de Macáo, ácerca do desembarque da tropa; e levaram a Bernardo Aleixo a carta seguinte.Tive a honra de receber a vossa participação, diz o Almirante, em que me informais da sabia e leal determinação do Senado, em adimittir um destacamento inglez na defesa desta cidade. É grande o meu prazer entrar em Macáo como sincero amigo, e semquebrar-sea antiga amizade dos nossos monarcas. Affirmo-vos que haveis achar nas tropas britanicas, obediencia e respeito.Quão differente linguagem da que empregou no dia 17! Em quanto os macaenses não cederam á tenacidade britanica, éram infieis; agora que pareciam afrouxar na defesa dos seus direitos, são leaes e sabios! Ver-se-ha mudarem de linguagem em pouco tempo.No mesmo dia os delegados do Almirante, e os do Senado (Bernardo Aleixo, e Miguel de Arriaga) convencionaram nos artigos seguintes.1.º As leis do paiz regerão com toda a sua plenitude.2.º Os crimes contra os Chinezes, seguirão o julgado estabelecido.3.º O destacamento inglez será subordinado ao governo desta cidade, combinando com o Capitão Robertson, em casos extraordinarios.4.º Nenhuma outra bandeira será arvorada em Macáo, além da portugueza.5.º As munições do destacamento entrarão nos armazens publicos, ás ordens do governo desta cidade. Os inglezes terão permissão para beneficialas.6.º Os navios que pelas leis do paiz tem livre entrada neste porto não serão interrompidos, nem registados pelos britanicos: e os navios inglezes ficarão no mesmo estado em que se achavam antes desta convenção.Depois de assignada, o Senado fará diligencia para evitar complicação com o governo chinez. O governo de S. M. Britanica fica responsavel ao Sr. D. João VI, pelas consequencias deste tractado.Desembarcaram as tropas sem tumulto;aquartelaram-se na feitoria de Bernardo Gomes de Lemos, e nas fortalezas da Guia, e do Bom-parto. O Almirante requereu estes dois ultimos quarteis, para não haverem disturbios.Antes de desembarcar as tropas dizia, que ellas guardariam obediencia e respeito, assim que entrou com ellas na cidade, mudou de lingoagem: temeu logo que os britanicos insultassem os Chinezes. A intenção dos sobrecargas e do Almirante, éra de ir pouco a pouco, escondidos na capa da amizade, appossando-se de todas as fortalezas: e exigindo sempre, que o Governo de Macáo avisasse ao de Cantão, que tudo aquillo procedia da intima alliança entre as duas Côroas de Portugal, e Gran-Bertanha.No primeiro de Outubro, pedio o Almirante ao Senado, licença para enviar ao Suntó o tractado feito com o Senado, antes deentraremas tropas inglezas em Macáo. Já a esse tempo o Suntó estava sciente de tudo quanto se tinha feito em Macáo.No dia 8, começou o almirante, com os seus, a dirigir queixas ao governador, pelosinsultos, que faziam os chinezes aos britannicos; e dirigiram-lhe a participação seguinte.—Somos obrigados, com pezar nosso, a representar-vos a necessidade de mettermos o nosso destacamento na fortaleza de monte, a fim de evitar a communicação com os chinezes; porquantojá espancaram alguns officiaes, e esta manhãa insultaram outros de modo, que se não estivessem dentro dos limites do quartel, haveria grande desordem. Se o destacamento se estabelecer nafortalezado monte, acabar-se-ha a idéa de perigo. Asseguramos-vos a repugnancia com que fazemos esta applicação, mas somos a isso obrigados para evitar males, que podem envolver os nossos governos com o dos chinezes, de quem temos ouvido dizer está fazendo grandes preparativos de guerra. Seria bom, que assim como publicastes a ordem de Goa para receber o nosso destacamento, fizesseis o mesmo á proclamação do vice-rei de Goa.Os inglezes esperavam, sem duvida, achar os macaenses no estado em que os havia descripto o capitão Laperouse: e que Bernardo Aleixo não possuia o talento e virtudes exaradaspor aquelle celebre navegador nas paginas da sua viagem. A carta seguinte tirou os inglezes da illusão em que estavam.Não tenho duvida em passar o vosso destacamento para a fortalesa do monte: sendo necessaria para defeza contra os francezes, está nos termos da ordem que recebi de Goa[37]: porém sendo o motivo dessa exigencia evitar a communicação e disputa com os chinezes, estou certo de que na feitoria, onde se acha aquartelada, observada a disciplina que hade usar na fortaleza, conseguirá o mesmo fim sem dar logar a ciumes da parte dos chinezes; causa sem duvida de males maiores do que pretendeis evitar: e de mais, isso não é conforme com o tractado, que fizemos.—A desconfiança do governo chinez tem augmentado pela occupação das fortalezas da Guia, e Bom-parto com tropas britanicas. Assim acrescerá mais em prejuizo do commercio das duas nações, que na união, com os chinezes tem igual parte nesta cidade. A nação britanica não consentirá em plano algum,que destrua esta união: ea mimnão é permittido admittir defeza opposta á lealdade, que este governo tem á constituição do imperio, seu protector; e com direito sobre o territorio a que chama parte do mesmo imperio.Aindaque é forte a razão que me assiste, maior será o meu pesar, quando pareça falta de condescendencia da minha vontade prompta em reconhecer os serviços de S. Magestade Britanica, ao S. D. João VI. Elles exigem, que espereis a resposta do governo chinez, aos artigos da nossa convenção, que não pode alterar-se para não sermos obrigados a fazer outra participação. Sería agora passo arriscado, pelo escrupulo dos Chinezes ácerca das intenções britanicas. O Senado já mais deixará de cooperar no que for util á nação britanica. Agora mesmo acaba de pedir aos mandarins do districto, providencias para evitar, que os chinezes insultem os vossos officiaes.Lisongeio-me constar-vos a publicidade que dei á ordem de Goa. Tambem fiz publica Lisongeio-me constar-vos a publicidade que dei á ordem de Goa. Tambem fiz publicar a proclamação segundo o costume deste governo. Vivei na intelligencia, que não escondereio que vos possa interessar, não offendendo o decóro desta cidade.De 3 a 14 de Outubro recebeu o Senado varios avisos do Mandarin de Hiang-san, aos quaes o procurador, José Joaquim de Barros, respondeu neste espirito.—Eu o procurador da Cidade de Macáo, mandarim de Hao-king, remetto-vos toda a nossa correspondencia com os inglezes, a fim de conheceres a verdade. O Senado remetteu ao Almirante todas as vossas chapas, (avisos) nestas circunstancias é o que podemos fazer.—O mandarim respondeu:—Pelo que respeita ás cartas do Almirante, ainda que as tenho feito interpretar, não posso entender o seu verdadeiro sentido: espero que o declarareis ao portador desta para minha intelligencia. A ordem do Vice-Rei de Gôa não prevalece contra os tractados existentes do Governo celestial com o vosso Rei. Em quanto ao desasocego dos moradores chinezes em Macáo, depende de vós: fazei com que os inglezes tornem para os seus navios, todos ficarão em perfeita quietação.—Outubro.No dia 16 remetteu outro aviso.—Sei que fôra apresentada a minha carta aos inglezes para saírem de Macáo, e queresponderamterem vindo para defenderem Macáo dos francezes, visto não o poder agora fazer o vosso Rei; e que para saírem precisam que venham soldados portuguezes!É inegavel ser Macáo territorio da China, assim como ter-vo-loconcedidoa celestial dynastia, attendendo avirdesde tão longe, e quererdes repousar neste Imperio. Ha perto de tres seculos, não só vos tracta sem differença de seus povos, mas tambem como filhos enchendo-vos de beneficios.[38]Os francezes não costumam insultar as terras deste imperio: quando usassem agora commetter essa injustiça, os inglezes deviam lembrar-se, que temos mandarins de letras e de armas e poderoso exercito para defender-vos, sendo preciso. Exponde estas verdades ao Almirante, e aos sobrecargas, e intimai-lhe de minha parte que embarquem o seu destacamento sem demora.—No dia 17 sabendo o mesmo mandarim,que os Chinezes emigravam de Macáo assustados pelo ameaço da guerra, mandou outra chapa ao procurador, offerecendo-lhe tropas para auxiliar os portuguezes, e animar os Chinezes a fazerem o trato do costume, para não soffrerem os habitantes da cidade por falta de alimentos.(18 de Outubro.)—Mostrei a vossa chapa de hontem ao Almirante (tornou o procurador ao mandarim) assegurou-me ir a Cantão ultimar este negocio com o Suntó. Desejo que vos empenheis no bom tractamento para com elle, visto ir encarregado de negocio tão importante.No mesmo dia 17, recebeu o Governador a carta seguinte (dos sobrecargas).—Capacitesse V. Exc.ada grande importancia, que é para as duas nações Portugueza e ingleza, accommodar em breve a desintelligencia, que reina entre nós e os Chinezes. A viagem do Almirante a Cantão, dirige-se a esse fim; mas é preciso que os seus intentos sejam sincenramente narrados ao Suntó. Só o padre Rodrigo o pode fazer como desejamos; assim rogamos a V. Exc. faculdade para elle acompanharo Almirante. O Governador concedeu a licença pedida.Quando em Macáo se esperava que fossem diminuidas as calamidades, augmentaram. Assim o demonstram os sobrecargas na carta seguinte: basta meditala com reflexão para se conhecerem as intenções britanicas.—Soubemos esta manhãa—ter chegado de Bombaim outro destacamento. O Almirante ordena que desembarque immediatamente. Rogamos a V. Exc., que mande fazer os arranjos necessarios para esse fim. Alcançaremos grandes vantagens se persuadires os chinezes, que são tropas mandadas pelo vosso Rei; e que desembarcadas estas embarcarão as que se acham em terra. Para dar mais força a esta lembrança pode V. Exc. mandar entrar os navios com bandeira portugueza. As objecções dos chinezes são de pouca entidade. Para este segundo desembarque, escusa V. Exc. pedir-lhe venia. Pedimos licença para manifestar a V. Exc. o escandaloso procedimento de alguns macaenses infieis ao Senhor D. João VI; pois enviam aos mandarins representações desfavoraveisaos britanicos. Da sua má conducta nascem os inconvenientes, que temos soffrido. Se V. Exc. não dá remedio a tam grande mal, o Almirante enviará para o Brazil as pessoas suspeitas.[39]Esta carta demonstra bem a protecção levada pelos inglezes a Macáo. 1.º soberba, 2.º falsidades, 3.º arroganciafraudulenta, 4º calumnias, 5.º despotismo da sua consumada prudencia, respondeu nestes termos.(Outubro 21.)—Dizeis ter ordem do Almirante para desambarcar tropas novamente chegadas! E desejais, que eu dê a entender aos chinezes, virem da parte do Sr. D. João VI! Nenhuma duvida teria no seu desembarque, se as circunstancias decorridas depois que desembarcaram as primeiras não tivessem de dia em dia complicado mais este negocio com os mandarins. Effeituando-se este segundo desembarque antes de conferir o Almirante com o Suntó, pode transtornar o negocio, e ser funesto ao commercio, já suspenso em Cantão. Accresce ter eu agora recebido, ácerca dessa tropa, protesto, que devo tomar emmuita consideração. Esta cidade tem soffrido muito com a vossa expedição; e a meu cargo está vigiar por seus interesses. Não me consta haver aqui morador algum infiel á Caza de Bragança, apesar de ser dever meu cuidar nessa indagação.(Outubro 21.)—No mesmo dia, escreveu o mandarin de Hiang-san, ao procurador de Macáo, neste espirito.—Consta-me chegarem ahi mais tropas inglezas; jámais deveis permittir o seu desembarque. Duvidamos muito dos seus intentos. Se o consentirdes darei parte ao Suntó, de que faltais ao vosso dever.(Outubro.)—De 21 a 28 houveram disturbios entre os inglezes e os chinezes. O procurador representou aos mandarins, que não tinha leis por onde castigasse os chinezes em casos taes; e que para isso exigia providencias.—Aquelles tornaram. Não são precisas leis para castigar crimes, que jámais devem existir neste imperio. Embarquem os inglezes, tudo fica remediado.—Não davam resposta, á exigencia de providencias.(Outubro.)—Em 29 escreveram os sobrecargas ao Governador:—Sabemos com certezanão serem as partecipações de V. Exc. (ácerca do auxilio britanico) expostas ao Suntó como deviam; antes sim pelo contrario. Rogamos a V. Exc. lhe declare o justo procedimento do governo britanico, e que esta declaração seja remettida ao Almirante para elle mesmo a entregar ao Suntó. Extranhamos a repugnancia de V. Exc. em seguir o exemplo do Vice-Rei de Goa, isto é, animar os portuguezes contra os nossos inimigos. Se os moradores desta cidade fossem assim admoestados, desejariam o nosso auxilio em logar de o aborrecer.—(Outubro 30.)—Entre as difficuldades, que vos apresentei, tornou Bernardo Aleixo,foi uma a complicaçãocom os chinezes. Tenho conhecimento do systema do seu governo por longa experiencia adquirida na pratica; sei os vinculos que os unem a esta cidade; e por isso previ o máo resultado da vossa empreza. Falleivos com franqueza, fui considerado como desaffecto aos vossos projectos. Em 20 do mez passado desclarasteis (ainda que pouco favoravel ao exercicio do meu emprego) ser qual quer opposição dogoverno chinez, desembaraçada pelo Almirante com o Suntó; agora vejo depender deste governo a ultimação do negocio.O Senado trabalha para que não sejam reputados sinistros os fins da vossa expedição: se tem havido desconfiança nos mandarins, não é motivada por este governo; pois tem patenteado com franqueza a sua correspondencia entre vós e os chinezes.Já vos disse, e agora o repito: dos macaenses, nem um só deixa de respeitar a caza de Bragança, costumada a encher esta cidade de beneficios em honra do seu governo, e gloria de seus moradores. Porém como não lhe seja vedado amar a tranquillidade publica do seu paiz, não deve extranhar-se a cada um chorar a sua desgraça: sem blasfemar da causa, aborrece os effeitos.Os pais de familias lastimam a morte de seus filhos, pelo abandono das amas chinezas—que se retiram. Os infelizes que tem na labutação diaria o seu recurso, lastimam-se pela escacez e carestia dos generos alimentares. Os mais abastados lastimam-se por ver chegar o tempo de fazerem suas negociações, e teremainda as mercadorias empatadas por falta de gyro, ha cincoenta dias. Até os navios estão ainda por fabricar á mingua de artifices, que tambem fugiram. Os empregados publicos vendo parar o commercio, lastimam-se por saberem, que delle tira o estado rendimento para pagar-lhes. Os mesmos habitantes chinezes, dados ao commercio, tem emigrado e levado até o mais inferior dos seus trastes. Isto era de esperar de homens pacificos ao verem apparatos de guerra. Além disso ameaçados pelos mandarins, que julgam a constituição do imperio atacada pela vossa imprudencia.Á vista do exposto não admira haverem descontentes, que deplorem a sua desgraça, e aspirem ao socego deste fiel estabelecimento, que ha 252 annos tem sempre respeitado as ordens do seu monarcha. Julgai por este quadro se um tal povo necessita de proclamações para ser fiel ao Rei a quem adora?Assim que esta carta foi remetida, mandou o Senado ao procurador, que exigisse do mandarim de Hiang-san, o motivo da queixa dos Inglezes; o que fez pelo modo seguinte.—Ochefe da companhia ingleza accusa-vos de não teres enviado as minhas chapas ao Suntó, ou que mandando-as lhes viciastes o texto. Não posso crer teres procedimento alheio do vosso emprego e caracter. Espero que immediatamente apresenteis os originaes ao Suntó: eu envio as copias ao almirante para as conferircom elle, e ficar desse modo illesa a vossa reputação.Os sobrecargas responderam á carta de trinta pelo modo seguinte:—A vossa carta encheu de magoa os nossos corações pelas circunstancias em que se acham os habitantes de Macáo; tudo nasceu da conducta do Senado: se adoptasse o nosso systema, não teria agora de vêr essas lastimas. Os macaenses julgaram a proposito tomar medidas contra a nossa expedição; e fizeram repetidas instancias ao governo chinez, pedindo soccorro contra os hostis procedimentos britannicos: o excessivo ciume dos chinezes, e o manejo do Senado motivaram todos os males.—Em verdade dissemos, que o almirante removeria todos os obstaculos em Cantão; assim aconteceria se o governo de Macáo se unisse cordialmentecom o almirante.Os esforços que V. Ex.apromette fazer em suas applicações ao governo chinez, são para nós de grande importancia. Sabemos que hão-de produzir bom affeito. Estamos persuadidos, que só o governo de Macáo pode remover as presentes difficuldades e miserias.Grande documento é este para augmentar, se é possivel, a honra dos macaenses, pelo valimento que tem com os chinezes. No principio da carta, invectivam os sobrecargas aos macaenses; no fim pedem-lhe misericordia! Era tal a ambição, ou a impudencia daquelles bretões, que diziam em face ao governo de Macáo serem motivadas as calamidades daquella cidade pela ignorancia dos chinezes, e manejo do Senado! Quem não vê provir tudo da tenacidade dos sobrecargas em quererem apossar-se daquelle nosso estabelecimento? Quem poderá capacitar-se de ser aquelle empenho unicamente sustentado para guardar Macáo aos portuguezes? Em pouco sairá o almirante da illusão em que o tinham os sobrecargas.O ultimo paragrafo desta carta mereceparticular attenção: O governador despresou as argucias do primeiro, e respondeu ao segundo.—Vejo a necessidade que tendes de novo recurso deste governo ao de Cantão: O Senado já enviou uma chapa ao mandarim do destricto, da qual se vos remette copia, e de toda a nossa correspondencia com os chinezes, a vosso respeito. Faço isto para ver se acabam as vossas desconfianças.Nesta intelligencia e com o mesmo desvelo (posto que até agora equivoco) farei novas representações ao governo chinez sempre que me indiqueis a forma de applacar a tormenta, que vos ameaça, pela desconfiança dos mandarins superiores.Á vista do corpo disforme, que tomou este negocio, quem não esperaria moderação nos sobrecargas? A carta seguinte mostra o contrario!(Novembro 3.)—Pertendem ainda quebrar as leis do imperio, introduzindo e descarregando navios britannicos em Macáo.—Em virtude de ordens do almirante, dizem elles, participamos a V. Ex.aque mande apromptar armazens para depositar nelles os generos vindos em nossasembarcações. Esta medida nasce da oppoção que os chinezes fazem ao auxilio dado por nós a esta cidade. Esperamos que V. Ex.anão recuse os seus extremosos esforços em nosso beneficio, vendo que os sacrificios do governo de Macáo são bagatela em comparação dos que temos soffrido pelo embargo do commercio britannico (em Cantão) só por usarmos a generosidade de querermos dar segurança a esta cidade: Assim esperamos a ordem para a descarga, sem dilação.Não tenho duvida em prestar a minha condescendencia á vontade do almirante, respondeu Bernardo Aleixo, com tudo sou forçado a dizer o que sendo publico, admira ser por vós ignorado. As leis deste paiz só admittem navios estrangeiros no caso de mera hospitalidade, segundo o direito das gentes. Applica-se aos navios de entrada e saída de Cantão, até poderem seguir o seu destino. Achando-se em iguaes circunstancias, qualquer navio da companhia, não haverá duvida na sua admissão; porém se a descarga, que se pertende fazer em Macáo provem da opposição dos chinezes ao commercio britannico, tenhogrande embaraço no cumprimento do meu desejo.Os tractados desta cidade, com o governo chinez, permittem só carregações neste porto vindas em navios portuguezes, ou hespanhoes; se o commercio inglez está prohibido em Cantão, como o poderei admittir em Macáo, sendo dominio chinez, sómente aforado aos portuguezes debaixo de certas condições, que vós, dizendo auxiliar, pretendeis romper?Accresce não haver logar para tão grandes carregações: por falta de gyro, acham-se todos os armazens cheios de generos vindos na monção ultima. Dizeis que são grandes os vossos sacrificios, e os nossos bagatela! Os sacrificios, neste sentido, não devem considerar-se pelo valor das riquezas: por perderes muito não se segue, que não sejam maiores os nossos sacrificios perdendo tudo. Lançais as culpas das vossas perdas sobre nós, e que faremos a vosso respeito? O tempo fará justiça ao nosso procedimento[40].Agora (apezar de tudo) é tal o meu desveloem vos servir, que se algum navio se acha em estado de tornar indispensavel a sua descarga, terá os soccorros necessarios como se pratica entre povos civilisados; sem offensa dos laços domicilarios e privativos, sustentados pelo esforço e gloria da Nação Portugueza.Em todo o mez de Novembro houveram disturbios entre os chinezes e os britannicos: aquelles não só maltractavam estes, encontrando-os nas ruas, mas tambem lhe apedrejavam as janallas. Por mais que o procurador do Senado exigisse providencias dos mandarins, a resposta éra sempre a mesma.—Sáiam os britannicos da cidade, e tudo ficará em socego.—Quando os inglezes estavam mais teimosos em descarregar os seus navios em Macáo, baixou a seguinte admoestação do Suntó aos sobre-cargas.Sobre-cargas da companhia ingleza, sabei que a virtude do nosso Imperador se manifesta como o céo, abrange tudo: considerando elle que os reinos da Europa se tem mostrado, ha muito tempo, obedientes e politicos, concedeu aos europeos licença para negociarem Cantão; reputando-vos como individuos da mesma familia. Vós o tendes experimentado, e sabeis, que nunca foi concedido ficardes permanentes na China. Logo não devieis trazer navios cheios de soldados, nem desembarcalos contra as leis do imperio. Macáo é cidade edificada em terreno chinez: a dynastia passada concedeu aos portuguezes estabelecerem-se alli; a presente, em virtude da sua antiga posse, deixou-os ficar como d'antes; porém debaixo de certas condições. A nenhuns outros europeos se concedeu privilegio semilhante! Como pertendeis vós agora persistir em Macáo? Dizeis recear venham os francezes insultar os macaenses! Nunca se attreveram a pertubar as terras deste imperio: e quando venham com muito socego os esperaremos; vindo desfalecidos, e sendo poucos contra muitos, sem batalha ficarão vencidos. Terão a sorte da carne na banca do cosinheiro. Dizeis ser amigos dos Portuguezes e que viesteis ajudalos contra os francezes! Porque não obrasteis este excesso de amizade la na Europa, ou porque não os esperais fora das ilhas da china para os baterdes quando cheguem?Não é justo estares em Macáo quebrantando as leis do imperio, e dissolvendo a união mutua, que deve existir em todos os seus dominios: desse modo perdeis o direito, que haveis á nossa benevolencia. Por ventura não sabeis o que vos é interessante? Podereis existir sem commercio? Por certo não: pois quanto mais depressa embarcardes os soldados, mais cedo se vos abrirão as Alfandegas. Se retardares o seu embarque, não tereis communicação com a terra. Ponderai bem o que vos proponho, e não me incommodeis com mais peditorios.—Em quanto o governo de Macáo pedia aos mandarins do districto, que o ajudassem a sanear as feridas abertas pelos inglezes, nas leis do imperio, a fim de não se irritar contra elles o Suntó, chegou outra chapa deste, pelo mandarim de Hiangsan, em que dizia:—Eu o Governador das duas provincias de Cantão e Kuansi, faço saber ao mandarin de Hiang-san, que da entrada dos soldados inglezes em Macáo, são culpados os seus moradores; pois deviam tela embaraçado. Mas examinando o seu antigo, e modernoprocedimento, achei serem sempre gratos aos nossos Imperadores; por esse motivo toléro o erro commettido.Ácerca dos navios inglezes, já consultei o Kuam-pu, a fim de lhes permittir descarga, e poderem negociar. Pelo que pertence aos soldados, dei parte ao Imperador; eis a sua resposta:—Se os inglezes tiverem a ousadia de presistirem em sua teima, lançaios fora com o nosso exercito.—Em poucos dias elle marchará sobre Macáo: no entanto recommendai aos portuguezes a segurança da fortaleza do monte. Adverti ao Procurador, que não se fie desses inglezes.Como estes não fossem promptos na execução das ordens do Suntó, augmentou-se a soberba e desconfiança chineza de modo, que julgaram tambem sermos culpados no insulto commettido pelos inglezes. Desembarcarem estes as tropas já não éra a maior offensa: o que mais ferio o orgulho chinez, foi nãoobedeceremlogo ao mando do Imperador. Tomaram os mandarins calor tão ardente, que não deixavam passar um dia sem repetirem intimações para que os inglezes saíssem de Macáo: eis o seu espirito.Senhor Procurador, esses inglezes entrando em Macáo apossaram-se das igrejas e das fortalezas! Em pouco tomarão vossas cazas possuidas ha seculos; depois tirar-vos-hão mulheres e filhos: não podemos soffrer tam grande offensa. Marcham oitenta mil homens sobre os campos de Móa. (proximos á cidade de Macáo) afim de os anniquilar. Despresaram a graça feita pelo Suntó; soffrerão o peso da força, que marcha contra elles. Esses inglezes sendo homens não tem coração humano; conhecem os males que tem feito, e não se arrependem! Desejamos que todos vivam em paz, e somos obrigados a mandar um exercito receando, que nem um só inglez escape á morte! Fazei-lhe conhecer estas verdades, e perguntai-lhe se ainda querem teimar contra a justiça, que os ameaça.—O procurador respondeu:——Tenho apresentado as mais essenciaes das vossas chapas aos sobrecargas inglezes; não despresam as graças do Suntó; acham-se promptos para retirar-se; mas não o podem fazer de repente. Os inglezes vieram com designio de nos auxiliar assim julgo ser malfundada a vossa desconfiança. Não precisamos do vosso exercito; viria fazer maior damno á cidade. Sabeis quaes são as leis que regem este nosso estabelecimento: não deve entrar nelle, nem mesmo aproximar-se ás muralhas desta cidade tropa chineza, sem que a pessa, e é cousa, que ainda me não veio á lembrança. Não é justo imitares aos inglezes: estes diziam vir-nos auxiliar; trouxeram-nos incommodos e perdas.—É notavel a prudencia e a generosidade do Senado macaense para com os inglezes, quando estes só lhe dirigiam offensas! Ao mesmo tempo enviaram os sobrecargas a Bernardo Aleixo a carta seguinte,—A situação em que nos achamos é triste: temos recommendação do Almirante para evitar hostilidades e fazer tudo quanto possa reconciliar-nos com os chinezes. Se esta recommendação for confirmada aos manderins, por V. Exc. por certo diminuirá o seu rigor para com os inglezes.Nos maiores conflictos apparecia em publico o Magnanimo Arriaga e dava socego a todos. Offereceu-se para convencionar com osmandarins, sobre a retirada da espedição britanica sem efusão de sangue, donde resultou o tratado seguinte.Bernardo Aleixo de Lemos e Faria, Miguel de Arriaga Brun da Silveira, e o commandante das forças britanicas com os sobrecargas da selecta companhia, desejando retirar o destacamento inglez, decorosamente, ajustaram:1.º OMinistroArriaga tractará com os mandarins ácerca da retirada das forças britannicas, ficando o commercio inglez no mesmo estado em que se achava, antes da sua entrada nesta cidade.2.º Exigindo este negocio a cooperação do Almirante, Miguel de Arriaga irá a Wampo-o, para se concluir alli do modo mais vantajoso ao vinculo das tres nações.3.º Concluido este negocio cessará a prohibição de mantimentos para sustento dosinglezes.4.º Os mandarins farão suspender immediatamente a marcha das tropas chinezas dirigidas a esta cidade.(Dezembro 11.)A presente convenção mostra a confiança,que o Ministro Arriaga tinha em domar o orgulho e o rigor dos mandarins. Parece impossivel, que só a politica a firmesa de caracter, e a urbanidade de um homem pudesse conter a justiça chineza, sustentada por 80 mil homens! A carta seguinte dirigida a Bernardo Aleixo, dá bem a conhecer o dominio que Arriaga tinha na vontade dos mandarins.(Dezembro 11)—Depois que assignámos a convenção esta manhã, fui ao pagode, onde me esperavam os mandarins: tive larga discussão com elles a fim de soltar difficuldades proprias a uma nação escrupulosa e desconfiada; todavia consentiram em tudo o que lhes propuz. Além disso capaciteios das boas intenções britannicas (apezar de terem sido más para nós); naquella intelligencia asseguraram-me ficar o commercio inglez no mesmo pé e systema antigo—Despedidos os mandarins; tornou Arriaga á cidade contente por ter concluido negocio tão espinhoso por meios tão honrosos para a nação portugueza, como lisongeiros para o negociador.Sabendo o mandarin de Hiang-san, queo novo governador Lucas José de Alvarenga, instava pela posse do seu emprego, remetteu ao procurador a chapa seguinte.—Da entrada dos inglezes até hoje, tem o antigo governador dirigido bem este negocio; agora constame, que o successor insta para tomar posse e que o Sr. Bernardo Aleixo de Lemos e Faria o pretende fazer: não é conveniente: os inglezes entraram no tempo do seu governo, nelle devem saír. Sabemos que o novo governador veio em navio inglez; quem nos assegura não ter elle correspondencia com esses homens? Não é justo nem conveniente tomar elle agora posse do governo. Em casos extraordinarios nem sempre podem seguir-se as leis ordinarias: quando os inglezes saírem de Macáo e ficarem todos em socego, far-se-ha tudo segundo a lei e os costumes.(Dezembro 11 de 1808.)No mesmo dia partio Miguel de Arriaga, no brigue do Senado, para Wam-poo. Em 24 horas chegou a bocca do rio Tygre: logo que da náo se avistou suspendeu esta e veio ao encontro do brigue. Em 14 de Dezembro, já de volta fez Arriaga, a participação seguintea Bernardo Aleixo.—Assim que cheguei á falla da náo, fiz saber ao almirante, qual era a minha commissão: respondeu ter já ordenado o embarque das tropas, e que desejava ser grato ás officiosas declarações anteriormente feitas pelo governo de Macáo; pois eram veridicas e rasoaveis. Recebeu-me com a civilidade propria de sua pessoa: disse que esperava do governo de Mocáo o bom serviço de remover qualquer difficuldade, que de novo apparecesse. Despedi-mo-nos com as mesmas ceremonias da entrada, e não querendo elle ceder veio acompanhar-me ao portaló.Logo que o ministro Arriaga concluio a sua negociação com o almirante, dirigio-lhe o governador Bernardo Aleixo de Lemos e Faria a carta seguinte.(Dezembro de 1808.)—Os officios de V. S., de 11 e 14, manifestam o grande trabalho, que teve na conferencia com os mandarins: Pelo contexto dos mesmos se conhece a excessiva applicação e desvelo com que V. S., além dos limites ordinarios, se empenhou em acalmar, com heroico patriotismo, a cruel revolução que ameaçava esta cidade.Com o seu grande zelo e reconhecido talento, fez V. S. o mais importante serviço á patria. Á força de tão efficazes e singulares deligenciasdevem os inglezesfazer a sua retirada sem effusão de sangue, e os macaenses o socego da cidade.(Dezembro de 1808.)—No dia 16 começou a retirar-se o destacamento britannico; depois de se effeituar o embarque de tudo quanto lhe pertencia, cuidaram logo os sobrecargas em obter licença para desembarcar as suas mercadorias em Cantão. No 1.º de Janeiro expedio o Suntó a chapa seguinte.—Qu-Hiung-Kuang, Suntó (vice-rei) de Cantão, faz saber a todos os europeos, que por desembarcarem soldados inglezes em Macáo jámais se lhes devia permittir commerciar neste imperio. Com tudo lembrando-nos que o seu rei offerecera tributo ao nosso imperador, relevamos a offensa, que nos fizeram pela sua entrada em Macáo. Agora depois de enviarem os soldados ás suas terras, pedem os sobrecargas, arrependidos, perdão com muita humildade, a fim de se lhes permittir commerciar neste imperio. Conhecendo a misericordíado nosso imperador, cedi ás suas repetidas supplicas, deixando que desembarquem as mercadorias, e possam vendelas nesta cidade. Devem receber esta graça como um beneficio extraordinario. Assim mostramos, que as leis chinezas tem enfraquecido com o tempo: no futuro haverão medidas mais rigorosas. Daqui em diante se algum europeo se atrever a quebrar as leis do imperio será lançado fora para sempre.Assim ficáram os inglezes no mesmo estado em que se achavam antes de tentarem invadir Macáo; perdendo a companhia enormes sommas dispendidas naquella empreza.Tendo demonstrado com os sobrecargas desistiram della, farei ver agora o motivo porque atentaram.A grande influencia de Bonaparte na peninsula, obrigou El-Rei D. João VI, a fechar os portos aos inglezes: esta medida fez julgar aos bretões, que Bonaparte se apossaria de Portugal, assim como o tinha feito da maior parte da Europa.Considirando-nos debaixo do jugo do novo Filippe, seu inimigo, seu inimigo, comohavia sido o antigo, praticaram a lição tomada dos hollandezes; isto é pretenderam apossar-se do que ainda tinhamos no Oriente.Sendo os nossos estabelecimentos da Asia, interessantes aos inglezes, não lhes convém possuilos outra nação, que não seja a portugueza, já pela sua antiga alliança, já por não a temerem. Avisaram os agentes da companhia, para guardarem as terras, que nos pertenciam naquella parte do mundo, a fim de não serem tomadas pelos francezes; na esperança de que voltando Portugal á sua independencia, tudo ficaria como dantes; e se não podesse livrar-se do jugo francez, herdarem elles o que haviamos ainda no Oriente. Eis o motivo porque os inglezes invadiram Goa, e Macáo, cidades que immortalisaram sempre o nome portuguez.Accresce a estes successos da Europa, o desejo, que tinham os sobrecargas inglezes de possuirem um estabelecimento na China; julgavam desairoso ao seu poder, haverem os portuguezes na China o que os britannicos não podiam alcançar. Sendo ricos espalharam dinheiro na feira de Cantão, esperando quehavendo alguma desintelligencia entre os portuguezes e os chinezes, estes os preferissem.Os lusos soffrem grande critica pelo que praticaram nas suas conquistas em seculos tenebrosos; com tudo são menos culpados do que os inglezes; por quanto estes não são menos violentos em seculo mais illustrado. Veja-se no quadro seguinte a differença de ambição e despotismo das duas nações.—Existe no Oriente imperio immenso, com mais de 100 milhões de homens de castas, côres, e raças differentes: é a India ingleza. A Soberania não pertence á nação; exemplo unico na historia do mundo; é propriedade de uma companhia de negociantes! Viram-se os cartiginezes enriquecidos pelo commercio, conquistaram a Sicilia e a Hespanha; mas a republica, o corpo inteiro da nação, foi quem adquerio pelas armas importantes possessões. Em tempos modernos, a companhia hollandeza adquirio grande esplendor; mas os seus estabelecimentos nas costas da Asia, eram armações fortificadas, e não colonias.A companhia ingleza sem perder o commerciodos portos de mar, estendeu o seu dominio a mais de trezentas leguas pelo interior das terras. As regiões mais ferteis e mais ricas do globo pertencem-lhe como fardos de fazenda amantoados em seus armazens. O chefe, e delegados, ostentam luxo asiatico, e reinam com orgulho.Especulações mercantis elevaram este thesouro de nova especie, que subsiste sem ser mantido como os outros pela gloria dos Principes, respeito dos povos, ou pelo tempo que toléra e consagra nefandas usurpações.As authoridades de tão grandes dominios, podem dizer-se, que são vendidas em leilão, o mais vil inglez, em tendo algumas livras e comprando acções da companhia pode ficar membro desta sociedade, que tem fortalezas, náos, e mais de cem mil soldados; além disso pode vir e dirigir este poder colossal, que tem destruido o imperio do Grão-Mogol, o do Teppo-Sail, e ameaçado algumas vezes o Sofi da Persia e Grande As authoridades de tão grandes dominios, podem dizer-se, que são vendidas em leilão, o mais vil inglez, em tendo algumas livras e comprando acções da companhia pode ficar membro desta sociedade, que tem fortalezas, náos, e mais de cem mil soldados; além disso pode vir e dirigir este poder colossal, que tem destruido o imperio do Grão-Mogol, o do Teppo-Sail, e ameaçado algumas vezes o Sofi da Persia e Grande Lama[41]!Os portuguezes combateram na India ossectarios de Mafoma livrando desse modo a seus pacificos habitantes do captiveiro turco; os inglezes servem-se dos braços sarracenos para agrilhoar os mal fadados bramas.Assim vê-se que se nessa época tenebrosa os lusitanos obraram prodigios na India, vingando sobre os turcos os males que lhe haviam soffrido em nossa terra, hoje não desmerecemos na ordem dos nossos maiores; por quanto o Suntó disse:—Nenhuns outros europeos alcançarão (por merito) os privilegios concedidos aos portuguezes.—Os sobrecargas confessaram, que só o Governo de Macáo podia remover as difficuldades e miserias (que elles tinham motivado): o Almirante Drury tambem disse:—Estou muito obrigado ao governo de Macáo pelas suas declarações anteriores; por quanto eram veridicas e justas.—Taes declarações confirmam a dignidade do caracter Luzitano, em todos os tempos e logares.Sabendo-se em Londres a conducta daquelles sobrecargas, foram outros nomeados: chegando a Macáo esconderam o que se havia passado alli em 1808, e fallaram do que virampraticar em 1809, pelo modo seguinte.—As patrioticas applicações e desvelos dos macaenses, adquiriram a esta cidade muitas vantagens; ao governo portuguez gloria; e a todas as nações commerciantes a liberdade dos mares da China[42]. Os povos chinezes congratulam-se com a extincção do inimigo que por mais de 20 annos os havia opprimido, por serem as forças maritimas do imperio insufficientes para destruilo.—Accrescentarei o que os sobrecargas não poderam escrever: não foi menor a vantagem de Macáo e a gloria da nação portugueza, lançar fora daquella cidade as tropas inglezas, que della se pertendiam apossar.Vendo uma memoria do Sr. Lucas José de Alvarenga, Governador que fôra de Macáo, sou obrigado a contestala para desagravar os macaenses das offensas que alli lhes derige aquella triste emiseraveljactancioso.Imprimio a sua memoria no Rio de Janeiro em 1828, e diz que lhe dera motivo a isso outraimpressa em Lisboaem 1824; por seachar nella o seu nome inglorio. Sendo eu quem a escreveu, devo mostrar a razão de não fallar em louvor do Sr. Lucas.Saí de Macáo para Lisboa em janeiro de 1808, e o Sr. Lucas entrou naquella cidade em Setembro do mesmo anno. Tornei a Macáo em Novembro de 1810, já elle tinha saido dalli em Abril desse anno. Querendo recolher factos sobre a extincção dos piratas, a fim de completar o meu opusculo, tomeios das actas do Senado, e das pessoas conspicuas daquella cidade. Haviam em tão pouca conta este cavalheiro, que não se atreveram a confiar-lhe o governo das armas senão depois de fazerem retirar as tropas inglezas, como fica demonstrado, no officio do mandarim de Hiang-san.O Sr. Lucas, a pag. 4 da sua memoria diz serem verdadeiros os factos lançados na que se imprimira em Lisboa; isto é, 1.º O zelo e a actividade doo MinistroArriaga; 2.º o valor das pessoas empregadas na esquadra; 3.º a existencia dos tractados; 4.º a entrega dos piratas 5.º a invasão e a retirada das tropas inglezas; mas offende-se do silencio guardadoa seu respeito; e julga haver nesse procedimento algum misterio.Assim julga o Sr. Lucas não haver exactidão nesta memoria por não fallar na sua entrada em Macáo, no dia da sua saída, e talvez naquelle em que fôra encontrado na Sé vestido com trajos de mulher. Confesso não ter fallado do Sr. Lucas para não ennodoar um escripto consagrado ás virtudes Luso-Macaenses, com a irregular conducta de tal governador.Como fallaria em louvor de um individuo desprezado não só pela sua conducta, mas tambem pela sua cobardia? O Sr. Lucas por fraco obstou ao mais glorioso triunfo que podiamos obter em recompensa de tantas e tão longas fadigas: obstou que o chefe dos piratas se entregasse com toda a sua esquadra no porto de Macáo. Destas e outras acções do Sr. Lucas devia eu fallar, se escrevesse a historia de Macáo, mas eu apenas me encarreguei de levar á posteridade dois factos dessa historia, a destruição dos piratas, e o desembarque e retirada das tropas britanicas. Não fazendo o Sr. Lucas cousa boa digna denotar-se, julguei fazer mercê ao Sr. Lucas, deixando-o no escuro em que alli se lançou.Sendo este opusculo destinado a louvar as acções dos Luso-Macaenses, não devia apparecer entre elles um brasileiro empenhado em fazer o contrario do que os outros praticavam. Como se fallaria em louvor de um governador, cuja administração foi tempo de martyrio para os macaenses, não só pela falta de caracter do Sr. Lucas, mas tambem pela grande rapina do ouvidor Peixoto?
Nota(4.ª)
Le généreux Souza, qui sut domter l'amourDans ces climats ardens oú son feu nous dévore,Et q'aprés Scipion la vertunommeencore.
Nota(5.ª)
Á sombra de frondifera oliveira,
Por ti, ha tanto tempo, desejada,(Graças ao creador Omnipotente.)Te vejo, cara patria[1]reclinada.
No pelago espaçoso, que te cerca,
Ja não vês tremular hostis pendões[2].Não ouves rebombar os horisontes[3]Com horrorosos tiros de canhões[4].
De salitroso pó[5]que antes servia
Para ao longe mandar lethaes pelourosSe ferreos tubos hoje tu carregas[6],É só por festejar c'os seus estouros.
Centenares de Taós[7]prenhes de tygres,
Que ao pé de ti rasgavam cruelmente[8]Meninas e donzelas delicadasA teu Pai sujeitou[9]o Eterno Ente.
Teu benefico Pai, o Arriaga[10]
Estes tygres de Hyrcania domouE a frondente oliveira, que te cobre,Cortando mil obstaculos, plantou.
Jámais pois riscarão da fantasia[11]
O nome deste Heroe da lusa gente:E agora, que celebras seu triumfo,De verde palma vai cingir-lhe a frente.
Da victoria este emblema para ornares,
Lindas flores procura designantesD'aquelles predicados appreciaveis,Neste filho de Lisia mui brilhantes.
O louro girasol, que sempre segue
O planeta, que os outros illumina[12]Designa a bem notoria lealdadeDo nosso Heroe á prole Bragantina.
Os rubros amaranthos, que resistem
Ao vento, á calma, ao gelo, symbolisamA intrepida constancia nas empresas[13],Que o nome de Arriaga immortalizam.
A candida açucena, que dispende
Liberalmente o corceo, de que gosaÉ symbolo do seu singello peito[14],Emblema da sua alma generosa.
O Lirio, que nascendo d'alta vara,
Sendo rei da florida monarquiaPara baixo a sublime frente inclina,Sua clemencia designa, e cortezia[15].
Das mais virtudes symbolos procura
N'outros lindos matizes dos jardins;Não te esqueças das rosas rubicundas,Dos junquilhos, dos cravos, dos Jasmins.
De ti receba agora esta corôa
Bem que inferior ao seu merecimento;Em quanto outra melhor se lhe preparaNo reino superior ao firmamento.
Notas de Antonio Francisco de Miranda e Sousa, Deão da Sé de Macáo.
Nota(6.ª)
Nota(7.ª)