Chapter 3

Virgilia afastou-se, e foi sentar-se no sophá. Eu fiquei algum tempo a olhar para os meus proprios pés. Devia, saír ou ficar? Rejeitei o primeiro alvitre, que era simplesmente absurdo, e encaminhei-me para Virgilia, que lá estava sentada e calada. Ceus! Era outra vez a fresca, a juvenil, a florida Virgilia. Em vão procurei no rosto della algum vestigio da doença; nenhum havia; era a pelle fina e branca do costume.

—Nunca me viu? perguntou Virgilia, vendo que a encarava com insistencia.

—Tão bonita, nunca.

Sentei-me, emquanto Virgilia, calada, fazia estalar as unhas. Seguiram-se alguns segundos de pausa. Fallei-lhe de cousas extranhas ao incidente; ella porém não me respondia nada, nem olhava para mim. Menos o estalido, era a estatua do Silencio. Uma só vez me deitou os olhos, mas muito de cima, soerguendo a pontinha esquerda do labio, contrahindo as sobrancelhas, ao ponto de as unir; e todo esse conjuncto de cousas dava-lhe ao rosto uma expressão media, entre comica e tragica.

Havia alguma affectação naquelle desdem; era um arrebique do gesto. Lá dentro, ella padecia, e não pouco,—ou fosse magua pura, ou só despeito; e porque a dor que se dissimula dóe mais, é mui provavel que Virgilia padecesse em dobro do que realmente devia padecer. Creio que isto é metaphysica.

Outra cousa que tambem me parece metaphysica é isto:—Dá-se movimento a uma bola, por exemplo; róla esta, encontra outra bola, transmitte-lhe o impulso, e eis a segunda bola a rolar como a primeira rolou. Supponhamos que a primeira bola se chama... Marcella,—é uma simples supposição; a segunda, Braz Cubas;—a terceira, Virgilia. Temos que Marcella, recebendo um piparote do passado rolou até tocar em Braz Cubas,—o qual, cedendo á força impulsiva, entrou a rolar tambem até esbarrar em Virgilia, que não tinha nada com a primeira bola; e eis ahi como, pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos sociaes, e se estabelece uma cousa que poderemos chamar—solidariedade do aborrecimento humano. Como é que este capitulo escapou a Aristoteles?

Positivamente, era um diabrete Virgilia, um diabrete angelico, se querem, mas era-o, e então...

E então appareceu o Lobo Neves, um homem que não era mais esbelto do que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais sympathico, e todavia foi quem me arrebatou Virgilia e a candidatura, dentro de poucas semanas, com um impeto verdadeiramente cesariano. Não precedeu nenhum despeito; não houve a menor violencia de familia. O Dutra veiu dizer-me, um dia, que esperasse outra aragem, porque a candidatura de Lobo Neves era apoiada por grandes influencias. Cedi; e tal foi o começo da minha derrota. Uma semana depois, Virgilia perguntou ao Lobo Neves, a sorrir, quando seria elle ministro.

—Pela minha vontade, ja; pela dos outros, daqui a um anno.

Virgilia replicou:

—Promette que algum dia me fará baroneza?

—Marqueza, porque eu serei marquez.

Desde então fiquei perdido. Virgilia comparou a aguia e o pavão, e elegeu a aguia, deixando o pavão com o seu espanto, o seu despeito, e tres ou quatro beijos que lhe dera. Talvez cinco beijos; mas dez que fossem não queria dizer cousa nenhuma. O labio do homem não é como a pata do cavallo de Attila que esterilisava o solo em que batia; é justamente o contrario.

Meu pae ficou attonito com o desenlace, e quer-me parecer que não morreu de outra cousa. Eram tantos os castellos que engenhára, tantos e tantissimos os sonhos, que não podia vel-os assim esboroados, sem padecer um forte abalo no organismo. A principio não quiz crel-o. Um Cubas! um galho da arvore illustre dos Cubas! E dizia isto com tal convicção, que eu, já então informado da nossa tanoaria, esqueci um instante a voluvel dama, para só contemplar aquelle phenomeno, não raro, mas curioso: uma imaginação graduada em consciencia.

—Um Cubas! repetia-me elle na seguinte manhã, ao almoço.

Não foi alegre o almoço; eu proprio estava a caír de somno. Tinha velado uma parte da noite. De amor? Era impossivel; não se ama duas vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de amar aquella, tempos depois, não lhe estava agora preso por nenhum outro vinculo, além de uma phantasia passageira, alguma obediencia e muita fatuidade. E isto basta a explicar a vigilia; era despeito, um despeitosinho agudo como ponta de alfinete, o qual se desfez, com charutos, murros, leituras truncadas, até romper a aurora, a mais tranquilla das auroras.

Mas eu era moço, tinha o remedio em mim mesmo. Meu pae é que não pôde supportar facilmente a pancada. Pensando bem, pode ser que não morresse precisamente do desastre; mas que o desastre lhe complicou as ultimas dores, é positivo. Morreu dahi a quatro mezes,—acabrunhado, triste, com uma preoccupação intensa e continua, á semelhança de remorso, um desencanto mortal, que lhe substituiu os rheumatismos e tosses. Teve ainda uma meia hora de alegria; foi quando um dos ministros o visitou. Vi-lhe,—lembra-me bem,—vi-lhe o grato sorriso de outro tempo, e nos olhos uma concentração de luz, que era, por assim dizer, o ultimo lampejo da alma expirante. Mas a tristeza tornou logo, a tristeza de morrer sem me ver posto em algum logar alto, como aliás me cabia.

—Um Cubas!

Morreu alguns dias depois da visita do ministro, uma manhã de maio, entre os dois filhos, Sabina e eu, e mais o tio Ildefonso e meu cunhado. Morreu sem lhe poder valer a sciencia dos medicos, nem o nosso amor, nem os cuidados, que foram muitos, nem cousa nenhuma; tinha de morrer, morreu.

—Um Cubas!

Soluços, lagrimas, casa armada, velludo preto nos portaes, um homem que veiu vestir o cadaver, outro que tomou a medida do caixão, caixão, eça, tocheiros, convites, convidados que entravam, lentamente, a passo surdo, e apertavam a mão á familia, alguns tristes, todos serios e calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d'agua benta, o fechar do caixão, a prego e martello, seis pessoas que o tomam da eça, e o levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos, soluços e novas lagrimas da familia, e vão até o coche funebre, e o collocam em cima, e traspassam e apertam as corrêas, o rodar do coche, o rodar dos carros, um a um... Isto que parece um simples inventario, eram notas que eu havia tomado para um capitulo extremamente succulento, em que provava que a terra deve continuar a girar em volta do sol; porquanto:—a) a natureza não inventou a morte, senão com o fim de dar vida a algumas industrias,—armadores, segeiros, emprezas funerarias, typographias, e outras que ella sagazmente previu;—b) mortas essas industrias, pela ausencia da morte humana, não é improvavel que viessem a morrer os respectivos industriaes; o que dava na mesma. Mas tudo isto são apenas notas de um capitulo, que não escrevo.

Veja-nos agora o leitor, oito dias depois da morte de meu pae,—minha irmã sentada n'um sophá,—pouco adiante, o Cotrim, de pé, encostado a um consolo, com os braços cruzados e a morder o bigode,—eu a passeiar de um lado para outro, com os olhos no chão. Luto pezado. Profundo silencio.

—Mas afinal, disse o Cotrim; esta casa pouco mais póde valer de trinta contos; demos que valha trinta e cinco...

—Vale cincoenta, ponderei; a Sabina sabe que custou cincoenta e oito...

—Podia custar até sessenta, tornou o Cotrim; mas não se segue que os valesse, e menos ainda que os valha hoje. Você sabe que as casas, aqui ha annos, baixaram muito. Olhe, se esta vale os cincoenta contos, quantos não vale a que você deseja para si, a do Campo?

—Não fale nisso! Uma casa velha.

—Velha! exclamou Sabina, levantando as mãos ao tecto.

—Parece-lhe nova, aposto?

—Ora, mano, deixe-se dessas cousas, disse Sabina, erguendo-se do sophá; podemos arranjar tudo em boa amizade, e com lisura. Por exemplo, o Cotrim não aceita os pretos, quer só o boleeiro de papae e o Paulo...

—O boleeiro não, acudi eu; fico com a sege e não hei de ir comprar outro.

—Bem; fico com o Paulo e o Prudencio.

—O Prudencio está livre.

—Livre?

—Ha dois annos.

—Livre? Como seu pae arranjava estas cousas cá por casa, sem dar parte a ninguem! Está direito. Quanto á prata... creio que não libertou a prata?

Tinhamos falado na prata, a velha prataria do tempo de D. José I, a porção mais grave da herança, já pelo lavor, já pela vetustez, já pela origem da propriedade; dizia meu pae que o conde da Cunha, quando vice-rei do Brazil, a dera de presente a meu bisavô Luiz Cubas.

—Quanto á prata, continuou o Cotrim, eu não faria questão nenhuma, se não fosse o desejo que sua irmã tem de ficar com ella; e acho-lhe razão. Sabina é casada, e precisa de uma copa digna, apresentavel. Você é solteiro, não recebe, não...

—Mas posso casar.

—Para que? interrompeu Sabina.

Era tão sublime esta pergunta, que por alguns instantes me fez esquecer os interesses. Sorri; peguei na mão de Sabina, bati-lhe levemente na palma, tudo isso com tão boa sombra, que o Cotrim interpretou o gesto como de acquiescencia, e agradeceu-m'o.

—Que é lá? redargui; não cedi cousa nenhuma, nem cedo.

—Nem cede?

Abanei a cabeça.

—Deixa, Cotrim, disse minha irmã ao marido; vê se elle quer ficar tambem com a nossa roupa do corpo; é só o que falta.

—Não falta mais nada. Quer a sege, quer o boleeiro, quer a prata, quer tudo. Olhe, é muito mais summario citar-nos a juizo e provar com testemunhas que Sabina não é sua irmã, que eu não sou seu cunhado, e que Deus não é Deus. Faça isto, e não perde nada, nem uma colherinha. Ora, meu amigo, outro officio!

Estava tão agastado, e eu não menos, que entendi offerecer um meio de conciliação; dividir a prata. Riu-se e perguntou-me a quem caberia o bule e a quem o assucareiro; e depois desta pergunta, declarou que teriamos tempo de liquidar a pretenção, quando menos em juizo. Entretanto, Sabina fôra até á janella que dava para a chacara,—e depois de um instante, voltou, e propoz ceder o Paulo e outro preto, com a condição de ficar com a prata; eu ia dizer que não me convinha, mas o Cotrim adiantou-se e disse a mesma cousa.

—Isso nunca! não faço esmolas! disse elle.

Jantámos tristes. Meu tio conego appareceu á sobremeza, e ainda presenciou uma pequena altercação.

—Meus filhos, disse elle, lembrem-se que meu irmão deixou um pão bem grande para ser repartido por todos.

Mas o Cotrim:

—Creio, creio. A questão, porem, não é de pão, é de manteiga. Pão secco é que eu não engulo.

Fizeram-se finalmente as partilhas, mas nós estavamos brigados. E digo-lhes que, ainda assim, custou-me muito a brigar com Sabina. Eramos tão amigos! Jogos pueris, furias de criança, risos e tristezas da edade adulta, dividimos muita vez esse pão da alegria e da miseria, irmãmente, como bons irmãos que eramos. Mas estavamos brigados. Tal qual a belleza de Marcella, que se esvaiu com as bexigas.

Marcella, Sabina, Virgilia... ahi estou eu a fundir todos os contrastes, como se esses nomes e pessoas não fossem mais do que modos de ser da minha affeição interior. Penna de máus costumes, ata uma gravata ao teu estylo, veste-lhe um collete menos sordido; e depois sim, depois vem commigo, entra nessa casa, estira-te nessa rede que me embalou a melhor parte dos annos que decorreram desde o inventario de meu pae até 1842. Vem; se te cheirar a algum aroma de toucador, não cuides que o mandei derramar para meu regalo; é um vestígio da N. ou da Z. ou da U.—que todas essas lettras maiusculas embalaram ahi a sua elegante abjecção. Mas, se além do aroma, quizeres outra cousa, fica-te com o desejo, porque eu não guardei retratos, nem cartas, nem memorias; a mesma commoção esvaiu-se, e só me ficaram as lettras iniciaes.

Vivi meio recluso, indo de longe em longe a algum baile, ou theatro, ou palestra, mas a mór parte do tempo passei-a commigo mesmo. Vivia; deixava-me ir ao curso e recurso dos successos e dos dias, ora boliçoso, ora apathico, entre a ambição e o desanimo. Escrevia politica e fazia litteratura. Mandava artigos e versos para as folhas publicas, e cheguei a alcançar certa reputação de polemista e de poeta. Quando me lembrava do Lobo Neves, que era já deputado, e de Virgilia, futura marqueza, perguntava a mim mesmo porque não seria melhor deputado e melhor marquez do que o Lobo Neves,—eu, que valia mais, muito mais do que elle,—e dizia isto a olhar para a ponta do nariz...

—Sabe quem chegou hontem de S. Paulo? perguntou-me uma noite o Luiz Dutra.

O Luiz Dutra era um primo de Virgilia, que tambem privava com as musas. Os versos delle agradavam e valiam mais do que os meus; mas elle tinha necessidade da sancção de alguns, que lhe confirmasse o applauso dos outros. Como fosse acanhado, não interrogava a ninguem; mas deleitava-se com ouvir alguma palavra de apreço; então criava novas forças e arremettia juvenilmente ao trabalho.

Pobre Luiz Dutra! Apenas publicava alguma cousa corria á minha casa, e entrava a girar em volta de mim, á espreita de um juizo, de uma palavra, de um gesto, que lhe approvasse a recente producção, e eu falava-lhe de mil cousas differentes,—do ultimo baile do Cattete, da discussão das camaras, de berlindas e cavallos,—de tudo, menos dos seus versos ou prosas. Elle respondia-me, a principio com animação, depois mais frouxo, torcia a redea da conversa para o seu assumpto delle, abria um livro, perguntava-me se tinha algum trabalho novo, e eu dizia-lhe que sim ou que não, mas torcia a redea para o outro lado, e lá ia elle atraz de mim, até que empacava de todo e saía triste. Minha intenção era fazel-o duvidar de si mesmo, desanimal-o, eliminal-o. E tudo isto a olhar para a ponta do nariz...

Nariz, consciencia sem remorsos, tu me valeste muito na vida... Já meditaste alguma vez no destino do nariz, amado leitor? A explicação do doutor Pangloss é que o nariz foi creado para uso dos oculos,—e tal explicação confesso que até certo tempo me pareceu definitiva; mas veiu um dia, em que, estando a ruminar esse e outros pontos obscuros de philosophia, atinei com a unica, verdadeira e definitiva explicação.

Com effeito, bastou-me attentar no costume do fakir. Sabe o leitor que o fakir gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz, com o fim unico de ver a luz celeste. Quando elle finca os olhos na ponta do nariz, perde o sentimento das cousas externas, embelleza-se no invisivel, apprehende o impalpavel, desvincula-se da terra, dissolve-se, etherisa-se. Essa sublimação do ser pela ponta do nariz é o phenomeno mais excelso do espirito; e a faculdade de a obter não pertence ao fakir sómente; é universal. Cada homem tem necessidade e poder de contemplar o seu proprio nariz, para o fim de ver a luz celeste; e tal contemplação, cujo effeito é a subordinação do universo a um nariz sómente, constitue o equilibrio das sociedades. Se os narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o genero humano não chegaria a durar dois séculos: extinguia-se com as primeiras tribos.

Ouço daqui uma objecção do leitor:—Como pode ser assim, diz elle, se nunca jamais ninguem não viu estarem os homens a contemplar o seu proprio nariz?

Leitor obtuso, isso prova que nunca entraste no cerebro de um chapeleiro. Um chapeleiro passa por uma loja de chapeus; é a loja de um rival, que a abriu ha dois annos; tinha então duas portas, hoje tem quatro; promette ter seis e oito. Nas vidraças ostentam-se os chapeus do rival; pelas portas entram os freguezes do rival; e o chapeleiro compara aquella loja com a sua, que é mais antiga e tem só duas portas, e aquelles chapeus com os seus, menos buscados, ainda que de egual preço. Mortifica-se naturalmente; mas vae andando, concentrado, com os olhos para baixo ou para a frente, a indagar as causas da prosperidade do outro e do seu proprio atrazo, quando elle chapeleiro é muito melhor chapeleiro do que o outro chapeleiro... Nesse instante é que os olhos se fixam na ponta do nariz.

A conclusão, portanto, é que ha duas forças capitaes: o amor, que multiplica a especie, e o nariz, que a subordina ao individuo. Procreação, equilibrio.

—Quem chegou de S. Paulo foi minha prima Virgilia, casada com o Lobo Neves, continuou o Luiz Dutra.

—Ah!

—E só hoje é que eu soube uma cousa, seu maganão...

—Que foi?

—Que você quiz casar com ella.

—Idéas de meu pae. Quem lhe disse isso?

—Ella mesma. Falei-lhe muito em você, e ella então contou-me tudo.

No dia seguinte, estando na rua do Ouvidor, á porta da typographia do Plancher, vi assomar, a distancia, uma mulher esplendida. Era ella; só a reconheci a poucos passos, tão outra estava, a tal ponto a natureza e a arte lhe haviam dado o ultimo apuro. Cortejámo-nos; ella seguiu; entrou com o marido na carruagem, que os esperava um pouco acima; eu fiquei attonito.

Oito dias depois, encontrei-a num baile; creio que chegámos a trocar duas ou tres palavras. Mas n'outro baile, dado dahi a um mez, em casa de uma senhora, que ornara os salões do primeiro reinado, e não desornava então os do segundo, a aproximação foi maior e mais longa, porque conversámos e valsámos. A valsa é uma deliciosa cousa. Valsámos; e não nego que, ao conchegar ao meu corpo aquelle corpo flexivel e magnifico, tive uma singular sensação, uma sensação de homem roubado.

—Está muito calor, disse ella, logo que acabámos. Vamos ao terraço?

—Não; pode constipar-se. Vamos a outra sala.

Na outra sala estava o Lobo Neves, que me fez muitos comprimentos, ácerca dos meus escriptos politicos, accrescentando que nada dizia dos litterarios, por não entender delles; mas os politicos eram excellentes, bem pensados e bem escriptos. Respondi-lhe com eguaes esmeros de cortezia, e separámos-nos contentes um do outro.

Cerca de tres semanas depois recebi um convite delle para uma reunião intima. Fui; Virgilia recebeu-me com esta graciosa palavra:—O senhor hoje ha de valsar commigo.—Na verdade, eu tinha fama e era valsista emerito; não admira que ella me preferisse. Valsámos uma vez, e mais outra vez. Um livro perdeu Francesca; cá foi a valsa que nos perdeu. Creio que nessa noite apertei-lhe a mão com muita força, e ella deixou-a ficar, como esquecida, e eu a abraçal-a, e todos com os olhos em nós, e nos outros que tambem se abraçavam e giravam...Um delirio.

—É minha! disse eu commigo, logo que a passei a outro cavalheiro; e confesso que durante o resto da noite, foi-se-me a idéa entranhando no espirito, não á força de martello, mas de verruma, que é mais insinuativa.

—É minha! dizia eu ao chegar á porta de casa.

Mas ahi, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que fosse, se lembrasse de dar algum pasto aos meus arroubos possessorios, luziu-me no chão uma cousa redonda e amarella. Abaixei-me; era uma moeda de ouro, uma meia-dobra.

—É minha! repeti eu a rir-me; e metti-a no bolso.

Nessa noite não pensei mais na moeda; mas no dia seguinte, recordando o caso, senti uns repellões da consciencia, e uma voz que me perguntava porque diabo seria minha uma moeda que eu não herdara nem ganhara, mas sómente achara na rua. Evidentemente não era minha; era de outro, daquelle que a perdera, rico ou pobre, e talvez fosse pobre, algum operario que não teria com que dar de comer á mulher e aos filhos; mas se fosse rico, o meu dever ficava o mesmo. Cumpria restituir a moeda, e o melhor meio, o unico meio, era fazel-o por intermedio de um annuncio ou da policia. Enviei uma carta ao chefe de policia, remettendo-lhe o achado, e rogando-lhe que, pelos meios a seu alcance, fizesse devolvel-o ás mãos do verdadeiro dono.

Mandei a carta e almocei tranquillo, posso até dizer que jubiloso. Minha consciencia valsára tanto na vespera, que chegou a ficar suffocada, sem respiração; mas a restituição da meia dobra foi uma janella que se abriu para o outro lado da moral; entrou uma onda de ar puro, e a pobre dama respirou á larga. Ventilae as consciencias! não vos digo mais nada. Todavia, despido de quaesquer outras circumstancias, o meu acto era bonito, porque exprimia um justo escrupulo, um sentimento de alma delicada. Era o que me dizia a minha dama interior, com um modo austero e meigo a um tempo; é o que ella me dizia, reclinada ao peitoril da janella aberta.

—Fizeste bem, Cubas; andaste perfeitamente. Este ar não é só puro, é balsamico, e uma transpiração dos eternos jardins. Queres ver o que fizeste, Cubas?

E a boa dama sacou um espelho e abriu-m'o deante dos olhos. Vi, claramente vista, a meia dobra da vespera, redonda, brilhante, nitida, multiplicando-se por si mesma,—ser dez—depois trinta—depois quinhentas,—exprimindo assim o beneficio que me daria na vida e na morte o simples acto da restituição. E eu espraiava todo o meu ser na contemplação daquelle acto, revia-me nelle, achava-me bom, talvez grande. Uma simples moeda, hem? Vejam o que é ter valsado um poucochinho mais.

Assim, eu, Braz Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalencia das janellas, e estabeleci que o modo de compensar uma janella fechada é abrir outra, afim de que a moral possa arejar continuamente a consciencia. Talvez não entendas o que ahi fica; talvez queiras uma cousa mais concreta, um embrulho, por exemplo, um embrulho mysterioso. Pois toma lá o embrulho mysterioso.

Foi o caso que, alguns dias depois, indo eu a Botafogo tropecei n'um embrulho, que estava na praia. Não digo bem; houve menos tropeção que pontapé. Vendo um embrulho, não grande, mas limpo e correctamente feito, atado com um barbante rijo, uma cousa que parecia alguma cousa, lembrou-me bater-lhe com o pé, assim por experiencia, e bati, e o embrulho resistiu. Relanceei os olhos em volta de mim; a praia estava deserta; ao longe uns meninos brincavam,—um pescador curava as redes ainda mais longe,—ninguem que pudesse ver a minha acção; inclinei-me, apanhei o embrulho e segui.

Segui, mas não sem receio. Podia ser uma pulha de rapazes. Tive idéa de devolver o achado á praia, mas apalpei-o e rejeitei a idea. Um pouco adeante, desandei o caminho e guiei para casa.

—Vejamos, disse eu ao entrar no gabinete.

E hesitei um instante, creio que por vergonha; assaltou-me outra vez o receio da pulha. É certo que não havia alli nenhuma testemunha externa; mas eu tinha dentro de mim mesmo um garoto, que havia de assoviar, guinchar, grunhir, patear, apupar, cacarejar, fazer o diabo, se me visse abrir o embrulho e achar dentro uma duzia de lenços velhos ou duas duzias de goiabas verdes. Mas era tarde; a curiosidade estava aguçada, como deve estar a do leitor; desfiz o embrulho, e vi... achei... contei... recontei nada menos de cinco contos de reis. Nada menos. Talvez um dez mil reis mais. Cinco contos em boas notas e dobras, tudo aceiadinho e arranjadinho, um achado raro. Embrulhei-as de novo. Ao jantar pareceu-me que um dos moleques falara a outro com os olhos. Ter-me-iam espreitado? Interroguei-os discretamente, e conclui que não. Sobre o jantar, fui outra vez ao gabinete, examinei o dinheiro, e ri-me dos meus cuidados maternaes a respeito de cinco contos,—eu, que era abastado.

Para não pensar mais naquillo fui de noite á casa do Lobo Neves, que instára muito commigo não deixasse de frequentar as recepções da mulher. Lá encontrei o chefe de policia; fui-lhe apresentado; elle lembrou-se logo da carta e da meia dobra que eu lhe remettera alguns dias antes. Aventou o caso; Virgilia pareceu saborear o meu procedimento, e cada um dos presentes acertou de contar uma anecdota analoga, que eu ouvi com impaciencias de mulher hysterica.

De noite, no dia seguinte, em toda aquella semana pensei o menos que pude nos cinco contos, e até confesso que os deixei muito quietinhos na gaveta da secretaria. Gostava de falar de todas as cousas, menos de dinheiro, e principalmente de dinheiro achado; e todavia não era crime achar dinheiro, era uma felicidade, um bom acaso, era talvez um lance da Providencia. Não podia ser outra cousa. Não se perdem cinco contos, como se perde um lenço de tabaco. Cinco contos levam-se com trinta mil sentidos, apalpam-se a miudo, não se lhes tiram os olhos de cima, nem as mãos, nem o pensamento, e para se perderem assim tolamente, n'uma praia, é necessário que... Crime é que não podia ser o achado; nem crime, nem deshonra, nem nada que embaciasse o caracter de um homem. Era um achado, um acerto feliz, como a sorte grande, como as apostas de cavallo, como os ganhos de um jogo honesto; e até direi que a minha felicidade era merecida, porque eu não me sentia máu, nem indigno dos beneficios da Providencia.

—Estes cinco contos, dizia eu commigo, tres semanas depois, hei de empregal-os em alguma acção bôa, talvez um dote a alguma menina pobre, ou outra cousa assim... hei de ver...

Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do Brazil. Lá me receberam com muitas e delicadas allusões ao caso de meia dobra, cuja noticia andava já espalhada entre as pessoas do meu conhecimento; respondi enfadado que a cousa não valia a pena de tamanho estrondo; louvaram-me então a modestia,—e porque eu me encolerisasse, replicaram-me que era simplesmente grande.

Virgilia é que já se não lembrava da meia dobra; toda ella estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu pensamento;—era o que dizia, e era verdade.

Ha umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias e pecas. O nosso amor era daquellas; brotou com tal impeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante creatura dos bosques. Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias que durou esse crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite, abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quizerem chamar, um beijo que ella me deu, tremula,—coitadinha,—tremula de medo, porque era ao portão da chacara, á vista das estrellas,—das castas estrellas de Othello,—you chaste stars!Uniu-nos esse beijo unico,—breve como a occasião, ardente como o amor, prologo de uma vida de delicias, de terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de afflicções que desabrochavam em alegria,—uma hypocrisia paciente e systematica, unico freio de uma paixão sem freio,—vida de agitações, de coleras, de desesperos e de ciumes, que uma hora pagava á farta e de sobra; mas outra hora vinha e engolia aquella, como tudo mais, para deixar á tona as agitações e o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a saciedade: tal foi o livro daquelle prologo.

Saí dalli a saborear o beijo. Não pude dormir; estirei-me na cama, é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas da noite. Usualmente, quando eu perdia o somno, o bater da pendula fazia-me muito mal; essetic-tacsoturno, vagaroso e secco parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um velho diabo, sentado entre dous saccos, o da vida e da morte, a tirar as moedas da vida para dal-as á morte, e a contal-as assim:

—Outra de menos...

—Outra de menos...

—Outra de menos...

—Outra de menos...

O mais singular é que, se o relogio parava, eu dava-lhe corda, para que elle não deixasse de bater nunca, e eu pudesse contar todos os meus instantes perdidos. Invenções ha, que se transformam ou acabam; as mesmas instituições morrem; o relogio é definitivo e perpetuo. O derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, hade ter um relogio na algibeira, para saber a hora exacta em que morre.

Naquella noite não padeci essa triste sensação de enfado, mas outra, e deleitosa. As phantasias tumultuavam-me cá dentro, vinham umas sobre outras, á semelhança de devotas que se abalroam para ver o anjo-cantor das procissões. Não ouvia os instantes perdidos, mas os minutos ganhados; e de certo tempo em diante não ouvi cousa nenhuma, porque o meu pensamento, ardiloso e traquinas, saltou pela janella fóra e bateu as azas na direcção da casa de Virgilia. Ahi achou ao peitoril de uma janella o pensamento de Virgilia, saudaram-se e ficaram de palestra. Nós a rolarmos na cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os dous vadios alli postos, a repetirem o velho dialogo de Adão e Eva.

BRAZ CUBAS

.   .   .   . ?

VIRGILIA

.   .

BRAZ CUBAS

.      .      .   .   .   .      .      .   .

.         .       .

VIRGILIA

.       .  . !

BRAZ CUBAS

.         .

VIRGILIA

.   .   .     .            .       .       .   .   ..   .   .  .  .         ?  .   .       .   .   ..   .   .  .  .            .   .   .   .   .   .   .

BRAZ CUBAS

.   .   .   .     .   .

VIRGILIA

.   .   .   .

BRAZ CUBAS

.   .   .   .   .   .   .   .   .   .         .   .   ..   .   .   .   .   .       .   .   .   .     .   .   ..   .   .   .   .       .   .   .   .         !   .   ..   .   !   .       .   .   .   .   .             .   ..   .   .   .   .   .   .       .   .      .   .      !

VIRGILIA

.   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .      .   .?

BRAZ CUBAS

.   .   .   .   .!

VIRGILIA

.   .   .   .   .!

Mas, com a breca! quem me explicará a razão desta differença? Um dia vimo-nos, tratámos o casamento, desfizemol-o e separamo-nos, a frio, sem dor, porque não houvera paixão nenhuma; mordeu-me apenas algum despeito e nada mais. Correm annos, torno a vel-a, damos tres ou quatro giros de valsa, e eis-nos a amar um ao outro com delirio. A belleza de Virgilia chegára, é certo, a um alto gráu de apuro, mas nós eramos substancialmente os mesmos, e eu, á minha parte, não me tornára mais bonito nem mais elegante. Quem me explicará a razão dessa differença?

A razão não podia ser outra senão o momento opportuno. Não era opportuno o primeiro momento, porque, se nenhum de nós estava verde para o amor, ambos o estavamos para onossoamor: distincção fundamental. Não ha amor possivel sem a opportunidade dos sujeitos. Esta explicação achei-a eu mesmo, dous annos depois do beijo, um dia em que Virgilia se me queixava de um pintalegrete que lá ia e tenazmente a galanteava.

—Que importuno! dizia ella fazendo uma careta de raiva.

Estremeci, fitei-a, vi que a indignação era sincera; então occorreu-me que talvez eu tivesse provocado alguma vez aquella mesma careta, e comprehendi logo toda a grandeza da minha evolução. Tinha vindo de importuno a opportuno.

Sim, senhor, amavamos. Agora, que todas as leis sociaes nol-o impediam, agora é que nos amavamos devéras. Achavamo-nos jungidos um ao outro, como as duas almas que o poeta encontrou no Purgatorio:

Di pari, come buoi, che vanno a giogo;

e digo mal, comparando-nos a bois, porque nós eramos outra especie de animal menos tardo, mais velhaco e lascivo. Eis-nos a caminhar sem saber até onde, nem porque estradas escusas; problema que me assustou, durante algumas semanas, mas cuja solução entreguei ao destino. Pobre Destino! Onde andarás agora, grande procurador dos negocios humanos? Talvez estejas a criar pelle nova, outra cara, outras maneiras, outro nome, e não é impossivel que... Já me não lembra onde estava... Ah! nas estradas escusas. Disse eu commigo que já agora seria o que Deus quisesse. Era a nossa sorte amar-nos; se assim não fora, como explicariamos a valsa e o resto? Virgilia pensava a mesma cousa. Um dia, depois de me confessar que tinha momentos de remorsos, como eu lhe dissesse que, se tinha remorsos, é porque me não tinha amor, Virgilia cingiu-me com os seus magnificos braços, murmurando:

—Amo-te, é a vontade do céu.

E esta palavra não vinha á toa; Virgilia era um pouco religiosa. Não ouvia missa aos domingos, é verdade, e creio até que só ia ás igrejas em dia de festa, e quando havia logar vago em alguma tribuna. Mas rezava todas as noites, com fervor, ou, pelo menos, com somno. Tinha medo ás trovoadas; nessas occasiões, tapava os ouvidos, e resmoneava todas as orações do catecismo. Na alcova della havia um oratoriosinho de jacarandá, obra de talha, de tres palmos de altura, com tres imagens dentro; mas não falava delle ás amigas; ao contrario, taxava de beatas as que eram só religiosas. Algum tempo desconfiei que havia nella certo vexame de crer, e que a sua religião era uma especie de camisa de flanella, preservativa e clandestina; mas evidentemente era engano meu.

O Lobo Neves, a principio, mettia-me grandes sustos. Pura illusão! Como adorasse a mulher, não se vexava de m'o dizer muitas vezes; achava que Virgilia era a perfeição mesma, um conjunto de qualidades solidas e finas, amoravel, elegante, austera, um modelo. E a confiança não parava ahi. De fresta que era, chegou a porta escancarada. Um dia confessou-me que trazia uma triste carcoma na existencia; faltava-lhe a gloria publica. Animei-o; disse-lhe muitas cousas bonitas, que elle ouviu com aquella uncção religiosa de um desejo que não quer acabar de morrer; então comprehendi que a ambição delle andava cançada de bater as azas, sem poder abrir o vôo. Dias depois disse-me todos os seus tedios e desfallecimentos, as amarguras engolidas, as raivas sopitadas; contou-me que a vida politica era um tecido de invejas, despeitos, intrigas, perfidias, interesses, vaidades. Evidentemente havia ahi uma crise de melancolia; tratei de combatel-a.

—Sei o que lhe digo, replicou-me com tristeza. Não póde imaginar o que tenho passado. Entrei na politica por gosto, por familia, por ambição, e um pouco por vaidade. Já vê que reuni em mim só todos os motivos que levam o homem á vida publica; faltou-me só o interesse de outra natureza. Vira o theatro pelo lado da platéa; e, palavra, que era bonito! Soberbo scenario, vida, movimento e graça na representação. Escripturei-me; deram-me um papel que... Mas para que o estou a fatigar com isto? Deixe-me ficar com as minhas amofinações. Creia que tenho passado horas e dias... Não ha constancia de sentimentos, não ha gratidão, não ha nada... nada... nada...

Calou-se, profundamente abatido, com os olhos no ar, parecendo não ouvir cousa nenhuma, a não ser o echo de seus proprios pensamentos. Após alguns instantes, ergueu-se e estendeu-me a mão:—O senhor ha de rir-se de mim, disse elle; mas desculpe aquelle desabafo; tinha um negocio, que me mordia o espirito. E ria, de um geito sombrio e triste; depois pediu-me que não referisse a ninguem o que se passara entre nós; ponderei-lhe que a rigor não se passara nada. Entraram dous deputados e um chefe politico da parochia. O Lobo Neves recebeu-os com alegria, a principio um tanto postiça, mas logo depois natural. No fim de meia hora, ninguem diria que elle não era o mais afortunado dos homens; conversava, chasqueava, e ria, e riam todos.

Deve ser um vinho bem energico a politica, dizia eu commigo, ao sair da casa de Lobo Neves; e fui andando, fui andando, até que na rua dos Barbonos vi uma sege, e dentro um dos ministros, meu antigo companheiro de collegio. Cortejámo-nos affectuosamente, a sege seguiu, e eu fui andando... andando... andando....

—Porque não serei eu ministro?

Esta idéa, rútila e grande,—trajada ao bizarro, como diria o padre Bernardes,—esta idéa começou uma vertigem de cabriolas e eu deixei-me estar com os olhos nella, a achar-lhe graça. E não pensei mais na tristeza de Lobo Neves; senti a attracção do abysmo. Recordei aquelle companheiro de collegio, as correrias nos morros, as alegrias e travessuras, e comparei o menino com o homem, o perguntei a mim mesmo porque não seria eu como elle. Entrava então no Passeio Publico; e tudo me parecia dizer a mesma cousa.—Porque não serás ministro, Cubas?—Cubas, porque não serás ministro de Estado? Ao ouvil-o, uma deliciosa sensação me refrescava todo o systema. Entrei, fui sentar-me n'um banco, a cavar commigo aquella idéa. E Virgilia que havia de gostar! Alguns minutos depois vejo encaminhar-se para mim uma cara, que me não pareceu desconhecida. Conhecia-a, fosse d'onde fosse.

Imaginem um homem de trinta e oito a quarenta annos, alto, magro e pallido. As roupas, salvo o feitio, pareciam ter escapado ao captiveiro de Babylonia; o chapéu era contemporaneo do de Gessler. Imaginem agora uma sobrecasaca, mais larga do que pediam as carnes,—ou, litteralmente, os ossos da pessoa; a côr preta ia cedendo o passo a um amarello sem brilho; o pello desapparecia aos poucos; dos oito primitivos botões restavam tres. As calças, de brim pardo, tinham duas fortes joelheiras, em quanto as bainhas eram roidas pelo tacão de um botim sem misericordia nem graxa. Ao pescoço fluctuavam as pontas de uma gravata de duas cores, ambas desmaiadas, apertando um collarinho de oito dias. Creio que trazia tambem collete, um collete de seda escura, roto a espaços, e desabotoado.

—Aposto que me não conhece, Sr. Dr. Cubas? disse elle.

—Não me lembra...

—Sou o Borba, o Quincas Borba.

Recuei espantado... Quem me dera agora o verbo solemne de um Bossuet ou de Vieira, para contar tamanha desolação! Era o Quincas Borba, o gracioso menino de outro tempo, o meu companheiro de collegio, tão intelligente e abastado. O Quincas Borba! Não, impossível; não pode ser. Não podia acabar de crer que essa figura esqualida, essa barba pintada de branco, esse maltrapilho avelhentado, que toda essa ruina fosse o Quincas Borba. E era. Os olhos tinham um resto da expressão de outro tempo; e o sorriso não perdera certo ar escarninho, que lhe era peculiar. Entretanto, elle supportava com firmeza o meu espanto. No fim de algum tempo arredei os olhos; se a figura repellia, a comparação acabrunhava.

—Não é preciso contar-lhe nada, disse elle emfim; o senhor adivinha tudo. Uma vida de miserias, de attribulações e de lutas. Lembra-se das nossas festas, em que eu figurava de rei? Que trambolhão! Acabo mendigo...

E alçando a mão direita e os hombros, com um ar de indifferença, parecia resignado aos golpes da fortuna, e não sei até se contente. Talvez contente. Com certeza, impassivel. Não havia nelle a resignação christã, nem a conformidade philosophica. Parece que a miseria lhe callejàra a alma, a ponto de lhe tirar a sensação da lama. Arrastava os andrajos, como outr'ora a purpura: com certa graça indolente.

—Procure-me, disse eu, poderei arranjar-lhe alguma cousa.

Um sorriso magnifico lhe abriu os labios.—Não é o primeiro que me promette alguma cousa, replicou; e não sei se será o ultimo que não me fará nada. E para que? Eu nada peço, a não ser dinheiro; dinheiro sim, porque é necessario comer, e as casas de pasto não fiam. Nem as quitandeiras. Uma cousa de nada, uns dous vintens de angú, nem isso fiam as malditas quitandeiras.... Um inferno, meu... ia dizer meu amigo.... Um inferno! o diabo! todos os diabos! Olhe, ainda hoje não almocei.

—Não?

—Não; saí muito cedo de casa. Sabe onde moro? No terceiro degráu das escadas de S. Francisco, á esquerda de quem sobe; não precisa bater na porta. Casa fresca, extremamente fresca. Pois saí cedo, e ainda não comi...

Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil réis,—a menos limpa,—e dei-lh'a. Elle recebeu-m'a com os olhos scintillantes de cobiça. Levantou a nota ao ar, e agitou-a enthusiasmado.

—In hoc signo vinces!bradou.

E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e tão ruidosa expansão, que me produziu um sentimento mixto de nôjo e lastima. Elle, que era arguto, entendeu-me; ficou serio, grotescamente serio, e pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre que não via, desde muitos annos, uma nota de cinco mil réis.

—Pois está em suas mãos ver outras muitas, disse eu.

—Sim? acudiu elle, dando um bote para mim.

—Trabalhando, conclui eu.

Fez um gesto de desdem; calou-se alguns instantes; depois disse-me positivamente que não queria trabalhar. Eu estava enjoado dessa abjecção tão comica e tão triste, e preparei-me para sair.

—Não vá sem eu lhe ensinar a minha philosophia da miseria, disse elle, escarranchando-se diante de mim.

Cuidei que o pobre diabo estivesse doudo, e ia afastar-me, quando elle me pegou no pulso, e olhou alguns instantes para o brilhante que eu trazia no dedo. Senti-lhe na mão uns estremeções de cobiça, uns pruridos de posse.

—Magnifico! disse elle.

Depois começou a andar á roda de mim e a examinar-me muito.

—O senhor trata-se, disse elle. Joias, roupa fina, elegante e... Compare esses sapatos aos meus; que differença! Podera não! Digo-lhe que se trata. E moças? Como vão ellas? Está casado?

—Não...

—Nem eu.

—Móro na rua...

—Não quero saber onde móra, atalhou o Quincas Borba. Se alguma vez nos virmos, dê-me outra nota de cinco mil réis; mas permitta-me que não a vá buscar a sua casa. É uma especie de orgulho.... Agora, adeus; vejo que está impaciente.

—Adeus!

—E obrigado. Deixa-me agradecer-lhe de mais perto?

E dizendo isto abraçou-me com tal impeto, que eu não pude evital-o. Separamo-nos finalmente, eu a passo largo, com a camisa amarrotada do abraço, enfadado e triste. Já não dominava em mim a parte sympathica da sensação, mas a outra. Quizera ver-lhe a miseria digna. Comtudo, não pude deixar de comparar outra vez o homem de agora com o de outr'ora, entristecer-me, e encarar o abysmo que separa as esperanças de um tempo da realidade de outro tempo...

—Ora adeus! Vamos jantar, disse commigo.

Metto a mão no collete e não acho o relogio. Ultima desillusão! o Borba furtára-m'o no abraço.

Jantei triste. Não era a falta do relogio que me pungia, era a imagem do autor do furto, e as reminiscencias de criança, e outra vez a comparação, e a conclusão... Desde a sopa, começou a abrir em mim a flor amarella e morbida do cap. XXV, e então jantei depressa, para correr á casa de Virgilia. Virgilia era o presente; eu queria refugiar-me nelle, para escapar ás oppressões do passado, porque o encontro do Quincas Borba tornara-me aos olhos o passado, não qual fora devéras, mas um passado roto, abjecto, mendigo e gatuno.

Saí de casa, mas era cedo; iria achal-os á mesa. Outra vez pensei no Quincas Borba, e tive então um desejo de tornar ao Passeio Publico, a ver se o achava; a idéa de o regenerar surgiu-me como uma forte necessidade. Fui; mas já não o achei. Indaguei do guarda; disse-me que effectivamente «esse sujeito» ia por alli ás vezes.

—A que horas?

—Não tem hora certa.

Não era impossivel encontral-o n'outra occasião; prometti a mim mesmo lá voltar. A necessidade de o regenerar, de o trazer ao trabalho e ao respeito de sua pessôa enchia-me o coração; eu começava a sentir um bem-estar, uma elevação, uma admiração de mim proprio... Nisto caía a noite; fui ter com Virgilia.

Fui ter com Virgilia; bem depressa esqueci o Quincas Borba. Virgilia era o travesseiro do meu espirito, um travesseiro molle, tepido, aromatico, enfronhado em cambraia e bruxellas. Era alli que elle costumava repousar de todas as sensações más, simplesmente enfadonhas, ou até dolorosas. E, bem pesadas as cousas, não era outra a razão da existencia de Virgilia; não podia ser. Cinco minutos bastaram para olvidar inteiramente o Quincas Borba; cinco minutos de uma contemplação mutua, com as mãos presas umas nas outras; cinco minutos e um beijo. E lá se foi a lembrança do Quincas Borba... Escrofula da vida, andrajo do passado, que me importa que existas, que molestes os olhos dos outros, se eu tenho dous palmos de um travesseiro divino, para fechar os olhos e dormir?

Ai! nem sempre dormir. Tres semanas depois, indo á casa de Virgilia,—eram quatro horas da tarde,—achei-a triste e abatida. Não me quiz dizer o que era; mas, como eu instasse muito:

—Creio que o Damião desconfia alguma cousa. Noto agora umas exquisitices nelle... Não sei... Trata-me bem, não ha duvida; mas o olhar parece que não é o mesmo. Durmo mal; ainda esta noite acordei, aterrada; estava sonhando que elle me ia matar. Talvez seja illusão, mas eu penso que elle desconfia...

Tranquillisei-a como pude; disse que podiam ser cuidados politicos. Virgilia concordou que seriam, mas ficou ainda muito excitada e nervosa. Estavamos na sala de visitas, que dava justamente para a chacara, onde trocáramos o beijo inicial. Uma janella aberta deixava entrar o vento, que sacudia frouxamente as cortinas; e eu fiquei a olhar para as cortinas, sem as ver. Empunhára o binoculo da imaginação; lobrigava, ao longe, uma casa nossa, uma vida nossa, um mundo nosso, em que não havia Lobo Neves, nem casamento, nem moral, nem nenhum outro liame, que nos tolhesse a expansão da vontade. Esta idéa embriagou-me; eliminados assim o mundo, a moral e o marido, não haveria mais do que penetrar naquella habitação dos anjos.

—Virgilia, disse eu, proponho-te uma cousa.

—Que é?

—Amas-me?

—Oh! suspirou ella, cingindo-me os braços ao pescoço.

Virgilia amava-me com furia; aquella resposta era a verdade patente. Com os braços ao meu pescoço, calada, respirando muito, deixou-se ficar a olhar para mim, com os seus grandes e bellos olhos, que davam uma sensação singular de luz humida; e eu deixei-me estar a vel-os, a namorar-lhe a boca, fresca como a madrugada, e insaciavel como a morte. A belleza de Virgilia tinha agora um tom grandioso, que não possuira antes de casar. Era dessas figuras talhadas em pentelico, de um lavor nobre, rasgado e puro, tranquillamente bella, como as estatuas, mas não apathica nem fria. Ao contrario, tinha o aspecto das naturezas calidas, e podia-se dizer, que, na realidade, resumia todo o amor. Resumia-o sobretudo naquella occasião, em que exprimia mudamente tudo quanto póde dizer a pupilla humana. Mas o tempo urgia; deslacei-lhe as mãos, peguei-lhe nos pulsos, e, fito nella, perguntei-lhe se tinha coragem.

—De que?

—De fugir. Iremos para onde nos fôr mais commodo, uma casa grande ou pequena, á tua vontade, na roça ou na cidade, ou na Europa, onde te parecer, onde ninguem nos aborreça, e não haja perigos para ti, onde vivamos um para o outro... Sim? fujamos. Tarde ou cedo, elle póde descobrir alguma cousa, e estarás perdida... ouves? perdida... morta... e elle tambem, porque eu o matarei, juro-te.

Interrompi-me; Virgilia empallidecêra muito, deixou cair os braços e sentou-se no canapé. Esteve assim alguns instantes, sem me dizer palavra, não sei se vacillante na escolha, se aterrada com a idéa da descoberta e da morte. Fui-me a ella, insisti na proposta, disse-lhe todas as vantagens de uma vida a sós, sem zelos, nem terrores, nem afflicções. Virgilia ouvia-me calada; depois disse:

—Não escapariamos talvez; elle iria ter commigo e matava-me do mesmo modo.

Mostrei-lhe que não. O mundo era assás vasto, e eu tinha os meios de viver onde quer que houvesse ar puro e muito sol; elle não chegaria até lá; só as grandes paixões são capazes de grandes acções, e elle não a amava tanto que pudesse ir buscal-a, se ella estivesse longe. Virgilia fez um gesto de espanto e quasi indignação; murmurou que o marido gostava muito della.

—Póde ser, respondi eu; póde ser que sim...

E fui até a janella, e comecei a assobiar e a rufar com os dedos no peitoril, Virgilia chamou-me; eu deixei-me estar, a remoer os meus zelos, a desejar estrangular o marido, se o tivesse alli á mão... Justamente, nesse instante, entrou na chacara o Lobo Neves. Não tremas assim, leitora pallida; descança, que não hei de rubricar esta lauda com um pingo de sangue. Logo que o Lobo Neves entrou na chacara, fiz-lhe um gesto amigo, acompanhado de uma palavra graciosa; Virgilia retirou-se apressadamente da sala, e elle entrou dahi a tres minutos.

—Está cá ha muito tempo? disse-me elle.

—Não.

Entrára serio, pesado, derramando os olhos de um modo distrahido, costume seu, que trocou logo por uma verdadeira expansão de jovialidade, quando viu, chegar o filho, o nhonhô, o futuro bacharel do cap. VIII; tomou-o nos braços, levantou-o ao ar, beijou-o muitas vezes. Eu, que tinha odio ao menino, afastei-me de ambos. Virgilia tornou á sala.

—Ah! respirou o Lobo Neves, sentando-se preguiçosamente no sophá.

—Cançado? perguntei eu.

—Muito; aturei duas massadas de primeira ordem, uma na camara e outra na rua. E ainda temos terceira, accrescentou, olhando para a mulher..

—Que é? perguntou Virgilia.

—Um... Adivinha!

Virgilia sentara-se ao lado delle, pegou-lhe n'uma das mãos, compoz-lhe a gravata, e tornou a perguntar o que era.

—Nada menos que um camarote.

—Para a Candiani?

—Para a Candiani.

Virgilia bateu palmas, levantou-se, deu um beijo no filho, com um ar de alegria pueril, que destoava muito da figura; depois perguntou se o camarote era de boca ou do centro, consultou o marido, em voz baixa, acerca datoiletteque faria, da opera que se cantava, e de não sei que outras cousas.

—Você janta comnosco, doutor, disse-me o Lobo Neves.

—Veiu para isso mesmo, confirmou a mulher; diz que você possue o melhor vinho do Rio de Janeiro.

—Nem por isso bebe muito.

Ao jantar, desmenti-o; bebi mais do que costumava; ainda assim, menos do que era preciso para perder a razão. Já estava excitado, fiquei urn pouco mais. Era a primeira grande colera que eu sentia contra Virgilia. Não olhei uma só vez para ella durante o jantar; falei de politica, da imprensa, do ministerio, creio que falaria de theologia, se a soubesse, ou se me lembrasse. O Lobo Neves acompanhava-me com muita placidez e dignidade, e até com certa benevolencia superior; e tudo aquillo me irritava tambem, e me tornava mais amargo e longo o jantar. Despedi-me apenas nos levantámos da mesa.

—Até logo, não? perguntou o Lobo Neves.

—Póde ser.

E saí.

Vaguei pelas ruas e recolhi-me ás nove horas. Não podendo dormir, atirei-me a ler e escrever. Ás onze horas estava arrependido de não ter ido ao theatro, consultei o relogio, quiz vestir-me, e saír. Julguei, porém, que chegaria tarde; demais, era dar prova de fraqueza. Evidentemente, Virgilia começava a aborrecer-se de mim, pensava eu. E esta idéa fez-me successivamente desesperado e frio, disposto a esquecel-a e a matal-a. Via-a d'alli mesmo, reclinada no camarote, com os seus magnificos braços nús,—os braços que eram meus, só meus,—fascinando os olhos de todos, com o vestido soberbo que havia de ter, o collo de leite, os cabellos postos em bandós, á maneira do tempo, e os brilhantes, menos luzidios que os olhos della... Via-a assim, e doía-me que a vissem outros. Depois, começava a despil-a, a pôr de lado as joias e sedas, a despenteal-a com as minhas mãos sofregas e lascivas, a tornal-a,—não sei se mais bella, se mais natural,—a tornal-a minha, sómente minha, unicamente minha.

No dia seguinte, não me pude ter; fui cedo á casa de Virgilia; achei-a com os olhos vermelhos de chorar.

—Que houve? perguntei.

—Você não me ama, foi a sua resposta; nunca me teve a menor somma de amor. Tratou-me hontem como se me tivesse odio. Se eu ao menos soubesse o que é que fiz! Mas não sei. Não me dirá o que foi?

—Que foi o que? Creio que não houve nada.

—Nada? Tratou-me como não se trata um cachorro...

A esta palavra, peguei-lhe nas mãos, beijei-as, e duas lagrimas rebentaram-lhe dos olhos.

—Acabou, acabou, disse eu.

Não tive animo de arguir, e, aliás, arguil-a de que? Não era culpa della se o marido a amava. Disse-lhe que não me fizera cousa nenhuma, que eu tinha necessariamente ciumes do outro, que nem sempre o podia supportar de cara alegre; accrescentei que talvez houvesse nelle muito de dissimulação, e que o melhor meio de fechar a porta aos sustos e ás dissensões era aceitar a minha idéa da vespera.

—Pensei nisso, acudiu Virgilia; uma casinha só nossa, solitaria, mettida n'um jardim, em alguma rua escondida, não é? Acho a idéa boa; mas para que fugir?

Disse isto com o tom ingenuo e preguiçoso de quem não cuida em mal, e o sorriso que lhe derreava os cantos da boca trazia a mesma expressão de candidez. Então, afastando-me, respondi:

—Você é que nunca me teve amor.

—Eu?

—Sim, é uma egoista! prefere ver-me padecer todos os dias... é uma egoista sem nome!

Virgilia desatou a chorar, e para não attrahir gente, mettia o lenço na boca, recalcava os soluços; explosão que me desconcertou. Se alguem a ouvisse, perdia-se tudo. Inclinei-me para ella, travei-lhe dos pulsos, susurrei-lhe os nomes mais doces da nossa intimidade; mostrei-lhe o perigo; o terror apaziguou-a.

—Não posso, disse ella dahi a alguns instantes; não deixo meu filho; se o levar, estou certa de que elle me irá buscar ao fim do mundo. Não posso; mate-me você, se o quizer, ou deixe-me morrer... Ah! meu Deus! meu Deus!

—Socegue; olhe que podem ouvil-a.

—Que ouçam! Não me importa.

Estava ainda excitada; pedi-lhe que esquecesse tudo, que me perdoasse, que eu era um doudo, mas que a minha insania provinha della e com ella acabaria. Virgilia enxugou os olhos e estendeu-me a mão. Sorrimos ambos; minutos depois, tornavamos ao assumpto da casinha solitaria, em alguma rua escusa...

Interrompeu-nos o rumor de um carro na chacara. Veiu um escravo dizer que era a baroneza X. Virgilia consultou-me com os olhos.

—Se a senhora está assim com dor de cabeça, disse eu, parece que o melhor é não receber.

—Já se apeou? perguntou Virgilia ao escravo.

—Já se apeou; diz que precisa muito de falar com sinhá!

—Que entre!

A baroneza entrou dahi a pouco. Não sei se contava commigo na sala; mas era impossivel mostrar maior alvoroço.

—Bons olhos o vejam! explodiu ella. Onde se mette o senhor que não apparece em parte nenhuma? Pois olhe, hontem admirou-me não o ver no theatro. A Candiani esteve deliciosa. Que mulher! Gosta da Candiani? É natural. Os senhores são todos os mesmos. O barão dizia hontem, no camarote, que uma só italiana vale por cinco brazileiras. Que desaforo! e desaforo de velho, que é peor. Mas porque é que o senhor não foi hontem ao theatro?

—Uma enxaqueca.

—Qual! Algum namoro; não acha, Virgilia? Pois, meu amigo, apresse-se, porque o senhor deve estar com quarenta annos... ou perto disso... Não tem quarenta annos?

—Não lhe posso dizer com certeza, respondi eu; mas se me dá licença, vou consultar a certidão de baptismo.

—Vá, vá... E estendendo-me a mão:—Até quando? Sabbado ficamos em casa; o barão está com umas saudades suas...

Chegando á rua, arrependi-me de ter saído. A baroneza era uma das pessoas que mais desconfiavam de nós. Cincoenta e cinco annos, que pareciam quarenta, macia, risonha, vestigios de belleza, porte elegante e maneiras finas. Não falava muito nem sempre; possuia a grande arte de escutar os outros, espiando-os; reclinava-se então na cadeira, desembainhava um olhar afiado e comprido, e deixava-se estar. Os outros, não sabendo o que era, falavam, olhavam, gesticulavam, ao tempo que ella olhava só, ora fixa, ora mobil, levando a astucia ao ponto de olhar ás vezes para dentro de si, porque deixava cair as palpebras; mas, como as pestanas eram rotulas, o olhar continuava o seu officio, remexendo a alma e a vida dos outros.

A segunda pessoa era um parente de Virgilia, o Viegas, um cangalho de setenta invernos, chupado e amarellado, que padecia de um rheumatismo teimoso, de uma asthma não menos teimosa e de uma lesão do coração: era um hospital concentrado. Os olhos porém luziam de muita vida e saúde. Virgilia, nas primeiras semanas, não lhe tinha medo nenhum; dizia-me que, quando o Viegas parecia espreitar, com o olhar fixo, estava simplesmente contando dinheiro. Com effeito, era um grande avaro.

Havia ainda o primo de Virgilia, o Luiz Dutra, que eu, entretanto, desarmava á força de lhe falar nos versos e prosas, e de o apresentar aos conhecidos. Quando estes, ligando o nome á pessoa, se mostravam contentes da apresentação, não ha duvida que o Luiz Dutra exultava de felicidade; mas eu curava-me da felicidade com a esperança de que elle nos não denunciasse nunca. Havia, emfim, umas duas ou tres senhoras, vários gamenhos, e os famulos, que naturalmente se desforravam assim da condição servil, e tudo isso constituia uma verdadeira floresta de olheiros e escutas, por entre os quaes tinhamos de resvalar com a tactica e maciez das cobras.

Ora, emquanto eu pensava naquella gente, iam-me as pernas levando, ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei á porta do hotel Pharoux. De costume jantava ahi; mas, não tendo deliberadamente andado, nenhum merecimento da acção me cabe, e sim ás pernas, que a fizeram. Abençoadas pernas! E ha quem vos trate com desdem ou indifferença. Eu mesmo, até então, tinha-vos em má conta, zangava-me quando vos fatigaveis, quando não podieis ir além de certo ponto, e me deixaveis com o desejo a avoaçar, á semelhança de gallinha atada pelos pés.

Aquelle caso, porém, foi um raio de luz. Sim, pernas amigas, vós deixastes á minha cabeça o trabalho de pensarem Virgilia, e dissestes uma á outra:—Elle precisa comer, são horas de jantar, vamos levai-o ao Pharoux; dividamos a consciencia delle, uma parte fique lá com a dama, tomemos nós a outra, para que elle vá direito, não abalroe as gentes e as carroças, tire o chapeu aos conhecidos, e finalmente chegue são e salvo ao hotel. E cumpristes á risca o vosso proposito, amaveis pernas, o que me obriga a immortalisar-vos nesta pagina.

Jantei e fui á casa. Lá achei uma caixa de charutos, que me mandára o Lobo Neves, embrulhada em papel de seda, e ornada de fitinhas côr de rosa. Entendi, abri-a, e tirei este bilhete:

«Meu B...«Desconfiam de nós; tudo está perdido; esqueça-me para sempre. Não nos veremos mais. Adeus; esqueça-se da infeliz«V...a»

«Meu B...

«Desconfiam de nós; tudo está perdido; esqueça-me para sempre. Não nos veremos mais. Adeus; esqueça-se da infeliz

«V...a»

Foi um golpe esta carta; não obstante, apenas fechou a noite, corri á casa de Virgilia. Era tempo; estava arrependida. Ao vão de uma janella, contou-me o que se passára com a baroneza. A baroneza disse-lhe francamente que se falára muito, no theatro, na noite anterior, a proposito da minha ausencia do camarote de Lobo Neves; tinham commentado as minhas relações na casa; em suma, eramos objecto da suspeita publica. Conclui dizendo que não sabia o que fazer.

—O melhor é fugirmos, insinuei.

—Nunca, respondeu ella abanando a cabeça.

Vi que era impossivel separar duas cousas que no espirito della estavam inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração publica. Virgilia era capaz de eguaes e grandes sacrificios para conservar ambas as vantagens; e a fuga só lhe deixava uma. Talvez senti alguma cousa semelhante a despeito; mas as comoções daquelles dous dias eram já muitas, e o despeito morreu depressa. Vá lá; arranjemos a casinha.

Com effeito, achei-a, dias depois, expressamente feita, em um recanto da Gamboa. Um brinco! Nova, caiada de fresco, com quatro janellas na frente e duas de cada lado,—todas com venezianas côr de tijolo,—trepadeira nos cantos, jardim na frente; mysterio e solidão. Um brinco!

Convencionámos que iria morar alli uma mulher, conhecida de Virgilia, em cuja casa fora costureira e aggregada. Virgilia exercia sobre ella verdadeira fascinação. Não se lhe diria tudo; ella aceitaria facilmente o resto.

Para mim era aquillo uma situação nova do nosso amor, uma apparencia do posse exclusiva, de dominio absoluto, alguma cousa que me faria adormecer a consciencia o resguardar o decoro. Já estava cançado das cortinas do outro, das cadeiras, do tapete, do canapé, de todas essas cousas, que me traziam aos olhos constantemente a nossa duplicidade. Agora podia evitar os jantares frequentes, o chá de todas as noites, emfim a presença do filho delles, meu complice e meu inimigo. A casa resgatava-me tudo; o mundo vulgar terminaria á porta;—dalli para dentro era o infinito, um mundo eterno, superior, excepcional, nosso, somente nosso, sem leis, sem instituições, sem baronezas, sem olheiros, sem escutas,—um só mundo, um só casal, uma só vida, uma só vontade, uma só affeição,—a unidade moral de todas as cousas pela exclusão das que me eram contrarias.

Taes eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquelle Valongo fóra, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-m'as um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas unicas palavras:

—«Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!» Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada supplica, respondia com uma vergalhada nova.

—Toma, diabo! dizia elle; toma mais perdão, bebado!

—Meu senhor! gemia o outro.

—Cala a boca, besta! replicava o vergalho.

Parei, olhei... Justos ceus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudencio,—o que meu pae libertára alguns annos antes. Cheguei-me; elle deteve-se logo e pediu-me a benção; perguntei-lhe se aquelle preto era escravo delle.

—E, sim, nhonhô.

—Fez-te alguma cousa?

—É um vadio e um bebado muito grande. Ainda hoje deixei elle na quitanda, em quanto eu ia lá embaixo na cidade, e elle deixou a quitanda para ir na venda beber.

—Está bom, perdoa-lhe, disse eu.

—Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bebado!

Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjecturas. Segui caminho, a cavar cá dentro uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido; aliás, seria materia para um bom capitulo, e talvez alegre. Eu gósto dos capitulos alegres; é o meu fraco. Exteriormente, era torvo o episodio do Valongo; mas só exteriormente. Logo que metti mais dentro a faca do raciocinio achei-lhe um miolo gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudencio tinha de se desfazer das pancadas recebidas,—transmittindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixão; elle gemia e soffria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia, trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que elle se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as subtilezas do maroto!

Este caso faz-me lembrar um doudo que conheci. Chamava-se Romualdo e dizia ser Tamerlão. Era a sua grande e unica mania, e tinha uma curiosa maneira de a explicar.

—Eu sou o illustre Tamerlão, dizia elle. Outr'ora fui Romualdo, mas adoeci, e tomei tanto tartaro, tanto tartaro, tanto tartaro, que fiquei Tartaro, e até rei dos Tartaros. O tartaro tem a virtude de fazer Tartaros.

Pobre Romualdo! A gente ria da resposta, mas é provavel que o leitor não se ria, e com razão; eu não lhe acho graça nenhuma. Ouvida, tinha algum chiste; mas assim contada, no papel, e a proposito de um vergalho recebido e transferido, força é confessar que é muito melhor voltar á casinha da Gamboa; deixemos os Romualdos e Prudencios.


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