The Project Gutenberg eBook ofMiragaia: Romance PopularThis ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.Title: Miragaia: Romance PopularAuthor: Visconde de João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett Almeida GarrettRelease date: January 23, 2008 [eBook #24411]Language: PortugueseOriginal publication: Lisboa: Typ. da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis Largo do Pelourinho N.^o 24. MDCCCXLIV.Credits: Produced by Pedro Saborano (produced from scanned imagesof public domain material from Google Book Search)*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK MIRAGAIA: ROMANCE POPULAR ***
This ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.
Title: Miragaia: Romance PopularAuthor: Visconde de João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett Almeida GarrettRelease date: January 23, 2008 [eBook #24411]Language: PortugueseOriginal publication: Lisboa: Typ. da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis Largo do Pelourinho N.^o 24. MDCCCXLIV.Credits: Produced by Pedro Saborano (produced from scanned imagesof public domain material from Google Book Search)
Title: Miragaia: Romance Popular
Author: Visconde de João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett Almeida Garrett
Author: Visconde de João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett Almeida Garrett
Release date: January 23, 2008 [eBook #24411]
Language: Portuguese
Original publication: Lisboa: Typ. da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis Largo do Pelourinho N.^o 24. MDCCCXLIV.
Credits: Produced by Pedro Saborano (produced from scanned imagesof public domain material from Google Book Search)
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MIRAGAIAROMANCE POPULARPELO A. DE ADOZINDA, BERNAL FRANCEZ, ETC.ILLUSTRAÇÕES DOS SRS. BORDALLO E COELHO.LISBOATYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEISLARGO DO PELOURINHO N.º 24.MDCCCXLIV.
Quando dei ésta bagatella aos Srs. Editores dojornal das bellas-artespara encherem algum vão que lhes sobrasse n'aquella tam linda e tam elegante publicação, escrevi, a um canto do proprio rascunho original que não tive paciencia de copear, as seguintes palavras:
«Este romance é uma verdadeira reconstrucção de um monumento antigo. Algumas coplas são textualmente conservadas da tradição popular, e se cantam no meio da historiarezada, ainda hoje repetida por velhas e barbeiros do logar. O conde D. Pedro e os chronistas velhos tambem fabulam cada um a seu modo. O auctor, ou, mais exactamente, o recopilador, seguiu muito pontualmente a narrativa oral do povo, e sobretudo quiz ser fiel ao stylo, modos, e tom de cantar e contar d'elle; sem o quê, é sua íntima persuasão que se não póde restituir a perdida nacionalidade á nossa litteratura.»
O postscriptum, servindo de nota ou commento, sahiu impresso no primeiro número do referido jornal com os dois primeiros cantares do romance, e foi ampliado com algumas observações por extremo lisongeiras dos Srs. Editores, a quem tomára eu auxiliar como elles merecem por sua gentil imprêza, que é a mais bella e das mais uteis que se teem commettido em Portugal.
Devo ao seu favor, não so o terem adornado a minhamiragaiacom as suas graciosas gravuras em madeira que todos teem admirado, mas o permittirem que fizesse com ellas ésta pequena edição em separado com que quero brindar alguns amigos apaixonados, como eu, de nossas antigualhas populares.
É uma folha avulsa do meuromanceiro geralcujo primeiro volume ja está em podêr do público; e lá será reposta em tempo e logar conveniente.
Foi das primeiras coisas d'este genero em que trabalhei; e é a mais antiga reminiscencia de poesia popular que me ficou da infancia, porque eu abri os olhos á primeira luz da razão nos proprios sitios em que se passam as principaes scenas d'este romance. Dos cinco aos dez annos de edade vivi com meus paes n'uma pequena quinta, chamada o «Castello », que tinhamos áquem Doiro, e que se dizia tirar esse nome da vizinhança das ruinas do antigo castello mourisco que alli jazem perto. Com os olhos tapados eu iria ainda hoje achar todos esses sitios marcados pela tradição popular. Muita vez brinquei na fonte do rei Ramiro,--cuja água é deliciosa com effeito; e tenho idêa de me ter custado caro, outra vez, o imitar, com uma gaita da feira de San'Miguel, os toques da bozina de S. M. Leoneza, impoleirado eu, como elle, n'um resto de muralha velha do castello d'elrei Alboazar: o que meu pae desapprovou com tam significante energia, que ainda hoje me lembra tambem.
Assim ólho para ésta pobre Miragaia como para um brinco meu de criança que me apparecesse agora; e quero-lhe--que mal ha n'isso?--quero-lhe como a tal. Não a julguem tambem por mais, que o não vale.
Lisboa 24 de Janeiro 1844.
Ilustração do capítulo I
Noite escura tam formosa,Linda noite sem luar,As tuas estrellas de oiroQuem n'as poderá contar!Como as folhinhas do bosque,Como as areias do mar...Em tantas lettras se escreveO que Deus mandou guardar.Mas guai do homem que se fiaN'essas lettras decifrar!Que a ler no livro de DeusNem anjo póde atinar.Bem ledo está Dom RamiroCom sua dama a folgar;Um perro bruxo judioFoi causa de elle a roubar:Disse-lhe que pelos astrosBem lhe podia affirmarQue Zahara, a flor da belleza,Lhe devia de tocar.E o rei veio de ciladaD'além do Doiro passar,E furtou a linda moira,A irman d'Alboazar.AMilhor, que é terra suaE está á beira do mar,Se acolheu com sua dama,Nem de mais sabe cuidar.Chora a triste da rainha,Não se póde consolar:Deixá-la por [~u]a moiraDeixá-la com tal dezar!E a noite é escura cerrada,Noite negra sem luar,Sosinha no seu balcãoAssim se estava a queixar:--«Rei Ramiro, rei Ramiro,Rei de muito mau pezar,Em que te errei d'alma ou corpo,Que fiz para tal penar?«Diz que é formosa essa moira,Que te soube infeitiçar...Mas tu dizias-me d'antesQue eu era bella sem par.«Que é môça, na flor da vida...Eu, se ainda bem sei contar,Ha tres que tinha vinte annos,Fi-los depois de casar.«Diz que tem os olhos pretos.D'estes que sabem mandar...Os meus são azues, coitados!Não sabem senão chorar.«Zahara, que é flor, lhe chamamA mim, Gaia... Que acertar!Eu fiquei sem alegria,A flor quem lh'a hade voltar?«Oh! quem podéra ser homem,Vestir armas, cavalgar,Que eu me fôra ja direitaA esse moiro Alboazar...»Palavras não eram dittas,Os olhos foi a abaixar,Muitos vultos acercadosAo palacio viu estar.--«Peronella, Peronella,Criada do meu mandar,Que vultos serão aquellesQue por alli vejo andar?»Peronella não responde:Que havia de ella fallar?Riccas peitas de oiro e joiasA tinham feito callar.A rainha que se erguiaPor sua gente a bradar,Sette moiros cavalleirosA foram logo cercar;Soltam prégas de um turbante,A bôcca lhe vão tapar;Tres a tomaram nos braços...Nem mais um ai pôde dar.Criados da sua casa,Nenhum veio a seu chamar;Ou peitados ou captivosNão n'a podem resgatar.São sette os moiros que entraram,Sette os estão a aguardar;Não fallam nem uns nem outros...E prestes, a cavalgar!So um, que de arção a toma,Parece aos outros mandar...Junctos junctos, certos certos,Galopa a bom galopar!Toda a noite, toda a noiteVão correndo sem cessar;Pelos montes trote largo,Por valles a desfilar.Nos ribeiros--peito n'agua,Chape, chape, a vadear!Nas defesas dos valladosUp! salto--e a galgar!Vai o dia alvorecendo,Estão á beira do mar.Que rio é este tam fundoQue n'elle vem desaguar?A bôcca ja tinha livre,Mas não acerta a fallarA pasmada da rainha...Cuida ainda de sonhar!--«Rio Doiro, rio Doiro,Rio de mau navegar,Dize-me, essas tuas aguasAonde as foste buscar?«Dir-te-hei a perola finaAonde eu a fui roubar.Ribeiros correm ao rio,O rio corre a la mar,«Quem me roubou minha joia,Sua joia lhe fui roubar.»O moiro que assim cantava,Gaia que o estava a mirar...Quanto o mais mirares, Gaia,Mais formoso o hasde achar.--«Quantos barcos alli véem!»--«Barcos que nos véem buscar.»--«Que lindo castello aquelle!»--«É o do moiro Alboazar.»
Ilustração do capítulo II
Rei Ramiro, rei Ramiro,Rei de muito mau pezar,Ruins fadas te fadaram,Má sina te foram dar.Do que tens não fazer conta,O que não tens cubiçar..!Zahara, a flor de teus cuidados,Ja te não dá que pensar.A rainha, que era tua,Que não soubeste guardar,Agora morto de zelosDo moiro a queres cobrar.Oh!.. que barcos são aquellesDoiro acima a navegar?A noite escura cerrada,E elles mansinho a remar...Cozeram-se com a terra,Lá se foram incostar;Entre os ramos dos salgueirosMal se podem divisar.Um homem saltou em terra:Onde irá n'aquelle andar?Leva bordão e esclavina,Nas contas vai a rezar.Inda a névoa tolda o rio,O sol ja vem a rasgar,Pela incosta do castelloVai um romeiro a cantar:--«Sanctiago de Galliza,Longe fica o vosso altar:Peregrino que la chegueNão sabe se hade voltar.»Na incosta do castelloUma fonte está a manar;Donzella que está na fontePoz-se o romeiro a escutar»A donzella está na fonte,A jarra cheia a deitar:--«Bemditto sejais, romeiro,E o vosso doce cantar!«Por éstas terras de moirosÉ maravilha de azar,Ouvir cantigas tão sanctasCantigas do meu criar.«Sette padres as cantavamÁ roda de um bento altar;Outros sette respondiamNo côro do salmear,Entre véspera e completas;E os sinos a repicar.«Ai triste da minha vidaQue os não oiço ja tocar!E as rezas d'estes moirosAo demo as quizera eu dar.»--«Deus vos mantenha, donzellaE o vosso cortez fallar:Por éstas terras de moirosQuem tal soubera de achar!«Por vossa tenção, donzella,Uma reza heide rezarAqui ao-pé d'esta fonte,Que não posso mais andar.«Oh! que fresca está a fonte,Oh! que sêde de matar!Que Deus vos salve, donzella,Se aqui me deixais sentar.»--«Sente-se o bom do romeiro,Assente-se a descansar.Fresca é a fonte, doce a agua,Tem virtude singular:«D'outra não bebe a rainhaQue aqui m'a manda buscarPor manhanzinha bem cedoAntes de o sol aquentar.»--«Doce agua deve de ser,De virtude singular:Dae-me vós uma vez d'ellaQue me quero consolar.»--«Beba o peregrino, bebaPor esta fonte real,Cântara de prata virgem,Tem mais valor que oiro tal.»--«Dona Gaia que diria,Que faria AlboazarSe visse o pobre romeiroBeber da fonte real?..»--«Inda era noite fechadaMeu senhor foi a caçar:Maus javardos o detenham,.Que é bem ruim de aturar!«Minha senhora, coitada,Essa não tem que fallar:Quem ja teve fontes de oiroPrata não sabe zelar.»--«Pois um recado, donzella,Agora lhe heisde levar;Que o romeiro christãoLhe deseja de fallar«Da parte de um que é ja morto,Que morreu por seu pezar,Que á hora de sua morteEste annel lhe quiz mandar.»Tirou o annel do dedo,E na jarra o foi deitar:--«Quando ella beber da aguaNo annel hade attentar.»Fôra d'alli a donzella,Ia morta por fallar...--«Anda ca, ó Peronella,Criada de mau mandar,«Tua ama morrendo á sêdeE tu na fonte a folgar?»--«Folgar não folguei, senhora,Mas deixei-me adormentar,«Que a moira vida que eu levoJa não n'a posso aturar.Ai terra da minha terra,AiMilhorda beira-mar!«Aquella sim que era vida,Aquillo que era folgar!E em sancto temor de Deus,Não aqui n'este peccar!»--«Cal-te, cal-te, Peronella,Não me queiras attentar;Que eu a viver entre moirosMe não vim por meu gostar.«Mas ja tenho perdoadoA quem lá me foi roubar,Que antes escrava contenteDo que rainha a chorar.«Forte christandade aquella,Bom era aquelle reinar!Viver so, desemparada,Ver a moira em meu logar!..»Lembrava-lhe a sua offensa,Está-lhe o sangue a queimar...Na agua fria da fonteA sêde quiz apagar.A fonte de prata virgemÁ bôcca foi a levar,As riccas pedras do annelNo fundo viu a brilhar.--«Jesus seja c'o a minha alma!Feitiços me querem dar...O fogo a arder dentro n'aguaE ella fria de nevar!»--«Senhora, c'o esses feitiçosMe tomára eu imbruxar!Foi um bemditto romeiroQue á fonte fui incontrar,«Que ahi deitou esse annelPara próva singularDe um recado que vos trouxeCom que muito heisde folgar.»--«Venha ja esse romeiro,Que lhe quero ja fallar:Embaixador deve serQuem traz presente real.»
Ilustração do capítulo III
Por Deus vos digo, romeiro,Que vos queirais levantar;Minhas mãos não são reliquias,Basta de tanto beijar!»O romeiro não se erguia,As mãos não lhe quer largar;Os beijos uns sobre os outrosQue era um nunca acabar.Ia a infadar-se a rainha,Ouviu-o a soluçar,E as lagrymas, quatro e quatro,Nas mãos sentia rollar:--«Que tem o bom do romeiroQue lhe dá tanto pezar?Diga-me las suas penasSe lh'as posso alliviar.»--«Minhas penas não são minhas,Que aos mortos morre o penar:Mas a vida que eu perdiEm vós podia incontrar.«Minhas penas não são minhas,Senão vossas, mal pezar!Que uma rainha christanFeita moira vim achar...»--«Romeiro não tomeis coitaPor quem se não quer coitar:Do que fui ja me não lembro,O que sou não me é dezar.«Deus terá dó da minha alma,Que meu não foi o peccar;E a esse traidor RamiroAs contas lhe hade tomar.»--«Pois não espereis, senhora,Por Deus que póde tardar:Dom Ramiro aqui o tendes,Mandae-o ja castigar.»Em pé está Dom Ramiro,Ja não ha que disfarçar:Aquellas barbas tam brancasCahiram de um impuxar;O bordão e a esclavinaA terra foram parar:Não ha ver mais gentilezasDe meneio e de trajar.Quem viu olhos como aquellesCom que o ella está a mirar!Quem passou ja transes d'almaComo ella está a passar?Um tremor que não é mêdo,Um surriso de infiar,Vergonha que não é pejo,Faces que ardem sem corar...Tudo isso tem no semblante,Tudo lhe está a assomarComo ondas que vão e véemNa travessia do mar.A vingança é o prazer do homem;Da mulher, é seu manjar:Assim perdoa elle e vive,Ella não--que era acabar.Vingar-se foi o primeiroE o derradeiro pensarQue, entre tantos pensamentos,Em Gaia estão a pullar:Logo depois a vaidade,O gôsto de triumpharN'um coração que foi seu,Que seu lhe torna a voltar.E o rei moiro estava longeC'os seus no monte a caçar,Ella so n'aquella tôrre...Prudencia e dissimular!Abre a bôcca a um surrisoDoce e triste--de matar!Tempéra a chamma dos olhos,Abafa-a por mais queimar.Poz na voz aquelle incautoQue--ou minta ou não, é fatal.E, com o inferno no seio,Falla o ceo no seu fallar.Ja os amargos queixumesSe imbrandecem no chorar,E em sua propria justiçaCom arte finge affrouxar.Protesta a bôcca a verdade:«Que não hade perdoar...»Mas a verdade dos labiosOs olhos querem negar.De joelhos Dom RamiroAlli se estava a humilhar,Supplíca, roga, promette...Ella parece hesitar.Senão quando uma bozinaSe ouviu ao longe tocar...A rainha mal podiaO seu prazer disfarçar:--«Escondei-vos, Dom Ramiro,Que é chegado Alboazar;Depressa, n'este aposento...Ou ja me vereis matar.»Mal a chave deu tres voltas,Na manga a foi resguardar;Mal tirou a mão da cotta,Que o rei moiro vinha a entrar.--«Tristes novas, minha Gaia,Novas de muito pezar!Primeira vez em tres annosQue me succede este azar!..«Toquei a minha bozinaÁs portas, antes de entrar,E não correste ás ameiasPara me ver e saudar!«Muito mal fizeste, amiga,Em tam mal me costumar:Não sei que fazes agoraEm me querer emendar...»No coração da rainhaBatalha se estão a darOs mais estranhos affectosQue nunca se hãode incontrar:O que foi, o que é agora,E a ambição de reinar...O amor que tem ao moiro,E o gôsto de se vingar...Venceu amor e vingança:Deviam de triumphar,Que era em peito de mulherQue a batalha se foi dar.--«Novas tenho e grandes novas,Amigo, para vos dar:Tomae esta chave e abride,Vereis se são de pezar.»Com que ância elle abriu a porta,Vista que foi incontrar!..Palavras que alli disseram,Não n'as saberei contar:Que foi um bramir de ventos,Um bater d'aguas no mar,Um confundir ceo e terra,Querer-se o mundo acabar...Vereis por fim o rei moiroQue sentença veio a dar:--«Perdeste a honra, christão:Vida, quero-t'a deixar.«De uma vez que me roubasteMuito bem me fiz pagar:D'esta basta-me a vergonhaPara de ti me vingar.»Sentia-se elrei RamiroDo despeito devorar;Com ar contricto e affligidoAssim lhe foi a fallar:--«Grandes foram meus peccados,Poderoso Alboazar;E taes que a mercê da vidaDe ti não posso acceitar:«Eu não vim a teu castelloSenão so por me intregar,Para receber a morteQue tu me quizeres dar:«Que assim me foi ordenadoPara minha alma salvarPor um sancto confessorA quem me fui confessar.«E mais me disse e mandou,E assim t'o quero rogar,Que, pois foi pública a offensa,Público seja o penar:«Que ahi n'essa praça d'armasTua gente faças junctar,Ahi deante de todosA vida quero acabar«Tangendo n'ésta bozinaTangendo até rebentar;Que digam os que isto virem,E lhes fique de alembrar:«Grande foi o seu peccado,«No mundo andou a soar;«Mas a sua penitencia«Mais alto som veio a dar.»Quizera-lhe o bom do moiroPor fôrça alli perdoar:Mas se a pêrra da rainhaJurou de á morte o levar!...Veis na praça do castello,Toda moirama a ajunctar;Em pé no meio da turbaRamiro se foi alçar.Tange que lhe tangerás,Toca rijo a bom tocar;Por muitas leguas á rodaReboava o bozinar.Se o ouvirão nas galésQue deixou a beira-mar?De-certo ouviram, que um gritoTremendo se ouve soar...
Ilustração do capítulo IV
«Sanctiago!.. Cerra, cerra!Sanctiago, e a matar!»Abertas estão as portasDa torre de par em par;Nem atalaias nos murosNem roldas para as velar.Os moiros despercebidosSentem-se logo apertarDe um tropel de leonezesJa portas a dentro a entrar.Deixa a bozina Ramiro,Mão á espada foi lançar,E, de um só golpe, fendente,Sem mais pôr nem mais tirar,Parte a cabeça até os peitosAo rei moiro Alboazar.Ja tudo é morto ou captivo,Ja o castello está a queimar,Ás galés, com seu despojo,Se foram logo imbarcar.--«Voga, rema! d'além DoiroÁ pressa, á pressa a passar,Que ja oiço alli na praiaCavallos a relinchar.«Bandeiras são de LeãoQue lá vejo tremular:Voga, voga, que além DoiroÉ terra nossa!.. a remar!«D'aqui é moirama cerradaAté Coimbra e Thomar.Voga, rema, e d'além Doiro!D'aquem não ha que fiar.»Á poppa vai Dom RamiroDe sua galé real,Leva a rainha á direitaComo quem a quer honrar:Ella muda, os olhos baixosLeva n'agua... sem olhar,E como quem de outras vistasSe quer so desaffrontar.Ou Dom Ramiro fingiaOu não vem n'isso a attentar:Ja vão a meia corrente,Sem um para o outro fallar.Ainda arde, inda fumegaO alcaçar de Alboazar:Gaia alevantou os olhos,Triste se poz a mirar;As lagrymas, uma e uma,Lhe estavam a desfiar,Ao longo, longo das facesCorrem... sem ella as chorar.Olhou elrei para Gaia,Não se pôde mais callar:Cuidava o bom do maridoQue era remorso e pezarDo mau termo atraiçoadoQue com elle fôra usarQuando o intregou ao moiroTam so para se vingar.Com a voz internecidaAssim lhe foi a fallar:--«Que tens, Gaia... minha Gaia?Ora pois! não mais chorar,«Que o feito é feito...»--«E bem feito!»Tornou-lhe ella a soluçar,Rompendo agora n'uns prantosQue parecia estalar:«E bem feito, rei Ramiro!Valente acção! de pasmar!Á lei de bom cavalleiro,Para de um rei se contar!«Á falsa fe o mataste...Quem a vida te quiz dar!Á traição... que d'outro modoNão es homem para tal.«Mataste o mais bello moiro,Mais gentil, mais para amarQue entre moiros e christãosNunca mais não terá par.«Perguntas-me porque choro!..Traidor rei, que heide eu chorar?Que o não tenho nos meus braços,Que a teu poder vim parar.«Perguntaste-me o que miro!..Traidor rei, que heide eu mirar?As torres d'aquelle alcaçarQue ainda estão a fumegar:«Se eu fui alli tam ditosa,Se alli soube o que era amar,Se alli me fica alma e vida...Traidor rei, que heide eu mirar?»--«Poismira,Gaia!» E, dizendo,Da espada foi arrancar:«Mira,Gaia, que esses olhosNão terão mais que mirar.»Foi-lhe a cabeça de um talho;E com o pé, sem olhar,Borda fóra impuxa o corpo...O Doiro que os leve ao mar.Do estranho caso inda agoraMemoria está a durar:Gaiaé o nome do castelloQue alli Gaia fez queimar;E d'além Doiro, essa praiaOnde o barco ia a aproarQuando bradou «Mira, Gaia!»O rei que a vai degollar,Ainda hoje está dizendoNa tradição popular,Que o nome tem--MiragaiaD'aquelle fatal mirar.