—De lembrar isto, criei uma lenda. Sou eu a mulher que conseguiu o poder de duas virgindades, uma sacrificada no inicio da puberdade, com a inclemencia de Nausithêa deante do deus Priapo, e a outra, concedida ao amante, no fervor do gôzo, entre os teus braços, naquella noite, Octavio, naquella primeira noite...—Desgraçadamente, jà eu, então, poderia ter sentido por toda a parte de teu corpo, o halito bafiento do outro amante.—O outro amante?!... Tenho-o, e é como se elle não existisse. Tenho-o porque tu consentes que eu o tenha. E mais nada. Contra o seu amor, protestam os meus seios, bem diversos na tua presença do que são na delle. Deante de ti, as minhas pomas parecem florescer como os jasmineiros em deliciosas noites de luar, como as laranjeiras em uberosos tempos de outomno. Deante delle... nem perdem na seccura e esterilidade os pinheiros agrestes que vegetam nas fendas dos rochedos... És a aguia que se avisinha do sol e beija os astros nos labios. Elle é o verme que rasteja sobre o rochedo onde borda todos os seus desejos...{148}—Mas, para elle houve um dia venturoso: a mulher não se cede a um homem sem a experiencia de um prazer. E tu tiveste esse prazer...—Acertaste. Não sabes, porem, que os olhos da mulher voluvelmente procuram por toda a parte o homem e que só ao depois de muitos descobre o procurado? Quando topei comtigo, jà o tinha no convivio de suas esquisitices.—Tu és formosa, Nina, como a flor de myrtho! Os gregos te diriam divinamente presagiada porque nasceste nas vesperas das Aphrodisias! Quero enlanguescer ao som de tua voz contando-me os teus mais baixos amores...—Bem sei que os homens todos são uns animaes. Uns, porem, são menos do que outros. Dahi esses amores que tu queres ouvir. Sabes, Octavio, que os cãis, nesse mistér, são os equivalentes de certos homens? E que elles são os seres que mais baixos amores fruem? O Consul ama como um cão... Os seus labios, como os de Pan, seriam capazes de devorar as virgindades, se as virgens recebessem os seus beijos...—Quero crer.—É um libertino.{149}—Nada mais?—É um extrangeiro...—Que importa?—É um devasso...—E sómente isto?—Ama como um cão, Octavio.—E que é que faz?—Seria preciso descrever-te todas as astucias que emprega para me arrastar à concessão do prazer que só vige nos seus labios? Não te bastará a expressão do pouco que te digo?—Repugnante!...—Ah! deixa-o, deixa-o! O meu amante és tu!... Toda esta noite serei tua como nas demais...Os rasgados olhos da hervoeira, luzentes nas sombras dos seus cabellos de oiro como espigas de trigo maduro, pareceram a fonte de todas as volupias da terra, como os córnos de Almatheia foram de todas as riquezas do mundo...{150}{151}DE COMO O AVARENTO MORREU...{152}{153}DE COMO O AVARENTO MORREU...Quarto humilde, humido e infecto, mal illuminado, e sem moveis:—uma enxerga, e sobre esta, em inquieta agonia, MANUELCARLOSproferia blasphemias.Ao seu lado, a NEGRA, que era uma amante retinta, carnuda e fortalecida com as sabugens da avareza, acompanhava com os olhos cautelosos a agitação do moribundo angustiado.Doutro commodo da mansarda, partia um movimento suspeito, mal percebido, a principio, pelo enfermo, que entrava numa ultima reacção da vida contra a morte.Nesta hora, da doença, por entre as chocantes palavras de MANUELCARLOS, ouvia-se, tambem, o rim-rim-rim{154}dos seus dentes que rangiam como uma lima activa sobre um pedaço de ferro...—E creio que me vou mesmo! Nem sei como se morre assim, quando muito dinheiro ainda eu poderia accumular dentro do meu cofre. A vida é um pedaço de ouro comprado com um milhão de moedas... A morte é uma ladra que nos furta, para esbanjar entre muitos, o ouro que tanto custa a reunir... Sou rico! Digo-o com um cordial prazer. Tambem trabalhei como uma alma possessa. Não houve domingo nem dia santo, que me déssem descanso, à chuva e ao sol, alta madrugada e avançada noite... Rim... rim... rim... rim...—Como elle range os dentes?!...—Todo o dia, a mesma coisa... Rompendo a madrugada, ia para as cavallariças despertar aquelles miseraveis todos que dormiam, como massas de feno, nos recantos das mangedouras. Ás vezes, chovia como um diluvio. E eu, com o corpo quente da cama, cortava o pateo, mettido no meu capote de lan, e, menos feliz do que os meus assalariados{155}que ainda dormiam, tiritava, muitas vezes, de frio. A actividade, porem, dava-me calor e forças. Ora, muito pequeno comecei a vida nas terras da Beira, de onde sahi, num dia de inverno, ha mais de trinta annos. Nesse dia, a avósinha e a mãi-Geralda levaram-me até à caza do moço que me trouxe para aqui. Ah! Deus lhe dê o reino dos céus, jà que na terra eu nada lhe pude dar... Rim... rim... rim... rim... Bella pessôa, generoso ao desperdicio... Que barulho é esse que ouço de instante a instante?—São os trabalhadores no terreiro.—Sahiram hoje os vehiculos?—Sahiram todos.—Mas, esse ruido parece-me muito dentro de caza.—Talvez os cãis...—Não me veiu ver hoje oTupy. Tem sido esse canzarrão o meu maior amigo. Todas as manhans salta sobre o meu leito e acaricia-me as mãos. Por onde andará elle que hoje se esqueceu de mim?—Prendi-o, inda ha pouco. Espera-se o medico, e...—Nem pense nisso: o pobre animal se ladra não morde. Vigia-me a caza e desconhece os extranhos.{156}—Ladra e assusta.—Avisa-me de que desconhecidos penetraram neste lar. Fazem-me falta as suas lambarices. Tenho-o desde pequenino, ao desmamar-se. Ha oito annos. E sempre tive o pensamento de fazer-lhe o enterro. Se elle ouvia, de longe mesmo, o tropel do animal que eu montava, ia correndo buscar-me em meio de caminho. Nunca encontrei uma criatura que se lhe comparasse em fidelidade e presteza. Tudo uma cambada! Nem sei... Rim... rim... rim... rim... Nem sei como se têm feito por ahi afóra os meus serviços... E hoje é o ultimo do mês. Se não se procurar, a terrivel corja não paga. Nem tenho uma pessôa a quem confie esse serviço. Neste mundo só se encontram gatunos e ladrões. Um honesto, como eu, é uma realidade rara! Em tudo fui roubado, até na saúde. Dos poucos, das moedas de cobre, os simples trocos e differenças nas compras, tu te assenhoreavas, porque me dizias que eram economias. Na minha meza, nunca puzeste um dôce, uma fructa melhor. Era todo o santo dia a mesma coisa... Como me arrependo de ter deixado nas tuas mãos as economias que deviam ter voltado ao meu capital, porque delle se despediam para sempre... Rim...{157}rim... rim... rim... Como se acaba mesquinhamente uma existencia operosa!... Ouço novos ruidos... Só me parece que os de agora são dentro de caza...—Pois quem seria?—Sei lá... Ouço coisas que só me parecem na sala da frente. Vai ver se é alguem...—Nem precisa. A porteira está fechada, e abrindo-se ella a campainha dá signal. Ao depois, o velho Thomé trata na estribaria dos animaes em que montas...—Vai tudo muito bem, mas não me posso conformar é com esta vida de cama. Seis dias de doença, e estou derreado como uma velha mangueira... Inda assim, considero-me bastante feliz. Não devo nada a ninguem. E, a mim, todos me devem. Depois de amanhan, vence-se uma letra de um devedor: ha de querer pagar-me os juros de quinze por cento por novo semestre... Mas elle estará enganado. Se quizer reformar, os juros crescerão. Agora só darei dinheiros a dezoito ao mês... Serviu? Façamos o negocio. Não serviu, passe muito bem... Rim... rim... rim... rim... Acabou-se o tempo em que eu era tolo. Esta caza deu-me uma espera de seis annos. Emprestei o dinheiro e o dono fez a hypotheca por tres annos. Ao depois{158}de vencido o seu compromisso, levou engabelando-me por mais tres annos... Era uma conversa fiada hoje, uma promessa amanhan, e, nada, nem juros novos, nem capital velho... Se eu não mettesse advogado... Rim... rim... rim... rim... Eu sempre segui o conselho de que «poupa e os santos te ajudarão»... Não ganhei nunca quatro vintens de que não guardasse tres... Não te estou dizendo? Esse barulho é dentro de caza...—Desta vez não ouvi nada.—Então, estás surda. Pareceu-me que se abria uma porta e que gente andava. Rim... rim... rim... rim...—Não sei que especie de gente...—Realmente posso enganar-me.—Jà te convences? A esta hora, nem os trabalhadores estão aqui... Ah! Esqueci-me de dizer-te: os cavouqueiros não foram hoje à pedreira...—Miseraveis! Preguiçosos! Nem me vendo neste estado, esses malvados deixam de consumir-me. Um dia de descanso numa pedreira, é um prejuisão... Rim... rim... rim... rim...—Fiz ver tudo isto a elles.—E porque não trabalharam?—Porque morreu a moça do mestre, e este não veiu...{159}—Não digo?!... Foi alguma imperatriz, certamente, que morreu. Pois là na minha terra, é que se sabe trabalhar... Là trabalhariam até à hora do enterro. Aqui encontram a razão para muitos dias de ocio. Se eu estivesse bom, a esta hora teria tocado todos elles para a rua. Rim... rim... rim... rim... Não gosto de vadios. Fui homem que, numa vida inteira, não teve uma hora de vadiação. Sempre comi de chapeu na cabeça e esporas nas botinas. Por isso guardei meia-duzia de contos. Digo assim meia-duzia, mas, ao certo, nem sei quantas meias-duzias guardei... Trabalha-se e guarda-se... Ouviste agora?—Sim.—E então?—Não sabes o que foi?—Não sei...—OTupyque esbarrou numa cadeira. Tranquei-o na sala de dentro, e aos outros mandei pôr as correntes...—Vai soltar oTupy. É inoffensivo, tanta quanto é leal e cuidadoso. Nunca mereceu um castigo. Vai soltal-o!—Deixa-o preso. O doutor assusta-se sempre que chega e o animal avança sobre elle...—É uma prova de lealdade.{160}—Que incommoda aos extranhos. Porque não bebes o leite? Queres?—Leite?!... Hontem te preveni que leite é luxo e que não posso com essas despesas... Ainda o compraste hoje?—O doutor mandou...—Rim... rim... rim... rim...—Ao depois, em caso de doença não ha desperdicio...—Ora, deixa-me! Estamos a gastar de mais a mais. É o leite, é a botica, é o doutor... E melhoras? Por um oculo. Sinto-me cada vez peior. Nem das pernas sou senhor... Ha tres dias ainda eu me podia sentar. Hoje... nem recostar-me! Tenho kilos de chumbo nas pernas... Sei que vou morrer, se a coisa continua assim... Rim... rim... rim... rim... Fui sempre um homem conservado e indisposto para divertimentos. Não sei como a minha saúde estragou-se... Vai soltar o cachorro! Os seus movimentos inquietam-me. Jà atirou outra coisa ao chão...—Deixa o cachorro preso.—Póde arrebentar mais alguma coisa, e serão novas despesas para mim... Que afflição sinto agora!—Bebe o leite!—Dà-me.{161}—Jà se devem trinta medidas...—Como?—Trinta medidas do leite: seis dias a cinco medidas, tres de manhan, e duas à tarde...—Que desperdicio! Não digo! Se levar aqui um mês, o leite, o medico e a botica, mais os relaxamentos dos trabalhadores me terão reduzido à mizeria... Sabes que mais? Não quero mais leite... Supprima-se desde hoje...—E com que te alimentas?—Com agua... É intoleravel! Trabalhar uma vida inteira para perder tudo em oito dias de cama! Não é possivel. Não sou rico, não! Toca a poupar...—Sem o leite não poderás passar...—Passo, sim! Quem foi que disse que não poderei?—O medico.—Pois passo, sim. Sem dinheiro é que nada é possivel. Parece-me que se combinaram todos em roubar-me antes da morte... Tenham paciencia um pouquinho! Deixem-me fechar os olhos primeiro... Rim... rim... rim... rim... Está muito direito!... Trinta medidas de leite em seis dias! Nem sei se tomei porção igual em todo o resto da vida! É ter ganho uma fortuna em mais de trinta{162}annos para acabal-a bebendo leite, pagando medico e sustentando boticas... Não quero mais leite! Rim... rim... rim... rim... Aborrece-me a vida, porque tudo nella é má fé e plano de roubo... Ah!... Lá se arrebentou tudo!... Ainda mais esta em cima: o cão preso, por um capricho, para quebrar os moveis e as louças... Mas, esse ruido que agora ouvi muito bem...—Foi a mesma coisa...—... não foi là dentro...—Foi, sim!—Pareceu-me na sala da frente...—Não cuidarás de outra coisa?—E que seria o que cahiu?—Uma bacia de folhas...—Não!... não!... não!...—Que queres fazer?—Levanta-me aqui...—Aquieta-te, homem!... O medico aconselha-te descanso e tu és peior do que um menino...—Aquelle barulho... Levanta-me aqui...—Para que? não me dirás?—Quero recostar-me... De vagarinho, mulher... Pegas no meu corpo como se pegasses num pedaço de pau...—Assim?{163}—Devagarinho, sempre... Tira aqui o travesseiro...—Queres muita coisa tambem...—Não me fazes favor... Não preciso de ninguem contra a vontade... Tenho dinheiro para ser bem servido, e gósto que me tenham obediencia...—Estás muito impaciente...—Tira o travesseiro...—Prompto. Queres mais alguma coisa?—As minhas chaves... As minhas chaves... Ah!... Não estão aqui... Bem sei agora!... O meu cofre... o meu dinheiro... Estou rouba...E cahiu apoplexiado com o conhecimento do roubo, para morrer, minutos depois, quando as chaves de seu cofre, voltavam ao seu esconderijo, como verdadeiras inutilidades...{164}{165}AO DESPIR UM PIERROT{166}{167}AO DESPIR UM PIERROTA noite, lunarmente clara, envolvia em prata o recinto virginal, em que, sem acceder ao somno, CHRISTINAse divertia, mostrando ao astro lubrico os tons roseos de sua carnação perfeita como se talhada em marmore rozado e humido.Aquelle silencio luarento povoava as sombras de tetricas visões; mas soffrendo o conflicto das ideias de uma traição de NARCISOe da lealdade perquiridora de STELLA, a desaccordada mulher caprichou de não durmir emquanto a espiona não tornasse do baile à fantasia.—Reconheceu-te, Stella?—Como me reconhecer?... Quem te disse estar elle no baile?—Não o viste?{168}—Comprehendo-te, agora; empolgou-te a ideia de que Narciso estaria no baile, e, escrava dessa supposição, criaste todo um systema de desconfianças, que começaram de traduzir-se, muito naturalmente, naquella tua phrase.—Viste-o?—Vi-o. Porque arregalas deste modo os olhos? Não esperavas esta noticia?—Esperava. Mas, como todo o mundo que espera a nova de um desastre com uma pontinha de esperança em contrario, suppuz sempre que não puzesses os olhos sobre elle. Embora trahida, eu quereria não ser sabedora do mal...—Arrependo-me de ter sido exacta. E prudente, Christina, que te não obstines em aggravar o acaecido. Não remediarás o mal, não é assim? Pois, coração à larga. Narciso foi. Eu o vi. Medi-lhe as acções. Acompanhei-o por toda a parte. E, nem sequer, elle maldou de que umapierroto acompanhasse. Se tu lhe falas, teràs de dizer-lhe quem foi espionar-lhe os passos de homem livre...—É o que te parece: livre?...—Pois não é livre Narciso?—Digo-te que não!—O teu noivo não tem a liberdade commum a todos os homens do mesmo estado?{169}—Repito-te que não.—Pois, minha amiga, para o meu sentir, todos os noivos, longe das vistas da mulher amada, ficam sendo o que são: homens solteiros...—Narciso differe dos outros...—Uffa!... Christina!... Vou tirando opierrotque me acalora as carnes...—O noivado é um começo de intimidades, que se distendem, mais ou menos, conforme as razões de ser do amor vigiado. Naquelle avarandado semi-escuro, onde passamos todas as noites, por isso mesmo que estamos assegurados na nossa posição, com a possivel presença immediata de todos os de caza, as nossas intimidades seguem uma derrota que me dá o direito de exigir de Narciso maiores fidelidades do que tu pensas...—Olha, Christina, como o setim vermelho desbotou e nodoou rubramente o collête... Oh!... envermelheceu-me o collo tambem... Que fazenda ordinaria, esta!—Isto larga... Dois mezes, depois, de noivado, Stella, as confidencias das almas passaram às do corpo... Ah!... O primeiro beijo ainda foi mais cedo... Tinha eu tres dias de pedida... Na hora do adeus, deserta a rua, os seus labios roçaram sobre os meus{170}olhos, e os seus bigodes produziram-me umfrissonnas carnes, com o qual eu me teria entregue ao mais terroroso dos homens. E Narciso, pelos extremecimentos de meus dedos que elle segurava entre os seus, sorriu—um sorriso mais lindo do que um raio de sol!—e, sem o querermos, talvez, por certo instinctivamente, os nossos labios se encontraram...—Vê, Christina, como ficaram as minhas calças...—Desbotou nellas o setim?—Alguma coisa. A côr amarella é mais fixa do que a vermelha... Mas, estão para ser exprimidas... Que sudorifico!—Despe-te logo. Pareces, com os teus costumes, que os teus olhos são de um homem que acompanhasse o desnudamento dos segredos de teu corpo... Avia-te, afim de que me contes o que viste...—Dir-te-ei centos de coisas novas...—Appeteço o conhecimento do que sabes. É uma infelicidade ter-se um pae, como o meu, que se indignaria contra mim, tolamente, se soubesse que eu fôra a um baile publico espionar os desvarios de meu noivo... Ah!... Como eu seria venturosa, se pudesse ir, como tu, a toda a parte que cubiço...{171}—Nem tu calculas pallidamente o que por là se vive...—Apressa-te, Stella!—Acaba, primeiramente, o que contavas... Não quero perder a bôa hora de confidencias que inauguraste...—Pouco mais tenho para te dizer... Depois do primeiro beijo, os contactos... Em seguida, as mutuas confianças, mais um arregaçamento hoje, mais uma ternura amanhan... Um dia, porem, por mais que eu lhe resistisse, desejou ver-me o começo das pernas... Intimidades, Stella, intimidades, proprias, communs e infalliveis entre todos os noivos... Eram ellas que me garantiam, até hoje, a constancia de Narciso, e, quando vejo, como agora, que o que lhe faço jà se torna pouco para o prender na fidelidade accordada, adianto-lhe um pouco mais, sem comtudo deixar que elle perceba o manejo de fazer crescerem as concessões, na medida em que venha o seu enfartamento pelas anteriores... Conta, agora, o que tu viste...—Deitemo-nos, primeiro... A fadiga luxuriosa me alquebra os membros e o corpo quer distender-se nervosamente num leito macio...—E onde ficou Alberto?—O meu primo?{172}—Sim.—Deixou-me ao entrar aqui. Pela nossa compostura fomos doispierrotsda maior sensação! Nem calculas como é deliciosa a companhia do meu primo nestes momentos... Ao depois, relembrou-me, com um calculado geito, pelo caminho, tudo quanto mais impressionou os meus sentidos. Soube corresponder à minha excitação, não commettendo maiores pecados do que me beijar nas passagens mais sombrias das ruas...—Invejo-te, Stella!—Bem poderias ter ido...—Qual nada!—Entrei e sahi sem que teu pae desse tento, pois não foi?—Isto é fácil para ti...—Procurou-te o teu pae durante a minha ausencia?...—Não!—Ahi está! Tinhas ido commigo e seriamos duas a commentar o que vissemos... Là estava Narciso... Foi um dos juizes no julgamento do baile. Custei a topar com elle. Só em meio da festa deparei com elle numa das banquinhas dobuffet. Mais de vinte homens e mulheres...—Mulheres, tambem?{173}—E então? Tu pensas que haverá quem resista à solidão naquelle cahos de sensações extranhas? O Lourival, marido da Conchinha, mais o Ramalho, casado com a Lucinda, là estavam, cada qual com a sua mascarada...—Narciso tambem?—Não te espantes senão se eu te disser que elle era o unico que não tinha uma mulher fantasiada ao seu flanco...—Como isto me incommoda! Quando o vi, aqui, promover o arrufo, pensei logo na traição. Aquelle semblante enfarruscado não era sincero...—Ao seu lado estava umaécuyèreitaliana: deves gabar-te do gosto de teu noivo. Não se acompanha de mulher feia. É serio...—Era bonita a que o seguia?—Linda, Christina:mignon, alva, loura, e, com um arrebatador decóte, exhibindo um collo mais branco do que um pedaço de neve, do meio da qual, como uma abelha sobre uma petala de gardénia, um negro signal era tido como mascotte...—Jà agora me penso feliz por não ter ido là.—Que teria se tu tivesses ido?—Não me conteria.{174}—Ora, Christina! Serias a primeira a deixar tudo para veres como o teu noivo sabe gozar uma mulher. Não dirias nem uma palavra, mas lhe acompanharias a pessôa como a sua sombra. Quando não te agradasse fecharias os olhos. Vi-o, por exemplo, encher a bocca de champagne...—Nada mais natural.—É o teu erro. Quem não sabe é como quem não vê. Pensas, então, que elle tomou a bebida de dentro da taça?—Sim.—Pois não! Adivettefoi quem lhe passou o champagne collando os seus nos labios delle... Garanto-te que não sabias deste modo de acariciar...—Confesso-te que não.—Ahi está. Verias adroiturecom que o teu noivo se curvou, encostou nas suas as faces da encantadora mulher, collou-lhe os labios e sugou-lhe a entontecedora bebida...—Como deve ser bom esse carinho!—Ao depois, beijaram-se...—Aos olhos do publico?—Sim.—Ah!... Se eu estivesse là...—Não farias senão nada. Eu, pelo menos, nessas occasiões de grande excesso, alli mesmo{175}me voltava, e, se não fossem as nossas mascaras, creio que, incondescendente, devoraria Alberto de beijos... Não conheço, Christina, nada que excite mais do que aquellas dansas. Um conto de Caliban é menos excitante, e um par dansando é bem um conto luxurioso escripto com a alma e a carne mais quentes, para ter o ponto final de um beijo. Os corpos estreitavam-se brutalmente, as pernas se entrançavam, as mãos, servindo de oppressores, estreitavam os troncos e cada par, assim enlaçado, cabeça descahida sobre cabeça, parecia um corpo só com a monstruosidade de quatro pernas... Exquisito, sem igual... Homens e mulheres não se distinguiam na furia dos sentidos...—E Narciso dansou?—Não. Nem todos dansam. Á parte, pelo jardim e nas mezas dobuffet, os que não estavam fantasiados, se divertiam à grande, mas um pouco retrahidos das vistas do grosso publico, porque só no salão elles escandalisariam...—Todavia, vingar-me-ei...—Poupa-o, Stella... O pecado é divino... Vinga-te em mim...{176}As duas mulheres, num longo beijo, abraçaram-se e confundiram-se, cada qual na ideia mais fixa de ter ao seu lado um outro ente...A lua, devassamente, illuminou-lhes, até quando quiz, os seus bellos corpos de uma semi-nudez pagan...{177}A TAVERNA DE MMEBERTHON{178}{179}A TAVERNA DE MMEBERTHONNo terraço do «Café Leontina», agasalhados em seus lanzudospardessus, ODORICOe WENCESLAU, dois typos mundanos, essencialmente mundanos, conversavam surdamente...Subito, passou por elles e sumiu-se portas a dentro, uma figurinha de sacudida mulher, muito morena e muito sensual, despejando olhares cupidos por todas as bancas.ODORICOenlanguesceu-se, e, como uma reacção, assignalou, assim, a passagem da exquisita-mulher com uma rememoração cruel...—Sempre é curioso este «Café» em materia de mulheres. Não vejo esta «Menina{180}Leontina», como a chamam, que não me recorde logo da infeliz Madame Berthon.—E tu, meu caro Wenceslau, és bem a chronica viva de toda a feminidade desta terra. Não ha uma mulher de quem não tenhas informações, anedoctas, segredos, sobre quem não lances um episodio de curioso entrecho.—Não conheceste tambem a Madame Berthon?—Somos os dois extremos: nada escapando ao teu saber e tudo me sendo ignorado...—Era uma vaporosa copia de Helena, capaz de mover guerras, e tentar a inspiração do artista mais rude para produzir uma obra-prima.—Alguma divindade incognita...—Não, mas a causadora de duas mortes: um assassinio e um suicidio. Quem a visse na simplicidade das suas vestias, no commum dos seus gestos, e na temperança dos seus costumes, não diria jamais que era a senhora absoluta de um corpo de estatua, para ser copiado pelo cinzel mais inspirado... Não se julgue a felicidade dos fins pelas venturas que povoam a estrada por que trilhamos. Muitas vezes, um momento de tranquillidade{181}agora é a sementeira de um incommensuravel estado de attribulações mais tarde. Madame Berthon despejava invejas a todas as mulheres do seu conhecimento. Desta caza tirava ella os meios de sua subsistencia. Vi-a muitas noites, e sonhei com o taciturno aspecto de seu semblante. Taciturno, sim, porque, no meio da mais ruidosa alegria, aquella mulher era como uma virgem pallida a que nenhum excesso dê o rubor das faces... Sorria, mas o seu sorrizo revestia-se de uma algoz cambiante de tristeza. Tinha a côrte de poderosos pretendentes, mas decidia-se ordinariamente pelos mais fracos. Se ouvia a repulsa de alguem, era, ao depois, de um excessivo carinho para com o repellido. E, se a ninguem promettia, a nenhum negava, e a todos faltava... Curiosissima mulher! Os seus habitos eram os de uma leviana, mas a sua alma contrastava com a sua existencia costumeira. Exquisita mulher, Odorico, muito exquisita, senhora de muitos corações se tivesse querido, entretanto escrava de um só que a levou, finalmente, à sepultura. Durante algum tempo a sua tragedia foi a nota do dia. Um assassinio e um suicidio...—Foi sempre assim: em cada mulher ha o germen de uma fatalidade, mas, em{182}algumas, ha a sementeira de muitos casos fataes.—Espera, Odorico, espera. Não condemnes a desventurada pelos primeiros tons de sua historia. Juiz mais severo do que eu, não conhecerás, por certo, para o julgamento dessa gente que pisa sobre escandalos, que veste escandalos, e que escandalisa o proprio escandalo. De ordinario, a mulher é o algoz, parecendo a extrema fraqueza. Neste caso, porem, Madame Berthon foi, apenas, a victima. Se crime ella teve, foi o de amar o homem que a assassinaria mais tarde. E amou... conjugalmente, porque nunca trahiu aquelle com quem cohabitava. Ás deshoras, lá para as tantas, assim numa hora de madrugada quando o vigilante gallo de Ares cantaria tatalando, como dois esposos, ella e o amante daqui sahiam e recolhiam-se calma e honestamente. De feio que era, o homem haveria de enciumar-se até de si mesmo, descrendo de ser elle o galan de uma femea tão geitosa. No mundo dos amores, ha, entretanto, essa especie de compensações: o feio é conjugado com o bonito, e reciprocamente, o bonito com o feio... Dahi a naturalidade daquella união de Gaspar com a Madame Berthon. Mais de noventa noites durou aquelle consorcio espontaneo.{183}Aqui vinha eu, e naturalmente, cortejava à mulher gentil, espionando sempre o amante. Os homens todos, Odorico, saudavam-na com um mesmo enthusiasmo viril, como os armentios saudariam, com ardente fé, a vinda do outomno, porque é a estação das colheitas. Na manhan de um domingo, porem, no ninho dos dois amantes, là para as aguas furtadas de um sobrado, foi ouvido um movimento ouccubo. Visinhos, espicaçados pela anormalidade, attenderam ao que se passava na moradia de Madame Berthon. Depois de acalorada discussão, durante a qual o assassino descera as vidraças, cautelosamente, para não ser ouvido pelos extranhos, os estampidos de dois tiros indicaram um triste acontecimento no interior daquella caza. Momentos após, Gaspar, conduzindo uma bolsa de mão, descia os dois lances de escadas, abria as portas, e sahia, meticuloso e tranquillo, trancando às suas costas a entrada no sobrado em que commettera o assassinato de Madame Berthon. E, como um homem feliz, là se fôra rua abaixo. Quem o visse, não lhe diria o autor de um crime, muito menos quando, no desempenho de um habito, asseiava os botins, e olhava serenamente o movimento das ruas...{184}—Revolto-me jà contra esse perverso.—Pois bem! O movel do crime fôra o roubo e todas as poupanças daquella operosa mulher estavam furtadas na bolsa que Gaspar segurava zelosamente. Em torno da caza de Madame Berthon, com o caso extranho dos dois tiros, populares encostavam-se nas redondezas do edificio suspeito, arrastando-se como lemures ámerios em trilhas brancas de areiaes desertos. Vozes surdas contavam as supposições de um crime; a suspeita avolumou-se... O rochedo nú da desconfiança vestiu-se fartamente com os ouropeis das espumas brancas dos commentarios. Pelas janellas descidas, olhos mais perspicazes queriam ver logo os indicios vivos do barbaro crime. E o tempo era bastante para que o assassino asseiasse as botas e penetrasse no Hotel onde tinha hospedagem official. Nos populares tressuou a vontade da denuncia, e um indicou a presença proxima de um delegado. Era preciso animo tambem para se ir retirar a fescennina autoridade do seu aninhamento concupiscente ao lado de uma concubina... Tudo o mais foi rapido. Num instante abriu-se com violencia a entrada. Um obstaculo appareceu: a porta estava presa, como que escorada por dentro. Que seria que obstava o seu movimento?{185}Uma cabeça affoita enfiou-se por uma nesga, e voltou transfigurada, annunciando sómente: «Está morta». Outros typos mais curiosos vieram, ageitaram-se e penetraram com a autoridade. Estatelada sobre o chão, Madame Berthon, numa nueza arrebatadora ainda não tinha a gelidez dos cadaveres, mas já era morta. O seu thorax derramava coalhos de sangue escarlate. E sobre as suas fórmas nuas, nada, senão as meias presas com atilios de fitas rubras, e as pequenas sapatinhas...—Que miseria!—Já conheceste a victima. Dahi por diante a acção foi sobre o agente. A perseguição popular foi ter ao Hotel, e, quando os primeiros perseguidores foram percebidos, com a mesma arma, alvejando as suas proprias temporas, Gaspar era um suicida... Não calculas a impressão que esse crime deixou no meu espirito. Eu vi a nudez de Madame Berthon, e senti que o assassino não tivesse ficado vivo para pagar com a reclusão da vida a barbaridade do assassinio de uma mulher, cujo corpo esculptural seria capaz, como o de Mnezarete, de vencer austeros Areopagos... se desvendado fôsse tal como eu o vi... E nota, Odorico, que um corpo{186}morto, por mais bello que seja, é menos do que o vivo, porque, quando nada, lhe falta essa humidade quente que é o fluido mais sensual do mundo. Deante de carnes como as de Madame Berthon, só naturezas muito fortes não cederão à necrophilia... Então ella que possuia um nevo sobre o quadril direito...—Sensualizas tudo, Wenceslau!—E que é que escapa, neste mundo, da sensualidade? A propria morte, como tu deves saber, é um pedaço de sensualismo microbiano... Quantas fecundações damnadas na hora extrema de um ser?!... Porque, senão pela força dos sexos, baqueou a inditosa Madame Berthon?!... Recorre à instancia do amor que toparàs com a absolvição da mulher, e carregarás a mão na dosagem da condemnação do homem algoz.—Comtudo, sou contra sempre a defesa da mulher. Esta tem sido condescendentemente tratada. Menos liberdade para ella, mais rigor no senhorio dos homens.—E como influiria tudo isto para que Gaspar não victimasse Madame Berthon?—Seria preciso, Wenceslau, que eu te contasse a historia desde o começo do mundo, e é coisa que não se sabe é a data da primeira{187}traição da mulher, de tão distantes tempos vem ella.—Andas atrazado nisto, Odorico. A mulher teve o seu primeiro acto numa traição do homem, e formada de uma traição, porque foi necessario que Adão adormecesse para que Jehovah, trahindo à perfectibilidade da sua obra, lhe tirasse uma costella do corpo afim de formar Eva, ella não poderia ser contraria à sua origem...—És rigoroso demais...—Não sou, não, meu caro. Um grande philosopho, cuja obra leio todos os dias e quanto mais leio mais ella me ensina, observou bem o que te digo e escreveu precisamente: «As mulheres têm sido tratadas até aqui, pelos homens, como passaros que, descidos de uma altura qualquer, se perderam no meio delles: como qualquer coisa de extranho, de delicado, de fragil, de selvagem, de doce, de arrebatador—mas, igualmente, alguma coisa que é necessario engaiolar para que se não và embora num vôo»... Que é isto senão o reconhecimento do espirito traiçoeiro de nossas Evas?... Ao demais... estamos muito fóra dos eixos... Que bebemos agora?...{188}Fóra do terraço do «Café Leontina», solemnemente encapotados, dois policiaes nem tinham alma para andar, tamanho era o frio da alta noite...
—De lembrar isto, criei uma lenda. Sou eu a mulher que conseguiu o poder de duas virgindades, uma sacrificada no inicio da puberdade, com a inclemencia de Nausithêa deante do deus Priapo, e a outra, concedida ao amante, no fervor do gôzo, entre os teus braços, naquella noite, Octavio, naquella primeira noite...
—Desgraçadamente, jà eu, então, poderia ter sentido por toda a parte de teu corpo, o halito bafiento do outro amante.
—O outro amante?!... Tenho-o, e é como se elle não existisse. Tenho-o porque tu consentes que eu o tenha. E mais nada. Contra o seu amor, protestam os meus seios, bem diversos na tua presença do que são na delle. Deante de ti, as minhas pomas parecem florescer como os jasmineiros em deliciosas noites de luar, como as laranjeiras em uberosos tempos de outomno. Deante delle... nem perdem na seccura e esterilidade os pinheiros agrestes que vegetam nas fendas dos rochedos... És a aguia que se avisinha do sol e beija os astros nos labios. Elle é o verme que rasteja sobre o rochedo onde borda todos os seus desejos...{148}
—Mas, para elle houve um dia venturoso: a mulher não se cede a um homem sem a experiencia de um prazer. E tu tiveste esse prazer...
—Acertaste. Não sabes, porem, que os olhos da mulher voluvelmente procuram por toda a parte o homem e que só ao depois de muitos descobre o procurado? Quando topei comtigo, jà o tinha no convivio de suas esquisitices.
—Tu és formosa, Nina, como a flor de myrtho! Os gregos te diriam divinamente presagiada porque nasceste nas vesperas das Aphrodisias! Quero enlanguescer ao som de tua voz contando-me os teus mais baixos amores...
—Bem sei que os homens todos são uns animaes. Uns, porem, são menos do que outros. Dahi esses amores que tu queres ouvir. Sabes, Octavio, que os cãis, nesse mistér, são os equivalentes de certos homens? E que elles são os seres que mais baixos amores fruem? O Consul ama como um cão... Os seus labios, como os de Pan, seriam capazes de devorar as virgindades, se as virgens recebessem os seus beijos...
—Quero crer.
—É um libertino.{149}
—Nada mais?
—É um extrangeiro...
—Que importa?
—É um devasso...
—E sómente isto?
—Ama como um cão, Octavio.
—E que é que faz?
—Seria preciso descrever-te todas as astucias que emprega para me arrastar à concessão do prazer que só vige nos seus labios? Não te bastará a expressão do pouco que te digo?
—Repugnante!...
—Ah! deixa-o, deixa-o! O meu amante és tu!... Toda esta noite serei tua como nas demais...
Os rasgados olhos da hervoeira, luzentes nas sombras dos seus cabellos de oiro como espigas de trigo maduro, pareceram a fonte de todas as volupias da terra, como os córnos de Almatheia foram de todas as riquezas do mundo...{150}{151}
Os rasgados olhos da hervoeira, luzentes nas sombras dos seus cabellos de oiro como espigas de trigo maduro, pareceram a fonte de todas as volupias da terra, como os córnos de Almatheia foram de todas as riquezas do mundo...{150}{151}
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Quarto humilde, humido e infecto, mal illuminado, e sem moveis:—uma enxerga, e sobre esta, em inquieta agonia, MANUELCARLOSproferia blasphemias.Ao seu lado, a NEGRA, que era uma amante retinta, carnuda e fortalecida com as sabugens da avareza, acompanhava com os olhos cautelosos a agitação do moribundo angustiado.Doutro commodo da mansarda, partia um movimento suspeito, mal percebido, a principio, pelo enfermo, que entrava numa ultima reacção da vida contra a morte.Nesta hora, da doença, por entre as chocantes palavras de MANUELCARLOS, ouvia-se, tambem, o rim-rim-rim{154}dos seus dentes que rangiam como uma lima activa sobre um pedaço de ferro...
Quarto humilde, humido e infecto, mal illuminado, e sem moveis:—uma enxerga, e sobre esta, em inquieta agonia, MANUELCARLOSproferia blasphemias.
Ao seu lado, a NEGRA, que era uma amante retinta, carnuda e fortalecida com as sabugens da avareza, acompanhava com os olhos cautelosos a agitação do moribundo angustiado.
Doutro commodo da mansarda, partia um movimento suspeito, mal percebido, a principio, pelo enfermo, que entrava numa ultima reacção da vida contra a morte.
Nesta hora, da doença, por entre as chocantes palavras de MANUELCARLOS, ouvia-se, tambem, o rim-rim-rim{154}dos seus dentes que rangiam como uma lima activa sobre um pedaço de ferro...
—E creio que me vou mesmo! Nem sei como se morre assim, quando muito dinheiro ainda eu poderia accumular dentro do meu cofre. A vida é um pedaço de ouro comprado com um milhão de moedas... A morte é uma ladra que nos furta, para esbanjar entre muitos, o ouro que tanto custa a reunir... Sou rico! Digo-o com um cordial prazer. Tambem trabalhei como uma alma possessa. Não houve domingo nem dia santo, que me déssem descanso, à chuva e ao sol, alta madrugada e avançada noite... Rim... rim... rim... rim...
—Como elle range os dentes?!...
—Todo o dia, a mesma coisa... Rompendo a madrugada, ia para as cavallariças despertar aquelles miseraveis todos que dormiam, como massas de feno, nos recantos das mangedouras. Ás vezes, chovia como um diluvio. E eu, com o corpo quente da cama, cortava o pateo, mettido no meu capote de lan, e, menos feliz do que os meus assalariados{155}que ainda dormiam, tiritava, muitas vezes, de frio. A actividade, porem, dava-me calor e forças. Ora, muito pequeno comecei a vida nas terras da Beira, de onde sahi, num dia de inverno, ha mais de trinta annos. Nesse dia, a avósinha e a mãi-Geralda levaram-me até à caza do moço que me trouxe para aqui. Ah! Deus lhe dê o reino dos céus, jà que na terra eu nada lhe pude dar... Rim... rim... rim... rim... Bella pessôa, generoso ao desperdicio... Que barulho é esse que ouço de instante a instante?
—São os trabalhadores no terreiro.
—Sahiram hoje os vehiculos?
—Sahiram todos.
—Mas, esse ruido parece-me muito dentro de caza.
—Talvez os cãis...
—Não me veiu ver hoje oTupy. Tem sido esse canzarrão o meu maior amigo. Todas as manhans salta sobre o meu leito e acaricia-me as mãos. Por onde andará elle que hoje se esqueceu de mim?
—Prendi-o, inda ha pouco. Espera-se o medico, e...
—Nem pense nisso: o pobre animal se ladra não morde. Vigia-me a caza e desconhece os extranhos.{156}
—Ladra e assusta.
—Avisa-me de que desconhecidos penetraram neste lar. Fazem-me falta as suas lambarices. Tenho-o desde pequenino, ao desmamar-se. Ha oito annos. E sempre tive o pensamento de fazer-lhe o enterro. Se elle ouvia, de longe mesmo, o tropel do animal que eu montava, ia correndo buscar-me em meio de caminho. Nunca encontrei uma criatura que se lhe comparasse em fidelidade e presteza. Tudo uma cambada! Nem sei... Rim... rim... rim... rim... Nem sei como se têm feito por ahi afóra os meus serviços... E hoje é o ultimo do mês. Se não se procurar, a terrivel corja não paga. Nem tenho uma pessôa a quem confie esse serviço. Neste mundo só se encontram gatunos e ladrões. Um honesto, como eu, é uma realidade rara! Em tudo fui roubado, até na saúde. Dos poucos, das moedas de cobre, os simples trocos e differenças nas compras, tu te assenhoreavas, porque me dizias que eram economias. Na minha meza, nunca puzeste um dôce, uma fructa melhor. Era todo o santo dia a mesma coisa... Como me arrependo de ter deixado nas tuas mãos as economias que deviam ter voltado ao meu capital, porque delle se despediam para sempre... Rim...{157}rim... rim... rim... Como se acaba mesquinhamente uma existencia operosa!... Ouço novos ruidos... Só me parece que os de agora são dentro de caza...
—Pois quem seria?
—Sei lá... Ouço coisas que só me parecem na sala da frente. Vai ver se é alguem...
—Nem precisa. A porteira está fechada, e abrindo-se ella a campainha dá signal. Ao depois, o velho Thomé trata na estribaria dos animaes em que montas...
—Vai tudo muito bem, mas não me posso conformar é com esta vida de cama. Seis dias de doença, e estou derreado como uma velha mangueira... Inda assim, considero-me bastante feliz. Não devo nada a ninguem. E, a mim, todos me devem. Depois de amanhan, vence-se uma letra de um devedor: ha de querer pagar-me os juros de quinze por cento por novo semestre... Mas elle estará enganado. Se quizer reformar, os juros crescerão. Agora só darei dinheiros a dezoito ao mês... Serviu? Façamos o negocio. Não serviu, passe muito bem... Rim... rim... rim... rim... Acabou-se o tempo em que eu era tolo. Esta caza deu-me uma espera de seis annos. Emprestei o dinheiro e o dono fez a hypotheca por tres annos. Ao depois{158}de vencido o seu compromisso, levou engabelando-me por mais tres annos... Era uma conversa fiada hoje, uma promessa amanhan, e, nada, nem juros novos, nem capital velho... Se eu não mettesse advogado... Rim... rim... rim... rim... Eu sempre segui o conselho de que «poupa e os santos te ajudarão»... Não ganhei nunca quatro vintens de que não guardasse tres... Não te estou dizendo? Esse barulho é dentro de caza...
—Desta vez não ouvi nada.
—Então, estás surda. Pareceu-me que se abria uma porta e que gente andava. Rim... rim... rim... rim...
—Não sei que especie de gente...
—Realmente posso enganar-me.
—Jà te convences? A esta hora, nem os trabalhadores estão aqui... Ah! Esqueci-me de dizer-te: os cavouqueiros não foram hoje à pedreira...
—Miseraveis! Preguiçosos! Nem me vendo neste estado, esses malvados deixam de consumir-me. Um dia de descanso numa pedreira, é um prejuisão... Rim... rim... rim... rim...
—Fiz ver tudo isto a elles.
—E porque não trabalharam?
—Porque morreu a moça do mestre, e este não veiu...{159}
—Não digo?!... Foi alguma imperatriz, certamente, que morreu. Pois là na minha terra, é que se sabe trabalhar... Là trabalhariam até à hora do enterro. Aqui encontram a razão para muitos dias de ocio. Se eu estivesse bom, a esta hora teria tocado todos elles para a rua. Rim... rim... rim... rim... Não gosto de vadios. Fui homem que, numa vida inteira, não teve uma hora de vadiação. Sempre comi de chapeu na cabeça e esporas nas botinas. Por isso guardei meia-duzia de contos. Digo assim meia-duzia, mas, ao certo, nem sei quantas meias-duzias guardei... Trabalha-se e guarda-se... Ouviste agora?
—Sim.
—E então?
—Não sabes o que foi?
—Não sei...
—OTupyque esbarrou numa cadeira. Tranquei-o na sala de dentro, e aos outros mandei pôr as correntes...
—Vai soltar oTupy. É inoffensivo, tanta quanto é leal e cuidadoso. Nunca mereceu um castigo. Vai soltal-o!
—Deixa-o preso. O doutor assusta-se sempre que chega e o animal avança sobre elle...
—É uma prova de lealdade.{160}
—Que incommoda aos extranhos. Porque não bebes o leite? Queres?
—Leite?!... Hontem te preveni que leite é luxo e que não posso com essas despesas... Ainda o compraste hoje?
—O doutor mandou...
—Rim... rim... rim... rim...
—Ao depois, em caso de doença não ha desperdicio...
—Ora, deixa-me! Estamos a gastar de mais a mais. É o leite, é a botica, é o doutor... E melhoras? Por um oculo. Sinto-me cada vez peior. Nem das pernas sou senhor... Ha tres dias ainda eu me podia sentar. Hoje... nem recostar-me! Tenho kilos de chumbo nas pernas... Sei que vou morrer, se a coisa continua assim... Rim... rim... rim... rim... Fui sempre um homem conservado e indisposto para divertimentos. Não sei como a minha saúde estragou-se... Vai soltar o cachorro! Os seus movimentos inquietam-me. Jà atirou outra coisa ao chão...
—Deixa o cachorro preso.
—Póde arrebentar mais alguma coisa, e serão novas despesas para mim... Que afflição sinto agora!
—Bebe o leite!
—Dà-me.{161}
—Jà se devem trinta medidas...
—Como?
—Trinta medidas do leite: seis dias a cinco medidas, tres de manhan, e duas à tarde...
—Que desperdicio! Não digo! Se levar aqui um mês, o leite, o medico e a botica, mais os relaxamentos dos trabalhadores me terão reduzido à mizeria... Sabes que mais? Não quero mais leite... Supprima-se desde hoje...
—E com que te alimentas?
—Com agua... É intoleravel! Trabalhar uma vida inteira para perder tudo em oito dias de cama! Não é possivel. Não sou rico, não! Toca a poupar...
—Sem o leite não poderás passar...
—Passo, sim! Quem foi que disse que não poderei?
—O medico.
—Pois passo, sim. Sem dinheiro é que nada é possivel. Parece-me que se combinaram todos em roubar-me antes da morte... Tenham paciencia um pouquinho! Deixem-me fechar os olhos primeiro... Rim... rim... rim... rim... Está muito direito!... Trinta medidas de leite em seis dias! Nem sei se tomei porção igual em todo o resto da vida! É ter ganho uma fortuna em mais de trinta{162}annos para acabal-a bebendo leite, pagando medico e sustentando boticas... Não quero mais leite! Rim... rim... rim... rim... Aborrece-me a vida, porque tudo nella é má fé e plano de roubo... Ah!... Lá se arrebentou tudo!... Ainda mais esta em cima: o cão preso, por um capricho, para quebrar os moveis e as louças... Mas, esse ruido que agora ouvi muito bem...
—Foi a mesma coisa...
—... não foi là dentro...
—Foi, sim!
—Pareceu-me na sala da frente...
—Não cuidarás de outra coisa?
—E que seria o que cahiu?
—Uma bacia de folhas...
—Não!... não!... não!...
—Que queres fazer?
—Levanta-me aqui...
—Aquieta-te, homem!... O medico aconselha-te descanso e tu és peior do que um menino...
—Aquelle barulho... Levanta-me aqui...
—Para que? não me dirás?
—Quero recostar-me... De vagarinho, mulher... Pegas no meu corpo como se pegasses num pedaço de pau...
—Assim?{163}
—Devagarinho, sempre... Tira aqui o travesseiro...
—Queres muita coisa tambem...
—Não me fazes favor... Não preciso de ninguem contra a vontade... Tenho dinheiro para ser bem servido, e gósto que me tenham obediencia...
—Estás muito impaciente...
—Tira o travesseiro...
—Prompto. Queres mais alguma coisa?
—As minhas chaves... As minhas chaves... Ah!... Não estão aqui... Bem sei agora!... O meu cofre... o meu dinheiro... Estou rouba...
E cahiu apoplexiado com o conhecimento do roubo, para morrer, minutos depois, quando as chaves de seu cofre, voltavam ao seu esconderijo, como verdadeiras inutilidades...{164}{165}
E cahiu apoplexiado com o conhecimento do roubo, para morrer, minutos depois, quando as chaves de seu cofre, voltavam ao seu esconderijo, como verdadeiras inutilidades...{164}{165}
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A noite, lunarmente clara, envolvia em prata o recinto virginal, em que, sem acceder ao somno, CHRISTINAse divertia, mostrando ao astro lubrico os tons roseos de sua carnação perfeita como se talhada em marmore rozado e humido.Aquelle silencio luarento povoava as sombras de tetricas visões; mas soffrendo o conflicto das ideias de uma traição de NARCISOe da lealdade perquiridora de STELLA, a desaccordada mulher caprichou de não durmir emquanto a espiona não tornasse do baile à fantasia.
A noite, lunarmente clara, envolvia em prata o recinto virginal, em que, sem acceder ao somno, CHRISTINAse divertia, mostrando ao astro lubrico os tons roseos de sua carnação perfeita como se talhada em marmore rozado e humido.
Aquelle silencio luarento povoava as sombras de tetricas visões; mas soffrendo o conflicto das ideias de uma traição de NARCISOe da lealdade perquiridora de STELLA, a desaccordada mulher caprichou de não durmir emquanto a espiona não tornasse do baile à fantasia.
—Reconheceu-te, Stella?
—Como me reconhecer?... Quem te disse estar elle no baile?
—Não o viste?{168}
—Comprehendo-te, agora; empolgou-te a ideia de que Narciso estaria no baile, e, escrava dessa supposição, criaste todo um systema de desconfianças, que começaram de traduzir-se, muito naturalmente, naquella tua phrase.
—Viste-o?
—Vi-o. Porque arregalas deste modo os olhos? Não esperavas esta noticia?
—Esperava. Mas, como todo o mundo que espera a nova de um desastre com uma pontinha de esperança em contrario, suppuz sempre que não puzesses os olhos sobre elle. Embora trahida, eu quereria não ser sabedora do mal...
—Arrependo-me de ter sido exacta. E prudente, Christina, que te não obstines em aggravar o acaecido. Não remediarás o mal, não é assim? Pois, coração à larga. Narciso foi. Eu o vi. Medi-lhe as acções. Acompanhei-o por toda a parte. E, nem sequer, elle maldou de que umapierroto acompanhasse. Se tu lhe falas, teràs de dizer-lhe quem foi espionar-lhe os passos de homem livre...
—É o que te parece: livre?...
—Pois não é livre Narciso?
—Digo-te que não!
—O teu noivo não tem a liberdade commum a todos os homens do mesmo estado?{169}
—Repito-te que não.
—Pois, minha amiga, para o meu sentir, todos os noivos, longe das vistas da mulher amada, ficam sendo o que são: homens solteiros...
—Narciso differe dos outros...
—Uffa!... Christina!... Vou tirando opierrotque me acalora as carnes...
—O noivado é um começo de intimidades, que se distendem, mais ou menos, conforme as razões de ser do amor vigiado. Naquelle avarandado semi-escuro, onde passamos todas as noites, por isso mesmo que estamos assegurados na nossa posição, com a possivel presença immediata de todos os de caza, as nossas intimidades seguem uma derrota que me dá o direito de exigir de Narciso maiores fidelidades do que tu pensas...
—Olha, Christina, como o setim vermelho desbotou e nodoou rubramente o collête... Oh!... envermelheceu-me o collo tambem... Que fazenda ordinaria, esta!
—Isto larga... Dois mezes, depois, de noivado, Stella, as confidencias das almas passaram às do corpo... Ah!... O primeiro beijo ainda foi mais cedo... Tinha eu tres dias de pedida... Na hora do adeus, deserta a rua, os seus labios roçaram sobre os meus{170}olhos, e os seus bigodes produziram-me umfrissonnas carnes, com o qual eu me teria entregue ao mais terroroso dos homens. E Narciso, pelos extremecimentos de meus dedos que elle segurava entre os seus, sorriu—um sorriso mais lindo do que um raio de sol!—e, sem o querermos, talvez, por certo instinctivamente, os nossos labios se encontraram...
—Vê, Christina, como ficaram as minhas calças...
—Desbotou nellas o setim?
—Alguma coisa. A côr amarella é mais fixa do que a vermelha... Mas, estão para ser exprimidas... Que sudorifico!
—Despe-te logo. Pareces, com os teus costumes, que os teus olhos são de um homem que acompanhasse o desnudamento dos segredos de teu corpo... Avia-te, afim de que me contes o que viste...
—Dir-te-ei centos de coisas novas...
—Appeteço o conhecimento do que sabes. É uma infelicidade ter-se um pae, como o meu, que se indignaria contra mim, tolamente, se soubesse que eu fôra a um baile publico espionar os desvarios de meu noivo... Ah!... Como eu seria venturosa, se pudesse ir, como tu, a toda a parte que cubiço...{171}
—Nem tu calculas pallidamente o que por là se vive...
—Apressa-te, Stella!
—Acaba, primeiramente, o que contavas... Não quero perder a bôa hora de confidencias que inauguraste...
—Pouco mais tenho para te dizer... Depois do primeiro beijo, os contactos... Em seguida, as mutuas confianças, mais um arregaçamento hoje, mais uma ternura amanhan... Um dia, porem, por mais que eu lhe resistisse, desejou ver-me o começo das pernas... Intimidades, Stella, intimidades, proprias, communs e infalliveis entre todos os noivos... Eram ellas que me garantiam, até hoje, a constancia de Narciso, e, quando vejo, como agora, que o que lhe faço jà se torna pouco para o prender na fidelidade accordada, adianto-lhe um pouco mais, sem comtudo deixar que elle perceba o manejo de fazer crescerem as concessões, na medida em que venha o seu enfartamento pelas anteriores... Conta, agora, o que tu viste...
—Deitemo-nos, primeiro... A fadiga luxuriosa me alquebra os membros e o corpo quer distender-se nervosamente num leito macio...
—E onde ficou Alberto?
—O meu primo?{172}
—Sim.
—Deixou-me ao entrar aqui. Pela nossa compostura fomos doispierrotsda maior sensação! Nem calculas como é deliciosa a companhia do meu primo nestes momentos... Ao depois, relembrou-me, com um calculado geito, pelo caminho, tudo quanto mais impressionou os meus sentidos. Soube corresponder à minha excitação, não commettendo maiores pecados do que me beijar nas passagens mais sombrias das ruas...
—Invejo-te, Stella!
—Bem poderias ter ido...
—Qual nada!
—Entrei e sahi sem que teu pae desse tento, pois não foi?
—Isto é fácil para ti...
—Procurou-te o teu pae durante a minha ausencia?...
—Não!
—Ahi está! Tinhas ido commigo e seriamos duas a commentar o que vissemos... Là estava Narciso... Foi um dos juizes no julgamento do baile. Custei a topar com elle. Só em meio da festa deparei com elle numa das banquinhas dobuffet. Mais de vinte homens e mulheres...
—Mulheres, tambem?{173}
—E então? Tu pensas que haverá quem resista à solidão naquelle cahos de sensações extranhas? O Lourival, marido da Conchinha, mais o Ramalho, casado com a Lucinda, là estavam, cada qual com a sua mascarada...
—Narciso tambem?
—Não te espantes senão se eu te disser que elle era o unico que não tinha uma mulher fantasiada ao seu flanco...
—Como isto me incommoda! Quando o vi, aqui, promover o arrufo, pensei logo na traição. Aquelle semblante enfarruscado não era sincero...
—Ao seu lado estava umaécuyèreitaliana: deves gabar-te do gosto de teu noivo. Não se acompanha de mulher feia. É serio...
—Era bonita a que o seguia?
—Linda, Christina:mignon, alva, loura, e, com um arrebatador decóte, exhibindo um collo mais branco do que um pedaço de neve, do meio da qual, como uma abelha sobre uma petala de gardénia, um negro signal era tido como mascotte...
—Jà agora me penso feliz por não ter ido là.
—Que teria se tu tivesses ido?
—Não me conteria.{174}
—Ora, Christina! Serias a primeira a deixar tudo para veres como o teu noivo sabe gozar uma mulher. Não dirias nem uma palavra, mas lhe acompanharias a pessôa como a sua sombra. Quando não te agradasse fecharias os olhos. Vi-o, por exemplo, encher a bocca de champagne...
—Nada mais natural.
—É o teu erro. Quem não sabe é como quem não vê. Pensas, então, que elle tomou a bebida de dentro da taça?
—Sim.
—Pois não! Adivettefoi quem lhe passou o champagne collando os seus nos labios delle... Garanto-te que não sabias deste modo de acariciar...
—Confesso-te que não.
—Ahi está. Verias adroiturecom que o teu noivo se curvou, encostou nas suas as faces da encantadora mulher, collou-lhe os labios e sugou-lhe a entontecedora bebida...
—Como deve ser bom esse carinho!
—Ao depois, beijaram-se...
—Aos olhos do publico?
—Sim.
—Ah!... Se eu estivesse là...
—Não farias senão nada. Eu, pelo menos, nessas occasiões de grande excesso, alli mesmo{175}me voltava, e, se não fossem as nossas mascaras, creio que, incondescendente, devoraria Alberto de beijos... Não conheço, Christina, nada que excite mais do que aquellas dansas. Um conto de Caliban é menos excitante, e um par dansando é bem um conto luxurioso escripto com a alma e a carne mais quentes, para ter o ponto final de um beijo. Os corpos estreitavam-se brutalmente, as pernas se entrançavam, as mãos, servindo de oppressores, estreitavam os troncos e cada par, assim enlaçado, cabeça descahida sobre cabeça, parecia um corpo só com a monstruosidade de quatro pernas... Exquisito, sem igual... Homens e mulheres não se distinguiam na furia dos sentidos...
—E Narciso dansou?
—Não. Nem todos dansam. Á parte, pelo jardim e nas mezas dobuffet, os que não estavam fantasiados, se divertiam à grande, mas um pouco retrahidos das vistas do grosso publico, porque só no salão elles escandalisariam...
—Todavia, vingar-me-ei...
—Poupa-o, Stella... O pecado é divino... Vinga-te em mim...{176}
As duas mulheres, num longo beijo, abraçaram-se e confundiram-se, cada qual na ideia mais fixa de ter ao seu lado um outro ente...A lua, devassamente, illuminou-lhes, até quando quiz, os seus bellos corpos de uma semi-nudez pagan...{177}
As duas mulheres, num longo beijo, abraçaram-se e confundiram-se, cada qual na ideia mais fixa de ter ao seu lado um outro ente...
A lua, devassamente, illuminou-lhes, até quando quiz, os seus bellos corpos de uma semi-nudez pagan...{177}
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No terraço do «Café Leontina», agasalhados em seus lanzudospardessus, ODORICOe WENCESLAU, dois typos mundanos, essencialmente mundanos, conversavam surdamente...Subito, passou por elles e sumiu-se portas a dentro, uma figurinha de sacudida mulher, muito morena e muito sensual, despejando olhares cupidos por todas as bancas.ODORICOenlanguesceu-se, e, como uma reacção, assignalou, assim, a passagem da exquisita-mulher com uma rememoração cruel...
No terraço do «Café Leontina», agasalhados em seus lanzudospardessus, ODORICOe WENCESLAU, dois typos mundanos, essencialmente mundanos, conversavam surdamente...
Subito, passou por elles e sumiu-se portas a dentro, uma figurinha de sacudida mulher, muito morena e muito sensual, despejando olhares cupidos por todas as bancas.
ODORICOenlanguesceu-se, e, como uma reacção, assignalou, assim, a passagem da exquisita-mulher com uma rememoração cruel...
—Sempre é curioso este «Café» em materia de mulheres. Não vejo esta «Menina{180}Leontina», como a chamam, que não me recorde logo da infeliz Madame Berthon.
—E tu, meu caro Wenceslau, és bem a chronica viva de toda a feminidade desta terra. Não ha uma mulher de quem não tenhas informações, anedoctas, segredos, sobre quem não lances um episodio de curioso entrecho.
—Não conheceste tambem a Madame Berthon?
—Somos os dois extremos: nada escapando ao teu saber e tudo me sendo ignorado...
—Era uma vaporosa copia de Helena, capaz de mover guerras, e tentar a inspiração do artista mais rude para produzir uma obra-prima.
—Alguma divindade incognita...
—Não, mas a causadora de duas mortes: um assassinio e um suicidio. Quem a visse na simplicidade das suas vestias, no commum dos seus gestos, e na temperança dos seus costumes, não diria jamais que era a senhora absoluta de um corpo de estatua, para ser copiado pelo cinzel mais inspirado... Não se julgue a felicidade dos fins pelas venturas que povoam a estrada por que trilhamos. Muitas vezes, um momento de tranquillidade{181}agora é a sementeira de um incommensuravel estado de attribulações mais tarde. Madame Berthon despejava invejas a todas as mulheres do seu conhecimento. Desta caza tirava ella os meios de sua subsistencia. Vi-a muitas noites, e sonhei com o taciturno aspecto de seu semblante. Taciturno, sim, porque, no meio da mais ruidosa alegria, aquella mulher era como uma virgem pallida a que nenhum excesso dê o rubor das faces... Sorria, mas o seu sorrizo revestia-se de uma algoz cambiante de tristeza. Tinha a côrte de poderosos pretendentes, mas decidia-se ordinariamente pelos mais fracos. Se ouvia a repulsa de alguem, era, ao depois, de um excessivo carinho para com o repellido. E, se a ninguem promettia, a nenhum negava, e a todos faltava... Curiosissima mulher! Os seus habitos eram os de uma leviana, mas a sua alma contrastava com a sua existencia costumeira. Exquisita mulher, Odorico, muito exquisita, senhora de muitos corações se tivesse querido, entretanto escrava de um só que a levou, finalmente, à sepultura. Durante algum tempo a sua tragedia foi a nota do dia. Um assassinio e um suicidio...
—Foi sempre assim: em cada mulher ha o germen de uma fatalidade, mas, em{182}algumas, ha a sementeira de muitos casos fataes.
—Espera, Odorico, espera. Não condemnes a desventurada pelos primeiros tons de sua historia. Juiz mais severo do que eu, não conhecerás, por certo, para o julgamento dessa gente que pisa sobre escandalos, que veste escandalos, e que escandalisa o proprio escandalo. De ordinario, a mulher é o algoz, parecendo a extrema fraqueza. Neste caso, porem, Madame Berthon foi, apenas, a victima. Se crime ella teve, foi o de amar o homem que a assassinaria mais tarde. E amou... conjugalmente, porque nunca trahiu aquelle com quem cohabitava. Ás deshoras, lá para as tantas, assim numa hora de madrugada quando o vigilante gallo de Ares cantaria tatalando, como dois esposos, ella e o amante daqui sahiam e recolhiam-se calma e honestamente. De feio que era, o homem haveria de enciumar-se até de si mesmo, descrendo de ser elle o galan de uma femea tão geitosa. No mundo dos amores, ha, entretanto, essa especie de compensações: o feio é conjugado com o bonito, e reciprocamente, o bonito com o feio... Dahi a naturalidade daquella união de Gaspar com a Madame Berthon. Mais de noventa noites durou aquelle consorcio espontaneo.{183}Aqui vinha eu, e naturalmente, cortejava à mulher gentil, espionando sempre o amante. Os homens todos, Odorico, saudavam-na com um mesmo enthusiasmo viril, como os armentios saudariam, com ardente fé, a vinda do outomno, porque é a estação das colheitas. Na manhan de um domingo, porem, no ninho dos dois amantes, là para as aguas furtadas de um sobrado, foi ouvido um movimento ouccubo. Visinhos, espicaçados pela anormalidade, attenderam ao que se passava na moradia de Madame Berthon. Depois de acalorada discussão, durante a qual o assassino descera as vidraças, cautelosamente, para não ser ouvido pelos extranhos, os estampidos de dois tiros indicaram um triste acontecimento no interior daquella caza. Momentos após, Gaspar, conduzindo uma bolsa de mão, descia os dois lances de escadas, abria as portas, e sahia, meticuloso e tranquillo, trancando às suas costas a entrada no sobrado em que commettera o assassinato de Madame Berthon. E, como um homem feliz, là se fôra rua abaixo. Quem o visse, não lhe diria o autor de um crime, muito menos quando, no desempenho de um habito, asseiava os botins, e olhava serenamente o movimento das ruas...{184}
—Revolto-me jà contra esse perverso.
—Pois bem! O movel do crime fôra o roubo e todas as poupanças daquella operosa mulher estavam furtadas na bolsa que Gaspar segurava zelosamente. Em torno da caza de Madame Berthon, com o caso extranho dos dois tiros, populares encostavam-se nas redondezas do edificio suspeito, arrastando-se como lemures ámerios em trilhas brancas de areiaes desertos. Vozes surdas contavam as supposições de um crime; a suspeita avolumou-se... O rochedo nú da desconfiança vestiu-se fartamente com os ouropeis das espumas brancas dos commentarios. Pelas janellas descidas, olhos mais perspicazes queriam ver logo os indicios vivos do barbaro crime. E o tempo era bastante para que o assassino asseiasse as botas e penetrasse no Hotel onde tinha hospedagem official. Nos populares tressuou a vontade da denuncia, e um indicou a presença proxima de um delegado. Era preciso animo tambem para se ir retirar a fescennina autoridade do seu aninhamento concupiscente ao lado de uma concubina... Tudo o mais foi rapido. Num instante abriu-se com violencia a entrada. Um obstaculo appareceu: a porta estava presa, como que escorada por dentro. Que seria que obstava o seu movimento?{185}Uma cabeça affoita enfiou-se por uma nesga, e voltou transfigurada, annunciando sómente: «Está morta». Outros typos mais curiosos vieram, ageitaram-se e penetraram com a autoridade. Estatelada sobre o chão, Madame Berthon, numa nueza arrebatadora ainda não tinha a gelidez dos cadaveres, mas já era morta. O seu thorax derramava coalhos de sangue escarlate. E sobre as suas fórmas nuas, nada, senão as meias presas com atilios de fitas rubras, e as pequenas sapatinhas...
—Que miseria!
—Já conheceste a victima. Dahi por diante a acção foi sobre o agente. A perseguição popular foi ter ao Hotel, e, quando os primeiros perseguidores foram percebidos, com a mesma arma, alvejando as suas proprias temporas, Gaspar era um suicida... Não calculas a impressão que esse crime deixou no meu espirito. Eu vi a nudez de Madame Berthon, e senti que o assassino não tivesse ficado vivo para pagar com a reclusão da vida a barbaridade do assassinio de uma mulher, cujo corpo esculptural seria capaz, como o de Mnezarete, de vencer austeros Areopagos... se desvendado fôsse tal como eu o vi... E nota, Odorico, que um corpo{186}morto, por mais bello que seja, é menos do que o vivo, porque, quando nada, lhe falta essa humidade quente que é o fluido mais sensual do mundo. Deante de carnes como as de Madame Berthon, só naturezas muito fortes não cederão à necrophilia... Então ella que possuia um nevo sobre o quadril direito...
—Sensualizas tudo, Wenceslau!
—E que é que escapa, neste mundo, da sensualidade? A propria morte, como tu deves saber, é um pedaço de sensualismo microbiano... Quantas fecundações damnadas na hora extrema de um ser?!... Porque, senão pela força dos sexos, baqueou a inditosa Madame Berthon?!... Recorre à instancia do amor que toparàs com a absolvição da mulher, e carregarás a mão na dosagem da condemnação do homem algoz.
—Comtudo, sou contra sempre a defesa da mulher. Esta tem sido condescendentemente tratada. Menos liberdade para ella, mais rigor no senhorio dos homens.
—E como influiria tudo isto para que Gaspar não victimasse Madame Berthon?
—Seria preciso, Wenceslau, que eu te contasse a historia desde o começo do mundo, e é coisa que não se sabe é a data da primeira{187}traição da mulher, de tão distantes tempos vem ella.
—Andas atrazado nisto, Odorico. A mulher teve o seu primeiro acto numa traição do homem, e formada de uma traição, porque foi necessario que Adão adormecesse para que Jehovah, trahindo à perfectibilidade da sua obra, lhe tirasse uma costella do corpo afim de formar Eva, ella não poderia ser contraria à sua origem...
—És rigoroso demais...
—Não sou, não, meu caro. Um grande philosopho, cuja obra leio todos os dias e quanto mais leio mais ella me ensina, observou bem o que te digo e escreveu precisamente: «As mulheres têm sido tratadas até aqui, pelos homens, como passaros que, descidos de uma altura qualquer, se perderam no meio delles: como qualquer coisa de extranho, de delicado, de fragil, de selvagem, de doce, de arrebatador—mas, igualmente, alguma coisa que é necessario engaiolar para que se não và embora num vôo»... Que é isto senão o reconhecimento do espirito traiçoeiro de nossas Evas?... Ao demais... estamos muito fóra dos eixos... Que bebemos agora?...{188}
Fóra do terraço do «Café Leontina», solemnemente encapotados, dois policiaes nem tinham alma para andar, tamanho era o frio da alta noite...
Fóra do terraço do «Café Leontina», solemnemente encapotados, dois policiaes nem tinham alma para andar, tamanho era o frio da alta noite...