MUNDANISMOS

MUNDANISMOSLe monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira.ANATOLEFRANCE.{1}NEDDA{2}{3}NEDDAManhansinha.A sala, de azuladas paredes seminúas, estava pobremente mobiliada: era no saguão da casa, e as duas mulheres entraram às tontas, até se abrirem de par em par as gelosias.SAUL, de NEDDAesposo, ficàra a dormir na alcova.E NEDDA, abysmada com a indifferença delle que apenas lhe não dirigia um monosyllabo desde a hora do facto, comprehendeu logo que DONALOURA, a sua mãe, era uma interprete das indisposições do genro...Num canapé, as duas mulheres, DONALOURA, archaica nas suas vestias de capote e turbante, e NEDDA, deliciosamente matutina num roupão branco que descansava,{4}sans-dessous, sobre a finissima camizêta de cambraias,—sentaram-se, afundando em concavos a palha flaccida do cansado movel...—Esperava-te, maman, qualquer das horas. Quando vejo Saul levando-me entre dentes e indisposto como um burguês dispeptico, silencioso como uma esphynge e entristecido como um beato sem almoço, adivinho logo que vens por ahi como a mensageira da paz. E elle foi procurar-te hontem à tarde...—Exactamente.—Previ tudo isto. Ha cinco dias que nós não falamos, e, pensando-o na rua, hontem, vim ter aqui. Foi quando topei com elle, sentado naquella cadeira, lendo a Biblia, ou folheando-a, apenas... Vendo-o, assustei-me e não contive um gritinho de susto. Mas tornei immediatamente sobre os meus passos. Ha quatro annos que somos casados e nunca passamos dois mezes sem uma rusga. É sempre elle quem as promove com um resaibo de malentendido ciume. Aceito sempre o seu rompimento e nunca lhe dei a honra de capitular{5}nas hostilidades. Quando ellas são de nonada, aqui mesmo se resolvem; mas, quando avultam como agora, elle te vai buscar como intercessora. Jà sei que vamos ter, como sempre, uma crise de amorosidades que me enfastiam. Lastimo é não conceber um filho desse homem para o embeiçar pela nova criatura e sentir-me menos jungida às suas intemperanças de... mal educado! Ás vezes, chego a ter nojo do senhor meu marido...—Que blasphemia, Nedda! Dizes isto do teu esposo com um sangue frio que me pasma...—Devias esperar isto. Cazei-me contra a minha vontade ao depois de ter o assedio do seu amor por mais de cinco annos. Tudo inventei para que um tal matrimonio não se fizesse. Por ultimo espalhei, e fiz conhecer-se em caza, por torna-viagem, a mentira de que Saul é um tuberculoso. Tanto mais eu o aborrecia, quanto a senhora e o papá intervinham, patrocinando a causa do moço platonico. Dá-me, na verdade, um insistente desejo de rir muito quando lembro os idealismos delle, seguindo a minha sombra, porque nunca lhe deixei o direito de enfrentar-se commigo em parte alguma... Expúz-lhe sempre que sonhos não me satisfaziam, nem eram para o meu{6}temperamento homens vaporosos, poetas e doutores... Movi-lhe intensa guerra, apaixonando-me por Frederico Stöltze. Está! Com este provavelmente eu teria sido bem cazada. O pobre «allemãosinho» levou o caso muito a serio e cazou-se, logo que eu o abandonei, com uma defeituosa... Foi um despique, não ha a menor duvida, mas quem sahiu perdendo foi elle. Saul é um temperamento de phoca...—Respeita o teu marido, minha filha!—Pois não é, maman?—Essas couzas não se devem dizer...—Não tratarei de occultar o sol com a mão. Já disse e é mesmo: um temperamento de phoca. Só quer hybernar sobre os livros, deante dos quaes se abespinha como o animal sobre o gêlo. Eu, porem, quero muito sol, muita luz, muito calor, muita actividade... Maman, o que vocês velhos veem no cazamento é o interesse de collocar as filhas, porque ficando velhos receiam que nos tornemos muito sós no mundo. Por isso acontecem destas, cazamo-nos com a vontade dos papás encarnada na figura de um homem que não é a correspondencia de nosso instincto. Olha! Não intervirei nunca no cazamento de ninguem: cada qual commetta a sua doidice{7}como quizer, e, se escolher um lorpa como Saul, arrependa-se de si mesmo e não me culpe a mim.—Tu vês no homem uma excitação, Nedda, quando devias ver uma satisfacção.—Deixasses eu escolher como tivesse querido, e estarias livre hoje dessas trabalheiras de paz... Saul, antes de meu marido ser, soffreu toda a minha repulsa. Cazada fui tolerante. Elle, no entanto, não sabe aproveitar-se de minha tolerancia e quer subserviencia, servidão, ou coisa similhante... Está enganado! Devias ter sanccionado a minha repulsa logo de principio. Lembras-te do convescóte dado aos chilenos, nas Salinas? Tu não foste, e Saul, que era apenas meu pretendente sem a menor esperança, moveu contra mim uma intriga terrorosa, porque viu, no campo, o primeiro tenente Santander amarrar os cordeis de minha botina que estavam difficultando-me o andar. Deves recordar-te de como energicamente o reprimendei, quando soube que lhe cabia a autoria do contado... Note-se que era apenas um pretendente, como muitos havia, todos suggestionados pela minha belleza pouco commum neste bairro de mulheres feias. Afinal, maman, que te disse elle desta vez?{8}—Saul comprehende o amor como uma esthesia, minha queridinha, e tu o comprehendes como um devaneio. Isto é proprio para as meninas. Tu te esqueces, e nisto eu lhe dou razão, que és uma senhora escrava da moral esponsalicia. Contou-me o teu marido um facto em que elle te surprehendeu. Realmente, se as cousas se passaram como podem ser suppostas, e elle não quer crer, tu andaste mal.—Tu o ouviste, elle contou o acaecido a seu geito... Ouve, agora, como tudo se deu...—E dispensavel Nedda. O passado está passado. O que é preciso é que não dês lugares a aleives e que poupes os amuos. A alma dos homens tambem calleja. Os amuos fazem pequenos callos, mas tempo virá em que, callejada a alma, o amuo será definitivo.—Que teria isso?—Um escandalo, minha filha!—Para adquirir a minha liberdade maman, que tu sacrificaste, eu não me pouparei a um grande escandalo.—Toma juizo, doidinha. É preciso acabares com estas zangas e receberes o teu marido como o teu senhor...{9}—Hein?... Não me zangarás, maman, pódes ridicularizar-me como entenderes... Não me darei por achada.—Não promovo senão o teu bem. Resolve a crise e sê... mulher de teu marido.—Jà estás julgando o feito?—Tu tens toda a razão, elle tem igualmente toda a razão. Harmonisem-se e sejam felizes.—Pareces-me uma juiza a Salomão, com a differença de que o rei hebreu ouvia ambas as partes em conflicto, e tu julgas com a audiencia de uma só...—Interpretas muito mal o meu genio.—Não te interessa conheceres a injustiça de que sou accusada pelo sr. meu marido?—Fala, minha filha! Mas tem a certeza de que, fosse qual fosse a accusação, eu nunca seria contra ti.—Obrigada, maman! Quero, entretanto, justiça, e que, como Saul, não julgues pelas apparencias. Daria a vida para saber como elle te referiu o que se passou...—Deixa o que elle me disse. Narra o que tu sabes...—Pois bem! Na terça-feira, maman, de combinação com Saul, resolvi passar uma temporada num arrabalde. E, devidamente autorisada por elle que me falou pelo telephono,{10}fui à Barra correr uma cazinha vaga e que nos serviria. De caminho, encontrei-me com o dr. Eduardo que, ao depois de saber ao que eu ia, daquelle modo desacompanhada, teve a gentileza de offerecer-se-me para o serviço de abrir e fechar portas. Aceitei e foi elle quem tomou as chaves na taverna da esquina... Vê tu!... Não fôsse elle e teria eu de entrar numa taverna, sósinha, arriscada a ouvir qualquer indecencia... Ao depois, o dr. Eduardo foi quem abriu a porta... Como eu me ataria de luvas de camurça para fazer essa diligencia?... Umas chaves muito pouco asseiadas... Corremos o primeiro andar da caza, e, quando passamos ao sotam, o meu gentil cavalheiro se lembrou de, por segurança, fechar por dentro a porta da rua... Subimos. Mal chegavamos em cima, começaram de bater numa porta. Poderia eu suspeitar que o meu marido, tendo ordenado que eu fosse, porque elle não teria opportunidade de acompanhar-me, logo depois resolvesse o contrario, e estivesse a bater na porta da rua? E foi por um acaso que nós o vimos. Chegamos inesperadamente a uma janella do sotam e percebemos que era elle quem batia. O dr. Eduardo, desculpando-se por jà ter eu cavalheiro, despediu-se de mim, desceu as escadas,{11}e, quando abria a porta, foi insolentemente aggredido por Saul, que lhe negou a mão para o cumprimento do estylo... Só tu vendo, maman, a furia com que o sr. meu esposo investiu contra mim! Felizmente, desafiado pela minha calma, elle não teve animo para iterar o qualificativo mau com que me mimoseou. Dei-lhe as costas e, se elle quiz, fechou sósinho a caza e veiu só...—Devias ter evitado tudo isto, Nedda.—Evitado, como?—Não acquiescendo à companhia de um homem de mà fama, como é o dr. Eduardo.—Adivinhasse eu que elle viajaria para a Barra naquelle mesmo bonde em que eu fui... Hora de trabalhos na cidade...—Recusasses os favores offerecidos.—Ora, maman! Deixa-te de coisas! Qual é a mulher que se anima à grosseria de recusar gentilezas de um moço de distincto trato?...—Conforme o renome desse moço.—Tem mà fama o dr. Eduardo?—Não sei, não. Dizem.—Se tem mà fama, tem maus costumes. E como é que Saul, tão zeloso de sua honra, admitte, no seu convivio e nas suas recepções, um homem mal visto? Penso que os frequentadores de nossos salões, oshabituésde nossa{12}intimidade, sejam pessoas dignas de acompanhar-me a um ponto qualquer, e, se não fôsse assim, a primeira privação delles, seria a do nosso convivio...—Neste ponto és razoavel, sou eu a primeira a reconhecer... Mas, Saul referiu-me que estavas sem chapeu...—De facto. Ao depois que o dr. Eduardo se despediu, esbarrei na telha van do sotam, e enchi as flores do chapeu de teias... Sabendo que o sr. meu marido alli estava para auxiliar a reposição, tirei o chapeu e asseiei-o prestamente...—Diz mais elle que estavas empurpurada e que te confundiste com a sua chegada, ao ponto de não saberes repôr o chapeu...—Saul é um mentiroso.—Não te zangues, Nedda.—Injuriou-me.—Não dês importancia a isto e resolve-te a aceital-o pacificamente...—E elle o quer?—Porque perguntas?—Porque tão honrado elle não deveria aceitar mais a cohabitação da esposa deshonesta.—Não deves dizer assim, minha filha!—Aceita-me elle?{13}—Que tolice, Nedda!—Maman, Saul deveria ter agora a minha repulsa definitiva, e não a faço em attenção aos teus bons officios...—Fazes muito bem.—Là vem elle descendo...—Trata-o bem, minha queridinha! Um lar que não tem esposo...—Desculpa-me, maman: só agora reparo que estou muito à vontade para nos encontrarmos os tres...Arrepanhando, então, o bello roupão desabotoado, por cujas rendas e decotes se viam as carnes luciferas de NEDDA, a mulher de Saul se escapuliu, desenhando escorreita o seu impecavel corpinho de esculptura grega...{14}{15}VOLUPTUOSAS{16}{17}VOLUPTUOSASNo rêz-do-chão de um palacete, coadas as luzes do sol por arrendadosstorespallidos, HELENAfazia somno à hora da sesta, quando MARIAANGELICAa surprehendeu adormecida.A recemvinda impregnou o ambiente de essencia de iris, emquanto uma voluptuosidade ennervante empurpurava a linda cabeça desmaiada de HELENA...Um beijo sobre os labios da desaccordada mulher, fel-a despertar com um fremito de prazer...—De onde vens tu, Angelica?—De encommendar flores...{18}—Flores?!—Não te recordas de que Sophia se cazará amanhan, à noitinha?—Sou uma esquecida.—E ella é credora de nossas gentilezas...—Das minhas, especialmente.—Encommendei orchidéas e chrysanthemos.—Que gosto! De minha parte vou mandar-lhe duas magnolias.—Bellas flores, realmente. Mas, a natureza esmerou-se no chiquismo das orchidéas. Uma catyleia é um pedaço de labios excitados por dois beijos.—Não lhes acho graça.—Ó exigente!—Flores do matto. E jà notaste que quasi todas ellas são lilazes e roxas? ou que se enfeitam com estrias e matizes dessas duas côres melancolicas?—Descobres coisas...—Mas, não é?—Realmente.—E como vais presentear uma noiva com flores lilazes?—É a moda, é o chic, é odernier-cri...—Olha! Nas minhas bodas manda-me flores alvas, muito alvas, chrysanthemos, rosas, cravos, magnolias... Comprehendeste-me?{19}—Se não! Agora, coisa notavel: eu te vejo com as faces pallidas e os olhos muito brilhantes...—De verdade?—Sim. Sonhavas?—Nem me lembro! Parece-me que sim. E tu estás intensamente corada...—Apanhei muito sol.—Os teus olhos estão pisados e languidos...—É da fadiga do caminho... Desde cedo na rua, exposta, Helena, ao calor que abraza e ao sopro canicular que afeia os penteados...—Jà tinha reparado: os teus cabellos estão desmanchando-se...—E eu os concertei no espelho de Esther.—Andaste là, hein? Jà havia desconfiado... Quando te vejo amollentada, assim, tenho razões para me enciumar... É muito descuidada a Esther. Cuida mal das vestimentas das amigas. Olha o teu cinto, Angelica... Está mal posto, a fita está retorcida...—Nem reparei...—Disto não és culpada, por certo... Eu não te deixaria sahir daqui tão mal-amanhada. É de causar vergonha.—Foi a pressa, Helena.—E no teu hombro a sêda está nodoada...{20}—Nodoada?!...—Sim! Vêem-se duas curvas vincadas como os bordos de uma... Nem sei mesmo que diga... Parece-me que te morderam o hombro?!...—Quem o poderia fazer?—Esther.—És ciumenta! Fica sabendo: foi no jardim quando eu encommendava as flores. Deve ter sido agua das rozas, Helena, que aqui cahiu... Estás satisfeita?—Muito pouco. Quando muito, illudida, minha flor, mas não convencida...—Tu me censuras, e eu que te surprehendo com um esquisito fogo no olhar humido?... Terá sido algum sonho delicioso... A tua voz mesmo é arrastada como a de quem se fatigou num excesso de venturas...—Que venturas posso ter?—Em sonhos podemos ser venturosas como jamais seremos na vida real... Morpheu capricha em povoar-nos a mente com espectaculos espantosos. Ha vezes em que, se eu pudesse, esganaria quem me desperta... E outras occasiões, quando volto a mim sem provocação, sou prompta a espantar-me porque me accordei e não morri no meio do prazer sonhado...{21}—Ha sonhos, effectivamente, que se não deveriam acabar... E não sentes calor, Maria Angelica?—Algum.—Neste caso...—Que fazes?—Dispo-me. Não me imitas?—Póde ser. Passarei a tarde comtigo...—Despe-te, pois... Tira o casaco... Desaffoga o collo desta góla assoberbante... Não tens geito?... Chega, que te libertarei...—Tira os alfinetes.—Usas um bom pó de arroz, Angelica.—Ui! Helena!—Que foi assim, ardilosa?—Espetaste-me as carnes...—Tambem é uma ruma de alfinetões...—É para segurar bem.—Tens uma pellugem de arminho...—Ai!... Assim não... não...—Que tens, rapariga?—Beijas-me, Helena, com uns labios quentes e gulosos... Só me déste vontade de...—Ui!... ui!... ui!... Fazes-me umfrissonde arrepiar-me os pellos...—É para vingar o teu beijo...—Porque me olhas assim, Angelica?{22}—És de uma alvura surprehendente, minha amiga. De teu corpo rescende um perfume originalissimo que me entontece...—Aprendi a perfumar-me com as gregas. Li num livro que uma beldade se cubria de perfumes para agradar aos amantes. Eu o faço para attrahir as amigas como tu... Uma grega banhava as pernas numa bacia de prata em que se confundiam os aromas do nardo de Tharsos e do metôpyon do Aigypte. Nas axillas attritava mentho e sobre as pestanas e nas palpebras marjolana de kôs. Ao depois, a escrava defumava-lhe os cabellos desennastrados com espiraes de incenso, que combinava admiravelmente não só com a essencia de rozas de Phasêlis que lhe embalsamava a nuca e as faces, como tambem a bakkaris que se lhe derramava sobre os rins. E, por fim, entre os seios, corria o celebre oinanthê das montanhas de Chypre... Sei perfumar-me, Maria Angelica...—Bem se lhe pareciam as gregas, tuas mestras...—Entre os meus seios, inda ha pouco, deixei correr um fio languido do irresistivel Royal-Begonia, e nas axillas puz algodões embebidos na essencia de rozas... Nos meus cabellos derramei oleos de sandalo, para contrastar{23}com as evolações das essencias de jasmins que perfumam as minhas vestias...—E na posse de tudo isto praticas uma mà acção, Helena!—Qual?—Essa de referires tantos perfumes e não me dares nenhum a provar... És avarenta, como ninguem, e eu cubiçosa de gozar...—Vai ao meu toucador e gasta do que quizeres...—Teria graça!—Porque assim?—Gósto das flores nos vegetaes, das essencias nos corpos das mulheres. Quero experimentar com o olfacto o odor unico que se desprende das tuas carnes...—Tens desejos masculinos, minha queridinha!—E é o que me faz lamentar-me: junto de uma graça não ser um Adonis, junto de uma Helena não ser cupido... Se eu pudesse embriagar-me com os teus perfumes e desmaiar de prazer entre os teus prazeres, seria mais feliz do que Syrinx, louca de paixão, Byblis, unica na insaciabilidade, ou Mnasidika, macia como um velludo... Helena, tu és uma perfeição...—Mofadora!{24}—Mofar eu de ti?!...—Não te abraza o calor?...—Sim... Intoleravelmente...—Safa o collête... Assim... Que lindo corpo, Maria, e quantas seducções na tua plastica vista atravez da transparencia das gazes... Bem dizem os homens, sabios no sensualismo pagão, que o nú de veus é mais provocante do que o nú sem disfarces... Ha qualquer coisa de mystico, de irreal, na mulher encoberta pela semi-fluidez de um tecido fino... Se eu te não conhecesse os segredos todos de tuas lindas curvas, te rasgaria agora, impiedosamente, o veu de tua nudez...—Jà sentiste, Helena, um prazer maior do que esse das carnes livres do arrôcho de um collête dictatorial?—Quantas vezes?!—Tu brincas, mulher divertida...—Provo-te com a citação: despirei o meu collête e não me sentirei mais provocada do que contemplando as tuas fórmas semi-núas...—Es barbara, Helena! Como encarceras um tão lindo quadril dentro dos oppressivos liames de um collête... Ah! Como eu daria a vida por ser morena! O ventre alvo é uma desillusão, mas o trigueiro, como o teu, é um{25}incentivo. Parece o tegumento de um fructo e provoca o instincto mais calmo...—Não te agrada a minha nueza?—Inteiramente. Agora, vê là se te não impressiona mal a brancura do meu ventre...—Ao contrario, Maria Angelica: é uma grande corolla de petalas alvas desenvolvida de um peluginoso calice de oiro... É maravilhoso o teu contorno... Dignas fórmas para a perpetuidade de uma téla ou de um retrato...—Deixarias tu que fôsse apanhada a tua nudez?—E porque não?... Sei que fascinaria... Queres photographar-me?—Que egoismo leviano!—Acha-o?—Sim... Photographemo-nos...—Adoravel!... Como não irradiará noclichéo contraste de nossas pelles, o macio sombreado de um tropico sobre a tentadora alvura nevosa de um pólo...Os olhos das duas mulheres vestiu-se com uma luz liquida como uma solução de perolas e opalas.{26}Os seus labios permutaram cariciosos beijos.E, horas depois, MARIAANGELICAe HELENA, retratadas por uma aia, desvendavam as suas abrazadoras nuezas à inveja de ESTHER...{27}O POETA MORIBUNDO{28}{29}O POETA MORIBUNDOLuxuoso salão de recepções: por entre cavallêtes com quadros de fina pintura, em que apparecem, de par com extrangeiros, o gosto de Parreira e a vocação de Prescilliano, vasos com flores, e, no meio das tapeçarias, dosfauteilse das luzes, um magestoso piano Ritter.HELOISAacabou de executar, com todo o applauso do maestro CHRISTOVAMDETMER, a linda fantasia—Le poète mourant—de Gotschalk.As ultimas notas perderam-se artisticamente: o maestro cheio de admiração e preso da infinita tristeza, dobrou-se e beijou os dedos que obedeciam á grande inspiração de HELOISA.Esta olhou-o e transfigurou-se como uma alma reflexamente combalida{30}pela dor de uma alma irman...—Como esse poeta, Heloisa, que o grande musico fez morrer nas notas bemolisadas do piano, finou-se hoje o nosso amor... Emquanto executavas e os teus dedos arrancavam da alma do instrumento piedoso os sons do passional poema lyrico, me concentrei e te affirmo que a visão não despresou a audição, pois vi e ouvi toda a scena, desenvolvida entre personagens vivas, que se moviam, se soccorriam e testimunhavam o desfallecimento do artista moribundo. Durante minutos que serão inegualaveis na minha existencia de musico, aqui estive ao teu lado, frio como uma estatua, hermetico como uma esphynge, e não denunciei, pela ruga menor de meu semblante, a dor imperiosa que me ennervava a existencia. Vim do gabinete privado de tua mãe, que se transformou pacificamente no Satan de nossa felicidade. Falei-lhe ardoroso, como se lhe dissesse uma aria de Beethoven, contei-lhe minucioso e preciso a longa historia de nosso amor. Vejo, agora, que, por vezes,{31}fui minudente de mais, rememorando o platonismo inedito com que te amei a alma de artista e não o corpo de mulher. Ao depois de ouvil-a, vim inspirar-me para o sacrificio no teu talento. E saio de tua presença illuminado como o prescripto que recebeu o balsamo do conselho christão para subir em seguida ao patibulo. Dá-me, pois, o conforto de tua confidencia ultima: amaste-me alguma vez?—Que pergunta, Christovam.—Indiscreta?—Não; ao contrario. Amesquinhante...—Extranho-te.—Não ha razão. Porventura pensarás que te amei e não te amo agora? Acaso a minha mão de mulher para te ser dada dependerá de alguma coisa irreductivel deante de minha vontade altiva?—Sinto-me lisonjeado, de facto, com a tua constancia, Heloisa. A cor dourada dos teus cabellos que te faz distincta entre as cabeças bellas de todas as mulheres, neste instante, afigura-se-me a grinalda de luz com que se enfeitam as santas nos seus altares. Mas, um maestro, um homem que sabe musica simplesmente, que é apenas um artista, é pequenino de mais para ter uma pretenção de{32}amor. Eu me pareço com esta figura lendaria de Kadjira que destruia as rozas por prazer. No reinado das fantasias de ouro e de fidalguia com que se entontecem os teus paes em sonhos egoistas, cheguei, como a perversa princeza turca que despetalava rozas, derrocando castellos, para me conter na illusão em que me deleitava sómente com a audiencia da negativa inclemente de tua mãe. Confessou-me que maldava de todo o nosso amor, desde principio. E porque, se assim era, protegia a ampliação de um sentimento que deveria ser, como os filhos defeituosos das ciganas que são atirados ás piranhas, destruido no nascedoiro? Antes que eu lhe communicasse, falou-me em que se correspondias aos meus calculos de matrimonio, era porque, doidivana como toda creança, jogavas a péla na orla do precipicio, esperando o aviso amigo para te retirares gloriosamente... Negarás, Heloisa, que tinhas consciencia de minha pretenção? Sophismarás, em favor da excommunhão que me lançou a tua mãe, e contra a clareza da ordem que me deste afim de se officialisarem as relações do affecto, que nos encaminhava de um illusorio paraiso? Responde com o talento immensuravel com que sempre me amaste...{33}—Falas desatinadamente, Christovam, numa contingencia em que deverias possuir o maior tino dos homens.—Tens o dom solar de illuminar o mundo pelos flancos, se uma nuvem pesada se antepõe á sua esphera...—Sinto-me transfigurada. Amo-te ainda, e não te hei de amar fóra do regosijo delles...—Dos teus paes?—Sim. Acharias extranho se te dissessem que duas sementes postas em tuas mãos estariam vegetaes só ao sôpro de um fakir indiano. Porque admittirias que a minha vontade fosse forte bastante para romper a marcha das intenções dos meus paes sobre a minha razão de ser mulher? Por ventura sem o sopro do fakir as sementes germinariam e attingiriam as fórmas de seres definitivos? Não supporás que, sem aquelle sôpro, algo se realisasse. Como suppôres que sem a vontade dos meus maiores a nossa união se perpetraria ao teu sabôr?—Desconheço-te já...—Mas, porque...—O sophisma substitue a tua logica: o amor cedeu o posto á quesilia dos outros...—Esperarias o meu consorcio sem o consenso dos que me deram a existencia de mulher?{34}—Nem sei de mim mesmo que te responda...—Não poderias esperar. Se eu fôsse livre, se a lagarta para ser papilio não carecesse de passar por ser chrysalida, nem eu te mandaria impetrar a sancção que nos faltou, nem os que nol-a negaram teriam razões para tal fazer. Aborrece-te o trovão? amedronta-te o curisco? Queres ver-te livre delles? Crê num Deus e pede-lhe a extinção... Infelizmente, Christovam, nem o trovão se extinguiria, nem o teu querer triumpharia... De um lado, Deus seria impotente para te dar o que pedisses porque não terias o direito de pedir... Só pede quem póde pedir; se se pede é porque de quem dá depende o pedido; e se o pedido não é dado, procura a causa na insufficiencia e na sem-razão de quem pediu...—Mas...—Nada adianta, Christovam. Corresponde ao meu inquerito e nega-me, se conservares a razão, que tenho o bom senso desejavel ás creaturas perfeitas. Queres responder-me?—Nada significará o que te responda.—É preciso que sejas categorico.—Pois sim: responder-te-ei.—Poderias tomar-me como tua esposa sem, obteres a minha vontade?—Por certo que não.{35}—De minha parte a questão é outra: teria eu o direito de responder por mim num caso expresso de matrimonio? poderia ser unico o meu querer?—Se quizesses, sim.—Não é assim, não. Porque não me tomarias por mulher sem o meu assentimento? Por impoderoso deante de minha definição adversa. Porque não me daria eu por esposa sem o consentimento dos meus paes? Por impoderosa deante da pronuncia delles. Se tu pudesses alcançar de mim o amor sem vontade, desnecessario seria impetrares-m'a; se eu dispuzesse de meu corpo sem a intervenção dos que m'o formaram do nada em materia e em alma, nem cogitaria de enviar-te a elles...—É um dilemma sophistico.—Por que principio, não sei.—Um dia, quando eu te disse que me abrazava na sêde do teu amor, Heloisa, como correspondeste a esse lapso do meu instincto?—Do modo mais franco.—Sim... Dando-me apaixonadamente os teus labios para nelles, como eu quizesse, matar a sêde que allegava...—Dependia de mim. Dei-te.—De outra vez pedi-te um testimunho da correspondencia de tua paixão. Negaste-m'o?{36}—Não poderia negar.—Exactamente. Levaste-me, com todo o carinho, a dextra ao collo, e, na grandeza das iteradas pulsações cordiaes, affirmaste que eu reconheceria a intensidade do teu sentimento...—Dependia de mim. Pratiquei.—Por fim, quando te acenei com o plano de nossa união...—Como te respondi, Christovam?—Com a primeira negaça.—Adulteras a minha intenção: cumpri o meu dever, enviando-te á maman, como o caminho propicio para vencer o papá.—Realmente, Heloisa. Sou um vencido.—Garanto-te, porem, Christovam, que te amo, ainda, como te amei...—Irresistivel tormento para mim: serei eternamente o artista obrigado a consummar uma grande obra musical sem a inspiração para a realidade do dever...—Desistes, então, do teu amor?—Razões me sobejam...—Que te disse, afinal, a maman?—Isso mesmo. Falou-me em que queria um marido para a sua filha e lembrou-me que um musicista não compõe sem ter inspiração...—Nada de mais, Christovam!{37}—Talvez não queiras comprehendel-a... Mas é tudo que se póde allegar contra um homem...E, louco pela musica, inconsciente quasi, CHRISTOVAMDETMERassentou-se ao piano e executou, irreproduzivelmente, a esquisita criação de Gotschalk, ao depois do que, ceremoniosamente, se despediu de HELOISA...{38}{39}O VELHO MEDICO{40}{41}O VELHO MEDICOO mostruario exhibia, garbosamente, os artigos da moda rigorosa.ESTEPHANIOe JUDITH—esta desprendendo-se de si no devotamento ao esposo, e aquelle, dominador da mulher vencida em mais annos, como se lhe tivesse o corpo de cór, curvas e linhas, luzes e perfumes—gozavam o esplendor dos luxos, com que o artificio corrige os defeitos da Natureza e apaga os estragos do Tempo...MARCOANTONIO—o medico afamado—cofiando as ennevoadas barbas em que se escondiam as illusões do seu poder curador, arrancou os olhares dos dois esposos, e apoderou-se, com fascinante dominio, de suas attenções...{42}—Bem póde a therapeutica dos homens... Vejo-o restituido ao fulgôr da mocidade...—É exacto, doutor, passo agora sobre as molestias como a insensivel salamandra por sobre chammas... Descrendo da causa, não posso affectar-me com os seus effeitos: a sua medicina é a criadora das humanas torturas. Parece-me que jà se disse: «Tirem os medicos e as enfermidades desapparecerão»... Mas, eu digo: fugi delles e estou curado. Deem-me milhões de medicos e estarão formados trilhões de doenças.—E quem te curou, meu caro?—A natureza...—O novo deus pagão...—Assim diz o dr., mas, de facto, a inexgottavel fonte de poderes curadores. Lembra-se de que o procurei exasperado com o que soffria?—Lembro-me, sim.—Foram tantos os diagnosticos que jà perdi o direito de dar-lhes autorias.—O sr. era verdadeiramente um doente.—E o dr. escreveu uma longa lista de medicamentos para horas certas e invariaveis.{43}—Realmente.—Pois confesso-lhe: não fiz uso de um só. Tambem o doutor não foi o ultimo medico que me assistiu. Ainda hoje louvo-lhe a sua acuidade na inspecção. Nada faltou à sua perspicacia, senão comprehender que, no meu estado, as suas perguntas eram outras tantas suggestões e novos symptomas para a aggravação de meu mal. Eu vivia desvairado na vontade de accusar males crescentes, e os meus assistentes porfiavam em illustrar-me em torturas ineditas.—Afinal... quem te curou?—Dir-lhe-ei tudo, de começo. Hygia, a deusa da saude, não é de todo mà...—A historia vai ser a mesma de todos os doentes restabelecidos: salvaram-se pela acção do dedo de Deus, como teriam morrido pela intervenção do doutor...—Creio que o sr. adianta um mau conceito. Não me tenho na conta dos casos communs.—Desculpe-me.—Pois não! Mas, a minha doença foi uma criação dos meus medicos, e a minha cura proveiu de minha inabalavel resolução de abandonal-os. Eu estava em ultimo grau de desengano quando o doutor foi chamado. Voltei assim às mãos de um allopatha. Homeopathas{44}e feiticeiros nada fizeram de resultado para minorar os meus padecimentos. Quando adoeci, aos vinte e tres annos, foi numa convalescença de enfermidade effectivamente assassina: o amor. Eu tinha conseguido, pela vez primeira, objectivar uma paixão. E, não só isto: tivera, com todo o delirio proprio da idade, a posse facil, e passageira contra a minha vontade, de uma mulher amada. O mundo inteiro concentrou-se, ao meu sentir, nos violentos pezadelos de minha carne inexperimentada. Foram sessenta dias, mil quatrocentas e quarenta horas, ou oitenta e seis mil e quatrocentos minutos de frenetico jogo de instinctos, durante os quaes as paradas assediaram-me a alma, remontando as fichas do meu gozo ao maximo possivel. O prazo desse amor fôra, entretanto, fatal. Exgottou-se e a mulher fugiu-se-me dos braços como a espiral do fumo que procura as alturas. Ao depois disto, separado do entretenimento carnal, que me combalia as fibras, como a agua que vai abalar as galerias subterraneas para derribar as minas, tive a sensação do remorso de um grande crime...—De um crime delicioso...—Talvez, doutor.—E então?{45}—Encegueirado pelo amor, o mundo ficou às escuras sem a luz do olhar della. Quiz correr nas suas pégadas, e senti-me tolhido como a voz na garganta do atormentado por um pezadêlo. Vi em todos os convivas de minha existencia, terriveis sombras fantasticas... E tudo findava sempre num choro convulso, durante o qual me punha a tremer com tanta violencia quanta fazia extremecer todo o assoalho de minha alcova e soar fóra de tempo a campainha do relogio sobre a meza... Senti-me muitas vezes balançado como a espherasinha de madeira que anima o trillo dos apitos...—É curioso, de véras, o seu caso.—Foi, doutor.—Sim! Foi! E hoje sinto não lhe ter visto nesse tempo originalissimo.—Mas viu-me um outro medico e diagnosticou-me: um paranoico.—Paranoico?—Exactamente, doutor, e và vendo. Aconselhou que eu me tratasse com banhos de luzes. Escravos do sentimentalismo clinico desse primeiro medico, os meus paes exgottaram uma fortuna e eu fui enormemente banhado, a contragosto, com luzes de todas as côres. Era inocuo o tratamento para me{46}fazer bem, mas foi uma aggravante dos meus males Exacerbei-me. Os meus nervos polarisaram-se como se aguçados por alta dose, mas não toxica, de strychnina. Veiu um segundo medico—jà a esta hora e ha muito tempo—victimado por uma embolia cerebral. Olhou-me e disse, carrancudamente, deante de uma das minhas crises de saudade carnal: «são delirios epileptiformes»... E o tratamento passou a ser feito com altas doses de bromurêto. A minha ennervação deprimiu-se, e tornei-me um atoleimado, tanto que nem pranteei a morte de minha mãe, desgostosa com a minha tragica existencia... Novo medico; vim a ser um simples neurasthenico, com atonias nervosas. Reconstituintes, passeios, boas alimentações, prazeres, etc.: nada, porem, matava as saudades do meu instincto animal. Comecei de padecer do estomago, ora por excesso de alimentação, ou por escassez... Fui um dispeptico, padeci de insomnias, tornei-me um narcoticomano. Na insomnia, senti faltas de ar: novos medicos e fui um cardiaco, um arterio-schlerotico... Abusaram de iodêtos e tive hemoptises. Um Esculapio chamado às pressas, levando em conta a minha magrêsa, o sangue exvasado dos meus pulmões e o historico dos meus soffrimentos,{47}num rapido prognóstico, annunciou a minha morte breve, por força de adiantadissima tuberculose. Quando os doutos senhores me interpellavam, nunca tiveram o escrupulo de ouvir-me no que soffria sómente: suggeriam-me cousas que só dalli por deante eu começava de sentir. E veiu um curador homeopatha: os seus remedios ingeri com facilidade, pela falta de sabor. Cahi num abatimento nervoso, e um visinho, que se enforcou dias depois porque se sentiu arruinado nas suas forças commerciaes, lembrou que os maus espiritos encostados aos corpos de pessôas novas, faziam artes do demo... E não só apresentou a conveniencia de ser eu rezado, como tambem foi buscar uma velhinha, encarquilhada e bronzea, que, de sobre o meu corpo, deitado de bruços na cama, exconjurou o meu malfeitor, com um galho da famosa arrudeira...—E nem rezado, sr. Estephanio?—Para o doutor ver! Nem rezado!—É unica a sua historia.—Creio que sim, mas verdadeira. Notou-se, ao depois, que eu tinha mau funccionamento renal... E foi quando o sr. foi chamado.—Assim acaeceu.—E inda pensa o doutor que eu tivesse affecção nos rins?{48}—Se me não falha a memoria, effectivamente.—Pois escute: logo depois de sua intervenção, repudiando eu os medicamentos que o doutor indicou largamente, dois collegas seus foram trazidos em conferencia.—Que disseram elles?—Discordaram preliminarmente do doutor, e discordaram entre elles mesmos. Do doutor discordaram reputando sãos os meus rins.—Sãos, ou curados?—Curados, não. Inattingidos até àquella data. E firmaram o diagnostico de uma hepatite aguda, um encontrando atrophia do orgão e o outro hypertrophia.—Mas, afinal, acertaram?—Suppõem que sim, porque ao depois da assistencia delles recuperei a saude.—É espantoso, meu caro senhor.—Não é, não, doutor. Ao tempo em que descri dos medicos, tinha reapparecido a mulher que eu amára. Visitou-me. Inflammamo-nos, e... estamos casados, não foi assim, Judith?—Parece-me!{49}Assim exclamou, apenas, a seductora mulher, com os olhos espelhando o enfeitiçamento de um lindomanteauexposto no mostruario de modas e confecções... emquanto o velho Doutor enrugava solemnemente a espaçosa fronte...{50}{51}OS DOIS ESPELHOS{52}{53}OS DOIS ESPELHOSDepois de mandar retirar-se a criada, VIOLANTEfoi, pé ante pé, fechar a porta do salão de jantar que deitava para a copa, e veiu sentar-se junto do esposo com um olhar esbrazeado e as mãos profundamente geladas.SIMEÃO, o esposo, estava transfigurado: um tremor esquivo no canto dos labios e o retorcer teimoso dos bigodes, illuminavam-lhe as feições com um clarão colerico.Ao depois de sentada ao seu flanco, impulsionando para traz a cadeirinha de balanços, VIOLANTEprovocou-o...—Faze a tua scena.—E não é sem tempo.{54}—Porque te deixaste enganar se sabias de ha muito e se não é sem tempo?—Facilidades.—Os grandes generaes perdem sempre as batalhas porque facilitam. E o homem cazado não tem direito a facilidades.—Bem o sei... Quando penso no erro do meu casamento, soffro mais do que Orestes no remorso do seu crime lembrado sempre pelas erynias. Uma existencia inteira para passar escravisado aos laços de uma união infeliz!... Maldita hora!—Ah!... ah!... ah!... ah!...—Sorris...—E então? Hei de chorar para te sentires bem na oppressão que me fazes?—A minha vida depois que me senti enganado...—Não tem sido menos nem mais infernal do que a minha depois que conheci o teu adulterio...—Insultas-me ainda em cima, Violante?—Não te insulto. Repillo as tuas aggressões, termo por termo. O que eu digo é que o mesmo direito que tem o homem de trazer o corpo escarolado e perfumoso para agradar às amantes, tem a mulher de...—Não dize, Violante, a indignidade!{55}—Porque não dizer as cousas como ellas devem ser? Só depois que senti a tua ausencia do lar...—E confessas o delicto?!...—... só depois que conheci a tua amante...—Mentes, mulher!—... só depois que fui ver onde entras, todas as manhans, quando daqui sais...—É horrivel, Violante!—... só depois de ver-te partir de là e a tua concubina despedir-se de ti com um olhar de escandalo e tu com gestos de lastimavel escravidão...—Tu viste?—Sim... só depois de ter a certeza de possuires uma amante...—Poupa, Violante, essa phrase...—... rendi-me voluntariosamente a um dos muitos homens que me faziam a côrte, sabendo-me uma mulher, infeliz como outras muitas, esquecida no lar pelo marido libertino...—É demais!—Porque tu o quizeste. Abandonaste a tua caza. Dias inteiros passei num isolamento de aborrecer. Entretanto, fôra diverso o teu proceder nos primeiros tempos de nosso casamento. Quando sahias, mal eu te pensava na{56}rua, mal eu começava a sentir a tua ausencia, estavas de volta. Fui-me habituando a essa constancia ficticia. No dia em que te retardaste, pela primeira vez, chorei e nem soube, porque nunca te perguntei, a hora em que tornaste da rua... Onde estiveste? Nunca quiz saber. E, até hoje, nunca te pedi a menor palavra sobre o teu procedimento...—E como homem, senhor pleno de seus actos, eu te negaria informações.—Pois bem! Para evitar essa negação, nunca t'as pedi, sciente e consciente de que sobre o meu procedimento, dentro do nosso lar, não te devo satisfacções... São ellas por ellas...—Abusas...—Corrige-me se puderes... Não és o meu marido?... Toma conta dos meus actos! Soubeste que te trahi?... Mata-me, ou expulsa-me de teu lar. Faze o que entenderes, certo de que atraz de mim haverá quem vingue as tuas incontinencias e perversidades...—E sabes quem é a minha amante?—Se sei, Simeão?!...—Crias um conhecimento para justificares a tua falta. Mentes, pois: não conheces ninguem...—Só com o rizo!... Ah!... ah!... ah!...{57}—Toma tento, Violante: enveredas por um caminho em que a minha paciencia se exgottarà afinal...—Ainda em cima me ameaças?—Sou senhor dos meus actos, dono de minha caza, e exijo que me confesses tudo... Quem te mentiu que tenho uma amante?—Ninguem!—Ninguem, como?—Desconfiei e fui ao teu encalço...—Não falas a verdade, Violante.—A certeza das coisas é adquirida quando nos abeiramos dellas. Molestias mortaes, por miasmas exhalados dos paúes, só as contrai quem lhes vai à beira. Acompanhei-te os passos... Foste ao suburbio... Olhas-me agora atravessado? Nega então que te falo a verdade como ella é?!... Por favor, desmente-me, se és capaz...—Juro-te que não sei do que se trata.—Perjuro!... Então, toda a manhan não vais daqui à caza de Idalia... Não me interrompas, não... toda a manhan, não passas là horas esquecidas, quando sais não fica ella por traz da gelosia a acenar-te e tu a corresponderes-lhe os acenos de apaixonada despedida?—Ousada! Alem do mais, injurias à mulher de um amigo da nossa familia...{58}—E que é a tua amante...—Pois se é, está tudo muito bem... Escolhi-a por minha muito livre vontade... Constou-te jà que eu tivesse desrespeitado o nosso lar? As minhas obrigações maritaes concluem-se, quando saio, na porta da rua, e começam, quando entro, no mesmo ponto em que as deixei... Portas a dentro, estou eu cazado, e arrependido de ter renegado a Jessy a quem jurei culto eterno, alias, em tempos melhores... Casei por uma supposição de momento: a solidão de solteiro era um suicidio de todos os dias. E só não me enganei em suppôr que o matrimonio me facilitaria relações difficeis antes de ter as qualidades de senhor duma mulher... O mundo inteiro me foi pequeno sempre que tive em mente a tua companhia, e, inda hoje, Violante, se me lembro de ti, o maior prado é um pequenino jardim, o maior céu é a entrada de uma furna... A companheira é um tormento. Tomei uma amante... mas, dentro desta caza, fui sempre o mesmo homem respeitador...—Outro tanto te allego eu... Mentirá aquelle que disser me ter visto, sorrateira ou clandestinamente, embuçada ou mascarada, penetrar em lugares escusos, ou ao lado de algum homem que não fôsses tu... Casei-me{59}por inexperiencia... Suppuz ser inextinguivel a paixão momentanea que ditou o acto de meu infortunio... Escravisei-me emquanto o meu marido tambem foi meu escravo... Libertou-se elle, libertei-me eu... Adquiriu uma amante...—Retem-te, Violante!...—Não! Hei de dizer-te como tu me disseste... Ninguem póde viver longe do pecado depois que pecou uma vez... Tambem tenho um amante, sr. meu marido!...—Intoleravel!—Tambem tu o és!—Adultera!—Deixemo-nos, Simeão, de apodos... Tenho lingua e liberdade para t'os devolver todos, um por um...—Saber-me trahido...—Nada mais natural: queimou-te a braza com que me queimaste... Quando nada, não terás de lastimar a alarvidade da tua esposa... Foi uma mulher digna do marido que lhe deram...—Sinto faltar-me a luz da vista...—Impressões, Simeão.—Pois é justo que me consinta enganado?—Não nos deshonramos...—É um consôlo ridiculo.{60}—E que dirias tu se trahida eu não te trahisse igualmente?—Diversa é a situação do homem, Violante.—O casamento nivela os direitos de ambos os sexos... Espontaneamente nos submettemos a esse regimen de igualdade...—Doloroso!—Assim exclamei, Simeão! Agora, porem, me sinto melhor: não me enganaste, e isto deve ser glorioso para ti, enganamo-nos...—E o teu amante?—Dispensa sabel-o...—Ah!... Repillo a lembrança que me occorre... Não, não é possivel!... O massagista...—Rende justiça à tua mulher, Simeão! Pois não vês que eu me não vingaria de ti amando um homem indigno por todos os titulos, que te fizesse córar perante a sociedade, e que me fizesse enrubescer deante de ti?—Então... Desabafa-me!... Sê completa!—Insistes em conhecer tudo?—Não duvides que o quero de coração.—É Lourival...—O marido de Idalia?...—De certo.{61}—Ah! como somos, do modo mais vil, dois espelhos que se reflectem conjugadamente...—Mas eu estou vingada...Interrompendo-os, a criada de copa, do lado de fóra do salão, perguntava aos harmonisados esposos, se podia servir o jantar...E quando a sala se reabriu, reinava alli completa paz...{62}{63}O PRIMEIRO FILHO{64}{65}O PRIMEIRO FILHONa secretaria fôra extranhada a falta primeira de ORLANDO, assiduo até não se ter ausentado do serviço no attrahente dia do matrimonio.O DIRECTORdo esposo de OLIVIAera reconhecido à assiduidade do moço, e, por duas vezes, determinàra o seu accesso por merecimento.Ao penetrar na Repartição depois da primeira falta, todos os olhares recahiram no conceituado funccionario, que, perturbadamente, se entregou ao trabalho sem explicações.Mas, horas depois, na intimidade do gabinete reservado, ORLANDOe o DIRECTORentravam em confidencia...—Ah! Sr. Director!{66}—Estiveste doente?—Não, não foi doença minha. Antes o fôsse...—Trocaste o dia?—Como assim?—Levaste à conta de um domingo a quinta-feira de trabalhos?—Tambem não!—Viajaste a negocio?—Qual, Sr. Director! Os meus negociou são sómente os de meu dever aqui dentro...—Não sei explicar a tua falta.—E eu careço de coragem para dizer...—Tão futil não ha de ter sido o motivo.—Eu conto. Foi o meu primeiro filho...—Felicito-o desde jà.—Obrigado, Sr. Director. Eu tinha a certeza de sua generosidade. Conhecendo bem a fraqueza de Olivia, tive receios de deixal-a só quando se manifestaram os primeiros incommodos do parto. E confiando em que o acontecimento cedo me daria liberdade para saltar à repartição, fui-me deixando ficar, ora mais embebido nos cuidados que a parturiente exigia, ora menos descontente com o que se ia passando, até que, só na madrugada de hoje, após vinte e duas horas de labutações, se concluiram os trabalhos...{67}—Fiquei verdadeiramente atordoado com a tua ausencia.—Não menos me senti eu, Sr. Director, quando, pela manhan de hoje, cahi em mim e vi que faltàra hontem improficuamente, porque...—Ora, Sr. Orlando! Uma falta não inflúe, tanto mais quanto fui o primeiro a não mandar que se a notificasse. Tenho o bom senso de saber corresponder ao valor dos meus funccionarios.—Fico embaraçado... Nem sei como lhe agradeça... Ao depois das torturas porque passei, era natural que Deus me désse o allivio de uma honra como a que o Sr. Director acaba de conceder-me.—E a senhora ficou sem novidade?—Pouco mais ou menos, Sr.—Talvez precisasses do dia de hoje para lhe fazeres companhia...—Qual nada!... Faltar hoje?...—Não digo isto.—Então...—Obter uma dispensa de serviço...—Nem pensar é bom, Sr. Director. Se me déssem licença eu hoje emendaria o dia com a noite para descontar o atrazo de hontem...{68}—São excessos, Sr. Orlando. É justo que um chefe de familia precise dessas lacunas no serviço para gozar mais largamente as venturas de seu lar.—Estas, francamente, eu só poderia gozar se Olivia tivesse sido feliz no acontecido.—E não o foi?—Absolutamente, Sr. Director. Mas, antes de tudo, a obrigação.—Qual foi o medico?—Foram apenas dois: o dr. Oscar e o dr. Lucio Trevo.—Bons medicos, sem duvida.—E que hão de pedir caro, carissimo, porque realmente trabalharam como um horror...—Mandarei dar-te uma gratificação para cubrires com ella os extraordinarios desse acontecimento inquietador.—Não aceitarei, Sr. Director.—Porque assim?—Não é soberbia, não. Desculpe-me, mas eu não posso aceitar.—Quereria ter as razões dessa sua desattenção...—Não é desattenção, Sr. Supponha que eu aceito. Desfaço-me das minhas difficuldades graças ao seu procedimento generoso. Veiu-me um segundo filho, nas mesmas condições{69}difficeis do primeiro. O Sr. descuida-se e eu não obtenho nova gratificação. Naturalmente me enciumarei com o seu procedimento e o que não quero hoje, não devo esperar amanhan... Pois não é?—Eu daria do melhor grado.—Sei disto. Hei de habituar-me a cozer-me com as linhas que tenho... Ao depois, se a parturiente inspira cuidados...—Não se ficou bem ella?—Acho que não. Ao depois do parto, começou de ter desmaios consecutivos...—E o que recommendaram os medicos?—Repouso. Ó Sr. Director: eu nunca tinha visto um parto... A mulher é uma inditosa, porque em momento nenhum da vida um homem soffre o que Olivia padeceu.—Pois penso que devias retirar-te.—Não devo, Sr. Director. O lar é uma preoccupação para fóra das horas da secretaria.—Até o serviço poderia lucrar com a tua ausencia...—Perdão, senhor, mas...—Admiras-te? Não queria falar-te com tanta franqueza para não te consumires ainda mais...—Por acaso commetti alguma outra falta?—Gravissima... Sabes porque te chamei?{70}—Lealmente ignoro.—Porque te desconheci. Estás um desconchavado e erras todo o serviço. Pelos teus grandes creditos, és aqui dentro um rico de odios e de invejas. Conheço-os todos...—Agradecido, Sr. Director.—Cada companheiro teu é um vigia de tudo quanto fazes para diminuirem com os teus lapsos o teu valor. Não o admitto eu.—Mas, que fiz assim?—Erraste a somma de uma conta e o thesouro reclama contra a tua informação.—Oh!... Esta cabeça...—A conta de Silva & C.ª...—Sei!... sei!... Então... errei-a?—Inconvenientemente.—E sei porque perpetrei o engano...—É o que tu pensas...—Por ventura outro me corrigiu?—Absolutamente não. Serás tu mesmo quem fará este trabalho ao depois...—Porque não hoje?—Estás dispensado, incondicionalmente, do serviço por tres dias...—Não me conformo, Sr. Director.—Sou irrevogavel.—No maximo me satisfarei com o dia de hoje.{71}—Serão tres dias irreductiveis, e pódes ir para a companhia de tua esposa descansar a tua cabeça. Vejo-te perturbado enormemente com o pensamento do que possa ella estar soffrendo a esta hora... Vai, anda!—Dá licença?—Pois não.—Ás ordens do Sr. Director.—Ah!... Sr. Orlando?—Sou todo ouvidos.—Escapou-me de perguntar-te: o teu filho? é homem?—Perdão, Sr. Director... Mas... não lhe sei responder... Com a atrapalhação da hora não me lembrei... Ah!... sim...—Que respondes?—Desculpe-me, Sr. É justo que eu tenha me descuidado tanto?!... Nem verifiquei, Sr. Director, se sou pai, ou...Sorrira o DIRECTORe dispensàra de vez ORLANDO, com a inveja crescente de todo o funccionalismo bisbilhoteiro e ignorante dos factos...{72}{73}

Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira.ANATOLEFRANCE.

Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira.

ANATOLEFRANCE.

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Manhansinha.A sala, de azuladas paredes seminúas, estava pobremente mobiliada: era no saguão da casa, e as duas mulheres entraram às tontas, até se abrirem de par em par as gelosias.SAUL, de NEDDAesposo, ficàra a dormir na alcova.E NEDDA, abysmada com a indifferença delle que apenas lhe não dirigia um monosyllabo desde a hora do facto, comprehendeu logo que DONALOURA, a sua mãe, era uma interprete das indisposições do genro...Num canapé, as duas mulheres, DONALOURA, archaica nas suas vestias de capote e turbante, e NEDDA, deliciosamente matutina num roupão branco que descansava,{4}sans-dessous, sobre a finissima camizêta de cambraias,—sentaram-se, afundando em concavos a palha flaccida do cansado movel...

Manhansinha.

A sala, de azuladas paredes seminúas, estava pobremente mobiliada: era no saguão da casa, e as duas mulheres entraram às tontas, até se abrirem de par em par as gelosias.

SAUL, de NEDDAesposo, ficàra a dormir na alcova.

E NEDDA, abysmada com a indifferença delle que apenas lhe não dirigia um monosyllabo desde a hora do facto, comprehendeu logo que DONALOURA, a sua mãe, era uma interprete das indisposições do genro...

Num canapé, as duas mulheres, DONALOURA, archaica nas suas vestias de capote e turbante, e NEDDA, deliciosamente matutina num roupão branco que descansava,{4}sans-dessous, sobre a finissima camizêta de cambraias,—sentaram-se, afundando em concavos a palha flaccida do cansado movel...

—Esperava-te, maman, qualquer das horas. Quando vejo Saul levando-me entre dentes e indisposto como um burguês dispeptico, silencioso como uma esphynge e entristecido como um beato sem almoço, adivinho logo que vens por ahi como a mensageira da paz. E elle foi procurar-te hontem à tarde...

—Exactamente.

—Previ tudo isto. Ha cinco dias que nós não falamos, e, pensando-o na rua, hontem, vim ter aqui. Foi quando topei com elle, sentado naquella cadeira, lendo a Biblia, ou folheando-a, apenas... Vendo-o, assustei-me e não contive um gritinho de susto. Mas tornei immediatamente sobre os meus passos. Ha quatro annos que somos casados e nunca passamos dois mezes sem uma rusga. É sempre elle quem as promove com um resaibo de malentendido ciume. Aceito sempre o seu rompimento e nunca lhe dei a honra de capitular{5}nas hostilidades. Quando ellas são de nonada, aqui mesmo se resolvem; mas, quando avultam como agora, elle te vai buscar como intercessora. Jà sei que vamos ter, como sempre, uma crise de amorosidades que me enfastiam. Lastimo é não conceber um filho desse homem para o embeiçar pela nova criatura e sentir-me menos jungida às suas intemperanças de... mal educado! Ás vezes, chego a ter nojo do senhor meu marido...

—Que blasphemia, Nedda! Dizes isto do teu esposo com um sangue frio que me pasma...

—Devias esperar isto. Cazei-me contra a minha vontade ao depois de ter o assedio do seu amor por mais de cinco annos. Tudo inventei para que um tal matrimonio não se fizesse. Por ultimo espalhei, e fiz conhecer-se em caza, por torna-viagem, a mentira de que Saul é um tuberculoso. Tanto mais eu o aborrecia, quanto a senhora e o papá intervinham, patrocinando a causa do moço platonico. Dá-me, na verdade, um insistente desejo de rir muito quando lembro os idealismos delle, seguindo a minha sombra, porque nunca lhe deixei o direito de enfrentar-se commigo em parte alguma... Expúz-lhe sempre que sonhos não me satisfaziam, nem eram para o meu{6}temperamento homens vaporosos, poetas e doutores... Movi-lhe intensa guerra, apaixonando-me por Frederico Stöltze. Está! Com este provavelmente eu teria sido bem cazada. O pobre «allemãosinho» levou o caso muito a serio e cazou-se, logo que eu o abandonei, com uma defeituosa... Foi um despique, não ha a menor duvida, mas quem sahiu perdendo foi elle. Saul é um temperamento de phoca...

—Respeita o teu marido, minha filha!

—Pois não é, maman?

—Essas couzas não se devem dizer...

—Não tratarei de occultar o sol com a mão. Já disse e é mesmo: um temperamento de phoca. Só quer hybernar sobre os livros, deante dos quaes se abespinha como o animal sobre o gêlo. Eu, porem, quero muito sol, muita luz, muito calor, muita actividade... Maman, o que vocês velhos veem no cazamento é o interesse de collocar as filhas, porque ficando velhos receiam que nos tornemos muito sós no mundo. Por isso acontecem destas, cazamo-nos com a vontade dos papás encarnada na figura de um homem que não é a correspondencia de nosso instincto. Olha! Não intervirei nunca no cazamento de ninguem: cada qual commetta a sua doidice{7}como quizer, e, se escolher um lorpa como Saul, arrependa-se de si mesmo e não me culpe a mim.

—Tu vês no homem uma excitação, Nedda, quando devias ver uma satisfacção.

—Deixasses eu escolher como tivesse querido, e estarias livre hoje dessas trabalheiras de paz... Saul, antes de meu marido ser, soffreu toda a minha repulsa. Cazada fui tolerante. Elle, no entanto, não sabe aproveitar-se de minha tolerancia e quer subserviencia, servidão, ou coisa similhante... Está enganado! Devias ter sanccionado a minha repulsa logo de principio. Lembras-te do convescóte dado aos chilenos, nas Salinas? Tu não foste, e Saul, que era apenas meu pretendente sem a menor esperança, moveu contra mim uma intriga terrorosa, porque viu, no campo, o primeiro tenente Santander amarrar os cordeis de minha botina que estavam difficultando-me o andar. Deves recordar-te de como energicamente o reprimendei, quando soube que lhe cabia a autoria do contado... Note-se que era apenas um pretendente, como muitos havia, todos suggestionados pela minha belleza pouco commum neste bairro de mulheres feias. Afinal, maman, que te disse elle desta vez?{8}

—Saul comprehende o amor como uma esthesia, minha queridinha, e tu o comprehendes como um devaneio. Isto é proprio para as meninas. Tu te esqueces, e nisto eu lhe dou razão, que és uma senhora escrava da moral esponsalicia. Contou-me o teu marido um facto em que elle te surprehendeu. Realmente, se as cousas se passaram como podem ser suppostas, e elle não quer crer, tu andaste mal.

—Tu o ouviste, elle contou o acaecido a seu geito... Ouve, agora, como tudo se deu...

—E dispensavel Nedda. O passado está passado. O que é preciso é que não dês lugares a aleives e que poupes os amuos. A alma dos homens tambem calleja. Os amuos fazem pequenos callos, mas tempo virá em que, callejada a alma, o amuo será definitivo.

—Que teria isso?

—Um escandalo, minha filha!

—Para adquirir a minha liberdade maman, que tu sacrificaste, eu não me pouparei a um grande escandalo.

—Toma juizo, doidinha. É preciso acabares com estas zangas e receberes o teu marido como o teu senhor...{9}

—Hein?... Não me zangarás, maman, pódes ridicularizar-me como entenderes... Não me darei por achada.

—Não promovo senão o teu bem. Resolve a crise e sê... mulher de teu marido.

—Jà estás julgando o feito?

—Tu tens toda a razão, elle tem igualmente toda a razão. Harmonisem-se e sejam felizes.

—Pareces-me uma juiza a Salomão, com a differença de que o rei hebreu ouvia ambas as partes em conflicto, e tu julgas com a audiencia de uma só...

—Interpretas muito mal o meu genio.

—Não te interessa conheceres a injustiça de que sou accusada pelo sr. meu marido?

—Fala, minha filha! Mas tem a certeza de que, fosse qual fosse a accusação, eu nunca seria contra ti.

—Obrigada, maman! Quero, entretanto, justiça, e que, como Saul, não julgues pelas apparencias. Daria a vida para saber como elle te referiu o que se passou...

—Deixa o que elle me disse. Narra o que tu sabes...

—Pois bem! Na terça-feira, maman, de combinação com Saul, resolvi passar uma temporada num arrabalde. E, devidamente autorisada por elle que me falou pelo telephono,{10}fui à Barra correr uma cazinha vaga e que nos serviria. De caminho, encontrei-me com o dr. Eduardo que, ao depois de saber ao que eu ia, daquelle modo desacompanhada, teve a gentileza de offerecer-se-me para o serviço de abrir e fechar portas. Aceitei e foi elle quem tomou as chaves na taverna da esquina... Vê tu!... Não fôsse elle e teria eu de entrar numa taverna, sósinha, arriscada a ouvir qualquer indecencia... Ao depois, o dr. Eduardo foi quem abriu a porta... Como eu me ataria de luvas de camurça para fazer essa diligencia?... Umas chaves muito pouco asseiadas... Corremos o primeiro andar da caza, e, quando passamos ao sotam, o meu gentil cavalheiro se lembrou de, por segurança, fechar por dentro a porta da rua... Subimos. Mal chegavamos em cima, começaram de bater numa porta. Poderia eu suspeitar que o meu marido, tendo ordenado que eu fosse, porque elle não teria opportunidade de acompanhar-me, logo depois resolvesse o contrario, e estivesse a bater na porta da rua? E foi por um acaso que nós o vimos. Chegamos inesperadamente a uma janella do sotam e percebemos que era elle quem batia. O dr. Eduardo, desculpando-se por jà ter eu cavalheiro, despediu-se de mim, desceu as escadas,{11}e, quando abria a porta, foi insolentemente aggredido por Saul, que lhe negou a mão para o cumprimento do estylo... Só tu vendo, maman, a furia com que o sr. meu esposo investiu contra mim! Felizmente, desafiado pela minha calma, elle não teve animo para iterar o qualificativo mau com que me mimoseou. Dei-lhe as costas e, se elle quiz, fechou sósinho a caza e veiu só...

—Devias ter evitado tudo isto, Nedda.

—Evitado, como?

—Não acquiescendo à companhia de um homem de mà fama, como é o dr. Eduardo.

—Adivinhasse eu que elle viajaria para a Barra naquelle mesmo bonde em que eu fui... Hora de trabalhos na cidade...

—Recusasses os favores offerecidos.

—Ora, maman! Deixa-te de coisas! Qual é a mulher que se anima à grosseria de recusar gentilezas de um moço de distincto trato?...

—Conforme o renome desse moço.

—Tem mà fama o dr. Eduardo?

—Não sei, não. Dizem.

—Se tem mà fama, tem maus costumes. E como é que Saul, tão zeloso de sua honra, admitte, no seu convivio e nas suas recepções, um homem mal visto? Penso que os frequentadores de nossos salões, oshabituésde nossa{12}intimidade, sejam pessoas dignas de acompanhar-me a um ponto qualquer, e, se não fôsse assim, a primeira privação delles, seria a do nosso convivio...

—Neste ponto és razoavel, sou eu a primeira a reconhecer... Mas, Saul referiu-me que estavas sem chapeu...

—De facto. Ao depois que o dr. Eduardo se despediu, esbarrei na telha van do sotam, e enchi as flores do chapeu de teias... Sabendo que o sr. meu marido alli estava para auxiliar a reposição, tirei o chapeu e asseiei-o prestamente...

—Diz mais elle que estavas empurpurada e que te confundiste com a sua chegada, ao ponto de não saberes repôr o chapeu...

—Saul é um mentiroso.

—Não te zangues, Nedda.

—Injuriou-me.

—Não dês importancia a isto e resolve-te a aceital-o pacificamente...

—E elle o quer?

—Porque perguntas?

—Porque tão honrado elle não deveria aceitar mais a cohabitação da esposa deshonesta.

—Não deves dizer assim, minha filha!

—Aceita-me elle?{13}

—Que tolice, Nedda!

—Maman, Saul deveria ter agora a minha repulsa definitiva, e não a faço em attenção aos teus bons officios...

—Fazes muito bem.

—Là vem elle descendo...

—Trata-o bem, minha queridinha! Um lar que não tem esposo...

—Desculpa-me, maman: só agora reparo que estou muito à vontade para nos encontrarmos os tres...

Arrepanhando, então, o bello roupão desabotoado, por cujas rendas e decotes se viam as carnes luciferas de NEDDA, a mulher de Saul se escapuliu, desenhando escorreita o seu impecavel corpinho de esculptura grega...{14}{15}

Arrepanhando, então, o bello roupão desabotoado, por cujas rendas e decotes se viam as carnes luciferas de NEDDA, a mulher de Saul se escapuliu, desenhando escorreita o seu impecavel corpinho de esculptura grega...{14}{15}

{16}{17}

No rêz-do-chão de um palacete, coadas as luzes do sol por arrendadosstorespallidos, HELENAfazia somno à hora da sesta, quando MARIAANGELICAa surprehendeu adormecida.A recemvinda impregnou o ambiente de essencia de iris, emquanto uma voluptuosidade ennervante empurpurava a linda cabeça desmaiada de HELENA...Um beijo sobre os labios da desaccordada mulher, fel-a despertar com um fremito de prazer...

No rêz-do-chão de um palacete, coadas as luzes do sol por arrendadosstorespallidos, HELENAfazia somno à hora da sesta, quando MARIAANGELICAa surprehendeu adormecida.

A recemvinda impregnou o ambiente de essencia de iris, emquanto uma voluptuosidade ennervante empurpurava a linda cabeça desmaiada de HELENA...

Um beijo sobre os labios da desaccordada mulher, fel-a despertar com um fremito de prazer...

—De onde vens tu, Angelica?

—De encommendar flores...{18}

—Flores?!

—Não te recordas de que Sophia se cazará amanhan, à noitinha?

—Sou uma esquecida.

—E ella é credora de nossas gentilezas...

—Das minhas, especialmente.

—Encommendei orchidéas e chrysanthemos.

—Que gosto! De minha parte vou mandar-lhe duas magnolias.

—Bellas flores, realmente. Mas, a natureza esmerou-se no chiquismo das orchidéas. Uma catyleia é um pedaço de labios excitados por dois beijos.

—Não lhes acho graça.

—Ó exigente!

—Flores do matto. E jà notaste que quasi todas ellas são lilazes e roxas? ou que se enfeitam com estrias e matizes dessas duas côres melancolicas?

—Descobres coisas...

—Mas, não é?

—Realmente.

—E como vais presentear uma noiva com flores lilazes?

—É a moda, é o chic, é odernier-cri...

—Olha! Nas minhas bodas manda-me flores alvas, muito alvas, chrysanthemos, rosas, cravos, magnolias... Comprehendeste-me?{19}

—Se não! Agora, coisa notavel: eu te vejo com as faces pallidas e os olhos muito brilhantes...

—De verdade?

—Sim. Sonhavas?

—Nem me lembro! Parece-me que sim. E tu estás intensamente corada...

—Apanhei muito sol.

—Os teus olhos estão pisados e languidos...

—É da fadiga do caminho... Desde cedo na rua, exposta, Helena, ao calor que abraza e ao sopro canicular que afeia os penteados...

—Jà tinha reparado: os teus cabellos estão desmanchando-se...

—E eu os concertei no espelho de Esther.

—Andaste là, hein? Jà havia desconfiado... Quando te vejo amollentada, assim, tenho razões para me enciumar... É muito descuidada a Esther. Cuida mal das vestimentas das amigas. Olha o teu cinto, Angelica... Está mal posto, a fita está retorcida...

—Nem reparei...

—Disto não és culpada, por certo... Eu não te deixaria sahir daqui tão mal-amanhada. É de causar vergonha.

—Foi a pressa, Helena.

—E no teu hombro a sêda está nodoada...{20}

—Nodoada?!...

—Sim! Vêem-se duas curvas vincadas como os bordos de uma... Nem sei mesmo que diga... Parece-me que te morderam o hombro?!...

—Quem o poderia fazer?

—Esther.

—És ciumenta! Fica sabendo: foi no jardim quando eu encommendava as flores. Deve ter sido agua das rozas, Helena, que aqui cahiu... Estás satisfeita?

—Muito pouco. Quando muito, illudida, minha flor, mas não convencida...

—Tu me censuras, e eu que te surprehendo com um esquisito fogo no olhar humido?... Terá sido algum sonho delicioso... A tua voz mesmo é arrastada como a de quem se fatigou num excesso de venturas...

—Que venturas posso ter?

—Em sonhos podemos ser venturosas como jamais seremos na vida real... Morpheu capricha em povoar-nos a mente com espectaculos espantosos. Ha vezes em que, se eu pudesse, esganaria quem me desperta... E outras occasiões, quando volto a mim sem provocação, sou prompta a espantar-me porque me accordei e não morri no meio do prazer sonhado...{21}

—Ha sonhos, effectivamente, que se não deveriam acabar... E não sentes calor, Maria Angelica?

—Algum.

—Neste caso...

—Que fazes?

—Dispo-me. Não me imitas?

—Póde ser. Passarei a tarde comtigo...

—Despe-te, pois... Tira o casaco... Desaffoga o collo desta góla assoberbante... Não tens geito?... Chega, que te libertarei...

—Tira os alfinetes.

—Usas um bom pó de arroz, Angelica.

—Ui! Helena!

—Que foi assim, ardilosa?

—Espetaste-me as carnes...

—Tambem é uma ruma de alfinetões...

—É para segurar bem.

—Tens uma pellugem de arminho...

—Ai!... Assim não... não...

—Que tens, rapariga?

—Beijas-me, Helena, com uns labios quentes e gulosos... Só me déste vontade de...

—Ui!... ui!... ui!... Fazes-me umfrissonde arrepiar-me os pellos...

—É para vingar o teu beijo...

—Porque me olhas assim, Angelica?{22}

—És de uma alvura surprehendente, minha amiga. De teu corpo rescende um perfume originalissimo que me entontece...

—Aprendi a perfumar-me com as gregas. Li num livro que uma beldade se cubria de perfumes para agradar aos amantes. Eu o faço para attrahir as amigas como tu... Uma grega banhava as pernas numa bacia de prata em que se confundiam os aromas do nardo de Tharsos e do metôpyon do Aigypte. Nas axillas attritava mentho e sobre as pestanas e nas palpebras marjolana de kôs. Ao depois, a escrava defumava-lhe os cabellos desennastrados com espiraes de incenso, que combinava admiravelmente não só com a essencia de rozas de Phasêlis que lhe embalsamava a nuca e as faces, como tambem a bakkaris que se lhe derramava sobre os rins. E, por fim, entre os seios, corria o celebre oinanthê das montanhas de Chypre... Sei perfumar-me, Maria Angelica...

—Bem se lhe pareciam as gregas, tuas mestras...

—Entre os meus seios, inda ha pouco, deixei correr um fio languido do irresistivel Royal-Begonia, e nas axillas puz algodões embebidos na essencia de rozas... Nos meus cabellos derramei oleos de sandalo, para contrastar{23}com as evolações das essencias de jasmins que perfumam as minhas vestias...

—E na posse de tudo isto praticas uma mà acção, Helena!

—Qual?

—Essa de referires tantos perfumes e não me dares nenhum a provar... És avarenta, como ninguem, e eu cubiçosa de gozar...

—Vai ao meu toucador e gasta do que quizeres...

—Teria graça!

—Porque assim?

—Gósto das flores nos vegetaes, das essencias nos corpos das mulheres. Quero experimentar com o olfacto o odor unico que se desprende das tuas carnes...

—Tens desejos masculinos, minha queridinha!

—E é o que me faz lamentar-me: junto de uma graça não ser um Adonis, junto de uma Helena não ser cupido... Se eu pudesse embriagar-me com os teus perfumes e desmaiar de prazer entre os teus prazeres, seria mais feliz do que Syrinx, louca de paixão, Byblis, unica na insaciabilidade, ou Mnasidika, macia como um velludo... Helena, tu és uma perfeição...

—Mofadora!{24}

—Mofar eu de ti?!...

—Não te abraza o calor?...

—Sim... Intoleravelmente...

—Safa o collête... Assim... Que lindo corpo, Maria, e quantas seducções na tua plastica vista atravez da transparencia das gazes... Bem dizem os homens, sabios no sensualismo pagão, que o nú de veus é mais provocante do que o nú sem disfarces... Ha qualquer coisa de mystico, de irreal, na mulher encoberta pela semi-fluidez de um tecido fino... Se eu te não conhecesse os segredos todos de tuas lindas curvas, te rasgaria agora, impiedosamente, o veu de tua nudez...

—Jà sentiste, Helena, um prazer maior do que esse das carnes livres do arrôcho de um collête dictatorial?

—Quantas vezes?!

—Tu brincas, mulher divertida...

—Provo-te com a citação: despirei o meu collête e não me sentirei mais provocada do que contemplando as tuas fórmas semi-núas...

—Es barbara, Helena! Como encarceras um tão lindo quadril dentro dos oppressivos liames de um collête... Ah! Como eu daria a vida por ser morena! O ventre alvo é uma desillusão, mas o trigueiro, como o teu, é um{25}incentivo. Parece o tegumento de um fructo e provoca o instincto mais calmo...

—Não te agrada a minha nueza?

—Inteiramente. Agora, vê là se te não impressiona mal a brancura do meu ventre...

—Ao contrario, Maria Angelica: é uma grande corolla de petalas alvas desenvolvida de um peluginoso calice de oiro... É maravilhoso o teu contorno... Dignas fórmas para a perpetuidade de uma téla ou de um retrato...

—Deixarias tu que fôsse apanhada a tua nudez?

—E porque não?... Sei que fascinaria... Queres photographar-me?

—Que egoismo leviano!

—Acha-o?

—Sim... Photographemo-nos...

—Adoravel!... Como não irradiará noclichéo contraste de nossas pelles, o macio sombreado de um tropico sobre a tentadora alvura nevosa de um pólo...

Os olhos das duas mulheres vestiu-se com uma luz liquida como uma solução de perolas e opalas.{26}Os seus labios permutaram cariciosos beijos.E, horas depois, MARIAANGELICAe HELENA, retratadas por uma aia, desvendavam as suas abrazadoras nuezas à inveja de ESTHER...{27}

Os olhos das duas mulheres vestiu-se com uma luz liquida como uma solução de perolas e opalas.{26}

Os seus labios permutaram cariciosos beijos.

E, horas depois, MARIAANGELICAe HELENA, retratadas por uma aia, desvendavam as suas abrazadoras nuezas à inveja de ESTHER...{27}

{28}{29}

Luxuoso salão de recepções: por entre cavallêtes com quadros de fina pintura, em que apparecem, de par com extrangeiros, o gosto de Parreira e a vocação de Prescilliano, vasos com flores, e, no meio das tapeçarias, dosfauteilse das luzes, um magestoso piano Ritter.HELOISAacabou de executar, com todo o applauso do maestro CHRISTOVAMDETMER, a linda fantasia—Le poète mourant—de Gotschalk.As ultimas notas perderam-se artisticamente: o maestro cheio de admiração e preso da infinita tristeza, dobrou-se e beijou os dedos que obedeciam á grande inspiração de HELOISA.Esta olhou-o e transfigurou-se como uma alma reflexamente combalida{30}pela dor de uma alma irman...

Luxuoso salão de recepções: por entre cavallêtes com quadros de fina pintura, em que apparecem, de par com extrangeiros, o gosto de Parreira e a vocação de Prescilliano, vasos com flores, e, no meio das tapeçarias, dosfauteilse das luzes, um magestoso piano Ritter.

HELOISAacabou de executar, com todo o applauso do maestro CHRISTOVAMDETMER, a linda fantasia—Le poète mourant—de Gotschalk.

As ultimas notas perderam-se artisticamente: o maestro cheio de admiração e preso da infinita tristeza, dobrou-se e beijou os dedos que obedeciam á grande inspiração de HELOISA.

Esta olhou-o e transfigurou-se como uma alma reflexamente combalida{30}pela dor de uma alma irman...

—Como esse poeta, Heloisa, que o grande musico fez morrer nas notas bemolisadas do piano, finou-se hoje o nosso amor... Emquanto executavas e os teus dedos arrancavam da alma do instrumento piedoso os sons do passional poema lyrico, me concentrei e te affirmo que a visão não despresou a audição, pois vi e ouvi toda a scena, desenvolvida entre personagens vivas, que se moviam, se soccorriam e testimunhavam o desfallecimento do artista moribundo. Durante minutos que serão inegualaveis na minha existencia de musico, aqui estive ao teu lado, frio como uma estatua, hermetico como uma esphynge, e não denunciei, pela ruga menor de meu semblante, a dor imperiosa que me ennervava a existencia. Vim do gabinete privado de tua mãe, que se transformou pacificamente no Satan de nossa felicidade. Falei-lhe ardoroso, como se lhe dissesse uma aria de Beethoven, contei-lhe minucioso e preciso a longa historia de nosso amor. Vejo, agora, que, por vezes,{31}fui minudente de mais, rememorando o platonismo inedito com que te amei a alma de artista e não o corpo de mulher. Ao depois de ouvil-a, vim inspirar-me para o sacrificio no teu talento. E saio de tua presença illuminado como o prescripto que recebeu o balsamo do conselho christão para subir em seguida ao patibulo. Dá-me, pois, o conforto de tua confidencia ultima: amaste-me alguma vez?

—Que pergunta, Christovam.

—Indiscreta?

—Não; ao contrario. Amesquinhante...

—Extranho-te.

—Não ha razão. Porventura pensarás que te amei e não te amo agora? Acaso a minha mão de mulher para te ser dada dependerá de alguma coisa irreductivel deante de minha vontade altiva?

—Sinto-me lisonjeado, de facto, com a tua constancia, Heloisa. A cor dourada dos teus cabellos que te faz distincta entre as cabeças bellas de todas as mulheres, neste instante, afigura-se-me a grinalda de luz com que se enfeitam as santas nos seus altares. Mas, um maestro, um homem que sabe musica simplesmente, que é apenas um artista, é pequenino de mais para ter uma pretenção de{32}amor. Eu me pareço com esta figura lendaria de Kadjira que destruia as rozas por prazer. No reinado das fantasias de ouro e de fidalguia com que se entontecem os teus paes em sonhos egoistas, cheguei, como a perversa princeza turca que despetalava rozas, derrocando castellos, para me conter na illusão em que me deleitava sómente com a audiencia da negativa inclemente de tua mãe. Confessou-me que maldava de todo o nosso amor, desde principio. E porque, se assim era, protegia a ampliação de um sentimento que deveria ser, como os filhos defeituosos das ciganas que são atirados ás piranhas, destruido no nascedoiro? Antes que eu lhe communicasse, falou-me em que se correspondias aos meus calculos de matrimonio, era porque, doidivana como toda creança, jogavas a péla na orla do precipicio, esperando o aviso amigo para te retirares gloriosamente... Negarás, Heloisa, que tinhas consciencia de minha pretenção? Sophismarás, em favor da excommunhão que me lançou a tua mãe, e contra a clareza da ordem que me deste afim de se officialisarem as relações do affecto, que nos encaminhava de um illusorio paraiso? Responde com o talento immensuravel com que sempre me amaste...{33}

—Falas desatinadamente, Christovam, numa contingencia em que deverias possuir o maior tino dos homens.

—Tens o dom solar de illuminar o mundo pelos flancos, se uma nuvem pesada se antepõe á sua esphera...

—Sinto-me transfigurada. Amo-te ainda, e não te hei de amar fóra do regosijo delles...

—Dos teus paes?

—Sim. Acharias extranho se te dissessem que duas sementes postas em tuas mãos estariam vegetaes só ao sôpro de um fakir indiano. Porque admittirias que a minha vontade fosse forte bastante para romper a marcha das intenções dos meus paes sobre a minha razão de ser mulher? Por ventura sem o sopro do fakir as sementes germinariam e attingiriam as fórmas de seres definitivos? Não supporás que, sem aquelle sôpro, algo se realisasse. Como suppôres que sem a vontade dos meus maiores a nossa união se perpetraria ao teu sabôr?

—Desconheço-te já...

—Mas, porque...

—O sophisma substitue a tua logica: o amor cedeu o posto á quesilia dos outros...

—Esperarias o meu consorcio sem o consenso dos que me deram a existencia de mulher?{34}

—Nem sei de mim mesmo que te responda...

—Não poderias esperar. Se eu fôsse livre, se a lagarta para ser papilio não carecesse de passar por ser chrysalida, nem eu te mandaria impetrar a sancção que nos faltou, nem os que nol-a negaram teriam razões para tal fazer. Aborrece-te o trovão? amedronta-te o curisco? Queres ver-te livre delles? Crê num Deus e pede-lhe a extinção... Infelizmente, Christovam, nem o trovão se extinguiria, nem o teu querer triumpharia... De um lado, Deus seria impotente para te dar o que pedisses porque não terias o direito de pedir... Só pede quem póde pedir; se se pede é porque de quem dá depende o pedido; e se o pedido não é dado, procura a causa na insufficiencia e na sem-razão de quem pediu...

—Mas...

—Nada adianta, Christovam. Corresponde ao meu inquerito e nega-me, se conservares a razão, que tenho o bom senso desejavel ás creaturas perfeitas. Queres responder-me?

—Nada significará o que te responda.

—É preciso que sejas categorico.

—Pois sim: responder-te-ei.

—Poderias tomar-me como tua esposa sem, obteres a minha vontade?

—Por certo que não.{35}

—De minha parte a questão é outra: teria eu o direito de responder por mim num caso expresso de matrimonio? poderia ser unico o meu querer?

—Se quizesses, sim.

—Não é assim, não. Porque não me tomarias por mulher sem o meu assentimento? Por impoderoso deante de minha definição adversa. Porque não me daria eu por esposa sem o consentimento dos meus paes? Por impoderosa deante da pronuncia delles. Se tu pudesses alcançar de mim o amor sem vontade, desnecessario seria impetrares-m'a; se eu dispuzesse de meu corpo sem a intervenção dos que m'o formaram do nada em materia e em alma, nem cogitaria de enviar-te a elles...

—É um dilemma sophistico.

—Por que principio, não sei.

—Um dia, quando eu te disse que me abrazava na sêde do teu amor, Heloisa, como correspondeste a esse lapso do meu instincto?

—Do modo mais franco.

—Sim... Dando-me apaixonadamente os teus labios para nelles, como eu quizesse, matar a sêde que allegava...

—Dependia de mim. Dei-te.

—De outra vez pedi-te um testimunho da correspondencia de tua paixão. Negaste-m'o?{36}

—Não poderia negar.

—Exactamente. Levaste-me, com todo o carinho, a dextra ao collo, e, na grandeza das iteradas pulsações cordiaes, affirmaste que eu reconheceria a intensidade do teu sentimento...

—Dependia de mim. Pratiquei.

—Por fim, quando te acenei com o plano de nossa união...

—Como te respondi, Christovam?

—Com a primeira negaça.

—Adulteras a minha intenção: cumpri o meu dever, enviando-te á maman, como o caminho propicio para vencer o papá.

—Realmente, Heloisa. Sou um vencido.

—Garanto-te, porem, Christovam, que te amo, ainda, como te amei...

—Irresistivel tormento para mim: serei eternamente o artista obrigado a consummar uma grande obra musical sem a inspiração para a realidade do dever...

—Desistes, então, do teu amor?

—Razões me sobejam...

—Que te disse, afinal, a maman?

—Isso mesmo. Falou-me em que queria um marido para a sua filha e lembrou-me que um musicista não compõe sem ter inspiração...

—Nada de mais, Christovam!{37}

—Talvez não queiras comprehendel-a... Mas é tudo que se póde allegar contra um homem...

E, louco pela musica, inconsciente quasi, CHRISTOVAMDETMERassentou-se ao piano e executou, irreproduzivelmente, a esquisita criação de Gotschalk, ao depois do que, ceremoniosamente, se despediu de HELOISA...{38}{39}

E, louco pela musica, inconsciente quasi, CHRISTOVAMDETMERassentou-se ao piano e executou, irreproduzivelmente, a esquisita criação de Gotschalk, ao depois do que, ceremoniosamente, se despediu de HELOISA...{38}{39}

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O mostruario exhibia, garbosamente, os artigos da moda rigorosa.ESTEPHANIOe JUDITH—esta desprendendo-se de si no devotamento ao esposo, e aquelle, dominador da mulher vencida em mais annos, como se lhe tivesse o corpo de cór, curvas e linhas, luzes e perfumes—gozavam o esplendor dos luxos, com que o artificio corrige os defeitos da Natureza e apaga os estragos do Tempo...MARCOANTONIO—o medico afamado—cofiando as ennevoadas barbas em que se escondiam as illusões do seu poder curador, arrancou os olhares dos dois esposos, e apoderou-se, com fascinante dominio, de suas attenções...{42}

O mostruario exhibia, garbosamente, os artigos da moda rigorosa.

ESTEPHANIOe JUDITH—esta desprendendo-se de si no devotamento ao esposo, e aquelle, dominador da mulher vencida em mais annos, como se lhe tivesse o corpo de cór, curvas e linhas, luzes e perfumes—gozavam o esplendor dos luxos, com que o artificio corrige os defeitos da Natureza e apaga os estragos do Tempo...

MARCOANTONIO—o medico afamado—cofiando as ennevoadas barbas em que se escondiam as illusões do seu poder curador, arrancou os olhares dos dois esposos, e apoderou-se, com fascinante dominio, de suas attenções...{42}

—Bem póde a therapeutica dos homens... Vejo-o restituido ao fulgôr da mocidade...

—É exacto, doutor, passo agora sobre as molestias como a insensivel salamandra por sobre chammas... Descrendo da causa, não posso affectar-me com os seus effeitos: a sua medicina é a criadora das humanas torturas. Parece-me que jà se disse: «Tirem os medicos e as enfermidades desapparecerão»... Mas, eu digo: fugi delles e estou curado. Deem-me milhões de medicos e estarão formados trilhões de doenças.

—E quem te curou, meu caro?

—A natureza...

—O novo deus pagão...

—Assim diz o dr., mas, de facto, a inexgottavel fonte de poderes curadores. Lembra-se de que o procurei exasperado com o que soffria?

—Lembro-me, sim.

—Foram tantos os diagnosticos que jà perdi o direito de dar-lhes autorias.

—O sr. era verdadeiramente um doente.

—E o dr. escreveu uma longa lista de medicamentos para horas certas e invariaveis.{43}

—Realmente.

—Pois confesso-lhe: não fiz uso de um só. Tambem o doutor não foi o ultimo medico que me assistiu. Ainda hoje louvo-lhe a sua acuidade na inspecção. Nada faltou à sua perspicacia, senão comprehender que, no meu estado, as suas perguntas eram outras tantas suggestões e novos symptomas para a aggravação de meu mal. Eu vivia desvairado na vontade de accusar males crescentes, e os meus assistentes porfiavam em illustrar-me em torturas ineditas.

—Afinal... quem te curou?

—Dir-lhe-ei tudo, de começo. Hygia, a deusa da saude, não é de todo mà...

—A historia vai ser a mesma de todos os doentes restabelecidos: salvaram-se pela acção do dedo de Deus, como teriam morrido pela intervenção do doutor...

—Creio que o sr. adianta um mau conceito. Não me tenho na conta dos casos communs.

—Desculpe-me.

—Pois não! Mas, a minha doença foi uma criação dos meus medicos, e a minha cura proveiu de minha inabalavel resolução de abandonal-os. Eu estava em ultimo grau de desengano quando o doutor foi chamado. Voltei assim às mãos de um allopatha. Homeopathas{44}e feiticeiros nada fizeram de resultado para minorar os meus padecimentos. Quando adoeci, aos vinte e tres annos, foi numa convalescença de enfermidade effectivamente assassina: o amor. Eu tinha conseguido, pela vez primeira, objectivar uma paixão. E, não só isto: tivera, com todo o delirio proprio da idade, a posse facil, e passageira contra a minha vontade, de uma mulher amada. O mundo inteiro concentrou-se, ao meu sentir, nos violentos pezadelos de minha carne inexperimentada. Foram sessenta dias, mil quatrocentas e quarenta horas, ou oitenta e seis mil e quatrocentos minutos de frenetico jogo de instinctos, durante os quaes as paradas assediaram-me a alma, remontando as fichas do meu gozo ao maximo possivel. O prazo desse amor fôra, entretanto, fatal. Exgottou-se e a mulher fugiu-se-me dos braços como a espiral do fumo que procura as alturas. Ao depois disto, separado do entretenimento carnal, que me combalia as fibras, como a agua que vai abalar as galerias subterraneas para derribar as minas, tive a sensação do remorso de um grande crime...

—De um crime delicioso...

—Talvez, doutor.

—E então?{45}

—Encegueirado pelo amor, o mundo ficou às escuras sem a luz do olhar della. Quiz correr nas suas pégadas, e senti-me tolhido como a voz na garganta do atormentado por um pezadêlo. Vi em todos os convivas de minha existencia, terriveis sombras fantasticas... E tudo findava sempre num choro convulso, durante o qual me punha a tremer com tanta violencia quanta fazia extremecer todo o assoalho de minha alcova e soar fóra de tempo a campainha do relogio sobre a meza... Senti-me muitas vezes balançado como a espherasinha de madeira que anima o trillo dos apitos...

—É curioso, de véras, o seu caso.

—Foi, doutor.

—Sim! Foi! E hoje sinto não lhe ter visto nesse tempo originalissimo.

—Mas viu-me um outro medico e diagnosticou-me: um paranoico.

—Paranoico?

—Exactamente, doutor, e và vendo. Aconselhou que eu me tratasse com banhos de luzes. Escravos do sentimentalismo clinico desse primeiro medico, os meus paes exgottaram uma fortuna e eu fui enormemente banhado, a contragosto, com luzes de todas as côres. Era inocuo o tratamento para me{46}fazer bem, mas foi uma aggravante dos meus males Exacerbei-me. Os meus nervos polarisaram-se como se aguçados por alta dose, mas não toxica, de strychnina. Veiu um segundo medico—jà a esta hora e ha muito tempo—victimado por uma embolia cerebral. Olhou-me e disse, carrancudamente, deante de uma das minhas crises de saudade carnal: «são delirios epileptiformes»... E o tratamento passou a ser feito com altas doses de bromurêto. A minha ennervação deprimiu-se, e tornei-me um atoleimado, tanto que nem pranteei a morte de minha mãe, desgostosa com a minha tragica existencia... Novo medico; vim a ser um simples neurasthenico, com atonias nervosas. Reconstituintes, passeios, boas alimentações, prazeres, etc.: nada, porem, matava as saudades do meu instincto animal. Comecei de padecer do estomago, ora por excesso de alimentação, ou por escassez... Fui um dispeptico, padeci de insomnias, tornei-me um narcoticomano. Na insomnia, senti faltas de ar: novos medicos e fui um cardiaco, um arterio-schlerotico... Abusaram de iodêtos e tive hemoptises. Um Esculapio chamado às pressas, levando em conta a minha magrêsa, o sangue exvasado dos meus pulmões e o historico dos meus soffrimentos,{47}num rapido prognóstico, annunciou a minha morte breve, por força de adiantadissima tuberculose. Quando os doutos senhores me interpellavam, nunca tiveram o escrupulo de ouvir-me no que soffria sómente: suggeriam-me cousas que só dalli por deante eu começava de sentir. E veiu um curador homeopatha: os seus remedios ingeri com facilidade, pela falta de sabor. Cahi num abatimento nervoso, e um visinho, que se enforcou dias depois porque se sentiu arruinado nas suas forças commerciaes, lembrou que os maus espiritos encostados aos corpos de pessôas novas, faziam artes do demo... E não só apresentou a conveniencia de ser eu rezado, como tambem foi buscar uma velhinha, encarquilhada e bronzea, que, de sobre o meu corpo, deitado de bruços na cama, exconjurou o meu malfeitor, com um galho da famosa arrudeira...

—E nem rezado, sr. Estephanio?

—Para o doutor ver! Nem rezado!

—É unica a sua historia.

—Creio que sim, mas verdadeira. Notou-se, ao depois, que eu tinha mau funccionamento renal... E foi quando o sr. foi chamado.

—Assim acaeceu.

—E inda pensa o doutor que eu tivesse affecção nos rins?{48}

—Se me não falha a memoria, effectivamente.

—Pois escute: logo depois de sua intervenção, repudiando eu os medicamentos que o doutor indicou largamente, dois collegas seus foram trazidos em conferencia.

—Que disseram elles?

—Discordaram preliminarmente do doutor, e discordaram entre elles mesmos. Do doutor discordaram reputando sãos os meus rins.

—Sãos, ou curados?

—Curados, não. Inattingidos até àquella data. E firmaram o diagnostico de uma hepatite aguda, um encontrando atrophia do orgão e o outro hypertrophia.

—Mas, afinal, acertaram?

—Suppõem que sim, porque ao depois da assistencia delles recuperei a saude.

—É espantoso, meu caro senhor.

—Não é, não, doutor. Ao tempo em que descri dos medicos, tinha reapparecido a mulher que eu amára. Visitou-me. Inflammamo-nos, e... estamos casados, não foi assim, Judith?

—Parece-me!{49}

Assim exclamou, apenas, a seductora mulher, com os olhos espelhando o enfeitiçamento de um lindomanteauexposto no mostruario de modas e confecções... emquanto o velho Doutor enrugava solemnemente a espaçosa fronte...{50}{51}

Assim exclamou, apenas, a seductora mulher, com os olhos espelhando o enfeitiçamento de um lindomanteauexposto no mostruario de modas e confecções... emquanto o velho Doutor enrugava solemnemente a espaçosa fronte...{50}{51}

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Depois de mandar retirar-se a criada, VIOLANTEfoi, pé ante pé, fechar a porta do salão de jantar que deitava para a copa, e veiu sentar-se junto do esposo com um olhar esbrazeado e as mãos profundamente geladas.SIMEÃO, o esposo, estava transfigurado: um tremor esquivo no canto dos labios e o retorcer teimoso dos bigodes, illuminavam-lhe as feições com um clarão colerico.Ao depois de sentada ao seu flanco, impulsionando para traz a cadeirinha de balanços, VIOLANTEprovocou-o...

Depois de mandar retirar-se a criada, VIOLANTEfoi, pé ante pé, fechar a porta do salão de jantar que deitava para a copa, e veiu sentar-se junto do esposo com um olhar esbrazeado e as mãos profundamente geladas.

SIMEÃO, o esposo, estava transfigurado: um tremor esquivo no canto dos labios e o retorcer teimoso dos bigodes, illuminavam-lhe as feições com um clarão colerico.

Ao depois de sentada ao seu flanco, impulsionando para traz a cadeirinha de balanços, VIOLANTEprovocou-o...

—Faze a tua scena.

—E não é sem tempo.{54}

—Porque te deixaste enganar se sabias de ha muito e se não é sem tempo?

—Facilidades.

—Os grandes generaes perdem sempre as batalhas porque facilitam. E o homem cazado não tem direito a facilidades.

—Bem o sei... Quando penso no erro do meu casamento, soffro mais do que Orestes no remorso do seu crime lembrado sempre pelas erynias. Uma existencia inteira para passar escravisado aos laços de uma união infeliz!... Maldita hora!

—Ah!... ah!... ah!... ah!...

—Sorris...

—E então? Hei de chorar para te sentires bem na oppressão que me fazes?

—A minha vida depois que me senti enganado...

—Não tem sido menos nem mais infernal do que a minha depois que conheci o teu adulterio...

—Insultas-me ainda em cima, Violante?

—Não te insulto. Repillo as tuas aggressões, termo por termo. O que eu digo é que o mesmo direito que tem o homem de trazer o corpo escarolado e perfumoso para agradar às amantes, tem a mulher de...

—Não dize, Violante, a indignidade!{55}

—Porque não dizer as cousas como ellas devem ser? Só depois que senti a tua ausencia do lar...

—E confessas o delicto?!...

—... só depois que conheci a tua amante...

—Mentes, mulher!

—... só depois que fui ver onde entras, todas as manhans, quando daqui sais...

—É horrivel, Violante!

—... só depois de ver-te partir de là e a tua concubina despedir-se de ti com um olhar de escandalo e tu com gestos de lastimavel escravidão...

—Tu viste?

—Sim... só depois de ter a certeza de possuires uma amante...

—Poupa, Violante, essa phrase...

—... rendi-me voluntariosamente a um dos muitos homens que me faziam a côrte, sabendo-me uma mulher, infeliz como outras muitas, esquecida no lar pelo marido libertino...

—É demais!

—Porque tu o quizeste. Abandonaste a tua caza. Dias inteiros passei num isolamento de aborrecer. Entretanto, fôra diverso o teu proceder nos primeiros tempos de nosso casamento. Quando sahias, mal eu te pensava na{56}rua, mal eu começava a sentir a tua ausencia, estavas de volta. Fui-me habituando a essa constancia ficticia. No dia em que te retardaste, pela primeira vez, chorei e nem soube, porque nunca te perguntei, a hora em que tornaste da rua... Onde estiveste? Nunca quiz saber. E, até hoje, nunca te pedi a menor palavra sobre o teu procedimento...

—E como homem, senhor pleno de seus actos, eu te negaria informações.

—Pois bem! Para evitar essa negação, nunca t'as pedi, sciente e consciente de que sobre o meu procedimento, dentro do nosso lar, não te devo satisfacções... São ellas por ellas...

—Abusas...

—Corrige-me se puderes... Não és o meu marido?... Toma conta dos meus actos! Soubeste que te trahi?... Mata-me, ou expulsa-me de teu lar. Faze o que entenderes, certo de que atraz de mim haverá quem vingue as tuas incontinencias e perversidades...

—E sabes quem é a minha amante?

—Se sei, Simeão?!...

—Crias um conhecimento para justificares a tua falta. Mentes, pois: não conheces ninguem...

—Só com o rizo!... Ah!... ah!... ah!...{57}

—Toma tento, Violante: enveredas por um caminho em que a minha paciencia se exgottarà afinal...

—Ainda em cima me ameaças?

—Sou senhor dos meus actos, dono de minha caza, e exijo que me confesses tudo... Quem te mentiu que tenho uma amante?

—Ninguem!

—Ninguem, como?

—Desconfiei e fui ao teu encalço...

—Não falas a verdade, Violante.

—A certeza das coisas é adquirida quando nos abeiramos dellas. Molestias mortaes, por miasmas exhalados dos paúes, só as contrai quem lhes vai à beira. Acompanhei-te os passos... Foste ao suburbio... Olhas-me agora atravessado? Nega então que te falo a verdade como ella é?!... Por favor, desmente-me, se és capaz...

—Juro-te que não sei do que se trata.

—Perjuro!... Então, toda a manhan não vais daqui à caza de Idalia... Não me interrompas, não... toda a manhan, não passas là horas esquecidas, quando sais não fica ella por traz da gelosia a acenar-te e tu a corresponderes-lhe os acenos de apaixonada despedida?

—Ousada! Alem do mais, injurias à mulher de um amigo da nossa familia...{58}

—E que é a tua amante...

—Pois se é, está tudo muito bem... Escolhi-a por minha muito livre vontade... Constou-te jà que eu tivesse desrespeitado o nosso lar? As minhas obrigações maritaes concluem-se, quando saio, na porta da rua, e começam, quando entro, no mesmo ponto em que as deixei... Portas a dentro, estou eu cazado, e arrependido de ter renegado a Jessy a quem jurei culto eterno, alias, em tempos melhores... Casei por uma supposição de momento: a solidão de solteiro era um suicidio de todos os dias. E só não me enganei em suppôr que o matrimonio me facilitaria relações difficeis antes de ter as qualidades de senhor duma mulher... O mundo inteiro me foi pequeno sempre que tive em mente a tua companhia, e, inda hoje, Violante, se me lembro de ti, o maior prado é um pequenino jardim, o maior céu é a entrada de uma furna... A companheira é um tormento. Tomei uma amante... mas, dentro desta caza, fui sempre o mesmo homem respeitador...

—Outro tanto te allego eu... Mentirá aquelle que disser me ter visto, sorrateira ou clandestinamente, embuçada ou mascarada, penetrar em lugares escusos, ou ao lado de algum homem que não fôsses tu... Casei-me{59}por inexperiencia... Suppuz ser inextinguivel a paixão momentanea que ditou o acto de meu infortunio... Escravisei-me emquanto o meu marido tambem foi meu escravo... Libertou-se elle, libertei-me eu... Adquiriu uma amante...

—Retem-te, Violante!...

—Não! Hei de dizer-te como tu me disseste... Ninguem póde viver longe do pecado depois que pecou uma vez... Tambem tenho um amante, sr. meu marido!...

—Intoleravel!

—Tambem tu o és!

—Adultera!

—Deixemo-nos, Simeão, de apodos... Tenho lingua e liberdade para t'os devolver todos, um por um...

—Saber-me trahido...

—Nada mais natural: queimou-te a braza com que me queimaste... Quando nada, não terás de lastimar a alarvidade da tua esposa... Foi uma mulher digna do marido que lhe deram...

—Sinto faltar-me a luz da vista...

—Impressões, Simeão.

—Pois é justo que me consinta enganado?

—Não nos deshonramos...

—É um consôlo ridiculo.{60}

—E que dirias tu se trahida eu não te trahisse igualmente?

—Diversa é a situação do homem, Violante.

—O casamento nivela os direitos de ambos os sexos... Espontaneamente nos submettemos a esse regimen de igualdade...

—Doloroso!

—Assim exclamei, Simeão! Agora, porem, me sinto melhor: não me enganaste, e isto deve ser glorioso para ti, enganamo-nos...

—E o teu amante?

—Dispensa sabel-o...

—Ah!... Repillo a lembrança que me occorre... Não, não é possivel!... O massagista...

—Rende justiça à tua mulher, Simeão! Pois não vês que eu me não vingaria de ti amando um homem indigno por todos os titulos, que te fizesse córar perante a sociedade, e que me fizesse enrubescer deante de ti?

—Então... Desabafa-me!... Sê completa!

—Insistes em conhecer tudo?

—Não duvides que o quero de coração.

—É Lourival...

—O marido de Idalia?...

—De certo.{61}

—Ah! como somos, do modo mais vil, dois espelhos que se reflectem conjugadamente...

—Mas eu estou vingada...

Interrompendo-os, a criada de copa, do lado de fóra do salão, perguntava aos harmonisados esposos, se podia servir o jantar...E quando a sala se reabriu, reinava alli completa paz...{62}{63}

Interrompendo-os, a criada de copa, do lado de fóra do salão, perguntava aos harmonisados esposos, se podia servir o jantar...

E quando a sala se reabriu, reinava alli completa paz...{62}{63}

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Na secretaria fôra extranhada a falta primeira de ORLANDO, assiduo até não se ter ausentado do serviço no attrahente dia do matrimonio.O DIRECTORdo esposo de OLIVIAera reconhecido à assiduidade do moço, e, por duas vezes, determinàra o seu accesso por merecimento.Ao penetrar na Repartição depois da primeira falta, todos os olhares recahiram no conceituado funccionario, que, perturbadamente, se entregou ao trabalho sem explicações.Mas, horas depois, na intimidade do gabinete reservado, ORLANDOe o DIRECTORentravam em confidencia...

Na secretaria fôra extranhada a falta primeira de ORLANDO, assiduo até não se ter ausentado do serviço no attrahente dia do matrimonio.

O DIRECTORdo esposo de OLIVIAera reconhecido à assiduidade do moço, e, por duas vezes, determinàra o seu accesso por merecimento.

Ao penetrar na Repartição depois da primeira falta, todos os olhares recahiram no conceituado funccionario, que, perturbadamente, se entregou ao trabalho sem explicações.

Mas, horas depois, na intimidade do gabinete reservado, ORLANDOe o DIRECTORentravam em confidencia...

—Ah! Sr. Director!{66}

—Estiveste doente?

—Não, não foi doença minha. Antes o fôsse...

—Trocaste o dia?

—Como assim?

—Levaste à conta de um domingo a quinta-feira de trabalhos?

—Tambem não!

—Viajaste a negocio?

—Qual, Sr. Director! Os meus negociou são sómente os de meu dever aqui dentro...

—Não sei explicar a tua falta.

—E eu careço de coragem para dizer...

—Tão futil não ha de ter sido o motivo.

—Eu conto. Foi o meu primeiro filho...

—Felicito-o desde jà.

—Obrigado, Sr. Director. Eu tinha a certeza de sua generosidade. Conhecendo bem a fraqueza de Olivia, tive receios de deixal-a só quando se manifestaram os primeiros incommodos do parto. E confiando em que o acontecimento cedo me daria liberdade para saltar à repartição, fui-me deixando ficar, ora mais embebido nos cuidados que a parturiente exigia, ora menos descontente com o que se ia passando, até que, só na madrugada de hoje, após vinte e duas horas de labutações, se concluiram os trabalhos...{67}

—Fiquei verdadeiramente atordoado com a tua ausencia.

—Não menos me senti eu, Sr. Director, quando, pela manhan de hoje, cahi em mim e vi que faltàra hontem improficuamente, porque...

—Ora, Sr. Orlando! Uma falta não inflúe, tanto mais quanto fui o primeiro a não mandar que se a notificasse. Tenho o bom senso de saber corresponder ao valor dos meus funccionarios.

—Fico embaraçado... Nem sei como lhe agradeça... Ao depois das torturas porque passei, era natural que Deus me désse o allivio de uma honra como a que o Sr. Director acaba de conceder-me.

—E a senhora ficou sem novidade?

—Pouco mais ou menos, Sr.

—Talvez precisasses do dia de hoje para lhe fazeres companhia...

—Qual nada!... Faltar hoje?...

—Não digo isto.

—Então...

—Obter uma dispensa de serviço...

—Nem pensar é bom, Sr. Director. Se me déssem licença eu hoje emendaria o dia com a noite para descontar o atrazo de hontem...{68}

—São excessos, Sr. Orlando. É justo que um chefe de familia precise dessas lacunas no serviço para gozar mais largamente as venturas de seu lar.

—Estas, francamente, eu só poderia gozar se Olivia tivesse sido feliz no acontecido.

—E não o foi?

—Absolutamente, Sr. Director. Mas, antes de tudo, a obrigação.

—Qual foi o medico?

—Foram apenas dois: o dr. Oscar e o dr. Lucio Trevo.

—Bons medicos, sem duvida.

—E que hão de pedir caro, carissimo, porque realmente trabalharam como um horror...

—Mandarei dar-te uma gratificação para cubrires com ella os extraordinarios desse acontecimento inquietador.

—Não aceitarei, Sr. Director.

—Porque assim?

—Não é soberbia, não. Desculpe-me, mas eu não posso aceitar.

—Quereria ter as razões dessa sua desattenção...

—Não é desattenção, Sr. Supponha que eu aceito. Desfaço-me das minhas difficuldades graças ao seu procedimento generoso. Veiu-me um segundo filho, nas mesmas condições{69}difficeis do primeiro. O Sr. descuida-se e eu não obtenho nova gratificação. Naturalmente me enciumarei com o seu procedimento e o que não quero hoje, não devo esperar amanhan... Pois não é?

—Eu daria do melhor grado.

—Sei disto. Hei de habituar-me a cozer-me com as linhas que tenho... Ao depois, se a parturiente inspira cuidados...

—Não se ficou bem ella?

—Acho que não. Ao depois do parto, começou de ter desmaios consecutivos...

—E o que recommendaram os medicos?

—Repouso. Ó Sr. Director: eu nunca tinha visto um parto... A mulher é uma inditosa, porque em momento nenhum da vida um homem soffre o que Olivia padeceu.

—Pois penso que devias retirar-te.

—Não devo, Sr. Director. O lar é uma preoccupação para fóra das horas da secretaria.

—Até o serviço poderia lucrar com a tua ausencia...

—Perdão, senhor, mas...

—Admiras-te? Não queria falar-te com tanta franqueza para não te consumires ainda mais...

—Por acaso commetti alguma outra falta?

—Gravissima... Sabes porque te chamei?{70}

—Lealmente ignoro.

—Porque te desconheci. Estás um desconchavado e erras todo o serviço. Pelos teus grandes creditos, és aqui dentro um rico de odios e de invejas. Conheço-os todos...

—Agradecido, Sr. Director.

—Cada companheiro teu é um vigia de tudo quanto fazes para diminuirem com os teus lapsos o teu valor. Não o admitto eu.

—Mas, que fiz assim?

—Erraste a somma de uma conta e o thesouro reclama contra a tua informação.

—Oh!... Esta cabeça...

—A conta de Silva & C.ª...

—Sei!... sei!... Então... errei-a?

—Inconvenientemente.

—E sei porque perpetrei o engano...

—É o que tu pensas...

—Por ventura outro me corrigiu?

—Absolutamente não. Serás tu mesmo quem fará este trabalho ao depois...

—Porque não hoje?

—Estás dispensado, incondicionalmente, do serviço por tres dias...

—Não me conformo, Sr. Director.

—Sou irrevogavel.

—No maximo me satisfarei com o dia de hoje.{71}

—Serão tres dias irreductiveis, e pódes ir para a companhia de tua esposa descansar a tua cabeça. Vejo-te perturbado enormemente com o pensamento do que possa ella estar soffrendo a esta hora... Vai, anda!

—Dá licença?

—Pois não.

—Ás ordens do Sr. Director.

—Ah!... Sr. Orlando?

—Sou todo ouvidos.

—Escapou-me de perguntar-te: o teu filho? é homem?

—Perdão, Sr. Director... Mas... não lhe sei responder... Com a atrapalhação da hora não me lembrei... Ah!... sim...

—Que respondes?

—Desculpe-me, Sr. É justo que eu tenha me descuidado tanto?!... Nem verifiquei, Sr. Director, se sou pai, ou...

Sorrira o DIRECTORe dispensàra de vez ORLANDO, com a inveja crescente de todo o funccionalismo bisbilhoteiro e ignorante dos factos...{72}{73}

Sorrira o DIRECTORe dispensàra de vez ORLANDO, com a inveja crescente de todo o funccionalismo bisbilhoteiro e ignorante dos factos...{72}{73}


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