The Project Gutenberg eBook ofMusa CerulaThis ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.Title: Musa CerulaAuthor: Augusto GilRelease date: January 10, 2010 [eBook #30920]Most recently updated: January 6, 2021Language: PortugueseCredits: Produced by Pedro Saborano (This file was produced from images generously made available by The Internet Archive)*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK MUSA CERULA ***
This ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.
Title: Musa CerulaAuthor: Augusto GilRelease date: January 10, 2010 [eBook #30920]Most recently updated: January 6, 2021Language: PortugueseCredits: Produced by Pedro Saborano (This file was produced from images generously made available by The Internet Archive)
Title: Musa Cerula
Author: Augusto Gil
Author: Augusto Gil
Release date: January 10, 2010 [eBook #30920]Most recently updated: January 6, 2021
Language: Portuguese
Credits: Produced by Pedro Saborano (This file was produced from images generously made available by The Internet Archive)
*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK MUSA CERULA ***
Produced by Pedro Saborano (This file was produced from
images generously made available by The Internet Archive)
165—R. Ferreira Borges—165
1894.
165—R. Ferreira Borges—165
1894.
1891-93.
Honorate l'altissimo poeta
A João de Deus
… Quando lerdesEntendei que segundo o amor tiverdesTereis o entendimento dos meus versos.
Camões.
O sentimentalismo constitue a Arte.
Taine.
Para fielmente contar o que sinceramente sente, não são necessarias ao poeta essas fórmas novas que devem rutilar de inauditismo.
…………………………………..
Ao assenhorear-se d'ella sentiria sem duvida o embaraço de quem, para beber agua de um regato, n'uma sesta de verão, tivesse de usar um pesado calice do seculo XVII, todo de oiro, cravejado de pedras, tirado de um museu de artes decorativas……………….
Eça.
Almas irmãs da minha, a vós dedico e offertoEste livro d'amor—meu coração aberto.Folhas soltas ao ar na alegre revoadaDe pombas a fugir no azul d'uma alvorada.
Com ellas vejo ir pela amplitude calmaPedaços do meu sêr, pedaços da minh'alma:
É tudo o que eu cantei de idyllico e olorante,Desde o ceruleo olhar da minha terna amanteAté á coma edeal da minha sancta mãe,Alva como um lilaz, branca como a cecem.
Almas irmãs da minha, a vós dedico e offertoEste livro d'amor—meu coração aberto.
Profissão de fé
Não vão pensar que a minha musa sejaAlguma apparição allucinanteDe olhar azul e labios de cereja,Diadema d'oiro e espada flammejante.
A musa protectora d'estes versosDetesta a rima altiva dos pamphletos,Educa-me em principios bem diversos:—Lê-me Petrarcha, o mestre dos sonetos.
Não me ensina a cantar imprecaçõesContra as torpes gangrenas mundanaes,Inspira-me sómente estas cançõesQue vos fallam d'amor—e nada mais.
Apostolo do Bello e da Bondade,Ella anda a propagar por toda a parte,Ás almas auroreaes da mocidade,A nova religião chamada—Arte.
Consagra um culto fervoroso e santoAos sentimentos bons, ás coisas mansas.Respeita a Dor nas lagrimas do pranto,Adora a Paz nos risos das creanças.
Por alta noite, quando a evoco e chamo,Segreda-me ao ouvido brandamente,Qual brisa leve a prepassar n'um ramo:Traduz em verso o que a tua alma sente.
Canta os sorrisos, canta as amargurasDos teus vinte e dois annos incompletos.Faz d'elles um collar d'estrophes puras,Faz d'elles um rosario de sonetos.
…………………………………. ………………………………….
Já vêem, pois, que a minha musa é calma:E agora, se quizerem lêr sem pressa,Verão que em cada estrophe vae impressaUma affecção diversa da minh'alma.
A minha mãe
As illusões semelham-se a um collarDe perolas alvissimas, de espuma.Se o fio que as segura se quebrar,Cahem no chão, dispersas, uma a uma.
Cahem no chão, dispersas, uma a uma,Se o fio que as segura se quebrar;Mas entre tantas sempre fica alguma,Sempre alguma suspensa ha de ficar.
D'as minhas illusões, dos meus affectos,Longo collar de amores predilectos,Muitos rolaram já no pó tambem.
Um só d'entre elles não cahirá jámais:Aquelle que eu mais préso entre os demais.—O teu amor sanctissimo de mãe.
Impressões d'ella
Os labios são dois imans de desejos.A bocca, então, é calix de venenosCom infusão de beijos.Eu, se o mortal licor provasse ao menosAlguma vez sómente,Envolto já nas sombras da agoniaAinda um beijo mais lhe pediria—Para morrer contente…
A voz tem a dolente melopeiaQue Dom Juan tirava á guitarrilha,Á luz da lua cheiaNas ruas de Sevilha;Tem os enervamentos do FalernoE a attracção da musica d'Orpheu;Se a ouvisse, o inferno—Tornava-se n'um ceu.
Os olhos não são olhos, são punhaes.E tanto mais me fita, quanto maisOs crava no meu peito;Comtudo heide dizer-lhe:—«Oh minha amadaDesfia-o, fibra a fibra, á punhaladaQue morro satisfeito!»…
O matrimonio
De banza a tiracollo e capa á trovador,Eu nunca fui cantar endeixas amorosas,Lyrismos de Romeu junto aos balcões em flor,Por sob o luar dormente e as nuvens vaporosas.
Tão pouco tenho a linha airosa, aristocrata,Da fina flor do tom, os dandys adamadosQue andam pelos salões, monoculando, á cataD'um dote que lhes salve a pança de cuidados.
Tenho, como qualquer, a aspiração idealD'uma noiva gentil, d'um ninho conjugal;Mas tudo se desfaz se penso um só momento
N'este quadro banal, depois do casamento:O sogro, a sogra, a esposa, um filho já taludoE eu, muito aborrecido… a olhar p'ra aquillo tudo.
Dolorosa
Deitada sobre o esquife funerarioE vista á chamma trémula dos cirios,Tinha a alvura das hostias do sacrarioE a pallidez suavissima dos lirios.
No seu rosto gentil e sorridenteHavia a languidez da pomba mansa.Parecia dormir serenamente,Immersa em vagos sonhos de creança.
Annos passaram desde que morreu;Comtudo vibra intensa no meu ser,A sensação do beijo que me deuPoucos momentos antes de morrer.
E julgo vel-a ainda á luz dos cirios,Deitada sobre o esquife funerario,Mais pallida que as petalas dos lirios,Mais branca do que as hostias do sacrario.
Sonho de nupcias
Eu punha no teu labio a nota quenteA musica vibrante dos desejos,Poisava-te no collo branco, ardente,O poema rendilhado dos meus beijos.
Ao intimo contacto d'esses beijos,Erguia-se em volutas de serpenteA curva delicada, alvinitente,Das tuas fórmas, tremulas de pejos.
Senti então, allucinado e mudo,O élo dos teus braços de velludoCingir-me contra a carne feiticeira.
E sobre o veu de gaze delicado,Murchavam na capella do noivadoOs albentes botões da laranjeira…
Serenata
Vae serena, desmaiada,Entornando luar no azul,A lua, taça quebradaDos festins do rei de Thule.
As estrellas maceradasSão como beijos de luz,Ou lagrimas condensadasDo martyrio de Jesus.
Serena como uma prece,Cariciosa como um ninho,A via-lactea pareceEstrada feita de arminho.
Estrada feita de arminhoE flocos alvinitentes,Que talvez seja o caminhoPara a morada dos crentes.
Curvam-se os lirios abertos,Escutando o som da aragem,E os rouxinoes dão concertosSob as folhas da ramagem.
Na atmosphera encantadaAnda a vibrar soluçanteA voz doce e requebradaD'um bandolim tremulante.
Oh dona de olhos sensuaes—Olha o luar tão bonito!Façamos os esponsaesDo nosso amor infinito.
Vamos vibrar os harpejosD'uma serenata louca.As notas, serão meus beijosE a guitarra… a tua bocca.
A Alberto de Oliveira
Emquanto os outros vão, ao som das guitarradas,Capas a desfiar, batinas sem botões,Entre explosões joviaes de intensas gargalhadas,Cantando alegremente eroticas canções,
Elle despresa a vida, o riso, os coraçõesE n'um mystico horror d'almas fanatisadas,Foge do mundo e vae, á busca de illusões,Em frageis bergantins de velas enfunadas.
Talento peregrino o seu ideal recordaUm extasis de monja em frente d'um altar,Á hora em que o sol morre e a lua meiga acorda.
E o seu verso dolente evoca dentro em mim:Ao longe, muito ao longe, á branca luz do luar,Os tremulantes sons d'ignoto bandolim…
Perdularia
Passou junto de nós, pedindo esmola,Uma creança rota, magra, invalida.Deitaste-lhe dinheiro na sacola,Beijaste-lhe em seguida a face pallida.
Que feliz foi o pobre da sacola!O seu desejo era bem mais modesto.Podias dar-lhe unicamente a esmolaE a mim—dares-me o resto…
Em wagon
A chaminé vomita fumarada.A machina assobia: parto emfim.Nagare, ao longe, a minha namoradaAgita o lenço branco para mim.
Como rectas traçadas a namkim,Sobre um fundo ceruleo de aguada,Vejo no espaço nitidas, assim,As linhas telegraphicas da estrada.
O sol, hostia de luz resplandecente,Vae-se elevando gloriosamenteNa abobada vastissima dos ceus
E dois choupos batidos pelo ventoCurvam-se num ligeiro cumprimento,Cerimoniosos, a dizer-me adeus…
Blasphemia santa
Jurou-me eterno amor. A noite ia cahindo.E, entre outras phantasias,Eu disse-lhe sorrindo:
Se Deus surgisse agora, aqui, perante nósO que é que lhe dizias?
—Que nos deixasse sós…
Á sobremesa
Variação sobre um Thema de Heine
Na sala de jantar da baronezaA conversa cahira mollemente,E um creado esguio, sorridente,Trazia sobremeza.
Os commensaes fallavam sobre a vida.—Viver é ir morrendo lentamente—Dizia suspirando, em voz sentida.Um lyrico doente.
A vida, accrescentou, volvendo os olhos,Um bacharel vermelho, de melenas:—É um jardim de lirios e de abrolhosDe cardos e verbenas…
Continuou depois solemnementeUm outro, litterato, de lunetas,Com fama de escriptor intelligente,Auctor de varias tretas:
—A vida é a viagem d'alguns dias:Uns seguem n'ella a estrada dos revezes,Outros a do prazer. As duas viasEncontram-se por vezes…
O barão quasi calvo, de olhar vago,Disse a sorrir, curvado na cadeira:—A vida é isto. E despejou d'um tragoUm calix de Madeira.
Ao fundo, um par de jovens namoradosFazia brindes intimos de amorE a digestão punha nos convidadosUm languido torpor.
Ouviu-se então, em voz de confidencia,Dizer á baroneza um titular:—Minha Senhora, creia-me Vocencia,A vida—é esse olhar…
Carmen
Sobre as dobras rendadas da mantilhaBrilham-te, como soes em pleno dia,Os olhos mais galantes de SevilhaNa fronte mais gentil d'Andaluzia.
A tua voz ao som da guitarrilhaTem vibrações extranhas d'harmonia.Ninguem canta melhor a seguidilhaN'esse paiz do Amor e da Alegria.
Nas voltas caprichosas doboleroNão tens rival em graça e emsaleroCarmen gentil, oh flôr das hispanholas!
Tu fazes-me o effeito inebrianteDos vinhos de Xerez e de AlicanteQuando bailas ao som das castanholas!
Fervet amor
A conversa cahiu no casamento.E defronte de nós, n'esse momento,Noivava um par alegre de pardaes.
Ruborisada, attenta, olhaste os dois.Em que meditas? disse, e tu depois,Baixando o doce olhar—coraste mais.
Cantares
A triste viuvez tua,Creança de olhos suaves,Lembra-me as noites sem lua,Lembra-me os ninhos sem aves.
Tão bonita e sem amores,Á minha mente recordasUma jarra sem ter floresUm bandolim sem ter cordas.
Oh meiga rôla sem par,Á phantasia revelasUma barca em pleno marSem ter leme e sem ter velas.
Moreninha idolatradaQue o loiro Amor não seduz,És como estrella apagadaÉs como um astro sem luz;
És como um cofre doiradoCheio de gemas d'Ophir,Por tal maneira fechadoQue ninguem o possa abrir.
Oh virgem de negra coma,Oh minha doce gazella,És como flor sem aromaComo moldura sem tela,
Galathea que amo tanto,Meu amor, peccados meus,És um altar sem ter sancto—Um paraizo sem Deus!
Senhor Doutor
Não ha quem endoide as moçasComo os olhos d'um doutor.(Cantiga coimbrã).
Houve na aldeia viva sensaçãoAo regressar o filho do morgado,Que fôra para Coimbra de calçãoE vinha agora bacharel formado.
Vae longe, olé, bradava o vozeirãoDo abbade. É só fazel-o deputado.E as moças entre si: Que rapagão!…… Doutor, tão novo… Deus seja louvado…
Chegou a casa e n'esse mesmo dia,Foi visitar radioso de alegriaA filha da velhota que o creou.
E visitou-a tanto e tantas vezesQue quando decorreram nove mezes—O morgado da aldeia… era avô.
Ritornello
O seu cabello loiroE o perturbante olharDos grandes olhos pretosSerão a chave d'oiroCom que eu hei de fecharUm livro de sonetos.
Posta a gravata brancaE de casaca preta,N'uma attitude franca,Sem venias d'etiqueta,Ler-lhe-hei um dos sonetosFechado a chave d'oiroFeito aos seus olhos pretosE ao seu cabello loiro.
Á nobre cortezãHa de mover, por certo,O extranho talismanDo livro que lhe offerto.Que p'ra inspirar amorA uns taes olhos pretosNão ha philtro melhorQue um livro de sonetos…
Esboceto
Como uma semi-tinta de aguarella,Côa-se a luz, dulcissima, veladaAtravez das persianas da janella,Sobre a pequena sala alcatifada.
N'um cavallete, apenas debuxada,A tons ceruleos, sobre larga tela,Uma marina calma, socegada,Com botes de pescar, vogando á vela.
Sobre a meza rodeada de cadeiras,Destaca, entre revistas estrangeiras,Um busto de mulher adolescente
E a brancura leitosa do tecladoPõe no piano, entreaberto, ao lado,Um ar de monstro, arreganhando o dente.
Consummatum est!
Amei-a muito, é certo. Amei-a com o loucoE desvairado amor d'alguem que nunca amou.Por isso que a amei tanto é que a amei por tão pouco.
—Escusa de insistir. O meu amor findou.
Como um perfume leve que pelo ar se expande,Assim esta paixão ardente se evolou.Já nada resta agora d'esse amor tão grande.
—Escusa de insistir. O meu amor findou.
Hontem, ao lêr o meu bilhete quasi em branco,Laconico e conciso, dizem que chorou,Talvez fosse cruel, mas creia que fui franco.
—Escusa de insistir. O meu amor findou.
N'uma gaveta, entre papeis dispersos,Encontrei, por acaso, n'outro dia,Os meus primeiros versosSingellos de harmonia.Pobres de rima e cristallinos sons,Mas cheios d'uma doce ingenuidade,Que os torna, na verdade,Sympathicos e bons.
Minha sincera e dedicada amiga.Meu doce amor e minha aspiração,Como tributo de amisade antiga,Deponho na tua mão,Apenas retocadas,Estas simples estrophes desmaiadas,Para que vejas como os desenganosMataram, dia a dia e hora a hora,As santas illusões dos meus quinze annosQue inutilmente invoco e chamo agora…
Oração
Outomno. Morre o dia.Cae sobre as coisas placidas e calmasUm véo de sombra e de melancoliaQue dulcifica e embrandece as almas.
Todo o meu sêr se invadeDe enervantes e mysticas doçuras,De mansidão, de paz, de suavidade,De sentimentos bons, de ideias puras.
No coração prepassaUma piedade e compaixão serenaPor todos os validos da desgraça,Por tudo quanto soffre e quanto pena:
Pelos pequenos entesSem abrigo, sem lar e sem carinho,Que são como avesinhas innocentesPostas por mão cruel fóra do ninho;
Pelos encarceradosQue lançam, d'entre as grades da cadeia,Ao ar, á luz, aos montes afastadosA vista afflicta e de amarguras cheia;
Pelos que vão pedindoDe porta em porta o pão de cada dia,Tristes, que sempre a morte olham sorrindoPorque ella unicamente os allivia;
Pelos que andam distantesEntre cruezas, fomes e perigos,Sentindo a nostalgia lancinanteDa patria, da familia, dos amigos;
E n'uma emoção crente,N'uma fé viva, forte e bemfazeja,A Deus supplico fervorosamenteQue os guie, que os soccorra, que os proteja.
De longe
Eis o pedido simples que te indico,Se acaso o teu amor do meu partilha:Ama-me com o amor que eu te dedicoE pensa em mim, como em ti penso, filha.
Manhã no campo
Manhã no campo. O som, a luz, o aroma, a côr,Fundem-se alegremente em galas festivaes.A luz por todo o espaço, o aroma em cada flôr,O som na passarada, a côr nos vegetaes.
É toda a natureza um extasis d'amor.Por sob o céo, do tom das rosas outomnaes,Concebe o lirio branco, a laranjeira em flôr,A abelha delicada, a pomba dos pombaes.
O vento sul dissipa as brumas do nascente,E, como tem chovido a primavera inteira,Vae quasi a transbordar o leito da ribeira.
O sol envolve o azul n'um longo beijo ardenteE pelo espaço vão, em phantasiosas linhas,As bohemias d'além-mar, as meigas andorinhas…
Adeus
Ha de lembrar-me sempre a immensa maguaQue vi transparecer nos olhos teusCeruleos, languescentes, rasos de agua,Quando, poisando os labios sobre os meus,N'um demorado osculo celeste,Tremente e carinhosa me dissesteEsta palavra:—Adeus!—
Afastei-me de ti e já distanteVoltei-me para vêr-te inda uma vezCom o presentimento lancinanteDe que te não veria mais, talvez.Tornei-me então da lividez d'um monge,Quando vi alvejar nos dedos teusUm lenço branco repelindo ao longe:Adeus, adeus, adeus…
Lyrica chineza
Lembra-me a hastea compridaDos lyrios brancos em flôr,A elegancia apetecidaDo seu corpo tentador.
Da sua côr singularDá uma ideia leveA pallidez do luar,Batendo um floco de neve.
Nem o breu, nem o carvão,Nem a noite sem estrellas,Têm a densa escuridãoDas suas tranças tão bellas.
A sua bocca, a sorrir,Quando mostra os alvos dentes,Lembra perolas d'OphirEntre dois rubís fundentes.
Das suas fallas suaves,Ao som commovente e lêdo,Cessam os cantos das avesE as folhas ficam de quêdo.
O seu meigo olhar luzenteNem sei bem o que revela…Lembra um lago azul, dormente,O dulcissimo olhar d'ella.
Da sua mão pequenina,Disse o imperador chinez:Dava o throno, o sceptro, a China,Pel-a beijar uma vez.
Quanto ao pé—que perfeição!—Eu nem citarei mais factos:Cabem na palma da mãoAs fórmas dos seus sapatos.
Perolas
Como os mergulhadores orientaesQue ao leito das ondinas vão roubarAs perolas fulgentes, virginaes,Sondei o negro abysmo d'esse olhar.
No pelago vastissimo do marMergulham elles, muita vez em vão;Pois eu, mulher, roubei ao teu olhar—A perola sem par d'esta paixão…
Ignotus
Ninguem sabia ao certo quem elle era,O bondoso pastor do presbyterio.A terra onde nasceu? D'onde viera?—Em vão se investigava tal mysterio.
Andava sempre só. Pelos caminhosEncontravam-n'o, á tarde, muitas vezes,Parado, a ouvir a musica dos ninhosOu as joviaes canções dos camponezes.
O signal do seu livro de orações,Um dia que passava, absorto, a lêr,Cahiu perto d'um grupo d'aldeões.
Um velho ao apanhar-lh'o reparára:—Era um retrato antigo de mulherD'uma belleza peregrina e rara.
Nec semper
São gemeas a Verdade e a Belleza,Disse-me um grande sabio n'outro dia.Se elle te conhecesse, com certeza,Tamanha falsidade não diria.
Pois tu oh formosura incomparadaA quem o meu amor ardente aspira,Sendo a propria Belleza humanisada—És a synthesis viva da Mentira!
Combate
Fazer versos delirantesAo teu frio coraçãoÉ como engastar diamantesN'um ad'reço de latão;
Comtudo meus versos sãoTiros certeiros, constantes,Ao teu frio coração,Aos teus desdens provocantes,
N'esta singular batalhaNão sei mesmo quem mais valha,Qual de nós seja a vencer.
N'esta campanha secretaEntre o amor d'um poeta—E o desdem d'uma mulher!
Nostalgica
O amor é chamma enorme que allumiaE nos consome e gasta o coração.Uma faúlha o ateia—a sympathia,Termina em labaredas—a paixão.
Tanto é maior a luz que elle irradia,Quanto intensa é depois a escuridão.A indifferença é como a cinza friaQue fica d'essa lenta combustão.
Senhora a quem amei perdidamente,Não me entristece o seu desdem mordente,Já nada me preoccupa, nem me importa…
Porque, desde que vós me não amaes,O meu corpo doente não é mais—Que a tumba viva da minh'alma morta…
Irmã da caridade
Muitos, ao vel-a, estacam deslumbrados,Ficam como suspensos d'esse olharMais timido que os olhos dos veados,Mais candido que os raios do luar.
Indifferente á propria formosuraSegue, porém, impavida, serena,De habito negro como a noite escuraE touca branca como uma açucena.
A linha esculptural do seu perfilÉ d'uma correcção incomparavel.É alta, aristocratica, gentil,De brandos gestos e maneira affavel.
E a Rubens, a Murillo, a TicianoExcederia certamente em gloriaAlgum pintor que modelasse o arcanoDo seu busto de virgem merencoria.
É fria como a neve sobre o poloE pura como uma alma de creança.Olha uma rocha como olha um collo;E-lhe estranha a tormenta ou a bonança.
Nem lhe estremece o labio virginalAo beijar a nudeza de Jesus,O grande martyr, sonhador idealQue expira mansamente n'uma cruz.
Quando morrer na cella do mosteiro,Á cova n'um esquife hão de leval-a;Serão então os braços do coveiro—Ultimos e primeiros a abraçal-a…
Abril
Enorme, arredondado, reluzente,Como se fôra um olho de Titan,O sol no azul olhava fixamenteA natureza lubrica, pagã.
E á luminosidade transparenteDo céu avelludado da manhã,Um melro ia cantando alegrementeUma canção brejeira e folgazã.
Nuvens de fumo tenues, vaporosas,Evolavam-se em fórmas caprichosasDas chaminés esguias dos casaes.
E em choreação festiva, galhofeira,Ouvia-se nas bandas da ribeiraUm concertante alegre de pardaes..
Aldeã
Podem dizer talvez que ella não temAs fórmas peregrinas, delicadas,Das cortezãs de peito de cecemQue vão á noite aos bailes, decotadas.
Podem dizer talvez, e dizem bem,Que ás suas faces tumidas, rosadas,Falta a côr macilenta que convémÁs virgens dos sonetos e balladas.
Á elegancia doente e vaporosaEu prefiro, comtudo, a fórma airosaDo seu corpo gentil de mulher sã;
Por isso adoro e préso mais que tudoOs seus olhos dolentes de velludo,Os seus labios vermelhos de romã.
Amor omnia vincit
O amor não se confrange,O amor não se combate.É como a luz do sol que tudo abrange,É como um raio audaz que tudo abate:É como em terra fecundante a flôr,Viceja e medra, embora se não trate.Não se confrange o amor,O amor não se combate.
O amor não se commenta,O amor não se discute.Embalde imploro á minh'alma sedentaQue me oiça, que me attenda, que me escuteEm vão busco acalmar o louco ardorD'esta paixão lethal que me atormenta.Não se discute o amor,O amor não se commenta.
A uns annos
Se eu fosse rei, Senhora, n'este diaO pagem mais gentil da minha côrte,Como tributo d'amisade, iriaA esses pés miniaturaes depôr-te
Um brinde sem rival, d'alta valia;Mas sabes bem que não sou rei. De sorteQue não pode ir, como eu desejaria,O pagem mais gentil da minha côrte
Offerendar-te joias de valia.Em vez do brinde, mando todaviaUm ramo de lilazes e cecens.
E pelo pagem loiro, alvinitente,Mando, Senhora minha, unicamenteEste soneto a dar-te os parabens.
Struggle for life
«Luctar, luctar!» dizeis-me vós. «A luctaÉ inherente á propria natureza»,Mas qual é a victoria absolutaN'esta guerra sem treguas, sempre accesa!
Hája quem venha á barra, quem discutaE me combata e dome esta incerteza.Sinto a minha alma inerme, irresoluta,Cheia de abatimento e de fraqueza.
Eu luctaria com denodo, sim,Se á lucta visse um terminus, um fim;Mas qual de vós que ha tanto batalhaes
Com animo valente e sanha viva,Poude alcançar ou conseguir jámaisA victoria final—a decisiva?
Ponto final
Pediste-me um soneto delicado,Exquisito, gentil, galanteador,Feito com versos d'oiro e cravejadoCom rimas de finissimo lavor.
Ora eu, confesso aqui o meu peccado,Nunca tive feição de trovador,Acho o lyrismo d'album requintado,Banal, elogioso, sem valor.
Aqui me tens; jámais falto ás promessas.Exijo, pois, de ti que não esqueças,Em troca, filha, este pedido meu:
Que para ennobreceres o soneto,Venhas fechar o ultimo tercetto—Com o ponto final d'um beijo teu.
El punto final
Pedisteme un soneto delicado, exquisito, gentil, galanteador, hecho con versos de oro, y cincelado con rima de finissima labor.
Ahora bien, yo confieso mi pecado; nunca tuve afición de trovador, y detesto al poeta almibarado que en albums habla de banal amor.
Cedo, no obstante. Pero, no te azores si pretendo de ti que colabores, y que en premio al trabajo que rehuyo,
para que algún valor tenga el soneto, te dignes terminar este terceto… con el punto final de un beso tuyo.
Indice
Dedicatoria Pag. 9Profissão de fé " 11A minha mãe " 15Impressões d'ella " 17O matrimonio " 19Dolorosa " 21Sonho de nupcias " 23Serenata " 25A Alberto de Oliveira " 29Perdularia " 31Em wagon " 33Blasphemia santa " 35Á sobremesa " 37Cármen " 41Fervet amor " 43Cantares " 45Senhor Doutor " 49Ritornello " 51Esboceto " 53Consummatum est " 55I— " 57II—Oração " 59De longe " 63Manhã no campo " 65Adeus " 67Lyrica chineza " 69Perolas " 73Ignotus " 75Nec semper " 77Combate " 79Nostalgica " 81Irmã de caridade " 83Abril " 87Aldeã " 89Amor omnia vincit " 91A uns annos " 93Struggle for life " 95Ponto final " 97El punto final " 99
Acabou de imprimir-se este volume aos 6 de abril de mil oitocentos e noventa e quatro na typographia de José Joaquim dos Reis Leitão, Rua do Norte, 6 Coimbra.