DEUS E O AMOR

Não tinha um lobo mais que a pelle e o osso.Signal é que de orelha arrebitadabem vigilante andava a canzoada.Encontra o lobo um dógue forte, grosso,nutrido, luzidio, uma belleza!que distraído abandonára a estrada.Sorri-lhe a nedia preza!Saltar-lhe logo ali, fazêl-a em postaso seu desejo fôra. Dura empreza!A lucta era infallivel. Voltar costasnão usam perros quando são valentes,e, mais, os brutos! dão ás vezes cabodo fero contendor! Diabo!... Diabo!Então aquelle, com aquelles dentes!*Humilde o lobo, pois, encolhe a cauda;chega-se ao cão; abaixa-lhe a cabeça;puxa conversa; diz que folga em vêl-o,que deixe que elle admire, que elle applaudatopal-o assim... e com tão bom cabello!...e rijo! e gordo! Um frade! Uma abbadessa!«Esplendido senhor»,—o cão responde;—«de vós depende o ter igual gordura.Fugí dos bosques, ondepor teima da desgraçade fome e frio só achaes fartura,vós, senhor lobo, e a vossa pifia raça.Dias e dias sem comerem nada!e lá por festas, raras, esquecidas,um petisquinho conquistado á espada,tragado ás escondidas!Ahi é certa a morte!Furtae-vos a seus braços!Seguí... seguí meus passos;tereis outro destino e melhor sorte.»—Mas como?—volve o lobo.—Fazer então que devo?—«Bagatella:nem morte d'homem nem de egreja roubo;simplesmente estas coisas: não dar tregoaásantagente rôta, mendicante,bordão n'uma das mãos, n'outra a tigela,que vem inda a distancia d'uma legoae já tresanda a essencia de tratante.Lamber as mãos ao dono; ser submisso...dar cóca, é o termo proprio, ao dono e a todoquanto bicho careta houver em casa.Salario apanhareis que vos apraza:ossos das aves, rodas de chouriço,restos vindos da mesa, e tudo a rôdo!Até unstagatésem cima d'isso!»*Tendo prestado ao cão attento ouvidoo lobo, coitadinho!com perspectiva tal enternecidonão tugiu nem mugiu, mas fez beicinho.*Iam caminho já do povoadoquando o lobo notou que no pescoçoo cão era pellado.—Que tens ahi?—pergunta em alvoroço.«Nada, que eu saiba.»—Nada?!—«Frioleira.»—Mas afinal o que é?—«Ora!... A colleiracom que á noite me prendem junto á porta...»—Prender-te?!—o lobo exclama.—Não saes fóra,não corres livre pela terra inteiraquando te dá na gana, e a toda a hora?—«Nem sempre. Isso que importa?!»—Tanto importa que toda a trincadeiracom que me acenas, um thesouro embora,por tal preço não quero.—O lobo finda;põe-se logo na perna, e corre ainda.

No ceu, cabisbaixo, o Amorum d'estes dias entrava.O pobresito levavaimpressa no rosto a dôre as settas todas na aljava.Ao vêl-o o Eterno exclama:«Que vens tu fazer aqui?!»—De Lysia, meu Deus, fugiporque lá vivo da fama;os meus freguezes perdi.Busca a moça um noivo ricosem lhe importar nada mais.São fumo as paixões e os ais;pintos, nina. Apanha o mico!—lhe bradam os proprios paes.Por isso, feito o consorcio,sae da egreja o par fiel,e o noivo compra papelpara requ'rer o divorcio,passada a lua de mel.Torto já, e á vara larga,o finodandyseduz.O mais que faz o lapuzquando em finezas se alargaé roncar:Que tal te eu puz!Do patrio amor todo o fogotraduz-se novenha a mim.Quem faz d'um jornal pasquim,sem trunfos entra no jogoe sae-se trunfo por fim.Bellini foi-se!... não presta.Da harmonia a nata, a flôr,veio encontrar successornoFado, que é o rei da festa,o canto que fazfuror!—A virgem martyr Cecilia,ao ouvir blasphemia tal,ataca osinatural,e, pedindo um chá de tilia,cae em deliquio mortal.Sem reparar no que passasoluça o Amor e diz:—Murcha pende a flôr de liz.Jaz prostrada na desgraçaa patria de São Luiz!O Krupp a morte semeiade Sarbruck até Sedan,e París, a cortezã,nas garras da fome anceia!Que serás, França, ámanhã?!Pois n'estes dias sombriosa velha Europa sagaz,cuidando ter um antraz,fez ataduras e fiosem vez de fazer a paz!Lisboa, toda vergonhas,e orgulhosa, e esmoler,atraz ficar-lhe não quere desata a fazermonhas;mas fios, nem um, sequer!Acima da humanidadeha n'esse bom Portugalo novilho e o boi real.A dôce fraternidadeanda nos paus do animal.De meu seio a pura chammadeixa, ó Deus, arder aqui.De Lysia a correr fugiporque lá já ninguem amanem mesmo, Senhor, a ti!Nem mesmo! que sem respeitotonsurado berradortroveja em voz de Stentor,batendo murros no peito,que o teu braço é vingador;Que ao reino teu infinito,á mansão da eterna luz,tua mão, Senhor, não conduzquem fez o enorme delictode ignorar que houve Jesus;Que tu, meu Deus, que és o forteque destruiu Jericó,que és a Justiça... tu só,habitas n'aquella córte;encarnas no immundo pó!E para acabar o quadro,para lhe dar mais unção,afoga o impio sermãojunto á cruz que está no adroem ondas de carrascão!No templo teu, Pae divino,apparato theatral!Em redoma de crystalvestido Jesus Meninodechéchédo Carnaval;E o alvo lirio, Maria,a pura depois de mãe,caracoes e rolos temcomo usava a minha tiaquando ia ao Paço em Belem!No altar-mór o scenarioque effeito fazendo está!Pallida a lua... acolá!...Além a cruz... o Calvario...Fóra, author! Bravo, Rambois![1]Na nave central—cavaco;e no côro, ai! pobre fé!latagões côr de caféuivando dentro d'um sacco:—Sou o Barba-Azul! Olé!—A catholica Judêa,o christianismo pagão,ousa mais! Põe em acçãodo Homem-Deus a epopêana sensual procissão!Ás enfeitadas janellascorre a curiosa avidez.Fazem cauda.Esperam vezcomo se elles e ellasfossem vêr um entremez!Depois começa o serviço.Olho aqui... e olho lá...no seutudo, e no papáque embirra co'o tal derriçopor andar nob-a-ba.Namorando as carnes núasdo que vae no floreo andor,outras dizem:—«Salvador,se todas são como as tuasquem não será peccador?!»Emquanto se eleva o incensona caprichosa espiral,o garoto, essa vestaldos vates de hoje, no lençofaz mão baixa e no metal.E, manso, por entre o grupoda ondulante multidão,serpenteia a procissão.Rumoreja em torno o apupo.Consternam-se alma e razão.Que brutos cêpos são esses?Vae Deus ali? Christo núposto a par domanitú,homens dos torpes int'resses,filhos glotões de Esaú?!...Tartufo os impetos doma.Vive agachado o chacala espreitar se o olhar fatalde Filippe á voz de Romalampeja no Escurial!Fiar n'elle!... O incendio lavraocculto. Na escuridãoforja de novo o grilhãoá consciencia, á palavra,a satanica legião.Em teu nome o lar deserto!...O pranto manando a flux!...Morta a esp'rança! Extincta a luz!e da cruz contra o libertomudada em punhal a cruz!—Largamente aqui respirasêcca a lingua e falto de ar,que o terno Amor, a fallar,não é como os de Tavira:—dá-lhe... dá-lhe até 'stoirar!—Mas, depois, como o Vesuvioirrompe. Ao rosto gentilassoma a raiva, e febrilbate o pé; grita;—um diluviomanda ao infame covil!Outro diluvio! incessantea subir... subir... atéque não fique nada em pé!nem possa nenhum farçantefazer arca e ser Noé!—Deus, que os seus ouvidos prestaás queixas que Amor lhe faz,sorri e diz: «Ó rapaz,umTescripto na testaporventura me verás?Eu dei-lhes a lei sublimenas alturas do Sinai.Se contra a lei, contra o pae,conspira Lysia—no crimedo crime o castigo vae.Triumpha o Milhão, e Heronão houve mais que uma só?O Creso do oiro em póa flauta fará de Nero,e da flauta um bom cipó.E se os maridos, tontinho,fugindo ás esposas vão,deixa-os lá. Por fim terão,em vez do calor do ninho,os gêlos da solidão.A vida passa ligeira;e, quando a morte vier,qual d'elles é que não querdôce oração derradeiraentre beijos de mulher?!Ai!... Acabar longe d'isto!...sem perdão!... sem paz!... e meusem ser nenhum!... Galileu,tu que fizeste?... Ó Christo,teu sangue que fructos deu?!...Fiz de ti a rósea aurorada universal redempção;inda após o teu clarãoo Deus cêpo é o Deus que adoraa proterva multidão!Pois para amar-me é precisomais que os olhos alongarpelos ceus, por terra, e mar?mais que o pallôr indecisod'uma noite de luar?!Pois n'esses milhões de mundos,que girar no espaço fiz,não falla tudo? não dizem seus canticos jucundos:—Senhor! Senhor, existis?!—Erriça o leão a coma?Nas sombras do Escurialergue a pedra sepulchralde Filippe a astuta Roma?...Erga!... e surja o rei fatal!...Antro, e fera, e vil Tiberio,tudo no pó sumirei!...que dos reis eu sou o rei,e as chaves do meu imperioa mão nenhuma entreguei!Perdes o tempo, creança!Se o perdes, meu doido Amor!Sei quanto és enganador!quanto és feroz na vingançae folgas da alheia dôr!És vendado, és cego, e ousascomo se visses fallar?!Pois has de á terra voltar.»—E o pae de todas as cousasfoi-lhe os olhos desvendar.Então o dôce fedelho,tão dôce como cajú,repara em si... vê-se nú...faz-se azul... faz-se vermelhocomo um monco de perú.Depois a fugir desatapelas ethereas regiões.Atraz d'elle as maldiçõesde quanta velha beatafoi ao ceu... por alçapões.Que o ceu que estamos mirandooccultas entradas tem,e sem fiscal! Inda bem.A não ser por contrabandojá lá não entra ninguem.Vôa... vôa... É mesmo um raiorapido o espaço a rasgar.Vôa... Á força de voarperde o alento, e n'um desmaiovem no chão co'as azas dar!N'essa noite a authoridademetteu, zelosa qual é,o menino em São José;mas ninguem crê na cidadeque a sciencia o ponha em pé.Quem tem os dias contadosmais viver não póde, não.É do amor finda a missãodês que os fundos, bem cotados,valem mais que o coração.

[1]PronuncieRamboá.

Casou segunda vez certo sujeitoque sempre á viuvez torceu a cara.Deixára-lhe uma filha o velho leito,e mimo egual o novo lhe offertára.Quando eu as conheci, uma era forte,córada, alegre, brincalhona, viva;pallida a outra, triste, pensativa,como quem traz em si a dôr e a morte.Das duas a mais nova, a que é sadía,a lapis, n'um papel, graciosos traçosd'um corpo de mulher hontem fazia.No fim as palmas bate, e, erguendo os braços,«Olha a mamã!» gritou, «De longe basta...basta vêl-a d'ahi!... Não será ella?»—Volve-lhe a outra em voz que o sangue gela:—Agora pinta lá uma madrasta!—Miserrimos poetas que nós somos!Por mais inspiração que nos abraze,por mais phantasiar tomos e tomosnão valem juntos, não, aquella phrase.

Por essa existencia fóranosso caminho é diff'rente.Eu vou por onde se chora;tu por onde canta a gente.Tu chegas; tu vens agora;tu sobes qual sobe a aurora;eu, tal qual o sol poente,desço... desço!... Vou-me embora.

Era em março, e a Folia,dando o braço ao Carnaval,entrava emDona Maria.Não sei que idea fatalme levou tambem á festa.Sei que fui. Sei que vestiadominócôr de giesta,e que a mascara, que ao rostotrago presa todo o dia,eu trocára, ébrio de gosto,por outra que não mentia.

Ia a noite em mais de meioquando os pés na sala puz.Os gritos, a dança, a luzque os novos encanta, e creioque mais os velhos seduz,tocaram-me o coraçãopor tão estranha maneira,que a não ter ali á mãoas costas d'uma cadeira,dava co'as minhas no chão.Persuadiam-me que a Sortequer que o homem seja egualsómente perante a morte,e vi eu que o Carnavaltinha o mesmo poder forte!Junto a mim o sôrSovela,disfarçado em lord inglez,trata portuo freguez,que n'outrotuse nivelacom quem as botas lhe fez.Ao longe o sujo vadioque, para impingir á genteum bilhete doPão quente,corre a Baixa e o RociodandoExcellenciasa rodo,agora vestido á turca,turcapor dentro elle todo,grunhindo sem tom nem sompaga depois da mazurkaponche ardente a quem temDom.N'aquelle canto escondidoo calvo e gordo maridoás moças falla d'amor;e como deve o traidorpela traição ser punido,n'outro canto anda a mulhera brincar co'o deus Cupido...dê o brinquedo o que dér!Cada flôr, rosa ou jasmim,com seu calix entreabertoembalsama este jardim,e ás abelhas que andam pertocomo que as oiço dizer:—Oh! Bebei dôce prazerque rendida vos offerto!—Isto é vida! Isto aqui, sim!que a humilde e santa egualdadeo mundo mergulha emfimno sol da eterna verdade!...

«Boas noites, dominó.»—Só isso me dizes?—«Só.—Pois desde já te requeiroque ámanhã fiques na cama,e manda o teu travesseirodar umas voltas por cá.Na chalaça, no epigramma,as lampas te levará.—«Quem de espirito é tão finodevêra ser mais cortez.»—Vestiu-se de peregrinoa cortezia...—«Talvezd'essa longa romariaa que foi não voltaria!»—Assim parece. Não vês?!

Quem me descobre a razãod'esta infame grosseria?...Consultando minha tia,disse-me ella:—És um ratão!Coisas tuas!...—«Coisas minhas?!Ora essa!»—De quem são?Se teu pae sem ter gallinhaste deu boa creação?!—Mais ainda me condemnaser a mulher que offendisegunda Venus de Milo!Que remorso o que eu senti,e que nó no gorgomilo,quando, absorto, o que era vi!...Que ao fallar olhei... Por Christo!juro que olhei sem ter visto.

Como usa a formosa filhada formosa Andaluzia,sob a elegante mantilhapelos hombros lhe caíade negro e farto cabelloa madeixa ondeada e crespa.Na cinturinha de vespa...Alto lá! De vespa, não;que é corriqueira a figurae tola a comparação.—A cintura... Se lhe chamosó delgada—aqui d'el-rei!porque é prosa. Ah! Já sei.Delgadinha como um ramoque sustém duas laranjas...E da voz os sons tão finoscom que os hei de comparar?Com voz d'anjos pequeninos,travêssos, loiros, meninosque andam no ceu a cantar,aos quaes não tira o chapeueste pobre filho d'Evaemquanto Deus o não levaa conhecel-os no ceu?!...Impossivel!... Pois com quê?...Deixe-se lá d'essas franjas,ruim poeta! Vocênão sabe que a naturezafaz coisas de tal bellezaque um homem, se logra vêl-as,ha de pasmado ficar,e pasmar... pasmar... pasmar;mas não tentar descrevêl-as?!

Qual a timida gazellaque no prado anda brincandoestremece e foge quandosente rumor perto d'ella,assim Dona Raphaela...Podia chamar-lhe Jónia,Mathilde, Elisa ou Antonia.Era o mesmo. Á mulher bellatodo o nome fica bem.Toma-lhe a graça, a frescura:participa da candurade su'alma... se é que a tem.Que a minha airosa andaluzacomo a gazella fugio,se o não disse a casta musaque me inspira, o leitor pio(não hacalemburgoaqui)certo de si para sia crêl-o não se recusa;mas o que o leitor ignoraé que eu proprio, eu que ind'agoralhe dissera:Vae-te embora,ao vêl-a fugir fiqueitriste, só, desamparadocomo o valido d'um reiquando cae em desagrado!...Ai! se o pensamento é váriomais varía o coração.Coração—Contradicção—affirma-me o diccionarioque dois synonymos são.

Amar depois que trinta annosnos pesam sobre o cachaço;quando os frios desenganosguias são do incerto passoque nos vae levando á campa;quando a edade a correr veme nas faces nos estampaoitenta rugas, ou cem!amar sem crenças; amarsem possuir attractivos;é padecer, é penardôres do inferno entre os vivos.Sabia-o; mas se fadadofôra eu já para essa dôr!e diz Garrett, o doutorem taes materias versado,que ninguem foge ao seu fado!Funesto foi sempre o meu!Est'alma, que Deus me deu,em quantos affectos nutreque devorou Prometheu!.

Da rósea estancia em que moracom seu limpido clarão,sorrindo, ao ceu vinha a aurorasoltar do prégo as azelhasd'onde pende a escuridãosobre chaminés e telhas.A festival harmoniapouco e pouco esmorecêra;e co'a luz do novo diad'outra oschestra a afinaçãomais altos cantos rompêra,pois que entre os rocios do orvalholevantára escopro, e malho,um hymno de gratidãoao Deus, author do trabalho.Este aranzel, espremidon'uma phrase clara e chã,quer dizer:—era manhã,e a solfa dos caldeireirosmatava o bicho do ouvidona rua Augusta aos parceiros.

Cheguei a casa. Quem amatambem dorme o seu bocado;nem ha nada como a camapara amor ser bem tratado.Vêde as ratices do mundo!Sentados no mesmo thronoamor, que é vida;—e o somno,que da morte é irmão segundo!...Em tão doloroso tranceé praxe no bom romancesurgir a pallida insomniabeliscando a cachimoniado que ás paixões não se poupa;mas eu, que sigo outra lei,fui-me enroscando na roupa,e dormi. Fiz mais: sonhei.Sonhei, sim. O que é sonhar?É fugir do captiveirod'esta bola sublunar.A noss'alma, que gemiaentre os ferros, encontrara paz, o amor, a alegria,vivo, real, verdadeiro,o mundo da phantasia.É n'um divinal momentoconquistar, possuir, havero que nunca o pensamento,por mais audaz, ousou crêrque um dia á mão nos viria.Sonhar é vêr palpitantea toda a luz da existenciao pae, os filhos, a amanteque a morte apartou de nós!Ouvir-lhes a dôce voz...interromper essa ausenciaeterna, a eterna saudadeque nos deixára o perdêl-os!Sonhar é esta piedadedo ceu pelas nossas dôres;esta mão cheia de flôresque Deus esparge nos gelos!—Tudo mais são pesadelos.Pois eu sonhei, e não digoo sonho que tive então.Não por ser segredo, não,que á terra desça commigo;mas quem tem, como eu, vergonha,mesmo ao leitor seu amigonem sempre diz o que sonha.

No outro dia ao almoço,frugal almoço invejadoao pobre e triste empregadoa quem aos mezes o Estadopermitte rilhar um osso,muitas vezes esbrugado;no outro dia a Gertrudes,velha magra, feia, teza,inda cheia, á portugueza,de calvas e de virtudes,as quentes papas de milhoveio pôr-me sobre a meza.A mim a quem nada escapalogo ali me deu no gôtoO vêl-a andar n'um sarilhoa peneirar-se, e á socapasorrindo com ar garôto.—Gertrudes, que historia é esta?—E ella a rir.—De que ri?!...—A rir-se mais.—Temos festa!Vae grande baralha aquise me não diz, como quero,porque essa bocca escancára,e se desengonça, e rebola...Ella, atalhando:«Salero!.Soy, señorito, española!»Figurem-se a minha cara!!A visão, a Raphaelacom quem ha pouco sonhára.o bello typo andaluz,a flôr de um dia... era ellasaída das mãos do Cruz![2]

A moral d'este meu contoimplica artigos de fé:1.ºQuem vê masc'ra não vê rosto.2.ºBelleza vista de diadê-se-lhe sempre o descontode trinta por cento em cré.3.ºDepois do sol se haver postoaté a Virgem Mariaprecisa ser vista ao pé.4.ºMesmo assim, inda que perto,não se diga nunca ao certoque se está longe da Sé.

[2]Guarda-roupa.

Á Exc.maSnr.ª D. A. F. Pinto

Nasci. Vivi. Foi meu cruel destinoser inutil, vulgar, emquanto moço.De dôr em dôr, cançado peregrino,chego á triste velhice sem conforto.Nunca pude saber o que era tino,como a bolsa não soube o que écaroço.Quando voltares hei de ser um morto.

Ella não tinha ainda os seus vinte annos.Eu já cincoenta, ou mais. Poucos enganospodia haver na conta. Trouxe-a ao cóllo!Não fôra um pólo em frente do outro pólo;mas, inda assim, contando-se este caso,dir-se-ia ao certo: Era uma vez o Occaso,e era uma vez a Aurora...Não sei comon'um bello dia, por ser vedado o pomo,por ser appetitoso, finalmentenão sei porquê!... por eu ser um demente...por ser ella o retrato da que é morta...fosse lá porque fosse!—Isso o que importan'um bello dia—amei-a!... Uma doençaque a gente apanha quando menos pensa.*Sorriam de piedade os meus amigostodos á uma, e os novos e os antigos.Nas salas bichanava-se em cochichos:«Ora, o ginja! aparando inda os esguichoscom que obisnagaamor! Atraz da pomba,o perfido lacrau!»Deitavam trombaos outros pretendentes. Um barulhopor nada. Então porquê?! Por um arrulho?...Um simples suspirar?... Pois que mau erabrotar-me em pleno inverno a primavera?...Durava pouco?... Tanto quanto duraem toda a terra tudo o que é ventura.Engeita-se por isso?...A minha idade?!Fui de Mathusalem socio e confrade.Adão dizia ao vêr-me:Olá, compadre!Contemporaneo eu sou do eterno Padre.Não ha mais nada acima. Querem isto?...O Padre, o velho, foi mais tarde o Christo.Ondas d'amor jorrou d'aquelle peito.Remiu. Salvou. Pôz termo ao longo pleitoentre as trevas e a luz, e, porque vinhaem nome só do amor, annos que tinhaninguem lh'o perguntou.Sinceramente:ha rugas dentro d'alma?!...*Impenitentemorrera n'esta fé; sobre o Evangelhojurára que mais ama o que é mais velho;se o ponto da questão, o delicado,outro não fôra; um velho ser amado!Aqui é que me dóe!É necessarioprimeiro formular um questionario.Menos se quer á flôr, menos se trata,por ser de argilla o vaso e não de prata?Aqui... além... embora onde estiveres...não és, ó flôr, a mesma?... e das mulheres,—não digo já de todas; mas d'algumas—igualmente oboudoirtu não perfumas?...Não busca asylo a crença, a christandadenão presta o culto seu á Divindadeno templo secular, de negro aspecto,humida arcada, abobadas por tecto,como na alegre ermida redourada,quente aos raios do sol, sempre inundadade jubilos e festa?!... Amor travêsso,só por vêr para dentro, vê do avêsso?*Não te illudas, ó louco! A Providenciadependente do amor fez a existencia.Para estimulo a amor fez a belleza,o viço, a força, quanto com certezatu já não tens. Por isso no concursoaos vagos corações a pelle do urso,a penna luzidia do bom pato,dão por si preferencia ao candidato.Esta a verdade crua. O sentimentodepois é que se faz. É-lhe fermento,é mister que primeiro insuffle a arteria,e n'ella o sangue injecte, a vil materia.A bocca, um pé, a guia d'um bigodemais que as almas em fogo sempre póde.E tu não valsas!... tu não tens boccaoargotda moda, a phrase insossa e ôca!Por maisciré, torcido, repintado,que o teu bigode vá... bigodeadoés tu que ficas, velho! a torto e a esmo!Justo e fatal!... Fatal e justo é o mesmo.No chão não rojes teus cabellos brancosn'um desespero ignobil! Para arrancos,para entrares no inferno como o Dante,a dôr da tua cólica é bastante.Outras não queiras, outras não procuresimproprias já de ti. Não; em nenhuresrejuvenesce o Fausto; e, dês que ha mundo,quem disse um velho—disse um moribundo.*Ella não tinha ainda os seus vinte annos.Por não tel-os vivia n'uns enganosque eu não devia ter nos meus cincoenta.Distraída commigo olhou attentapara um moço qualquer. Nem eu me lembrodo nome d'elle já! Era em setembro.Isso sei eu. Que noite!... Estou a vêl-a!Ultima noite azul!... Rasto d'estrella,curva de luz nos amplos ceus cadente,illuminar-nos veio de repente.Ella assustou-se, e disse:Dieu te garde!Pouco tempo depois, horas mais tarde,tal qual a estrella, em rapido trajecto,no mundo novo entrou d'um novo affecto.

que, na sua officina de sapateiro, mandára fazer para uso do author umas botas impermeaveis

Boas botas com effeito!Ha que tempos que te eu digoque, de pequeno, o teu geitoé ser sapateiro, amigo!Afóra o bico da moda,que é moda obicohoje em dia,quem da terra andasse á rodamestreassim não toparia.E lá no mar,—tens ratices!—com ellas por sobre as ondasanda a gente como Ulyssesnas aguas das Trabisondas.O povo grita: Milagre!—;teus filhos:—Estamos salvos!—;e tu com graxa e vinagrevaes enganando os papalvos.Queima a Sciencia as pestanasbuscando o que seja aquillo;e nem passadas semanasconclue que é sebo de grillo!Tu proprio chuchas no dedo,avis rara, óraiod'ave;pois ao fechar teu segredoperdeste-lhe o tino e a chave.Seja qual fôr teu systema,graxa só ou graxa e sebo,eu, indigena na gemma,applaudo o que não percebo.De tão prodigioso inventosó entendo, e não é pouco,que ou me saíste um portentoou és rematado louco!Mas que importa qual diplomaum logar nos dá na Historia?Toda a estrada leva a Roma.Por atalhos vae-se á gloria.É certo que ao fim da vidaa luz do provir é tua:luz accêsa sem torcida!...porta aberta com gazua!—Vê quanto o sec'lo é fecundo!Vê; regista em tuas notas.Em poucos annos ao mundobotou dois homens das botas!

Traducção da fabula de Lafontaine—Les Grenouilles

Viviam certas rãs n'um charco immundoem republica plena. Era um pagode!Tal qual uns democratas que ha no mundojulgando que a republica, no fundo,outra coisa não é senão a gentefazer o que bem quer e quanto póde,a rã tripudiava impunemente.Todos os dias era certo o choqueentre o batrachio forte, intransigente,e parte da nação já descontenteque a Jupiter pedia ou rei ou roque.O deus fez-lhe a vontade.Largou-lhe lá do ceu um rei pacato,de summa gravidade.Das alturas tombando, o rei na quédafez tal espalhafato,que as fêmeas em pavor, os machos fulos,aquellas saltitando, estes aos pulos,como é uso das rãs nas grandes crises,cada qual a gritar:—arreda! arreda!—entre os juncaes, no lôdo, nas raizesdos salgueiraes se enreda.*Por longo tempo em seus esconderijosdas rãs esteve homiziado o povo.Transformaram-se em medo os regosijosda antiga bacchanal. Gigante novocuidavam ser o rei que o ceu lhes déra.Não ousavam sequer saír da tóca;pois, não raro, os instinctos maus da ferapor imprudente a presa é que os provoca.Já n'essas eras muito a pêllo vinhadizer:Cautela e caldos de gallinha...O rei era um pedaço de madeira.Nem mais, nem menos.N'uma bella tardeuma das rãs, por ser menos covardeou mais bisbilhoteira,tirou-se de cuidados, manso e mansona flôr das aguas surge, e ás guinadinhascom muito tento e geitodo cêpo se aproxima.Após ella vem outra... e outra... aos centos.Vendo que o rei não sae do seu ripanso,rodeiam-no; coaxam:Salta acima!...e coaxado e feito!...O rei, temido outr'ora, ás pecuinhasd'essa chusma villã se vê sujeito.Em rapido momentosobre elle a malta audaz se encarapita,e faz do bom monarcha um bom assento.Nem chus nem bus! Calado que nem porta,qual fôra n'outros tempos!...Isto irrita.Rompem as rãs então n'uma algazarraque o pantano atordôa,os fios d'alma a quem as ouve corta.«Leva d'aqui, ó Jove, esta almanjarraque nem mexe, nem pune, nem perdôa,e mais parece uma alimaria morta,cabide d'uma c'rôa,em vez de nosso rei—nossa vergonha!»Vae Jupiter que faz? Uma cegonha,das muitas que possue, logo destaca,e manda que das rãs ponha e disponha,n'uma das mãos o queijo e n'outra a faca.Ora a cegonha, apenas em seu thronodona das rãs se vê e sem ter dono,diz comsigo:—Nasci dentro d'um folle!Quem tira agora o papo da miseriasempre sou eu!...—Passeia toda séria,perna aqui... perna além, n'um andar molle,e quanta rã apanha quanta engole.*Geral consternação o charco enluta.Renovam-se as lamurias:que o rei é doido e tem ás vezes furias;que, doido ou não, o povo trata á bruta;por fim, que faça o deus formal promessad'outro rei que as não coma tão depressa!O Jupiter tonanted'est'arte lhes responde:«Inutil prece!Dei-vos um rei tranquillo, inoffensivo,que nem sempre se tem nem se merece:um rei que era um regalo!Foi vêl-o e pôl-o pela barra fóra!Dei-vos segundo: um genio um pouco vivo...um pouco extravagante...Meninas, aguental-o!Era bom o primeiro e foi-se embora.É mau este de agora.Contentae-vos com elle, ó meus endezes,pois venha quem vier... peior mil vezes.»

É noite de São Martinho,rival do velho Noé.Cae agua em logar de vinho,e—milagre!—o meu visinhoentra em casa por seu pé!...Memorias do alegre santo,porque é que tanto duraesse eu já nem bailo nem cantodês que me deram quebrantoas peças originaes?!Até as caras meninas,socias minhas na funcção,rosas, d'antes, purpurinas,por muito favor—cravinas...d'Ambrosio cravinas são.Martinho, ao que chega a gente!Ellas feitas uns pasteisde carne velha e doente;eu comprando cada dentepor tres e quatro mil reis!Bem me toucaram taes flôres!Bem com ellas me touquei!Da cabeça agora as dôresquem m'as faz são os tenores,as portarias, e a lei!A lei!... a eterna cantiga!o eterno sarapatel!Na nossa edade, e na antiga,lá para uns certos—espiga;lá para uns outros—papel.Só uma córta direito:só a lei da morte é egual.Para calcular-lhe o effeitovou, deitado no meu leito,dormir um somno real.

Eu nunca fui poeta. Era loucuramostrar depois de velho pretensõesquando as não tive em horas de ventura,de tão dôces, mas breves, illusões.Então era a minh'alma que gemiano vago anceio d'onde nasce o amor;mas hoje sei que amor no mesmo dianasce, esmorece, e morre como a flôr.Da meiga briza o tépido bafejo,a rosa perfumada, o pôr do sol,as nuvens d'oiro,—esplendido cortejodo astro-rei, a voz do rouxinol;Esse hymno immenso com que a terra exprimeviva saudade pela extincta luz,se para mim então era sublime,ai! que já por meu mal me não seduz!Quando contemplo agora o fim da tarde,quando ao sumir-se no crystallino maro facho accêso sobre as ondas ardee vae depois nas ondas mergulhar;Sabeis vós o que penso em tal instante?—Vêde a que prosa vil isto chegou!—Sabeis vós o que penso?'... o que lamento?...O dia mais de vida que passou.De vida, sim, meus senhores,que não ha pechincha egual!Só algum sarrafaçalem horas de maus humoresgrunhirá sombrio e roucoque pelo seu fim anhela!Eu cá por mim acho poucoe morro d'amores por ella!A vida saboreadade um certo modo que eu sei.Nem limpa-botas nem rei;trazer camisa lavada;bem lavada a consciencia;libras velhas na algibeira;ter um trem e por decenciaum garoto na trazeira.Cadeiras... todas de braços,fôfas como pão de ló.Nunca dar ponto sem nónem pôr ponto em dar abraços.Caçadas... feitas no prato,e sobre a caça café.Charutos... dos de contractoLib'ra nos!antes galé.Vejam se eu dava o cavacoou se quebrava o toutiçopor ser tudo quebradiçon'este mundo como um caco!Em se quebrando... acabou-se.Ora, adeus! Fortes lamechas!Era bonito se fosseficando tudo p'ra mechas!Amor de marrafa brancacomo o cão e a cadellinhasempre fiel! Que gracinha!...Ao chá por baixo da bancadando ternas pizadellasque as meias deixam de luto,que fazem vêr as estrellas,e provam que o par é bruto.Ter sempre o mesmo barbeiroe sempre o mesmo topete!...Á mesa do voltaretedefronte o mesmo parceiro!...O molle ser sempre o molle!...sempre esperto o serigaita!...Na mesma gaita de follesoprar quem sopra tal gaita!...Quem pensa assim... ai! coitado!ou perdeu todo o juizo,ou se tem dente do sizopelo alveitar foi achado.Para mim que sou amantedo que muda e do que mexe,como havia ser seccanteo tal mundo de escabeche!Beijar nos pulsos a algemacom que Amor nos manietava;amanhã mandal-a á fava;a belleza eis do systema.Ser hoje amigo do Brito,amanhã sêl-o dos Soisas!...Viajar hoje no Egypto;vêr ámanhã novas coisas!Isto, sim, que é prazer certo!Quem julgar que assim não prestadiga adeus a esta festaque o cemiterio está perto!Pois póde haver toleranciana China, aqui, ou em Gôacom quem defende a constanciaque é a maçada em pessoa?!Aqui d'el-rei porque mentetoda a humana geração!...Grande pena!... pois então,se mente, mente-lhe a gente.Por mentira, mentirola.Por esparrella, esparrella.Assim vae esta charola:assim é que eu gosto d'ella!Dizem que a vida os assustaporque em tudo encontram móca;que o bem a todos não toca,que a Justiça não é justa.Eu, por mim, quero-a mais larga,que, se acaso um dia fôrparar-lhe ás mãos, menos cargasobre os hombros me ha de pôr.E se o bem me não tocartambem uma vez sómente,ferro commigo no quentee, lá, desato a chorar.Não é mau. Dou de conselhoa quem quizer divertir-seque chore em frente do espelhoe por força acaba a rir-se.Chorar é bom! Quem me deranos tempos que já lá vãoquando, moço, o coração,ao romper a primaverasobresaltado tremia,e da terra toda em flôrjuntava á meiga harmoniadoces lagrimas d'amor!Se á vida não acham geitoporque todos têm chorado,cá para mim vem barradoquem lhe põe este defeito.Elles que foram pequenose contra as lagrimas chiam,delacrima christiao menosum copo não beberiam?Tal resmuneia e se queixaque as filhas não fecha a mãe;que a mãe namora tambem,e mais que torna e que deixa!Ih! Jesus!... Que gritaria!Se a mãe as filhas fechasse,nenhuma as portas abria.Ai de quem as arrombasse!Caturras! Se ha quem supponhanas politicas regiõesque inda póde haver Catõessendo tão rara a vergonha!...O galante é que no jogocada qual puxa o seu trunfoquando sem armas nem fogoalcançar póde o triumpho!Deploram republicanosque lhes tosquiam as azas?Pois vão lá p'ra suas casasfazer dos creados—manos.Os outros temem que os thronosse despedacem? Demonio!Não lhes resta ainda, monos,os thronos de Santo Antonio?—Tudo aqui se remedeia;tudo tem facil saídase as honras dermos á vidad'um jantar ou d'uma ceia.Quem tentar pôl-a a direitoperde o tempo e a razãoporque luta peito a peitocom phantastica visão.Eu nunca fui poeta. Agora vêdesque menos do que nunca aspiro a sêl-o.Se espalmar-me tentei pelas paredesdo teu Parnaso, Apollo, vae-me ao pêllo!Põe-me nú se conservo n'este fatoalgum resto de parvoas pretensões,já que o mundo como é, o mundo ingrato,despir-me soube as dôces illusões.Dormi. Sonhei. Do sonho hoje acordadona prosa da verdade emfim caí;mas como tudo tem sempre um bom ladoganhei gordura se illusões perdi.


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