Dentro da noite

Dentro da noiteMaria abriu os olhos quando as estrellas nasciam.O cégo já havia partido levado pelo menino. As cigarras cantavam vesperas.José empunhou o cajado: Maria deixou o leito agreste, e seguiram.As ultimas chammas do sol apagavam-se no occaso e a nevoa polvilhava os ares como uma cinza.Monstruosos penhascos, talhados a pique á beira de precipicios, avultavam temerosamente na sombra.{78}Palmeiras debruçavam-se sobre as rampas. Toda a vegetação contorcida, com as raizes á flor da terra, agarrando-se nervosamente ás arestas dos penhascos, parecia receiar aquelles despenhadeiros de onde subia atroadoramente um escachôo soturno d'aguas constrangidas.Escurecia. Os montes áridos da Judéa apresentavam-se hostis aos peregrinos.Os caminhos, aos torcicollos, confundiam-se augustos, escavados em brocas, eriçados d'aspas calcareas, orlados de intonsos espinheiros que, ás vezes, como garras, detinham os viajantes pelas tunicas.Estryges voavam, pousavam nos ramos, nos penedos com gritos lugubres.José caminhava a passo cauteloso, sondando o piso com o cajado, detendo{79}Maria, buscando tranquillisal-a com palavras carinhosas.Mas a treva adensava-se a mais e mais, os roçados confundiam-se com a sombra. Julgando seguir a trilha direita, o patriarcha estendia a mão e sentia a aspereza das penhas.—É imprudencia insistirmos em proseguir em tal escuridão, disse Maria com medo. É Deus que nos retém.José deteve-se. Parecera-lhe ter ouvido vozes, rumor de passos, estalos de ramos seccos, como se viessem outros caminheiros. Escutou attentamente.Era o vento que agitava o folhedo e eram as aguas profundas que referviam nos algares.Mas um clarão suave accendeu-se no fundo espesso do arvoredo. Quem seria? Encolheram-se os dois, olhos fitos na claridade, que se adiantava como a luz de um facho.{80}{81}Uma centelha passou na escuridão, outra gyrou nos ares, as folhas, os ramos das arvores ficaram incrustados de brazas.Surgiram da terra, saltaram das rochas, subiram dos desfiladeiros, a espessidão estrellou-se e todas as fagulhas, unindo-se, formaram uma rutila umbella pairando sobre Maria e José como a nuvem seguiu Israel guiando-o luminosamente pelo negror das noites no deserto.Eram pyrilampos que voavam em ordenada phalange alumiando os caminhos obscuros.E os dois, sob o relume dos insectos, continuaram a viagem dentro dum reverbero que só ao clarear d'alva desappareceu nos ares.{82}{83}PresagioO ceu, d'um azul transparente, ia-se, aos poucos, illuminando.Os montes, em recortes rigidos, calvos, com a pedra exposta, a reluzir de humidade, ou eriçados de hispidos mattos, resaltavam em aspero, mordente relevo, com os cimos resplandecendo sob uma nevoa de ouro.Docemente baliam placidos rebanhos.As casas abriam-se; homens, ainda estremunhados, vinham ás portas, bocejavam{84}lançando por entre as barbas um halito brumoso.Sentia-se a visinhança de Jerusalem pelo maior numero de casas, pela abundancia de gado nos valles verdes, recortados de veios d'aguas. Burricos trotavam com alcofas e ceirões de frutas.Risos crystallinos annunciavam crianças; ouvia-se um estrepitante chapinhar e, á volta de um caminho, no claro remanso de uma ribeira, sob a acenosa ramagem do salgueiral, meninos nús saltavam, atiravam-se de mergulho, aos gritos alegres, flagellando a agua com ramos ou pendurando-se, a rir, dos galhos inclinados.Nos campos, a espaços, alvejavam sepulchros; ovelhas pastavam em torno, pombos cercavam-nos em revoada arrulhante.Por entre a palha das choças esfiava-se o fumo azul.{85}Já os moinhos trabalhavam e junto aos immensos lagares, onde se pisava a azeitona, reluziam, em fumeiro, montes de bagaço oleoso.Maria, que caminhara contente até aquellas paragens, á medida que avançava, sentia apertar-se-lhe o coração em presagio funesto.Olhava anciosa os longes dos horizontes.Tudo era calmo. A paizagem estendia-se acceitosa, cortada de muros de hortos, toda verde, bem differente dos desolados ermos que ella deixára.Todavia a tristeza empannava-lhe os olhos, enchia-lhe o coração e já transbordava em lagrimas.Vendo-a chorar, José perguntou com meiguice:—Sentes-te fatigada?—Não, meu senhor: voltaria a Nazareth sem parar, se pudesse.{86}—E porque choras?—Não sei. O coração aperta-se-me, um grande medo invade-me, constrange-me. Tremo e sinto-me gelar. As proprias flores causam-me horror. As anemonas parecem-me chagas que sangram. Tenho medo, um grande medo, como se fosse caminhando para a morte. Que tumulo é aquelle que apparece além, tão alto, tão negro, sob o vôo dos corvos?José seguiu com o olhar a direcção do gesto de Maria.—O que vês são as muralhas de Jerusalem, onde chegaremos antes do pôr do sol.—Além das muralhas, aquelle tumulo negro, tão triste, onde agora o sol brilha.Uma velha, trazendo um jumento pela arreata, sahiu ao caminho vagarosa.{87}{88}José saudou-a, a velha sorriu á Maria abençoando-a e a Virgem, escondendo a tristeza num sorriso, perguntou-lhe:—Que tumulo é aquelle, além! tão alto, dentro dos muros da cidade? Os corvos rondam-no, deve haver mortos ali.—É um monte, disse a mulher.—Um monte! repetiu Maria surprehendida.—O Golgotha. O outro é o Goreb.—O Golgotha! suspirou a Virgem e, depois de um silencio dolorido, deixando-se cahir sobre as hervas, desatou a chorar convulsamente. A velha animou-a, teve palavras inuteis de consolo e alento. José assentou-se-lhe ao lado e, tomando-lhe as mãos frias, alisando-lhe os cabellos humidos de orvalho, perguntou-lhe:—Que tens? Ella não poude responder.{89}Levantou-se e, resignadamente, de olhos baixos, contendo os soluços, poz-se, de novo, a caminho, em direcção á cidade branca e atorreada, ao sol.{90}{91}PiedadeCom um rebanho que recolhia levado por um pastor coberto de pelles, as pernas enroladas até os joelhos em vello sórdido, entraram em Jerusalem pela porta do mercado, á hora em que as buzinas romanas troavam nas torres.José procurava distrahir Maria mostrando-lhe as grandes bellezas, a magnificencia da cidade; nomeava os edificios, alguns longinquos, esfumados nas primeiras sombras da noite.A Virgem, porém, seguia calada, sem{92}animo de levantar os olhos, o coração cerrado em tristeza invencivel.Gentes diversas cruzavam-se nas ruas: homens abaçanados do deserto, com o albornoz ao vento, o punho esmaltado das adagas reluzindo á cinta; phenicios cobertos de jóias, com enormes collares de contas de ouro e braceletes de marfim; gregos ágeis passando ligeiros entre a multidão, com a tunica colhida ao braço, as pernas enlaçadas em tiras de couro.Mulheres mostravam-se ás portas das casas, encostadas languidamente aos umbraes, olhando em extase, com um sorriso nos labios côr de purpura.A algumas viam-se-lhes os peitos pela abertura das tunicas; outras, reclinadas em leitos marchetados, cerravam mollemente as palpebras gosando o frescor dos flabellos que escravas agitavam.{93}Errava no ar denso um cheiro forte de aromatas.Estranhas musicas soavam e, como os albergues estavam cheios, era um babariso alegre sob as frescas latadas, por entre as quaes, em corridinha airosa, moças iam e vinham com amphoras e crateres.O pastor falara-lhes em uma modesta estalagem em Bezetha, para o lado do forte, onde podiam encontrar agasalho seguro.A casa era dirigida por um velho de Siloeh e tinha, fama pelo seu anho tenro e pelo seu vinho puro. Lá achariam pousada e, como ficava longe e não recebia mulheres, não seriam incommodados pelos legionarios que, á menor agitação, invadiam as casas brutalmente levando tudo a conto de lança.Era um rancho pauperrimo, entre sebes de espinhos, onde aboletavam-se{94}mesteiraes e homens dos montes que traziam ao mercado favos de mel, resinas, balsamos e raizes.O velho acolheu-os de boa sombra, serviu-lhes a refeição na sala lobrega que uma candeia alumiava.Rusticos bebiam, jogavam e fóra, junto a um monte de pedras, um velho resmungava raspando, com voracidade, o fundo de uma escudella.Era um leproso nojentamente abostellado de ulceras.Ás chufas dos homens, que lhe atiravam cascas, bagaços de frutas, respondia aos regougos, bramindo maldições e, como prorompesse aos berros, apanhando pedras para defender-se, os homens revoltaram-se.O hospede tranquillisou-os e, sahindo ao terreiro, poz-se a assobiar.Enorme cão saltou da sombra rosnando, o taverneiro açulou-o contra{95}o leproso que se encolhera estarrecido.{96}Vendo o cão investir, Maria cahiu de joelhos, juntou as mãos frias e, tremula, d'olhos no ceu, implorou pelo infeliz.O animal raivava, aos saltos; os homens vociferavam incitando-o. Alguns riam no ante-gosto da scena cruel, mas como o leproso, tentando correr, tropeçasse rolando na terra e ferindo o rosto no pedregulho, o cão, que o alcançara, poz-se a ganir e, sacudindo a cauda, ficou de rastos, lambendo mansamente o sangue que escorria da cicatriz do mendigo.E Maria, extactica, não via a doce misericordia que immobilisara em espanto os hospedes do albergue.{97}Cantico messianicoAo romper d'alva quando, do lado do templo, as cegonhas partiam em direcção ao deserto e as pombas baixavam em nuvens sobre o mercado catando o grão que transbordava das ceiras, o patriarcha despertou Maria e, ligeiros como foragidos, deixaram a estalagem com os votos de boa jornada do hospedeiro. As buzinas romanas resoavam na serenidade.Legionarios recolhiam cançadamente a Makéros.{98}Pobres, que haviam pernoitado ao relento, estremunhavam sobre farrapos.{99}Num pateo, entre muros de maceria, espontado de hervas sylvestres, mugiam bois e homens bradavam.Corvos rondavam os ares attrahidos pelo cheiro do sangue.Quando passaram as muralhas, sahindo no campo do oleiro, o sol brilhava nas pastagens humidas e passarinhos cruzavam o vôo cantando na alegria do sol.Maria caminhava d'olhos altos, como enlevada. Ineffavel sorriso illuminava-lhe o rosto lindo, arrepios nervosos sacudiam-na de instante a instante.—Lá está Bethleem! disse José estendendo o cajado na direcção dos montes ainda enfaixados em nevoa.Maria empallideceu e, d'olhos fitos nos outeiros graciosos da terra de David, rompeu, de repente, a cantar, sobre uma antiga melodia hebraica, repetindo{100}inspiradamente as palavras que lhe sahiam d'alma:«Espirito Perfeito, ancia das almas miseras, se és Tu que em mim assistes, bemdita seja a carne fragil em que te encerraste e de onde deves romper, germen da Redempção, em Flor de Misericordia.Espirito Perfeito, lume que de mim fizeste a Tua lampada, que o Teu clarão espalhe-se pela terra fazendo brotar a sementeira nos campos e o Amor no coração dos homens.Espirito Perfeito, fonte de copiosas aguas bemfazejas, se é do meu seio que vais jorrar, bemdita seja a Dôr que me lançou na vida, bemditas sejam as lagrimas que já por Ti hei vertido.{101}Espirito Perfeito, esperança dos desanimados, se eu sou o ramo verde que Te hei de dar, bemdita seja a afflicção de minh'alma na hora atormentada em que, innocente, me julguei culpada e, pura, vi a suspeita manchar a minha virgindade.Espirito Perfeito, se És a Redempção annunciada, bemdigo a Tua vinda, sem orgulho, por me haveres tomado por Teu trámite e prostro-me ante a Tua Graça e exalto a Tua Beneficencia.Espirito Perfeito, Sêr dos sêres, não nado ainda, gloria a Ti e á Tua origem celestial. Virgem, dar-te-ei ao mundo. Eu sou como o olhar que se não macula por transmittir ao corpo a visão.Por mim entras no mundo como o sol, e tudo que elle alumia, entra, pelo olhar, no cerebro.{102}Eu sou a pupilla que communica ao Universo a Claridade Magnifica.Espirito Perfeito, louvado sejas sempre pela Tua Virtude e pela Tua Excellencia. Sahes da carne mortal sem trazeres peccados: passas por ella como uma imagem que se reflecte nagua.Espirito Perfeito, Graça de Israel, Esperança das Gentes, Messias... Meu coração alegra-se sentindo-Te e o meu coração é o captivo que almeja a liberdade.Eu sou a Fraqueza humilde chamada Mulher. Sou a escrava que gera o seu Libertador, a Sombra de onde sahe a Luz, o Peccado que floresce em Perdão...»José ouvia-a com os olhos rasos d'agua.{103}As cotovias cantavam na altura luminosa.Longe, sob a fulguração do sol, resplandeciam os muros de Bethleem, entre outeiros.{104}{105}O campo de BoozÁ hora cálida, abafada em que as folhas dormem e as ribeiras murmuram de leve, vagarosas, remansando-se sob as quietas sombras, e toda aza encolhe-se entre os ramos mais densos, e todo reptil encova-se na terra mais humida, deram os dois num campo de farta seara onde alumiavam foices e moças juntavam gavellas, cantando, emquanto os homens ceifavam assustando as cotovias que tinham os seus ninhos rentes do chão, na raiz do trigal.{106}Maria, com o manto sobre a cabeça, enlevada naquella messe de ouro e na alegria ruidosa do trabalho, ouvia as vozes que se cruzavam subindo dos trigos altos, onde os seareiros desappareciam, como se fôsse o proprio campo que cantasse o louvor do sol.Ia tão entretida que não viu José adiantar-se, direito a uma palhoça onde um velho jazia, sentado ante um monte de vergas, tecendo um alcofe e cantando.Aligeirou os passos e alcançou o esposo justamente quando elle saudava o ancião.—Dizei-me a quem pertence este campo tão rico e cheio de tanta alegria?—A Obed, segundo deste nome, descendente de Booz, o semeador.—Foi, então, nesta terra que a moabita achou agasalho junto do homem bom, que a amou?—Sim, foi aqui. Esta é a leira de{107}Ephracta, a mais fertil entre as mais abundantes e generosas. Este campo foi o leito nupcial onde se gerou a raça robusta dos reis de Israel.Aqui nasceu David, tronco forte, estirpe augusta de que ha de sahir a Immarcessivel Flor annunciada, cujo perfume encherá as almas de ineffavel ventura. Este é o celleiro de Iaveh. E vós, vindes de longe?—De Nazareth, na Galiléa.—E ides?—A Bethleem. Urge que lá cheguemos antes do pôr do sol.—Tendes tempo. Sentai-vos um momento, é a hora da refeição. O que tenho dá para repartir comvosco. A vossa companheira, esposa ou filha, vem fatigada; que descance um instante á sombra, gosando a sesta. Entrareis na cidade com a fresca da tarde.Aceitaram os peregrinos o convite{108}hospitaleiro: sentaram-se e comeram do pão molhado em mel e beberam pelo mesmo tarro o leite cheiroso.Ficaram os dois velhos conversando e Maria, encostando-se aos feixes de trigo, cobriu o rosto com o manto e adormeceu.As moças cantavam na eira levantando medas de ouro e, sob o sol escaldante, no alto ceu azul, as cotovias voavam e os seus gritos abrandavam-se na distancia, esmoreciam perdidamente.{109}Na estrada de BethleemFrio e pallido, esfumado em brumas, o crepusculo baixava na tristeza da tarde silenciosa.No remonte dos cerros pedregosos, hirtas palmeiras immoveis pareciam gravadas, em negro, no fundo dourado do occaso. Aves esvoaçavam caladas.Docemente, com um tremulo murmurio, fluiam pelos canaes de rega as aguas levadias, e as vozes soturnas dos bois soltos, errando, de vagar, no campo restolhado, soavam como gemidos.{110}Os peregrinos seguiam uma vereda suave, entre debruns de anemonas.Maria parava de instante a instante, arfando.Amollecida, alquebrada, olhava com desanimo os outeiros ainda longinquos e suspirava, sem atrever-se a dizer ao esposo o seu cançaço.José, porém, notou-lhe a lentidão dos passos e, amparando-a, animou-a carinhoso:—Estamos a chegar. Lá apparecem as casas de Bethleem; as luzes brilham por entre as arvores. Mais um momento e teremos repouso em alguma estalagem.Ella parou, ficou a olhar o ceu nublado como a implorar alento para chegar ao termo da viagem.—É um peso que me curva, murmurou em voz sumida. Sinto-me tão fraca que não sei se poderei acompanhar-vos até as collinas de além. Toda{111}eu esmoreço. O meu desejo é deixar-me ficar no caminho, deitada nas hervas, e dormir um somno grande.Nunca me pesou tanto o corpo, o proprio espirito pesa-me, tão carregado está de medo e de cuidados sombrios.Que será de mim e d'Elle ao nascer em tão desabrigados lugares, longe de tudo, á friagem da noite, com este vento que retalha as carnes como um ferro mortal?O chiar de um carro levou-lhes a attenção para o caminho deserto. Uma voz cantava na tristeza da tarde moribunda:Hervas do campo florido,Que aroma! Que trescalar!Bem se vê que o seu vestidoAndou por vós a roçar.Outeiro em flor, o teu vello,Verde e fino, ao meu ciumeConfessa que o seu cabelloDeixou nelle o seu perfume.{112}O carro appareceu acogulado de trigo, rinchando, ao passo moroso dos bois que traziam os cornos floridos de acacias.José dirigiu-se ao carreiro, robusto moço, e pediu-lhe passagem para Maria, mostrando-a, prostrada e languida, entre o rosmaninho cheiroso.O moço accedeu e os dois ajudaram a Virgem a subir, fizeram-lhe lugar macio sobre as paveias louras e os bois arrancaram.E caminhando, José ia enlevado na esposa e o carreiro, d'aguilhada ao hombro, olhos fitos no ceu, insistia na egloga:Hervas do campo florido,Que aroma! Que trescalarBem se vê que o seu vestidoAndou por vós a roçar.{113}Na cavernaDiante de uma trilha que se perdia no arvoredo deteve-se o carreiro e disse:—Aqui me despeço, este é o meu rumo. A estrada em que estais, direita e facil, guia-vos a Bethleem. Seja o Senhor comvosco.Sem esforço José tomou a Virgem nos braços, pousou-a na terra, agradecendo ao moço a gentileza de a haver recebido no seu carro. E elle, galantemente, respondeu:—Trouxe a flor viva no trigal ceifado,{114}e, com tão geitosa resposta, despediu-se e foi-se, aguilhada ao hombro, de vagar, á frente dos bois, cantando, em voz apaixonada, os louvores do seu amor mimoso.Os dois caminharam alguns passos, Maria amparada ao esposo, lenta, tolhida de soffrimento; mas não poude ir além da caverna e deteve-se.O aspero interior do antro tingia-se de laivos rubros, ao tremulo flammejar d'uma fogueira junto á qual um velho pastor, as mãos estendidas ao lume, cantarolava baixinho.Ovelhas ondulavam na sombra.Logo á entrada, na anfractuosidade da rocha, havia uma mangedoura. Um jumento dormitava e, junto delle, ruminando, jazia deitada uma vacca com o seu novilho.Disse José a Maria:{115}{116}—Firma-te a mim e vamos devagarinho. Havemos de achar aposento em alguma estalagem. Ella sorriu docemente, resignada, mas os seus olhos meigos foram para a caverna.O patriarcha, apiedado, adiantou-se e falou ao pastor.—Seja o Senhor comvosco!—Seja bemvindo quem chega e assim annuncia-se ao humilde.—Hospede na terra venho de longe e commigo, em estado que não consente esforço, trago a minha esposa, que aqui vedes. Se permittirdes que ella fique um momento comvosco emquanto procuro hospedagem, sempre o meu coração vos ha de louvar.O velho pastor, idoso, de fartas barbas amarellecidas, longos cabellos espalhados pelos hombros, que um melóte cobria, soergueu-se e falou:—A caverna não tem porta, ainda é mais franca que os templos. Entrai e{117}abeirai-vos do lume, que a noite começa a esfriar.—Ella fica, eu sigo pela pousada. Maria, timida, entrou. Logo o pastor acamou as palhas, alargando um leito fofo e, vendo-a recostar-se, voltou ao seu lume e ao canto com que se entretinha.E o patriarcha partiu.Ainda que não conhecesse a cidade, tanta era a gente que se movia nas ruas, que não lhe foi difficil, perguntando, encaminhar-se a uma estalagem.Logo á entrada, sob o vasto alpendre, viu altas pilhas de fardos e, em torno, estendidos em pelles, mercadores e recoveiros.O hospede, mostrando-lhe o transbordo da casa, disse:—São homens que se aboletam ao relento, por falta de commodos. Difficilmente encontrareis quem vos receba, porque as festas attrahiram grande mó{118}de estrangeiros e as feiras trazem das cercanias todos os lavradores. Guie-vos o Senhor. E José proseguiu.Nas viellas e alfurjas havia turbas cantando e bailando em volta de fogueiras.Debalde o ancião entrava nas estalagens; as proprias choupanas recebiam hospedes e, pelas collinas, entre fogos, clareavam tendas. Errou até tarde sem exito.Já o silencio annunciava hora alta quando, quebrado de fadiga, retrocedeu pelas betesgas desertas, ao latido dos cães errantes, em rumo á caverna.Avistou-a de longe, alumiada por um clarão de luar, e, como levantasse os olhos demandando o astro, deu com um anjo deslumbrante que, abrindo azas largas, diaphanas, feitas como de nevoa e luz, ia e vinha no espaço, rondando a noite.{119}Entrou. O velho pastor velava diante das brazas vividas e, entre ovelhas, sobre a palha loura, a Virgem dormia serena.{120}{121}NatalO esplendor é mais impenetravel que a treva e foi uma muralha fulgurante que encobriu Maria quando se realisou a prophecia do Bem.Na hora em que os gallos cantaram a primeira vez subito clarão resplandeceu no fundo da caverna. A luz foi tanta, tão intensa que atravessou o somno em que jaziam o patriarcha e o pastor.José soergueu-se d'impeto, firmando-se nas mãos, offuscado pela claridade vivida que irradiava em stalactites de{122}um brilho augusto, mudando em rutilos diamantes todas as pedras brutas e fazendo do aspero sólo, eriçado em pedrouços, uma área esplendida como se fosse embutida de gemmas lapidadas.O pastor, attonito, deslumbrado, arrastava-se tacteando e a caverna, a mais e mais aclarada, parecia toda uma chamma alva como se um luar maravilhoso a enchesse magnificamente.Os dois homens, atordoados, não falavam—estendiam as mãos e os seus dedos chammejavam como raios d'astros e da luminosidade desprendia-se um perfume, novo na terra, aroma celestial que enlevava como um encantamento.Além da caverna a noite negrejava calada e erma de estrellas. Poude o pastor arrastar-se até o limiar e o seu corpo, esgueirando-se, refulgia como o de uma salamandra.{123}Tremulo, chegou á entrada, respirando, a largos sorvos, o ar frio que vinha dos outeiros. Levantou o olhar e recuou espavorido.Escada altissima, de scintillantes degraus, ligava o cimo do outeiro ao ceu aberto em radiante pórtico e anjos desciam, tantos que pareciam uma catadupa que se despenhava espumejando iriada de sol, com scintillações de pedrarias.Não poude olhar e, rojando-se, com a face na terra, ouvia o murmurio das azas.Não disse palavra, immovel, tolhido de assombro, sentindo a transfiguração da noite.José conseguiu levantar-se e caminhou lentamente atravez do esplendor.Maria appareceu-lhe entre as mansas ovelhas que, reunidas, bafejavam as palhas onde um pequenino infante, as mãosinhas na boca, os olhos{124}candidos abertos, parecia contemplar a Virgem que sobre Elle inclinava-se.{125}Olhou-a, fitou no tenro corpo os olhos e viu que o cercavam tres figuras de incomparavel belleza.Uma, as mãos diaphanas cruzadas sobre o peito, os olhos baixos, concentrada, rezava. Outra, d'olhos enlevados, com uma palma verde na mão debil, sorria. A terceira, de joelhos, aquecia com o halito, envolvendo-o nos seus longos cabellos louros, o corpo recem-nado.Por onde teriam entrado os tres seres? Que anjos seriam? Não os poude reconhecer o patriarcha, mas chegando-se á Virgem tomou-lhe a mão e beijou-a.Ella mostrou-lhe o Filho com uma ternura tão meiga que o sorriso não poude por si só exprimil-a e lagrimas correram.Assim deram os olhos, d'uma só vez, todos os seus thesouros: o brilho do olhar e os diamantes da meiguice, essa humildade do amor.{126}Pouco a pouco foi-se a luz extinguindo, a sombra retomou a caverna.As Virgens desappareceram e Maria, acolhendo o pequenino nos braços, chegou-o ao collo, aqueceu-o, afagou-o.Foi mãi antes de ser serva. Só depois de o beijar estremecidamente ouviu as vozes que atroavam a noite:«Gloria a Deus nas Alturas, Paz aos homens na terra de bôa vontade.»Occorreram-lhe as palavras do anjo. Lembrou-se, então, que o Sêr nascido do seu seio era o Deus da Promessa.Deitou-o delicadamente nas palhas e ajoelhou-se adorando-o.José, afastado do grupo, prestava culto á Virgem e ao Infante e o ceu, pela voz dos Espiritos eleitos, saudava o Natal messianico, apregoando a vinda do Filho do Homem, portador da Piedade.Ergueu-se o pastor, olhou o ceu e,{127}ouvindo os anjos, sahiu a correr bradando inspiradamente a Bôa Nova.E os gallos puzeram-se a cantar annunciando a maior e a mais bella madrugada do mundo.{128}{129}As tres virgensQuando o Menino adormeceu José, aproximando-se de Maria, perguntou-lhe baixinho: «Se vira as tres virgens que cercavam o Infante ungindo-o de luz?» A Immaculada respondeu no mesmo tom discreto:—Logo que sahiu do somno, ainda antes de vêr meu filho, dei com ellas, immoveis, aclarando toda a caverna, de joelhos em torno do Recem-nascido.Não falavam. Não sei quem são.{130}Desappareceram de repente como as estrellas desapparecem.—Seriam anjos? Uma serena voz, sahindo das pedras, falou no silencio:—A primeira é toda a Crença do Homem: é a Virtude que leva a Alma á presença do Altissimo.Antes da vinda do Messias era a nevoa indecisa que resplandecia e obumbrava-se; agora é a Luz pura e perenne, a luz viva que guia ao Paraiso atravez de todos os abrolhos, por meio dos mais árduos soffrimentos, vencendo as mais perversas tentações, sempre direita, inflexivel e segura. É a Fé.O seu olhar não se desvia, a sua linguagem é a prece, a sua confiança é Deus. É a mais forte das tres. A segunda é uma consoladora. Parece um reflexo da primeira: É a Esperança.Veste-se de illusões, recama-se de sonhos para distrahir a Alma, livrando-a{131}do desespero. É como o ramo verde que se inclina á borda dos abysmos. É a divina miragem que, atravez das agruras da vida, reanima o coração combalido, creando perspectivas venturosas.Só, é uma encantadora que vive a inventar maravilhas, ligada á Fé é a precursora que desbrava o caminho para a travessia da alma.Sem ella a miseria seria um flagello, a dôr seria intoleravel. É uma força feita de sonho. Isolada é a fantasia.A terceira é o Amor, é a lagrima que se converte em misericordia, é a bondade omnipotente, a meiguice que salva, a resignação que remitte, a paciencia que conforta, a lan que agasalha, o linho que estanca o sangue, o lume que aquece.É o conjuncto amoroso de todas as beneficencias—a Caridade.São as tres irmans que acompanham o Messias.{132}Elle tomou-as ao paganismo e converteu-as transmittindo-lhes a sua essencia.Eram as Karites, são as Virtudes. Fôram as Graças, são as beneficiadoras.Com ellas Jesus fará a redempção do Homem.Para combater o mal, podendo trazer as legiões adamantinas, trouxe as humildades.Calou-se a voz e os dois olharam-se maravilhados.—Não ouviste falar?—Sim, meu senhor, falaram. As ovelhas estavam de pé e olhavam, como se tambem procurassem o mysterioso, interlocutor.Mas o Menino agitou-se no leito palhiço, estendeu os bracinhos e chorou.Presto, Maria tomou-o ao collo, aconchegou-o cobrindo-o com o manto.{133}—Deve ser frio, disse José.—Fome, talvez, disse Maria, anciosa por dar o peito farto ao pequenino Filho.{134}{135}O primeiro leiteÁ primeira sucção da boca da criança Maria estremeceu, sentindo uma dôr aguda, como se um punhal lhe houvesse atravessado o seio. Longe, porém, de fugir com o peito dolorido, inclinou o busto, dando-se toda ao sublime martyrio, com a alma a brilhar nos olhos que a dôr orvalhara de lagrimas.Ávido, o infante sugava, cavando as bochechas e o leite, afluindo, rasgava passagens como a torrente que se despenha{136}da altura vincando a terra e arrastando o que se lhe antolha á levada.O Divino alimentava-se do soffrimento humano e naquellas opalinas gottas de leite—sangue e agua fundidos{137}em candura—o ceu commungava na terra.A Carne mortal nutria o Espirito Perenne, o ephemero transfundia-se no Eterno: as duas collinas alvas tocavam o Infinito, que era a boca de Jesus, de onde deviam jorrar, em caudaes, as leis santas, os sabios julgamentos, a benção e o perdão.A Virgem sorria e o seu collo turgido ondulava de ventura, em quanto o patriarcha, ajoelhado, contemplava o grupo, aureolado pelo clarão da fogueira, cuja chamma resurgira ao sopro da brisa nocturna.Fóra resoavam canticos; vozes, sons de harpas enchiam o espaço.Por vezes um clarão relampejava diante da gruta á esplendida passagem rapida de um anjo.Maria, inclinada sobre o Filho, só a elle sentia, ouvindo apenas o lento gorgulhar{138}do leite que elle sugava soffrego.Todo o mundo ali estava nos seus braços: a terra com os seus vergeis floridos, o ceu com as suas estrellas fulgidas.Que lhe importava a aurora se na pennugem loura que seus dedos afagavam na cabecinha do filho, ella via o esplendor maior que podem contemplar olhos de mãi!Que lhe importavam os anjos se, no fundo luminoso das pupillas da criança, via dois pequeninos seraphins alegres?Que lhe importava a immensa alegria universal, se o seu coração transbordava de felicidade com aquelle amor!Levantou-se um alarido fóra, na estrada obscura. José sahiu ao limiar.Um bando de homens corria em tropel em direcção ao abrigo agreste. Á frente delles, voando e alumiando-lhes{139}o caminho com o esplendor das azas, um anjo estendia o braço mostrando a caverna. Outros cruzavam longe, em enxames claros.No cimo dos cerros grupos resplandeciam.Subito uma grita atroou o silencio:«Hosannah! Hosannah!»O pequeno adormeceu docemente com a boca collada ao peito materno. Maria beijou-o e, inclinada, quedou em enlevo.«Hosannah! Hosannah!»bradavam fora. Ella sobresaltou-se e, chamando o esposo, perguntou:—Quem clama assim, meu senhor?—Pastores. Guia-os um anjo. Vêm adorar o Infante. E ella, cuidadosa:—Comtanto que o não despertem... E aconchegou-o ao collo agasalhando-o junto do coração.{140}{141}Adoração dos pastoresTumultuosamente os pastores chegaram á caverna e o velho, dono do rebanho, que acolhera o casal no seu tugurio, adiantou-se ao grupo e falou ao patriarcha:—Deixai-nos vêr e adorar o Deus vivo. Já o tinha por tal e quando sahi para a noite, com os olhos offuscados, fui bradando no silencio a Bôa Nova.Os homens que dormiam nas choças, as ovelhas que se apertavam nos apriscos, as mesmas arvores sem folhas, as{142}mesmas pedras sem vida estremeceram á minha voz pregoeira.Eu levava na boca uma palavra que estrondava. O que eu dizia aos que me ficavam perto retumbava como o som da buzina que vai de quebrada em quebrada ou como o trovão tempestuoso que se ouve em todos os pontos: na planicie e no valle, na montanha e na furna.De mim sahia a annunciação e, certo, a minha palavra ainda vai pelos ares viva, levando ás póvoas mais remotas a venturosa noticia.O que eu dizia na terra anjos repetiam nos ares. Os espiritos celestiaes fizeram-se meus echos e ainda clamam batendo as azas, tangendo lyras que sôam docemente.Não havia uma estrella e todas agora reluzem; astros nunca vistos brilham no fundo ceu.Não havia folha em ramo e as arvores{143}estão todas cobertas e cantam festivamente passarinhos nas montas.O outono vestiu-se com as galas da Primavera.Só um Deus faria prodigios taes.Deixai-nos vêr e adorar o Deus vivo.Os pastores brandiram os cajados bradando, de novo:«Hosannah! Hosannah!»E, como José se afastasse dando-lhes passagem, precipitaram-se tumultuosamente e, ajoelhando-se, adoraram o Divino Infante.Todos levavam dádivas campestres: este um anho, de vello fino, a boca rescendendo a leite; outro um casal de rolas; esse, um favo de mel, aquelle uma lan sedosa e, cada qual, offertando o seu presente, pedia, em oração intima, a graça do Menino Deus.{144}Maria olhava receiosa aquelles homens rudes que cercavam seu Filho. Como eram muitos os mais velhos levantavam nos braços os pequenos para que vissem o Recem-nado e diziam-lhes: «Pede!»As crianças, sorrindo, pediam pelo gado e pelas fontes: que ovelha alguma morresse, que nunca as aguas seccassem.Um pequenito, sentado no hombro de um agigantado pegureiro, olhava pensativo e calado.«Pede!» disse-lhe o homem.—Se Elle fosse Deus... murmurou a criança, e uma lagrima rolou dos lindos olhos infantis. Os outros adoravam e, no silencio, ouvia-se apenas, de quando em quando, um timido balido.Repentina, triumphante, uma voz bradou á entrada da caverna:—Gloria a Deus Salvador! O pastorinho estremeceu no hombro do pegureiro,{145}voltou a cabeça e viu uma andrajosa mulher livida, macilenta, que estendia os braços magros procurando abrir passagem na multidão reverente.Reconheceu-a e, desprendendo-se dos braços que o mantinham, correu ao seu encontro e, lançando-lhe os braços á cinta, disse commovido:—Fui eu, mãi, que Lhe pedi. É Deus! Entra e adora-o. Dorme nas palhas.Os pastores, reconhecendo a entrevada que vivia a gemer, encolhida num estrame, recuaram pasmados e ella, tremendo como se estivesse de pé sobre uma lapide de neve, perguntou ao filho que a contemplava:—E tu, tão pobresinho! que lhe deste, meu filho?—Uma lagrima, minha mãi... e foi tudo que lhe pude dar.{146}{147}

Maria abriu os olhos quando as estrellas nasciam.

O cégo já havia partido levado pelo menino. As cigarras cantavam vesperas.

José empunhou o cajado: Maria deixou o leito agreste, e seguiram.

As ultimas chammas do sol apagavam-se no occaso e a nevoa polvilhava os ares como uma cinza.

Monstruosos penhascos, talhados a pique á beira de precipicios, avultavam temerosamente na sombra.{78}

Palmeiras debruçavam-se sobre as rampas. Toda a vegetação contorcida, com as raizes á flor da terra, agarrando-se nervosamente ás arestas dos penhascos, parecia receiar aquelles despenhadeiros de onde subia atroadoramente um escachôo soturno d'aguas constrangidas.

Escurecia. Os montes áridos da Judéa apresentavam-se hostis aos peregrinos.

Os caminhos, aos torcicollos, confundiam-se augustos, escavados em brocas, eriçados d'aspas calcareas, orlados de intonsos espinheiros que, ás vezes, como garras, detinham os viajantes pelas tunicas.

Estryges voavam, pousavam nos ramos, nos penedos com gritos lugubres.

José caminhava a passo cauteloso, sondando o piso com o cajado, detendo{79}Maria, buscando tranquillisal-a com palavras carinhosas.

Mas a treva adensava-se a mais e mais, os roçados confundiam-se com a sombra. Julgando seguir a trilha direita, o patriarcha estendia a mão e sentia a aspereza das penhas.

—É imprudencia insistirmos em proseguir em tal escuridão, disse Maria com medo. É Deus que nos retém.

José deteve-se. Parecera-lhe ter ouvido vozes, rumor de passos, estalos de ramos seccos, como se viessem outros caminheiros. Escutou attentamente.

Era o vento que agitava o folhedo e eram as aguas profundas que referviam nos algares.

Mas um clarão suave accendeu-se no fundo espesso do arvoredo. Quem seria? Encolheram-se os dois, olhos fitos na claridade, que se adiantava como a luz de um facho.{80}

{81}

Uma centelha passou na escuridão, outra gyrou nos ares, as folhas, os ramos das arvores ficaram incrustados de brazas.

Surgiram da terra, saltaram das rochas, subiram dos desfiladeiros, a espessidão estrellou-se e todas as fagulhas, unindo-se, formaram uma rutila umbella pairando sobre Maria e José como a nuvem seguiu Israel guiando-o luminosamente pelo negror das noites no deserto.

Eram pyrilampos que voavam em ordenada phalange alumiando os caminhos obscuros.

E os dois, sob o relume dos insectos, continuaram a viagem dentro dum reverbero que só ao clarear d'alva desappareceu nos ares.{82}

{83}

O ceu, d'um azul transparente, ia-se, aos poucos, illuminando.

Os montes, em recortes rigidos, calvos, com a pedra exposta, a reluzir de humidade, ou eriçados de hispidos mattos, resaltavam em aspero, mordente relevo, com os cimos resplandecendo sob uma nevoa de ouro.

Docemente baliam placidos rebanhos.

As casas abriam-se; homens, ainda estremunhados, vinham ás portas, bocejavam{84}lançando por entre as barbas um halito brumoso.

Sentia-se a visinhança de Jerusalem pelo maior numero de casas, pela abundancia de gado nos valles verdes, recortados de veios d'aguas. Burricos trotavam com alcofas e ceirões de frutas.

Risos crystallinos annunciavam crianças; ouvia-se um estrepitante chapinhar e, á volta de um caminho, no claro remanso de uma ribeira, sob a acenosa ramagem do salgueiral, meninos nús saltavam, atiravam-se de mergulho, aos gritos alegres, flagellando a agua com ramos ou pendurando-se, a rir, dos galhos inclinados.

Nos campos, a espaços, alvejavam sepulchros; ovelhas pastavam em torno, pombos cercavam-nos em revoada arrulhante.

Por entre a palha das choças esfiava-se o fumo azul.{85}

Já os moinhos trabalhavam e junto aos immensos lagares, onde se pisava a azeitona, reluziam, em fumeiro, montes de bagaço oleoso.

Maria, que caminhara contente até aquellas paragens, á medida que avançava, sentia apertar-se-lhe o coração em presagio funesto.

Olhava anciosa os longes dos horizontes.

Tudo era calmo. A paizagem estendia-se acceitosa, cortada de muros de hortos, toda verde, bem differente dos desolados ermos que ella deixára.

Todavia a tristeza empannava-lhe os olhos, enchia-lhe o coração e já transbordava em lagrimas.

Vendo-a chorar, José perguntou com meiguice:

—Sentes-te fatigada?

—Não, meu senhor: voltaria a Nazareth sem parar, se pudesse.{86}

—E porque choras?

—Não sei. O coração aperta-se-me, um grande medo invade-me, constrange-me. Tremo e sinto-me gelar. As proprias flores causam-me horror. As anemonas parecem-me chagas que sangram. Tenho medo, um grande medo, como se fosse caminhando para a morte. Que tumulo é aquelle que apparece além, tão alto, tão negro, sob o vôo dos corvos?

José seguiu com o olhar a direcção do gesto de Maria.

—O que vês são as muralhas de Jerusalem, onde chegaremos antes do pôr do sol.

—Além das muralhas, aquelle tumulo negro, tão triste, onde agora o sol brilha.

Uma velha, trazendo um jumento pela arreata, sahiu ao caminho vagarosa.{87}

{88}

José saudou-a, a velha sorriu á Maria abençoando-a e a Virgem, escondendo a tristeza num sorriso, perguntou-lhe:

—Que tumulo é aquelle, além! tão alto, dentro dos muros da cidade? Os corvos rondam-no, deve haver mortos ali.

—É um monte, disse a mulher.

—Um monte! repetiu Maria surprehendida.

—O Golgotha. O outro é o Goreb.

—O Golgotha! suspirou a Virgem e, depois de um silencio dolorido, deixando-se cahir sobre as hervas, desatou a chorar convulsamente. A velha animou-a, teve palavras inuteis de consolo e alento. José assentou-se-lhe ao lado e, tomando-lhe as mãos frias, alisando-lhe os cabellos humidos de orvalho, perguntou-lhe:

—Que tens? Ella não poude responder.{89}Levantou-se e, resignadamente, de olhos baixos, contendo os soluços, poz-se, de novo, a caminho, em direcção á cidade branca e atorreada, ao sol.{90}

{91}

Com um rebanho que recolhia levado por um pastor coberto de pelles, as pernas enroladas até os joelhos em vello sórdido, entraram em Jerusalem pela porta do mercado, á hora em que as buzinas romanas troavam nas torres.

José procurava distrahir Maria mostrando-lhe as grandes bellezas, a magnificencia da cidade; nomeava os edificios, alguns longinquos, esfumados nas primeiras sombras da noite.

A Virgem, porém, seguia calada, sem{92}animo de levantar os olhos, o coração cerrado em tristeza invencivel.

Gentes diversas cruzavam-se nas ruas: homens abaçanados do deserto, com o albornoz ao vento, o punho esmaltado das adagas reluzindo á cinta; phenicios cobertos de jóias, com enormes collares de contas de ouro e braceletes de marfim; gregos ágeis passando ligeiros entre a multidão, com a tunica colhida ao braço, as pernas enlaçadas em tiras de couro.

Mulheres mostravam-se ás portas das casas, encostadas languidamente aos umbraes, olhando em extase, com um sorriso nos labios côr de purpura.

A algumas viam-se-lhes os peitos pela abertura das tunicas; outras, reclinadas em leitos marchetados, cerravam mollemente as palpebras gosando o frescor dos flabellos que escravas agitavam.{93}

Errava no ar denso um cheiro forte de aromatas.

Estranhas musicas soavam e, como os albergues estavam cheios, era um babariso alegre sob as frescas latadas, por entre as quaes, em corridinha airosa, moças iam e vinham com amphoras e crateres.

O pastor falara-lhes em uma modesta estalagem em Bezetha, para o lado do forte, onde podiam encontrar agasalho seguro.

A casa era dirigida por um velho de Siloeh e tinha, fama pelo seu anho tenro e pelo seu vinho puro. Lá achariam pousada e, como ficava longe e não recebia mulheres, não seriam incommodados pelos legionarios que, á menor agitação, invadiam as casas brutalmente levando tudo a conto de lança.

Era um rancho pauperrimo, entre sebes de espinhos, onde aboletavam-se{94}mesteiraes e homens dos montes que traziam ao mercado favos de mel, resinas, balsamos e raizes.

O velho acolheu-os de boa sombra, serviu-lhes a refeição na sala lobrega que uma candeia alumiava.

Rusticos bebiam, jogavam e fóra, junto a um monte de pedras, um velho resmungava raspando, com voracidade, o fundo de uma escudella.

Era um leproso nojentamente abostellado de ulceras.

Ás chufas dos homens, que lhe atiravam cascas, bagaços de frutas, respondia aos regougos, bramindo maldições e, como prorompesse aos berros, apanhando pedras para defender-se, os homens revoltaram-se.

O hospede tranquillisou-os e, sahindo ao terreiro, poz-se a assobiar.

Enorme cão saltou da sombra rosnando, o taverneiro açulou-o contra{95}o leproso que se encolhera estarrecido.

{96}

Vendo o cão investir, Maria cahiu de joelhos, juntou as mãos frias e, tremula, d'olhos no ceu, implorou pelo infeliz.

O animal raivava, aos saltos; os homens vociferavam incitando-o. Alguns riam no ante-gosto da scena cruel, mas como o leproso, tentando correr, tropeçasse rolando na terra e ferindo o rosto no pedregulho, o cão, que o alcançara, poz-se a ganir e, sacudindo a cauda, ficou de rastos, lambendo mansamente o sangue que escorria da cicatriz do mendigo.

E Maria, extactica, não via a doce misericordia que immobilisara em espanto os hospedes do albergue.{97}

Ao romper d'alva quando, do lado do templo, as cegonhas partiam em direcção ao deserto e as pombas baixavam em nuvens sobre o mercado catando o grão que transbordava das ceiras, o patriarcha despertou Maria e, ligeiros como foragidos, deixaram a estalagem com os votos de boa jornada do hospedeiro. As buzinas romanas resoavam na serenidade.

Legionarios recolhiam cançadamente a Makéros.{98}

Pobres, que haviam pernoitado ao relento, estremunhavam sobre farrapos.{99}

Num pateo, entre muros de maceria, espontado de hervas sylvestres, mugiam bois e homens bradavam.

Corvos rondavam os ares attrahidos pelo cheiro do sangue.

Quando passaram as muralhas, sahindo no campo do oleiro, o sol brilhava nas pastagens humidas e passarinhos cruzavam o vôo cantando na alegria do sol.

Maria caminhava d'olhos altos, como enlevada. Ineffavel sorriso illuminava-lhe o rosto lindo, arrepios nervosos sacudiam-na de instante a instante.

—Lá está Bethleem! disse José estendendo o cajado na direcção dos montes ainda enfaixados em nevoa.

Maria empallideceu e, d'olhos fitos nos outeiros graciosos da terra de David, rompeu, de repente, a cantar, sobre uma antiga melodia hebraica, repetindo{100}inspiradamente as palavras que lhe sahiam d'alma:

«Espirito Perfeito, ancia das almas miseras, se és Tu que em mim assistes, bemdita seja a carne fragil em que te encerraste e de onde deves romper, germen da Redempção, em Flor de Misericordia.

Espirito Perfeito, lume que de mim fizeste a Tua lampada, que o Teu clarão espalhe-se pela terra fazendo brotar a sementeira nos campos e o Amor no coração dos homens.

Espirito Perfeito, fonte de copiosas aguas bemfazejas, se é do meu seio que vais jorrar, bemdita seja a Dôr que me lançou na vida, bemditas sejam as lagrimas que já por Ti hei vertido.{101}

Espirito Perfeito, esperança dos desanimados, se eu sou o ramo verde que Te hei de dar, bemdita seja a afflicção de minh'alma na hora atormentada em que, innocente, me julguei culpada e, pura, vi a suspeita manchar a minha virgindade.

Espirito Perfeito, se És a Redempção annunciada, bemdigo a Tua vinda, sem orgulho, por me haveres tomado por Teu trámite e prostro-me ante a Tua Graça e exalto a Tua Beneficencia.

Espirito Perfeito, Sêr dos sêres, não nado ainda, gloria a Ti e á Tua origem celestial. Virgem, dar-te-ei ao mundo. Eu sou como o olhar que se não macula por transmittir ao corpo a visão.

Por mim entras no mundo como o sol, e tudo que elle alumia, entra, pelo olhar, no cerebro.{102}

Eu sou a pupilla que communica ao Universo a Claridade Magnifica.

Espirito Perfeito, louvado sejas sempre pela Tua Virtude e pela Tua Excellencia. Sahes da carne mortal sem trazeres peccados: passas por ella como uma imagem que se reflecte nagua.

Espirito Perfeito, Graça de Israel, Esperança das Gentes, Messias... Meu coração alegra-se sentindo-Te e o meu coração é o captivo que almeja a liberdade.

Eu sou a Fraqueza humilde chamada Mulher. Sou a escrava que gera o seu Libertador, a Sombra de onde sahe a Luz, o Peccado que floresce em Perdão...»

José ouvia-a com os olhos rasos d'agua.{103}

As cotovias cantavam na altura luminosa.

Longe, sob a fulguração do sol, resplandeciam os muros de Bethleem, entre outeiros.{104}

{105}

Á hora cálida, abafada em que as folhas dormem e as ribeiras murmuram de leve, vagarosas, remansando-se sob as quietas sombras, e toda aza encolhe-se entre os ramos mais densos, e todo reptil encova-se na terra mais humida, deram os dois num campo de farta seara onde alumiavam foices e moças juntavam gavellas, cantando, emquanto os homens ceifavam assustando as cotovias que tinham os seus ninhos rentes do chão, na raiz do trigal.{106}

Maria, com o manto sobre a cabeça, enlevada naquella messe de ouro e na alegria ruidosa do trabalho, ouvia as vozes que se cruzavam subindo dos trigos altos, onde os seareiros desappareciam, como se fôsse o proprio campo que cantasse o louvor do sol.

Ia tão entretida que não viu José adiantar-se, direito a uma palhoça onde um velho jazia, sentado ante um monte de vergas, tecendo um alcofe e cantando.

Aligeirou os passos e alcançou o esposo justamente quando elle saudava o ancião.

—Dizei-me a quem pertence este campo tão rico e cheio de tanta alegria?

—A Obed, segundo deste nome, descendente de Booz, o semeador.

—Foi, então, nesta terra que a moabita achou agasalho junto do homem bom, que a amou?

—Sim, foi aqui. Esta é a leira de{107}Ephracta, a mais fertil entre as mais abundantes e generosas. Este campo foi o leito nupcial onde se gerou a raça robusta dos reis de Israel.

Aqui nasceu David, tronco forte, estirpe augusta de que ha de sahir a Immarcessivel Flor annunciada, cujo perfume encherá as almas de ineffavel ventura. Este é o celleiro de Iaveh. E vós, vindes de longe?

—De Nazareth, na Galiléa.

—E ides?

—A Bethleem. Urge que lá cheguemos antes do pôr do sol.

—Tendes tempo. Sentai-vos um momento, é a hora da refeição. O que tenho dá para repartir comvosco. A vossa companheira, esposa ou filha, vem fatigada; que descance um instante á sombra, gosando a sesta. Entrareis na cidade com a fresca da tarde.

Aceitaram os peregrinos o convite{108}hospitaleiro: sentaram-se e comeram do pão molhado em mel e beberam pelo mesmo tarro o leite cheiroso.

Ficaram os dois velhos conversando e Maria, encostando-se aos feixes de trigo, cobriu o rosto com o manto e adormeceu.

As moças cantavam na eira levantando medas de ouro e, sob o sol escaldante, no alto ceu azul, as cotovias voavam e os seus gritos abrandavam-se na distancia, esmoreciam perdidamente.{109}

Frio e pallido, esfumado em brumas, o crepusculo baixava na tristeza da tarde silenciosa.

No remonte dos cerros pedregosos, hirtas palmeiras immoveis pareciam gravadas, em negro, no fundo dourado do occaso. Aves esvoaçavam caladas.

Docemente, com um tremulo murmurio, fluiam pelos canaes de rega as aguas levadias, e as vozes soturnas dos bois soltos, errando, de vagar, no campo restolhado, soavam como gemidos.{110}

Os peregrinos seguiam uma vereda suave, entre debruns de anemonas.

Maria parava de instante a instante, arfando.

Amollecida, alquebrada, olhava com desanimo os outeiros ainda longinquos e suspirava, sem atrever-se a dizer ao esposo o seu cançaço.

José, porém, notou-lhe a lentidão dos passos e, amparando-a, animou-a carinhoso:

—Estamos a chegar. Lá apparecem as casas de Bethleem; as luzes brilham por entre as arvores. Mais um momento e teremos repouso em alguma estalagem.

Ella parou, ficou a olhar o ceu nublado como a implorar alento para chegar ao termo da viagem.

—É um peso que me curva, murmurou em voz sumida. Sinto-me tão fraca que não sei se poderei acompanhar-vos até as collinas de além. Toda{111}eu esmoreço. O meu desejo é deixar-me ficar no caminho, deitada nas hervas, e dormir um somno grande.

Nunca me pesou tanto o corpo, o proprio espirito pesa-me, tão carregado está de medo e de cuidados sombrios.

Que será de mim e d'Elle ao nascer em tão desabrigados lugares, longe de tudo, á friagem da noite, com este vento que retalha as carnes como um ferro mortal?

O chiar de um carro levou-lhes a attenção para o caminho deserto. Uma voz cantava na tristeza da tarde moribunda:

Hervas do campo florido,Que aroma! Que trescalar!Bem se vê que o seu vestidoAndou por vós a roçar.Outeiro em flor, o teu vello,Verde e fino, ao meu ciumeConfessa que o seu cabelloDeixou nelle o seu perfume.{112}

Hervas do campo florido,Que aroma! Que trescalar!Bem se vê que o seu vestidoAndou por vós a roçar.

Outeiro em flor, o teu vello,Verde e fino, ao meu ciumeConfessa que o seu cabelloDeixou nelle o seu perfume.{112}

O carro appareceu acogulado de trigo, rinchando, ao passo moroso dos bois que traziam os cornos floridos de acacias.

José dirigiu-se ao carreiro, robusto moço, e pediu-lhe passagem para Maria, mostrando-a, prostrada e languida, entre o rosmaninho cheiroso.

O moço accedeu e os dois ajudaram a Virgem a subir, fizeram-lhe lugar macio sobre as paveias louras e os bois arrancaram.

E caminhando, José ia enlevado na esposa e o carreiro, d'aguilhada ao hombro, olhos fitos no ceu, insistia na egloga:

Hervas do campo florido,Que aroma! Que trescalarBem se vê que o seu vestidoAndou por vós a roçar.{113}

Hervas do campo florido,Que aroma! Que trescalarBem se vê que o seu vestidoAndou por vós a roçar.{113}

Diante de uma trilha que se perdia no arvoredo deteve-se o carreiro e disse:

—Aqui me despeço, este é o meu rumo. A estrada em que estais, direita e facil, guia-vos a Bethleem. Seja o Senhor comvosco.

Sem esforço José tomou a Virgem nos braços, pousou-a na terra, agradecendo ao moço a gentileza de a haver recebido no seu carro. E elle, galantemente, respondeu:

—Trouxe a flor viva no trigal ceifado,{114}e, com tão geitosa resposta, despediu-se e foi-se, aguilhada ao hombro, de vagar, á frente dos bois, cantando, em voz apaixonada, os louvores do seu amor mimoso.

Os dois caminharam alguns passos, Maria amparada ao esposo, lenta, tolhida de soffrimento; mas não poude ir além da caverna e deteve-se.

O aspero interior do antro tingia-se de laivos rubros, ao tremulo flammejar d'uma fogueira junto á qual um velho pastor, as mãos estendidas ao lume, cantarolava baixinho.

Ovelhas ondulavam na sombra.

Logo á entrada, na anfractuosidade da rocha, havia uma mangedoura. Um jumento dormitava e, junto delle, ruminando, jazia deitada uma vacca com o seu novilho.

Disse José a Maria:{115}

{116}

—Firma-te a mim e vamos devagarinho. Havemos de achar aposento em alguma estalagem. Ella sorriu docemente, resignada, mas os seus olhos meigos foram para a caverna.

O patriarcha, apiedado, adiantou-se e falou ao pastor.

—Seja o Senhor comvosco!

—Seja bemvindo quem chega e assim annuncia-se ao humilde.

—Hospede na terra venho de longe e commigo, em estado que não consente esforço, trago a minha esposa, que aqui vedes. Se permittirdes que ella fique um momento comvosco emquanto procuro hospedagem, sempre o meu coração vos ha de louvar.

O velho pastor, idoso, de fartas barbas amarellecidas, longos cabellos espalhados pelos hombros, que um melóte cobria, soergueu-se e falou:

—A caverna não tem porta, ainda é mais franca que os templos. Entrai e{117}abeirai-vos do lume, que a noite começa a esfriar.

—Ella fica, eu sigo pela pousada. Maria, timida, entrou. Logo o pastor acamou as palhas, alargando um leito fofo e, vendo-a recostar-se, voltou ao seu lume e ao canto com que se entretinha.

E o patriarcha partiu.

Ainda que não conhecesse a cidade, tanta era a gente que se movia nas ruas, que não lhe foi difficil, perguntando, encaminhar-se a uma estalagem.

Logo á entrada, sob o vasto alpendre, viu altas pilhas de fardos e, em torno, estendidos em pelles, mercadores e recoveiros.

O hospede, mostrando-lhe o transbordo da casa, disse:

—São homens que se aboletam ao relento, por falta de commodos. Difficilmente encontrareis quem vos receba, porque as festas attrahiram grande mó{118}de estrangeiros e as feiras trazem das cercanias todos os lavradores. Guie-vos o Senhor. E José proseguiu.

Nas viellas e alfurjas havia turbas cantando e bailando em volta de fogueiras.

Debalde o ancião entrava nas estalagens; as proprias choupanas recebiam hospedes e, pelas collinas, entre fogos, clareavam tendas. Errou até tarde sem exito.

Já o silencio annunciava hora alta quando, quebrado de fadiga, retrocedeu pelas betesgas desertas, ao latido dos cães errantes, em rumo á caverna.

Avistou-a de longe, alumiada por um clarão de luar, e, como levantasse os olhos demandando o astro, deu com um anjo deslumbrante que, abrindo azas largas, diaphanas, feitas como de nevoa e luz, ia e vinha no espaço, rondando a noite.{119}

Entrou. O velho pastor velava diante das brazas vividas e, entre ovelhas, sobre a palha loura, a Virgem dormia serena.{120}

{121}

O esplendor é mais impenetravel que a treva e foi uma muralha fulgurante que encobriu Maria quando se realisou a prophecia do Bem.

Na hora em que os gallos cantaram a primeira vez subito clarão resplandeceu no fundo da caverna. A luz foi tanta, tão intensa que atravessou o somno em que jaziam o patriarcha e o pastor.

José soergueu-se d'impeto, firmando-se nas mãos, offuscado pela claridade vivida que irradiava em stalactites de{122}um brilho augusto, mudando em rutilos diamantes todas as pedras brutas e fazendo do aspero sólo, eriçado em pedrouços, uma área esplendida como se fosse embutida de gemmas lapidadas.

O pastor, attonito, deslumbrado, arrastava-se tacteando e a caverna, a mais e mais aclarada, parecia toda uma chamma alva como se um luar maravilhoso a enchesse magnificamente.

Os dois homens, atordoados, não falavam—estendiam as mãos e os seus dedos chammejavam como raios d'astros e da luminosidade desprendia-se um perfume, novo na terra, aroma celestial que enlevava como um encantamento.

Além da caverna a noite negrejava calada e erma de estrellas. Poude o pastor arrastar-se até o limiar e o seu corpo, esgueirando-se, refulgia como o de uma salamandra.{123}

Tremulo, chegou á entrada, respirando, a largos sorvos, o ar frio que vinha dos outeiros. Levantou o olhar e recuou espavorido.

Escada altissima, de scintillantes degraus, ligava o cimo do outeiro ao ceu aberto em radiante pórtico e anjos desciam, tantos que pareciam uma catadupa que se despenhava espumejando iriada de sol, com scintillações de pedrarias.

Não poude olhar e, rojando-se, com a face na terra, ouvia o murmurio das azas.

Não disse palavra, immovel, tolhido de assombro, sentindo a transfiguração da noite.

José conseguiu levantar-se e caminhou lentamente atravez do esplendor.

Maria appareceu-lhe entre as mansas ovelhas que, reunidas, bafejavam as palhas onde um pequenino infante, as mãosinhas na boca, os olhos{124}candidos abertos, parecia contemplar a Virgem que sobre Elle inclinava-se.

{125}

Olhou-a, fitou no tenro corpo os olhos e viu que o cercavam tres figuras de incomparavel belleza.

Uma, as mãos diaphanas cruzadas sobre o peito, os olhos baixos, concentrada, rezava. Outra, d'olhos enlevados, com uma palma verde na mão debil, sorria. A terceira, de joelhos, aquecia com o halito, envolvendo-o nos seus longos cabellos louros, o corpo recem-nado.

Por onde teriam entrado os tres seres? Que anjos seriam? Não os poude reconhecer o patriarcha, mas chegando-se á Virgem tomou-lhe a mão e beijou-a.

Ella mostrou-lhe o Filho com uma ternura tão meiga que o sorriso não poude por si só exprimil-a e lagrimas correram.

Assim deram os olhos, d'uma só vez, todos os seus thesouros: o brilho do olhar e os diamantes da meiguice, essa humildade do amor.{126}

Pouco a pouco foi-se a luz extinguindo, a sombra retomou a caverna.

As Virgens desappareceram e Maria, acolhendo o pequenino nos braços, chegou-o ao collo, aqueceu-o, afagou-o.

Foi mãi antes de ser serva. Só depois de o beijar estremecidamente ouviu as vozes que atroavam a noite:

«Gloria a Deus nas Alturas, Paz aos homens na terra de bôa vontade.»

Occorreram-lhe as palavras do anjo. Lembrou-se, então, que o Sêr nascido do seu seio era o Deus da Promessa.

Deitou-o delicadamente nas palhas e ajoelhou-se adorando-o.

José, afastado do grupo, prestava culto á Virgem e ao Infante e o ceu, pela voz dos Espiritos eleitos, saudava o Natal messianico, apregoando a vinda do Filho do Homem, portador da Piedade.

Ergueu-se o pastor, olhou o ceu e,{127}ouvindo os anjos, sahiu a correr bradando inspiradamente a Bôa Nova.

E os gallos puzeram-se a cantar annunciando a maior e a mais bella madrugada do mundo.{128}

{129}

Quando o Menino adormeceu José, aproximando-se de Maria, perguntou-lhe baixinho: «Se vira as tres virgens que cercavam o Infante ungindo-o de luz?» A Immaculada respondeu no mesmo tom discreto:

—Logo que sahiu do somno, ainda antes de vêr meu filho, dei com ellas, immoveis, aclarando toda a caverna, de joelhos em torno do Recem-nascido.

Não falavam. Não sei quem são.{130}

Desappareceram de repente como as estrellas desapparecem.

—Seriam anjos? Uma serena voz, sahindo das pedras, falou no silencio:

—A primeira é toda a Crença do Homem: é a Virtude que leva a Alma á presença do Altissimo.

Antes da vinda do Messias era a nevoa indecisa que resplandecia e obumbrava-se; agora é a Luz pura e perenne, a luz viva que guia ao Paraiso atravez de todos os abrolhos, por meio dos mais árduos soffrimentos, vencendo as mais perversas tentações, sempre direita, inflexivel e segura. É a Fé.

O seu olhar não se desvia, a sua linguagem é a prece, a sua confiança é Deus. É a mais forte das tres. A segunda é uma consoladora. Parece um reflexo da primeira: É a Esperança.

Veste-se de illusões, recama-se de sonhos para distrahir a Alma, livrando-a{131}do desespero. É como o ramo verde que se inclina á borda dos abysmos. É a divina miragem que, atravez das agruras da vida, reanima o coração combalido, creando perspectivas venturosas.

Só, é uma encantadora que vive a inventar maravilhas, ligada á Fé é a precursora que desbrava o caminho para a travessia da alma.

Sem ella a miseria seria um flagello, a dôr seria intoleravel. É uma força feita de sonho. Isolada é a fantasia.

A terceira é o Amor, é a lagrima que se converte em misericordia, é a bondade omnipotente, a meiguice que salva, a resignação que remitte, a paciencia que conforta, a lan que agasalha, o linho que estanca o sangue, o lume que aquece.

É o conjuncto amoroso de todas as beneficencias—a Caridade.

São as tres irmans que acompanham o Messias.{132}

Elle tomou-as ao paganismo e converteu-as transmittindo-lhes a sua essencia.

Eram as Karites, são as Virtudes. Fôram as Graças, são as beneficiadoras.

Com ellas Jesus fará a redempção do Homem.

Para combater o mal, podendo trazer as legiões adamantinas, trouxe as humildades.

Calou-se a voz e os dois olharam-se maravilhados.

—Não ouviste falar?

—Sim, meu senhor, falaram. As ovelhas estavam de pé e olhavam, como se tambem procurassem o mysterioso, interlocutor.

Mas o Menino agitou-se no leito palhiço, estendeu os bracinhos e chorou.

Presto, Maria tomou-o ao collo, aconchegou-o cobrindo-o com o manto.{133}

—Deve ser frio, disse José.

—Fome, talvez, disse Maria, anciosa por dar o peito farto ao pequenino Filho.{134}

{135}

Á primeira sucção da boca da criança Maria estremeceu, sentindo uma dôr aguda, como se um punhal lhe houvesse atravessado o seio. Longe, porém, de fugir com o peito dolorido, inclinou o busto, dando-se toda ao sublime martyrio, com a alma a brilhar nos olhos que a dôr orvalhara de lagrimas.

Ávido, o infante sugava, cavando as bochechas e o leite, afluindo, rasgava passagens como a torrente que se despenha{136}da altura vincando a terra e arrastando o que se lhe antolha á levada.

O Divino alimentava-se do soffrimento humano e naquellas opalinas gottas de leite—sangue e agua fundidos{137}em candura—o ceu commungava na terra.

A Carne mortal nutria o Espirito Perenne, o ephemero transfundia-se no Eterno: as duas collinas alvas tocavam o Infinito, que era a boca de Jesus, de onde deviam jorrar, em caudaes, as leis santas, os sabios julgamentos, a benção e o perdão.

A Virgem sorria e o seu collo turgido ondulava de ventura, em quanto o patriarcha, ajoelhado, contemplava o grupo, aureolado pelo clarão da fogueira, cuja chamma resurgira ao sopro da brisa nocturna.

Fóra resoavam canticos; vozes, sons de harpas enchiam o espaço.

Por vezes um clarão relampejava diante da gruta á esplendida passagem rapida de um anjo.

Maria, inclinada sobre o Filho, só a elle sentia, ouvindo apenas o lento gorgulhar{138}do leite que elle sugava soffrego.

Todo o mundo ali estava nos seus braços: a terra com os seus vergeis floridos, o ceu com as suas estrellas fulgidas.

Que lhe importava a aurora se na pennugem loura que seus dedos afagavam na cabecinha do filho, ella via o esplendor maior que podem contemplar olhos de mãi!

Que lhe importavam os anjos se, no fundo luminoso das pupillas da criança, via dois pequeninos seraphins alegres?

Que lhe importava a immensa alegria universal, se o seu coração transbordava de felicidade com aquelle amor!

Levantou-se um alarido fóra, na estrada obscura. José sahiu ao limiar.

Um bando de homens corria em tropel em direcção ao abrigo agreste. Á frente delles, voando e alumiando-lhes{139}o caminho com o esplendor das azas, um anjo estendia o braço mostrando a caverna. Outros cruzavam longe, em enxames claros.

No cimo dos cerros grupos resplandeciam.

Subito uma grita atroou o silencio:

«Hosannah! Hosannah!»

«Hosannah! Hosannah!»

O pequeno adormeceu docemente com a boca collada ao peito materno. Maria beijou-o e, inclinada, quedou em enlevo.

«Hosannah! Hosannah!»

«Hosannah! Hosannah!»

bradavam fora. Ella sobresaltou-se e, chamando o esposo, perguntou:

—Quem clama assim, meu senhor?

—Pastores. Guia-os um anjo. Vêm adorar o Infante. E ella, cuidadosa:

—Comtanto que o não despertem... E aconchegou-o ao collo agasalhando-o junto do coração.{140}

{141}

Tumultuosamente os pastores chegaram á caverna e o velho, dono do rebanho, que acolhera o casal no seu tugurio, adiantou-se ao grupo e falou ao patriarcha:

—Deixai-nos vêr e adorar o Deus vivo. Já o tinha por tal e quando sahi para a noite, com os olhos offuscados, fui bradando no silencio a Bôa Nova.

Os homens que dormiam nas choças, as ovelhas que se apertavam nos apriscos, as mesmas arvores sem folhas, as{142}mesmas pedras sem vida estremeceram á minha voz pregoeira.

Eu levava na boca uma palavra que estrondava. O que eu dizia aos que me ficavam perto retumbava como o som da buzina que vai de quebrada em quebrada ou como o trovão tempestuoso que se ouve em todos os pontos: na planicie e no valle, na montanha e na furna.

De mim sahia a annunciação e, certo, a minha palavra ainda vai pelos ares viva, levando ás póvoas mais remotas a venturosa noticia.

O que eu dizia na terra anjos repetiam nos ares. Os espiritos celestiaes fizeram-se meus echos e ainda clamam batendo as azas, tangendo lyras que sôam docemente.

Não havia uma estrella e todas agora reluzem; astros nunca vistos brilham no fundo ceu.

Não havia folha em ramo e as arvores{143}estão todas cobertas e cantam festivamente passarinhos nas montas.

O outono vestiu-se com as galas da Primavera.

Só um Deus faria prodigios taes.

Deixai-nos vêr e adorar o Deus vivo.

Os pastores brandiram os cajados bradando, de novo:

«Hosannah! Hosannah!»

«Hosannah! Hosannah!»

E, como José se afastasse dando-lhes passagem, precipitaram-se tumultuosamente e, ajoelhando-se, adoraram o Divino Infante.

Todos levavam dádivas campestres: este um anho, de vello fino, a boca rescendendo a leite; outro um casal de rolas; esse, um favo de mel, aquelle uma lan sedosa e, cada qual, offertando o seu presente, pedia, em oração intima, a graça do Menino Deus.{144}

Maria olhava receiosa aquelles homens rudes que cercavam seu Filho. Como eram muitos os mais velhos levantavam nos braços os pequenos para que vissem o Recem-nado e diziam-lhes: «Pede!»

As crianças, sorrindo, pediam pelo gado e pelas fontes: que ovelha alguma morresse, que nunca as aguas seccassem.

Um pequenito, sentado no hombro de um agigantado pegureiro, olhava pensativo e calado.

«Pede!» disse-lhe o homem.

—Se Elle fosse Deus... murmurou a criança, e uma lagrima rolou dos lindos olhos infantis. Os outros adoravam e, no silencio, ouvia-se apenas, de quando em quando, um timido balido.

Repentina, triumphante, uma voz bradou á entrada da caverna:

—Gloria a Deus Salvador! O pastorinho estremeceu no hombro do pegureiro,{145}voltou a cabeça e viu uma andrajosa mulher livida, macilenta, que estendia os braços magros procurando abrir passagem na multidão reverente.

Reconheceu-a e, desprendendo-se dos braços que o mantinham, correu ao seu encontro e, lançando-lhe os braços á cinta, disse commovido:

—Fui eu, mãi, que Lhe pedi. É Deus! Entra e adora-o. Dorme nas palhas.

Os pastores, reconhecendo a entrevada que vivia a gemer, encolhida num estrame, recuaram pasmados e ella, tremendo como se estivesse de pé sobre uma lapide de neve, perguntou ao filho que a contemplava:

—E tu, tão pobresinho! que lhe deste, meu filho?

—Uma lagrima, minha mãi... e foi tudo que lhe pude dar.{146}

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