[8]La Prose, leçons faites a la Sorbonne.[9]Traité complet de la theorie et de la pratique de l'harmonie, par Fetis.{157}RaphaelA MR. PELLEREAUEra um talento enorme.O pai, artista mediocre mas de juizo claro, ensinou-lhe a dar os primeiros traços, a lançar as primeiras tintas na tela.Mas é ninho d'Urbino, escondido n'uma das mais graciosas paragens dos Apeninos, era pequeno para tamanha aguia.O céo d'Italia desdobrava-se n'um azul suavissimo e espelhava-se sobre as aguas tranquillas desde os canaes de Veneza até á bahia de Napoles.Adivinhava-se que em qualquer parte da Italia sorria a natureza, com todo o esplendor das suas galas, e o amor com a sua infinita doçura.Elle era moço e artista. O pai adivinhou a gloria d'aquelle destino, e disse-lhe:—Parte.{158}E partiu, alegre, descuidoso, pensando um pouco na gloria, alguma cousa no amor, e namorando-se mais que do amor e da gloria d'aquella Italia formosissima em que nascera e em que primeiro devia amar.Dias depois entrava noatelierde Perugino, em Perugia. Um artista hospedava outro.A recepção foi cordial. Todavia Raphael, porque era elle, queria ser mais alguma cousa do que um simples hospede,—ambicionava ser discipulo.Esboçou os primeiros quadros, coloriu os primeiros contornos, e o mestre inclinado sobre o hombro do moço pintor já o não queria só como hospede nem o quereria já como rival.Tinha dezesete annos.Sorria-lhe a vida e a gloria. Começára pelos retratos, adestrára-se a mão, e Perugino ficára vencido.Um dia o discipulo quiz voar mais longe, e começou um quadro de largas dimensões, o celebreSposalizio, cujo assumpto delicado e formoso é oCasamento da Virgem.O artista queria emancipar-se da tutela de Perugino, mas o discipulo, respeitoso e grato, afogava a sua individualidade namaneirado mestre.Aos vinte annos, todo o talento, que tem balbuciado até ahi, procura quebrar as gramalheiras da imitação.É a época da liberdade.Raphael foi encarregado de coadjuvar o seu condiscipulo Pinturricchio na reforma artistica por que ia{159}passar a cathedral de Sienna. Mas Raphael foi mais de que um obscuro collaborador n'aquelle maravilhoso poema da pintura.Do seu pincel desabrocharam os graciosos frescos, cheios de vida e mocidade, que ainda hoje se conservam em todo o esplendor da belleza.Um talento assim é tambem athleta; quer luctar. Florença era então a arena dos grandes artistas. Miguel Angelo e Leonardo de Vinci estavam em campo. Perugia era já pequena para Raphael. Partiu para Florença onde podia justar com os dous maiores pintores da Italia. A esperança era o seu anjo da guarda;—a gloria o sonho de todas as horas.Ah! Florença! Como elle se sentia bem alli, pensando, executando, e dividindo o tempo com a arte e com o amor!Fóra doatelier, esperavam-n'o os sorrisos da ramilheteira, afioraia; quando estava trabalhando, tinha perto de si as flôres d'ella. E tanto a amava, e tanto a tinha presente quando não a via, que o seu pincel a reproduziu espontaneamente naBella Jardineira, a primeira Virgem de Raphael, quadro admiravel conservado ainda hoje na galeria do Louvre.Era o cartel atirado a Miguel Angelo e a Leonardo de Vinci. Estava travada a lucta entre os poderosos athletas.Occupava n'esse tempo o throno pontificio o papa Julio II. Roma ia envolver-se n'um manto de roçagante magestade.{160}Levantavam-se templos, erigiam-se palacios, encommendavam-se quadros. O torneio das artes mudava-se de Florença para Roma. Alli era a capital do mundo, alli pulsava o coração da Italia; grandeza, esplendor, deslumbramentos olympicos, tudo havia alli.O architecto encarregado de velar por todas essas maravilhas da arte era Bramante, tio de Raphael.O amor foi vencido pela gloria. Veio de Roma um convite. Raphael despediu-se dafioraiae aceitou, entre triste e distrahido, umas flôres que ella lhe dera orvalhadas de lagrimas. A florista de Florença ficava com a immortalidade que lhe dera o seu amante; Raphael partia lendo na vastidão do horisonte a epopêa do seu destino...Roma foi em todos os tempos a fascinação dos artistas. Tudo lá tem voz para cantar as grandezas do passado, e os monumentos arruinados rumorejam ainda hoje as legendas dos maiores artistas do mundo.Apresentado ao papa Julio II, sentiu-se maior que nunca; o seu pincel era a vara de condão que devia desencantar as maravilhas do Vaticano. Começou pela sala de la Segnatura. O grande pintor mostrou a valentia do seu pulso em quatro quadros differentes que decoram a sala:—a Theologia, a Philosophia, a Poesia e a Justiça.O papa entrou um dia á sala onde Raphael trabalhava. Extasiou-se diante do prodigio; chamou quatro operarios e mandou desfazer a martello osfrescosque os predecessores de Raphael haviam pintado. Já era{161}muito e ainda não era tudo;—começava a realisação do sonho.E todavia nos jubilos de Raphael perpassava, de momento a momento, uma sombra; era o pincel de Miguel Angelo. Ambos tinham sido chamados a Roma, collaboravam ambos n'aquella immensa epopêa da renascença artistica da Italia, e todavia não fraternisavam em amiga communhão, nem siquer se tinham permittido a mutua contemplação dos seus quadros. Trabalhava um na capella Sixtina; o outro nas salas do Vaticano. Sempre que vinha a geito o confidenciar com seu tio, ahi lhe segredava Raphael o immenso desejo de conhecer as obras primas de Miguel Angelo. O velho artista ouvia-lhe as confidencias e sorria-se. Mas um dia, Bramante, aproveitando a ausencia de Miguel Angelo, que trazia entre mãos oJuizo Final, abusou da sua qualidade de architecto e entrou com o sobrinho á capella. O mesmo foi pascer Raphael os olhos nas telas de Miguel Angelo e deletrear os segredos artisticos que deviam operar a rapida transformação porque passou o seu talento audaz e gigantesco. A historia consigna muitos d'estes factos, em que um artista que começa parece aquecer-se para uma vida nova nas labaredas que illuminam a alma de outro artista já feito. Corregio, ao relancear os olhos áSanta Ceciliade Raphael, exclama arrebatado: «Anch' io son pittor!»—La Fontaine, ouvindo uma ode de Malherbe, sente incendiar-se-lhe a alma no fogo da inspiração.Passados dias, Miguel Angelo entra ás salas do Vaticano{162}e não póde conter um grito de admiração. «Ah! disse elle, Raphael imita-me; Raphael estudou-me; Raphael viu o que eu tenho feito!»E n'esta apostrophe em que espontaneamente rebenta o sincero orgulho d'um grande artista, Miguel Angelo prophetisa, sem o desejar talvez, a gloria que esperava Raphael, como Mozart prophetisa por uma intuição artistica o destino esplendido de Beethoven, e Haydn os triumphos ruidosos de Mozart.Eram tres homens, Miguel Angelo, Raphael e Leonardo de Vinci que deviam coroar o assombroso monumento do espirito humano começado por Dante e Giotto.Dante, como diz Charles Clement, resuscita a poesia, Giotto a pintura; Brunelleschi levanta o zimborio deSanta-Maria-del-Fiore; Colombo descobre um mundo; Copernico as leis do universo; Guttemberg espanca as trevas profundas da ignorancia; Savonarola e Luthero despertam a consciencia individual;—Miguel Angelo, Raphael e Leonardo de Vinci rematam a corôa da renascença artistica. Começa o dia da gloria depois d'uma longa noite de dez seculos. Do attrito da antiguidade com a idade media resalta a centelha que devia animar a litteratura, a historia e a arte.Os iniciadores d'este movimento revolucionario sahiram da raça latina, e portanto eram pagãos. Assim se explica como o paganismo resuscita no catholicismo, como Jupiter se transforma em Christo, e Venus em Magdalena e na Virgem. Da religião catholica{163}nasce a poesia moderna. É um papa, Julio II, que reune em Roma os maiores pintores e os maiores architectos.As madonas de Raphael teem uma belleza pagã.A renascença conspira contra o ascetismo primitivo, e assim se inaugura a pintura da historia, porque, como reflectidamente pondera Louis Pfau, a renascença não viu na religião mais que a historia sagrada, e na historia sagrada mais que a historia da humanidade.Ao tempo que o talento de Raphael começava a assombrar a Italia inteira, um opulento negociante de Sienna, Agostino Chigi, confiou do seu pincel a decoração d'um palacio que mandára construir nas margens do Tibre. Raphael quiz ainda dizer o derradeiro adeus á antiguidade, e, antes de voltar ao Vaticano, pinta para o palacio de Agostino dous quadros notabilissimos—GalatheaePsyché.Era então um rapaz que se atirava ao turbilhão da mocidade, ebrio d'esperança e gloria. Sobre o seu temperamento divergem todavia as opiniões; o doutor Macedo Pinto[10]cita-o como sanguineo, e Emilio Deschanel attribue-lhe uma organisação essencialmente nervosa, como a de Bellini e Beethoven.Todavia o maior numero d'historiadores revela-nos que era de melindrosa compleição, e nós, estudando vagarosamente a sua biographia, cuidamos vêr{164}n'elle um nervoso-sanguineo, dotado d'um espirito brilhante, d'estes que parece viverem em incessante combustão, como a salamandra dos antigos vivia nas labaredas fabulosas, e naturalmente propenso aos prazeres desregrados e ás expansões vehementes.Era gentil, tinha uns bellos olhos, rasgados, dôces e meigos, e os seus cabellos pretos, que elle tantas vezes reproduzia em seus quadros, davam-lhe ás faces morenas uma expressão de encantadora doçura.Foi em Roma, que elle amou uma rapariga do povo,fornarina, a filha do padeiro.Muitas vezes, emquanto pintava aGalathea, abandonava a paleta para ir vêrfornarina, cujo retrato se reproduz em quasi todas as obras da segunda metade da vida de Raphael.Por uma d'aquellas manhãs formosas da Italia, em que todo o céo se esbate n'um azul delicioso,fornarina, que estava cuidando d'umas flôres dispostas na janella, levantára de golpe a cabeça, ao sentir passos conhecidos. Se visseis afoguearem-se-lhe as faces no suave carmim das rosas que desabrocham, e brilhar-lhe nos olhos a luz delicada das estrellas que palpitam, dirieis que chegava Raphael.—Raffaelo! exclamára afornarina.—Querida! suspirára Raphael. Não ames tanto as tuas flôres, que eu tenho ciumes d'ellas.—Que remedio! Se é preciso amar as flôres para merecer o teu amor! Já te não lembras de Florença?...—Ah! sempre cruel e formosa!{165}—Quero vêr se, á força de cuidar nas flôres, chego a adquirir os encantos dafioraia.—Por Deus, querida, que me despedaças o coração! Por Deus te juro, que o meu amor é só teu. Não falles dafioraia, que é apenas uma recordação. Todas as flôres de Florença não valem essa poeira branca que te cobre as tranças e faz lembrar a neve da manhã que polvilha a rosa. Querida, se tu soubesses com que vertiginoso enthusiasmo eu vou copiando nas faces daGalatheao colorido dafornarina! Quero deixar o teu retrato no palacio de Agostino; preciso que todos saibam que te amei. Se visses aGalathea, conhecias-te. És tu mesma, é a tua formosura animada pelo meu amor.—Raffaelo, e as flôres que trouxeste de Florença?—Seccaram. É o destino das rosas que vivem um só dia.—Ah! E o amor dafornarinaha-de extinguir-se um dia como as flôres dafioraia. De mim, só ficará no teu coração o orgulho de haveres pintado aGalathea. O quadro, porque é d'um grande artista, ha-de subsistir; mas a lembrança do modêlo ha-de apagar-se primeiro que a tua vida. Que resta dafioraia? ABella-Jardineira. Que ha-de ficar dafornarina? AGalathea. Ella era mulher do povo; eu tambem sou. Cabe-nos a mesma sorte;—o esquecimento. O teu amor é um capricho de artista; é mais um devaneio da tua phantasia, que uma necessidade do teu coração. O artista copia, mas o homem não ama.{166}—Ah! que me offendes. Cala-te, por Deus. Eu não quero que me fira o espinho do resentimento quando encostar a cabeça ao teu regaço no lance extremo. Estou doente, se estou! Tenho vivido só, de sonho em sonho, de esperança em esperança. Sinto que a febre me incendeia o cerebro. É o cansaço. Eu só tenho espirito, e o espirito ama, delira, ensoberbece-se. O espirito dos artistas é lava;—queima, escalda, por isso o corpo succumbe. Restas-me tu, querida. Quero morrer encostado ao teu seio; que os teus labios recolham o ultimo suspiro da minha vida...—Raffaelo, como estás triste, como és apprehensivel! Oh! se te amo perdidamente, loucamente! O ciume é irmão gemeo do amor; não andam um sem o outro. Perdôa-me os desvarios do coração. Culpa é de te amar tanto... Está formoso o dia, o sol é italiano como tu e como eu. Não falles em tristezas, em soffrimentos. Tu, que tens vivido a luctar, não succumbas a ti mesmo. Levantei-me alegre, quando a luz da manhã entrou pela casa dentro. Vim cuidar das minhas flôres, que são tuas. Olha que bonita rosa esta! Sabia que para ti nascia, desabrochou para fazer inveja ao teu pincel. Não ha mais dôce carmim! Olha... Como é formosa!Raphael levou a rosa subitamente aos labios e depois deixou-a cahir no seio.D'outra vez tinha elle acabado um quadro primoroso destinado ao convento do Monte-Oliveto, em Palermo. Correu voz em Roma de ter sossobrado o navio{167}que transportava o quadro. Raphael, como se o seu talento precisasse de novos titulos de gloria, sentiu-se profundamente triste ao saber que perdera uma das suas primeiras obras. Foi nos braços de Fornarina que elle despeitorou as suas tristezas d'artista.—Ah! dizia-lhe elle, era uma formosa cabeça de Christo, em que eu pozera extremo cuidado. E tinha sido feliz na expressão de soffrimento, na pallidez dolorida das faces, na suave tristeza que desabrochava em sorrisos...—Tenho ciumes, Raffaelo. De quem é o teu amor? Meu ou da tua gloria? Fallas d'um quadro que perdeste! E aDisputa do Santo Sacramento? E aEscola de Athenas? EPsyché? EGalathea?—aGalatheaque sou eu, que deve ser o teu quadro dilecto, por que te ama, por que corresponde ao teu amor d'artista! E o Vaticano, Raffaelo? O Vaticano onde o teu nome fica para sempre escripto, para sempre coroado pela maior das realezas do mundo—a gloria!Volvidos dias, chegava noticia a Roma de ter abordado ás praias de Genova a caixa que encerrava o quadro destinado ao mosteiro de Palermo. Perdera-se o navio, a tripolação e as mercadorias, mas o mar respeitára o quadro de Raphael e restituira-o, depondo-o cautelosamente n'uma praia italiana... A magestade do mar tinha respeitado a magestade do genio.ATransfiguração, quadro encommendado pelo cardeal Julio de Médicis, foi o ultimo, se bem que se possa dizer o primeiro de Raphael. «Ha n'esta composição—escreve{168}Valentin no seu livroLes peintres celébres—figuras tão bellas, cabeças de um estylo e d'um caracter tão novos e tão variados, que tem sido olhada, e com razão, por todos os artistas, como a obra mais admiravel que produziu o pincel de Raphael.»Havia pouco tempo que estava concluido o quadro daTransfiguração, quando, habitando em Farneto, recebeu ordem para vir a Roma. Deu-se pressa em obedecer, e chegou coberto de suor ao Vaticano onde se demorára n'uma das vastas salas fallando largamente da fabrica de S. Pedro. Resfriou e, poucas horas depois, entrava em casa subitamente atacado d'uma febre perniciosa, que o arrastou ao tumulo.Quando Fornarina se abeirou do leito, turbaram-se de lagrimas os olhos de Raphael.—Parte, disse-lhe elle. Esperava morrer nos teus braços, mas não posso. Falta-me a coragem. Sempre ha-de haver quem me feche os olhos. Deixa esse triste encargo a Julio Romano que é mais que discipulo do amigo,—é amigo do mestre. Deixa-me vêr bem os teus olhos; quero recordar-me daGlycera. Como me estou lembrando das minhas horas de arroubado trabalho no palacio de Agostino! É o ultimo clarão da memoria que se extingue. Ah! parte, querida, parte. Quero poupar-te ao doloroso espectaculo d'um cadaver alumiado por quatro cirios...N'este momento entrava Julio Romano.Instantes depois, Raphael cahia prostrado no leito, e o discipulo amado colhia nos braços Fornarina para a{169}tirar da camara onde ella sentia os pés chumbados ao pavimento.Quatro pessoas dividiram o espolio do grande artista: Fornarina, Julio Romano, um padre, tio de Raphael, e o cardeal Bibiena, a quem legou uma propriedade que possuia perto do Vaticano.Na sexta-feira santa do anno de 1520, dia em que tinha nascido, rendeu ao Creador a grande alma.O seu cadaver foi collocado n'uma das salas do Vaticano, onde de preferencia costumava trabalhar. Á cabeceira, erguia-se o quadro daTransfiguração.Os olhos dos muitos admiradores que por um momento pousavam no feretro, alteavam-se depois á tela onde o pincel do artista havia traçado a epopêa da sua gloria...{170}[10]Medicina administrativa e legislativa, primeira parte.{171}Luiz RosselQuasi á mesma hora em que o sopro devastador do inverno de 1871 começava a desfolhar a verdura das arvores, as balas de Satory arrancaram do tronco venerando da terceira republica franceza as ultimas folhas denegridas pela polvorada da communa.Havia seis mezes que tres condemnados vacillaram entre a vida e a morte, na mais cruel e dolorosa incerteza com que se póde opprimir um homem dentro das quatro paredes do carcere. O conselho de guerra, presidido pelo coronel Merlin, havia sentenciado á pena ultima os communistas Rossel, Ferré e Bourgeois. Os processos foram enviados á commissão de indultos e desde então começou a ancia, a duvida, o maximo supplicio. E a commissão não se lembrava talvez de que{172}per si mesma impunha uma nova pena, cruciante e horrivel, a tres presos cuja sorte ella podia melhorar, confirmando a sentença, sem tão deshumanas delongas! Grandes criminosos deviam de ser estes homens, que anteprovaram as agonias da morte durante cento e oitenta dias de carcere!Um d'elles, Luiz Rossel, despertára profundas e geraes sympathias.Durante esses seis mezes de suprema tribulação, era-lhe consolo extremo a dôce companhia de um padre. Os seus olhos marejavam-se de lagrimas quando a saudade da familia acudia intensa a despedaçar-lhe o coração. Com que dolorido enthusiasmo não fallava elle de seu pai, de sua mãi, das suas pequenas irmãs, Bella e Sara!O sacerdote protestante que lhe assistia pôde sondar-lhe vagarosamente as serenas profundezas da sua alma, e o resultado d'esta longa e piedosa observação foi o demover-se voluntariamente a pedir misericordia á commissão d'indultos e ao presidente da republica franceza.«De todos os pontos da França—escrevia o padre Passa—vos dirigem esta supplica. Soffrei que vos seja tambem enviada do quarto onde, ha seis mezes, o sentenciado e o padre se encontram, debaixo das vistas de Deus, para se preparar para a morte.»«De todos os pontos da França!» escrevia o assistente espiritual de Rossel. Que crime tinha então commettido elle que inspirava tamanha compaixão? Rossel{173}desertára das tropas de Versailles para as tropas da communa.Fôra julgado desertor e condemnado á morte. Henrique Rochefort, que desertára tambem da republica para a communa, fôra simplesmente condemnado a deportação para uma fortaleza. Quer dizer, a Rochefort, espirito ambicioso e fluctuante, ficava com a vida a esperança da amnistia. Rossel, que, por um impeto de louca mocidade, tomára parte na revolução de 18 de março, era condemnado sem appellação nem aggravo.Porque desertára Rossel? Expliquemos. Rossel não era d'estes lymphaticos que transigem com os peores homens e com as peores cousas, esperançados em que tudo será pelo melhor,—embora o melhor venha longe. Era um nervoso, d'estes que sacrificam a vida aos acontecimentos, no intuito de susterem audazmente a machina incansavel das fatalidades terrenas e humanas.Em dezembro de 1870 escrevia elle a Gambetta, então ministro da guerra na republica:«Eu esperava que as noticias favoraveis que recebestes ácerca do meu comportamento em Metz, e a boa vontade, de que eu tenho dado provas, para a defeza do meu paiz, forneceriam occasião de vos elucidar sobre a guerra actual, de vos notar as faltas de organisação e de estrategia que se commettiam diariamente, e que vos conduziam a uma derrota.»E mais abaixo, desconfortado pela inhabilidade dos generaes republicanos, acrescentava:{174}«Em nome da nossa fé commum na patria e na liberdade, concedei-me um cargo importante, dai-me o meio de vos provar que eu sei a guerra, de vos expôr as razões das vossas derrotas passadas e dos desastres que vós vos preparaes.»Afigura-se-vos isto a febre do orgulho? Não. Isto é a expansibilidade da nevrose, a consciencia de se valer alguma cousa, embora os meticulosos ateimem que as flôres da mocidade não chegam a ser fructo porque as desfolham sempre os vendavaes da paixão. Não. Rossel não estava obcecado pela amaurose da exaltação partidaria, e tanto não estava que começava a desacoroçoar da republica e dos republicanos, e escrevia ainda a Gambetta estas palavras:Não comprehendi nunca o que vós fazieis no vosso gabinete. Quando me lembro que Napoleão resumia em algumas horas por semana esse trabalho de contencioso a que vos reduziram, tomo o partido do despota contra vós. Elle fazia a guerra, e vós, vós, deixastes fazel-a. O vosso governo não foi um governo de combate; pareceu-se muito com o que o precedeu: muitas secretarías,—e muito pouca policia.»O desalento lavrou fundo no coração de Rossel. Em 19 de março de 1871 escrevia do campo de Nevers ao general ministro da guerra em Versailles:«Meu general:Tenho a honra de vos informar de que me dirijo a Pariz para me pôr á disposição das fôrças governamentaes{175}que se possam constituir. Instruido por um despacho de Versailles tornado publico hoje, de que ha dous partidos em lucta no paiz,colloco-me sem hesitação do lado d'aquelle que não assignou a paz e que não conta nas suas fileiras generaes culpados das capitulações.Tomando uma tão grave e tão dolorosa resolução, sinto deixar em suspensão o serviço de engenharia do campo de Nevers, que me tinha confiado o governo de 4 de setembro.Entrego este serviço, que apenas consiste em assentos d'artigos de despezas e escripta de contabilidade, a M. F., tenente de engenharia auxiliar, homem recto e experimentado, que ficou ás minhas ordens por determinação de mr. o general Vergne, em virtude do vosso despacho datado de 5 do mez corrente.Eu vos informo summariamente, por carta dirigida á repartição do material, do estado em que deixo o serviço.Tenho a honra de ser,Meu general,Vosso muito obediente e dedicado servoL. Rossel.»Data da expedição d'esta carta a deserção de Rossel. Chegado a Pariz, não sentiu revigorar-lhe o coração enfermo de desalento uma esperança vivificadora. Ao lêr nos editaes affixados nas ruas os nomes de Lullier{176}e Assi, sentiu recrudescer o desgosto que lhe enervava a alma. Ainda assim quiz justificar o seu procedimento perante a sua mesma consciencia, e aceitou o cargo que o Hotel de Ville lhe conferiu. Então foi o succederem-se as intermittencias de esperança e desconforto, e por mais d'uma vez o assaltou a idéa de abandonar Pariz. As tropas estavam indisciplinadas, os generaes eram ineptos, e elle, pobre louco! já não acreditava na communa para confiar unicamente na propria coragem e na propria dedicação. N'esta conjunctura organisou-se acour martiale, cujo presidente era. «O aceitar as funcções de presidente d'este tribunal,—escreveu elle—é o maior sacrificio que eu tenho feito e que eu podia fazer á causa da Revolução. Inimigo das revoluções, as circumstancias me lançaram n'uma revolução; aborrecendo a guerra civil, estava mettido na guerra civil. Tratava-se agora de presidir a um tribunal revolucionario, um tribunal que só pronunciaria sentenças de morte.Se eu tivesse a defender-me da accusação d'ambição, o aceitar dolorosamente este cargo seria talvez o argumento mais forte que eu poderia produzir. Que interesse tem um ambicioso em manchar as mãos? Seria um ambicioso bem louco, ou bem desprovido de estudo para ir ensanguentar o meu nome em funcções subalternas. Ha apenas uma explicação razoavel para o meu procedimento,—é que eu me sacrifiquei á Revolução. Não tinha escolhido nenhuma das funcções de que fui successivamente encarregado, mas não recusei{177}nenhuma. N'estes momentos de similhantes crises é preciso ter a dedicação d'um sectario.» Mal entrou no ministerio, no dia 30 d'abril, occupou-se Rossel de tomar as medidas mais urgentes, que vinham a ser o soldo, a disciplina e a organisação de forças activas. Então começaram a empecer a sua boa vontade as intrigas e complicações que elle não podia desviar com o pé por serem numerosas e constantes.«A recordação de todos estes revolucionarios presumpçosos,—diz elle—mas desprovidos d'estudos e d'energia, capazes de ordenar um assalto talvez, mas não d'uma vontade e d'um proposito firme, esta recordação, digo eu, é para mim um pesadelo.»Não obstante estes dissabores que soffria silencioso, empenhava-se na organisação de tropas activas, medida que era sempre contrariada por obstaculos cada vez maiores.A designação de—regimentos,—que elle adoptára, em vez de—brigadas—, para não augmentar o numero de generaes «fez sombra aos chefes de legião, que receiavam vêr-se desapossados da sua authoridade por esta combinação», escrevia Rossel de proprio punho.A defeza do forte de Issy era o alvo dos seus mais ardentes cuidados, sendo que o general La Cecilia havia retirado as tropas que defendiam a aldêa e o forte d'aquelle nome. Em vão tentou Rossel reunil-as de novo, e procurou organisar forças para fazer rosto ao violento bombardeamento do inimigo.{178}Este era o seu empenho maximo. N'esta conjunctura reuniram-se os chefes de legião para protestar contra a formação dos regimentos, e muitos procuraram Rossel para lhe fazer sentir que a sua authoridade d'elles era sufficiente para mobilisar as tropas immediatamente. O certo é que na noite d'esse mesmo dia o avisaram de que não podiam pôr em movimento as tropas que tinham promettido.Rossel, inteiramente desacoroçoado, demittiu-se, e poucas horas depois fluctuava a bandeira tricolor no forte d'Issy, abandonado na vespera pela guarnição, sem que lhe fosse possivel fazel-o reoccupar. Não obstante as instancias com que foi solicitado para retirar a demissão, accusaram-n'o de haver contribuido para a perda do forte, de haver aspirado a tyrannia, e de ter recebido quinhentos mil francos para realisar a traição.Não é pois sem fidelidade historica que Pinheiro Chagas escrevia, ha pouco tempo, noDiario de Noticias:«E não foi uma desgraça para a França a morte de Rossel? Foi, era uma cabeça energica, cheia de vida, de talento e de patriotismo, e, o que é mais ainda, cheia de profundissimo desprezo por aquella gente da communa, com a qual a sua ambição e o acaso das circumstancias o tinham obrigado a pactuar. E elles sabiam-n'o, tanto que Rossel esteve umas poucas de vezes para ser fuzilado por elles. A assembléa entendeu que devia cumprir as ultimas vontades da communa,{179}e fuzilou Rossel. Confundiu a causa d'este nobre revolucionario com a dos homens, que lhe causavam a elle repugnancia, quiz dar emfim um martyr á communa! Santa gente!»A nobre alma de Rossel nada perdeu da sua grandeza epica dentro das quatro paredes do carcere.A mocidade e o temperamento, duas correntes fataes para o homem, desvairaram-n'o.«Quando me juntei á insurreição—escrevia Rossel do caderno das suas notas intimas—não contava com o successo, não esperava chegar a uma das primeiras posições. Obedeci a um dever politico; quando rebenta a guerra civil, cada cidadão deve sustentar o seu partido. Republicano, meu lugar era em Paris.»Que não era ambicioso, especulador e ignobil claramente o evidenceiam estas palavras, escriptas entre ferros, com os olhos postos no tumulo.Podemos afoutamente acredital-as, porque, como escrevia o padre Passa á commissão d'indultos—sempre se é sincero em presença da morte.» Rossel, antes da deserção, era geralmente estimado pelos seus merecimentos. Até no momento em que mais refervia a onda vermelha da communa, o consideraram os insurgentes dando-lhe um dos primeiros lugares. Mataram-n'o, perderam-n'o. Embriagou-se com o successo que não esperava. Collocaram-n'o na primeira plana da revolução. Era chefe; não quiz recuar. Simples soldado, teria talvez reflectido, teria talvez retrocedido{180}á voz de seu pai para offerecer mais um braço á causa da ordem, que era a causa da patria.Os estudantes de Pariz foram a Versailles pedir o perdão de Rossel. A manifestação foi ruidosa, compacta, mas prudente. Era a derradeira esperança. Todavia o tronco venerando da republica queria sacudir de si as ultimas folhas denegridas pela polvorada da communa. Sibilaram as balas,—as folhas cahiram. A republica deixava passeiar impunemente em França os mais respeitados amigos da communa, a republica deixava resfolegar a Internacional, mas mandava fuzilar Rossel.Ferré e Bourgeois não mereciam a camaradagem de Rossel, ainda quando os comecemos a estudar no carcere. Todos os que visinharam de Rossel se sentiram commovidos: Cassel, carcereiro; Alberto Joly, seu advogado; o padre Passa, seu director especial.Momentos depois de commungar, escrevia Rossel esta carta a uma das mais queridas pessoas da sua familia,—sua avó:«A mistress Isabella Campbell:Adeus, madrinha, amo-te.28 de novembro de 1871.Acabamos de commungar, mr. Passa e eu, e Deus abençoou a nossa communhão.Posso dizer que é a primeira vez que commungo, e estou extremamente agradecido a Jesus Christo, que nos deixou este symbolo.»Sentindo nas veias o frio do tumulo, momentos{181}depois de ter recebido a particula sagrada, um dos mais commoventes e sublimes actos da religião christã, perante o qual se sentem impressionados os mais duros corações, ao qual ninguem póde assistir sem chorar,—Rossel não mentia.Depois da patria, como elle amava a familia!«Não posso supportar—escrevia no carcere—que se faça soffrer meus paes. Pelo que me respeita, tenho a epiderme dura, e estou tão pouco preoccupado com a eventualidade d'uma morte imminente, que a mim mesmo pergunto muitas vezes se não será uma insensibilidade doentia da minha parte. Mas o que não concebo, é que differindo sempre uma resolução, dissimulando a decisão que já esta tomada, façam soffrer uma longa agonia a meus paes, que não commetteram outro crime que não fosse o de me ensinarem a amar o meu paiz.»São docemente dolorosas estas palavras:«A vista de meus paes magoa-me. Hontem contava-me minha mãi os passos que deu na vespera; de repente interrompe-se: «Não posso mais! já nem me lembro! estou douda, vês tu!» Minha irmã, que estava mais serena, continuou a narração, que eu não pude ouvir. Eu via-os, eu ouvia-os; eis tudo; pouco me importava o resto. Hoje era minha mãi que estava serena e minha irmã que parecia louca. Todavia nós estavamos tranquillos hontem á noite. Mr. Passa havia-nos socegado!«Mas eu tenho confiança—diz minha mãi—eu{182}tenho confiança; elles não te farão nada.» Pai, falla d'outra cousa: do forte de Santa Margarida, do ultimo desenho que eu fiz, d'aquelle que vou fazer; minha mãi fez-me prometter-lhe dous, e justamente, acabei-lhe o segundo esta noite, feliz por fazer alguma cousa para ella.A pequenita não chora, mas tem o coração cheio de lagrimas.«Tambem a ti—lhe digo-eu—tambem te fazem soffrer!» N'este meio tempo, ella rompe em soluços, por que lhe faltou a coragem.»Os seus ultimos momentos foram para a sua alma e para a sua familia.Está revestido d'uma resignação providencial. Vai morrer, porque deve morrer. Não treme. Mas, ao fallar de seus paes, de suas irmãs, dos seus, salta-lhe dos olhos uma lagrima. Era a ultima. O valente não tornou a chorar. Quer porém mandar-lhes a ultima palavra de saudade. Escreve-lhes, levanta-se tranquillamente da mesa, e abre com firmeza a porta do quarto. Chega o momento de partir. Entram os soldados e choram de o vêr. O gendarme que o tem de algemar estremece e perturba-se. Rossel agradece meigamente as lagrimas que lhe dão, abraça Alberto Joly, abraça o carcereiro Cassel, e desce ao pateo, escoltado pelos soldados e acompanhado pelo padre Passa.Ferré é grosseiro e materialista. Despede estultamente o capellão Folley e escreve a suas irmãs,—crentes{183}e nobres corações de mulher, de certo—que vai morrer como viveu: sem crenças religiosas!Bourgeois, igualmente sordido, mas menos perigoso talvez, come e bebe no seu quarto, embriagando-se para a morte.Pois bem. O mesmo pelotão fuzilou Rossel, Ferré e Bourgeois. O governo de Versailles foi injusto. Não devia emparceirar estes tres homens.Rossel chega ao lugar da execução acompanhado pelo seu confessor, como se quizesse que elle o conduzisse até ao limiar da eternidade. O coronel Merlin, seu juiz, está presente.Rossel quer que lhe façam sciente de que não morre odiando-o, e pede ao seu derradeiro amigo, ao bom Passa, para que lhe ponha a venda.Bourgeois, atordoado pela embriaguez, deixa-se vendar com indifferença.Ferré não consente que lhe velem os olhos, e, materialista, não se dispensa o ultimo regalo;—morre de cigarro na mão, como quem sahe d'uma taberna.Momentos depois entrava o velho pai de Rossel no quarto d'onde sahira o filho. Ao assomar á porta, descobre-se respeitosamente. Alvejam-lhe na cabeça as cans da velhice; tremem-lhe nos olhos as lagrimas da saudade; agita-se-lhe o peito n'uma ancia offegante.Está ainda distincta a pequena cavidade onde descançára a cabeça de Rossel. O velho pai, antes de se ajoelhar, curva-se para o catre, e pousa os labios descorados no travesseiro.{184}O carcereiro, testemunha unica d'esta scena, chora copiosamente, e, instantes depois, quando aperta nos braços o tremulo corpo do velho, orvalha-lhe os cabellos brancos com as lagrimas que não póde reprimir.Quasi ao mesmo tempo, o padre Passa amparava contra o peito as cabeças latejantes de duas creancinhas vestidas de preto,—Bella e Sara, e dizia-lhes commovido:—Não choreis, meus anjos, que vosso irmão está no céo. Acompanhei-o até que Deus m'o recebesse. Não choreis por elle, que é de certo feliz.A imprensa ingleza, como se ouvisse chorar estas duas creanças, levantou-se em massa para protestar contra a morte de Rossel.A republica, que é o regimen da equidade, na bocca dos fanaticos, fez justiça e contentou-se com entregar o cadaver do condemnado á familia que o reclamára. Famosa ironia da republica!O cesarismo dava a toda a França festas ruidosas que deslumbravam o mundo. A republica, menos generosa que o cesarismo, apesar de não menos opulenta, cede galhardamente a cada familia o cadaver d'um homem que lhe pertencia.A França escusava de derramar tanto sangue para ficar como estava.Mr. Thiers dá e recebe condecorações como Luiz Napoleão. Os jantares e os bailes do palacio da presidencia arremedam os jantares e os bailes das Tulherias.{185}Madame Thiers organisa obras de beneficencia como madame Napoleão. D'antes a côrte era em Pariz; agora está em Versailles.D'antes deportavam-se homens para Cayenna e Lambessa; agora fuzilam-se em Satory e Marselha.D'antes applaudia-se Luiz Napoleão; agora applaude-se Adolpho Thiers.Hontem apedrejou-se o imperador dos francezes; ámanhã apedrejar-se-ha o presidente da republica.Ora aqui está porque eu não sou monarchico nem republicano,—porque não quero ser cousa nenhuma.O meu posto é do lado da justiça; onde ella estiver, estou eu. É ainda por esta razão que eu protesto contra as palavras que aFranceatirou para cima do tumulo de Rossel. AFrancedeclara que se absteve de fallar em quanto o processo esteve affecto a um tribunal competente. AFrancefez o que devia; não ha motivo para encarecer-se.Depois, quando o tribunal pronunciou o seuveredictum, quando a sentença foi executada, aFranceenumera as circumstancias aggravantes que o tribunal inventariou, e, constituindo-se em segundo tribunal, sentenceia um cadaver.Recorda aFranceque Rossel encarregado de julgar o commandante de batalhão, Giraud, no dia 19 de abril, fôra implacavel para com o réo, accusado de desobedecer a uma ordem superior e interrompera dez vezes os debates, apostrophando:—Mas finalmente desobedeceu!{186}Foi ainda Rossel que lera a sentença de morte a Giraud e que escrevera estas palavras ao cidadão Laperche:«É prohibido interromper o fogo durante o combate, ainda que o inimigo levante a coronha para o ar ou arvóre a bandeira parlamentar.«É prohibido,sob pena de morte, continuar o fogo depois de se ter dado ordem para o suspender, etc.»«Estas lembranças—pondera aFrance—bastam para dizer o que elle foi durante o seu commando, para dar uma idéa do que teria sido na victoria.»E do que devia de ser no carcere e na morte, esqueceu-se de ponderar aFrance. Uma vez chefe, Rossel não podia dar exemplo de cobardia, assim como, uma vez vencido, não o deu tambem. Não trepidou diante da morte, e se Giraud, que fôra julgado traidor aos seus, não teve a coragem de agradecer a justiça que lhe fizeram, Luiz Rossel enviou ao seu juiz Merlin, por intermedio do padre Passa, estas palavras:—Dizei aos meus juizes que cumpriram o seu dever, condemnando-me.Não satisfeito com isto, encarregou o seu confessor de fazer calmar os odios que por ventura a sua morte levantasse entre os sectarios da idéa que o sacrificára a elle.Eu não defendo Rossel nem fulmino a republica pelo ter mandado fuzilar na esplanada de Satory. Eu condemno a republica que manda matar Rossel e prender Rochefort.{187}Entre Rochefort e Rossel a desproporção é immensa. Rochefort é um aventureiro, que mercadeja com a sua penna e com o seu espirito; Rossel era um homem cheio de coragem e intrepidez, sempre util á causa da idéa que defendesse.Rochefort nogociava; Rossel combatia. Ambos desertaram da republica para a communa, eram igualmente criminosos e todavia Rochefort vive e Rossel está morto.Mas a republica é o regimen da equidade, que exclue o compadrio e a protecção, dizem!Rochefort está preso, ámanhã será amnistiado, fulminará o governo que lhe perdoou, por que Rochefort é d'estes homens que estão sempre do lado da opposição, e recomeçará a negociar litterariamente com aLanterneou oMot d'ordre.Passeiam a sua liberdade em Londres, Bruxellas e na Suissa milhares de communistas francezes. Como é que estes homens poderam enganar a vigilancia das tropas francezas e prussianas que guardavam as fronteiras?Fugiram, salvaram-se, estão contentes e felizes; d'aqui a pouco tempo viverão tranquillamente em França.Rossel, menos venturoso que elles, morreu traspassado de balas.Estrondearam as espingardas;—a folha cahiu.10 de dezembro de 1871.{188}{189}PHYSIOLOGIA ROMANTICAHISTORIA D'UM NERVOSOIMinha mãi era nervosa, hypocondriaca, apprehensivel.Eu nasci portanto sob a influencia fatal da predisposição hereditaria; recebi ao nascer um patrimonio do que se chama em medicina affecções dynamicas.Era eu uma creança de sete annos e vivia sob a vigilancia d'uma criada fanatica, que me fallava todos os dias, ao anoitecer, da resurreição dos mortos, do inferno e do diabo.Minha mãi, que não assistia a estas praticas quotidianas, não abdicava porém todos os seus direitos educativos.Quem me educava o espirito era a criada; quem velava pela minha saude era minha mãi. Resguardava-me{190}o peito com flanellas, prohibia-me que comesse fructas, e não me deixava expôr ao ar, no quintal.Meu pai, cuja vida agitada o trazia sempre por fóra de casa, oppunha-se, nas poucas horas que demorava no lar, a este regimen anti-hygienico. Todavia, como eu estava sempre ao pé de minha mãi, cada vez se me arraigavam mais no espirito os seus habitos.N'esse tempo a gymnastica era um exclusivo dos acrobatas. Uma creança que subisse ao trapezio nivelar-se-hia com os filhos dos saltimbancos.Meu pai, que tinha lido por curiosidade um pouco de hygiene, propoz tomar-me um mestre d'esgrima e de gymnastica. O preconceito d'aquelles tempos oppoz-se. Meu pai, que não tinha tempo para estas luctas familiares, desistiu.Estudava eu instrucção primaria.O professor dizia a minha mãi que eu tinha certa vivacidade intellectual, e que me devia destinar para um curso superior. De dia estudava as minhas lições; á noite lia a Biblia á mesa do chá.Iamos poucas vezes ao theatro.As noites de nossa casa eram tristes.Meu pai jogava com alguns amigos; minha mãi seroava; eu lia, e a criada rezava ao som da minha leitura.Não sei porque, mas eu odiava o theatro.Talvez pela criada velha me ter dito um dia que se não salvava quem morresse n'um espectaculo...{191}IIFiz exame de instrucção primaria e comecei a estudar o latim com um padre decrepito, que morava perto de nossa casa. O padre vivia de jejuns e orações. O seu contacto dava á alma uma tristeza gelida.Eu estudava longas horas, velado pela criada que ia rezando sempre. A concentração do estudo e a convivencia com o padre tornaram-me melancolico. Atravessavam-me o espirito uns horrores vagos do inferno e do dia de juizo. A idéa da morte punha-me medo. De noite tinha sonhos agitados; acordava banhado em suor, a chamar por minha mãi. A criada velha, que dormia perto, dizia-me que rezasse e fizesse por adormecer.Comecei a adoecer frequentemente.{192}Como eu entristecesse cada vez mais, compraram-me uma capella de pau, que eu armava de festa todos os sabbados, e desarmava todas as segundas feiras, antes de ir para a aula.Esta predilecção pelo culto religioso provinha de certo da minha educação biblica e caseira.Fiz exame de latim, ao cabo de dezoito mezes d'estudo.O padre achou isto prodigioso, e disse que as creanças como eu não se vingavam.Eu suppunha o padre muito em relação com as cousas futuras, e tremi da prophecia.{193}IIIQuiz meu pai que eu frequentasse o lyceu.Estudei francez, e logica nas aulas publicas.Os rapazes que me cercavam eram alegres, inquietos, robustos.Esta circumstancia prejudicou-me ainda; eu comparava-me com os meus condiscipulos e achava-me rachitico.Vencidas estas disciplinas, estudei inglez e geographia.Comecei a gostar muito dos poetas inglezes, e a interessar-me pela poesia.Um dia, um rapaz meu condiscipulo emprestou-me aMenina e moçade Bernadim Ribeiro. Esse livro produziu-me uma impressão suavissima; pedi mais livros, e li-os todos.{194}Quando meu pai fez annos, escrevi-lhe umas quadras que conservo ainda; eram simplesmente desastradas.Todavia continuei a ler, e, quando acabei os preparatorios, estava doudamente namorado pela litteratura.Os negocios de meu pai corriam mal, e tive de renunciar a idéa d'um curso superior. Meu pai propoz-me o commercio, e eu aceitei o alvitre. A esse tempo tinha esboçado um poemeto no genero archaico. Quando entrei para um escriptorio commercial, estava ainda o poemeto incompleto. O meu patrão era boçal. A sua presença exercia no meu animo uma influencia tyrannica.Quando elle voltava costas, ia eu escrevendo no poemeto. Um dia surprehendeu-me nas minhas lucubrações poeticas, quiz ver o meu autographo, desatou a rir alarvemente, e despediu-me. Entrei em casa triste, concentrado, apprehensivel.Tinha então dezoito annos.A criada velha havia-me perguntado muitas vezes se eu já tinha sido convidado para a maçonaria.Certo dia li n'uma folha um artigo que desvendava a cegueira popular sobre a maçonaria.Eu não conhecia bem o espirito d'esta associação, mas sympathisei com a maneira porque o jornal desfasia os preconceitos do povo, que eram tambem os meus. Comecei então a pensar na grandeza do problema social que a imprensa se propunha resolver. O{195}jornalismo afigurou-se-me a mais poderosa alavanca dos povos modernos, porque tinha o seu ponto de apoio no pensamento humano.Informei-me sobre a dignidade dos periodicos de aquelle tempo, e soube que o mais digno era portanto aquelle com que mais eu sympathisava.Procurei o redactor, e pedi-lhe um lugar na sua folha. O jornalista procurado, que me pareceu um cavalheiro, sorriu do meu denodo, das minhas illusões talvez, e aceitou-me. Comecei por ser traductor e revisor, e tirava d'essa tarefa salario de que repartia com meu pai.{196}{197}IVEu amava.A minha amada era rosada e loura.Tinha nas tranças o que o céo tem de mais formoso—o sol; e nas faces o que a primavera possue de mais puro—as rosas.Eu era naturalmente triste, e pasmava da metamorphose que se havia operado em mim.Sentia-me assombrado.Tinha vagas aspirações, desejos indefinidos.Queria ser grande.Comecei a estudar. Versei livros de botanica, de zoologia e d'economia politica.O jornalismo afigurava-se-me a escada de Jacob, pela qual eu devia subir ao olympo das grandezas sociaes.{198}Comecei a escrever artigos politicos, e já uma vez por outra se fallava no meu nome.Por esse tempo uma facção militante offereceu-me um circulo.Eu endoudecia de felicidade; começava a vêr realisarem-se os meus desejos.Sahi eleito.Entrei nas camaras, e desgostou-me conhecer de perto o que era aquillo.O meu temperamento desvairava-me.Queria esmagar todos os futeis e todas as futilidades que encravavam a cada momento a marcha da governação publica.Comecei a fallar calorosamente, frequentemente, a querer desmascarar os hypocritas, a apontar os traidores, a desarmar os imbecis.Ao mesmo tempo escrevia para os jornaes do meu partido, e tirava d'ahi os recursos com que vivia modestamente.Um dia um sectario do governo convidou-me a desertar para a facção ministerial, sob promessa d'um despacho.Renunciei dignamente, e lancei mão do facto na camara para fulminar o ministro do reino.Dentro em poucas semanas o chefe do meu partido fusionava com o governo, na esperança de ser nomeado conselheiro d'estado.A maioria ficou por tanto sendo governamental.Ergui-me para fallar.{199}Fui impetuoso, violento, audaz.O presidente notou-me que eu estava fóra da ordem, e retirou-me a palavra.Pedi que se consultasse a camara, e a camara resolveu approvando a resolução da presidencia.Sahi do parlamento, estonteado, febril, delirante.Cheguei a casa, e encontrei uma carta de minha mãi.Soube por ella, que a mulher que eu amava estava perigosamente doente.Dei-me pressa em partir.Todavia a fatalidade andou mais ligeira; quando cheguei, a minha amada tinha morrido.{200}VVi-a no caixão.Era loura ainda. Tremiam-lhe nas tranças os reflexos da eternidade.As rosas da face tinham desmaiado.Em volta da sala havia crepes.Senti um horror instinctivo d'aquelle luto.Ao longe dobrava um sino.Lembrei-me de Goethe que detestava todo este apparato funebre.Se a alma é immortal, para que chorar a minha amada, que renascia para outra vida?Se não é, para que sanctifical-a ainda com estas honras religiosas?Notou alguem que eu estava excessivamente pallido.{202}Tiraram-me da sala, quando eu já não dava accôrdo de mim.Ao outro dia despertei, fatigado e triste, como de um pesadelo horrivel.Estive muito tempo sentado no leito até que me fosse possivel atinar com a realidade.Não sahi n'esse dia, não sahi tambem nos immediatos.Comecei a lêr, a pensar, a propor-me todos os problemas que dementam a cabeça humana.Queria devassar os mysterios d'além-tumulo.Tinha visões, dôres dilacerantes.Chamei um medico, que me disse que as visões eram gastricas e as dôres nevralgicas.Aconselhou-me distracções, passeios, agitação.Desobedeci, e continuei a viver recluso.Passava as noites a passeiar no meu quarto d'um lado para outro; Percebi que a minha pertinacia começava a aborrecer aos meus amigos.A proximidade da pobreza tornava-me quasi louco.Um medico confirmou as minhas suspeitas, e aconselhou-me a sahir immediatamente para o campo.Por acaso, vi n'um jornal um annuncio em que se offerecia um lugar de administrador d'uma casa no Minho.Resolvi-me a trabalhar, apesar de me sentir doente.Offereci os meus serviços, que foram aceites.{203}O rio Lima passa perto da casa que eu administro.O sitio é formoso e saudavel.Comecei a levantar-me de madrugada, a acompanhar os trabalhadores, a dirigir as maltas.Ao domingo ou caço ou pesco.Dispensei-me de pensar, e a minha unica leitura é a do jornal que eu assigno.Detesto profundamente a litteratura, especialmente os versos.Estou d'uma carnação razoavel, sem todavia estar gordo.Umas vezes por outras, pego na enxada ou na fouce, e trabalho tambem.Posso rir-me de vós, ó nervosos esgrouviados, que tendes visões, idiosyncrasias, que viveis n'um inferno.O clarão do vosso espirito vai-vos calcinando o corpo.Dentro em pouco sereis cinzas.O adelgaçamento da raça toma um incremento prodigioso.Os vossos filhos são amarellos e intanguidos; já me não parecem creanças, mas futuras congestões visceraes, dyspepsias, catarrhos vesicaes, nevralgias e affecções calculosas.Pobres d'elles, por vossa causa!Um unico meio póde ainda conservar-vos, a vós, e remil-os a elles d'uma catastrophe imminente.{204}Um grande medico que vos póde salvar,—a Hygiene!Vêde bem que a questão do temperamento é uma questão nacional, porque os nervos da patria começam a ter contracções dolorosas.Na estatistica dos temperamentos, o nervoso é o predominante.Pois bem. Resta um unico meio de salvação, o regimen hygienico.{205}VICostumai-os desde pequenos á gymnastica, não á gymnastica violenta do trapezio, mas á suave gymnastica de quarto.Mandai comprar-lhes aGymnastique de chambre, escripta em allemão por Schreber e traduzida em francez por Delondre.Chegando a primavera, atirai-os para o campo.Deixai-os correr, saltar, e cahir,—e cahir tambem.Vêde bem que é preciso desenvolver-lhes o systema muscular.Urge reformar esta raça enfesada que se está eximindo a cada passo de servir o exercito nacional por não chegar ao estalão.{206}Não deixemos mumificar estes pobres rapazes de vinte annos que se narcotisam com o charuto, que se requeimam com ogrog, e se desvairam com o romance.E as raparigas! ah! e as raparigas!Como ellas querem ser pallidas e languidas!Aos dezoito annos começam a ter enxaquecas, e aos vinte soffrem nevroses,—classicas e romanticas—, como as classificou Balzac naPhysiologia do casamento.Havieis de vêr estas moçoilas do Minho, bellas e rosadas, que volteiam tardes inteiras na valsa, em dias de romagem!Vós, rapazes e raparigas, sois feitos de nevoeiro.Tendes uma transparencia etherea.Um dia, passando um cyclone na Europa, haveis de desapparecer da superficie da terra e subir ao ar em vapor.Depois haverá uma epidemia europêa, porque vós, particulas deleterias, corrompereis a atmosphera, e os animaes que vos respirarem hão-de cahir fulminados.Das alturas de Barroso descerá então uma mocetona que, solidamente organisada, o tufão não logrou empolgar.E da serra da Estrella baixará um beirão que zombou das correntes atmosphericas erguido sobre um penhasco, que serviu muitas vezes de canapé a Viriato.{207}E d'esta mulher e d'este homem nascerá a raça futura.E a proposito de vós, ó gentes de 1872, contar-se-ha o caso de certas mumias que foram desfeitas por um sôpro...FIM
[8]La Prose, leçons faites a la Sorbonne.[9]Traité complet de la theorie et de la pratique de l'harmonie, par Fetis.
[8]La Prose, leçons faites a la Sorbonne.
[9]Traité complet de la theorie et de la pratique de l'harmonie, par Fetis.
{157}
Era um talento enorme.
O pai, artista mediocre mas de juizo claro, ensinou-lhe a dar os primeiros traços, a lançar as primeiras tintas na tela.
Mas é ninho d'Urbino, escondido n'uma das mais graciosas paragens dos Apeninos, era pequeno para tamanha aguia.
O céo d'Italia desdobrava-se n'um azul suavissimo e espelhava-se sobre as aguas tranquillas desde os canaes de Veneza até á bahia de Napoles.
Adivinhava-se que em qualquer parte da Italia sorria a natureza, com todo o esplendor das suas galas, e o amor com a sua infinita doçura.
Elle era moço e artista. O pai adivinhou a gloria d'aquelle destino, e disse-lhe:—Parte.{158}
E partiu, alegre, descuidoso, pensando um pouco na gloria, alguma cousa no amor, e namorando-se mais que do amor e da gloria d'aquella Italia formosissima em que nascera e em que primeiro devia amar.
Dias depois entrava noatelierde Perugino, em Perugia. Um artista hospedava outro.
A recepção foi cordial. Todavia Raphael, porque era elle, queria ser mais alguma cousa do que um simples hospede,—ambicionava ser discipulo.
Esboçou os primeiros quadros, coloriu os primeiros contornos, e o mestre inclinado sobre o hombro do moço pintor já o não queria só como hospede nem o quereria já como rival.
Tinha dezesete annos.
Sorria-lhe a vida e a gloria. Começára pelos retratos, adestrára-se a mão, e Perugino ficára vencido.
Um dia o discipulo quiz voar mais longe, e começou um quadro de largas dimensões, o celebreSposalizio, cujo assumpto delicado e formoso é oCasamento da Virgem.
O artista queria emancipar-se da tutela de Perugino, mas o discipulo, respeitoso e grato, afogava a sua individualidade namaneirado mestre.
Aos vinte annos, todo o talento, que tem balbuciado até ahi, procura quebrar as gramalheiras da imitação.
É a época da liberdade.
Raphael foi encarregado de coadjuvar o seu condiscipulo Pinturricchio na reforma artistica por que ia{159}passar a cathedral de Sienna. Mas Raphael foi mais de que um obscuro collaborador n'aquelle maravilhoso poema da pintura.
Do seu pincel desabrocharam os graciosos frescos, cheios de vida e mocidade, que ainda hoje se conservam em todo o esplendor da belleza.
Um talento assim é tambem athleta; quer luctar. Florença era então a arena dos grandes artistas. Miguel Angelo e Leonardo de Vinci estavam em campo. Perugia era já pequena para Raphael. Partiu para Florença onde podia justar com os dous maiores pintores da Italia. A esperança era o seu anjo da guarda;—a gloria o sonho de todas as horas.
Ah! Florença! Como elle se sentia bem alli, pensando, executando, e dividindo o tempo com a arte e com o amor!
Fóra doatelier, esperavam-n'o os sorrisos da ramilheteira, afioraia; quando estava trabalhando, tinha perto de si as flôres d'ella. E tanto a amava, e tanto a tinha presente quando não a via, que o seu pincel a reproduziu espontaneamente naBella Jardineira, a primeira Virgem de Raphael, quadro admiravel conservado ainda hoje na galeria do Louvre.
Era o cartel atirado a Miguel Angelo e a Leonardo de Vinci. Estava travada a lucta entre os poderosos athletas.
Occupava n'esse tempo o throno pontificio o papa Julio II. Roma ia envolver-se n'um manto de roçagante magestade.{160}
Levantavam-se templos, erigiam-se palacios, encommendavam-se quadros. O torneio das artes mudava-se de Florença para Roma. Alli era a capital do mundo, alli pulsava o coração da Italia; grandeza, esplendor, deslumbramentos olympicos, tudo havia alli.
O architecto encarregado de velar por todas essas maravilhas da arte era Bramante, tio de Raphael.
O amor foi vencido pela gloria. Veio de Roma um convite. Raphael despediu-se dafioraiae aceitou, entre triste e distrahido, umas flôres que ella lhe dera orvalhadas de lagrimas. A florista de Florença ficava com a immortalidade que lhe dera o seu amante; Raphael partia lendo na vastidão do horisonte a epopêa do seu destino...
Roma foi em todos os tempos a fascinação dos artistas. Tudo lá tem voz para cantar as grandezas do passado, e os monumentos arruinados rumorejam ainda hoje as legendas dos maiores artistas do mundo.
Apresentado ao papa Julio II, sentiu-se maior que nunca; o seu pincel era a vara de condão que devia desencantar as maravilhas do Vaticano. Começou pela sala de la Segnatura. O grande pintor mostrou a valentia do seu pulso em quatro quadros differentes que decoram a sala:—a Theologia, a Philosophia, a Poesia e a Justiça.
O papa entrou um dia á sala onde Raphael trabalhava. Extasiou-se diante do prodigio; chamou quatro operarios e mandou desfazer a martello osfrescosque os predecessores de Raphael haviam pintado. Já era{161}muito e ainda não era tudo;—começava a realisação do sonho.
E todavia nos jubilos de Raphael perpassava, de momento a momento, uma sombra; era o pincel de Miguel Angelo. Ambos tinham sido chamados a Roma, collaboravam ambos n'aquella immensa epopêa da renascença artistica da Italia, e todavia não fraternisavam em amiga communhão, nem siquer se tinham permittido a mutua contemplação dos seus quadros. Trabalhava um na capella Sixtina; o outro nas salas do Vaticano. Sempre que vinha a geito o confidenciar com seu tio, ahi lhe segredava Raphael o immenso desejo de conhecer as obras primas de Miguel Angelo. O velho artista ouvia-lhe as confidencias e sorria-se. Mas um dia, Bramante, aproveitando a ausencia de Miguel Angelo, que trazia entre mãos oJuizo Final, abusou da sua qualidade de architecto e entrou com o sobrinho á capella. O mesmo foi pascer Raphael os olhos nas telas de Miguel Angelo e deletrear os segredos artisticos que deviam operar a rapida transformação porque passou o seu talento audaz e gigantesco. A historia consigna muitos d'estes factos, em que um artista que começa parece aquecer-se para uma vida nova nas labaredas que illuminam a alma de outro artista já feito. Corregio, ao relancear os olhos áSanta Ceciliade Raphael, exclama arrebatado: «Anch' io son pittor!»—La Fontaine, ouvindo uma ode de Malherbe, sente incendiar-se-lhe a alma no fogo da inspiração.
Passados dias, Miguel Angelo entra ás salas do Vaticano{162}e não póde conter um grito de admiração. «Ah! disse elle, Raphael imita-me; Raphael estudou-me; Raphael viu o que eu tenho feito!»
E n'esta apostrophe em que espontaneamente rebenta o sincero orgulho d'um grande artista, Miguel Angelo prophetisa, sem o desejar talvez, a gloria que esperava Raphael, como Mozart prophetisa por uma intuição artistica o destino esplendido de Beethoven, e Haydn os triumphos ruidosos de Mozart.
Eram tres homens, Miguel Angelo, Raphael e Leonardo de Vinci que deviam coroar o assombroso monumento do espirito humano começado por Dante e Giotto.
Dante, como diz Charles Clement, resuscita a poesia, Giotto a pintura; Brunelleschi levanta o zimborio deSanta-Maria-del-Fiore; Colombo descobre um mundo; Copernico as leis do universo; Guttemberg espanca as trevas profundas da ignorancia; Savonarola e Luthero despertam a consciencia individual;—Miguel Angelo, Raphael e Leonardo de Vinci rematam a corôa da renascença artistica. Começa o dia da gloria depois d'uma longa noite de dez seculos. Do attrito da antiguidade com a idade media resalta a centelha que devia animar a litteratura, a historia e a arte.
Os iniciadores d'este movimento revolucionario sahiram da raça latina, e portanto eram pagãos. Assim se explica como o paganismo resuscita no catholicismo, como Jupiter se transforma em Christo, e Venus em Magdalena e na Virgem. Da religião catholica{163}nasce a poesia moderna. É um papa, Julio II, que reune em Roma os maiores pintores e os maiores architectos.
As madonas de Raphael teem uma belleza pagã.
A renascença conspira contra o ascetismo primitivo, e assim se inaugura a pintura da historia, porque, como reflectidamente pondera Louis Pfau, a renascença não viu na religião mais que a historia sagrada, e na historia sagrada mais que a historia da humanidade.
Ao tempo que o talento de Raphael começava a assombrar a Italia inteira, um opulento negociante de Sienna, Agostino Chigi, confiou do seu pincel a decoração d'um palacio que mandára construir nas margens do Tibre. Raphael quiz ainda dizer o derradeiro adeus á antiguidade, e, antes de voltar ao Vaticano, pinta para o palacio de Agostino dous quadros notabilissimos—GalatheaePsyché.
Era então um rapaz que se atirava ao turbilhão da mocidade, ebrio d'esperança e gloria. Sobre o seu temperamento divergem todavia as opiniões; o doutor Macedo Pinto[10]cita-o como sanguineo, e Emilio Deschanel attribue-lhe uma organisação essencialmente nervosa, como a de Bellini e Beethoven.
Todavia o maior numero d'historiadores revela-nos que era de melindrosa compleição, e nós, estudando vagarosamente a sua biographia, cuidamos vêr{164}n'elle um nervoso-sanguineo, dotado d'um espirito brilhante, d'estes que parece viverem em incessante combustão, como a salamandra dos antigos vivia nas labaredas fabulosas, e naturalmente propenso aos prazeres desregrados e ás expansões vehementes.
Era gentil, tinha uns bellos olhos, rasgados, dôces e meigos, e os seus cabellos pretos, que elle tantas vezes reproduzia em seus quadros, davam-lhe ás faces morenas uma expressão de encantadora doçura.
Foi em Roma, que elle amou uma rapariga do povo,fornarina, a filha do padeiro.
Muitas vezes, emquanto pintava aGalathea, abandonava a paleta para ir vêrfornarina, cujo retrato se reproduz em quasi todas as obras da segunda metade da vida de Raphael.
Por uma d'aquellas manhãs formosas da Italia, em que todo o céo se esbate n'um azul delicioso,fornarina, que estava cuidando d'umas flôres dispostas na janella, levantára de golpe a cabeça, ao sentir passos conhecidos. Se visseis afoguearem-se-lhe as faces no suave carmim das rosas que desabrocham, e brilhar-lhe nos olhos a luz delicada das estrellas que palpitam, dirieis que chegava Raphael.
—Raffaelo! exclamára afornarina.
—Querida! suspirára Raphael. Não ames tanto as tuas flôres, que eu tenho ciumes d'ellas.
—Que remedio! Se é preciso amar as flôres para merecer o teu amor! Já te não lembras de Florença?...
—Ah! sempre cruel e formosa!{165}
—Quero vêr se, á força de cuidar nas flôres, chego a adquirir os encantos dafioraia.
—Por Deus, querida, que me despedaças o coração! Por Deus te juro, que o meu amor é só teu. Não falles dafioraia, que é apenas uma recordação. Todas as flôres de Florença não valem essa poeira branca que te cobre as tranças e faz lembrar a neve da manhã que polvilha a rosa. Querida, se tu soubesses com que vertiginoso enthusiasmo eu vou copiando nas faces daGalatheao colorido dafornarina! Quero deixar o teu retrato no palacio de Agostino; preciso que todos saibam que te amei. Se visses aGalathea, conhecias-te. És tu mesma, é a tua formosura animada pelo meu amor.
—Raffaelo, e as flôres que trouxeste de Florença?
—Seccaram. É o destino das rosas que vivem um só dia.
—Ah! E o amor dafornarinaha-de extinguir-se um dia como as flôres dafioraia. De mim, só ficará no teu coração o orgulho de haveres pintado aGalathea. O quadro, porque é d'um grande artista, ha-de subsistir; mas a lembrança do modêlo ha-de apagar-se primeiro que a tua vida. Que resta dafioraia? ABella-Jardineira. Que ha-de ficar dafornarina? AGalathea. Ella era mulher do povo; eu tambem sou. Cabe-nos a mesma sorte;—o esquecimento. O teu amor é um capricho de artista; é mais um devaneio da tua phantasia, que uma necessidade do teu coração. O artista copia, mas o homem não ama.{166}
—Ah! que me offendes. Cala-te, por Deus. Eu não quero que me fira o espinho do resentimento quando encostar a cabeça ao teu regaço no lance extremo. Estou doente, se estou! Tenho vivido só, de sonho em sonho, de esperança em esperança. Sinto que a febre me incendeia o cerebro. É o cansaço. Eu só tenho espirito, e o espirito ama, delira, ensoberbece-se. O espirito dos artistas é lava;—queima, escalda, por isso o corpo succumbe. Restas-me tu, querida. Quero morrer encostado ao teu seio; que os teus labios recolham o ultimo suspiro da minha vida...
—Raffaelo, como estás triste, como és apprehensivel! Oh! se te amo perdidamente, loucamente! O ciume é irmão gemeo do amor; não andam um sem o outro. Perdôa-me os desvarios do coração. Culpa é de te amar tanto... Está formoso o dia, o sol é italiano como tu e como eu. Não falles em tristezas, em soffrimentos. Tu, que tens vivido a luctar, não succumbas a ti mesmo. Levantei-me alegre, quando a luz da manhã entrou pela casa dentro. Vim cuidar das minhas flôres, que são tuas. Olha que bonita rosa esta! Sabia que para ti nascia, desabrochou para fazer inveja ao teu pincel. Não ha mais dôce carmim! Olha... Como é formosa!
Raphael levou a rosa subitamente aos labios e depois deixou-a cahir no seio.
D'outra vez tinha elle acabado um quadro primoroso destinado ao convento do Monte-Oliveto, em Palermo. Correu voz em Roma de ter sossobrado o navio{167}que transportava o quadro. Raphael, como se o seu talento precisasse de novos titulos de gloria, sentiu-se profundamente triste ao saber que perdera uma das suas primeiras obras. Foi nos braços de Fornarina que elle despeitorou as suas tristezas d'artista.
—Ah! dizia-lhe elle, era uma formosa cabeça de Christo, em que eu pozera extremo cuidado. E tinha sido feliz na expressão de soffrimento, na pallidez dolorida das faces, na suave tristeza que desabrochava em sorrisos...
—Tenho ciumes, Raffaelo. De quem é o teu amor? Meu ou da tua gloria? Fallas d'um quadro que perdeste! E aDisputa do Santo Sacramento? E aEscola de Athenas? EPsyché? EGalathea?—aGalatheaque sou eu, que deve ser o teu quadro dilecto, por que te ama, por que corresponde ao teu amor d'artista! E o Vaticano, Raffaelo? O Vaticano onde o teu nome fica para sempre escripto, para sempre coroado pela maior das realezas do mundo—a gloria!
Volvidos dias, chegava noticia a Roma de ter abordado ás praias de Genova a caixa que encerrava o quadro destinado ao mosteiro de Palermo. Perdera-se o navio, a tripolação e as mercadorias, mas o mar respeitára o quadro de Raphael e restituira-o, depondo-o cautelosamente n'uma praia italiana... A magestade do mar tinha respeitado a magestade do genio.
ATransfiguração, quadro encommendado pelo cardeal Julio de Médicis, foi o ultimo, se bem que se possa dizer o primeiro de Raphael. «Ha n'esta composição—escreve{168}Valentin no seu livroLes peintres celébres—figuras tão bellas, cabeças de um estylo e d'um caracter tão novos e tão variados, que tem sido olhada, e com razão, por todos os artistas, como a obra mais admiravel que produziu o pincel de Raphael.»
Havia pouco tempo que estava concluido o quadro daTransfiguração, quando, habitando em Farneto, recebeu ordem para vir a Roma. Deu-se pressa em obedecer, e chegou coberto de suor ao Vaticano onde se demorára n'uma das vastas salas fallando largamente da fabrica de S. Pedro. Resfriou e, poucas horas depois, entrava em casa subitamente atacado d'uma febre perniciosa, que o arrastou ao tumulo.
Quando Fornarina se abeirou do leito, turbaram-se de lagrimas os olhos de Raphael.
—Parte, disse-lhe elle. Esperava morrer nos teus braços, mas não posso. Falta-me a coragem. Sempre ha-de haver quem me feche os olhos. Deixa esse triste encargo a Julio Romano que é mais que discipulo do amigo,—é amigo do mestre. Deixa-me vêr bem os teus olhos; quero recordar-me daGlycera. Como me estou lembrando das minhas horas de arroubado trabalho no palacio de Agostino! É o ultimo clarão da memoria que se extingue. Ah! parte, querida, parte. Quero poupar-te ao doloroso espectaculo d'um cadaver alumiado por quatro cirios...
N'este momento entrava Julio Romano.
Instantes depois, Raphael cahia prostrado no leito, e o discipulo amado colhia nos braços Fornarina para a{169}tirar da camara onde ella sentia os pés chumbados ao pavimento.
Quatro pessoas dividiram o espolio do grande artista: Fornarina, Julio Romano, um padre, tio de Raphael, e o cardeal Bibiena, a quem legou uma propriedade que possuia perto do Vaticano.
Na sexta-feira santa do anno de 1520, dia em que tinha nascido, rendeu ao Creador a grande alma.
O seu cadaver foi collocado n'uma das salas do Vaticano, onde de preferencia costumava trabalhar. Á cabeceira, erguia-se o quadro daTransfiguração.
Os olhos dos muitos admiradores que por um momento pousavam no feretro, alteavam-se depois á tela onde o pincel do artista havia traçado a epopêa da sua gloria...{170}
[10]Medicina administrativa e legislativa, primeira parte.
[10]Medicina administrativa e legislativa, primeira parte.
{171}
Quasi á mesma hora em que o sopro devastador do inverno de 1871 começava a desfolhar a verdura das arvores, as balas de Satory arrancaram do tronco venerando da terceira republica franceza as ultimas folhas denegridas pela polvorada da communa.
Havia seis mezes que tres condemnados vacillaram entre a vida e a morte, na mais cruel e dolorosa incerteza com que se póde opprimir um homem dentro das quatro paredes do carcere. O conselho de guerra, presidido pelo coronel Merlin, havia sentenciado á pena ultima os communistas Rossel, Ferré e Bourgeois. Os processos foram enviados á commissão de indultos e desde então começou a ancia, a duvida, o maximo supplicio. E a commissão não se lembrava talvez de que{172}per si mesma impunha uma nova pena, cruciante e horrivel, a tres presos cuja sorte ella podia melhorar, confirmando a sentença, sem tão deshumanas delongas! Grandes criminosos deviam de ser estes homens, que anteprovaram as agonias da morte durante cento e oitenta dias de carcere!
Um d'elles, Luiz Rossel, despertára profundas e geraes sympathias.
Durante esses seis mezes de suprema tribulação, era-lhe consolo extremo a dôce companhia de um padre. Os seus olhos marejavam-se de lagrimas quando a saudade da familia acudia intensa a despedaçar-lhe o coração. Com que dolorido enthusiasmo não fallava elle de seu pai, de sua mãi, das suas pequenas irmãs, Bella e Sara!
O sacerdote protestante que lhe assistia pôde sondar-lhe vagarosamente as serenas profundezas da sua alma, e o resultado d'esta longa e piedosa observação foi o demover-se voluntariamente a pedir misericordia á commissão d'indultos e ao presidente da republica franceza.
«De todos os pontos da França—escrevia o padre Passa—vos dirigem esta supplica. Soffrei que vos seja tambem enviada do quarto onde, ha seis mezes, o sentenciado e o padre se encontram, debaixo das vistas de Deus, para se preparar para a morte.»
«De todos os pontos da França!» escrevia o assistente espiritual de Rossel. Que crime tinha então commettido elle que inspirava tamanha compaixão? Rossel{173}desertára das tropas de Versailles para as tropas da communa.
Fôra julgado desertor e condemnado á morte. Henrique Rochefort, que desertára tambem da republica para a communa, fôra simplesmente condemnado a deportação para uma fortaleza. Quer dizer, a Rochefort, espirito ambicioso e fluctuante, ficava com a vida a esperança da amnistia. Rossel, que, por um impeto de louca mocidade, tomára parte na revolução de 18 de março, era condemnado sem appellação nem aggravo.
Porque desertára Rossel? Expliquemos. Rossel não era d'estes lymphaticos que transigem com os peores homens e com as peores cousas, esperançados em que tudo será pelo melhor,—embora o melhor venha longe. Era um nervoso, d'estes que sacrificam a vida aos acontecimentos, no intuito de susterem audazmente a machina incansavel das fatalidades terrenas e humanas.
Em dezembro de 1870 escrevia elle a Gambetta, então ministro da guerra na republica:
«Eu esperava que as noticias favoraveis que recebestes ácerca do meu comportamento em Metz, e a boa vontade, de que eu tenho dado provas, para a defeza do meu paiz, forneceriam occasião de vos elucidar sobre a guerra actual, de vos notar as faltas de organisação e de estrategia que se commettiam diariamente, e que vos conduziam a uma derrota.»
E mais abaixo, desconfortado pela inhabilidade dos generaes republicanos, acrescentava:{174}
«Em nome da nossa fé commum na patria e na liberdade, concedei-me um cargo importante, dai-me o meio de vos provar que eu sei a guerra, de vos expôr as razões das vossas derrotas passadas e dos desastres que vós vos preparaes.»
Afigura-se-vos isto a febre do orgulho? Não. Isto é a expansibilidade da nevrose, a consciencia de se valer alguma cousa, embora os meticulosos ateimem que as flôres da mocidade não chegam a ser fructo porque as desfolham sempre os vendavaes da paixão. Não. Rossel não estava obcecado pela amaurose da exaltação partidaria, e tanto não estava que começava a desacoroçoar da republica e dos republicanos, e escrevia ainda a Gambetta estas palavras:
Não comprehendi nunca o que vós fazieis no vosso gabinete. Quando me lembro que Napoleão resumia em algumas horas por semana esse trabalho de contencioso a que vos reduziram, tomo o partido do despota contra vós. Elle fazia a guerra, e vós, vós, deixastes fazel-a. O vosso governo não foi um governo de combate; pareceu-se muito com o que o precedeu: muitas secretarías,—e muito pouca policia.»
O desalento lavrou fundo no coração de Rossel. Em 19 de março de 1871 escrevia do campo de Nevers ao general ministro da guerra em Versailles:
«Meu general:
Tenho a honra de vos informar de que me dirijo a Pariz para me pôr á disposição das fôrças governamentaes{175}que se possam constituir. Instruido por um despacho de Versailles tornado publico hoje, de que ha dous partidos em lucta no paiz,colloco-me sem hesitação do lado d'aquelle que não assignou a paz e que não conta nas suas fileiras generaes culpados das capitulações.
Tomando uma tão grave e tão dolorosa resolução, sinto deixar em suspensão o serviço de engenharia do campo de Nevers, que me tinha confiado o governo de 4 de setembro.
Entrego este serviço, que apenas consiste em assentos d'artigos de despezas e escripta de contabilidade, a M. F., tenente de engenharia auxiliar, homem recto e experimentado, que ficou ás minhas ordens por determinação de mr. o general Vergne, em virtude do vosso despacho datado de 5 do mez corrente.
Eu vos informo summariamente, por carta dirigida á repartição do material, do estado em que deixo o serviço.
Tenho a honra de ser,
Meu general,
Vosso muito obediente e dedicado servo
L. Rossel.»
Data da expedição d'esta carta a deserção de Rossel. Chegado a Pariz, não sentiu revigorar-lhe o coração enfermo de desalento uma esperança vivificadora. Ao lêr nos editaes affixados nas ruas os nomes de Lullier{176}e Assi, sentiu recrudescer o desgosto que lhe enervava a alma. Ainda assim quiz justificar o seu procedimento perante a sua mesma consciencia, e aceitou o cargo que o Hotel de Ville lhe conferiu. Então foi o succederem-se as intermittencias de esperança e desconforto, e por mais d'uma vez o assaltou a idéa de abandonar Pariz. As tropas estavam indisciplinadas, os generaes eram ineptos, e elle, pobre louco! já não acreditava na communa para confiar unicamente na propria coragem e na propria dedicação. N'esta conjunctura organisou-se acour martiale, cujo presidente era. «O aceitar as funcções de presidente d'este tribunal,—escreveu elle—é o maior sacrificio que eu tenho feito e que eu podia fazer á causa da Revolução. Inimigo das revoluções, as circumstancias me lançaram n'uma revolução; aborrecendo a guerra civil, estava mettido na guerra civil. Tratava-se agora de presidir a um tribunal revolucionario, um tribunal que só pronunciaria sentenças de morte.
Se eu tivesse a defender-me da accusação d'ambição, o aceitar dolorosamente este cargo seria talvez o argumento mais forte que eu poderia produzir. Que interesse tem um ambicioso em manchar as mãos? Seria um ambicioso bem louco, ou bem desprovido de estudo para ir ensanguentar o meu nome em funcções subalternas. Ha apenas uma explicação razoavel para o meu procedimento,—é que eu me sacrifiquei á Revolução. Não tinha escolhido nenhuma das funcções de que fui successivamente encarregado, mas não recusei{177}nenhuma. N'estes momentos de similhantes crises é preciso ter a dedicação d'um sectario.» Mal entrou no ministerio, no dia 30 d'abril, occupou-se Rossel de tomar as medidas mais urgentes, que vinham a ser o soldo, a disciplina e a organisação de forças activas. Então começaram a empecer a sua boa vontade as intrigas e complicações que elle não podia desviar com o pé por serem numerosas e constantes.
«A recordação de todos estes revolucionarios presumpçosos,—diz elle—mas desprovidos d'estudos e d'energia, capazes de ordenar um assalto talvez, mas não d'uma vontade e d'um proposito firme, esta recordação, digo eu, é para mim um pesadelo.»
Não obstante estes dissabores que soffria silencioso, empenhava-se na organisação de tropas activas, medida que era sempre contrariada por obstaculos cada vez maiores.
A designação de—regimentos,—que elle adoptára, em vez de—brigadas—, para não augmentar o numero de generaes «fez sombra aos chefes de legião, que receiavam vêr-se desapossados da sua authoridade por esta combinação», escrevia Rossel de proprio punho.
A defeza do forte de Issy era o alvo dos seus mais ardentes cuidados, sendo que o general La Cecilia havia retirado as tropas que defendiam a aldêa e o forte d'aquelle nome. Em vão tentou Rossel reunil-as de novo, e procurou organisar forças para fazer rosto ao violento bombardeamento do inimigo.{178}Este era o seu empenho maximo. N'esta conjunctura reuniram-se os chefes de legião para protestar contra a formação dos regimentos, e muitos procuraram Rossel para lhe fazer sentir que a sua authoridade d'elles era sufficiente para mobilisar as tropas immediatamente. O certo é que na noite d'esse mesmo dia o avisaram de que não podiam pôr em movimento as tropas que tinham promettido.
Rossel, inteiramente desacoroçoado, demittiu-se, e poucas horas depois fluctuava a bandeira tricolor no forte d'Issy, abandonado na vespera pela guarnição, sem que lhe fosse possivel fazel-o reoccupar. Não obstante as instancias com que foi solicitado para retirar a demissão, accusaram-n'o de haver contribuido para a perda do forte, de haver aspirado a tyrannia, e de ter recebido quinhentos mil francos para realisar a traição.
Não é pois sem fidelidade historica que Pinheiro Chagas escrevia, ha pouco tempo, noDiario de Noticias:
«E não foi uma desgraça para a França a morte de Rossel? Foi, era uma cabeça energica, cheia de vida, de talento e de patriotismo, e, o que é mais ainda, cheia de profundissimo desprezo por aquella gente da communa, com a qual a sua ambição e o acaso das circumstancias o tinham obrigado a pactuar. E elles sabiam-n'o, tanto que Rossel esteve umas poucas de vezes para ser fuzilado por elles. A assembléa entendeu que devia cumprir as ultimas vontades da communa,{179}e fuzilou Rossel. Confundiu a causa d'este nobre revolucionario com a dos homens, que lhe causavam a elle repugnancia, quiz dar emfim um martyr á communa! Santa gente!»
A nobre alma de Rossel nada perdeu da sua grandeza epica dentro das quatro paredes do carcere.
A mocidade e o temperamento, duas correntes fataes para o homem, desvairaram-n'o.
«Quando me juntei á insurreição—escrevia Rossel do caderno das suas notas intimas—não contava com o successo, não esperava chegar a uma das primeiras posições. Obedeci a um dever politico; quando rebenta a guerra civil, cada cidadão deve sustentar o seu partido. Republicano, meu lugar era em Paris.»
Que não era ambicioso, especulador e ignobil claramente o evidenceiam estas palavras, escriptas entre ferros, com os olhos postos no tumulo.
Podemos afoutamente acredital-as, porque, como escrevia o padre Passa á commissão d'indultos—sempre se é sincero em presença da morte.» Rossel, antes da deserção, era geralmente estimado pelos seus merecimentos. Até no momento em que mais refervia a onda vermelha da communa, o consideraram os insurgentes dando-lhe um dos primeiros lugares. Mataram-n'o, perderam-n'o. Embriagou-se com o successo que não esperava. Collocaram-n'o na primeira plana da revolução. Era chefe; não quiz recuar. Simples soldado, teria talvez reflectido, teria talvez retrocedido{180}á voz de seu pai para offerecer mais um braço á causa da ordem, que era a causa da patria.
Os estudantes de Pariz foram a Versailles pedir o perdão de Rossel. A manifestação foi ruidosa, compacta, mas prudente. Era a derradeira esperança. Todavia o tronco venerando da republica queria sacudir de si as ultimas folhas denegridas pela polvorada da communa. Sibilaram as balas,—as folhas cahiram. A republica deixava passeiar impunemente em França os mais respeitados amigos da communa, a republica deixava resfolegar a Internacional, mas mandava fuzilar Rossel.
Ferré e Bourgeois não mereciam a camaradagem de Rossel, ainda quando os comecemos a estudar no carcere. Todos os que visinharam de Rossel se sentiram commovidos: Cassel, carcereiro; Alberto Joly, seu advogado; o padre Passa, seu director especial.
Momentos depois de commungar, escrevia Rossel esta carta a uma das mais queridas pessoas da sua familia,—sua avó:
«A mistress Isabella Campbell:
Adeus, madrinha, amo-te.
28 de novembro de 1871.
Acabamos de commungar, mr. Passa e eu, e Deus abençoou a nossa communhão.
Posso dizer que é a primeira vez que commungo, e estou extremamente agradecido a Jesus Christo, que nos deixou este symbolo.»
Sentindo nas veias o frio do tumulo, momentos{181}depois de ter recebido a particula sagrada, um dos mais commoventes e sublimes actos da religião christã, perante o qual se sentem impressionados os mais duros corações, ao qual ninguem póde assistir sem chorar,—Rossel não mentia.
Depois da patria, como elle amava a familia!
«Não posso supportar—escrevia no carcere—que se faça soffrer meus paes. Pelo que me respeita, tenho a epiderme dura, e estou tão pouco preoccupado com a eventualidade d'uma morte imminente, que a mim mesmo pergunto muitas vezes se não será uma insensibilidade doentia da minha parte. Mas o que não concebo, é que differindo sempre uma resolução, dissimulando a decisão que já esta tomada, façam soffrer uma longa agonia a meus paes, que não commetteram outro crime que não fosse o de me ensinarem a amar o meu paiz.»
São docemente dolorosas estas palavras:
«A vista de meus paes magoa-me. Hontem contava-me minha mãi os passos que deu na vespera; de repente interrompe-se: «Não posso mais! já nem me lembro! estou douda, vês tu!» Minha irmã, que estava mais serena, continuou a narração, que eu não pude ouvir. Eu via-os, eu ouvia-os; eis tudo; pouco me importava o resto. Hoje era minha mãi que estava serena e minha irmã que parecia louca. Todavia nós estavamos tranquillos hontem á noite. Mr. Passa havia-nos socegado!
«Mas eu tenho confiança—diz minha mãi—eu{182}tenho confiança; elles não te farão nada.» Pai, falla d'outra cousa: do forte de Santa Margarida, do ultimo desenho que eu fiz, d'aquelle que vou fazer; minha mãi fez-me prometter-lhe dous, e justamente, acabei-lhe o segundo esta noite, feliz por fazer alguma cousa para ella.
A pequenita não chora, mas tem o coração cheio de lagrimas.
«Tambem a ti—lhe digo-eu—tambem te fazem soffrer!» N'este meio tempo, ella rompe em soluços, por que lhe faltou a coragem.»
Os seus ultimos momentos foram para a sua alma e para a sua familia.
Está revestido d'uma resignação providencial. Vai morrer, porque deve morrer. Não treme. Mas, ao fallar de seus paes, de suas irmãs, dos seus, salta-lhe dos olhos uma lagrima. Era a ultima. O valente não tornou a chorar. Quer porém mandar-lhes a ultima palavra de saudade. Escreve-lhes, levanta-se tranquillamente da mesa, e abre com firmeza a porta do quarto. Chega o momento de partir. Entram os soldados e choram de o vêr. O gendarme que o tem de algemar estremece e perturba-se. Rossel agradece meigamente as lagrimas que lhe dão, abraça Alberto Joly, abraça o carcereiro Cassel, e desce ao pateo, escoltado pelos soldados e acompanhado pelo padre Passa.
Ferré é grosseiro e materialista. Despede estultamente o capellão Folley e escreve a suas irmãs,—crentes{183}e nobres corações de mulher, de certo—que vai morrer como viveu: sem crenças religiosas!
Bourgeois, igualmente sordido, mas menos perigoso talvez, come e bebe no seu quarto, embriagando-se para a morte.
Pois bem. O mesmo pelotão fuzilou Rossel, Ferré e Bourgeois. O governo de Versailles foi injusto. Não devia emparceirar estes tres homens.
Rossel chega ao lugar da execução acompanhado pelo seu confessor, como se quizesse que elle o conduzisse até ao limiar da eternidade. O coronel Merlin, seu juiz, está presente.
Rossel quer que lhe façam sciente de que não morre odiando-o, e pede ao seu derradeiro amigo, ao bom Passa, para que lhe ponha a venda.
Bourgeois, atordoado pela embriaguez, deixa-se vendar com indifferença.
Ferré não consente que lhe velem os olhos, e, materialista, não se dispensa o ultimo regalo;—morre de cigarro na mão, como quem sahe d'uma taberna.
Momentos depois entrava o velho pai de Rossel no quarto d'onde sahira o filho. Ao assomar á porta, descobre-se respeitosamente. Alvejam-lhe na cabeça as cans da velhice; tremem-lhe nos olhos as lagrimas da saudade; agita-se-lhe o peito n'uma ancia offegante.
Está ainda distincta a pequena cavidade onde descançára a cabeça de Rossel. O velho pai, antes de se ajoelhar, curva-se para o catre, e pousa os labios descorados no travesseiro.{184}
O carcereiro, testemunha unica d'esta scena, chora copiosamente, e, instantes depois, quando aperta nos braços o tremulo corpo do velho, orvalha-lhe os cabellos brancos com as lagrimas que não póde reprimir.
Quasi ao mesmo tempo, o padre Passa amparava contra o peito as cabeças latejantes de duas creancinhas vestidas de preto,—Bella e Sara, e dizia-lhes commovido:
—Não choreis, meus anjos, que vosso irmão está no céo. Acompanhei-o até que Deus m'o recebesse. Não choreis por elle, que é de certo feliz.
A imprensa ingleza, como se ouvisse chorar estas duas creanças, levantou-se em massa para protestar contra a morte de Rossel.
A republica, que é o regimen da equidade, na bocca dos fanaticos, fez justiça e contentou-se com entregar o cadaver do condemnado á familia que o reclamára. Famosa ironia da republica!
O cesarismo dava a toda a França festas ruidosas que deslumbravam o mundo. A republica, menos generosa que o cesarismo, apesar de não menos opulenta, cede galhardamente a cada familia o cadaver d'um homem que lhe pertencia.
A França escusava de derramar tanto sangue para ficar como estava.
Mr. Thiers dá e recebe condecorações como Luiz Napoleão. Os jantares e os bailes do palacio da presidencia arremedam os jantares e os bailes das Tulherias.{185}Madame Thiers organisa obras de beneficencia como madame Napoleão. D'antes a côrte era em Pariz; agora está em Versailles.
D'antes deportavam-se homens para Cayenna e Lambessa; agora fuzilam-se em Satory e Marselha.
D'antes applaudia-se Luiz Napoleão; agora applaude-se Adolpho Thiers.
Hontem apedrejou-se o imperador dos francezes; ámanhã apedrejar-se-ha o presidente da republica.
Ora aqui está porque eu não sou monarchico nem republicano,—porque não quero ser cousa nenhuma.
O meu posto é do lado da justiça; onde ella estiver, estou eu. É ainda por esta razão que eu protesto contra as palavras que aFranceatirou para cima do tumulo de Rossel. AFrancedeclara que se absteve de fallar em quanto o processo esteve affecto a um tribunal competente. AFrancefez o que devia; não ha motivo para encarecer-se.
Depois, quando o tribunal pronunciou o seuveredictum, quando a sentença foi executada, aFranceenumera as circumstancias aggravantes que o tribunal inventariou, e, constituindo-se em segundo tribunal, sentenceia um cadaver.
Recorda aFranceque Rossel encarregado de julgar o commandante de batalhão, Giraud, no dia 19 de abril, fôra implacavel para com o réo, accusado de desobedecer a uma ordem superior e interrompera dez vezes os debates, apostrophando:
—Mas finalmente desobedeceu!{186}
Foi ainda Rossel que lera a sentença de morte a Giraud e que escrevera estas palavras ao cidadão Laperche:
«É prohibido interromper o fogo durante o combate, ainda que o inimigo levante a coronha para o ar ou arvóre a bandeira parlamentar.
«É prohibido,sob pena de morte, continuar o fogo depois de se ter dado ordem para o suspender, etc.»
«Estas lembranças—pondera aFrance—bastam para dizer o que elle foi durante o seu commando, para dar uma idéa do que teria sido na victoria.»
E do que devia de ser no carcere e na morte, esqueceu-se de ponderar aFrance. Uma vez chefe, Rossel não podia dar exemplo de cobardia, assim como, uma vez vencido, não o deu tambem. Não trepidou diante da morte, e se Giraud, que fôra julgado traidor aos seus, não teve a coragem de agradecer a justiça que lhe fizeram, Luiz Rossel enviou ao seu juiz Merlin, por intermedio do padre Passa, estas palavras:
—Dizei aos meus juizes que cumpriram o seu dever, condemnando-me.
Não satisfeito com isto, encarregou o seu confessor de fazer calmar os odios que por ventura a sua morte levantasse entre os sectarios da idéa que o sacrificára a elle.
Eu não defendo Rossel nem fulmino a republica pelo ter mandado fuzilar na esplanada de Satory. Eu condemno a republica que manda matar Rossel e prender Rochefort.{187}
Entre Rochefort e Rossel a desproporção é immensa. Rochefort é um aventureiro, que mercadeja com a sua penna e com o seu espirito; Rossel era um homem cheio de coragem e intrepidez, sempre util á causa da idéa que defendesse.
Rochefort nogociava; Rossel combatia. Ambos desertaram da republica para a communa, eram igualmente criminosos e todavia Rochefort vive e Rossel está morto.
Mas a republica é o regimen da equidade, que exclue o compadrio e a protecção, dizem!
Rochefort está preso, ámanhã será amnistiado, fulminará o governo que lhe perdoou, por que Rochefort é d'estes homens que estão sempre do lado da opposição, e recomeçará a negociar litterariamente com aLanterneou oMot d'ordre.
Passeiam a sua liberdade em Londres, Bruxellas e na Suissa milhares de communistas francezes. Como é que estes homens poderam enganar a vigilancia das tropas francezas e prussianas que guardavam as fronteiras?
Fugiram, salvaram-se, estão contentes e felizes; d'aqui a pouco tempo viverão tranquillamente em França.
Rossel, menos venturoso que elles, morreu traspassado de balas.
Estrondearam as espingardas;—a folha cahiu.
10 de dezembro de 1871.{188}
{189}
Minha mãi era nervosa, hypocondriaca, apprehensivel.
Eu nasci portanto sob a influencia fatal da predisposição hereditaria; recebi ao nascer um patrimonio do que se chama em medicina affecções dynamicas.
Era eu uma creança de sete annos e vivia sob a vigilancia d'uma criada fanatica, que me fallava todos os dias, ao anoitecer, da resurreição dos mortos, do inferno e do diabo.
Minha mãi, que não assistia a estas praticas quotidianas, não abdicava porém todos os seus direitos educativos.
Quem me educava o espirito era a criada; quem velava pela minha saude era minha mãi. Resguardava-me{190}o peito com flanellas, prohibia-me que comesse fructas, e não me deixava expôr ao ar, no quintal.
Meu pai, cuja vida agitada o trazia sempre por fóra de casa, oppunha-se, nas poucas horas que demorava no lar, a este regimen anti-hygienico. Todavia, como eu estava sempre ao pé de minha mãi, cada vez se me arraigavam mais no espirito os seus habitos.
N'esse tempo a gymnastica era um exclusivo dos acrobatas. Uma creança que subisse ao trapezio nivelar-se-hia com os filhos dos saltimbancos.
Meu pai, que tinha lido por curiosidade um pouco de hygiene, propoz tomar-me um mestre d'esgrima e de gymnastica. O preconceito d'aquelles tempos oppoz-se. Meu pai, que não tinha tempo para estas luctas familiares, desistiu.
Estudava eu instrucção primaria.
O professor dizia a minha mãi que eu tinha certa vivacidade intellectual, e que me devia destinar para um curso superior. De dia estudava as minhas lições; á noite lia a Biblia á mesa do chá.
Iamos poucas vezes ao theatro.
As noites de nossa casa eram tristes.
Meu pai jogava com alguns amigos; minha mãi seroava; eu lia, e a criada rezava ao som da minha leitura.
Não sei porque, mas eu odiava o theatro.
Talvez pela criada velha me ter dito um dia que se não salvava quem morresse n'um espectaculo...{191}
Fiz exame de instrucção primaria e comecei a estudar o latim com um padre decrepito, que morava perto de nossa casa. O padre vivia de jejuns e orações. O seu contacto dava á alma uma tristeza gelida.
Eu estudava longas horas, velado pela criada que ia rezando sempre. A concentração do estudo e a convivencia com o padre tornaram-me melancolico. Atravessavam-me o espirito uns horrores vagos do inferno e do dia de juizo. A idéa da morte punha-me medo. De noite tinha sonhos agitados; acordava banhado em suor, a chamar por minha mãi. A criada velha, que dormia perto, dizia-me que rezasse e fizesse por adormecer.
Comecei a adoecer frequentemente.{192}
Como eu entristecesse cada vez mais, compraram-me uma capella de pau, que eu armava de festa todos os sabbados, e desarmava todas as segundas feiras, antes de ir para a aula.
Esta predilecção pelo culto religioso provinha de certo da minha educação biblica e caseira.
Fiz exame de latim, ao cabo de dezoito mezes d'estudo.
O padre achou isto prodigioso, e disse que as creanças como eu não se vingavam.
Eu suppunha o padre muito em relação com as cousas futuras, e tremi da prophecia.{193}
Quiz meu pai que eu frequentasse o lyceu.
Estudei francez, e logica nas aulas publicas.
Os rapazes que me cercavam eram alegres, inquietos, robustos.
Esta circumstancia prejudicou-me ainda; eu comparava-me com os meus condiscipulos e achava-me rachitico.
Vencidas estas disciplinas, estudei inglez e geographia.
Comecei a gostar muito dos poetas inglezes, e a interessar-me pela poesia.
Um dia, um rapaz meu condiscipulo emprestou-me aMenina e moçade Bernadim Ribeiro. Esse livro produziu-me uma impressão suavissima; pedi mais livros, e li-os todos.{194}
Quando meu pai fez annos, escrevi-lhe umas quadras que conservo ainda; eram simplesmente desastradas.
Todavia continuei a ler, e, quando acabei os preparatorios, estava doudamente namorado pela litteratura.
Os negocios de meu pai corriam mal, e tive de renunciar a idéa d'um curso superior. Meu pai propoz-me o commercio, e eu aceitei o alvitre. A esse tempo tinha esboçado um poemeto no genero archaico. Quando entrei para um escriptorio commercial, estava ainda o poemeto incompleto. O meu patrão era boçal. A sua presença exercia no meu animo uma influencia tyrannica.
Quando elle voltava costas, ia eu escrevendo no poemeto. Um dia surprehendeu-me nas minhas lucubrações poeticas, quiz ver o meu autographo, desatou a rir alarvemente, e despediu-me. Entrei em casa triste, concentrado, apprehensivel.
Tinha então dezoito annos.
A criada velha havia-me perguntado muitas vezes se eu já tinha sido convidado para a maçonaria.
Certo dia li n'uma folha um artigo que desvendava a cegueira popular sobre a maçonaria.
Eu não conhecia bem o espirito d'esta associação, mas sympathisei com a maneira porque o jornal desfasia os preconceitos do povo, que eram tambem os meus. Comecei então a pensar na grandeza do problema social que a imprensa se propunha resolver. O{195}jornalismo afigurou-se-me a mais poderosa alavanca dos povos modernos, porque tinha o seu ponto de apoio no pensamento humano.
Informei-me sobre a dignidade dos periodicos de aquelle tempo, e soube que o mais digno era portanto aquelle com que mais eu sympathisava.
Procurei o redactor, e pedi-lhe um lugar na sua folha. O jornalista procurado, que me pareceu um cavalheiro, sorriu do meu denodo, das minhas illusões talvez, e aceitou-me. Comecei por ser traductor e revisor, e tirava d'essa tarefa salario de que repartia com meu pai.{196}
{197}
Eu amava.
A minha amada era rosada e loura.
Tinha nas tranças o que o céo tem de mais formoso—o sol; e nas faces o que a primavera possue de mais puro—as rosas.
Eu era naturalmente triste, e pasmava da metamorphose que se havia operado em mim.
Sentia-me assombrado.
Tinha vagas aspirações, desejos indefinidos.
Queria ser grande.
Comecei a estudar. Versei livros de botanica, de zoologia e d'economia politica.
O jornalismo afigurava-se-me a escada de Jacob, pela qual eu devia subir ao olympo das grandezas sociaes.{198}
Comecei a escrever artigos politicos, e já uma vez por outra se fallava no meu nome.
Por esse tempo uma facção militante offereceu-me um circulo.
Eu endoudecia de felicidade; começava a vêr realisarem-se os meus desejos.
Sahi eleito.
Entrei nas camaras, e desgostou-me conhecer de perto o que era aquillo.
O meu temperamento desvairava-me.
Queria esmagar todos os futeis e todas as futilidades que encravavam a cada momento a marcha da governação publica.
Comecei a fallar calorosamente, frequentemente, a querer desmascarar os hypocritas, a apontar os traidores, a desarmar os imbecis.
Ao mesmo tempo escrevia para os jornaes do meu partido, e tirava d'ahi os recursos com que vivia modestamente.
Um dia um sectario do governo convidou-me a desertar para a facção ministerial, sob promessa d'um despacho.
Renunciei dignamente, e lancei mão do facto na camara para fulminar o ministro do reino.
Dentro em poucas semanas o chefe do meu partido fusionava com o governo, na esperança de ser nomeado conselheiro d'estado.
A maioria ficou por tanto sendo governamental.
Ergui-me para fallar.{199}
Fui impetuoso, violento, audaz.
O presidente notou-me que eu estava fóra da ordem, e retirou-me a palavra.
Pedi que se consultasse a camara, e a camara resolveu approvando a resolução da presidencia.
Sahi do parlamento, estonteado, febril, delirante.
Cheguei a casa, e encontrei uma carta de minha mãi.
Soube por ella, que a mulher que eu amava estava perigosamente doente.
Dei-me pressa em partir.
Todavia a fatalidade andou mais ligeira; quando cheguei, a minha amada tinha morrido.{200}
Vi-a no caixão.
Era loura ainda. Tremiam-lhe nas tranças os reflexos da eternidade.
As rosas da face tinham desmaiado.
Em volta da sala havia crepes.
Senti um horror instinctivo d'aquelle luto.
Ao longe dobrava um sino.
Lembrei-me de Goethe que detestava todo este apparato funebre.
Se a alma é immortal, para que chorar a minha amada, que renascia para outra vida?
Se não é, para que sanctifical-a ainda com estas honras religiosas?
Notou alguem que eu estava excessivamente pallido.{202}
Tiraram-me da sala, quando eu já não dava accôrdo de mim.
Ao outro dia despertei, fatigado e triste, como de um pesadelo horrivel.
Estive muito tempo sentado no leito até que me fosse possivel atinar com a realidade.
Não sahi n'esse dia, não sahi tambem nos immediatos.
Comecei a lêr, a pensar, a propor-me todos os problemas que dementam a cabeça humana.
Queria devassar os mysterios d'além-tumulo.
Tinha visões, dôres dilacerantes.
Chamei um medico, que me disse que as visões eram gastricas e as dôres nevralgicas.
Aconselhou-me distracções, passeios, agitação.
Desobedeci, e continuei a viver recluso.
Passava as noites a passeiar no meu quarto d'um lado para outro; Percebi que a minha pertinacia começava a aborrecer aos meus amigos.
A proximidade da pobreza tornava-me quasi louco.
Um medico confirmou as minhas suspeitas, e aconselhou-me a sahir immediatamente para o campo.
Por acaso, vi n'um jornal um annuncio em que se offerecia um lugar de administrador d'uma casa no Minho.
Resolvi-me a trabalhar, apesar de me sentir doente.
Offereci os meus serviços, que foram aceites.{203}
O rio Lima passa perto da casa que eu administro.
O sitio é formoso e saudavel.
Comecei a levantar-me de madrugada, a acompanhar os trabalhadores, a dirigir as maltas.
Ao domingo ou caço ou pesco.
Dispensei-me de pensar, e a minha unica leitura é a do jornal que eu assigno.
Detesto profundamente a litteratura, especialmente os versos.
Estou d'uma carnação razoavel, sem todavia estar gordo.
Umas vezes por outras, pego na enxada ou na fouce, e trabalho tambem.
Posso rir-me de vós, ó nervosos esgrouviados, que tendes visões, idiosyncrasias, que viveis n'um inferno.
O clarão do vosso espirito vai-vos calcinando o corpo.
Dentro em pouco sereis cinzas.
O adelgaçamento da raça toma um incremento prodigioso.
Os vossos filhos são amarellos e intanguidos; já me não parecem creanças, mas futuras congestões visceraes, dyspepsias, catarrhos vesicaes, nevralgias e affecções calculosas.
Pobres d'elles, por vossa causa!
Um unico meio póde ainda conservar-vos, a vós, e remil-os a elles d'uma catastrophe imminente.{204}
Um grande medico que vos póde salvar,—a Hygiene!
Vêde bem que a questão do temperamento é uma questão nacional, porque os nervos da patria começam a ter contracções dolorosas.
Na estatistica dos temperamentos, o nervoso é o predominante.
Pois bem. Resta um unico meio de salvação, o regimen hygienico.{205}
Costumai-os desde pequenos á gymnastica, não á gymnastica violenta do trapezio, mas á suave gymnastica de quarto.
Mandai comprar-lhes aGymnastique de chambre, escripta em allemão por Schreber e traduzida em francez por Delondre.
Chegando a primavera, atirai-os para o campo.
Deixai-os correr, saltar, e cahir,—e cahir tambem.
Vêde bem que é preciso desenvolver-lhes o systema muscular.
Urge reformar esta raça enfesada que se está eximindo a cada passo de servir o exercito nacional por não chegar ao estalão.{206}
Não deixemos mumificar estes pobres rapazes de vinte annos que se narcotisam com o charuto, que se requeimam com ogrog, e se desvairam com o romance.
E as raparigas! ah! e as raparigas!
Como ellas querem ser pallidas e languidas!
Aos dezoito annos começam a ter enxaquecas, e aos vinte soffrem nevroses,—classicas e romanticas—, como as classificou Balzac naPhysiologia do casamento.
Havieis de vêr estas moçoilas do Minho, bellas e rosadas, que volteiam tardes inteiras na valsa, em dias de romagem!
Vós, rapazes e raparigas, sois feitos de nevoeiro.
Tendes uma transparencia etherea.
Um dia, passando um cyclone na Europa, haveis de desapparecer da superficie da terra e subir ao ar em vapor.
Depois haverá uma epidemia europêa, porque vós, particulas deleterias, corrompereis a atmosphera, e os animaes que vos respirarem hão-de cahir fulminados.
Das alturas de Barroso descerá então uma mocetona que, solidamente organisada, o tufão não logrou empolgar.
E da serra da Estrella baixará um beirão que zombou das correntes atmosphericas erguido sobre um penhasco, que serviu muitas vezes de canapé a Viriato.{207}
E d'esta mulher e d'este homem nascerá a raça futura.
E a proposito de vós, ó gentes de 1872, contar-se-ha o caso de certas mumias que foram desfeitas por um sôpro...
FIM