VI

VIJulio Cesar MachadoA photographia é o folhetim da optica, assim, como o folhetim é a photographia da litteratura. Depois que se accendeu a febre dos jornaes, introduziu-se a moda já agora generalisada dos albuns, e a photographia e o folhetim invadiram o mundo, correram de mãos dadas, de polo a polo, porque se o folhetim é a reproducção dos acontecimentos, começada e concluida n'um instante, a photographia é a copia ligeira das pessoas, consummada em cinco minutos, n'umatelierelegante. Quem tem pretenções a fazer-se conhecido e respeitado das immensas ramificações de seus descendentes, retrata-se a oleo e deixa-se exhibir na sala nobre da familia, pendente d'uma lona, de casaca ou de farda, como se estivesse em perpetuo baile.{62}Quem deseja escrever um livro para a posteridade segue o moroso processo dos retratos a oleo, senta-se pacientemente á banca todos os dias, corrige, emenda, annota, do mesmo modo que o pintor se inclina para a tela, aperfeiçoando um traço, avivando o colorido, corrigindo o contorno, trabalhando para o futuro, n'uma palavra. Mas quem se vai retratar para satisfazer um pedido, para brindar um amigo, para estar presente a uns olhos queridos com a firme tenção de mais tarde substituir o cartão pela propria pessoa, contenta-se com a photographia, que é um retrato incompleto, mas que é todavia um retrato.Do mesmo modo, quem se senta á mesa de trabalho para traçar um esboço dos acontecimentos, para consignar as impressões do espectaculo d'hontem em quanto se faz horas para o baile d'hoje, e se pensa no passeio d'ámanhã, quem não quer historiar os factos mas unicamente estenographal-os, deixa fluctuar a penna na corrente do folhetim, dando um sorriso á bailarina nova, atirando um punhado de flôres ás alegrias do povo, orvalhando de lagrimas a saudade d'um athleta que cahiu, e sahe depois, de casaca e luva côr de perola, quando chega a carruagem, sem pensar siquer em que, procedendo d'outro modo, poderia ir ao capitolio mais depressa do que á sala esplendida e perfumada que o espera.A missão do folhetim é pois photographar, apanhar os acontecimentos d'um só jacto e coloril-os com a luz que resalta do foco interior. Camillo Castello-Branco{63}escrevia uma vez a respeito de Julio Cesar Machado: «Bem sabe elle como é rapido o photographar, e bem sabemos nós que não devemos pedir-lhe mais que o esboço das cousas, aperfeiçoado depois pelo sexto sentido do talento.»Em Portugal, o folhetim começou grosseiramente no «Almocreve das petas» e no «Barco da carreira dos tolos» como notou Rebello da Silva. José Daniel, que comprehendeu o espirito proeminente da época, procurou fazer a critica dos acontecimentos e das pessoas do seu tempo, provocando o riso, com a graça saloia e com a chufa grosseira, que era muita vez um respiraculo intencionalmente aberto ás combustões da inveja e do odio.Era o embryão do folhetim, preparado á portugueza velha e pautado pelos modêlos daEufrosinade Sá de Miranda e doFidalgo aprendizde Francisco Manoel de Mello. O verdadeiro folhetim, tal como nós hoje o conhecemos, «a critica ligeira, risonha e fugitiva que borboleteia ao de leve por cima das flôres» como disse tambem Rebello da Silva, veio de França junto com os primeiros albuns que de lá recebemos, ao tempo que Julio Janin era moço, e de Hespanha dentro de uma caixa de charutos, expedidos pelo dono do estanco onde Marianno Larra os costumava comprar.Garrett, que estudou lá fóra as mais notaveis evoluções da litteratura moderna, foi o primeiro que trouxe para Portugal o folhetim francez, amaneirado, elegante,chic. O mesmo não aconteceu ao snr. Alexandre{64}Herculano, que estudou tambem na escóla do estrangeiro durante o tempo da emigração, mas cujo temperamento era adverso ás amenidades da litteratura ligeira. Á hora em que o snr. Herculano trabalhava na mente o plano das suas lucubrações historicas, descia o futuro visconde d'Almeida Garrett do seu cubiculo de Ingouville, onde escrevera oCamões, eflanavadistrahidamente pelas margens do Sena.Era isto—Garrett, oflaneur; Herculano, o philosopho.Garrett foi na litteratura, como na sociedade, o verdadeiroflaneur. Borboleteou de genero em genero, dramatisou, romanceou, poetou, folhetinisou n'uma palavra, mas folhetinisou soberba, esplendida, admiravelmente. Garrett era porém o folhetinista do livro; faltava em Portugal o folhetinista do periodico. O temperamento de Garrett vedava-lhe o acompanhar quasi diariamente as lucubrações jornalisticas. Gostava de folhetinisar no seu gabinete, entre flôres e crystaes. Estava-se pedindo um homem robusto, febril, enthusiasta, que escrevesse os seus folhetins sobre a banca d'um escriptorio, nú de moveis e ornatos, com infatigavel energia, em quanto esperava o prélo impaciente. Esse homem appareceu,—foi Lopes de Mendonça. Durante muitos annos exerceu elle brilhantemente o folhetim,—o folhetim que se compromette a apparecer todas as semanas, a fallar de tudo embora haja completa escacez de assumptos, a ser alegre, espirituoso e profundo, apesar de se dar ares de leviano. O incendio{65}d'aquella poderosa imaginação crepitou, deslumbrou e finalmente extinguiu-se. Então appareceu em Lisboa um rapazinho da provincia, cheio de mocidade e esperança, que se estreou na litteratura offerecendo-se para traductor do Gymnasio. Os horisontes que elle sonhava eram lucidos como o céo da primavera. Em redor de Julio Cesar Machado tudo eram sombras, difficuldades, obstaculos. Mas elle era feliz porque sonhava com a esperança. Não basta ser feliz para o ser verdadeiramente. É preciso, e n'isto está tudo, amar a felicidade.Se elle quizesse vencer d'um impeto todos os estorvos, enlouqueceria. Mas o seu temperamento lymphatico permittia-lhe esperar, e saber esperar é inquestionavelmente a primeira condição para vencer. Os seus nervos eram de natural submissos; impaciencia não a teve nunca. Por isso foi feliz. Soube namorar a felicidade. Quando a critica invejosa e proterva lhe sahia ao caminho, lá lhe vinha uma sombra á alma, mas as tristezas d'estes temperamentos são dolorosamente suaves. Passava a nuvem;—sonhava de novo com a esperança.Eu sou realmente amigo de Julio Machado, e sei que elle me estima deveras. Quando penso na vida d'elle, lembro-me de mim, e perdôem-me este orgulho.O author dosContos ao luarentrou no mundo sósinho; seu pai deixou-o muito novo quando desceu ao tumulo. Eu fui um pouco mais feliz, mas o braço de meu pai, cansado de trabalhar toda a vida, só com extrema difficuldade poderia nortear a minha educação pelos mares que a sua alma affectiva me queria aplanar. Os mestres de Julio Machado foram os seus primeiros amigos. Eu tambem me quero lisongear d'essa honra. Foi a amizade de José Estevão que lhe franqueou as columnas daRevolução de Setembro. Eu encontrei tambem no principio da minha carreira um jornalista sobremodo honrado, o snr. Cruz Coutinho, que recebeu os meus primeiros ensaios nas columnas doJornal do Porto, e me animou a proseguir. Ambos ganhamos pela penna o primeiro pão da vida. Do meu passado, conservo saudosas lembranças; Julio Machado compraz-se tambem em rememorar os seus primeiros annos que lhe sorriem ainda gratos através da penumbra do passado. Ambos nos destinavamos a um curso superior, e ambos ficamos no mundo sem carta de bachareis. Foi realmente uma pena; eu se fosse doutor era com certeza mais gordo,—mais feliz, pelo menos.Qual seria a barreira litteraria diante da qual empedrou o estudantinho da Durruivos? Não sei; o latim de certo não foi, que esse ensinou-lh'o o padre Paulo, de quem elle falla nosQuadros do campo e da cidade.A esphynge da latinidade tambem me não amedrontou a mim; conservo ainda saudades do Virgilio e do Horacio, e estimo sinceramente o snr. Dantas que foi meu mestre.O meu pesadelo foi a mathematica, ah! foi a{67}mathematica sim. O Garrett queixava-se d'um mathematico de Coimbra, o snr. Honorato, que foi causa d'elle se ficar poeta. E o mais é que o snr. Albuquerque, do lyceu, é um homem de intelligencia e d'estado, duas qualidades que eu respeito e admiro em qualquer homem.Mas eu já tinha no corpo a peçonha da poesia; aborreceu-me o Serret, errei um problema, esmoreci, e fiquei como estava. Aconteceu que não pude ser mathematico, e que me deixei ficar litterato. Um mathematico de menos e um litterato de mais,—eis tudo o que aconteceu.Em razão d'esta minha inimizade com a mathematica, hei-de recommendar a minha filha, quando ella crescer, que tapete de boninas e esconda entre plantas o quadrado da minha sepultura. Eu, que não vivi bem com a arithmetica, não quero que ella se vingue de mim, quando me seja impossivel sacudir a lousa com os funebres algarismos que para logo denunciam a milicia dos mortos.N'este horror á mathematica sou ainda discipulo de Camillo Castello-Branco que escrevia a Faustino Xavier de Novaes: «Teremos nós sepultura com lagea!? Conta com um cômorosinho de terra, e umas papoulas na primavera, e uma taboa preta com um numero branco. A arithmetica ha-de perseguir-me além da morte!»Agora estou eu reparando que me tenho desmandado em confidencias, e que amanhã ha-de gritar a{68}maledicencia que eu fiz, que aconteci, que me quiz nivelar com Julio Machado. Não ha tal; previno o commentario. Basta dizer-lhes que ha sete annos,—era eu uma creança,—li pela primeira vêz, na Foz, asScenas da minha terrae que me demorei longo tempo diante da dedicatoria d'esse livro que Julio Machado offerece a sua mãi, não sabendo se havia de applaudir mais o escriptor se o filho. Elle era então já um talento feito e eu, desprovido dos seus valiosos dotes, ainda era uma creança. Applaudi-o então, applaudo-o hoje e applaudil-o-hei sempre.Mas era d'elle que vinhamos fallando,—era do seu temperamento que queriamos fallar.Ah! feliz temperamento o seu, que se revela na suavidade dos seus folhetins, na doçura dos seus contos, na tranquillidade do seu animo.O temperamento de Julio Machado está noPedrinhodosContos ao luar, naMarcolinadasScenas da minha terra, noRomance d'uma alma, dasHistorias para gente moça. São tristezas suaves,—deliciosas tristezas!Elle, que foi o successor de Lopes de Mendonça, deve inquestionavelmente ao seu temperamento o ter arrostado ha longos annos com a improba canceira do folhetim sem desanimar, sem ficar vencido.Escreve tranquillamente, por isso se não tem gastado. As viagens são uma tendencia do seu espirito. É ainda o folhetim em acção o que elle quer. Mas não vai viajar de afogadilho, não pensem, como se lhe fosse{69}na pista a policia ou o cholera. Nada d'isso. Para ir a Paris e para chegar a Londres gastou dous mezes.Quando parte, não diz a ninguem onde estão os seus papeis importantes para o caso de não voltar. Nada d'isso. Parte alegremente,—para Italia; cantarolando com o Junca; para Hespanha, em trajo detouriste, em communidade de aventuras com o conde d'Obidos.Nunca se lembrou que lhe ia acontecer desgraça pelo caminho. Ao contrario, pensa que a natureza o espera com um sorriso e umbouquet. É elle mesmo quem nol-o diz:«De mais a mais, não sou de uns certos, que tudo pesam e scismam antes de se proporem a sahir da sua terra, e até cuidam que o barco se ha-de perder, simplesmente pelo facto de os levar; eu, ao contrario, cuido que por eu ir n'elle é que o barco se não perderá.»Accusam-n'o de desleixado na linguagem. É um defeito. Quem o não tem? E muitos dos que lhe atiram a pedra estão tambem no caso de ser apedrejados.Bem desleixado se deixou ser o Garrett nasViagens, que é o folhetim mais folhetim que se tem feito entre nós, e todavia o Garrett ha-de viver mais tempo do que os seus criticos. O folhetim não se está a pregar e a repregar como as mulheres de trinta annos. Ah! não, o folhetim tem a graça e a desenvoltura de uma donzellinha. Namora-o a flôr; basta-lhe o perfume. Tudo o que faz é «ao acaso, tudo a brincar, tudo{70}para entreter», segundo uma expressão de Julio Machado.Quando elle publicou osContos ao luar, sahiram-lhe ao encontro os grammaticões, os nossos graves grammaticões—que graça!—por haver attentado contra a virtude da syntaxe, começando o seu livro por uma conjuncção copulativa.Era certo que elle havia escripto—«... E depois, eu não sei bem porque chamei ao meu livroContos ao luar!» Que elle, o phantasioso contista, tivesse aceitado a sequencia d'um sonho interrompido, d'um devaneio cortado pelo fremito d'uma vaga, que quizesse dar aos seus contos o vago do luar, não comprehendiam os grammaticões. Lá estavam as reticencias que substituiam as palavras, mas não eram reticencias o que elles queriam, eram palavras, palavras, unicamente palavras.Os grammaticões são como os diccionarios;—o que mais têem são palavras. E os defensores da inviolabilidade da grammatica em vão açularam a critica, e os apostolos da conjuncção morderam-se, e o livro teve tres edições, para dizer tudo d'uma vez.Já que me referi n'outro lugar aoRomance de uma almaquero acrescentar que basta este conto para caracterisar physiologicamente Julio Cesar Machado,—um conto adoravel, dôce e triste, um devaneio de phantasia delicada que faz lembrar as mais formosas tradições do Rheno primorosamente trasladadas a portuguez pelo snr. José Gomes Monteiro.{71}Ah! meu caro Julio, eu, que sou ainda novo, amo sinceramente a candida mocidade que se respira nos seus livros, delicio-me com as fragancias d'esses gentisbouquetsque o seu talento tem enfeixado, e ao terminar estes breves estudos de physiologia, litteraria permitta-me que saude d'aqui a primavera que ainda lhe sorri exuberante de galas e esperanças.Algum dia dirá de si a historia da litteratura patria que foi um escriptor sempre moço, que sabia com o seu espirito enganar a idade, quando ella the acenava de longe, e que no dia em que lhe nasceu a primeira branca atirou ainda a umas bailarinas que iam passando com um bonitobouquet, um adoravel folhetim, de sorte que ellas, apesar d'uma ruga e de uma can igualmente traiçoeiras, tiveram inveja á sua mocidade e ao seu temperamento, como eu, que sinceramente o confesso, e se lembraram de Anacreonte, que morreu a sorrir, coroado de flôres.Termino esta serie de folhetins com o nome festejado d'um distincto folhetinista. Assim devia ser; é sobre o pedestal que se colloca a estatua.N'estes rapidos estudos humoristicos, que ahi ficam, procurei fazer em Portugal o que fez Emilio Deschanel em França, com uma unica differença—que elle o fez muito melhor e mais detidamente. Elle me serviu de modelo e incentivo. Gostei do seu livro, e o mais que fiz foi applicar aos nossos escriptores a theoria que elle havia enunciado, não na sua generalidade, o que seria longo, mas em uma das suas ramificações,{72}o estado physico, o que me pareceu curioso. Parti, como elle, da influencia do corpo sobre a alma, e procurei estudal-a n'um certo numero de individuos.Tentei estudar o temperamento no estylo.Mais que nunca se me figura opportuna a occasião para trazer em minha defeza as palavras de Deschanel: «Paradoxo! dirão uns. Banalidade! clamarão outros. Que se entendam uns com os outros até chegarem a um accordo. Que importa que uma cousa seja velha, se é verdadeira? E não será sufficientemente nova, para o tempo que corre, se fôr precisa e sincera?» E depois, receioso de que supponham que se dá ares academicos, acode Deschanel denunciando a indole dos seus estudos: «Imaginai que folheaes, por matar o tempo, um album de autographos ou de photographias; é pouco mais ou menos o que vos eu apresento.» Isto escreveu Deschanel; isto devo eu repetir com dobrada razão.{73}EM ADDITAMENTO A PHYSIOLOGIA LITTERARIACarta do snr. Alexandre da Conceição ao authorIll.moamigo.Na ultima das suasCartas do Inverno[5], nas quaes o meu amigo tratou, com a sua habitual delicadesa d'estylo, a interessante questão do temperamento d'alguns dos nossos mais populares escriptores, vem lá uns piparotes á mathematica e aos mathematicos que eu não posso deixar passar sem reparos.Saio pela honra do meu convento. Proponho-me demonstrar-lhe que as chamadas sciencias exactas não são tão destituidas de riquezas poeticas como o meu amigo apregôa e muita gente acredita, e que nas litteraturas de todos os tempos e de todos os paizes—veja que ambições de erudição as minhas!—não ha{74}concepções nem mais grandiosas nem mais sublimes do que nas mathematicas.Combatendo-lhe a sua antipathia pela sciencia das quantidades, tenho ainda em vista atacar o preconceito, entre nós infelizmente vulgarissimo, de que o estudo das mathematicas esterilisa a imaginação, mata o sentimento artistico e torna o espirito pesado e sorna como a quarta pagina doTimes.Não ha com effeito estudantinho de lyceo que tenha lido, em traducção mascavada, osTres Mosqueteirosou aMenina do 4.º andar, que se não julgue victima da mais cruel das tyrannias paternas quando se lhe impôe a obrigação de estudar um poucochinho do Manso Preto ou do Sousa Pinto.Conheci no meu tempo d'estas victimas imberbes do romantismo fazerem gala de serem reprovados em mathematicas elementares, para se darem ares de Esproncedas em promessas, de Byrons em projectos, de rapazes esperançosos, de moços cujo talento se não podia amoldar, pela grandeza e pela impetuosidade, aos estreitos limites da arithmetica, da algebra ou da geometria.É verdade que depois estes interessantes mocinhos demonstraram ter na mesma conta da arithmetica tudo o que os obrigasse a duas horas de trabalho sério, e iam a final, cobertos de rapozas e inutilisados physica e moralmente pela devassidão e pela ociosidade, parar aos corredores das secretarias d'estado, ás ante-camaras dos ministros ou ás salas de espera{75}dos influentes eleitoraes mendigando um emprego publico, onde podessem emfim applicar a sua actividade gasta nos prostibulos, nos cafes e nos passeios publicos.Assim como ha porém intelligencias com aptidão singular e admiravel para a comprehensão das sciencias exactas, ha tambem boas e prestadias intelligencias, e d'esse numero é a do meu amigo, que tomam á conta de repugnancia invencivel pela mathematica o que n'essas intelligencias é apenas amor e enthusiasmo por outra ordem de verdades. O Julio de Castilho dizia-me em Lisboa, com aquelles seus ares candidos e virginaes de pintor biblico da renascença, que não comprehendia como eu, que fazia versos, conseguira encarar nas mathematicas sem ficar logo alli empedrado de horror. Elle, como o meu amigo, quando lhe disseram que havia de estudar arithmetica, parece que escreveu uma apologia apocalyptica do suicidio e que esteve meio resolvido a ir esconder o seu asco aos numeros no fundo do Tejo. Deixe-me fallar-lhe ainda de mim para demonstração d'uma verdade acima enunciada. Eu quando principiei a estudar mathematicas tinha o espirito azedo e derrancado com a leitura d'uns detestaveis romances francezes que por ahi andam na mão de todos os meninos e meninas. Aterrado com o desimaginoso estylo do 1.º tomo doFrancoeurdisse de mim para mim, para me desculpar da propria mandriice, que o meu talento não nascera para digerir taes bagatelas e alistei-me galhardamente{76}na numerosa ala dosmergulhadores, meus condiscipulos e consocios na guerra ao estylo do filho espurio da grande actriz Lecouvreur, segundo contam as más linguas. O resultado d'este meu incipiente mau gosto litterario foi perder o anno, poupando assim o snr. Pinto d'Aguiar ao trabalho de me premiar aloureiricecom tres rapozas, vêr com muita inveja e muito desgosto de mim proprio parte dos meus condiscipulos alcançar com a approvação o premio dos seus esforços, ir para ferias grandes com uma cara tola de homem que se reconhece inutil e mandrião aos proprios olhos, e, por sobre tudo, apresentar-me a meu pai, que tanto me estremecia, com a consciencia de lhe ter roubado perto de trezentos mil reis, que fui tirar ao patrimonio sagrado de minhas irmãs, sem receber d'elle uma reprehensão, o que era o peor de todos os castigos.Senti-me deveras e profundamente abjecto diante de mim mesmo.Em outubro voltei ao Porto e comecei a estudar regularmente n'esse anno e nos que se seguiram, até completar a minha educação profissional. Nunca porém me pude vêr livre completamente dos maus habitos adquiridos na convivencia da mocidade imaginosa e revolucionaria, que me fôra companheira das tolices do primeiro anno. Ainda hoje estou combatendo essas influencias de romantismo futil e estouvado que nos tem para cá vindo nos enxurros da litteratura franceza.{77}O precioso tempo que gastei a fazer versos e folhetins, com que nem eu nem as letras ganhamos pouco nem muito, podia tel-o empregado bem melhor a estudar conscienciosamente o que hoje me vejo obrigado a compulsar de novo, para não exercer a minha profissão do mesmo modo que fiz o papel de poeta e de folhetinista.Com a propria experiencia pois lhe afianço que o estudo das mathematicas nem esterilisa a imaginação nem atrophia o sentimento artistico. Deixe-me dizer-lhe mais: Das grandes manifestações do espirito humano só a musica me tem causado tão intimas sensações de contentamento, de felicidade interior e de enthusiasmo como as que experimentei com as mathematicas, apesar de as haver estudado superficialmente e de apenas lhes ter entrevisto a sublimidade e a elevação. Lastimo-o se nunca sentiu os jubilos intimos, o puro contentamento que se apodera de nós quando chegamos á posse plena d'uma verdade mathematica. É então que se comprehende bem que o homem não vive sómente de pão mas de verdade. Sente-se a gente orgulhoso d'este orgulho fidalgo de pertencer á nobre familia dos seres que tirou do fundo do seu espirito taes sublimidades.E depois, meu amigo, que idéa se ha-de fazer da arte, se fôrmos apregoar que as sciencias exactas, que é onde a verdade mais luminosa se apresenta, são inimigas irreconciliaveis da poesia? Em que conceito se ha-de ter a litteratura, se se acreditar que ella odeia{78}o rigor logico dos raciocinios, a actividade energica e regalada do espirito, os exercicios olympicos da intelligencia? Victor Hugo diz no prefacio de não sei qual dos seus livros que a algebra é uma poesia. É um acerto isto. Diz-se tambem que as mulheres da Africa dão a comer aos filhos coração de leão para os tornar robustos e corajosos. O coração do leão para o espirito é o estudo das mathematicas. Não ha nada mais sadio nem mais nutritivo.É uma atmosphera de verdade onde a alma humana respira a pleno peito o ar da vida. É a agua lustral que nos lava dos preconceitos da educação, e que nos levanta o entendimento áquella altura d'onde se não podem já enxergar umas certas cousas mesquinhas e tolas que ahi andam ataviadas com os ouropeis da phantasia, e que são tão futeis e tão ridiculas, como os interesses que sustentam.Nas sciencias mathematicas ha sobre todos um ramo, com o qual, no meu entender, não póde competir nem em grandeza nem em sublimidade poetica nenhuma outra ordem de conhecimentos humanos; é a Astronomia. Galileu, Kepler, Newton e Laplace são poetas de mais alto cothurno que Homero e Shakspeare e Goethe e Victor Hugo. Não grite á d'el-rei contra a blasphemia litteraria; olhe que é verdade isto que lhe digo. Se tirar aquelles grandes vultos da sciencia a imaginação, o enthusiasmo, a intuição prophetica da verdade, as allucinações do ideal, este exaltado lyrismo que o amor sofrego da verdade produz{79}nas intelligencias privilegiadas, se lhes tirar todas estas qualidades de espirito que fazem os grandes poetas, reduz-me aquelles homens á craveira vulgar de quatro mathematicos mais ou menos obscuros, mas não m'os eleva nunca á altura de espiritos creadores, de genios, de poetas finalmente.Que litteratura ha no universo que possa sustentar as pretenções de possuir uma obra litteraria capaz de se medir em grandeza de concepção e em sublimidade de idéas com a theoria da attracção universal de Newton ou com a hypothese sobre a formação dos mundos de Laplace?Que nome senão o de poeta quer o meu amigo dar a um homem como Leverrier que encontra um planeta desconhecido e nunca visto por olhos humano na ponta da sua penna, fechado no seu gabinete de trabalho? Diga-me: se fosse millionario não pagaria por bem maior preço os calculos originaes de Leverrier do que o autographo mais precioso do Dante?E não me diga que esta poesia da sciencia só é accessivel aos espiritos iniciados n'ella. Reuna em volta de si duas ou tres mulheres de talento e de gosto litterario, lêa-lhes o melhor trecho doHamlet, o melhor canto doInferno, a melhor composição daLenda dos Seculos, e depois faça-lhes uma exposição singela do systema dos mundos, narre-lhes a historia da descoberta da velocidade da luz ou conte-lhes o prodigioso romance do apparecimento no mundo da sciencia do planeta Neptuno, e verá qual das cousas as deixou{80}mais allucinadas, se a poesia dos versos ou da palavra, se a poesia dos mundos ou da sciencia.Em si, que é um espirito serio e estudioso, não quero eu vêr no seu horror as mathematicas mais do que um gracejo de folhetinista; mas é que nós padecemos d'uma profunda doença social que se revela muito n'esse desprezo pelos estudos serios, n'esse fastio pela verdade singela, pela logica vigorosa e pelos methodos de raciocinio verdadeiramente scientificos. Nutra-me o espirito publico de conhecimentos exactos, de methodos seguros de raciocinio, e ha-de vel-o não se contentar tão facilmente com os sonhos com que o andam por ahi embalando os especuladores da causa publica, todos estes prudentes da occasião que trazem os principios chumbados ao marmore da rotina, que teem a consciencia adstricta á gleba dos empregos publicos, e toda a alma enfeudada aos preconceitos da opinião do maior numero. Olhe que é seria esta questão. Dê-me á França mais mathematicos e menos romancistas, mais arithmetica e menos versos, e Sedan é impossivel e os incendios de Paris serão irrealisaveis. A victoria é o resultado da superioridade dos vencedores; mas a superioridade dos vencedores suppõe a inferioridade dos vencidos.O espirito serio e pratico da nova Allemanha havia de mais tarde ou mais cedo derrotar o genio romantico e futil da França contemporanea. Era uma guerra fatal aquella com um resultado previsto ha muito. Pergunte por isto ao snr. Pedro d'Amorim Vianna,{81}que talvez o encontre disporto a dizer-lhe umas cousas sublimes que elle sabe,apesarde saber tambem mathematica como poucos.E, já que tem a felicidade de ter uma filha, meu amigo, ensine-lhe a admirar Soares de Passos, e em Soares de Passos a poesiaO Firmamento, cuja inspiração elle foi beber a um dos ramos d'essa vasta sciencia dos numeros, que muita gente suppõe arida e esterilisadora como um livro de conta corrente. Depois nutra-lhe o espirito com o alimento sadio e robusto das verdades scientificas; leve-a pela mão aos grandes templos da vida moral; ensine-lhe a historia, que é a epopêa da humanidade; ensine-lhe a geologia, que é a historia da terra; ensine-lhe a astronomia, que é o poema heroico do universo. Diga-lhe que por baixo da lousa fria do tumulo, onde lhe mandar esparzir rosas de saudade, ha apenas os restos inertes d'uma cousa grande, que é o homem; a alma d'esse homem, essa, que a não procure n'esses restos, mas no proprio espirito d'ella, na memoria das suas boas acções, na recordação, que ella deve ter sempre viva da sua dedicação á familia, do seu amor ao trabalho, da sua paixão pelo estudo, da sua coragem nos revezes, da sua modestia nas alegrias, do seu respeito á virtude, da sua aspiração ao bem, do seu culto ao bello, das suas qualidades como esposo, como pai e como cidadão, pois que n'essa recordação na alma ingenua d'uma filha vai a melhor immortalidade a que um homem honrado pode aspirar.{82}Creio que abusei muito da sua paciencia, não abusei? Que quer?... custou-me ouvir-lhe dizer mal das mathematicas.Não torne, olhe que eu estou de atalaia, e então ai da sua paciencia.Até lá e sempre creia-meseu amigo e admirador,Bragança, 22 de Janeiro de 1871.Alexandre da Conceição.{83}[5]As paginas antecedentes sahiram com este titulo em folhetins doJornal do Porto, de dezembro de 1871 a março de 1872.Resposta do author ao snr. Alexandre da ConceiçãoMeu bom amigo:Fez-me a honra de replicar amavelmente ao ultimo d'estes despretenciosos folhetins que tenho publicado noJornal do Portosob o titulo deCartas do Inverno, e eu apresso-me a responder-lhe para inteira conservação das nossas relações amigaveis e litterarias.Sahiu o meu amigopela honra do seu convento, levantando umas ligeiras insinuações com que eu não esperava offender a mathematica e muito menos melindrar um só mathematico.Enganei-me, e em boa hora me enganei, porque a sua carta significa para mim uma honra, posto que immerecida, bem vinda, e porque me apraz digladiar com luctador assim digno como leal.{84}Foi seu proposito mostrar que a mathematica não póde deixar de ministrar á litteratura o vigor logico do raciocinio, quer dizer, o machinismo scientifico de que se serve o homem para chegar ás convicções profundas. E cita o meu amigo uma pleiade d'homens illustres que foram ao mesmo tempo grandes mathematicos e grandes poetas, uns titães celeberrimos que se levantaram a uma altura a que não poderam chegar os gigantes da fabula.Falla-me de Galileu, de Kepler e de Laplace. Não me falle d'esses, que foram os poetas da mathematica, que viveram embriagados no lyrismo da sciencia, e que por uma privilegiada intuição souberam deletrear as bellezas infinitas da epopêa dos astros. Não me falle dos grandes genios da astronomia, sciencia quasi divina, porque estuda o céo.Herschell, cuja vasta intelligencia passou pelo baptismo da musica, antes de se remontar ás eminencias olympicas, tem no firmamento um epitaphio eterno para o qual não ha honras nem grandezas comparaveis. O rei JorgeIII, que lhe fez mercê d'uma pensão da trezentos guineus e de uma vivenda no burgo de Slough, quasi concedeu um galardão irrisorio ao homem que devia ter o céo por tumulo e Uranus por epitaphio. Estas são as aguias audazes que roçaram as azas pela tela azul do firmamento, visitando os archipelagos de mundos, que, na phrase do materialista Buchner, infinitamente distantes uns dos outros, povoam o immenso deserto das alturas. D'esses não fallava{85}eu, porque os respeito tanto, quanto me é vedado conhecel-os. Fiquem estes e outros mathematicos para logo; fallemos por agora da mathematica.Eu não nego nem discuto que a mathematica seja um instrumento da verdade; assumpto é esse estranho á minha competencia e ao meu intento. Se o fizesse, poder-me-hia encostar a talentos sobremodo abalisados;—a Hobbes que escreveu contra a certeza da sciencia que se tinha á conta de mais certa; ao padre Castel que falla n'este diapasão: «Em geral estimam-se muito ás mathematicas. A geometria tem verdades nebulosas, objectos vagos, pontos de vista vaporosos. Por que dissimulal-o? Tem paradoxos; apparencias de contradicção, conclusões de systema e de concessão, opiniões de seitas, conjecturas e paralogismos»; a Buffon, finalmente, que ponderou que as verdades mathematicas se reduziam a entidades d'idéas, e eram baldas de realidade. Se eu lançasse mão d'esta arma, movido de proposito ou convicção, responder-me-hia o meu amigo com numerosas e respeitabilissimas opiniões tendentes a encarecerem a verdade mathematica. Alardeariamos sciencia, mas não passaria a cousa d'uma cegarrega causticante para o leitor e para nós.Não combati o estudo da mathematica nem combato; cada um estuda o que quer ou o que póde. Peço vista ao meu folhetim que despertou a sua replica. Não aconselhei tambem a leitura da mais edificante novella de preferencia ao mais arido compendio d'arithmetica. O que eu fiz foi penitenciar-me publicamente{86}do meu desamor aos numeros e, como eu sou d'uma sinceridade rude, permitti-me dizer que dormiria mais descansado o somno da morte, se minha filha, em vez de assignalar a minha sepultura com uma lousa numerada, levasse frequentes vezes ao meu cómoro um ramo de flôres. Isto é o que o meu amigo não póde nem deve discutir, apesar da sua vasta intelligencia, que eu aprecio na devida conta. É licito a cada um dizer como quer ser sepultado. O meu testamento, no que respeita a esta disposição, é publico.Os estudantinhos que o meu amigo conheceu com o espirito derrancado pela leitura de romances de má doutrina e peor linguagem, não são uma creação do seu espirito. Eu tambem os conheci, e ainda conheço muitos, infelizmente. Ora esses nem têem amor á litteratura nem á sciencia. São uns vadios, que andam malbaratando as economias dos paes e pegam no compendio para pretexto de passeio até ao lyceu, e n'um romance para engalharem o somno, espavorido com a excitação da saturnal.Eu sei que não escureceu o seu animo a idéa de se referir á minha pessoa. Faço-lhe inteira justiça e correspondo á sua amizade. Todavia algum leitor menos benevolo poderia ver n'isso uma allusão encapotada. A esse, não a si, digo eu que, não tendo merecimentos litterarios para reivindicar, não estou disposto a desapossar-me da unica qualidade boa que, como homem, me pertence,—o amor ao trabalho. Os meus amigos conhecem-n'a e respeitam-n'a. Sinto-me{87}então contente, e mais ainda quando, ao romper da manhã, vejo do meu gabinete, ao tempo que nem fumegam as casas visinhas para a refeição matinal, a canceira com que um moinho de vento proximo vai rasgando o nevoeiro com os seus quatro braços alvejantes. A essa hora, quando ainda não martelam as officinas nem estrondea na rua o pregão dos bufarinheiros, os unicos trabalhadores que estão despertos, é o moinho e sou eu. Basta isto.Uns estudantes ha ahi, e sempre houve, que desestimam as sciencias exactas, mas que são grandes em differentes ramos d'estudo. Esses só sahem incolumes do exame de geometria,—quando sahem—depois de longo soffrimento para domarem temporariamente a inclinação natural do seu espirito d'elles.Lembra-me citar-lhe um que tenho á conta de grandissimo poeta;—é Gonçalves Crespo, o author dasMiniaturas.Bom é que haja sempre aptidões diversas; só assim poderá florescer um estado.Os que como o meu amigo começaram por poetar gentilmente e acabam «por combater as influencias do romantismo futil e estouvado» são raros.Felicito-o sinceramente pela perseverança com que procura expurgar os velhos habitos, os quaes se me não afiguram tão nocivos como o meu amigo suppõe, antes, a meu vêr, eram mais um titulo de respeito para a opinião que geralmente se fórma da sua intelligencia.{88}Alguma cousa porém lhe ficou dos seus passados amores com as letras, a despeito das mathematicas,—foi o estylo que naturalmente resalta da sua penna com estimavel donaire.Não perdeu tempo nem trabalho, e muito mais se conseguiu, como acredito, alliar as louçanias da phrase aos conhecimentos d'um mathematico estudioso.Voltemos porém aos mathematicos.Em duas classes os divido eu; mathematicos-artistase mathematicos-operarios.Os primeiros, aquelles de que o meu amigo me fallou, são os que entenderam em assumptos de telhas acima, os que procuraram a poesia da mathematica nos mundos que pendem sobre as nossas cabeças e que estão narrando a gloria de Deus, no dizer da escriptura.Um só defeito tiveram alguns d'elles, a meu vêr. Foi o ensoberbecerem-se tanto com a gloria n'aquelle seu adejar nos páramos do céo, que julgaram Deus uma cousa ociosa e superflua. Subiram tão alto, que se lhes afigurou impossivel haver alguem que os sobrepujasse.Lalande proclamava que tendo estudado o céo não encontrara por lá vestigios de Deus. Laplace dizia a Napoleão que se no seu systema de mechanica celeste não tinha fallado de Deus, era só porque não urgira d'essa hypothese.São maneiras de vêr.Á segunda classe dos mathematicos, taes como eu{89}os distingo, pertencem os executantes, os que não sabem da sciencia mais do que o que está n'uns compendios sobremodo aborrecidos; d'uns que não dispensam a esponja para os seus calculos, porque a esponja lhes absorve os erros frequentes; que se apresentam com a vã magestade de regulos em sciencia e fazem do radio uma especie de ferula com que martelam na lousa para intimidar os alumnos que andam perdidos na abstrusidade da explicação do professor; finalmente d'uns que zombam de todos e de tudo o que não fôr a mathematica que elles versam, e que nada acham prestadio tirante a sciencia dos numeros. Estes são os que eu detesto, porque matam muita aptidão nascente com grandes doses de pastelão algebrico, como ia acontecendo ao Garrett, se elle não tivesse o bom senso de lhes fugir com o seu talento.Estes taes podem ser equiparados na profundidade da sciencia, não pelo que toca a extensão, a uns homens obscuros, mais prestimosos e menos inchados que elles,—os guarda-livros. Uns praticam a mathematica dos lyceus, os outros a das casas bancarias. Praticam-n'a todos os dias; por isso desempenham correntemente as operações arithmeticas que lhes commettem. Mais nada.«A algebra, disse o adoravel Garrett, é bom contraveneno para os empeçonhados de poesia; mas hade ser dado com geito e tento. Quiz-me fazer engulir doses muito grandes, não me pôde o estomago com ellas.»{90}Ora eu estava empeçonhado, mas não me pôde o estomago com as doses do contraveneno, e como para chegar á poesia da mathematica era preciso desbravar a semsaboria dos prologomenos, fiquei sem conhecer os mathematicos do quinto andar e desandei pela porta fóra. Esta distincção que eu faço entre mathematicos, parece que tambem a fazia o Chateaubriand. Sempre é bom valer-se a gente de authoridades. Dizia elle noGenio do Christianismo:«Todavia não será talvez difficil pôr d'accordo os que declamam contra as mathematicas e os que as preferem a tudo o mais. Esta differença d'opiniões vem do erro commum, que confunde umgrandecom umhabilmathematico. Ha uma geometria material que se compete de linhas, de pontos, de A+B; com tempo e perseverança, um vulgarissimo espirito póde entrar por ella dentro com galhardia.«É então uma especie de machina geometrica que executa de per si operações complicadas, como a machina arithmetica de Pascal. Nas sciencias, o ultimo que chega é o que melhor se instrue; eis-aqui porque qualquer collegial do nosso tempo esta mais adiantado que Newton em mathematicas; esta é a razão, porque tal que hoje é tido á conta de sabio será acoimado de ignorante pela geração futura. Azoinados com os seus calculos, os geometras-machinas teem um desprezo ridiculo pelas artes de imaginação; sorriem de compaixão quando se lhes falla de litteratura, de moral, de religião;conhecem, dizem elles, a natureza. Não{91}será para adorar-se aignoranciade Platão, que chama á natureza umapoesia mysteriosa?»Ha uma applicação da mathematica, que, com quanto se me não afigure poetica, não merece que se maldiga, porque é util: a geodesia. Essa professa o meu amigo, e tanto não me parece poetica a convivencia com o jalão e a fita metrica, que foi capaz de emmudecer a lyra das suasAlvoradas. Um tio meu, que passa por engenheiro distincto, Frederico Augusto Pimentel, conserva na sua bibliotheca muitos volumes de boa litteratura, que adquirira em estudante, mas eu quando o visito em Braga ou o encontro a braços com o pantómetro ou annotando o seu livroManual do apontador.Com referencia a mathematicos disse o que tinha a dizer.Reportemo-nos agora a outro ponto da sua carta.Deus me livrara, ainda que me fosse possivel, de fazer leituras d'astronomia a mulheres.Estou d'accordo com Rossely de Lorgues, que fixa a origem da impiedade no reinado em que as mulheres, a conselho de Fontenelle, estudavam Euclides e discutiara Newton e Leibnitz, á roda de Maupertuis, no jardim das Tulherias.Ora estas sabenças d'alto cothurno, que se conversavam nas cêas do barão d'Holbach e nos jantares de madame de Tencin, levaram a mulher franceza ao desvergonhamento, a que só póde ser cauterio a verdadeira{92}religião; não a religião das missões e dos missionarios, mas a religião de Deus.O proverbio popular desconfia da mulher que sabe latim; eu desconfio da mulher que sabe mais do que latim. Quero instrucção para a mulher, grito por ella; mas ha-de ser uma instrucção rosada, loura, como as mais formosas tranças, casta, pura, limpida.Para isso era preciso fazer compendios especiaes, delicados e prudentes. Da historia de Portugal, por exemplo, seria conveniente dramatisar as legendas dos heroes que se sacrificaram pela patria. Teem as mulheres imperiosa necessidade de conhecel-os, para soprarem ao animo dos filhos as primeiras sementes do amor nacional. Agora as negruras d'umas rainhas e d'uns principes, que mancharam a nossa historia, bom seria que ellas as não soubessem nunca. De mathematica desejo eu que as mulheres saibam correntemente as quatro operações elementares. É o que minha filha ha-de saber, e afigura-se-me que o marido de minha filha abençoará algum dia a discrição com que eu a hei-de educar.É debalde que o meu amigo me aconselha n'este ponto. Cada um governa o que é seu, e eu, a despeito do seu claro entendimento, meu caro Conceição, não lhe hei-de ensinar a ella a «historia, que é a epopêa da humanidade», mas unicamente da historia o preciso para ella não aborrecer a humanidade.Não quero que a pobresinha entre no mundo pela porta do tedio.{93}Eu não entrei, porque, quando examinei os quadros negros, tinha a alma educada para o sentimento do bem pelos amorosos conselhos de minha mãi. Isto não é dizer que a maxima erudição seja a maxima desmoralidade. Não; eu quero que a instrucção seja para quem a póde professar, e que se estude quando se deve estudar.É meu proposito que minha filha não ande pelas salas a fazer discursos de varia historia ás meninas da sua idade.Os livros que eu escrevo, como ella os ha-de lêr um dia, não levam doutrina que a faça corar de pejo, por usar o nome que lhe lega o author d'aquellas novellas.Não fallemos mais de minha filha, que dorme no berço os sonhos auriluzentes da primeira infancia. Não quero passeal-a na imprensa, depois de a ter roubado ás caricias de sua mãi.Aqui tem, meu caro Conceição, o que se me offerece dizer-lhe.Peço-lhe que me releve uma ou outra falta que tenha commettido, e creia-me sempre,amigo dedicado e sincero discipulo,Porto, 1 de fevereiro de 1872.Alberto Pimentel.{94}{95}Segunda carta do snr. Alexandre da Conceição ao authorIll.moamigo.Uma declaração antes de mais nada: Agradeço ao seu bom senso e á sua lealdade o ter-me feito a justiça de não vêr uma allusão pessoal e indelicada no esboço que fiz do estudantinho ocioso e devasso, que detesta a geometria, com o falso pretexto de que os talentosoriginaese impetuosos se não podem sujeitar ao jugo affrontoso do calculo. Não podia lembrar-me de si quando tentava aquelle esboço, primeiro: porque seria isso uma grosseria incompativel com a minha educação; segundo: porque o aprecio muito como escriptor e como poeta; terceiro: porque o estimo deveras como amigo e como homem, pois que lhe reconheço o talento, a elevação do caracter, o amor ao estudo e a dedicação ao trabalho.{96}Posto isto como mordaça aos malevolos ou aos futeis, e não como elogio com que eu queira pagar-lhe as finezas que me dirigiu na sua carta e que eu lhe agradeço com a plena consciencia de que as não mereço senão á sua amizade e não á sua critica esclarecida, entro na replica ao seu folhetim, sobre o qual temos muito que conversar.Com o seu espirito alado e inquieto de folhetinista toca o meu amigo na sua ultima carta n'umas poucas de questões, qual d'ellas mais importante, que eu lhe não posso levantar todas, porque me não sinto com competencia para tanto, porque me não sobra tempo e porque isso tomaria proporções assustadoras para a redacção e para os leitores d'este jornal, que não póde ser condescendente commigo até ao ponto de arriscar a sua boa reputação.Creio que o meu amigo leu a minha primeira carta um pouco preoccupado, ou que eu, por falta de aptidão e uso, expuz confusa e desastradamente o que tinha na mente dizer-lhe. Opto pela segunda hypothese, por me parecer a mais racional e por estar mais de accordo com os factos e com o conceito em que eu tenho os meus merecimentos litterarios, cuja pequenez no entanto recommendo a commiseração do seu espirito ás vezes tão finamente epigrammatica. Assignar-semeu discipulo!... Eu, seu mestre!... Em que? Não lhe perdôo a graça e obriga-me a praticar alguma inconveniencia, se a repete: envio-lhe o Serret pelo correio, pois que não tenho a consciencia de poder ensinar-lhe{97}regularmente mais cousa alguma; e não me discuta isto, que não soffre discussão seria.Vou pois vêr se condenso em dous ou tres periodos umas idéas mal expostas no meu primeiro folhetim e que o meu amigo ataca, porque as tomou pelo que ellas não são, mal entrajadas como ellas se lhe apresentaram.A minha sincera admiração pelas mathematicas nunca me cegou o entendimento até ao ponto de eu não vêr mais nada fora d'ellas, de suppôr que abaixo das mathematicas tudo é futil e inconsistente e acima d'ellas tudo sonhos e illusões. Creio que ha salvação possivel fóra da minha igreja, e que para divisar uma face á verdade não e absolutamente indispensavel saber dirigir um equatorial para a estrella 2151.ª daPopa do Navioou para aalpha do Centauro. O que digo e sustento, em quanto o meu amigo me não convencer do contrario, é que o estudo das mathematicas e a familiaridade com os seus methodos seguros, ou pelo menos cautelosos, de raciocinio, não póde por fórma alguma ser prejudicial ao desenvolvimento de qualquer das nossas aptidões intellectuaes, e que sendo a litteratura e em geral a arte um dos muitos caminhos que levam o espirito humano ás atlantides do ideal, é licito acreditar que tudo o que tenda a elevar-nos o espirito, a robustecer-nos a alma e a esclarecer-nos o entendimento ha-de tambem desenvolver-nos as faculdades poeticas e o sentimento artistico. Este o argumentoà priori, como se diz na logica. O argumento{98}à posterioriestá nos exemplos, que lhe citei na minha primeira carta, de grandes mathematicos que foram tambem homens de muita imaginação e de muito enthusiasmo, sendo estas mesmas qualidades as que os tornaram grandes mathematicos. Responde a isto o meu amigo com a sua theoria dosmathematicos-artistase dosmathematicos-executantes, theoria que, a meu vêr, se póde formular do seguinte modo: Ha mathematicos seccos de espirito, estereis de imaginação e baldos de todo o senso artistico, logo foi a mathematica que os fez mirrhados e massadores. Se ha grandes mathematicos com imaginação e sentimento, esses são espiritos por tal fórma privilegiados que resistiram ás influencias esterilisadoras dos numeros e do calculo.Afigura-se-me sophistica esta sua argumentação, porque a ser verdadeira teremos de classificar de esterilisadora a influencia de todas as outras sciencias, incluindo a litteratura, e de massadores todos os primeiros litteratos do mundo, todos os nossos escriptores de mais segura e duradoura reputação; por exemplo: Garrett, que para manejar a lingua patria com aquella graça, facilidade e atticismo, que nós todos lhe admiramos, havia de folhear e compulsar muito bacamarte classico e soporifero; Alexandre Herculano, que para escrever aquelle poema doEuricoteve forçosamente de deletrear muita somma de pergaminho safado e roido, muita chronica bolorenta, muito livro indigesto; Antonio Feliciano de Castilho, Camillo Castello-Branco,{99}Theophilo Braga e alguns outros, que para subirem ás alturas, onde nós hoje os contemplamos com admiração, tiveram indispensavelmente de estudar e de meditar muito livro somnolento, e nem por isso lhes ficou lá o espirito, nem o talento, nem a graça, nem a espontaneidade; muito pelo contrario, foi ahi, n'essas monumentaes semsaborias da nossa litteratura classica que elles se robusteceram em graça, em talento e em originalidade.Um mathematico cabeçudo e massador é tão massador como um jurisconsulto caturra e formalista, como um medico charlatão e pretencioso, como um padre fanatico e obscurante, como um professor ignorante e embirrento.As caturrices dos jurisconsultos, o charlatanismo dos medicos e a ignorancia dos padres não podem provar nada contra a poesia da jurisprudencia, contra a grandeza da medicina ou contra a sublimidade da religião.Parece-me, pois, senão demonstrado, pelo menos não destruido pela sua argumentação, que, em principio, o estudo das mathematicas não faz nem póde fazer mal algum ao gosto litterario ou á aptidão poetica.Deixe-me dizer-lhe ainda: É convicção minha, e creio que de muito boa gente, que o espirito moderno deve á vulgarisação dos estudos mathematicos as mais solidas e as mais brilhantes das suas conquistas.Não lhe fallo já da civilização material do nosso{100}seculo, para cujas maravilhas a mathematica cooperou com a melhor parte: quero fazer-lhe notar sómente a benefica influencia dos estudos mathematicos no espirito scientifico do nosso tempo. A mathematica não inventou por certo nenhuma theoria physiologica, não ditou nenhum tratado de direito publico, não descobriu um unico corpo simples ou a composição de qualquer corpo composto, não acrescentou um só versete aos Evangelhos; mas tem, pela benefica influencia dos seus methodos, do seu genio rigoroso e justo, do seu espirito verdadeiramente scientifico ajudado a expulsar das outras sciencias muito espantalho com fóros de verdade; muitas tolices com ambições de acertos, muitas hypotheses absurdas e lorpas com reputação de principios incontestaveis. E com isto tem ganhado todas as sciencias, incluindo a moral, que deve ao espirito logico e robusto das sciencias exactas, aquella austeridade de principios, aquelle stoictsmo de conclusões, que são as feições caracteristicas da philosophia contemporanea; com isto tem ganhado a litteratura, que se despe d'aquelles modos scismadores e langorosos, d'aquelles ares meditativos e lunaticos de virgem pallida e incomprehendida para se tornar em esposa forte e affectuosa, que nos consola nas amarguras, que nos alegra nas tristezas e que nos robustece nos desalentos, que nos melhora, que nos eleva, e que nos instrue. É porque a poesia ainda se não compenetrou bem d'estas verdades, que ella está representando na sociedade o papel secundario que representa.{101}Como explica o meu amigo este palpavel desamor da opinião publica pela poesia? Não nota que a sociedade contemporanea não quer que lhe fallem em versos; e que os não lê e que vira a pagina do jornal ou do livro onde os versos lhe appareçam? A culpa d'este desamor deve imputar-se por inteiro á sociedade ou aos versos?... É a sociedade que está acima dos versos, ou a poesia acima da sociedade? Ha depressão no sentimento moral e artistico da sociedade ou ha abaixamento no nivel intelectual da poesia? Eu creio que a culpa, posto que lhe caiba em parte, cabe menos á sociedade do que á poesia. Isto porém é uma questão para largos desenvolvimentos, e eu não quero terminar esta minha carta, que já vai escandalosamente massadora, sem lhe levantar outras duas questões que o meu amigo toca no seu folhetim.A que chama o meu amigoimpiedade?... Ás conquistas do espirito analytico do mundo moderno, á reforma, á revolução de 93? Á philosophia raccionalista, ao livre exame, aos direitos do homem? Á critica historica, á exagese biblica, a toda esta febre de investigações que trabalha a alma do seculoXIXe que lhe faz bater apressado no pulso o sangue riquissimo da vida? Chama a isto impiedade, ou entende por impiedade uns ralhos de sachristia em que andam ahi envolvidos os irmãos das confrarias? Chama impio ao catholico mr. Thiers, que deixa ir pela agua abaixo o poder temporal de sua santidade, e orthodoxo ao actual bispo de Orleans que se arreda de mr. Littré como de{102}um leproso? Diga-me o que seja para si impiedade, que eu tenho visto abusar-se tanto da palavra e da idéa que ella representa, que me não admira vêr appellidar de impio qualquer dia o proprio cardeal Antonelli ou até o snr. marquez d'Avila e Bolama.O meu amigo parece tambem pensar que o seculoXVIIIfoi immoral por excesso de sciencia nas mulheres, e impio—volta a terrivel palavra!—por excesso de philosophia nos homens. Mas onde é que está isto demonstrado? Em Chateaubriand, que se esqueceu de metrificar oGenio do Christianismo, unica qualidade que falta ao livro para poder ser recitado ao piano? Mas quando e onde é que a sciencia e a philosophia fez mal a alguem e principalmente a uma sociedade? Quando e onde é que fez bem e elevou e moralisou e instruiu a ignorancia, o absurdo, o preconceito, arèvèrie? Mas então voltemos aos cilicios, aos jejuns, aos conventos, á inquisição, á idade media. Nego com toda a força das minhas convicções, nego com todos os insignificantes recursos da minha intelligencia que a immoralidade tão apregoada da sociedade franceza do seculoXVIIItenha nascido no palacio de Rambouillet; nego que a impiedade—não me deixa esta maldita palavra!—do tempo dos encyclopedistas, seja o resultado do amor pela philosophia. São absurdas taes supposições perante os principios, são illegitimas perante os factos, são calumniosas perante o meu pouquissimo conhecimento da historia.Agora a questão magna do seu folhetim, a educação{103}da mulher. Sobre este ponto sinto dizer-lhe que nem comprehendo como o meu amigo, cujo bom senso e intelligencia eu tanto aprecio, não quer para a mulher a maxima instrucção, que dá em regra, a maxima elevação moral; não, para todas as mulheres, a instrucção professional de que precisa o medico, o jurisconsulto, o estadista, o engenheiro, o professor de universidade, mas esta instrucção geral, completa e solida, que dá aos espiritos a maxima amplitude de vistas, ao entendimento a maxima robustez, á alma a maxima grandeza moral, ao coração a maxima bondade, pela comprehensão do direito, pelo sentimento profundo do dever.Quer o meu amigo para a mulher uma instrucção rosada e transparente como uma meditação suspirosa de Lamartine; não lhe quer ensinar da historia senão o sufficiente para que ella se não faça beata, pelo horror aos seus similhantes, ou Lucrecia Borgia, por imitação ou por amor aos envenenamentos; não lhe quer ensinar astronomia porque receia que ella ande pelos bailes a perguntar aos cavalheiros que a comprimentam ou ás amigas que a abraçam, qual seja n'esse momento a declinação austral do planeta Saturno ou em que phase está o quarto satellite de Jupiter! Eu, francamente, não lhe sei responder a isto. Se o meu amigo tivesse dito, clara e cruamente, que quer a mulher como nossa mãi Eva, ignorante como uma barroza de capucha de pardo, entendia-se; era um systema ou uma convicção, a que eu tributaria todos{104}os respeitos que me merecem as convicções sinceras; mas dizer-me que quer para a mulher uma certa meia instrucção, que não vi que désse nunca mais que petulancia, mau senso e bacharelice ás mulheres que a possuem, porque lhes excita a curiosidade sem lh'a satisfazer, porque as não deixa na completa ignorancia, que as obriga á modestia do silencio, nem lhes dá á instrucção regular que produz a sensatez, dizer isto é estar a fazer versos quando se trata de formular claramente um principio, e responder com aaria finaldaTraviataao X de uma equação algebrica. Não posso pois acreditar na solidez das suas convicções sobre este ponto, e peço-lhe que, antes de me replicar, se me quizer dar tal prazer, leia o admiravel livro de Ernesto Legouvé—Histoire morale des femmes. Se elle o não convencer, eu perco as esperanças de o levar a fazer melhor juizo dos beneficios da instrucção e do espirito da mulher.Creia-memuito seu amigo,Braganca, 7 de fevereiro de 1872.Alexandre da Conceição.{105}Resposta do author ao snr. Alexandre da ConceiçãoMeu bom amigo:Estamos em plena sabbatina e, como em todas as sabbatinas escolares, abundam as palavras e escacêa o methodo, a deducção clara, e a argumentação logica. Escreve o meu amigo que eu li a sua primeira carta um pouco preoccupado, e eu com mais justa razão o poderia accusar de igual desleixo, o que é em si muito mais para sentir attenta a sua intimidade com as formulas mathematicas e os processos de calculo. Vejo-me portanto, obrigado a pôr nos seus verdadeiros termos esta conversa amigavel entre dous rapazes que se estimam. Os periodos que demoveram o meu amigo a quebrar o seu obstinado silencio de ha annos, foram estes:{106}«O meu pesadelo foi a mathematica, ai! foi a mathematica, sim. O Garrett queixava-se d'um mathematico de Coimbra, o snr. Honorato, que foi causa d'elle se ficar poeta. E o mais é que o snr. Albuquerque, do lyceu, é um homem de intelligencia e d'estudo, duas qualidades que eu respeito e admiro em qualquer homem.«Mas eu já tinha no corpo a peçonha da poesia; aborreceu-me o Serret, errei um problema, esmoreci, e fiquei como estava. Aconteceu que não pude ser mathematico, e que me deixei ficar litterato. Um mathematico de menos e um litterato de mais,—eis tudo o que aconteceu.«Em razão d'esta minha inimizade com a mathematica, hei-de recommendar a minha filha, quando ella crescer, que tapete de boninas, e esconda entre plantas o quadrado da minha sepultura. Eu, que não vivi bem com a arithmetica, não quero que ella se vingue de mim, quando me seja impossivel sacudir a lousa com os funebres algarismos que para logo denunciam a milicia dos mortos.«N'este horror á mathematica sou ainda discipulo de Camillo Castello-Branco que escrevia a Faustino Xavier de Novaes: «Teremos nós sepultura com lagea!? Conta com um cômorosinho de terra, e umas papoulas na primavera, e uma taboa preta com um numero branco. A arithmetica ha-de perseguir-me além da morte!»{107}Na sua replica propoz-se o meu amigo demonstrar-me, para usar das suas mesmas palavras, que as chamadas sciencias exactas não eram tão destituidas de riquezas poeticas como eu apregoava e muita gente acredita, mormente a astronomia, sciencia que tem dado homens como Galileu, Newton e Laplace; que a mathematica «é uma atmosphera de verdade onde a alma humana respira a pleno peito o ar da vida»; e finalmente «que esta poesia da sciencia não era só accessivel aos espiritos iniciados n'ella», senão que tambem se lhe afigurava muito para ser entendida e afagada pelas mulheres.Esta a summa da sua argumentação.Respondi-lhe eu que a poesia das mathematicas estava de certo nas suas grandes syntheses, nas suas vastas concepções, e que o meu espirito não tinha chegado a este apogeu aonde só podem subir as intelligencias privilegiadas. Bem sabe o meu amigo que para se apreciar o panorama é preciso ascender ao viso da serra d'onde elle se descortina em todo o seu esplendor;—que Newton, Galileu e Laplace me queriam parecer ao mesmo tempo grandes poetas e grandes mathematicos; chegarem aonde os outros não vão era já prova mais que sufficiente de que para elles não havia bellezas ignoradas nos altos segredos da harmonia que rege o universo; disse-lhe outrosim que não negava nem discutia que a mathematica fosse um instrumento de verdade, o que não obstante tinham feito Hobbes, Castel, Buffon e outros, porque assumpto{108}era esse estranho ao meu proposito e competencia; que, finalmente, quanto a ser accessivel a poesia das sciencias exactas a todos os espiritos, se me afigurava que alguns havia que só a despeito d'uma repugnancia natural logravam metter pé nas mathematicas elementares, porque a isso os obrigavam os regulamentos academicos. Quanlo á competencia das mulheres para entenderem os phenomenos meteorologicos, as theorias cosmogonicas e os problemas intrincados da philosophia, respondi-lhe que não era minha opinião dar tamanha latitude á instrucção feminina. Já vê que não fui eu que puz esta questão accidental; foi o meu amigo que a estabeleceu tambem accidentalmente.Deixemos porém isto para logo, que por enquanto vinha prejudicar a unidade das materias que me proponho tratar.Insurreccionei-me, como sempre, contra o charlatanismo scientifico, que expunha as mathematicas elementares nalinguagem hirsuta das cadeiras, na opinião de Garrett, que amontoava explicações confusas, citações nebulosas, o que produzia immediato desgosto no animo do estudante.A clareza é a primeira condição para nos fazermos entender, e os mathematicos charlatães não a podem ter, porque elles mesmos não digeriram ainda os sobejos indigestos, forrageados sob a mesa olympica em que se banquetearam intellectualmente os primeiros homens da sciencia.{109}Ora o meu amigo, depois de me observar que eu li a sua carta um pouco preoccupado, diz-me que «ha salvação possivel fóra da sua igreja, e que para divisar uma face á verdade não é absolutamente indispensavel saber dirigir um equatorial para a estrella 2151.ª daPopa do Navio.»Isto e o que eu digo é simplesmente a mesma cousa; o Conceição está portanto commigo.Se ha salvação possivel fóra da sua igreja, o mesmo é dizer que se póde ser grande litterato, grande estadista e grande politico sem se saber grande mathematica.A verdade é a côrte das idéas, deixe-me dizer assim, o centro onde ellas se devem grupar ao serviço da intelligencia soberana. A familiaridade com qualquer methodo seguro deve ser indubitavelmente o caminho mais curto para chegar á verdade, e como o meu amigo observa que ha salvação possivel fóra da sua igreja, parece dar a entender que a mathematica não é o unico methodo seguro para conseguir tal fim. Não sei se é ou não, pela simples razão de não saber mathematica.Por isso é que eu tinha dito: «Não nego nem discuto que a mathematica seja um instrumento de verdade,» e mais abaixo:«Não combati o estudo da mathematica nem combato; cada um estuda o que quer ou o que póde. Peço vista ao meu folhetim que despertou a sua replica.{110}Não aconselhei tambem a leitura da mais edificante novella de preferencia ao mais arido compendio d'arithmetica. O que eu fiz foi penitenciar-me publicamente do meu desamor aos numeros e, como eu sou d'uma sinceridade rude, permitti-me dizer que dormiria mais descançado o somno da morte, se minha filha, em vez de assignalar a minha sepultura com uma lousa numerada, levasse frequentes vezes ao meu cómoro um ramo de flôres. Isto é o que meu amigo não póde nem deve discutir, apesar da sua vasta intelligencia, que eu aprecio na devida conta. É licito a cada um dizer como quer ser sepultado. O meu testamento, no que respeita a esta disposição, é publico.»Como eu não posso affirmar a primazia da mathematica, assento de mim para mim que ella, em sua qualidade de sciencia, tende a demonstrar a verdade, quantitativa pelo menos, o que de certo é um exercicio de gymnastica intellectual que deve concorrer para o desenvolvimento do espirito. Mas do que eu não posso duvidar é de que as outras sciencias, como a psychologia, a physiologia e a logica, por exemplo, encerram verdades, e que conseguintemente devem tambem exercitar as faculdades intellectuaes. Ora o meu amigo desobriga-se de provar que a mathematica é a unica estrada que leva á Roma da verdade, dizendo que «ha salvação possivel fóra da sua igreja»; mais arraigado fico eu pois ao pensamento de que um homem póde ser grande sem a muleta da mathematica.{111}Não admira que os grandes mathematicos sejam ao mesmo tempo grandes poetas, porque quando a intelligencia attinge o maximo desenvolvimento possivel, está apta para abranger todos os conhecimentos humanos.Se porém um limitado peculio mathematico não permitte attingir-se esse grau de desenvolvimento, nem pode ser compensado pelas mealhas respigadas em outros thesouros de sciencia, então é muito para duvidar-se do senso artistico do individuo. Se ha «mathematicos seccos de espirito» é que tão pouco se exercitaram n'esse ramo de conhecimentos, que não chegaram á perfectibilidade intellectual relativa ou porque a sua intelligencia d'elles é pequena, rachitica, tacanha, e assimila pouco, não podendo digerir a variedade de conhecimentos pela sua mesma incapacidade natural. Esses taes trabalham com os elementos creados pelos grandes genios, contentam-se com dar alguns passos nas estradas infinitas que elles exploraram e param de affrontados de cansaço e de inepcia porque a cabeça se lhes nega a ir mais longe.É facto averiguado pela critica physiologica que a intelligencia varia d'homem para homem segundo as mesmas condições physicas do cerebro.Ora os espiritos privilegiados, que chegaram a ser grandes mathematicos, nasceram predestinados para as conquistas do pensamento, não ha difficuldade que os sustenha, barreira que os inquiete; são como os Alexandre Magno e os Napoleão que não recuam diante{112}da metralha inimiga e vôam no corcel impaciente até que a morte lhes arrefeça o sangue nas vêas. Da theoria dosmathematicos-artistase dosmathematicos-executantesdeduz o meu amigo o seguinte argumento:«Ha mathematicos seccos de espirito, estereis de imaginação e baldos de todo o senso artistico, logo foi a mathematica que os fez mirrhados e massadores. Se ha grandes mathematicos com imaginação e sentimento, esses são espiritos por tal fórma privilegiados que resistiram ás influencias esterilisadoras do numero e do caloulo.»Esta maneira de deduzir é que a mim me quer parecer extremamente sophistica. Então o meu amigo acha que se póde sujeitar a influencias materiaes, puramente externas, a intelligencia humana? Ou quer então medil-a pela mesma bitola em todos os homens? Se apenas houvesse um só grau de desenvolvimento intellectual, não teriam hoje menção especial os Newton, os Galileu e os Laplace.O conhecidissimo Fetis, o maior sabio da musica moderna, venceu pela sua rara intuição todas as difficuldades e devassou os mais reconditos segredos da arte dando ao mundo oTractado da harmonia[6]um verdadeiro{113}monumento que não poderia ser escripto por qualquer executante secundario da orchestra de S. João.E porque não poderia? Segundo as suas conclusões, porque a musica os «fez mirrhados e massadores.» Victor Hugo escreveu uma ode magnifica aos quinze annos; logo, ainda segundo as suas conclusões, foi porque resistiu ás influencias esterilisadoras da poetica. Não sophisme, meu amigo; bem sabe que ha aptidões excepcionaes e especiaes, que os Newton e os Victor Hugo são grandes porque não são vulgares.Agora ha certa affinidade em determinadas sciencias, que o mesmo é ter aptidão natural para umas e para outras, porque em verdade as podemos considerar irmãs gemeas.Acontece isto, como sabe, com a mathematica e com a physica, com a geographia e com a historia. Todavia esta affinidade não se dá a meu vêr entre a{114}mathematica e a poesia, porque, com quanto mirem ambas á verdade, visto que ambas teem por fim o bello, uma caminha a elle pela sensibilidade, pela imaginação, e a outra pela intelligencia, pela razão. É preciso ser descommunalmente grande, excepcionalmente organisado, para as abranger a ambas: Diz o meu amigo na sua ultima carta:«Parece-me, pois, senão demonstrado, pelo menos não destruido pela sua argumentação, que, em principio, o estudo das mathematicas não faz nem póde fazer mal algum ao gosto litterario ou á aptidão poetica.»E na primeira dizia que dessem á França mais arithmetica e menos versos, e que Sedan seria impossivel. Aqui ha contradicção. Então foram os versos que mataram o calculo,—foram as demasias do coração que allucinaram a cabeça. Portanto uma cousa e outra são incompativeis.Tambem na sua primeira carta dizia o meu amigo que devêra a sua reprovação em mathematica ás influencias nocivas da poesia, e que só combatendo pertinazmente essas influencias conseguira familiarisar-se com os numeros. Isto corrobora ainda o meu argumento.A mathematica dilata a razão, como a poesia dilata o coração. Uma vai após a razão, a outra após a sensibilidade, e tanto isto é verdade, que os grandes{115}litteratos são achacados ás irritações nervosas, aogenus irritabile vatum, como diziam os antigos. O melhor poeta será o que sentir melhor; o maior mathematico será o que calcular melhor. Portanto, é indispensavel uma organisação especialissima para ser tamanho n'uma como na outra. Lopes de Mendonça que tentou passar das amenidades da litteratura para o estudo pesado da economia politica, da administração, de tudo o que era adverso á sua inclinação natural, acabou por se perder para tudo, agonisando longo tempo no carcere da loucura.A nossa conversa fica n'isto: Não nego que a mathematica forneça processos seguros para a percepção da verdade, nem o meu amigo affirma que só pela mathematica se chegue á verdade, o que é o mesmo que dizer que sem se ser forte em mathematica, se póde ser grande em qualquer outra cousa,—em litteratura por exemplo. Faço entre os mathematicos, como entre todas as sciencias e artes, a distincção natural que offerecem as intelligencias. Opino que a heterogeneidade dos meios de que se servem a mathematica e a poesia produz entre ellas um certo antagonismo natural de modalidade, como se dá por exemplo entre as aves e os peixes cujo fim commum é a vida, com quanto umas vivam no ar e outros na agua; e o meu amigo corrobora esta opinião mostrando que a poesia no seu proprio espirito só cedeu campo á mathematica, depois que a expulsou a ella, a poesia, e que a França não attingiu ofimque devia attingir, porque empregou{116}omeio-poesia, em vez de empregar omeio-mathematica.Vamos agora á que o meu amigo chamamagnaquestão da educação da mulher, e antes de mais nada permitta-me que rebata a sua phrase «responder com aariadaTraviataao X de uma equação algebrica.» Isto ou é gracioso ou serio. Se é gracioso, é improprio d'uma questão de doutrina, e se é serio, colloca-se o meu amigo na posição de não poder continuar uma discussão com um contendor que larga a cantar á desgarrada quando o meu amigo lhe está expondo argumentos, e corre além d'isso o risco de se contradizer porque não se concebe como o Conceição, acreditando que eu estudo, suppõe que eu possa cantarolar quando o meu amigo raciocina.

A photographia é o folhetim da optica, assim, como o folhetim é a photographia da litteratura. Depois que se accendeu a febre dos jornaes, introduziu-se a moda já agora generalisada dos albuns, e a photographia e o folhetim invadiram o mundo, correram de mãos dadas, de polo a polo, porque se o folhetim é a reproducção dos acontecimentos, começada e concluida n'um instante, a photographia é a copia ligeira das pessoas, consummada em cinco minutos, n'umatelierelegante. Quem tem pretenções a fazer-se conhecido e respeitado das immensas ramificações de seus descendentes, retrata-se a oleo e deixa-se exhibir na sala nobre da familia, pendente d'uma lona, de casaca ou de farda, como se estivesse em perpetuo baile.{62}

Quem deseja escrever um livro para a posteridade segue o moroso processo dos retratos a oleo, senta-se pacientemente á banca todos os dias, corrige, emenda, annota, do mesmo modo que o pintor se inclina para a tela, aperfeiçoando um traço, avivando o colorido, corrigindo o contorno, trabalhando para o futuro, n'uma palavra. Mas quem se vai retratar para satisfazer um pedido, para brindar um amigo, para estar presente a uns olhos queridos com a firme tenção de mais tarde substituir o cartão pela propria pessoa, contenta-se com a photographia, que é um retrato incompleto, mas que é todavia um retrato.

Do mesmo modo, quem se senta á mesa de trabalho para traçar um esboço dos acontecimentos, para consignar as impressões do espectaculo d'hontem em quanto se faz horas para o baile d'hoje, e se pensa no passeio d'ámanhã, quem não quer historiar os factos mas unicamente estenographal-os, deixa fluctuar a penna na corrente do folhetim, dando um sorriso á bailarina nova, atirando um punhado de flôres ás alegrias do povo, orvalhando de lagrimas a saudade d'um athleta que cahiu, e sahe depois, de casaca e luva côr de perola, quando chega a carruagem, sem pensar siquer em que, procedendo d'outro modo, poderia ir ao capitolio mais depressa do que á sala esplendida e perfumada que o espera.

A missão do folhetim é pois photographar, apanhar os acontecimentos d'um só jacto e coloril-os com a luz que resalta do foco interior. Camillo Castello-Branco{63}escrevia uma vez a respeito de Julio Cesar Machado: «Bem sabe elle como é rapido o photographar, e bem sabemos nós que não devemos pedir-lhe mais que o esboço das cousas, aperfeiçoado depois pelo sexto sentido do talento.»

Em Portugal, o folhetim começou grosseiramente no «Almocreve das petas» e no «Barco da carreira dos tolos» como notou Rebello da Silva. José Daniel, que comprehendeu o espirito proeminente da época, procurou fazer a critica dos acontecimentos e das pessoas do seu tempo, provocando o riso, com a graça saloia e com a chufa grosseira, que era muita vez um respiraculo intencionalmente aberto ás combustões da inveja e do odio.

Era o embryão do folhetim, preparado á portugueza velha e pautado pelos modêlos daEufrosinade Sá de Miranda e doFidalgo aprendizde Francisco Manoel de Mello. O verdadeiro folhetim, tal como nós hoje o conhecemos, «a critica ligeira, risonha e fugitiva que borboleteia ao de leve por cima das flôres» como disse tambem Rebello da Silva, veio de França junto com os primeiros albuns que de lá recebemos, ao tempo que Julio Janin era moço, e de Hespanha dentro de uma caixa de charutos, expedidos pelo dono do estanco onde Marianno Larra os costumava comprar.

Garrett, que estudou lá fóra as mais notaveis evoluções da litteratura moderna, foi o primeiro que trouxe para Portugal o folhetim francez, amaneirado, elegante,chic. O mesmo não aconteceu ao snr. Alexandre{64}Herculano, que estudou tambem na escóla do estrangeiro durante o tempo da emigração, mas cujo temperamento era adverso ás amenidades da litteratura ligeira. Á hora em que o snr. Herculano trabalhava na mente o plano das suas lucubrações historicas, descia o futuro visconde d'Almeida Garrett do seu cubiculo de Ingouville, onde escrevera oCamões, eflanavadistrahidamente pelas margens do Sena.

Era isto—Garrett, oflaneur; Herculano, o philosopho.

Garrett foi na litteratura, como na sociedade, o verdadeiroflaneur. Borboleteou de genero em genero, dramatisou, romanceou, poetou, folhetinisou n'uma palavra, mas folhetinisou soberba, esplendida, admiravelmente. Garrett era porém o folhetinista do livro; faltava em Portugal o folhetinista do periodico. O temperamento de Garrett vedava-lhe o acompanhar quasi diariamente as lucubrações jornalisticas. Gostava de folhetinisar no seu gabinete, entre flôres e crystaes. Estava-se pedindo um homem robusto, febril, enthusiasta, que escrevesse os seus folhetins sobre a banca d'um escriptorio, nú de moveis e ornatos, com infatigavel energia, em quanto esperava o prélo impaciente. Esse homem appareceu,—foi Lopes de Mendonça. Durante muitos annos exerceu elle brilhantemente o folhetim,—o folhetim que se compromette a apparecer todas as semanas, a fallar de tudo embora haja completa escacez de assumptos, a ser alegre, espirituoso e profundo, apesar de se dar ares de leviano. O incendio{65}d'aquella poderosa imaginação crepitou, deslumbrou e finalmente extinguiu-se. Então appareceu em Lisboa um rapazinho da provincia, cheio de mocidade e esperança, que se estreou na litteratura offerecendo-se para traductor do Gymnasio. Os horisontes que elle sonhava eram lucidos como o céo da primavera. Em redor de Julio Cesar Machado tudo eram sombras, difficuldades, obstaculos. Mas elle era feliz porque sonhava com a esperança. Não basta ser feliz para o ser verdadeiramente. É preciso, e n'isto está tudo, amar a felicidade.

Se elle quizesse vencer d'um impeto todos os estorvos, enlouqueceria. Mas o seu temperamento lymphatico permittia-lhe esperar, e saber esperar é inquestionavelmente a primeira condição para vencer. Os seus nervos eram de natural submissos; impaciencia não a teve nunca. Por isso foi feliz. Soube namorar a felicidade. Quando a critica invejosa e proterva lhe sahia ao caminho, lá lhe vinha uma sombra á alma, mas as tristezas d'estes temperamentos são dolorosamente suaves. Passava a nuvem;—sonhava de novo com a esperança.

Eu sou realmente amigo de Julio Machado, e sei que elle me estima deveras. Quando penso na vida d'elle, lembro-me de mim, e perdôem-me este orgulho.

O author dosContos ao luarentrou no mundo sósinho; seu pai deixou-o muito novo quando desceu ao tumulo. Eu fui um pouco mais feliz, mas o braço de meu pai, cansado de trabalhar toda a vida, só com extrema difficuldade poderia nortear a minha educação pelos mares que a sua alma affectiva me queria aplanar. Os mestres de Julio Machado foram os seus primeiros amigos. Eu tambem me quero lisongear d'essa honra. Foi a amizade de José Estevão que lhe franqueou as columnas daRevolução de Setembro. Eu encontrei tambem no principio da minha carreira um jornalista sobremodo honrado, o snr. Cruz Coutinho, que recebeu os meus primeiros ensaios nas columnas doJornal do Porto, e me animou a proseguir. Ambos ganhamos pela penna o primeiro pão da vida. Do meu passado, conservo saudosas lembranças; Julio Machado compraz-se tambem em rememorar os seus primeiros annos que lhe sorriem ainda gratos através da penumbra do passado. Ambos nos destinavamos a um curso superior, e ambos ficamos no mundo sem carta de bachareis. Foi realmente uma pena; eu se fosse doutor era com certeza mais gordo,—mais feliz, pelo menos.

Qual seria a barreira litteraria diante da qual empedrou o estudantinho da Durruivos? Não sei; o latim de certo não foi, que esse ensinou-lh'o o padre Paulo, de quem elle falla nosQuadros do campo e da cidade.

A esphynge da latinidade tambem me não amedrontou a mim; conservo ainda saudades do Virgilio e do Horacio, e estimo sinceramente o snr. Dantas que foi meu mestre.

O meu pesadelo foi a mathematica, ah! foi a{67}mathematica sim. O Garrett queixava-se d'um mathematico de Coimbra, o snr. Honorato, que foi causa d'elle se ficar poeta. E o mais é que o snr. Albuquerque, do lyceu, é um homem de intelligencia e d'estado, duas qualidades que eu respeito e admiro em qualquer homem.

Mas eu já tinha no corpo a peçonha da poesia; aborreceu-me o Serret, errei um problema, esmoreci, e fiquei como estava. Aconteceu que não pude ser mathematico, e que me deixei ficar litterato. Um mathematico de menos e um litterato de mais,—eis tudo o que aconteceu.

Em razão d'esta minha inimizade com a mathematica, hei-de recommendar a minha filha, quando ella crescer, que tapete de boninas e esconda entre plantas o quadrado da minha sepultura. Eu, que não vivi bem com a arithmetica, não quero que ella se vingue de mim, quando me seja impossivel sacudir a lousa com os funebres algarismos que para logo denunciam a milicia dos mortos.

N'este horror á mathematica sou ainda discipulo de Camillo Castello-Branco que escrevia a Faustino Xavier de Novaes: «Teremos nós sepultura com lagea!? Conta com um cômorosinho de terra, e umas papoulas na primavera, e uma taboa preta com um numero branco. A arithmetica ha-de perseguir-me além da morte!»

Agora estou eu reparando que me tenho desmandado em confidencias, e que amanhã ha-de gritar a{68}maledicencia que eu fiz, que aconteci, que me quiz nivelar com Julio Machado. Não ha tal; previno o commentario. Basta dizer-lhes que ha sete annos,—era eu uma creança,—li pela primeira vêz, na Foz, asScenas da minha terrae que me demorei longo tempo diante da dedicatoria d'esse livro que Julio Machado offerece a sua mãi, não sabendo se havia de applaudir mais o escriptor se o filho. Elle era então já um talento feito e eu, desprovido dos seus valiosos dotes, ainda era uma creança. Applaudi-o então, applaudo-o hoje e applaudil-o-hei sempre.

Mas era d'elle que vinhamos fallando,—era do seu temperamento que queriamos fallar.

Ah! feliz temperamento o seu, que se revela na suavidade dos seus folhetins, na doçura dos seus contos, na tranquillidade do seu animo.

O temperamento de Julio Machado está noPedrinhodosContos ao luar, naMarcolinadasScenas da minha terra, noRomance d'uma alma, dasHistorias para gente moça. São tristezas suaves,—deliciosas tristezas!

Elle, que foi o successor de Lopes de Mendonça, deve inquestionavelmente ao seu temperamento o ter arrostado ha longos annos com a improba canceira do folhetim sem desanimar, sem ficar vencido.

Escreve tranquillamente, por isso se não tem gastado. As viagens são uma tendencia do seu espirito. É ainda o folhetim em acção o que elle quer. Mas não vai viajar de afogadilho, não pensem, como se lhe fosse{69}na pista a policia ou o cholera. Nada d'isso. Para ir a Paris e para chegar a Londres gastou dous mezes.

Quando parte, não diz a ninguem onde estão os seus papeis importantes para o caso de não voltar. Nada d'isso. Parte alegremente,—para Italia; cantarolando com o Junca; para Hespanha, em trajo detouriste, em communidade de aventuras com o conde d'Obidos.

Nunca se lembrou que lhe ia acontecer desgraça pelo caminho. Ao contrario, pensa que a natureza o espera com um sorriso e umbouquet. É elle mesmo quem nol-o diz:

«De mais a mais, não sou de uns certos, que tudo pesam e scismam antes de se proporem a sahir da sua terra, e até cuidam que o barco se ha-de perder, simplesmente pelo facto de os levar; eu, ao contrario, cuido que por eu ir n'elle é que o barco se não perderá.»

Accusam-n'o de desleixado na linguagem. É um defeito. Quem o não tem? E muitos dos que lhe atiram a pedra estão tambem no caso de ser apedrejados.

Bem desleixado se deixou ser o Garrett nasViagens, que é o folhetim mais folhetim que se tem feito entre nós, e todavia o Garrett ha-de viver mais tempo do que os seus criticos. O folhetim não se está a pregar e a repregar como as mulheres de trinta annos. Ah! não, o folhetim tem a graça e a desenvoltura de uma donzellinha. Namora-o a flôr; basta-lhe o perfume. Tudo o que faz é «ao acaso, tudo a brincar, tudo{70}para entreter», segundo uma expressão de Julio Machado.

Quando elle publicou osContos ao luar, sahiram-lhe ao encontro os grammaticões, os nossos graves grammaticões—que graça!—por haver attentado contra a virtude da syntaxe, começando o seu livro por uma conjuncção copulativa.

Era certo que elle havia escripto—«... E depois, eu não sei bem porque chamei ao meu livroContos ao luar!» Que elle, o phantasioso contista, tivesse aceitado a sequencia d'um sonho interrompido, d'um devaneio cortado pelo fremito d'uma vaga, que quizesse dar aos seus contos o vago do luar, não comprehendiam os grammaticões. Lá estavam as reticencias que substituiam as palavras, mas não eram reticencias o que elles queriam, eram palavras, palavras, unicamente palavras.

Os grammaticões são como os diccionarios;—o que mais têem são palavras. E os defensores da inviolabilidade da grammatica em vão açularam a critica, e os apostolos da conjuncção morderam-se, e o livro teve tres edições, para dizer tudo d'uma vez.

Já que me referi n'outro lugar aoRomance de uma almaquero acrescentar que basta este conto para caracterisar physiologicamente Julio Cesar Machado,—um conto adoravel, dôce e triste, um devaneio de phantasia delicada que faz lembrar as mais formosas tradições do Rheno primorosamente trasladadas a portuguez pelo snr. José Gomes Monteiro.{71}

Ah! meu caro Julio, eu, que sou ainda novo, amo sinceramente a candida mocidade que se respira nos seus livros, delicio-me com as fragancias d'esses gentisbouquetsque o seu talento tem enfeixado, e ao terminar estes breves estudos de physiologia, litteraria permitta-me que saude d'aqui a primavera que ainda lhe sorri exuberante de galas e esperanças.

Algum dia dirá de si a historia da litteratura patria que foi um escriptor sempre moço, que sabia com o seu espirito enganar a idade, quando ella the acenava de longe, e que no dia em que lhe nasceu a primeira branca atirou ainda a umas bailarinas que iam passando com um bonitobouquet, um adoravel folhetim, de sorte que ellas, apesar d'uma ruga e de uma can igualmente traiçoeiras, tiveram inveja á sua mocidade e ao seu temperamento, como eu, que sinceramente o confesso, e se lembraram de Anacreonte, que morreu a sorrir, coroado de flôres.

Termino esta serie de folhetins com o nome festejado d'um distincto folhetinista. Assim devia ser; é sobre o pedestal que se colloca a estatua.

N'estes rapidos estudos humoristicos, que ahi ficam, procurei fazer em Portugal o que fez Emilio Deschanel em França, com uma unica differença—que elle o fez muito melhor e mais detidamente. Elle me serviu de modelo e incentivo. Gostei do seu livro, e o mais que fiz foi applicar aos nossos escriptores a theoria que elle havia enunciado, não na sua generalidade, o que seria longo, mas em uma das suas ramificações,{72}o estado physico, o que me pareceu curioso. Parti, como elle, da influencia do corpo sobre a alma, e procurei estudal-a n'um certo numero de individuos.

Tentei estudar o temperamento no estylo.

Mais que nunca se me figura opportuna a occasião para trazer em minha defeza as palavras de Deschanel: «Paradoxo! dirão uns. Banalidade! clamarão outros. Que se entendam uns com os outros até chegarem a um accordo. Que importa que uma cousa seja velha, se é verdadeira? E não será sufficientemente nova, para o tempo que corre, se fôr precisa e sincera?» E depois, receioso de que supponham que se dá ares academicos, acode Deschanel denunciando a indole dos seus estudos: «Imaginai que folheaes, por matar o tempo, um album de autographos ou de photographias; é pouco mais ou menos o que vos eu apresento.» Isto escreveu Deschanel; isto devo eu repetir com dobrada razão.{73}

Ill.moamigo.

Na ultima das suasCartas do Inverno[5], nas quaes o meu amigo tratou, com a sua habitual delicadesa d'estylo, a interessante questão do temperamento d'alguns dos nossos mais populares escriptores, vem lá uns piparotes á mathematica e aos mathematicos que eu não posso deixar passar sem reparos.

Saio pela honra do meu convento. Proponho-me demonstrar-lhe que as chamadas sciencias exactas não são tão destituidas de riquezas poeticas como o meu amigo apregôa e muita gente acredita, e que nas litteraturas de todos os tempos e de todos os paizes—veja que ambições de erudição as minhas!—não ha{74}concepções nem mais grandiosas nem mais sublimes do que nas mathematicas.

Combatendo-lhe a sua antipathia pela sciencia das quantidades, tenho ainda em vista atacar o preconceito, entre nós infelizmente vulgarissimo, de que o estudo das mathematicas esterilisa a imaginação, mata o sentimento artistico e torna o espirito pesado e sorna como a quarta pagina doTimes.

Não ha com effeito estudantinho de lyceo que tenha lido, em traducção mascavada, osTres Mosqueteirosou aMenina do 4.º andar, que se não julgue victima da mais cruel das tyrannias paternas quando se lhe impôe a obrigação de estudar um poucochinho do Manso Preto ou do Sousa Pinto.

Conheci no meu tempo d'estas victimas imberbes do romantismo fazerem gala de serem reprovados em mathematicas elementares, para se darem ares de Esproncedas em promessas, de Byrons em projectos, de rapazes esperançosos, de moços cujo talento se não podia amoldar, pela grandeza e pela impetuosidade, aos estreitos limites da arithmetica, da algebra ou da geometria.

É verdade que depois estes interessantes mocinhos demonstraram ter na mesma conta da arithmetica tudo o que os obrigasse a duas horas de trabalho sério, e iam a final, cobertos de rapozas e inutilisados physica e moralmente pela devassidão e pela ociosidade, parar aos corredores das secretarias d'estado, ás ante-camaras dos ministros ou ás salas de espera{75}dos influentes eleitoraes mendigando um emprego publico, onde podessem emfim applicar a sua actividade gasta nos prostibulos, nos cafes e nos passeios publicos.

Assim como ha porém intelligencias com aptidão singular e admiravel para a comprehensão das sciencias exactas, ha tambem boas e prestadias intelligencias, e d'esse numero é a do meu amigo, que tomam á conta de repugnancia invencivel pela mathematica o que n'essas intelligencias é apenas amor e enthusiasmo por outra ordem de verdades. O Julio de Castilho dizia-me em Lisboa, com aquelles seus ares candidos e virginaes de pintor biblico da renascença, que não comprehendia como eu, que fazia versos, conseguira encarar nas mathematicas sem ficar logo alli empedrado de horror. Elle, como o meu amigo, quando lhe disseram que havia de estudar arithmetica, parece que escreveu uma apologia apocalyptica do suicidio e que esteve meio resolvido a ir esconder o seu asco aos numeros no fundo do Tejo. Deixe-me fallar-lhe ainda de mim para demonstração d'uma verdade acima enunciada. Eu quando principiei a estudar mathematicas tinha o espirito azedo e derrancado com a leitura d'uns detestaveis romances francezes que por ahi andam na mão de todos os meninos e meninas. Aterrado com o desimaginoso estylo do 1.º tomo doFrancoeurdisse de mim para mim, para me desculpar da propria mandriice, que o meu talento não nascera para digerir taes bagatelas e alistei-me galhardamente{76}na numerosa ala dosmergulhadores, meus condiscipulos e consocios na guerra ao estylo do filho espurio da grande actriz Lecouvreur, segundo contam as más linguas. O resultado d'este meu incipiente mau gosto litterario foi perder o anno, poupando assim o snr. Pinto d'Aguiar ao trabalho de me premiar aloureiricecom tres rapozas, vêr com muita inveja e muito desgosto de mim proprio parte dos meus condiscipulos alcançar com a approvação o premio dos seus esforços, ir para ferias grandes com uma cara tola de homem que se reconhece inutil e mandrião aos proprios olhos, e, por sobre tudo, apresentar-me a meu pai, que tanto me estremecia, com a consciencia de lhe ter roubado perto de trezentos mil reis, que fui tirar ao patrimonio sagrado de minhas irmãs, sem receber d'elle uma reprehensão, o que era o peor de todos os castigos.

Senti-me deveras e profundamente abjecto diante de mim mesmo.

Em outubro voltei ao Porto e comecei a estudar regularmente n'esse anno e nos que se seguiram, até completar a minha educação profissional. Nunca porém me pude vêr livre completamente dos maus habitos adquiridos na convivencia da mocidade imaginosa e revolucionaria, que me fôra companheira das tolices do primeiro anno. Ainda hoje estou combatendo essas influencias de romantismo futil e estouvado que nos tem para cá vindo nos enxurros da litteratura franceza.{77}

O precioso tempo que gastei a fazer versos e folhetins, com que nem eu nem as letras ganhamos pouco nem muito, podia tel-o empregado bem melhor a estudar conscienciosamente o que hoje me vejo obrigado a compulsar de novo, para não exercer a minha profissão do mesmo modo que fiz o papel de poeta e de folhetinista.

Com a propria experiencia pois lhe afianço que o estudo das mathematicas nem esterilisa a imaginação nem atrophia o sentimento artistico. Deixe-me dizer-lhe mais: Das grandes manifestações do espirito humano só a musica me tem causado tão intimas sensações de contentamento, de felicidade interior e de enthusiasmo como as que experimentei com as mathematicas, apesar de as haver estudado superficialmente e de apenas lhes ter entrevisto a sublimidade e a elevação. Lastimo-o se nunca sentiu os jubilos intimos, o puro contentamento que se apodera de nós quando chegamos á posse plena d'uma verdade mathematica. É então que se comprehende bem que o homem não vive sómente de pão mas de verdade. Sente-se a gente orgulhoso d'este orgulho fidalgo de pertencer á nobre familia dos seres que tirou do fundo do seu espirito taes sublimidades.

E depois, meu amigo, que idéa se ha-de fazer da arte, se fôrmos apregoar que as sciencias exactas, que é onde a verdade mais luminosa se apresenta, são inimigas irreconciliaveis da poesia? Em que conceito se ha-de ter a litteratura, se se acreditar que ella odeia{78}o rigor logico dos raciocinios, a actividade energica e regalada do espirito, os exercicios olympicos da intelligencia? Victor Hugo diz no prefacio de não sei qual dos seus livros que a algebra é uma poesia. É um acerto isto. Diz-se tambem que as mulheres da Africa dão a comer aos filhos coração de leão para os tornar robustos e corajosos. O coração do leão para o espirito é o estudo das mathematicas. Não ha nada mais sadio nem mais nutritivo.

É uma atmosphera de verdade onde a alma humana respira a pleno peito o ar da vida. É a agua lustral que nos lava dos preconceitos da educação, e que nos levanta o entendimento áquella altura d'onde se não podem já enxergar umas certas cousas mesquinhas e tolas que ahi andam ataviadas com os ouropeis da phantasia, e que são tão futeis e tão ridiculas, como os interesses que sustentam.

Nas sciencias mathematicas ha sobre todos um ramo, com o qual, no meu entender, não póde competir nem em grandeza nem em sublimidade poetica nenhuma outra ordem de conhecimentos humanos; é a Astronomia. Galileu, Kepler, Newton e Laplace são poetas de mais alto cothurno que Homero e Shakspeare e Goethe e Victor Hugo. Não grite á d'el-rei contra a blasphemia litteraria; olhe que é verdade isto que lhe digo. Se tirar aquelles grandes vultos da sciencia a imaginação, o enthusiasmo, a intuição prophetica da verdade, as allucinações do ideal, este exaltado lyrismo que o amor sofrego da verdade produz{79}nas intelligencias privilegiadas, se lhes tirar todas estas qualidades de espirito que fazem os grandes poetas, reduz-me aquelles homens á craveira vulgar de quatro mathematicos mais ou menos obscuros, mas não m'os eleva nunca á altura de espiritos creadores, de genios, de poetas finalmente.

Que litteratura ha no universo que possa sustentar as pretenções de possuir uma obra litteraria capaz de se medir em grandeza de concepção e em sublimidade de idéas com a theoria da attracção universal de Newton ou com a hypothese sobre a formação dos mundos de Laplace?

Que nome senão o de poeta quer o meu amigo dar a um homem como Leverrier que encontra um planeta desconhecido e nunca visto por olhos humano na ponta da sua penna, fechado no seu gabinete de trabalho? Diga-me: se fosse millionario não pagaria por bem maior preço os calculos originaes de Leverrier do que o autographo mais precioso do Dante?

E não me diga que esta poesia da sciencia só é accessivel aos espiritos iniciados n'ella. Reuna em volta de si duas ou tres mulheres de talento e de gosto litterario, lêa-lhes o melhor trecho doHamlet, o melhor canto doInferno, a melhor composição daLenda dos Seculos, e depois faça-lhes uma exposição singela do systema dos mundos, narre-lhes a historia da descoberta da velocidade da luz ou conte-lhes o prodigioso romance do apparecimento no mundo da sciencia do planeta Neptuno, e verá qual das cousas as deixou{80}mais allucinadas, se a poesia dos versos ou da palavra, se a poesia dos mundos ou da sciencia.

Em si, que é um espirito serio e estudioso, não quero eu vêr no seu horror as mathematicas mais do que um gracejo de folhetinista; mas é que nós padecemos d'uma profunda doença social que se revela muito n'esse desprezo pelos estudos serios, n'esse fastio pela verdade singela, pela logica vigorosa e pelos methodos de raciocinio verdadeiramente scientificos. Nutra-me o espirito publico de conhecimentos exactos, de methodos seguros de raciocinio, e ha-de vel-o não se contentar tão facilmente com os sonhos com que o andam por ahi embalando os especuladores da causa publica, todos estes prudentes da occasião que trazem os principios chumbados ao marmore da rotina, que teem a consciencia adstricta á gleba dos empregos publicos, e toda a alma enfeudada aos preconceitos da opinião do maior numero. Olhe que é seria esta questão. Dê-me á França mais mathematicos e menos romancistas, mais arithmetica e menos versos, e Sedan é impossivel e os incendios de Paris serão irrealisaveis. A victoria é o resultado da superioridade dos vencedores; mas a superioridade dos vencedores suppõe a inferioridade dos vencidos.

O espirito serio e pratico da nova Allemanha havia de mais tarde ou mais cedo derrotar o genio romantico e futil da França contemporanea. Era uma guerra fatal aquella com um resultado previsto ha muito. Pergunte por isto ao snr. Pedro d'Amorim Vianna,{81}que talvez o encontre disporto a dizer-lhe umas cousas sublimes que elle sabe,apesarde saber tambem mathematica como poucos.

E, já que tem a felicidade de ter uma filha, meu amigo, ensine-lhe a admirar Soares de Passos, e em Soares de Passos a poesiaO Firmamento, cuja inspiração elle foi beber a um dos ramos d'essa vasta sciencia dos numeros, que muita gente suppõe arida e esterilisadora como um livro de conta corrente. Depois nutra-lhe o espirito com o alimento sadio e robusto das verdades scientificas; leve-a pela mão aos grandes templos da vida moral; ensine-lhe a historia, que é a epopêa da humanidade; ensine-lhe a geologia, que é a historia da terra; ensine-lhe a astronomia, que é o poema heroico do universo. Diga-lhe que por baixo da lousa fria do tumulo, onde lhe mandar esparzir rosas de saudade, ha apenas os restos inertes d'uma cousa grande, que é o homem; a alma d'esse homem, essa, que a não procure n'esses restos, mas no proprio espirito d'ella, na memoria das suas boas acções, na recordação, que ella deve ter sempre viva da sua dedicação á familia, do seu amor ao trabalho, da sua paixão pelo estudo, da sua coragem nos revezes, da sua modestia nas alegrias, do seu respeito á virtude, da sua aspiração ao bem, do seu culto ao bello, das suas qualidades como esposo, como pai e como cidadão, pois que n'essa recordação na alma ingenua d'uma filha vai a melhor immortalidade a que um homem honrado pode aspirar.{82}

Creio que abusei muito da sua paciencia, não abusei? Que quer?... custou-me ouvir-lhe dizer mal das mathematicas.

Não torne, olhe que eu estou de atalaia, e então ai da sua paciencia.

Até lá e sempre creia-me

seu amigo e admirador,

Bragança, 22 de Janeiro de 1871.

Alexandre da Conceição.{83}

[5]As paginas antecedentes sahiram com este titulo em folhetins doJornal do Porto, de dezembro de 1871 a março de 1872.

[5]As paginas antecedentes sahiram com este titulo em folhetins doJornal do Porto, de dezembro de 1871 a março de 1872.

Meu bom amigo:

Fez-me a honra de replicar amavelmente ao ultimo d'estes despretenciosos folhetins que tenho publicado noJornal do Portosob o titulo deCartas do Inverno, e eu apresso-me a responder-lhe para inteira conservação das nossas relações amigaveis e litterarias.

Sahiu o meu amigopela honra do seu convento, levantando umas ligeiras insinuações com que eu não esperava offender a mathematica e muito menos melindrar um só mathematico.

Enganei-me, e em boa hora me enganei, porque a sua carta significa para mim uma honra, posto que immerecida, bem vinda, e porque me apraz digladiar com luctador assim digno como leal.{84}

Foi seu proposito mostrar que a mathematica não póde deixar de ministrar á litteratura o vigor logico do raciocinio, quer dizer, o machinismo scientifico de que se serve o homem para chegar ás convicções profundas. E cita o meu amigo uma pleiade d'homens illustres que foram ao mesmo tempo grandes mathematicos e grandes poetas, uns titães celeberrimos que se levantaram a uma altura a que não poderam chegar os gigantes da fabula.

Falla-me de Galileu, de Kepler e de Laplace. Não me falle d'esses, que foram os poetas da mathematica, que viveram embriagados no lyrismo da sciencia, e que por uma privilegiada intuição souberam deletrear as bellezas infinitas da epopêa dos astros. Não me falle dos grandes genios da astronomia, sciencia quasi divina, porque estuda o céo.

Herschell, cuja vasta intelligencia passou pelo baptismo da musica, antes de se remontar ás eminencias olympicas, tem no firmamento um epitaphio eterno para o qual não ha honras nem grandezas comparaveis. O rei JorgeIII, que lhe fez mercê d'uma pensão da trezentos guineus e de uma vivenda no burgo de Slough, quasi concedeu um galardão irrisorio ao homem que devia ter o céo por tumulo e Uranus por epitaphio. Estas são as aguias audazes que roçaram as azas pela tela azul do firmamento, visitando os archipelagos de mundos, que, na phrase do materialista Buchner, infinitamente distantes uns dos outros, povoam o immenso deserto das alturas. D'esses não fallava{85}eu, porque os respeito tanto, quanto me é vedado conhecel-os. Fiquem estes e outros mathematicos para logo; fallemos por agora da mathematica.

Eu não nego nem discuto que a mathematica seja um instrumento da verdade; assumpto é esse estranho á minha competencia e ao meu intento. Se o fizesse, poder-me-hia encostar a talentos sobremodo abalisados;—a Hobbes que escreveu contra a certeza da sciencia que se tinha á conta de mais certa; ao padre Castel que falla n'este diapasão: «Em geral estimam-se muito ás mathematicas. A geometria tem verdades nebulosas, objectos vagos, pontos de vista vaporosos. Por que dissimulal-o? Tem paradoxos; apparencias de contradicção, conclusões de systema e de concessão, opiniões de seitas, conjecturas e paralogismos»; a Buffon, finalmente, que ponderou que as verdades mathematicas se reduziam a entidades d'idéas, e eram baldas de realidade. Se eu lançasse mão d'esta arma, movido de proposito ou convicção, responder-me-hia o meu amigo com numerosas e respeitabilissimas opiniões tendentes a encarecerem a verdade mathematica. Alardeariamos sciencia, mas não passaria a cousa d'uma cegarrega causticante para o leitor e para nós.

Não combati o estudo da mathematica nem combato; cada um estuda o que quer ou o que póde. Peço vista ao meu folhetim que despertou a sua replica. Não aconselhei tambem a leitura da mais edificante novella de preferencia ao mais arido compendio d'arithmetica. O que eu fiz foi penitenciar-me publicamente{86}do meu desamor aos numeros e, como eu sou d'uma sinceridade rude, permitti-me dizer que dormiria mais descansado o somno da morte, se minha filha, em vez de assignalar a minha sepultura com uma lousa numerada, levasse frequentes vezes ao meu cómoro um ramo de flôres. Isto é o que o meu amigo não póde nem deve discutir, apesar da sua vasta intelligencia, que eu aprecio na devida conta. É licito a cada um dizer como quer ser sepultado. O meu testamento, no que respeita a esta disposição, é publico.

Os estudantinhos que o meu amigo conheceu com o espirito derrancado pela leitura de romances de má doutrina e peor linguagem, não são uma creação do seu espirito. Eu tambem os conheci, e ainda conheço muitos, infelizmente. Ora esses nem têem amor á litteratura nem á sciencia. São uns vadios, que andam malbaratando as economias dos paes e pegam no compendio para pretexto de passeio até ao lyceu, e n'um romance para engalharem o somno, espavorido com a excitação da saturnal.

Eu sei que não escureceu o seu animo a idéa de se referir á minha pessoa. Faço-lhe inteira justiça e correspondo á sua amizade. Todavia algum leitor menos benevolo poderia ver n'isso uma allusão encapotada. A esse, não a si, digo eu que, não tendo merecimentos litterarios para reivindicar, não estou disposto a desapossar-me da unica qualidade boa que, como homem, me pertence,—o amor ao trabalho. Os meus amigos conhecem-n'a e respeitam-n'a. Sinto-me{87}então contente, e mais ainda quando, ao romper da manhã, vejo do meu gabinete, ao tempo que nem fumegam as casas visinhas para a refeição matinal, a canceira com que um moinho de vento proximo vai rasgando o nevoeiro com os seus quatro braços alvejantes. A essa hora, quando ainda não martelam as officinas nem estrondea na rua o pregão dos bufarinheiros, os unicos trabalhadores que estão despertos, é o moinho e sou eu. Basta isto.

Uns estudantes ha ahi, e sempre houve, que desestimam as sciencias exactas, mas que são grandes em differentes ramos d'estudo. Esses só sahem incolumes do exame de geometria,—quando sahem—depois de longo soffrimento para domarem temporariamente a inclinação natural do seu espirito d'elles.

Lembra-me citar-lhe um que tenho á conta de grandissimo poeta;—é Gonçalves Crespo, o author dasMiniaturas.

Bom é que haja sempre aptidões diversas; só assim poderá florescer um estado.

Os que como o meu amigo começaram por poetar gentilmente e acabam «por combater as influencias do romantismo futil e estouvado» são raros.

Felicito-o sinceramente pela perseverança com que procura expurgar os velhos habitos, os quaes se me não afiguram tão nocivos como o meu amigo suppõe, antes, a meu vêr, eram mais um titulo de respeito para a opinião que geralmente se fórma da sua intelligencia.{88}

Alguma cousa porém lhe ficou dos seus passados amores com as letras, a despeito das mathematicas,—foi o estylo que naturalmente resalta da sua penna com estimavel donaire.

Não perdeu tempo nem trabalho, e muito mais se conseguiu, como acredito, alliar as louçanias da phrase aos conhecimentos d'um mathematico estudioso.

Voltemos porém aos mathematicos.

Em duas classes os divido eu; mathematicos-artistase mathematicos-operarios.

Os primeiros, aquelles de que o meu amigo me fallou, são os que entenderam em assumptos de telhas acima, os que procuraram a poesia da mathematica nos mundos que pendem sobre as nossas cabeças e que estão narrando a gloria de Deus, no dizer da escriptura.

Um só defeito tiveram alguns d'elles, a meu vêr. Foi o ensoberbecerem-se tanto com a gloria n'aquelle seu adejar nos páramos do céo, que julgaram Deus uma cousa ociosa e superflua. Subiram tão alto, que se lhes afigurou impossivel haver alguem que os sobrepujasse.

Lalande proclamava que tendo estudado o céo não encontrara por lá vestigios de Deus. Laplace dizia a Napoleão que se no seu systema de mechanica celeste não tinha fallado de Deus, era só porque não urgira d'essa hypothese.

São maneiras de vêr.

Á segunda classe dos mathematicos, taes como eu{89}os distingo, pertencem os executantes, os que não sabem da sciencia mais do que o que está n'uns compendios sobremodo aborrecidos; d'uns que não dispensam a esponja para os seus calculos, porque a esponja lhes absorve os erros frequentes; que se apresentam com a vã magestade de regulos em sciencia e fazem do radio uma especie de ferula com que martelam na lousa para intimidar os alumnos que andam perdidos na abstrusidade da explicação do professor; finalmente d'uns que zombam de todos e de tudo o que não fôr a mathematica que elles versam, e que nada acham prestadio tirante a sciencia dos numeros. Estes são os que eu detesto, porque matam muita aptidão nascente com grandes doses de pastelão algebrico, como ia acontecendo ao Garrett, se elle não tivesse o bom senso de lhes fugir com o seu talento.

Estes taes podem ser equiparados na profundidade da sciencia, não pelo que toca a extensão, a uns homens obscuros, mais prestimosos e menos inchados que elles,—os guarda-livros. Uns praticam a mathematica dos lyceus, os outros a das casas bancarias. Praticam-n'a todos os dias; por isso desempenham correntemente as operações arithmeticas que lhes commettem. Mais nada.

«A algebra, disse o adoravel Garrett, é bom contraveneno para os empeçonhados de poesia; mas hade ser dado com geito e tento. Quiz-me fazer engulir doses muito grandes, não me pôde o estomago com ellas.»{90}

Ora eu estava empeçonhado, mas não me pôde o estomago com as doses do contraveneno, e como para chegar á poesia da mathematica era preciso desbravar a semsaboria dos prologomenos, fiquei sem conhecer os mathematicos do quinto andar e desandei pela porta fóra. Esta distincção que eu faço entre mathematicos, parece que tambem a fazia o Chateaubriand. Sempre é bom valer-se a gente de authoridades. Dizia elle noGenio do Christianismo:

«Todavia não será talvez difficil pôr d'accordo os que declamam contra as mathematicas e os que as preferem a tudo o mais. Esta differença d'opiniões vem do erro commum, que confunde umgrandecom umhabilmathematico. Ha uma geometria material que se compete de linhas, de pontos, de A+B; com tempo e perseverança, um vulgarissimo espirito póde entrar por ella dentro com galhardia.

«É então uma especie de machina geometrica que executa de per si operações complicadas, como a machina arithmetica de Pascal. Nas sciencias, o ultimo que chega é o que melhor se instrue; eis-aqui porque qualquer collegial do nosso tempo esta mais adiantado que Newton em mathematicas; esta é a razão, porque tal que hoje é tido á conta de sabio será acoimado de ignorante pela geração futura. Azoinados com os seus calculos, os geometras-machinas teem um desprezo ridiculo pelas artes de imaginação; sorriem de compaixão quando se lhes falla de litteratura, de moral, de religião;conhecem, dizem elles, a natureza. Não{91}será para adorar-se aignoranciade Platão, que chama á natureza umapoesia mysteriosa?»

Ha uma applicação da mathematica, que, com quanto se me não afigure poetica, não merece que se maldiga, porque é util: a geodesia. Essa professa o meu amigo, e tanto não me parece poetica a convivencia com o jalão e a fita metrica, que foi capaz de emmudecer a lyra das suasAlvoradas. Um tio meu, que passa por engenheiro distincto, Frederico Augusto Pimentel, conserva na sua bibliotheca muitos volumes de boa litteratura, que adquirira em estudante, mas eu quando o visito em Braga ou o encontro a braços com o pantómetro ou annotando o seu livroManual do apontador.

Com referencia a mathematicos disse o que tinha a dizer.

Reportemo-nos agora a outro ponto da sua carta.

Deus me livrara, ainda que me fosse possivel, de fazer leituras d'astronomia a mulheres.

Estou d'accordo com Rossely de Lorgues, que fixa a origem da impiedade no reinado em que as mulheres, a conselho de Fontenelle, estudavam Euclides e discutiara Newton e Leibnitz, á roda de Maupertuis, no jardim das Tulherias.

Ora estas sabenças d'alto cothurno, que se conversavam nas cêas do barão d'Holbach e nos jantares de madame de Tencin, levaram a mulher franceza ao desvergonhamento, a que só póde ser cauterio a verdadeira{92}religião; não a religião das missões e dos missionarios, mas a religião de Deus.

O proverbio popular desconfia da mulher que sabe latim; eu desconfio da mulher que sabe mais do que latim. Quero instrucção para a mulher, grito por ella; mas ha-de ser uma instrucção rosada, loura, como as mais formosas tranças, casta, pura, limpida.

Para isso era preciso fazer compendios especiaes, delicados e prudentes. Da historia de Portugal, por exemplo, seria conveniente dramatisar as legendas dos heroes que se sacrificaram pela patria. Teem as mulheres imperiosa necessidade de conhecel-os, para soprarem ao animo dos filhos as primeiras sementes do amor nacional. Agora as negruras d'umas rainhas e d'uns principes, que mancharam a nossa historia, bom seria que ellas as não soubessem nunca. De mathematica desejo eu que as mulheres saibam correntemente as quatro operações elementares. É o que minha filha ha-de saber, e afigura-se-me que o marido de minha filha abençoará algum dia a discrição com que eu a hei-de educar.

É debalde que o meu amigo me aconselha n'este ponto. Cada um governa o que é seu, e eu, a despeito do seu claro entendimento, meu caro Conceição, não lhe hei-de ensinar a ella a «historia, que é a epopêa da humanidade», mas unicamente da historia o preciso para ella não aborrecer a humanidade.

Não quero que a pobresinha entre no mundo pela porta do tedio.{93}

Eu não entrei, porque, quando examinei os quadros negros, tinha a alma educada para o sentimento do bem pelos amorosos conselhos de minha mãi. Isto não é dizer que a maxima erudição seja a maxima desmoralidade. Não; eu quero que a instrucção seja para quem a póde professar, e que se estude quando se deve estudar.

É meu proposito que minha filha não ande pelas salas a fazer discursos de varia historia ás meninas da sua idade.

Os livros que eu escrevo, como ella os ha-de lêr um dia, não levam doutrina que a faça corar de pejo, por usar o nome que lhe lega o author d'aquellas novellas.

Não fallemos mais de minha filha, que dorme no berço os sonhos auriluzentes da primeira infancia. Não quero passeal-a na imprensa, depois de a ter roubado ás caricias de sua mãi.

Aqui tem, meu caro Conceição, o que se me offerece dizer-lhe.

Peço-lhe que me releve uma ou outra falta que tenha commettido, e creia-me sempre,

amigo dedicado e sincero discipulo,

Porto, 1 de fevereiro de 1872.

Alberto Pimentel.{94}

{95}

Ill.moamigo.

Uma declaração antes de mais nada: Agradeço ao seu bom senso e á sua lealdade o ter-me feito a justiça de não vêr uma allusão pessoal e indelicada no esboço que fiz do estudantinho ocioso e devasso, que detesta a geometria, com o falso pretexto de que os talentosoriginaese impetuosos se não podem sujeitar ao jugo affrontoso do calculo. Não podia lembrar-me de si quando tentava aquelle esboço, primeiro: porque seria isso uma grosseria incompativel com a minha educação; segundo: porque o aprecio muito como escriptor e como poeta; terceiro: porque o estimo deveras como amigo e como homem, pois que lhe reconheço o talento, a elevação do caracter, o amor ao estudo e a dedicação ao trabalho.{96}

Posto isto como mordaça aos malevolos ou aos futeis, e não como elogio com que eu queira pagar-lhe as finezas que me dirigiu na sua carta e que eu lhe agradeço com a plena consciencia de que as não mereço senão á sua amizade e não á sua critica esclarecida, entro na replica ao seu folhetim, sobre o qual temos muito que conversar.

Com o seu espirito alado e inquieto de folhetinista toca o meu amigo na sua ultima carta n'umas poucas de questões, qual d'ellas mais importante, que eu lhe não posso levantar todas, porque me não sinto com competencia para tanto, porque me não sobra tempo e porque isso tomaria proporções assustadoras para a redacção e para os leitores d'este jornal, que não póde ser condescendente commigo até ao ponto de arriscar a sua boa reputação.

Creio que o meu amigo leu a minha primeira carta um pouco preoccupado, ou que eu, por falta de aptidão e uso, expuz confusa e desastradamente o que tinha na mente dizer-lhe. Opto pela segunda hypothese, por me parecer a mais racional e por estar mais de accordo com os factos e com o conceito em que eu tenho os meus merecimentos litterarios, cuja pequenez no entanto recommendo a commiseração do seu espirito ás vezes tão finamente epigrammatica. Assignar-semeu discipulo!... Eu, seu mestre!... Em que? Não lhe perdôo a graça e obriga-me a praticar alguma inconveniencia, se a repete: envio-lhe o Serret pelo correio, pois que não tenho a consciencia de poder ensinar-lhe{97}regularmente mais cousa alguma; e não me discuta isto, que não soffre discussão seria.

Vou pois vêr se condenso em dous ou tres periodos umas idéas mal expostas no meu primeiro folhetim e que o meu amigo ataca, porque as tomou pelo que ellas não são, mal entrajadas como ellas se lhe apresentaram.

A minha sincera admiração pelas mathematicas nunca me cegou o entendimento até ao ponto de eu não vêr mais nada fora d'ellas, de suppôr que abaixo das mathematicas tudo é futil e inconsistente e acima d'ellas tudo sonhos e illusões. Creio que ha salvação possivel fóra da minha igreja, e que para divisar uma face á verdade não e absolutamente indispensavel saber dirigir um equatorial para a estrella 2151.ª daPopa do Navioou para aalpha do Centauro. O que digo e sustento, em quanto o meu amigo me não convencer do contrario, é que o estudo das mathematicas e a familiaridade com os seus methodos seguros, ou pelo menos cautelosos, de raciocinio, não póde por fórma alguma ser prejudicial ao desenvolvimento de qualquer das nossas aptidões intellectuaes, e que sendo a litteratura e em geral a arte um dos muitos caminhos que levam o espirito humano ás atlantides do ideal, é licito acreditar que tudo o que tenda a elevar-nos o espirito, a robustecer-nos a alma e a esclarecer-nos o entendimento ha-de tambem desenvolver-nos as faculdades poeticas e o sentimento artistico. Este o argumentoà priori, como se diz na logica. O argumento{98}à posterioriestá nos exemplos, que lhe citei na minha primeira carta, de grandes mathematicos que foram tambem homens de muita imaginação e de muito enthusiasmo, sendo estas mesmas qualidades as que os tornaram grandes mathematicos. Responde a isto o meu amigo com a sua theoria dosmathematicos-artistase dosmathematicos-executantes, theoria que, a meu vêr, se póde formular do seguinte modo: Ha mathematicos seccos de espirito, estereis de imaginação e baldos de todo o senso artistico, logo foi a mathematica que os fez mirrhados e massadores. Se ha grandes mathematicos com imaginação e sentimento, esses são espiritos por tal fórma privilegiados que resistiram ás influencias esterilisadoras dos numeros e do calculo.

Afigura-se-me sophistica esta sua argumentação, porque a ser verdadeira teremos de classificar de esterilisadora a influencia de todas as outras sciencias, incluindo a litteratura, e de massadores todos os primeiros litteratos do mundo, todos os nossos escriptores de mais segura e duradoura reputação; por exemplo: Garrett, que para manejar a lingua patria com aquella graça, facilidade e atticismo, que nós todos lhe admiramos, havia de folhear e compulsar muito bacamarte classico e soporifero; Alexandre Herculano, que para escrever aquelle poema doEuricoteve forçosamente de deletrear muita somma de pergaminho safado e roido, muita chronica bolorenta, muito livro indigesto; Antonio Feliciano de Castilho, Camillo Castello-Branco,{99}Theophilo Braga e alguns outros, que para subirem ás alturas, onde nós hoje os contemplamos com admiração, tiveram indispensavelmente de estudar e de meditar muito livro somnolento, e nem por isso lhes ficou lá o espirito, nem o talento, nem a graça, nem a espontaneidade; muito pelo contrario, foi ahi, n'essas monumentaes semsaborias da nossa litteratura classica que elles se robusteceram em graça, em talento e em originalidade.

Um mathematico cabeçudo e massador é tão massador como um jurisconsulto caturra e formalista, como um medico charlatão e pretencioso, como um padre fanatico e obscurante, como um professor ignorante e embirrento.

As caturrices dos jurisconsultos, o charlatanismo dos medicos e a ignorancia dos padres não podem provar nada contra a poesia da jurisprudencia, contra a grandeza da medicina ou contra a sublimidade da religião.

Parece-me, pois, senão demonstrado, pelo menos não destruido pela sua argumentação, que, em principio, o estudo das mathematicas não faz nem póde fazer mal algum ao gosto litterario ou á aptidão poetica.

Deixe-me dizer-lhe ainda: É convicção minha, e creio que de muito boa gente, que o espirito moderno deve á vulgarisação dos estudos mathematicos as mais solidas e as mais brilhantes das suas conquistas.

Não lhe fallo já da civilização material do nosso{100}seculo, para cujas maravilhas a mathematica cooperou com a melhor parte: quero fazer-lhe notar sómente a benefica influencia dos estudos mathematicos no espirito scientifico do nosso tempo. A mathematica não inventou por certo nenhuma theoria physiologica, não ditou nenhum tratado de direito publico, não descobriu um unico corpo simples ou a composição de qualquer corpo composto, não acrescentou um só versete aos Evangelhos; mas tem, pela benefica influencia dos seus methodos, do seu genio rigoroso e justo, do seu espirito verdadeiramente scientifico ajudado a expulsar das outras sciencias muito espantalho com fóros de verdade; muitas tolices com ambições de acertos, muitas hypotheses absurdas e lorpas com reputação de principios incontestaveis. E com isto tem ganhado todas as sciencias, incluindo a moral, que deve ao espirito logico e robusto das sciencias exactas, aquella austeridade de principios, aquelle stoictsmo de conclusões, que são as feições caracteristicas da philosophia contemporanea; com isto tem ganhado a litteratura, que se despe d'aquelles modos scismadores e langorosos, d'aquelles ares meditativos e lunaticos de virgem pallida e incomprehendida para se tornar em esposa forte e affectuosa, que nos consola nas amarguras, que nos alegra nas tristezas e que nos robustece nos desalentos, que nos melhora, que nos eleva, e que nos instrue. É porque a poesia ainda se não compenetrou bem d'estas verdades, que ella está representando na sociedade o papel secundario que representa.{101}Como explica o meu amigo este palpavel desamor da opinião publica pela poesia? Não nota que a sociedade contemporanea não quer que lhe fallem em versos; e que os não lê e que vira a pagina do jornal ou do livro onde os versos lhe appareçam? A culpa d'este desamor deve imputar-se por inteiro á sociedade ou aos versos?... É a sociedade que está acima dos versos, ou a poesia acima da sociedade? Ha depressão no sentimento moral e artistico da sociedade ou ha abaixamento no nivel intelectual da poesia? Eu creio que a culpa, posto que lhe caiba em parte, cabe menos á sociedade do que á poesia. Isto porém é uma questão para largos desenvolvimentos, e eu não quero terminar esta minha carta, que já vai escandalosamente massadora, sem lhe levantar outras duas questões que o meu amigo toca no seu folhetim.

A que chama o meu amigoimpiedade?... Ás conquistas do espirito analytico do mundo moderno, á reforma, á revolução de 93? Á philosophia raccionalista, ao livre exame, aos direitos do homem? Á critica historica, á exagese biblica, a toda esta febre de investigações que trabalha a alma do seculoXIXe que lhe faz bater apressado no pulso o sangue riquissimo da vida? Chama a isto impiedade, ou entende por impiedade uns ralhos de sachristia em que andam ahi envolvidos os irmãos das confrarias? Chama impio ao catholico mr. Thiers, que deixa ir pela agua abaixo o poder temporal de sua santidade, e orthodoxo ao actual bispo de Orleans que se arreda de mr. Littré como de{102}um leproso? Diga-me o que seja para si impiedade, que eu tenho visto abusar-se tanto da palavra e da idéa que ella representa, que me não admira vêr appellidar de impio qualquer dia o proprio cardeal Antonelli ou até o snr. marquez d'Avila e Bolama.

O meu amigo parece tambem pensar que o seculoXVIIIfoi immoral por excesso de sciencia nas mulheres, e impio—volta a terrivel palavra!—por excesso de philosophia nos homens. Mas onde é que está isto demonstrado? Em Chateaubriand, que se esqueceu de metrificar oGenio do Christianismo, unica qualidade que falta ao livro para poder ser recitado ao piano? Mas quando e onde é que a sciencia e a philosophia fez mal a alguem e principalmente a uma sociedade? Quando e onde é que fez bem e elevou e moralisou e instruiu a ignorancia, o absurdo, o preconceito, arèvèrie? Mas então voltemos aos cilicios, aos jejuns, aos conventos, á inquisição, á idade media. Nego com toda a força das minhas convicções, nego com todos os insignificantes recursos da minha intelligencia que a immoralidade tão apregoada da sociedade franceza do seculoXVIIItenha nascido no palacio de Rambouillet; nego que a impiedade—não me deixa esta maldita palavra!—do tempo dos encyclopedistas, seja o resultado do amor pela philosophia. São absurdas taes supposições perante os principios, são illegitimas perante os factos, são calumniosas perante o meu pouquissimo conhecimento da historia.

Agora a questão magna do seu folhetim, a educação{103}da mulher. Sobre este ponto sinto dizer-lhe que nem comprehendo como o meu amigo, cujo bom senso e intelligencia eu tanto aprecio, não quer para a mulher a maxima instrucção, que dá em regra, a maxima elevação moral; não, para todas as mulheres, a instrucção professional de que precisa o medico, o jurisconsulto, o estadista, o engenheiro, o professor de universidade, mas esta instrucção geral, completa e solida, que dá aos espiritos a maxima amplitude de vistas, ao entendimento a maxima robustez, á alma a maxima grandeza moral, ao coração a maxima bondade, pela comprehensão do direito, pelo sentimento profundo do dever.

Quer o meu amigo para a mulher uma instrucção rosada e transparente como uma meditação suspirosa de Lamartine; não lhe quer ensinar da historia senão o sufficiente para que ella se não faça beata, pelo horror aos seus similhantes, ou Lucrecia Borgia, por imitação ou por amor aos envenenamentos; não lhe quer ensinar astronomia porque receia que ella ande pelos bailes a perguntar aos cavalheiros que a comprimentam ou ás amigas que a abraçam, qual seja n'esse momento a declinação austral do planeta Saturno ou em que phase está o quarto satellite de Jupiter! Eu, francamente, não lhe sei responder a isto. Se o meu amigo tivesse dito, clara e cruamente, que quer a mulher como nossa mãi Eva, ignorante como uma barroza de capucha de pardo, entendia-se; era um systema ou uma convicção, a que eu tributaria todos{104}os respeitos que me merecem as convicções sinceras; mas dizer-me que quer para a mulher uma certa meia instrucção, que não vi que désse nunca mais que petulancia, mau senso e bacharelice ás mulheres que a possuem, porque lhes excita a curiosidade sem lh'a satisfazer, porque as não deixa na completa ignorancia, que as obriga á modestia do silencio, nem lhes dá á instrucção regular que produz a sensatez, dizer isto é estar a fazer versos quando se trata de formular claramente um principio, e responder com aaria finaldaTraviataao X de uma equação algebrica. Não posso pois acreditar na solidez das suas convicções sobre este ponto, e peço-lhe que, antes de me replicar, se me quizer dar tal prazer, leia o admiravel livro de Ernesto Legouvé—Histoire morale des femmes. Se elle o não convencer, eu perco as esperanças de o levar a fazer melhor juizo dos beneficios da instrucção e do espirito da mulher.

Creia-me

muito seu amigo,

Braganca, 7 de fevereiro de 1872.

Alexandre da Conceição.{105}

Meu bom amigo:

Estamos em plena sabbatina e, como em todas as sabbatinas escolares, abundam as palavras e escacêa o methodo, a deducção clara, e a argumentação logica. Escreve o meu amigo que eu li a sua primeira carta um pouco preoccupado, e eu com mais justa razão o poderia accusar de igual desleixo, o que é em si muito mais para sentir attenta a sua intimidade com as formulas mathematicas e os processos de calculo. Vejo-me portanto, obrigado a pôr nos seus verdadeiros termos esta conversa amigavel entre dous rapazes que se estimam. Os periodos que demoveram o meu amigo a quebrar o seu obstinado silencio de ha annos, foram estes:{106}

«O meu pesadelo foi a mathematica, ai! foi a mathematica, sim. O Garrett queixava-se d'um mathematico de Coimbra, o snr. Honorato, que foi causa d'elle se ficar poeta. E o mais é que o snr. Albuquerque, do lyceu, é um homem de intelligencia e d'estudo, duas qualidades que eu respeito e admiro em qualquer homem.

«Mas eu já tinha no corpo a peçonha da poesia; aborreceu-me o Serret, errei um problema, esmoreci, e fiquei como estava. Aconteceu que não pude ser mathematico, e que me deixei ficar litterato. Um mathematico de menos e um litterato de mais,—eis tudo o que aconteceu.

«Em razão d'esta minha inimizade com a mathematica, hei-de recommendar a minha filha, quando ella crescer, que tapete de boninas, e esconda entre plantas o quadrado da minha sepultura. Eu, que não vivi bem com a arithmetica, não quero que ella se vingue de mim, quando me seja impossivel sacudir a lousa com os funebres algarismos que para logo denunciam a milicia dos mortos.

«N'este horror á mathematica sou ainda discipulo de Camillo Castello-Branco que escrevia a Faustino Xavier de Novaes: «Teremos nós sepultura com lagea!? Conta com um cômorosinho de terra, e umas papoulas na primavera, e uma taboa preta com um numero branco. A arithmetica ha-de perseguir-me além da morte!»{107}

Na sua replica propoz-se o meu amigo demonstrar-me, para usar das suas mesmas palavras, que as chamadas sciencias exactas não eram tão destituidas de riquezas poeticas como eu apregoava e muita gente acredita, mormente a astronomia, sciencia que tem dado homens como Galileu, Newton e Laplace; que a mathematica «é uma atmosphera de verdade onde a alma humana respira a pleno peito o ar da vida»; e finalmente «que esta poesia da sciencia não era só accessivel aos espiritos iniciados n'ella», senão que tambem se lhe afigurava muito para ser entendida e afagada pelas mulheres.

Esta a summa da sua argumentação.

Respondi-lhe eu que a poesia das mathematicas estava de certo nas suas grandes syntheses, nas suas vastas concepções, e que o meu espirito não tinha chegado a este apogeu aonde só podem subir as intelligencias privilegiadas. Bem sabe o meu amigo que para se apreciar o panorama é preciso ascender ao viso da serra d'onde elle se descortina em todo o seu esplendor;—que Newton, Galileu e Laplace me queriam parecer ao mesmo tempo grandes poetas e grandes mathematicos; chegarem aonde os outros não vão era já prova mais que sufficiente de que para elles não havia bellezas ignoradas nos altos segredos da harmonia que rege o universo; disse-lhe outrosim que não negava nem discutia que a mathematica fosse um instrumento de verdade, o que não obstante tinham feito Hobbes, Castel, Buffon e outros, porque assumpto{108}era esse estranho ao meu proposito e competencia; que, finalmente, quanto a ser accessivel a poesia das sciencias exactas a todos os espiritos, se me afigurava que alguns havia que só a despeito d'uma repugnancia natural logravam metter pé nas mathematicas elementares, porque a isso os obrigavam os regulamentos academicos. Quanlo á competencia das mulheres para entenderem os phenomenos meteorologicos, as theorias cosmogonicas e os problemas intrincados da philosophia, respondi-lhe que não era minha opinião dar tamanha latitude á instrucção feminina. Já vê que não fui eu que puz esta questão accidental; foi o meu amigo que a estabeleceu tambem accidentalmente.

Deixemos porém isto para logo, que por enquanto vinha prejudicar a unidade das materias que me proponho tratar.

Insurreccionei-me, como sempre, contra o charlatanismo scientifico, que expunha as mathematicas elementares nalinguagem hirsuta das cadeiras, na opinião de Garrett, que amontoava explicações confusas, citações nebulosas, o que produzia immediato desgosto no animo do estudante.

A clareza é a primeira condição para nos fazermos entender, e os mathematicos charlatães não a podem ter, porque elles mesmos não digeriram ainda os sobejos indigestos, forrageados sob a mesa olympica em que se banquetearam intellectualmente os primeiros homens da sciencia.{109}

Ora o meu amigo, depois de me observar que eu li a sua carta um pouco preoccupado, diz-me que «ha salvação possivel fóra da sua igreja, e que para divisar uma face á verdade não é absolutamente indispensavel saber dirigir um equatorial para a estrella 2151.ª daPopa do Navio.»

Isto e o que eu digo é simplesmente a mesma cousa; o Conceição está portanto commigo.

Se ha salvação possivel fóra da sua igreja, o mesmo é dizer que se póde ser grande litterato, grande estadista e grande politico sem se saber grande mathematica.

A verdade é a côrte das idéas, deixe-me dizer assim, o centro onde ellas se devem grupar ao serviço da intelligencia soberana. A familiaridade com qualquer methodo seguro deve ser indubitavelmente o caminho mais curto para chegar á verdade, e como o meu amigo observa que ha salvação possivel fóra da sua igreja, parece dar a entender que a mathematica não é o unico methodo seguro para conseguir tal fim. Não sei se é ou não, pela simples razão de não saber mathematica.

Por isso é que eu tinha dito: «Não nego nem discuto que a mathematica seja um instrumento de verdade,» e mais abaixo:

«Não combati o estudo da mathematica nem combato; cada um estuda o que quer ou o que póde. Peço vista ao meu folhetim que despertou a sua replica.{110}Não aconselhei tambem a leitura da mais edificante novella de preferencia ao mais arido compendio d'arithmetica. O que eu fiz foi penitenciar-me publicamente do meu desamor aos numeros e, como eu sou d'uma sinceridade rude, permitti-me dizer que dormiria mais descançado o somno da morte, se minha filha, em vez de assignalar a minha sepultura com uma lousa numerada, levasse frequentes vezes ao meu cómoro um ramo de flôres. Isto é o que meu amigo não póde nem deve discutir, apesar da sua vasta intelligencia, que eu aprecio na devida conta. É licito a cada um dizer como quer ser sepultado. O meu testamento, no que respeita a esta disposição, é publico.»

Como eu não posso affirmar a primazia da mathematica, assento de mim para mim que ella, em sua qualidade de sciencia, tende a demonstrar a verdade, quantitativa pelo menos, o que de certo é um exercicio de gymnastica intellectual que deve concorrer para o desenvolvimento do espirito. Mas do que eu não posso duvidar é de que as outras sciencias, como a psychologia, a physiologia e a logica, por exemplo, encerram verdades, e que conseguintemente devem tambem exercitar as faculdades intellectuaes. Ora o meu amigo desobriga-se de provar que a mathematica é a unica estrada que leva á Roma da verdade, dizendo que «ha salvação possivel fóra da sua igreja»; mais arraigado fico eu pois ao pensamento de que um homem póde ser grande sem a muleta da mathematica.{111}Não admira que os grandes mathematicos sejam ao mesmo tempo grandes poetas, porque quando a intelligencia attinge o maximo desenvolvimento possivel, está apta para abranger todos os conhecimentos humanos.

Se porém um limitado peculio mathematico não permitte attingir-se esse grau de desenvolvimento, nem pode ser compensado pelas mealhas respigadas em outros thesouros de sciencia, então é muito para duvidar-se do senso artistico do individuo. Se ha «mathematicos seccos de espirito» é que tão pouco se exercitaram n'esse ramo de conhecimentos, que não chegaram á perfectibilidade intellectual relativa ou porque a sua intelligencia d'elles é pequena, rachitica, tacanha, e assimila pouco, não podendo digerir a variedade de conhecimentos pela sua mesma incapacidade natural. Esses taes trabalham com os elementos creados pelos grandes genios, contentam-se com dar alguns passos nas estradas infinitas que elles exploraram e param de affrontados de cansaço e de inepcia porque a cabeça se lhes nega a ir mais longe.

É facto averiguado pela critica physiologica que a intelligencia varia d'homem para homem segundo as mesmas condições physicas do cerebro.

Ora os espiritos privilegiados, que chegaram a ser grandes mathematicos, nasceram predestinados para as conquistas do pensamento, não ha difficuldade que os sustenha, barreira que os inquiete; são como os Alexandre Magno e os Napoleão que não recuam diante{112}da metralha inimiga e vôam no corcel impaciente até que a morte lhes arrefeça o sangue nas vêas. Da theoria dosmathematicos-artistase dosmathematicos-executantesdeduz o meu amigo o seguinte argumento:

«Ha mathematicos seccos de espirito, estereis de imaginação e baldos de todo o senso artistico, logo foi a mathematica que os fez mirrhados e massadores. Se ha grandes mathematicos com imaginação e sentimento, esses são espiritos por tal fórma privilegiados que resistiram ás influencias esterilisadoras do numero e do caloulo.»

Esta maneira de deduzir é que a mim me quer parecer extremamente sophistica. Então o meu amigo acha que se póde sujeitar a influencias materiaes, puramente externas, a intelligencia humana? Ou quer então medil-a pela mesma bitola em todos os homens? Se apenas houvesse um só grau de desenvolvimento intellectual, não teriam hoje menção especial os Newton, os Galileu e os Laplace.

O conhecidissimo Fetis, o maior sabio da musica moderna, venceu pela sua rara intuição todas as difficuldades e devassou os mais reconditos segredos da arte dando ao mundo oTractado da harmonia[6]um verdadeiro{113}monumento que não poderia ser escripto por qualquer executante secundario da orchestra de S. João.

E porque não poderia? Segundo as suas conclusões, porque a musica os «fez mirrhados e massadores.» Victor Hugo escreveu uma ode magnifica aos quinze annos; logo, ainda segundo as suas conclusões, foi porque resistiu ás influencias esterilisadoras da poetica. Não sophisme, meu amigo; bem sabe que ha aptidões excepcionaes e especiaes, que os Newton e os Victor Hugo são grandes porque não são vulgares.

Agora ha certa affinidade em determinadas sciencias, que o mesmo é ter aptidão natural para umas e para outras, porque em verdade as podemos considerar irmãs gemeas.

Acontece isto, como sabe, com a mathematica e com a physica, com a geographia e com a historia. Todavia esta affinidade não se dá a meu vêr entre a{114}mathematica e a poesia, porque, com quanto mirem ambas á verdade, visto que ambas teem por fim o bello, uma caminha a elle pela sensibilidade, pela imaginação, e a outra pela intelligencia, pela razão. É preciso ser descommunalmente grande, excepcionalmente organisado, para as abranger a ambas: Diz o meu amigo na sua ultima carta:

«Parece-me, pois, senão demonstrado, pelo menos não destruido pela sua argumentação, que, em principio, o estudo das mathematicas não faz nem póde fazer mal algum ao gosto litterario ou á aptidão poetica.»

E na primeira dizia que dessem á França mais arithmetica e menos versos, e que Sedan seria impossivel. Aqui ha contradicção. Então foram os versos que mataram o calculo,—foram as demasias do coração que allucinaram a cabeça. Portanto uma cousa e outra são incompativeis.

Tambem na sua primeira carta dizia o meu amigo que devêra a sua reprovação em mathematica ás influencias nocivas da poesia, e que só combatendo pertinazmente essas influencias conseguira familiarisar-se com os numeros. Isto corrobora ainda o meu argumento.

A mathematica dilata a razão, como a poesia dilata o coração. Uma vai após a razão, a outra após a sensibilidade, e tanto isto é verdade, que os grandes{115}litteratos são achacados ás irritações nervosas, aogenus irritabile vatum, como diziam os antigos. O melhor poeta será o que sentir melhor; o maior mathematico será o que calcular melhor. Portanto, é indispensavel uma organisação especialissima para ser tamanho n'uma como na outra. Lopes de Mendonça que tentou passar das amenidades da litteratura para o estudo pesado da economia politica, da administração, de tudo o que era adverso á sua inclinação natural, acabou por se perder para tudo, agonisando longo tempo no carcere da loucura.

A nossa conversa fica n'isto: Não nego que a mathematica forneça processos seguros para a percepção da verdade, nem o meu amigo affirma que só pela mathematica se chegue á verdade, o que é o mesmo que dizer que sem se ser forte em mathematica, se póde ser grande em qualquer outra cousa,—em litteratura por exemplo. Faço entre os mathematicos, como entre todas as sciencias e artes, a distincção natural que offerecem as intelligencias. Opino que a heterogeneidade dos meios de que se servem a mathematica e a poesia produz entre ellas um certo antagonismo natural de modalidade, como se dá por exemplo entre as aves e os peixes cujo fim commum é a vida, com quanto umas vivam no ar e outros na agua; e o meu amigo corrobora esta opinião mostrando que a poesia no seu proprio espirito só cedeu campo á mathematica, depois que a expulsou a ella, a poesia, e que a França não attingiu ofimque devia attingir, porque empregou{116}omeio-poesia, em vez de empregar omeio-mathematica.

Vamos agora á que o meu amigo chamamagnaquestão da educação da mulher, e antes de mais nada permitta-me que rebata a sua phrase «responder com aariadaTraviataao X de uma equação algebrica.» Isto ou é gracioso ou serio. Se é gracioso, é improprio d'uma questão de doutrina, e se é serio, colloca-se o meu amigo na posição de não poder continuar uma discussão com um contendor que larga a cantar á desgarrada quando o meu amigo lhe está expondo argumentos, e corre além d'isso o risco de se contradizer porque não se concebe como o Conceição, acreditando que eu estudo, suppõe que eu possa cantarolar quando o meu amigo raciocina.


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