XIIIMettemos á bulha o Saavedra, que tinha sido até esse momento um dos mais silenciosos do grupo, para que se dignasse fazer as honras d'aquella noite, visto como a sua eloquencia devia achar-se ainda em folha, e a nossa já ia estando um pouco fatigada.O Saavedra tinha certa graça natural, era um espirito observador, mas a sua modestia orçava ás vezes pela timidez. Felizmente pudemos convencel-o a contar uma das suas anecdotas.—Imaginem v. ex.as, disse elle, que uma respeitavel dona de casa, uma exemplar mãe de familia, o que quer que seja de Cornelia romana, tem um marido cujo orçamento domestico é em grande parte absorvido pelas immensas publicações,{122}principalmente jornaes, de que o fazem assignante, ás vezes sem elle proprio o saber.É sempre com uma certa contrariedade que a esposa d'esse cavalheiro vê todos os dias entrar pela porta dentro mais um novo jornal.Ella, que para os seus Gracchos quereria amealhar todas as economias doménage, observa ao marido que já vae sendo excessivo o numero de jornaes que recebem.Ordinariamente elle responde:—Que queres, filha? Pediu-me o meu amigo Fulano; não póde deixar de ser. Mas como tudo n'este mundo tem compensações, é mais um que podes mandar vender no fim do mez.E, accendendo o seu charuto, nunca mais pensa no jornal novo que lhe mandaram, senão quando o cobrador vem receber a importancia da assignatura.Todas as noites os jornaes d'aquelle dia são arremessados para o fundo de um quarto esconso, d'onde, de tempos a tempos, saem ás braçadas para a tenda vizinha, na rasão de 60 réis o kilo de idéas.Pobres idéas! Descomposturas da politica, dissertações sociologicas,sueltosmordazes, versos de amor, charadas novissimas, tudo isso, que custou tantas vezes a engendrar, e que teve talvez a sua hora de celebridade, lá vae ser pesado a kilos na balança como a banha de porco, o feijão amarello e a manteiga da terra.{123}Nenhum respeito, nenhuma consideração por essas pobres idéas! Do papel é que se trata apenas: tanto pesa, quanto vale. O papel impresso tem tambem o seu guano—coisa unica e vil que se lhe póde aproveitar, depois que o pensamento envelheceu.A facundia do jornalista, a inspiração do poeta, a graça do folhetinista, ficam sendo, desde essa hora, um trapo para embrulho no balcão dos tendeiros.D'ahi por diante, isto é, da mercearia por diante, é o toicinho que desbanca o artigo de fundo, é a manteiga que supplanta o folhetim.Ceci tuera cela.A gordura afoga a poesia. Nos tempos modernos o trapo é a mortalha do tropo.Mas, como eu vinha contando, de tempos a tempos o criado da casa ia vender á tenda vizinha grandes porções de jornaes antigos.Succedeu porém que nos ultimos tempos, tendo-se despedido o criado, o moço de padeiro, que servia a casa, recommendou outro.—Era da sua terra, da Galliza, dizia o padeiro, e vinha para fugir ássortes. Não estava costumado a servir; faltava-lhe experiencia. Mas era muito bom rapaz, honradissimo, filho de uns pequenos lavradores de Compostella.Affiançava-o. Quanto a pratica de serviço, não tinha—repetia o padeiro—; mas como era esperto e tinha boa vontade de aprender, desembaraçar-se-ia depressa.{124}Foi admittido o recommendado do padeiro.Tipo montezinho; intellecto impenetravel, duro como o silex. Não percebendo nada, parecia porém vivamente animado do desejo de perceber tudo. Tinha sempre boas palavras, falas mansas, muito respeitosas. Mas, sem embargo, todos estes predicados não chegavam a compensar a estupidez desastrosa com que tudo fazia.Estava inteiramente cheio o armario dos jornaes. Era preciso vendel-os, e a dona da casa, tendo de sair a visitas, recommendou á criada:—Dize ao Domingos que vá vender os jornaes. Mas explica-lhe bem o que elle tem a fazer, para que não saia tolice.—Sim, minha senhora; sim, minha senhora.Mas, ou porque, logo que a senhora saiu, apparecesse á barra o namoro da criada e começasse a fazer-lhe signaes semaphoricos, ou porque ella realmente se esquecesse de que o criado era novo na casa, disse-lhe simplesmente:—Domingos, vae vender esses jornaes.E o Domingos, muito obediente, muito submisso para a criada:—Sim... senhora Rosa. Vender os jornaes... Eu já vou.Uma hora depois voltava para casa a senhora. O criado ainda não tinha chegado!—Que é do Domingos?—O Domingos foi vender os jornaes, minha senhora.{125}—Ha quanto tempo?—Ha mais de uma hora!—Ora essa! Tu explicaste-lhe bem?...—Expliquei, sim, minha senhora...—Então fugiria com o dinheiro?!—Sim... talvez fugisse.—Mas o padeiro affiançou-o!—Isso não tira.—Não tira! Mas o padeiro é que tem de entregar o valor dos jornaes...N'isto bate-se á porta da escada.—Ahi vem elle... diz a Rosa.Mas, tendo espreitado á porta, recúa espavorida.—Ó minha senhora! é um policia!—Um policia! O que quer elle?—Eu sei lá! Deus queira que não sejam alguns trabalhos...—Estás tola! Vae abrir.Batem segunda vez.A criada, antes de abrir a porta, torna a espreitar.—Ó minha senhora!—O que é?!—O Domingos vem preso com um policia!—Preso! Mas como seria isso? Vae abrir, já te disse.A Rosa abriu a porta.O policia perguntou se aquelle criado era d'ali.—Que sim, senhor, e que tinha sido affiançado pelo moço de padeiro.{126}Então o policia contou o seguinte:—Estando de serviço na Avenida, fui avisado por algumas pessoas de que na rua de S. José andava um rapaz impingindo por 10 réis jornaes antigos. Essas pessoas, tendo caido no logro, reclamaram a intervenção da policia, porque o rapaz, muito descarado, continuava na ladroeira. O policia teve que intervir; foi á procura do rapaz. Não tardou a encontral-o, justamente na occasião em que elle estava vendendo umDiario Populardo mez anterior. Foi pois apanhado em flagrante delicto: com a bocca na botija. O policia perguntara-lhe:—Tens fiador?—Fiador! fiador, não tenho, sr. policia.—Estás então preso.—Pois então estou preso, sim, senhor.—Quem te deu esses jornaes para vender?—Quem me deu estes jornar para vender?!...—Anda lá, não te faças tanso, que não ganhas nada com isso.—Não me faço tanso, não, senhor. Quem me deu estes jornaes para vender foi a sr.ª Rosa...N'este ponto, a criada interrompeu abruptamente a narrativa do policia, dizendo:—Foi a senhora que mandou. Pois não foi, minha senhora?O policia:—Foi a senhora?A criada:{127}—Foi, sim, sr. policia.Mas a dona da casa, apparecendo então no patamar da escada, disse com dignidade:—Faça favor de continuar a dizer como isso foi.O policia continuou:—Quem é a sr.ª Rosa? perguntei-lhe eu.—É a criada da patroa.—E quem é a patroa?—É a mulher do patrão.—Mas como se chama? Irra!—Chama-se... Isso é que eu não sei muito bem.—Bom. Vamos lá a casa dos teus patrões. Quanto dinheiro apuraste tu com a venda dos jornaes?—Quanto dinheiro apurei?—Sim, quanto tens na palma da mão?—Aqui, na palma da mão, tenho este.—São setenta réis. Dá cá.—Isso agora é que eu não dou, não, senhor, porque este dinheiro é para entregar á sr.ª Rosa.—Dá cá o dinheiro, e anda láp'ra diente.Quando o policia estava n'este ponto da narrativa, subia a escada o dono da casa, que voltava da repartição.Muito espantado de ver um policia, perguntou o que tudo aquillo significava.Então sua esposa contou o que se passara: o marido riu, o policia riu, a criada riu. Só o Domingos,{128}com os olhos cravados no chão, não ria.Comtudo, o policia, em razão de ter abandonado o serviço, precisava justificar o seu procedimento.—Que tivesse o cavalheiro paciencia, mas era preciso acompanhal-o á esquadra para contar como as coisas se passaram.—Não ha duvida nenhuma, respondeu o dono da casa, vamos lá.O chefe da esquadra riu, todos os outros policias riram, mas, como não estava presente o sr. commissario, o chefe da esquadra disse:—Tenha o cavalheiro a paciencia de voltar ámanhã, das 10 para as 11 horas, a fim de contar tudo ao sr. commissario.No dia seguinte, das 10 para as 11 horas, o dono da casa, seguido pelo Domingos, foi falar com o sr. commissario da respectiva divisão, que era aliás seu conhecido.O commissario ainda não estava; o chefe da esquadra tornou a rir, só o Domingos, com os olhos cravados no chão, não ria.O commissario falou pelo telephone:—Que ia fazer uma diligencia importante com o commissario geral; que não contassem com elle.O chefe da esquadra:—Que tornasse a ter paciencia, mas que voltasse no dia seguinte para falar com o sr. commissario.{129}—Ora essa! Que maçada!E á saída da esquadra, tanto o patrão como o Domingos não riam—nem um, nem outro.Madame Araujo achou infinita graça á historia dos jornaes, e o brazileiro, por esta vez ao menos, tambem pareceu achar graça de conta propria.O Leotte estava visivelmente picado com o triumpho que o Saavedra obtivera na presença d'essa mulher, cujatoilettedenunciava um certo habito de existencia mundana, que elle queria explorar.Foi pois elle mesmo que se offereceu para contar um episodio da sua viagem a Thomar.—Tambem já vi Thomar, observou o brazileiro; é bonito, mas não chega aos calcanhares do Minho!—Pois isto que vou contar, acrescentou o Leotte, aconteceu no principio de julho, ha tres annos.—Ha seis é que eu lá estive, ponderou o brazileiro.—Vamos a ouvir a historia, disse madame Araujo.—Sim, filha, obedeceu o brazileiro, submisso como sempre.{130}{131}XIVAfesta dos taboleirostinha reunido em Thomar muita gente de fóra. A companhia dos caminhos de ferro estabelecêra comboios directos a preços reduzidos. A pittoresca cidadesinha do Nabão, com o seu bello convento de Christo no topo, tinha um movimento extraordinario, anormal, que a vitalisava desde o castello dos templarios até á graciosa planicie daVarzea grande, habitualmente só frequentada por alguns soldados de infantaria 11.Todas as familias gradas da localidade tratavam de engalanar os taboleiros com muitas flôres e fogaças, alguns d'elles cogulados até á altura hiperbolica de dois metros. São estes taboleiros que as raparigas mais bonitas da cidade,{132}entrajadas ao garrido, conduzem á igreja de Santa Maria, onde a fogaça é benzida por um sacerdote. D'ali seguem por entre alas de povo, que as applaude, até á igreja da Misericordia. Á noite, a cidade, que é atravessada por uma ponte, illuminava-se com balões venezianos, que se espelhavam nas aguas do rio. Havia um bazar, e toirada. Era por tal signal cavalleiro umamador, Alfredo Marreca.Algumas familias das minhas relações haviam planeado um passeio através da Estremadura. Pretexto, afesta dos taboleirosem Thomar. Eu, que não gosto nada de viajar com o concurso de uma multidão festiva, combati o projecto, propuz um adiamento para depois da romaria. Procedeu-se á votação, e a maioria esmagou-me: tal qual como em S. Bento. Para me não demittir, submetti-me. Fomos por Santarem, onde nos demoramos dois dias. Depois seguimos para a estação de Paialvo, onde nos apeamos, e entramos emchar-à-bancsque nos conduziram a Thomar. Estação e estrada abarrotavam de gente. Irritado dos nervos, o meu desejo era mandar parar o sol ou... aquella gente toda. Fomos na incerteza de obterhotel, e essa incerteza sorria-me. Mas quiz o acaso que ainda encontrassemos alojamento noHotel Cotrim, á beira do Nabão. Tudo aquillo seria delicioso, se não estivessemos em plena romaria. Uma barafunda de todos os diabos.Almoçamos, e saímos. Andamos aos encontrões{133}de um lado para o outro. Começamos por visitar o convento. Na varanda de pedra o conservador do monumento dissera-nos: «A rainha D. Maria II, quando visitou o conde de Thomar, gostava de vir bordar para esta janella.» Que tinha bom gosto, concordaram as senhoras.A cidade, cortada pelo rio, muito arruada e muito varrida, estendia-se ao sopé do castello. E os forasteiros enxameavam cruzando-se em direcções oppostas. Vistos do alto, pareciam lilliputianos. Depois do castello, fomos visitar a fabrica de fiação, e as fabricas de papel do Prado e de Mariamaia. O dia estava calmosissimo: um julho abrasador. Os passaros, se não lograssem abrigar-se no secular arvoredo doPadrão, teriam morrido de calma.Á volta das fabricas, uma das senhoras do nosso rancho sentiu-se subitamente indisposta. Pediu-se um copo de agua. E, como a estação telegraphica estava proxima, recorremos ao telegraphista.Encontrei-o sentado ao apparelho—que não era ainda o Morse—trabalhando. Representava um homem de quarenta e cinco a quarenta e sete annos de idade: moreno e magro, estatura regular, bigode levemente grisalho. Muito grave de maneiras, e visivelmente melancolico. A sua figura impressionou-me e, digo-o francamente, sem querer encarecer o meu faro de observador, suspeitei n'aquelle homem um romance. Acreditem: suspeitei. Logo que lhe eu disse ao que ia,{134}chamou para dentro a pedir um copo de agua. Veiu trazel-o uma rapariguita de dezeseis annos, picada das bexigas, e descalça. Mas eu percebi que alguem estava espreitando pela porta entreaberta.Arranquei o copo das mãos da rapariga, e saí com elle. A indisposição não tinha passado ainda. Uma mulher offerecera uma cadeira de pinho, em que sentaram a doente, que, muito pallida, coberta de um suor frio, bebeu um gole, e afastou o copo.—Não teimem, disse alguem do lado.Fui entregar o copo ao telegraphista, que gravemente me perguntou se o incommodo tinha passado.Disse-lhe que não. E elle, levantando-se outra vez, lembrou que seria melhor trazerem a senhora para a estação telegraphica, ondesua mulherlhe poderia offerecer um leito humilde mas asseado.Saí a dizer isto, e todos approvaram o alvitre. Conduzida em braços a doente, entramos na estação, e o telegraphista, vendo-nos chegar, chamou para dentro:—Clementina! ó Clementina!N'isto appareceu-nos uma creatura que não teria mais de quatro palmos de altura, vestida muito garridamente com uma saia côr de pombo e um corpete azul; sobre o corpete, cabeção de rendas brancas com fita preta e broche de oiro.{135}Cara redonda e cheia, não despicienda. Mas a cabeça, estabelecida a proporção com a altura do corpo, era excessivamente volumosa. Estava penteada á Maria Stuart, e tinha dois anneis de Cabello empastados sobre a fronte.Apesar da seriedade do lance, todos os homens trocaram entre si um olhar de surpresa e admiração, que, reduzido a palavras, poderia dizer isto:—Pois este monstrosinho será a mulher do telegraphista?E, inclinado o olhar ao telegraphista, o contraste assombrava-nos cada vez mais.Pelo meu espirito passou este raciocinio:Casaria elle por amor? Não é possivel. Se não foi por amor, seria por interesse? Mas então como diabo é elle telegraphista e vive pobremente? Arruinar-se-ia no jogo? Oh! aqui ha romance por força...As senhoras deitaram a doente, depois de a haverem desapertado, sobre o leito conjugal do telegraphista. Nós, os homens, ficamos na sala da estação conversando em voz baixa. O telegraphista fazia-nos, muito polidamente, as honras da casa. Estavamos encantados com elle, com a distincção das suas maneiras, com a sua gentileza em que uma intensa nota melancolica predominava.—Que era do enfado da viagem, do comer das hospedarias, do calor do dia. Que, se o incommodo{136}não passasse, offerecia a sua criada para nos ensinar a casa do medico.De dentro disseram-nos n'essa occasião que a doente estava melhor.Para ser amavel, lamentei ao telegraphista que os deveres do seu cargo o obrigassem a estar ali preso n'um dia de festa em Thomar.Elle sorriu-se e respondeu:—Eu nem dou pela festa. Detesto isto, não saio nunca de casa, não passeio, não ando.Instantes depois dizia-me ao ouvido um dos nossos companheiros de viagem:—Pois, sr., tem bom gosto o homem! Prefere estar em casa a contemplar o monstrosinho dasbellezas!E eu respondia-lhe no mesmo tom discreto:—Aqui ha romance, se ha!O meu amigo sorriu-se e respondeu:—O que ha por força é tolice.Ao cabo de tres quartos de hora, a doente deu-se como restabelecida. Amparou-se ao braço de um parente seu, e recolhemos aohotel, depois de termos agradecido ao telegraphista e a sua esposa os bons serviços que nos haviam dispensado.Elle disse-nos o seu nome todo, offereceu-nos attenciosamente a sua casa, pobre e humilde como era.A mulher, erguida nos bicos dos pés, dava beijos ás senhoras e apertou a mão aos homens, sacudindo-a á ingleza.{137}—Mas que figura de mulher! diziam as senhoras. Que lá bem educada parece ser.Depois de jantar, nós os homens saímos. As senhoras ficaram em casa. Eu, francamente o digo, convencido de que havia um romance no casamento do telegraphista, desejava conhecel-o. Á segunda ou terceira pergunta que fiz, encontrei homem que m'o contasse.No principio da sua carreira, o telegraphista fôra para Sines. Rapaz muito bem comportado, grave e sério, toda a gente gostava delle. Ás vezes os rapazes de Sines iam a funcçanatas, bailaricos principalmente, a Santiago de Cacem. Elle ficava sempre; ás dez horas da noite recolhia a casa. Durante muito tempo não se lhe conheceu qualquer inclinação amorosa. E não era, como sabemos, porque fosse mal parecido. As raparigas de Sines não o achavam nada feio.Passado mais de um anno, alguem disse que o telegraphista namorava a filha de um maritimo ali conhecido.—Não é possivel! exclamavam alguns.—Isso só por brincadeira! alvitravam outros. Mas o homem é sério.Não era possivel, diziam uns, porque a filha do maritimo era aquella creaturinha anã que nós vimos em Thomar. Só por brincadeira, diziam outros, porque, comquanto a cara da rapariga não fosse de todo feia, o corpo não chegava para casar.{138}Ora a verdade era que D. Clementina estava sempre á janella com o seu rosto rosado e o seu penteado Stuart expostos á brisa do mar. Mas trepava-se a uma cadeira muito alta para que o seu collo ficasse, como n'uma pessoa de estatura regular, á altura do peitoril.Homem de poucas falas, o telegraphista não conversava com ninguem. E, de motu proprio, ninguem ousou dizer-lhe que a mulher que elle namorava tinha apenas a altura de uma boneca.O telegraphista caiu de cama com uma pneumonia. A solidão do seu quarto de doente levou-o decerto a pensar no casamento. Restabelecido, sem revelar a ninguem a sua intenção, entrou em casa do maritimo a pedir-lhe a mão da filha.Mostrou-se surprehendido o maritimo. Parecia-lhe impossivel aquella boa fortuna para uma filha anã. Disse-lhe que teria muito gosto em acceital-o como genro, tanto mais que sua filha, como elle acabava de dizer, estava de accordo no casamento.E, por cautela, dispensou-se de chamar a filha á conferencia.Tres dias depois era o telegraphista admittido na intimidade da familia. Foi então que viu pela primeira vez sua mulher tal qual ella era, sem o supplemento da cadeira alta. Um tremor de frio percorreu-lhe a espinha dorsal, mas, homem de principios honestos, presando acima de tudo a sua reputação, casou. Outro fosse elle, e teria fugido{139}de Sines n'essa mesma noite, mandando a noiva e o telegrapho ao diabo. Todas as pessoas de regular estatura o haveriam desculpado.Sabida a historia, ficou perfeitamente explicado o melancolico recolhimento em que o telegraphista vivia, o seu desdem pela festa dostaboleiros, e o seu apêgo ao apparelho Bréguet, bem mais suave para elle que o do Hymeneu.Na infelicidade d'este logro conjugal, uma consolação unica poderia sorrir ao pobre telegraphista: não tinha filhos, nem esperava tel-os.—Muito bem sacado logro! exclamou o brazileiro com a despreoccupação de espirito de quem não suspeita ter caído em algum logro... mais ou menos bem sacado.Madame Araujo commentava o caso, ria, falava, estava expansiva, o que lisonjeava sobremodo o Leotte.Confessava que não esperava divertir-se tanto em Cintra.—Pena tenho eu, disse ella, se isto não durar!O Vasconcellos respondeu:—Naturalmente vamos embora ámanhã.—Já?! exclamou madame Araujo. Mas o Leotte deitou agua na fervura:—Que tanto importava mais um dia como menos um dia.Os relogios do Victor deram meia noite.—E que tal! já meia noite! disse o brazileiro.{140}Se você concorda, Christina, vamos tratar de recolher-nos, hein?Ouvindo pronunciar a palavraChristina, foi como se eu proprio tivesse pronunciadoeureka!como se houvesse encontrado a solução de um problema transcendente.Despedi-me do brazileiro e da mulher, authomaticamente. Mal que elles voltaram costas, fiz signal aos outros para que me seguissem. Chegando ao meu quarto, fechei a porta, e disse-lhes cuidadosamente, como se se tratasse de um segredo de estado n'um club de conspiradores:—Já sei quem esta mulher é!—Quem é?—A Christina do Muxagata, sem tirar nem pôr!—A Christina da historia que nos contaste?!—Acreditem, meus amigos, é a Christina do Muxagata.{141}XVA minha revelação causou tanta surpresa e interesse aos meus companheiros devillegiature, como a mim proprio.Ir eu encontrar, ao cabo de tantos annos, a mesma Christina da rua das Fontainhas, a quem fôra entregar o dinheiro do Muxagata, na occasião em que ella estava ceando com o Falcão do Marco!Que singular coincidencia a de ter eu começado por contar, nos nossos improvisados serões de Cintra, a historia do Muxagata e de ter vindo ao nosso encontro, nohoteldo Victor, essa famosa Christina, que eu nunca mais tinha visto, e de que nunca mais ouvira falar!Como, arruinando talvez o Falcão do Marco, chegára ella a desposar o brazileiro Araujo, se é que em verdade o havia desposado mais canonicamente do que ao Muxagata e ao Falcão do Marco?O que seria feito d'aquella creancinha de dois{142}annos, que fôra o fructo do seu primeiro amor criminoso?Mas eu não estava sonhando, por mais que o Vasconcellos quizesse capacitar-me d'isso.Não havia duvida. Era ella, a mesma Christina da rua das Fontainhas, a bella lamecense raptada pelo Muxagata, com os dedos cheios de anneis e as mãos dealbadas de pó de arroz.O Gonçallinho Jervis estava tão encantado com esta surpresa, que me parecia ter ciumes de que fosse eu e não elle que, por um acaso notavel, encontrasse um verdadeiro assumpto de romance.Ah! ingenuo Gonçallinho! Esse feliz achado representava apenas que eu era mais velho do que elle. Consolação tristissima. Não ha homem vulgar que, no decurso de alguns annos, não encontre na sua memoria um ou mais romances de sensação. Esperasse o nosso Gonçallinho, vivesse mais algum tempo, e os assumptos levantar-se-lhe-iam debaixo dos pés, quando menos os procurasse.O Leotte, apenas soube que madame Araujo era a Christina da historia do Muxagata, julgou-se um César que tinha chegado, visto e vencido.O Athayde, o Maldonado e o Vasconcellos eram os que mais reservados se mostravam perante esta situação inesperada, que viera accidentar pittorescamente a nossa excursão a Cintra.As suas duvidas contrariavam-me, pois que eu não podia deixar de estar plenamente convencido{143}de que madame Araujo era a Christina da rua das Fontainhas.Procurei convencel-os, e lembrou-me um alvitre que devia acabar por deixal-os inteiramente rendidos á verdade dos factos.—A Christina da rua das Fontainhas, tal como eu a conheci, gostava immenso de batotear.Saltavanos valetes, efazia cêrcoás quinas. Pois bem! experimentemol-a. Adiemos por mais dois ou tres dias o nosso regresso a Lisboa. Uma d'estas noites armamos uma banca de jogo. Se fôr ella, é natural que sinta renascer em si a paixão de jogar, que a fascinava no tempo do Muxagata. Observemos sefaz saltosnos valetes ecêrcosás quinas. Se isto se der, meus amigos, não ha mais que duvidar: é ella, sem tirar nem pôr, a Christina do Muxagata.Este alvitre agradou geralmente, e resolveu-se que ficariamos para realisar a experiencia decisiva.Era porém preciso proceder com boa tactica, não começar logo por falar no jogo.Assim se fez. No dia seguinte, madame Araujo, que ia readquirindo entre nós o seu velho habito de conviver com homens, estava quasi familiarisada comnosco, interessava-se pelos nossos passeios, pelos nossos paradoxos, e, sobretudo, mostrava-se deliciada pelos nossos serões, cheios de novidade para ella.Á noite, como se realmente não tivessemos nenhuma{144}intenção reservada, principiámos por dar a palavra ao Taveira, que ainda não tinha falado. Contasse elle algumapartidado seu amigo Luiz de Lemos, com que tantas vezes nos tinha matado o bicho do ouvido.—A historia daclaque, por exemplo.—Vocês estão fartos de ouvil-a! disse elle.—Mas nem madame Araujo nem seu esposo a conhecem de certo.—Luiz de Lemos! Eu nunca ouvi falar sequer d'esse nome! disse madame Araujo.O Taveira resolveu-se a contar a historia daclaquedo seu amigo Luiz de Lemos, que todos nós sabiamos de cór e argumentada.—Luiz de Lemos chegou a Braga ás cinco horas da tarde, sem ser esperado dos primos do Campo Novo.Apeteceu-lhe aproveitar os primeiros dias de verão, alegres e quentes, e a resolução d'essa pequena jornada ao Minho foi tomada de repente, uma noite, ao sair do theatro Baquet.Tinha chegado de Boaças dias antes, apenas com o seu fato de verão e alguma roupa branca na mala. Não contava passar do Porto. Mas, de subito, n'aquella noite, lembraram-lhe os primos Ozorios de Braga, dois pandegos, e, ao recolher do theatro, fez a mala e disse ao criado daAguia d'ouroque o chamasse ao romper da manhã.—V. ex.ª retira-se já para Boaças? perguntou{145}o criado, admirado de que, d'esta vez, o rega-bofes durasse tão pouco tempo.—Não. Eu vou a Braga, visitar os primos Ozorios. Ainda hei de ir estar na Foz alguns dias. Mas por ora é cedo. Vou a Braga.Ao romper da manhã, Luiz de Lemos foi á rua Formosa, á alquilaria doRaymundo, alugar umcoupéque o levasse a Braga.Elle tinha um grande horror instinctivo pela diligencia de Entre-Paredes em especial, e por todas as diligencias em geral. Dizia elle que a diligencia era avalla dos vivos. Uma philosophia como qualquer outra.A manhã estava deliciosa, fresca e lucida, excellente para jornada. Almoçou na Carriça, tornou a almoçar em Villa Nova de Famalicão, e almoçaria terceira vez em Braga, se não preferisse jantar.Os primos Ozorios do Campo Novo, encantados com a visita do morgado de Boaças, disseram-lhe que iam para a mesa.—Vocês ainda jantam? perguntou o morgado.—Bem vês tu que Braga é uma terra conservadora. Por cá ainda se pensa no jantar e no sr. D. Miguel.—Pois, meus amigos, eu só almóço, mas posso almoçar tantas vezes quantas fôr preciso. É pois pela terceira vez que vou hoje almoçar.Sentaram-se á mesa. Alegria e apetite eram de primeira ordem.{146}—Além de jantar, o que fazem vocês por cá?—Divertimo-nos.—Mas como?—Hoje, por exemplo, temos um baile.—Um baile! Um baile em Braga é uma coisa tão absurda como uma semana santa em Marrocos. Mas onde é o baile?—Em casa do Raio.—Olá! Pois esse baile do Raio é um verdadeiroraiopara mim.—Por que?—Porque não trouxe casaca.—Ó diabo! não trouxeste casaca?! exclamou um dos Ozorios.—Caso grave! ponderou o outro.—Trago apenas fato de verão. Eu podia lá imaginar um baile em Braga! Queraiode lembrança!—Mas ha de arranjar-se uma casaca.—Sim... uma casaca sempre ha de arranjar-se.—Se vocês arranjassem isso, teriam cortado o nó gordio.—Ora espera! lembrou um dos Ozorios. Eu tenho duas casacas.—Uma para usar e outra para alugar? Magnifico! Alugo-te a segunda por doze vintens.Os Ozorios riram-se.—Mas... chapeu? perguntou um dos dois irmãos.—Vou em cabello.{147}—Constipas-te.—Irei de cadeirinha, de carroção ou em maca.—Manda pedir o cavallo emprestado ao Longuinhos do Bom Jesus do Monte.—Ou isso. Mas vamos a resolver o caso do chapeu.—Está resolvido, disse o Ozorio mais velho. Eu tenho umaclaquee um chapeu alto. Tu levas aclaquee eu o chapeu alto.—Para encheres de pasteis é melhor do que aclaque. Tu não te perdes, maganão!Jantaram pantagruelicamente, comendo bem e bebendo melhor.Ás 9 horas davam os tres primos entrada nos salões do commendador Raio, que estavam deslumbrantes de bellezas bracarenses.Luiz de Lemos valsou, polkou, namorou, com o prestigio que lhe dava a sua lenda de morgado rico de Boaças.Mas, a meio da noite, lembrou-se de que ainda não tinha fumado.Encontrou um dos primos.—Ó tu! onde é que se fuma?—Ali, respondeu o primo Frederico, indicando-lhe uma pequena sala.—Bem. Vou fumar. Olha lá, sê prudente: não digas a ninguem que a minha casaca... é tua.O primo riu-se.Luiz de Lemos entrou na pequena sala, onde{148}muitos cavalheiros de Braga estavam fumando, incluindo o escrivão de fazenda.Accendeu o seu charuto, pousou aclaquesobre a mesa, conversou com os conhecidos e os desconhecidos, riu, falou de cavallos e de mulheres, mas como ouvisse annunciar uma valsa, levantou-se, pegou naclaquee dispunha-se a passar ao salão de baile.Quando elle já tinha sobraçado aclaque, o escrivão de fazenda, que estava de pé, reparando na outraclaqueque tinha ficado sobre a mesa, dirigiu-se ao morgado de Boaças:—V. ex.ª enganou-se...—Enganei-me! Como?—Essaclaquenão é de v. ex.ª.O morgado olhou fito no escrivão de fazenda, voltou-lhe as costas e dirigiu-se para a porta.O escrivão de fazenda seguiu-o, e já no corredor, abordou-o:—Essaclaquenão é de v. ex.ª.—Não é, não sr., mas que tem o cavalheiro com isso?—Peço perdão a v. ex.ª, mas ha aqui um pequeno engano...—Não ha engano nenhum, replicou o morgado. Acha que aclaquenão é minha?—Parece-me...—Pois tambem a casaca não é. Ora aqui tem.E, mal humorado, tornou a voltar-lhe as costas.{149}Encontrando o primo Frederico no salão, o morgado de Boaças desfechou-lhe com vivacidade:—Tu és um patife!—Porque?—Porque não és capaz de guardar um segredo.—Que segredo?—O daclaque.—Mas que dizes tu?!—E o da casaca tambem...—Mas a quem diabo fui eu contar que te emprestei aclaquee a casaca?—A quem? Ao escrivão de fazenda! E és tolo. Porque, se não désses com a lingua nos dentes, talvez fosse eu que tivesse de pagar a contribuição sumptuaria. Uma casaca em Braga deve ser considerada como objecto de luxo.N'isto viram aproximar-se o escrivão de fazenda, que se encaminhava a elles.—Ahi vem o homem! galhofou o morgado. Vem talvez saber qual dos dois ha de collectar.O escrivão de fazenda aproximou-se attenciosamente de Frederico Ozorio.—Peço desculpa a v. ex.ª, disse elle, mas a respeito d'este cavalheiro que o trata por primo, deu-se um pequeno engano.O morgado teve uma sacudidella nervosa:—É forte embirração! Eu ja disse ao cavalheiro que não houve engano nenhum. Nem a casaca nem aclaquesão minhas.{150}—Minhas é que são... interveio o Ozorio, querendo deitar agua na fervura.—Perdão! insistiu o escrivão de fazenda. A casaca será de v. ex.ª, mas aclaqueé minha.—Tem graça! Fui eu que a emprestei a meu primo.—Torno a pedir perdão. O primo de v. ex.ª, ainda agora, lá dentro, trocou a suaclaquecom a minha, que tambem estava sobre a mesa.Foi só então que o engano se desfez, mas, como désse muito que rir aos tres primos, toda a gente quiz saber o que era e toda a gente ficou sabendo em Braga que o morgado de Boaças tinha ido n'aquella noite ao baile do commendador Raio com uma casaca emprestada e umaclaqueque não era sua.O brazileiro commentou que não havia nada mais facil de acontecer do que uma troca de chapeus. Esta observação não era, aliás, precisa para o caracterisar intellectualmente. Salomão, no seu logar, teria dito a mesma coisa.D. Christina achou graça ao caso, mas disse, pouco amavelmente para o Taveira, que era de historias de amor que gostava mais.E o brazileiro observou por sua vez:—Eu do que gosto mais é de historias de almas do outro mundo. As velhas da minha terra crearam-me com essas historias.—Pois eu contarei ao sr. Araujo, disse eu, uma historia de almas do outro mundo.{151}O Vasconcellos interrompeu auctoritariamente:—Agora não. Isto de historias tambem cansa. Vamos nós inventar outro divertimento?...—Qual? perguntaram duas ou tres vozes.—O que eu receio, disse elle, é desagradar á sr.ª D. Christina... Mas lá vai! V. ex.ª aborrecer-se-ia se nós armassemos uma mesa de jogo?—Ora essa! exclamou o brazileiro. Um berlotesinho?! A Christina péla-se por isso, e eu não desgósto tambem.Meia hora depois, D. Christina estava contente como o peixe dentro de agua. Batoteava de grande e á... portugueza.Saltavaem todos os valetes ecercavatodas as quinas.E como os rios correm para o mar, era ella e o brazileiro que estavam com sorte.Não havia que duvidar. A experiencia era completa, decisiva.Ó alma batoteira do Muxagata! volta por um instante a este mundo para verificares como a tua Christina de Lamego honra a tua memoria transitando firmemente pelo caminho que tu lhe traçaste em roda de uma mesa de jogo.{152}{153}XVITodas as baterias da nossa curiosidade se assestaram contra um alvo unico: descobrir a historia do supposto casamento da Christina do Muxagata com o brazileiro Araujo.Felizmente para nós, o bloqueio não durou muito. Foi a propria praça que se rendeu voluntariamente.Emquanto D. Christina fazia a suatoilettepara o jantar, o brazileiro contava-me no terraço dohotel, com toda a sua ingenuidade bondosa, a historia do seu casamento—revelação a que eu o conduzi mais ou menos habilmente.Tinha vindo a Portugal havia seis annos para matar saudades da patria e visitar os parentes que viviam em Amares.Aproveitára a occasião, e fizera algumas excursões tanto no norte do paiz como na Extremadura.{154}Foi por essa occasião que encontrára D. Christina no Bom Jesus do Monte. Tinha ella enviuvado pela segunda vez recentemente e achava-se entregue a um profundo abatimento moral...—Então a esposa de v. ex.ª já tinha casado duas vezes? perguntei eu.—Já. A primeira com o morgado de Muxagata, que pela má cabeça d'elle déra cabo de tudo.—E a segunda?—A segunda com outro fidalgo do Marco de Canavezes, que tambem não tinha mais juizo. O amigo sabe decerto qual era a vida gastadora dos antigos morgados.—Sei muito bem.—Pois os dois deram cabo de tudo quanto tinham. A Christina estava reduzida ao pouco que lhe deixou o segundo marido.—E filhos... não teve?—Não, senhor. Como eu ia dizendo, vi-a no Bom Jesus do Monte. Gostei da senhora, soube que não tinha muitos meios, e falei-lhe em casamento. Ella, comquanto não fosse já nova, era bonita, como ainda se vê. Estava boa para mim, que não era nenhum rapazinho, e de mais a mais doente. Tudo aquillo foi obra de poucos dias. Ella lá tratou de mandar tirar os papeis.—Quaes papeis? Os banhos?—Para correr os banhos eram precisas as certidões dos dois casamentos e do obito dos dois maridos. Mas a Christina foi ao Porto, emquanto{155}eu fui a Amares, tambem por causa dos meus papeis, e lá os arranjou. Juntamo-nos depois em Amares, onde eu quiz casar por ser a minha terra. Como resolvesse ficar em Portugal, precisei ir liquidar ao Rio de Janeiro. A Christina, coitadinha! não me quiz deixar ir só; foi tambem. Estivemos lá dezoito mezes, liquidei, e agora por aqui ando sem mais canseira que a de tratar da minha saude. Vivi a principio em Braga, mas os medicos, por Braga ser muito fria, aconselharam-me que viesse viver para Lisboa, por causa do clima.N'isto chamaram para o jantar.E eu, francamente, não achei na historia do brazileiro revelação alguma que me surprehendesse—nem mesmo a dospapeisque D. Christina arranjára no Porto. Nada ha tão facil a uma mulher que vae casar com um brazileiro como poder cohonestar o seu passado com duas certidões de casamento... falsas. Quanto ao resto, eu havia architetado a historia do brazileiro. Apenas a minha imaginação tinha mettido mais algunsmaridosno coração de D. Christina. Mas achei natural que ella não fosse mais verdadeira, no que contára ao marido, do que as duas certidões que o contentaram a elle.Ter-me-ia ella reconhecido? Certamente que sim. Estava, porém, muito tranquilla na posse dos quatro documentos que attestavam o seu passado. Com elles se defenderia, sendo preciso, da{156}inconveniencia de qualquer mau encontro. Tanto se lhe daria, pois, que eu a reconhecesse como não. Ella era a viuva documentada do morgado de Muxagata e do Falcão do Marco. O papel sellado livra de muitos embaraços.Á mesa do jantar, D. Christina, que todos os dias mudava detoiletteduas e tres vezes, mandou dizer á criada Rosa que lhe trouxesse um lenço.Veio a criada trazer n'uma bandeja o lenço de finas rendas que tinha esquecido a D. Christina.E o Leotte, quando viu entrar a rapariga, alternou os seus olhares de guloso entre a brazileira e a criada, parecendo vacillar entre as cerejas frescas que os labios da rapariga imitavam, e o carmim que artificialmente coloria a bocca da brazileira, já um pouco fatigada... de beijar canonicamente tres maridos.Á noite, o Vasconcellos, que desejava a desforra, e D. Christina, que amava o berlote, queriam começar logo pela jogatina.O brazileiro, que já tinha tomado pé, sustentou que havia tempo para tudo: acrescentando que eu lhe havia promettido contar uma historia de almas do outro mundo.—Pois que se contasse a historia, mas uma só, concordaram.—De mais a mais a minha historia, disse eu, é de amores, para contentar a sr.ª D. Christina; e de almas do outro mundo, para contentar o sr.{157}Araujo. O peor é que talvez pareça um pouco maliciosa...Fingi-me escrupuloso, comquanto soubesse que os ouvidos de D. Christina não estranhariam a malicia de qualquer narrativa.—Ora adeus! respondeu o brazileiro rindo. Se fôr preciso, deite um véosinho por cima da historia, e conte sempre. Nós já não somos nenhumas creanças innocentes.—Pois n'esse caso, ahi vae a historia:Eu estava á janella, de manhã cedo—seis horas talvez—a comer um bello cacho de uvas brancas. Encostado ao peitoril, ia debicando bago a bago, com um certo prazer de gastronomo, que só me fazem sentir as uvas brancas e doces. Ás vezes alongava os olhos pelo horizonte, que as torres de Mafra recortavam ao longe, esfumando-se como no fundo de um quadro. Em torno de mim havia uma placidez profunda: as arvores e as pedras, companheiras unicas do casal, pareciam adormecidas ainda na frescura cristalina da manhã. A estrada de Mafra, que passava sob as janellas, estirava-se tão solitaria, que as andorinhas saltitavam no macadame, bicando o pó. O caseiro tinha saído com o filho n'uma carroça; a mulher do caseiro accendêra o lume para o almoço, como indicava o fumo que rompia da chaminé.N'isto, sinto o tilintar longinquo de guizos na estrada. É o tenente Silverio, que vem dar o seu passeio matutino, disse eu com os meus botões.{158}Já lhe conhecia o trotar da egua, que puxava acharrette.Nas terras pequenas sabe-se tudo: o tenente Silverio andava apaixonado pela Libania, da Murgeira, uma saloia muito animal, de seios turgidos, que pareciam despenhar-se no tanque, quando ella se curvava para lavar.Era elle, o tenente.Fez parar acharrettedebaixo da minha janella.—Olá! gritou. Está, na fórma do costume, comendo as suas uvas.—Pudesse eu, respondi-lhe, e havia de comel-as todo o anno. Que bellas! Isto de mais a mais é recommendado. Contêem principios alcalinos, que são salutares. E teem um rico assucar, que é nutritivo. Na Allemanha e na Suissa comem-n'as para curar as doenças gastro-intestinaes. É bom, e faz bem.—Diga antes que gosta muito de uvas.—Ou isso: gósto muito.—Visto que já saboreou o seu primeiro almoço, venha d'ahi dar um passeio.—Aonde?—Ora essa!—Á Murgeira, como sempre, não é verdade?—Como sempre... é um modo de dizer. Já lá não vou ha tres dias.—Que ausencia! Pois irei. Deixe-me procurar o chapeu.Tres minutos depois acharrettedo tenente Silverio{159}rodava para a Murgeira pela estrada aberta entre pinheiraes. A egua, no seu trote largo, quebrava o silencio da manhã, guizalhando festivamente.Iamos bem dispostos, dilatando os pulmões no ar fresco dos pinheiraes, em que já se sentia um gumesinho de brisa do mar, que soprava da Ericeira. Muito agradavel a manhã.—Isto é bom e faz bem, dizia-me o tenente. São as minhas uvas.—Perdão, as suas uvas, meu caro tenente, são outras. Vae colhel-as á Murgeira. Muito brancas não são; mas talvez sejam doces...O tenente riu-se.Tinhamos saído da estrada de Mafra, e iamos subindo, a passo, para a Murgeira.Avistava-se o mar, de um azul lacteo, esbranquiçado e sereno.Fomos subindo: a egua, de cabeça baixa, mettia o largo peito á estrada, puxando acharrette. Já conhecia o caminho, e acho que até já conhecia a Libania.Chegámos. As creancitas choravam como se tivesse acontecido uma desgraça. Havia algum caso na Murgeira.—Ora esta! exclamava o tenente. É a primeira vez que vejo chorar n'esta terra!—Ainda que tarde, as lagrimas chegam sempre, observei eu.—Isso é sentencioso. Mas eu sou curioso: quero saber o que é.{160}O tenente apeou-se; eu apeei-me tambem. Na taverna do sitio falava-se muito. Falava-se muito, e não se chorava menos.Soubemos então o que se tinha passado; morrera o Zé Ratinho.—Quem era? perguntei.Deram-nos informações. Zé Ratinho era um rapaz da Murgeira, que se fizera cocheiro dos Gatos. Andára doze annos em Lisboa, batendo, e aprendêra lá a tocar guitarra. Por esta prenda foi que elle se tornou celebre desde Lisboa até Mafra, desde Mafra até á Murgeira. Nas esperas de toiros, nas patuscadas de Friellas e nas noitadas do Dáfundo, Zé Ratinho fazia as delicias dos marialvas e das hespanholas: era um artista para a guitarra.Fôra em Lisboa que elle ganháraqueixa de peito, disseram-nos. Viera muito doente para a Murgeira, tomar ares patrios. Apesar de doente, entretinha-se á noite com a guitarra, na taverna, tocando para os outros ouvir. Os saloios da Murgeira, seus patricios, consideravam-n'o um Orpheu, um Amphion da guitarra. D'aqui o sentimento geral pela morte d'esse excellente rapaz, que deixava a perder de vista osharmoniosda saloiada patusca.Todos, rapazes e raparigas, queriam velar o seu cadaver. Tinha funeraes de principe, o Zé Ratinho.—Acabou-se a guitarra na Murgeira! exclamou{161}um saloio, que acabava de beber dois decilitros saudosamente.—Vão os senhores lá ver, que elle está catita! exclamou o taverneiro.Fomos. Casa terrea, pequena, escura: cheia de gente. Quando entrámos, a chorata dos circumstantes augmentou. Depois foi-sesmorzandolentamente: queriam ouvir o que diriamos.Zé Ratinho estava deitado no caixão. Tinham-lhe vestido o seu melhor fato: calças de bombazina, jaqueta de briche, cinta de lã encarnada, botas de pelle de vacca com floreta. Sem gravata. O barrete pousado sobre o hombro direito.Á cabeceira, um Christo e duas velas de cêra.Pendurada n'uma trave, n'uma tristeza inconsolavel, a guitarra.Uma rapariga, que diziam lá fóra sua namorada, havia entalado nas cordas da guitarra uma dhalia branca.O tenente Silverio conheceu que tinha mallogrado o passeio. O luto geral abrangia a Libania, cujos olhos chorosos contrastavam com os peitos foliões, saltitantes.Deixamos a Murgeira a prantear o seu Orpheu. O tenente foi almoçar comigo. Investindo com o linguado frito, falamos do Zé Ratinho.—Olhe que a lembrança da flor nas cordas da guitarra não deixa de ter certa delicadeza! observei eu.{162}—Qual historia! chalaçou o tenente. Mas que flor... uma dhalia! É um cumulo de delicadeza saloia. E, rindo, acrescentou: Deite cá mais linguado, que está melhor do que a Libania.Decorridos tres dias, á mesma hora, passa o tenente Silverio. Encontra-me a comer outro cacho de uvas.—Venha d'ahi.—Aquillo ainda ha de estar lutuoso. A morte de um Orpheu pede um triduo de lagrimas.—Ora adeus! Isso já lhes havia de passar.—Quem sabe?—Sei eu.—Como sabe?—De sciencia certa.—N'esse caso vamos lá.Fomos. Apeámos á porta da taverna. O tenente metteu logo por um atalho para ir ter com a Libania ao lavadoiro. Muito satiro, o tenente. Eu fiquei na taverna a dar dois dedos decavacoao taverneiro.Ouvi-lhe ainda muitas historias do Zé Ratinho. Uma d'ellas, principalmente, tinha o seu quê de phantastica.Durante a noite haviam ficado a velar o cadaver os rapazes mais afoitos da Murgeira. Ás duas horas da noite, coube a vez ao Joaquim Prado, um latagão forte como um Castello. Estava elle pensando na triste sorte do Zé Ratinho, e na orphandade irreparavel da sua guitarra,{163}quando de repente principiou a guitarra a tocar um fado muito triste e soluçado.—Ora pelos modos, acrescentou o taverneiro, era a alma de Zé Ratinho que estava tocando guitarra pela ultima vez.—Então o Joaquim Prado ouviu isso? Adormeceria elle, e estaria sonhando?...—Essa é boa! Não ha homem nenhum, por mais afoito que seja, capaz de dormir ao pé de um morto. O Joaquim ouviu mesmo tocar a guitarra, bem acordado que elle estava, e só com dez réis de aguardente que tinha bebido ahi n'esse mesmo logar em que vocemecê se assentou. Poz-se em pé, logo que a guitarra começou a tocar, e não viu ninguem. O Zé Ratinho estava morto e bem morto: não se mexia.N'isto chegava, com um certo ar dominador, o tenente Silverio.O taverneiro commentava:—Cá na Murgeira não é o senhor capaz de tirar da cabeça a ninguem que foi a alma do Zé Ratinho que na propria noite em que elle morreu, por volta das duas horas, esteve tocando guitarra.—Venha d'ahi, dizia-me o tenente, vamos almoçar.Subimos para acharrette. Já com as rédeas na mão, o tenente, muito chalaceador, perguntou-me:—Então os saloios ouviram a alma do Zé Ratinho{164}tocar guitarra, na noite em que elle morreu?!—Ouviram.—Pois... quem tocava guitarra era eu.—Você?!—Eu, sim. A Libania estava muito triste, e eu vim de Mafra dizer-lhe coisas. Ficou mais alegre. Quando vinha embora, dei as rédeas aoimpedido, e vim tocando guitarra. Mas pensei que elles não tivessem ouvido...—Jura que isso é verdade?O tenente olhou para mim:—Juro.—Então, decididamente, não era a alma do Zé Ratinho. Ainda bem! porque eu já me sentia disposto a acreditar...—Tambem eu, se isso tivesse acontecido comigo! observou ingenuamente o brazileiro.D. Christina, espirito forte, desatou a rir, e como já estivessem sobre a mesa dois baralhos de cartas, foi ella propria que os abriu, dizendo e abancando:—Vamos a isto, meus senhores.{165}
XIIIMettemos á bulha o Saavedra, que tinha sido até esse momento um dos mais silenciosos do grupo, para que se dignasse fazer as honras d'aquella noite, visto como a sua eloquencia devia achar-se ainda em folha, e a nossa já ia estando um pouco fatigada.O Saavedra tinha certa graça natural, era um espirito observador, mas a sua modestia orçava ás vezes pela timidez. Felizmente pudemos convencel-o a contar uma das suas anecdotas.—Imaginem v. ex.as, disse elle, que uma respeitavel dona de casa, uma exemplar mãe de familia, o que quer que seja de Cornelia romana, tem um marido cujo orçamento domestico é em grande parte absorvido pelas immensas publicações,{122}principalmente jornaes, de que o fazem assignante, ás vezes sem elle proprio o saber.É sempre com uma certa contrariedade que a esposa d'esse cavalheiro vê todos os dias entrar pela porta dentro mais um novo jornal.Ella, que para os seus Gracchos quereria amealhar todas as economias doménage, observa ao marido que já vae sendo excessivo o numero de jornaes que recebem.Ordinariamente elle responde:—Que queres, filha? Pediu-me o meu amigo Fulano; não póde deixar de ser. Mas como tudo n'este mundo tem compensações, é mais um que podes mandar vender no fim do mez.E, accendendo o seu charuto, nunca mais pensa no jornal novo que lhe mandaram, senão quando o cobrador vem receber a importancia da assignatura.Todas as noites os jornaes d'aquelle dia são arremessados para o fundo de um quarto esconso, d'onde, de tempos a tempos, saem ás braçadas para a tenda vizinha, na rasão de 60 réis o kilo de idéas.Pobres idéas! Descomposturas da politica, dissertações sociologicas,sueltosmordazes, versos de amor, charadas novissimas, tudo isso, que custou tantas vezes a engendrar, e que teve talvez a sua hora de celebridade, lá vae ser pesado a kilos na balança como a banha de porco, o feijão amarello e a manteiga da terra.{123}Nenhum respeito, nenhuma consideração por essas pobres idéas! Do papel é que se trata apenas: tanto pesa, quanto vale. O papel impresso tem tambem o seu guano—coisa unica e vil que se lhe póde aproveitar, depois que o pensamento envelheceu.A facundia do jornalista, a inspiração do poeta, a graça do folhetinista, ficam sendo, desde essa hora, um trapo para embrulho no balcão dos tendeiros.D'ahi por diante, isto é, da mercearia por diante, é o toicinho que desbanca o artigo de fundo, é a manteiga que supplanta o folhetim.Ceci tuera cela.A gordura afoga a poesia. Nos tempos modernos o trapo é a mortalha do tropo.Mas, como eu vinha contando, de tempos a tempos o criado da casa ia vender á tenda vizinha grandes porções de jornaes antigos.Succedeu porém que nos ultimos tempos, tendo-se despedido o criado, o moço de padeiro, que servia a casa, recommendou outro.—Era da sua terra, da Galliza, dizia o padeiro, e vinha para fugir ássortes. Não estava costumado a servir; faltava-lhe experiencia. Mas era muito bom rapaz, honradissimo, filho de uns pequenos lavradores de Compostella.Affiançava-o. Quanto a pratica de serviço, não tinha—repetia o padeiro—; mas como era esperto e tinha boa vontade de aprender, desembaraçar-se-ia depressa.{124}Foi admittido o recommendado do padeiro.Tipo montezinho; intellecto impenetravel, duro como o silex. Não percebendo nada, parecia porém vivamente animado do desejo de perceber tudo. Tinha sempre boas palavras, falas mansas, muito respeitosas. Mas, sem embargo, todos estes predicados não chegavam a compensar a estupidez desastrosa com que tudo fazia.Estava inteiramente cheio o armario dos jornaes. Era preciso vendel-os, e a dona da casa, tendo de sair a visitas, recommendou á criada:—Dize ao Domingos que vá vender os jornaes. Mas explica-lhe bem o que elle tem a fazer, para que não saia tolice.—Sim, minha senhora; sim, minha senhora.Mas, ou porque, logo que a senhora saiu, apparecesse á barra o namoro da criada e começasse a fazer-lhe signaes semaphoricos, ou porque ella realmente se esquecesse de que o criado era novo na casa, disse-lhe simplesmente:—Domingos, vae vender esses jornaes.E o Domingos, muito obediente, muito submisso para a criada:—Sim... senhora Rosa. Vender os jornaes... Eu já vou.Uma hora depois voltava para casa a senhora. O criado ainda não tinha chegado!—Que é do Domingos?—O Domingos foi vender os jornaes, minha senhora.{125}—Ha quanto tempo?—Ha mais de uma hora!—Ora essa! Tu explicaste-lhe bem?...—Expliquei, sim, minha senhora...—Então fugiria com o dinheiro?!—Sim... talvez fugisse.—Mas o padeiro affiançou-o!—Isso não tira.—Não tira! Mas o padeiro é que tem de entregar o valor dos jornaes...N'isto bate-se á porta da escada.—Ahi vem elle... diz a Rosa.Mas, tendo espreitado á porta, recúa espavorida.—Ó minha senhora! é um policia!—Um policia! O que quer elle?—Eu sei lá! Deus queira que não sejam alguns trabalhos...—Estás tola! Vae abrir.Batem segunda vez.A criada, antes de abrir a porta, torna a espreitar.—Ó minha senhora!—O que é?!—O Domingos vem preso com um policia!—Preso! Mas como seria isso? Vae abrir, já te disse.A Rosa abriu a porta.O policia perguntou se aquelle criado era d'ali.—Que sim, senhor, e que tinha sido affiançado pelo moço de padeiro.{126}Então o policia contou o seguinte:—Estando de serviço na Avenida, fui avisado por algumas pessoas de que na rua de S. José andava um rapaz impingindo por 10 réis jornaes antigos. Essas pessoas, tendo caido no logro, reclamaram a intervenção da policia, porque o rapaz, muito descarado, continuava na ladroeira. O policia teve que intervir; foi á procura do rapaz. Não tardou a encontral-o, justamente na occasião em que elle estava vendendo umDiario Populardo mez anterior. Foi pois apanhado em flagrante delicto: com a bocca na botija. O policia perguntara-lhe:—Tens fiador?—Fiador! fiador, não tenho, sr. policia.—Estás então preso.—Pois então estou preso, sim, senhor.—Quem te deu esses jornaes para vender?—Quem me deu estes jornar para vender?!...—Anda lá, não te faças tanso, que não ganhas nada com isso.—Não me faço tanso, não, senhor. Quem me deu estes jornaes para vender foi a sr.ª Rosa...N'este ponto, a criada interrompeu abruptamente a narrativa do policia, dizendo:—Foi a senhora que mandou. Pois não foi, minha senhora?O policia:—Foi a senhora?A criada:{127}—Foi, sim, sr. policia.Mas a dona da casa, apparecendo então no patamar da escada, disse com dignidade:—Faça favor de continuar a dizer como isso foi.O policia continuou:—Quem é a sr.ª Rosa? perguntei-lhe eu.—É a criada da patroa.—E quem é a patroa?—É a mulher do patrão.—Mas como se chama? Irra!—Chama-se... Isso é que eu não sei muito bem.—Bom. Vamos lá a casa dos teus patrões. Quanto dinheiro apuraste tu com a venda dos jornaes?—Quanto dinheiro apurei?—Sim, quanto tens na palma da mão?—Aqui, na palma da mão, tenho este.—São setenta réis. Dá cá.—Isso agora é que eu não dou, não, senhor, porque este dinheiro é para entregar á sr.ª Rosa.—Dá cá o dinheiro, e anda láp'ra diente.Quando o policia estava n'este ponto da narrativa, subia a escada o dono da casa, que voltava da repartição.Muito espantado de ver um policia, perguntou o que tudo aquillo significava.Então sua esposa contou o que se passara: o marido riu, o policia riu, a criada riu. Só o Domingos,{128}com os olhos cravados no chão, não ria.Comtudo, o policia, em razão de ter abandonado o serviço, precisava justificar o seu procedimento.—Que tivesse o cavalheiro paciencia, mas era preciso acompanhal-o á esquadra para contar como as coisas se passaram.—Não ha duvida nenhuma, respondeu o dono da casa, vamos lá.O chefe da esquadra riu, todos os outros policias riram, mas, como não estava presente o sr. commissario, o chefe da esquadra disse:—Tenha o cavalheiro a paciencia de voltar ámanhã, das 10 para as 11 horas, a fim de contar tudo ao sr. commissario.No dia seguinte, das 10 para as 11 horas, o dono da casa, seguido pelo Domingos, foi falar com o sr. commissario da respectiva divisão, que era aliás seu conhecido.O commissario ainda não estava; o chefe da esquadra tornou a rir, só o Domingos, com os olhos cravados no chão, não ria.O commissario falou pelo telephone:—Que ia fazer uma diligencia importante com o commissario geral; que não contassem com elle.O chefe da esquadra:—Que tornasse a ter paciencia, mas que voltasse no dia seguinte para falar com o sr. commissario.{129}—Ora essa! Que maçada!E á saída da esquadra, tanto o patrão como o Domingos não riam—nem um, nem outro.Madame Araujo achou infinita graça á historia dos jornaes, e o brazileiro, por esta vez ao menos, tambem pareceu achar graça de conta propria.O Leotte estava visivelmente picado com o triumpho que o Saavedra obtivera na presença d'essa mulher, cujatoilettedenunciava um certo habito de existencia mundana, que elle queria explorar.Foi pois elle mesmo que se offereceu para contar um episodio da sua viagem a Thomar.—Tambem já vi Thomar, observou o brazileiro; é bonito, mas não chega aos calcanhares do Minho!—Pois isto que vou contar, acrescentou o Leotte, aconteceu no principio de julho, ha tres annos.—Ha seis é que eu lá estive, ponderou o brazileiro.—Vamos a ouvir a historia, disse madame Araujo.—Sim, filha, obedeceu o brazileiro, submisso como sempre.{130}{131}XIVAfesta dos taboleirostinha reunido em Thomar muita gente de fóra. A companhia dos caminhos de ferro estabelecêra comboios directos a preços reduzidos. A pittoresca cidadesinha do Nabão, com o seu bello convento de Christo no topo, tinha um movimento extraordinario, anormal, que a vitalisava desde o castello dos templarios até á graciosa planicie daVarzea grande, habitualmente só frequentada por alguns soldados de infantaria 11.Todas as familias gradas da localidade tratavam de engalanar os taboleiros com muitas flôres e fogaças, alguns d'elles cogulados até á altura hiperbolica de dois metros. São estes taboleiros que as raparigas mais bonitas da cidade,{132}entrajadas ao garrido, conduzem á igreja de Santa Maria, onde a fogaça é benzida por um sacerdote. D'ali seguem por entre alas de povo, que as applaude, até á igreja da Misericordia. Á noite, a cidade, que é atravessada por uma ponte, illuminava-se com balões venezianos, que se espelhavam nas aguas do rio. Havia um bazar, e toirada. Era por tal signal cavalleiro umamador, Alfredo Marreca.Algumas familias das minhas relações haviam planeado um passeio através da Estremadura. Pretexto, afesta dos taboleirosem Thomar. Eu, que não gosto nada de viajar com o concurso de uma multidão festiva, combati o projecto, propuz um adiamento para depois da romaria. Procedeu-se á votação, e a maioria esmagou-me: tal qual como em S. Bento. Para me não demittir, submetti-me. Fomos por Santarem, onde nos demoramos dois dias. Depois seguimos para a estação de Paialvo, onde nos apeamos, e entramos emchar-à-bancsque nos conduziram a Thomar. Estação e estrada abarrotavam de gente. Irritado dos nervos, o meu desejo era mandar parar o sol ou... aquella gente toda. Fomos na incerteza de obterhotel, e essa incerteza sorria-me. Mas quiz o acaso que ainda encontrassemos alojamento noHotel Cotrim, á beira do Nabão. Tudo aquillo seria delicioso, se não estivessemos em plena romaria. Uma barafunda de todos os diabos.Almoçamos, e saímos. Andamos aos encontrões{133}de um lado para o outro. Começamos por visitar o convento. Na varanda de pedra o conservador do monumento dissera-nos: «A rainha D. Maria II, quando visitou o conde de Thomar, gostava de vir bordar para esta janella.» Que tinha bom gosto, concordaram as senhoras.A cidade, cortada pelo rio, muito arruada e muito varrida, estendia-se ao sopé do castello. E os forasteiros enxameavam cruzando-se em direcções oppostas. Vistos do alto, pareciam lilliputianos. Depois do castello, fomos visitar a fabrica de fiação, e as fabricas de papel do Prado e de Mariamaia. O dia estava calmosissimo: um julho abrasador. Os passaros, se não lograssem abrigar-se no secular arvoredo doPadrão, teriam morrido de calma.Á volta das fabricas, uma das senhoras do nosso rancho sentiu-se subitamente indisposta. Pediu-se um copo de agua. E, como a estação telegraphica estava proxima, recorremos ao telegraphista.Encontrei-o sentado ao apparelho—que não era ainda o Morse—trabalhando. Representava um homem de quarenta e cinco a quarenta e sete annos de idade: moreno e magro, estatura regular, bigode levemente grisalho. Muito grave de maneiras, e visivelmente melancolico. A sua figura impressionou-me e, digo-o francamente, sem querer encarecer o meu faro de observador, suspeitei n'aquelle homem um romance. Acreditem: suspeitei. Logo que lhe eu disse ao que ia,{134}chamou para dentro a pedir um copo de agua. Veiu trazel-o uma rapariguita de dezeseis annos, picada das bexigas, e descalça. Mas eu percebi que alguem estava espreitando pela porta entreaberta.Arranquei o copo das mãos da rapariga, e saí com elle. A indisposição não tinha passado ainda. Uma mulher offerecera uma cadeira de pinho, em que sentaram a doente, que, muito pallida, coberta de um suor frio, bebeu um gole, e afastou o copo.—Não teimem, disse alguem do lado.Fui entregar o copo ao telegraphista, que gravemente me perguntou se o incommodo tinha passado.Disse-lhe que não. E elle, levantando-se outra vez, lembrou que seria melhor trazerem a senhora para a estação telegraphica, ondesua mulherlhe poderia offerecer um leito humilde mas asseado.Saí a dizer isto, e todos approvaram o alvitre. Conduzida em braços a doente, entramos na estação, e o telegraphista, vendo-nos chegar, chamou para dentro:—Clementina! ó Clementina!N'isto appareceu-nos uma creatura que não teria mais de quatro palmos de altura, vestida muito garridamente com uma saia côr de pombo e um corpete azul; sobre o corpete, cabeção de rendas brancas com fita preta e broche de oiro.{135}Cara redonda e cheia, não despicienda. Mas a cabeça, estabelecida a proporção com a altura do corpo, era excessivamente volumosa. Estava penteada á Maria Stuart, e tinha dois anneis de Cabello empastados sobre a fronte.Apesar da seriedade do lance, todos os homens trocaram entre si um olhar de surpresa e admiração, que, reduzido a palavras, poderia dizer isto:—Pois este monstrosinho será a mulher do telegraphista?E, inclinado o olhar ao telegraphista, o contraste assombrava-nos cada vez mais.Pelo meu espirito passou este raciocinio:Casaria elle por amor? Não é possivel. Se não foi por amor, seria por interesse? Mas então como diabo é elle telegraphista e vive pobremente? Arruinar-se-ia no jogo? Oh! aqui ha romance por força...As senhoras deitaram a doente, depois de a haverem desapertado, sobre o leito conjugal do telegraphista. Nós, os homens, ficamos na sala da estação conversando em voz baixa. O telegraphista fazia-nos, muito polidamente, as honras da casa. Estavamos encantados com elle, com a distincção das suas maneiras, com a sua gentileza em que uma intensa nota melancolica predominava.—Que era do enfado da viagem, do comer das hospedarias, do calor do dia. Que, se o incommodo{136}não passasse, offerecia a sua criada para nos ensinar a casa do medico.De dentro disseram-nos n'essa occasião que a doente estava melhor.Para ser amavel, lamentei ao telegraphista que os deveres do seu cargo o obrigassem a estar ali preso n'um dia de festa em Thomar.Elle sorriu-se e respondeu:—Eu nem dou pela festa. Detesto isto, não saio nunca de casa, não passeio, não ando.Instantes depois dizia-me ao ouvido um dos nossos companheiros de viagem:—Pois, sr., tem bom gosto o homem! Prefere estar em casa a contemplar o monstrosinho dasbellezas!E eu respondia-lhe no mesmo tom discreto:—Aqui ha romance, se ha!O meu amigo sorriu-se e respondeu:—O que ha por força é tolice.Ao cabo de tres quartos de hora, a doente deu-se como restabelecida. Amparou-se ao braço de um parente seu, e recolhemos aohotel, depois de termos agradecido ao telegraphista e a sua esposa os bons serviços que nos haviam dispensado.Elle disse-nos o seu nome todo, offereceu-nos attenciosamente a sua casa, pobre e humilde como era.A mulher, erguida nos bicos dos pés, dava beijos ás senhoras e apertou a mão aos homens, sacudindo-a á ingleza.{137}—Mas que figura de mulher! diziam as senhoras. Que lá bem educada parece ser.Depois de jantar, nós os homens saímos. As senhoras ficaram em casa. Eu, francamente o digo, convencido de que havia um romance no casamento do telegraphista, desejava conhecel-o. Á segunda ou terceira pergunta que fiz, encontrei homem que m'o contasse.No principio da sua carreira, o telegraphista fôra para Sines. Rapaz muito bem comportado, grave e sério, toda a gente gostava delle. Ás vezes os rapazes de Sines iam a funcçanatas, bailaricos principalmente, a Santiago de Cacem. Elle ficava sempre; ás dez horas da noite recolhia a casa. Durante muito tempo não se lhe conheceu qualquer inclinação amorosa. E não era, como sabemos, porque fosse mal parecido. As raparigas de Sines não o achavam nada feio.Passado mais de um anno, alguem disse que o telegraphista namorava a filha de um maritimo ali conhecido.—Não é possivel! exclamavam alguns.—Isso só por brincadeira! alvitravam outros. Mas o homem é sério.Não era possivel, diziam uns, porque a filha do maritimo era aquella creaturinha anã que nós vimos em Thomar. Só por brincadeira, diziam outros, porque, comquanto a cara da rapariga não fosse de todo feia, o corpo não chegava para casar.{138}Ora a verdade era que D. Clementina estava sempre á janella com o seu rosto rosado e o seu penteado Stuart expostos á brisa do mar. Mas trepava-se a uma cadeira muito alta para que o seu collo ficasse, como n'uma pessoa de estatura regular, á altura do peitoril.Homem de poucas falas, o telegraphista não conversava com ninguem. E, de motu proprio, ninguem ousou dizer-lhe que a mulher que elle namorava tinha apenas a altura de uma boneca.O telegraphista caiu de cama com uma pneumonia. A solidão do seu quarto de doente levou-o decerto a pensar no casamento. Restabelecido, sem revelar a ninguem a sua intenção, entrou em casa do maritimo a pedir-lhe a mão da filha.Mostrou-se surprehendido o maritimo. Parecia-lhe impossivel aquella boa fortuna para uma filha anã. Disse-lhe que teria muito gosto em acceital-o como genro, tanto mais que sua filha, como elle acabava de dizer, estava de accordo no casamento.E, por cautela, dispensou-se de chamar a filha á conferencia.Tres dias depois era o telegraphista admittido na intimidade da familia. Foi então que viu pela primeira vez sua mulher tal qual ella era, sem o supplemento da cadeira alta. Um tremor de frio percorreu-lhe a espinha dorsal, mas, homem de principios honestos, presando acima de tudo a sua reputação, casou. Outro fosse elle, e teria fugido{139}de Sines n'essa mesma noite, mandando a noiva e o telegrapho ao diabo. Todas as pessoas de regular estatura o haveriam desculpado.Sabida a historia, ficou perfeitamente explicado o melancolico recolhimento em que o telegraphista vivia, o seu desdem pela festa dostaboleiros, e o seu apêgo ao apparelho Bréguet, bem mais suave para elle que o do Hymeneu.Na infelicidade d'este logro conjugal, uma consolação unica poderia sorrir ao pobre telegraphista: não tinha filhos, nem esperava tel-os.—Muito bem sacado logro! exclamou o brazileiro com a despreoccupação de espirito de quem não suspeita ter caído em algum logro... mais ou menos bem sacado.Madame Araujo commentava o caso, ria, falava, estava expansiva, o que lisonjeava sobremodo o Leotte.Confessava que não esperava divertir-se tanto em Cintra.—Pena tenho eu, disse ella, se isto não durar!O Vasconcellos respondeu:—Naturalmente vamos embora ámanhã.—Já?! exclamou madame Araujo. Mas o Leotte deitou agua na fervura:—Que tanto importava mais um dia como menos um dia.Os relogios do Victor deram meia noite.—E que tal! já meia noite! disse o brazileiro.{140}Se você concorda, Christina, vamos tratar de recolher-nos, hein?Ouvindo pronunciar a palavraChristina, foi como se eu proprio tivesse pronunciadoeureka!como se houvesse encontrado a solução de um problema transcendente.Despedi-me do brazileiro e da mulher, authomaticamente. Mal que elles voltaram costas, fiz signal aos outros para que me seguissem. Chegando ao meu quarto, fechei a porta, e disse-lhes cuidadosamente, como se se tratasse de um segredo de estado n'um club de conspiradores:—Já sei quem esta mulher é!—Quem é?—A Christina do Muxagata, sem tirar nem pôr!—A Christina da historia que nos contaste?!—Acreditem, meus amigos, é a Christina do Muxagata.{141}XVA minha revelação causou tanta surpresa e interesse aos meus companheiros devillegiature, como a mim proprio.Ir eu encontrar, ao cabo de tantos annos, a mesma Christina da rua das Fontainhas, a quem fôra entregar o dinheiro do Muxagata, na occasião em que ella estava ceando com o Falcão do Marco!Que singular coincidencia a de ter eu começado por contar, nos nossos improvisados serões de Cintra, a historia do Muxagata e de ter vindo ao nosso encontro, nohoteldo Victor, essa famosa Christina, que eu nunca mais tinha visto, e de que nunca mais ouvira falar!Como, arruinando talvez o Falcão do Marco, chegára ella a desposar o brazileiro Araujo, se é que em verdade o havia desposado mais canonicamente do que ao Muxagata e ao Falcão do Marco?O que seria feito d'aquella creancinha de dois{142}annos, que fôra o fructo do seu primeiro amor criminoso?Mas eu não estava sonhando, por mais que o Vasconcellos quizesse capacitar-me d'isso.Não havia duvida. Era ella, a mesma Christina da rua das Fontainhas, a bella lamecense raptada pelo Muxagata, com os dedos cheios de anneis e as mãos dealbadas de pó de arroz.O Gonçallinho Jervis estava tão encantado com esta surpresa, que me parecia ter ciumes de que fosse eu e não elle que, por um acaso notavel, encontrasse um verdadeiro assumpto de romance.Ah! ingenuo Gonçallinho! Esse feliz achado representava apenas que eu era mais velho do que elle. Consolação tristissima. Não ha homem vulgar que, no decurso de alguns annos, não encontre na sua memoria um ou mais romances de sensação. Esperasse o nosso Gonçallinho, vivesse mais algum tempo, e os assumptos levantar-se-lhe-iam debaixo dos pés, quando menos os procurasse.O Leotte, apenas soube que madame Araujo era a Christina da historia do Muxagata, julgou-se um César que tinha chegado, visto e vencido.O Athayde, o Maldonado e o Vasconcellos eram os que mais reservados se mostravam perante esta situação inesperada, que viera accidentar pittorescamente a nossa excursão a Cintra.As suas duvidas contrariavam-me, pois que eu não podia deixar de estar plenamente convencido{143}de que madame Araujo era a Christina da rua das Fontainhas.Procurei convencel-os, e lembrou-me um alvitre que devia acabar por deixal-os inteiramente rendidos á verdade dos factos.—A Christina da rua das Fontainhas, tal como eu a conheci, gostava immenso de batotear.Saltavanos valetes, efazia cêrcoás quinas. Pois bem! experimentemol-a. Adiemos por mais dois ou tres dias o nosso regresso a Lisboa. Uma d'estas noites armamos uma banca de jogo. Se fôr ella, é natural que sinta renascer em si a paixão de jogar, que a fascinava no tempo do Muxagata. Observemos sefaz saltosnos valetes ecêrcosás quinas. Se isto se der, meus amigos, não ha mais que duvidar: é ella, sem tirar nem pôr, a Christina do Muxagata.Este alvitre agradou geralmente, e resolveu-se que ficariamos para realisar a experiencia decisiva.Era porém preciso proceder com boa tactica, não começar logo por falar no jogo.Assim se fez. No dia seguinte, madame Araujo, que ia readquirindo entre nós o seu velho habito de conviver com homens, estava quasi familiarisada comnosco, interessava-se pelos nossos passeios, pelos nossos paradoxos, e, sobretudo, mostrava-se deliciada pelos nossos serões, cheios de novidade para ella.Á noite, como se realmente não tivessemos nenhuma{144}intenção reservada, principiámos por dar a palavra ao Taveira, que ainda não tinha falado. Contasse elle algumapartidado seu amigo Luiz de Lemos, com que tantas vezes nos tinha matado o bicho do ouvido.—A historia daclaque, por exemplo.—Vocês estão fartos de ouvil-a! disse elle.—Mas nem madame Araujo nem seu esposo a conhecem de certo.—Luiz de Lemos! Eu nunca ouvi falar sequer d'esse nome! disse madame Araujo.O Taveira resolveu-se a contar a historia daclaquedo seu amigo Luiz de Lemos, que todos nós sabiamos de cór e argumentada.—Luiz de Lemos chegou a Braga ás cinco horas da tarde, sem ser esperado dos primos do Campo Novo.Apeteceu-lhe aproveitar os primeiros dias de verão, alegres e quentes, e a resolução d'essa pequena jornada ao Minho foi tomada de repente, uma noite, ao sair do theatro Baquet.Tinha chegado de Boaças dias antes, apenas com o seu fato de verão e alguma roupa branca na mala. Não contava passar do Porto. Mas, de subito, n'aquella noite, lembraram-lhe os primos Ozorios de Braga, dois pandegos, e, ao recolher do theatro, fez a mala e disse ao criado daAguia d'ouroque o chamasse ao romper da manhã.—V. ex.ª retira-se já para Boaças? perguntou{145}o criado, admirado de que, d'esta vez, o rega-bofes durasse tão pouco tempo.—Não. Eu vou a Braga, visitar os primos Ozorios. Ainda hei de ir estar na Foz alguns dias. Mas por ora é cedo. Vou a Braga.Ao romper da manhã, Luiz de Lemos foi á rua Formosa, á alquilaria doRaymundo, alugar umcoupéque o levasse a Braga.Elle tinha um grande horror instinctivo pela diligencia de Entre-Paredes em especial, e por todas as diligencias em geral. Dizia elle que a diligencia era avalla dos vivos. Uma philosophia como qualquer outra.A manhã estava deliciosa, fresca e lucida, excellente para jornada. Almoçou na Carriça, tornou a almoçar em Villa Nova de Famalicão, e almoçaria terceira vez em Braga, se não preferisse jantar.Os primos Ozorios do Campo Novo, encantados com a visita do morgado de Boaças, disseram-lhe que iam para a mesa.—Vocês ainda jantam? perguntou o morgado.—Bem vês tu que Braga é uma terra conservadora. Por cá ainda se pensa no jantar e no sr. D. Miguel.—Pois, meus amigos, eu só almóço, mas posso almoçar tantas vezes quantas fôr preciso. É pois pela terceira vez que vou hoje almoçar.Sentaram-se á mesa. Alegria e apetite eram de primeira ordem.{146}—Além de jantar, o que fazem vocês por cá?—Divertimo-nos.—Mas como?—Hoje, por exemplo, temos um baile.—Um baile! Um baile em Braga é uma coisa tão absurda como uma semana santa em Marrocos. Mas onde é o baile?—Em casa do Raio.—Olá! Pois esse baile do Raio é um verdadeiroraiopara mim.—Por que?—Porque não trouxe casaca.—Ó diabo! não trouxeste casaca?! exclamou um dos Ozorios.—Caso grave! ponderou o outro.—Trago apenas fato de verão. Eu podia lá imaginar um baile em Braga! Queraiode lembrança!—Mas ha de arranjar-se uma casaca.—Sim... uma casaca sempre ha de arranjar-se.—Se vocês arranjassem isso, teriam cortado o nó gordio.—Ora espera! lembrou um dos Ozorios. Eu tenho duas casacas.—Uma para usar e outra para alugar? Magnifico! Alugo-te a segunda por doze vintens.Os Ozorios riram-se.—Mas... chapeu? perguntou um dos dois irmãos.—Vou em cabello.{147}—Constipas-te.—Irei de cadeirinha, de carroção ou em maca.—Manda pedir o cavallo emprestado ao Longuinhos do Bom Jesus do Monte.—Ou isso. Mas vamos a resolver o caso do chapeu.—Está resolvido, disse o Ozorio mais velho. Eu tenho umaclaquee um chapeu alto. Tu levas aclaquee eu o chapeu alto.—Para encheres de pasteis é melhor do que aclaque. Tu não te perdes, maganão!Jantaram pantagruelicamente, comendo bem e bebendo melhor.Ás 9 horas davam os tres primos entrada nos salões do commendador Raio, que estavam deslumbrantes de bellezas bracarenses.Luiz de Lemos valsou, polkou, namorou, com o prestigio que lhe dava a sua lenda de morgado rico de Boaças.Mas, a meio da noite, lembrou-se de que ainda não tinha fumado.Encontrou um dos primos.—Ó tu! onde é que se fuma?—Ali, respondeu o primo Frederico, indicando-lhe uma pequena sala.—Bem. Vou fumar. Olha lá, sê prudente: não digas a ninguem que a minha casaca... é tua.O primo riu-se.Luiz de Lemos entrou na pequena sala, onde{148}muitos cavalheiros de Braga estavam fumando, incluindo o escrivão de fazenda.Accendeu o seu charuto, pousou aclaquesobre a mesa, conversou com os conhecidos e os desconhecidos, riu, falou de cavallos e de mulheres, mas como ouvisse annunciar uma valsa, levantou-se, pegou naclaquee dispunha-se a passar ao salão de baile.Quando elle já tinha sobraçado aclaque, o escrivão de fazenda, que estava de pé, reparando na outraclaqueque tinha ficado sobre a mesa, dirigiu-se ao morgado de Boaças:—V. ex.ª enganou-se...—Enganei-me! Como?—Essaclaquenão é de v. ex.ª.O morgado olhou fito no escrivão de fazenda, voltou-lhe as costas e dirigiu-se para a porta.O escrivão de fazenda seguiu-o, e já no corredor, abordou-o:—Essaclaquenão é de v. ex.ª.—Não é, não sr., mas que tem o cavalheiro com isso?—Peço perdão a v. ex.ª, mas ha aqui um pequeno engano...—Não ha engano nenhum, replicou o morgado. Acha que aclaquenão é minha?—Parece-me...—Pois tambem a casaca não é. Ora aqui tem.E, mal humorado, tornou a voltar-lhe as costas.{149}Encontrando o primo Frederico no salão, o morgado de Boaças desfechou-lhe com vivacidade:—Tu és um patife!—Porque?—Porque não és capaz de guardar um segredo.—Que segredo?—O daclaque.—Mas que dizes tu?!—E o da casaca tambem...—Mas a quem diabo fui eu contar que te emprestei aclaquee a casaca?—A quem? Ao escrivão de fazenda! E és tolo. Porque, se não désses com a lingua nos dentes, talvez fosse eu que tivesse de pagar a contribuição sumptuaria. Uma casaca em Braga deve ser considerada como objecto de luxo.N'isto viram aproximar-se o escrivão de fazenda, que se encaminhava a elles.—Ahi vem o homem! galhofou o morgado. Vem talvez saber qual dos dois ha de collectar.O escrivão de fazenda aproximou-se attenciosamente de Frederico Ozorio.—Peço desculpa a v. ex.ª, disse elle, mas a respeito d'este cavalheiro que o trata por primo, deu-se um pequeno engano.O morgado teve uma sacudidella nervosa:—É forte embirração! Eu ja disse ao cavalheiro que não houve engano nenhum. Nem a casaca nem aclaquesão minhas.{150}—Minhas é que são... interveio o Ozorio, querendo deitar agua na fervura.—Perdão! insistiu o escrivão de fazenda. A casaca será de v. ex.ª, mas aclaqueé minha.—Tem graça! Fui eu que a emprestei a meu primo.—Torno a pedir perdão. O primo de v. ex.ª, ainda agora, lá dentro, trocou a suaclaquecom a minha, que tambem estava sobre a mesa.Foi só então que o engano se desfez, mas, como désse muito que rir aos tres primos, toda a gente quiz saber o que era e toda a gente ficou sabendo em Braga que o morgado de Boaças tinha ido n'aquella noite ao baile do commendador Raio com uma casaca emprestada e umaclaqueque não era sua.O brazileiro commentou que não havia nada mais facil de acontecer do que uma troca de chapeus. Esta observação não era, aliás, precisa para o caracterisar intellectualmente. Salomão, no seu logar, teria dito a mesma coisa.D. Christina achou graça ao caso, mas disse, pouco amavelmente para o Taveira, que era de historias de amor que gostava mais.E o brazileiro observou por sua vez:—Eu do que gosto mais é de historias de almas do outro mundo. As velhas da minha terra crearam-me com essas historias.—Pois eu contarei ao sr. Araujo, disse eu, uma historia de almas do outro mundo.{151}O Vasconcellos interrompeu auctoritariamente:—Agora não. Isto de historias tambem cansa. Vamos nós inventar outro divertimento?...—Qual? perguntaram duas ou tres vozes.—O que eu receio, disse elle, é desagradar á sr.ª D. Christina... Mas lá vai! V. ex.ª aborrecer-se-ia se nós armassemos uma mesa de jogo?—Ora essa! exclamou o brazileiro. Um berlotesinho?! A Christina péla-se por isso, e eu não desgósto tambem.Meia hora depois, D. Christina estava contente como o peixe dentro de agua. Batoteava de grande e á... portugueza.Saltavaem todos os valetes ecercavatodas as quinas.E como os rios correm para o mar, era ella e o brazileiro que estavam com sorte.Não havia que duvidar. A experiencia era completa, decisiva.Ó alma batoteira do Muxagata! volta por um instante a este mundo para verificares como a tua Christina de Lamego honra a tua memoria transitando firmemente pelo caminho que tu lhe traçaste em roda de uma mesa de jogo.{152}{153}XVITodas as baterias da nossa curiosidade se assestaram contra um alvo unico: descobrir a historia do supposto casamento da Christina do Muxagata com o brazileiro Araujo.Felizmente para nós, o bloqueio não durou muito. Foi a propria praça que se rendeu voluntariamente.Emquanto D. Christina fazia a suatoilettepara o jantar, o brazileiro contava-me no terraço dohotel, com toda a sua ingenuidade bondosa, a historia do seu casamento—revelação a que eu o conduzi mais ou menos habilmente.Tinha vindo a Portugal havia seis annos para matar saudades da patria e visitar os parentes que viviam em Amares.Aproveitára a occasião, e fizera algumas excursões tanto no norte do paiz como na Extremadura.{154}Foi por essa occasião que encontrára D. Christina no Bom Jesus do Monte. Tinha ella enviuvado pela segunda vez recentemente e achava-se entregue a um profundo abatimento moral...—Então a esposa de v. ex.ª já tinha casado duas vezes? perguntei eu.—Já. A primeira com o morgado de Muxagata, que pela má cabeça d'elle déra cabo de tudo.—E a segunda?—A segunda com outro fidalgo do Marco de Canavezes, que tambem não tinha mais juizo. O amigo sabe decerto qual era a vida gastadora dos antigos morgados.—Sei muito bem.—Pois os dois deram cabo de tudo quanto tinham. A Christina estava reduzida ao pouco que lhe deixou o segundo marido.—E filhos... não teve?—Não, senhor. Como eu ia dizendo, vi-a no Bom Jesus do Monte. Gostei da senhora, soube que não tinha muitos meios, e falei-lhe em casamento. Ella, comquanto não fosse já nova, era bonita, como ainda se vê. Estava boa para mim, que não era nenhum rapazinho, e de mais a mais doente. Tudo aquillo foi obra de poucos dias. Ella lá tratou de mandar tirar os papeis.—Quaes papeis? Os banhos?—Para correr os banhos eram precisas as certidões dos dois casamentos e do obito dos dois maridos. Mas a Christina foi ao Porto, emquanto{155}eu fui a Amares, tambem por causa dos meus papeis, e lá os arranjou. Juntamo-nos depois em Amares, onde eu quiz casar por ser a minha terra. Como resolvesse ficar em Portugal, precisei ir liquidar ao Rio de Janeiro. A Christina, coitadinha! não me quiz deixar ir só; foi tambem. Estivemos lá dezoito mezes, liquidei, e agora por aqui ando sem mais canseira que a de tratar da minha saude. Vivi a principio em Braga, mas os medicos, por Braga ser muito fria, aconselharam-me que viesse viver para Lisboa, por causa do clima.N'isto chamaram para o jantar.E eu, francamente, não achei na historia do brazileiro revelação alguma que me surprehendesse—nem mesmo a dospapeisque D. Christina arranjára no Porto. Nada ha tão facil a uma mulher que vae casar com um brazileiro como poder cohonestar o seu passado com duas certidões de casamento... falsas. Quanto ao resto, eu havia architetado a historia do brazileiro. Apenas a minha imaginação tinha mettido mais algunsmaridosno coração de D. Christina. Mas achei natural que ella não fosse mais verdadeira, no que contára ao marido, do que as duas certidões que o contentaram a elle.Ter-me-ia ella reconhecido? Certamente que sim. Estava, porém, muito tranquilla na posse dos quatro documentos que attestavam o seu passado. Com elles se defenderia, sendo preciso, da{156}inconveniencia de qualquer mau encontro. Tanto se lhe daria, pois, que eu a reconhecesse como não. Ella era a viuva documentada do morgado de Muxagata e do Falcão do Marco. O papel sellado livra de muitos embaraços.Á mesa do jantar, D. Christina, que todos os dias mudava detoiletteduas e tres vezes, mandou dizer á criada Rosa que lhe trouxesse um lenço.Veio a criada trazer n'uma bandeja o lenço de finas rendas que tinha esquecido a D. Christina.E o Leotte, quando viu entrar a rapariga, alternou os seus olhares de guloso entre a brazileira e a criada, parecendo vacillar entre as cerejas frescas que os labios da rapariga imitavam, e o carmim que artificialmente coloria a bocca da brazileira, já um pouco fatigada... de beijar canonicamente tres maridos.Á noite, o Vasconcellos, que desejava a desforra, e D. Christina, que amava o berlote, queriam começar logo pela jogatina.O brazileiro, que já tinha tomado pé, sustentou que havia tempo para tudo: acrescentando que eu lhe havia promettido contar uma historia de almas do outro mundo.—Pois que se contasse a historia, mas uma só, concordaram.—De mais a mais a minha historia, disse eu, é de amores, para contentar a sr.ª D. Christina; e de almas do outro mundo, para contentar o sr.{157}Araujo. O peor é que talvez pareça um pouco maliciosa...Fingi-me escrupuloso, comquanto soubesse que os ouvidos de D. Christina não estranhariam a malicia de qualquer narrativa.—Ora adeus! respondeu o brazileiro rindo. Se fôr preciso, deite um véosinho por cima da historia, e conte sempre. Nós já não somos nenhumas creanças innocentes.—Pois n'esse caso, ahi vae a historia:Eu estava á janella, de manhã cedo—seis horas talvez—a comer um bello cacho de uvas brancas. Encostado ao peitoril, ia debicando bago a bago, com um certo prazer de gastronomo, que só me fazem sentir as uvas brancas e doces. Ás vezes alongava os olhos pelo horizonte, que as torres de Mafra recortavam ao longe, esfumando-se como no fundo de um quadro. Em torno de mim havia uma placidez profunda: as arvores e as pedras, companheiras unicas do casal, pareciam adormecidas ainda na frescura cristalina da manhã. A estrada de Mafra, que passava sob as janellas, estirava-se tão solitaria, que as andorinhas saltitavam no macadame, bicando o pó. O caseiro tinha saído com o filho n'uma carroça; a mulher do caseiro accendêra o lume para o almoço, como indicava o fumo que rompia da chaminé.N'isto, sinto o tilintar longinquo de guizos na estrada. É o tenente Silverio, que vem dar o seu passeio matutino, disse eu com os meus botões.{158}Já lhe conhecia o trotar da egua, que puxava acharrette.Nas terras pequenas sabe-se tudo: o tenente Silverio andava apaixonado pela Libania, da Murgeira, uma saloia muito animal, de seios turgidos, que pareciam despenhar-se no tanque, quando ella se curvava para lavar.Era elle, o tenente.Fez parar acharrettedebaixo da minha janella.—Olá! gritou. Está, na fórma do costume, comendo as suas uvas.—Pudesse eu, respondi-lhe, e havia de comel-as todo o anno. Que bellas! Isto de mais a mais é recommendado. Contêem principios alcalinos, que são salutares. E teem um rico assucar, que é nutritivo. Na Allemanha e na Suissa comem-n'as para curar as doenças gastro-intestinaes. É bom, e faz bem.—Diga antes que gosta muito de uvas.—Ou isso: gósto muito.—Visto que já saboreou o seu primeiro almoço, venha d'ahi dar um passeio.—Aonde?—Ora essa!—Á Murgeira, como sempre, não é verdade?—Como sempre... é um modo de dizer. Já lá não vou ha tres dias.—Que ausencia! Pois irei. Deixe-me procurar o chapeu.Tres minutos depois acharrettedo tenente Silverio{159}rodava para a Murgeira pela estrada aberta entre pinheiraes. A egua, no seu trote largo, quebrava o silencio da manhã, guizalhando festivamente.Iamos bem dispostos, dilatando os pulmões no ar fresco dos pinheiraes, em que já se sentia um gumesinho de brisa do mar, que soprava da Ericeira. Muito agradavel a manhã.—Isto é bom e faz bem, dizia-me o tenente. São as minhas uvas.—Perdão, as suas uvas, meu caro tenente, são outras. Vae colhel-as á Murgeira. Muito brancas não são; mas talvez sejam doces...O tenente riu-se.Tinhamos saído da estrada de Mafra, e iamos subindo, a passo, para a Murgeira.Avistava-se o mar, de um azul lacteo, esbranquiçado e sereno.Fomos subindo: a egua, de cabeça baixa, mettia o largo peito á estrada, puxando acharrette. Já conhecia o caminho, e acho que até já conhecia a Libania.Chegámos. As creancitas choravam como se tivesse acontecido uma desgraça. Havia algum caso na Murgeira.—Ora esta! exclamava o tenente. É a primeira vez que vejo chorar n'esta terra!—Ainda que tarde, as lagrimas chegam sempre, observei eu.—Isso é sentencioso. Mas eu sou curioso: quero saber o que é.{160}O tenente apeou-se; eu apeei-me tambem. Na taverna do sitio falava-se muito. Falava-se muito, e não se chorava menos.Soubemos então o que se tinha passado; morrera o Zé Ratinho.—Quem era? perguntei.Deram-nos informações. Zé Ratinho era um rapaz da Murgeira, que se fizera cocheiro dos Gatos. Andára doze annos em Lisboa, batendo, e aprendêra lá a tocar guitarra. Por esta prenda foi que elle se tornou celebre desde Lisboa até Mafra, desde Mafra até á Murgeira. Nas esperas de toiros, nas patuscadas de Friellas e nas noitadas do Dáfundo, Zé Ratinho fazia as delicias dos marialvas e das hespanholas: era um artista para a guitarra.Fôra em Lisboa que elle ganháraqueixa de peito, disseram-nos. Viera muito doente para a Murgeira, tomar ares patrios. Apesar de doente, entretinha-se á noite com a guitarra, na taverna, tocando para os outros ouvir. Os saloios da Murgeira, seus patricios, consideravam-n'o um Orpheu, um Amphion da guitarra. D'aqui o sentimento geral pela morte d'esse excellente rapaz, que deixava a perder de vista osharmoniosda saloiada patusca.Todos, rapazes e raparigas, queriam velar o seu cadaver. Tinha funeraes de principe, o Zé Ratinho.—Acabou-se a guitarra na Murgeira! exclamou{161}um saloio, que acabava de beber dois decilitros saudosamente.—Vão os senhores lá ver, que elle está catita! exclamou o taverneiro.Fomos. Casa terrea, pequena, escura: cheia de gente. Quando entrámos, a chorata dos circumstantes augmentou. Depois foi-sesmorzandolentamente: queriam ouvir o que diriamos.Zé Ratinho estava deitado no caixão. Tinham-lhe vestido o seu melhor fato: calças de bombazina, jaqueta de briche, cinta de lã encarnada, botas de pelle de vacca com floreta. Sem gravata. O barrete pousado sobre o hombro direito.Á cabeceira, um Christo e duas velas de cêra.Pendurada n'uma trave, n'uma tristeza inconsolavel, a guitarra.Uma rapariga, que diziam lá fóra sua namorada, havia entalado nas cordas da guitarra uma dhalia branca.O tenente Silverio conheceu que tinha mallogrado o passeio. O luto geral abrangia a Libania, cujos olhos chorosos contrastavam com os peitos foliões, saltitantes.Deixamos a Murgeira a prantear o seu Orpheu. O tenente foi almoçar comigo. Investindo com o linguado frito, falamos do Zé Ratinho.—Olhe que a lembrança da flor nas cordas da guitarra não deixa de ter certa delicadeza! observei eu.{162}—Qual historia! chalaçou o tenente. Mas que flor... uma dhalia! É um cumulo de delicadeza saloia. E, rindo, acrescentou: Deite cá mais linguado, que está melhor do que a Libania.Decorridos tres dias, á mesma hora, passa o tenente Silverio. Encontra-me a comer outro cacho de uvas.—Venha d'ahi.—Aquillo ainda ha de estar lutuoso. A morte de um Orpheu pede um triduo de lagrimas.—Ora adeus! Isso já lhes havia de passar.—Quem sabe?—Sei eu.—Como sabe?—De sciencia certa.—N'esse caso vamos lá.Fomos. Apeámos á porta da taverna. O tenente metteu logo por um atalho para ir ter com a Libania ao lavadoiro. Muito satiro, o tenente. Eu fiquei na taverna a dar dois dedos decavacoao taverneiro.Ouvi-lhe ainda muitas historias do Zé Ratinho. Uma d'ellas, principalmente, tinha o seu quê de phantastica.Durante a noite haviam ficado a velar o cadaver os rapazes mais afoitos da Murgeira. Ás duas horas da noite, coube a vez ao Joaquim Prado, um latagão forte como um Castello. Estava elle pensando na triste sorte do Zé Ratinho, e na orphandade irreparavel da sua guitarra,{163}quando de repente principiou a guitarra a tocar um fado muito triste e soluçado.—Ora pelos modos, acrescentou o taverneiro, era a alma de Zé Ratinho que estava tocando guitarra pela ultima vez.—Então o Joaquim Prado ouviu isso? Adormeceria elle, e estaria sonhando?...—Essa é boa! Não ha homem nenhum, por mais afoito que seja, capaz de dormir ao pé de um morto. O Joaquim ouviu mesmo tocar a guitarra, bem acordado que elle estava, e só com dez réis de aguardente que tinha bebido ahi n'esse mesmo logar em que vocemecê se assentou. Poz-se em pé, logo que a guitarra começou a tocar, e não viu ninguem. O Zé Ratinho estava morto e bem morto: não se mexia.N'isto chegava, com um certo ar dominador, o tenente Silverio.O taverneiro commentava:—Cá na Murgeira não é o senhor capaz de tirar da cabeça a ninguem que foi a alma do Zé Ratinho que na propria noite em que elle morreu, por volta das duas horas, esteve tocando guitarra.—Venha d'ahi, dizia-me o tenente, vamos almoçar.Subimos para acharrette. Já com as rédeas na mão, o tenente, muito chalaceador, perguntou-me:—Então os saloios ouviram a alma do Zé Ratinho{164}tocar guitarra, na noite em que elle morreu?!—Ouviram.—Pois... quem tocava guitarra era eu.—Você?!—Eu, sim. A Libania estava muito triste, e eu vim de Mafra dizer-lhe coisas. Ficou mais alegre. Quando vinha embora, dei as rédeas aoimpedido, e vim tocando guitarra. Mas pensei que elles não tivessem ouvido...—Jura que isso é verdade?O tenente olhou para mim:—Juro.—Então, decididamente, não era a alma do Zé Ratinho. Ainda bem! porque eu já me sentia disposto a acreditar...—Tambem eu, se isso tivesse acontecido comigo! observou ingenuamente o brazileiro.D. Christina, espirito forte, desatou a rir, e como já estivessem sobre a mesa dois baralhos de cartas, foi ella propria que os abriu, dizendo e abancando:—Vamos a isto, meus senhores.{165}
Mettemos á bulha o Saavedra, que tinha sido até esse momento um dos mais silenciosos do grupo, para que se dignasse fazer as honras d'aquella noite, visto como a sua eloquencia devia achar-se ainda em folha, e a nossa já ia estando um pouco fatigada.
O Saavedra tinha certa graça natural, era um espirito observador, mas a sua modestia orçava ás vezes pela timidez. Felizmente pudemos convencel-o a contar uma das suas anecdotas.
—Imaginem v. ex.as, disse elle, que uma respeitavel dona de casa, uma exemplar mãe de familia, o que quer que seja de Cornelia romana, tem um marido cujo orçamento domestico é em grande parte absorvido pelas immensas publicações,{122}principalmente jornaes, de que o fazem assignante, ás vezes sem elle proprio o saber.
É sempre com uma certa contrariedade que a esposa d'esse cavalheiro vê todos os dias entrar pela porta dentro mais um novo jornal.
Ella, que para os seus Gracchos quereria amealhar todas as economias doménage, observa ao marido que já vae sendo excessivo o numero de jornaes que recebem.
Ordinariamente elle responde:
—Que queres, filha? Pediu-me o meu amigo Fulano; não póde deixar de ser. Mas como tudo n'este mundo tem compensações, é mais um que podes mandar vender no fim do mez.
E, accendendo o seu charuto, nunca mais pensa no jornal novo que lhe mandaram, senão quando o cobrador vem receber a importancia da assignatura.
Todas as noites os jornaes d'aquelle dia são arremessados para o fundo de um quarto esconso, d'onde, de tempos a tempos, saem ás braçadas para a tenda vizinha, na rasão de 60 réis o kilo de idéas.
Pobres idéas! Descomposturas da politica, dissertações sociologicas,sueltosmordazes, versos de amor, charadas novissimas, tudo isso, que custou tantas vezes a engendrar, e que teve talvez a sua hora de celebridade, lá vae ser pesado a kilos na balança como a banha de porco, o feijão amarello e a manteiga da terra.{123}
Nenhum respeito, nenhuma consideração por essas pobres idéas! Do papel é que se trata apenas: tanto pesa, quanto vale. O papel impresso tem tambem o seu guano—coisa unica e vil que se lhe póde aproveitar, depois que o pensamento envelheceu.
A facundia do jornalista, a inspiração do poeta, a graça do folhetinista, ficam sendo, desde essa hora, um trapo para embrulho no balcão dos tendeiros.
D'ahi por diante, isto é, da mercearia por diante, é o toicinho que desbanca o artigo de fundo, é a manteiga que supplanta o folhetim.Ceci tuera cela.A gordura afoga a poesia. Nos tempos modernos o trapo é a mortalha do tropo.
Mas, como eu vinha contando, de tempos a tempos o criado da casa ia vender á tenda vizinha grandes porções de jornaes antigos.
Succedeu porém que nos ultimos tempos, tendo-se despedido o criado, o moço de padeiro, que servia a casa, recommendou outro.
—Era da sua terra, da Galliza, dizia o padeiro, e vinha para fugir ássortes. Não estava costumado a servir; faltava-lhe experiencia. Mas era muito bom rapaz, honradissimo, filho de uns pequenos lavradores de Compostella.
Affiançava-o. Quanto a pratica de serviço, não tinha—repetia o padeiro—; mas como era esperto e tinha boa vontade de aprender, desembaraçar-se-ia depressa.{124}
Foi admittido o recommendado do padeiro.
Tipo montezinho; intellecto impenetravel, duro como o silex. Não percebendo nada, parecia porém vivamente animado do desejo de perceber tudo. Tinha sempre boas palavras, falas mansas, muito respeitosas. Mas, sem embargo, todos estes predicados não chegavam a compensar a estupidez desastrosa com que tudo fazia.
Estava inteiramente cheio o armario dos jornaes. Era preciso vendel-os, e a dona da casa, tendo de sair a visitas, recommendou á criada:
—Dize ao Domingos que vá vender os jornaes. Mas explica-lhe bem o que elle tem a fazer, para que não saia tolice.
—Sim, minha senhora; sim, minha senhora.
Mas, ou porque, logo que a senhora saiu, apparecesse á barra o namoro da criada e começasse a fazer-lhe signaes semaphoricos, ou porque ella realmente se esquecesse de que o criado era novo na casa, disse-lhe simplesmente:
—Domingos, vae vender esses jornaes.
E o Domingos, muito obediente, muito submisso para a criada:
—Sim... senhora Rosa. Vender os jornaes... Eu já vou.
Uma hora depois voltava para casa a senhora. O criado ainda não tinha chegado!
—Que é do Domingos?
—O Domingos foi vender os jornaes, minha senhora.{125}
—Ha quanto tempo?
—Ha mais de uma hora!
—Ora essa! Tu explicaste-lhe bem?...
—Expliquei, sim, minha senhora...
—Então fugiria com o dinheiro?!
—Sim... talvez fugisse.
—Mas o padeiro affiançou-o!
—Isso não tira.
—Não tira! Mas o padeiro é que tem de entregar o valor dos jornaes...
N'isto bate-se á porta da escada.
—Ahi vem elle... diz a Rosa.
Mas, tendo espreitado á porta, recúa espavorida.
—Ó minha senhora! é um policia!
—Um policia! O que quer elle?
—Eu sei lá! Deus queira que não sejam alguns trabalhos...
—Estás tola! Vae abrir.
Batem segunda vez.
A criada, antes de abrir a porta, torna a espreitar.
—Ó minha senhora!
—O que é?!
—O Domingos vem preso com um policia!
—Preso! Mas como seria isso? Vae abrir, já te disse.
A Rosa abriu a porta.
O policia perguntou se aquelle criado era d'ali.
—Que sim, senhor, e que tinha sido affiançado pelo moço de padeiro.{126}
Então o policia contou o seguinte:
—Estando de serviço na Avenida, fui avisado por algumas pessoas de que na rua de S. José andava um rapaz impingindo por 10 réis jornaes antigos. Essas pessoas, tendo caido no logro, reclamaram a intervenção da policia, porque o rapaz, muito descarado, continuava na ladroeira. O policia teve que intervir; foi á procura do rapaz. Não tardou a encontral-o, justamente na occasião em que elle estava vendendo umDiario Populardo mez anterior. Foi pois apanhado em flagrante delicto: com a bocca na botija. O policia perguntara-lhe:
—Tens fiador?
—Fiador! fiador, não tenho, sr. policia.
—Estás então preso.
—Pois então estou preso, sim, senhor.
—Quem te deu esses jornaes para vender?
—Quem me deu estes jornar para vender?!...
—Anda lá, não te faças tanso, que não ganhas nada com isso.
—Não me faço tanso, não, senhor. Quem me deu estes jornaes para vender foi a sr.ª Rosa...
N'este ponto, a criada interrompeu abruptamente a narrativa do policia, dizendo:
—Foi a senhora que mandou. Pois não foi, minha senhora?
O policia:
—Foi a senhora?
A criada:{127}
—Foi, sim, sr. policia.
Mas a dona da casa, apparecendo então no patamar da escada, disse com dignidade:
—Faça favor de continuar a dizer como isso foi.
O policia continuou:
—Quem é a sr.ª Rosa? perguntei-lhe eu.
—É a criada da patroa.
—E quem é a patroa?
—É a mulher do patrão.
—Mas como se chama? Irra!
—Chama-se... Isso é que eu não sei muito bem.
—Bom. Vamos lá a casa dos teus patrões. Quanto dinheiro apuraste tu com a venda dos jornaes?
—Quanto dinheiro apurei?
—Sim, quanto tens na palma da mão?
—Aqui, na palma da mão, tenho este.
—São setenta réis. Dá cá.
—Isso agora é que eu não dou, não, senhor, porque este dinheiro é para entregar á sr.ª Rosa.
—Dá cá o dinheiro, e anda láp'ra diente.
Quando o policia estava n'este ponto da narrativa, subia a escada o dono da casa, que voltava da repartição.
Muito espantado de ver um policia, perguntou o que tudo aquillo significava.
Então sua esposa contou o que se passara: o marido riu, o policia riu, a criada riu. Só o Domingos,{128}com os olhos cravados no chão, não ria.
Comtudo, o policia, em razão de ter abandonado o serviço, precisava justificar o seu procedimento.
—Que tivesse o cavalheiro paciencia, mas era preciso acompanhal-o á esquadra para contar como as coisas se passaram.
—Não ha duvida nenhuma, respondeu o dono da casa, vamos lá.
O chefe da esquadra riu, todos os outros policias riram, mas, como não estava presente o sr. commissario, o chefe da esquadra disse:
—Tenha o cavalheiro a paciencia de voltar ámanhã, das 10 para as 11 horas, a fim de contar tudo ao sr. commissario.
No dia seguinte, das 10 para as 11 horas, o dono da casa, seguido pelo Domingos, foi falar com o sr. commissario da respectiva divisão, que era aliás seu conhecido.
O commissario ainda não estava; o chefe da esquadra tornou a rir, só o Domingos, com os olhos cravados no chão, não ria.
O commissario falou pelo telephone:
—Que ia fazer uma diligencia importante com o commissario geral; que não contassem com elle.
O chefe da esquadra:
—Que tornasse a ter paciencia, mas que voltasse no dia seguinte para falar com o sr. commissario.{129}
—Ora essa! Que maçada!
E á saída da esquadra, tanto o patrão como o Domingos não riam—nem um, nem outro.
Madame Araujo achou infinita graça á historia dos jornaes, e o brazileiro, por esta vez ao menos, tambem pareceu achar graça de conta propria.
O Leotte estava visivelmente picado com o triumpho que o Saavedra obtivera na presença d'essa mulher, cujatoilettedenunciava um certo habito de existencia mundana, que elle queria explorar.
Foi pois elle mesmo que se offereceu para contar um episodio da sua viagem a Thomar.
—Tambem já vi Thomar, observou o brazileiro; é bonito, mas não chega aos calcanhares do Minho!
—Pois isto que vou contar, acrescentou o Leotte, aconteceu no principio de julho, ha tres annos.
—Ha seis é que eu lá estive, ponderou o brazileiro.
—Vamos a ouvir a historia, disse madame Araujo.
—Sim, filha, obedeceu o brazileiro, submisso como sempre.{130}
{131}
Afesta dos taboleirostinha reunido em Thomar muita gente de fóra. A companhia dos caminhos de ferro estabelecêra comboios directos a preços reduzidos. A pittoresca cidadesinha do Nabão, com o seu bello convento de Christo no topo, tinha um movimento extraordinario, anormal, que a vitalisava desde o castello dos templarios até á graciosa planicie daVarzea grande, habitualmente só frequentada por alguns soldados de infantaria 11.
Todas as familias gradas da localidade tratavam de engalanar os taboleiros com muitas flôres e fogaças, alguns d'elles cogulados até á altura hiperbolica de dois metros. São estes taboleiros que as raparigas mais bonitas da cidade,{132}entrajadas ao garrido, conduzem á igreja de Santa Maria, onde a fogaça é benzida por um sacerdote. D'ali seguem por entre alas de povo, que as applaude, até á igreja da Misericordia. Á noite, a cidade, que é atravessada por uma ponte, illuminava-se com balões venezianos, que se espelhavam nas aguas do rio. Havia um bazar, e toirada. Era por tal signal cavalleiro umamador, Alfredo Marreca.
Algumas familias das minhas relações haviam planeado um passeio através da Estremadura. Pretexto, afesta dos taboleirosem Thomar. Eu, que não gosto nada de viajar com o concurso de uma multidão festiva, combati o projecto, propuz um adiamento para depois da romaria. Procedeu-se á votação, e a maioria esmagou-me: tal qual como em S. Bento. Para me não demittir, submetti-me. Fomos por Santarem, onde nos demoramos dois dias. Depois seguimos para a estação de Paialvo, onde nos apeamos, e entramos emchar-à-bancsque nos conduziram a Thomar. Estação e estrada abarrotavam de gente. Irritado dos nervos, o meu desejo era mandar parar o sol ou... aquella gente toda. Fomos na incerteza de obterhotel, e essa incerteza sorria-me. Mas quiz o acaso que ainda encontrassemos alojamento noHotel Cotrim, á beira do Nabão. Tudo aquillo seria delicioso, se não estivessemos em plena romaria. Uma barafunda de todos os diabos.
Almoçamos, e saímos. Andamos aos encontrões{133}de um lado para o outro. Começamos por visitar o convento. Na varanda de pedra o conservador do monumento dissera-nos: «A rainha D. Maria II, quando visitou o conde de Thomar, gostava de vir bordar para esta janella.» Que tinha bom gosto, concordaram as senhoras.
A cidade, cortada pelo rio, muito arruada e muito varrida, estendia-se ao sopé do castello. E os forasteiros enxameavam cruzando-se em direcções oppostas. Vistos do alto, pareciam lilliputianos. Depois do castello, fomos visitar a fabrica de fiação, e as fabricas de papel do Prado e de Mariamaia. O dia estava calmosissimo: um julho abrasador. Os passaros, se não lograssem abrigar-se no secular arvoredo doPadrão, teriam morrido de calma.
Á volta das fabricas, uma das senhoras do nosso rancho sentiu-se subitamente indisposta. Pediu-se um copo de agua. E, como a estação telegraphica estava proxima, recorremos ao telegraphista.
Encontrei-o sentado ao apparelho—que não era ainda o Morse—trabalhando. Representava um homem de quarenta e cinco a quarenta e sete annos de idade: moreno e magro, estatura regular, bigode levemente grisalho. Muito grave de maneiras, e visivelmente melancolico. A sua figura impressionou-me e, digo-o francamente, sem querer encarecer o meu faro de observador, suspeitei n'aquelle homem um romance. Acreditem: suspeitei. Logo que lhe eu disse ao que ia,{134}chamou para dentro a pedir um copo de agua. Veiu trazel-o uma rapariguita de dezeseis annos, picada das bexigas, e descalça. Mas eu percebi que alguem estava espreitando pela porta entreaberta.
Arranquei o copo das mãos da rapariga, e saí com elle. A indisposição não tinha passado ainda. Uma mulher offerecera uma cadeira de pinho, em que sentaram a doente, que, muito pallida, coberta de um suor frio, bebeu um gole, e afastou o copo.
—Não teimem, disse alguem do lado.
Fui entregar o copo ao telegraphista, que gravemente me perguntou se o incommodo tinha passado.
Disse-lhe que não. E elle, levantando-se outra vez, lembrou que seria melhor trazerem a senhora para a estação telegraphica, ondesua mulherlhe poderia offerecer um leito humilde mas asseado.
Saí a dizer isto, e todos approvaram o alvitre. Conduzida em braços a doente, entramos na estação, e o telegraphista, vendo-nos chegar, chamou para dentro:
—Clementina! ó Clementina!
N'isto appareceu-nos uma creatura que não teria mais de quatro palmos de altura, vestida muito garridamente com uma saia côr de pombo e um corpete azul; sobre o corpete, cabeção de rendas brancas com fita preta e broche de oiro.{135}Cara redonda e cheia, não despicienda. Mas a cabeça, estabelecida a proporção com a altura do corpo, era excessivamente volumosa. Estava penteada á Maria Stuart, e tinha dois anneis de Cabello empastados sobre a fronte.
Apesar da seriedade do lance, todos os homens trocaram entre si um olhar de surpresa e admiração, que, reduzido a palavras, poderia dizer isto:
—Pois este monstrosinho será a mulher do telegraphista?
E, inclinado o olhar ao telegraphista, o contraste assombrava-nos cada vez mais.
Pelo meu espirito passou este raciocinio:
Casaria elle por amor? Não é possivel. Se não foi por amor, seria por interesse? Mas então como diabo é elle telegraphista e vive pobremente? Arruinar-se-ia no jogo? Oh! aqui ha romance por força...
As senhoras deitaram a doente, depois de a haverem desapertado, sobre o leito conjugal do telegraphista. Nós, os homens, ficamos na sala da estação conversando em voz baixa. O telegraphista fazia-nos, muito polidamente, as honras da casa. Estavamos encantados com elle, com a distincção das suas maneiras, com a sua gentileza em que uma intensa nota melancolica predominava.
—Que era do enfado da viagem, do comer das hospedarias, do calor do dia. Que, se o incommodo{136}não passasse, offerecia a sua criada para nos ensinar a casa do medico.
De dentro disseram-nos n'essa occasião que a doente estava melhor.
Para ser amavel, lamentei ao telegraphista que os deveres do seu cargo o obrigassem a estar ali preso n'um dia de festa em Thomar.
Elle sorriu-se e respondeu:
—Eu nem dou pela festa. Detesto isto, não saio nunca de casa, não passeio, não ando.
Instantes depois dizia-me ao ouvido um dos nossos companheiros de viagem:
—Pois, sr., tem bom gosto o homem! Prefere estar em casa a contemplar o monstrosinho dasbellezas!
E eu respondia-lhe no mesmo tom discreto:
—Aqui ha romance, se ha!
O meu amigo sorriu-se e respondeu:
—O que ha por força é tolice.
Ao cabo de tres quartos de hora, a doente deu-se como restabelecida. Amparou-se ao braço de um parente seu, e recolhemos aohotel, depois de termos agradecido ao telegraphista e a sua esposa os bons serviços que nos haviam dispensado.
Elle disse-nos o seu nome todo, offereceu-nos attenciosamente a sua casa, pobre e humilde como era.
A mulher, erguida nos bicos dos pés, dava beijos ás senhoras e apertou a mão aos homens, sacudindo-a á ingleza.{137}
—Mas que figura de mulher! diziam as senhoras. Que lá bem educada parece ser.
Depois de jantar, nós os homens saímos. As senhoras ficaram em casa. Eu, francamente o digo, convencido de que havia um romance no casamento do telegraphista, desejava conhecel-o. Á segunda ou terceira pergunta que fiz, encontrei homem que m'o contasse.
No principio da sua carreira, o telegraphista fôra para Sines. Rapaz muito bem comportado, grave e sério, toda a gente gostava delle. Ás vezes os rapazes de Sines iam a funcçanatas, bailaricos principalmente, a Santiago de Cacem. Elle ficava sempre; ás dez horas da noite recolhia a casa. Durante muito tempo não se lhe conheceu qualquer inclinação amorosa. E não era, como sabemos, porque fosse mal parecido. As raparigas de Sines não o achavam nada feio.
Passado mais de um anno, alguem disse que o telegraphista namorava a filha de um maritimo ali conhecido.
—Não é possivel! exclamavam alguns.
—Isso só por brincadeira! alvitravam outros. Mas o homem é sério.
Não era possivel, diziam uns, porque a filha do maritimo era aquella creaturinha anã que nós vimos em Thomar. Só por brincadeira, diziam outros, porque, comquanto a cara da rapariga não fosse de todo feia, o corpo não chegava para casar.{138}
Ora a verdade era que D. Clementina estava sempre á janella com o seu rosto rosado e o seu penteado Stuart expostos á brisa do mar. Mas trepava-se a uma cadeira muito alta para que o seu collo ficasse, como n'uma pessoa de estatura regular, á altura do peitoril.
Homem de poucas falas, o telegraphista não conversava com ninguem. E, de motu proprio, ninguem ousou dizer-lhe que a mulher que elle namorava tinha apenas a altura de uma boneca.
O telegraphista caiu de cama com uma pneumonia. A solidão do seu quarto de doente levou-o decerto a pensar no casamento. Restabelecido, sem revelar a ninguem a sua intenção, entrou em casa do maritimo a pedir-lhe a mão da filha.
Mostrou-se surprehendido o maritimo. Parecia-lhe impossivel aquella boa fortuna para uma filha anã. Disse-lhe que teria muito gosto em acceital-o como genro, tanto mais que sua filha, como elle acabava de dizer, estava de accordo no casamento.
E, por cautela, dispensou-se de chamar a filha á conferencia.
Tres dias depois era o telegraphista admittido na intimidade da familia. Foi então que viu pela primeira vez sua mulher tal qual ella era, sem o supplemento da cadeira alta. Um tremor de frio percorreu-lhe a espinha dorsal, mas, homem de principios honestos, presando acima de tudo a sua reputação, casou. Outro fosse elle, e teria fugido{139}de Sines n'essa mesma noite, mandando a noiva e o telegrapho ao diabo. Todas as pessoas de regular estatura o haveriam desculpado.
Sabida a historia, ficou perfeitamente explicado o melancolico recolhimento em que o telegraphista vivia, o seu desdem pela festa dostaboleiros, e o seu apêgo ao apparelho Bréguet, bem mais suave para elle que o do Hymeneu.
Na infelicidade d'este logro conjugal, uma consolação unica poderia sorrir ao pobre telegraphista: não tinha filhos, nem esperava tel-os.
—Muito bem sacado logro! exclamou o brazileiro com a despreoccupação de espirito de quem não suspeita ter caído em algum logro... mais ou menos bem sacado.
Madame Araujo commentava o caso, ria, falava, estava expansiva, o que lisonjeava sobremodo o Leotte.
Confessava que não esperava divertir-se tanto em Cintra.
—Pena tenho eu, disse ella, se isto não durar!
O Vasconcellos respondeu:
—Naturalmente vamos embora ámanhã.
—Já?! exclamou madame Araujo. Mas o Leotte deitou agua na fervura:
—Que tanto importava mais um dia como menos um dia.
Os relogios do Victor deram meia noite.
—E que tal! já meia noite! disse o brazileiro.{140}
Se você concorda, Christina, vamos tratar de recolher-nos, hein?
Ouvindo pronunciar a palavraChristina, foi como se eu proprio tivesse pronunciadoeureka!como se houvesse encontrado a solução de um problema transcendente.
Despedi-me do brazileiro e da mulher, authomaticamente. Mal que elles voltaram costas, fiz signal aos outros para que me seguissem. Chegando ao meu quarto, fechei a porta, e disse-lhes cuidadosamente, como se se tratasse de um segredo de estado n'um club de conspiradores:
—Já sei quem esta mulher é!
—Quem é?
—A Christina do Muxagata, sem tirar nem pôr!
—A Christina da historia que nos contaste?!
—Acreditem, meus amigos, é a Christina do Muxagata.{141}
A minha revelação causou tanta surpresa e interesse aos meus companheiros devillegiature, como a mim proprio.
Ir eu encontrar, ao cabo de tantos annos, a mesma Christina da rua das Fontainhas, a quem fôra entregar o dinheiro do Muxagata, na occasião em que ella estava ceando com o Falcão do Marco!
Que singular coincidencia a de ter eu começado por contar, nos nossos improvisados serões de Cintra, a historia do Muxagata e de ter vindo ao nosso encontro, nohoteldo Victor, essa famosa Christina, que eu nunca mais tinha visto, e de que nunca mais ouvira falar!
Como, arruinando talvez o Falcão do Marco, chegára ella a desposar o brazileiro Araujo, se é que em verdade o havia desposado mais canonicamente do que ao Muxagata e ao Falcão do Marco?
O que seria feito d'aquella creancinha de dois{142}annos, que fôra o fructo do seu primeiro amor criminoso?
Mas eu não estava sonhando, por mais que o Vasconcellos quizesse capacitar-me d'isso.
Não havia duvida. Era ella, a mesma Christina da rua das Fontainhas, a bella lamecense raptada pelo Muxagata, com os dedos cheios de anneis e as mãos dealbadas de pó de arroz.
O Gonçallinho Jervis estava tão encantado com esta surpresa, que me parecia ter ciumes de que fosse eu e não elle que, por um acaso notavel, encontrasse um verdadeiro assumpto de romance.
Ah! ingenuo Gonçallinho! Esse feliz achado representava apenas que eu era mais velho do que elle. Consolação tristissima. Não ha homem vulgar que, no decurso de alguns annos, não encontre na sua memoria um ou mais romances de sensação. Esperasse o nosso Gonçallinho, vivesse mais algum tempo, e os assumptos levantar-se-lhe-iam debaixo dos pés, quando menos os procurasse.
O Leotte, apenas soube que madame Araujo era a Christina da historia do Muxagata, julgou-se um César que tinha chegado, visto e vencido.
O Athayde, o Maldonado e o Vasconcellos eram os que mais reservados se mostravam perante esta situação inesperada, que viera accidentar pittorescamente a nossa excursão a Cintra.
As suas duvidas contrariavam-me, pois que eu não podia deixar de estar plenamente convencido{143}de que madame Araujo era a Christina da rua das Fontainhas.
Procurei convencel-os, e lembrou-me um alvitre que devia acabar por deixal-os inteiramente rendidos á verdade dos factos.
—A Christina da rua das Fontainhas, tal como eu a conheci, gostava immenso de batotear.Saltavanos valetes, efazia cêrcoás quinas. Pois bem! experimentemol-a. Adiemos por mais dois ou tres dias o nosso regresso a Lisboa. Uma d'estas noites armamos uma banca de jogo. Se fôr ella, é natural que sinta renascer em si a paixão de jogar, que a fascinava no tempo do Muxagata. Observemos sefaz saltosnos valetes ecêrcosás quinas. Se isto se der, meus amigos, não ha mais que duvidar: é ella, sem tirar nem pôr, a Christina do Muxagata.
Este alvitre agradou geralmente, e resolveu-se que ficariamos para realisar a experiencia decisiva.
Era porém preciso proceder com boa tactica, não começar logo por falar no jogo.
Assim se fez. No dia seguinte, madame Araujo, que ia readquirindo entre nós o seu velho habito de conviver com homens, estava quasi familiarisada comnosco, interessava-se pelos nossos passeios, pelos nossos paradoxos, e, sobretudo, mostrava-se deliciada pelos nossos serões, cheios de novidade para ella.
Á noite, como se realmente não tivessemos nenhuma{144}intenção reservada, principiámos por dar a palavra ao Taveira, que ainda não tinha falado. Contasse elle algumapartidado seu amigo Luiz de Lemos, com que tantas vezes nos tinha matado o bicho do ouvido.
—A historia daclaque, por exemplo.
—Vocês estão fartos de ouvil-a! disse elle.
—Mas nem madame Araujo nem seu esposo a conhecem de certo.
—Luiz de Lemos! Eu nunca ouvi falar sequer d'esse nome! disse madame Araujo.
O Taveira resolveu-se a contar a historia daclaquedo seu amigo Luiz de Lemos, que todos nós sabiamos de cór e argumentada.
—Luiz de Lemos chegou a Braga ás cinco horas da tarde, sem ser esperado dos primos do Campo Novo.
Apeteceu-lhe aproveitar os primeiros dias de verão, alegres e quentes, e a resolução d'essa pequena jornada ao Minho foi tomada de repente, uma noite, ao sair do theatro Baquet.
Tinha chegado de Boaças dias antes, apenas com o seu fato de verão e alguma roupa branca na mala. Não contava passar do Porto. Mas, de subito, n'aquella noite, lembraram-lhe os primos Ozorios de Braga, dois pandegos, e, ao recolher do theatro, fez a mala e disse ao criado daAguia d'ouroque o chamasse ao romper da manhã.
—V. ex.ª retira-se já para Boaças? perguntou{145}o criado, admirado de que, d'esta vez, o rega-bofes durasse tão pouco tempo.
—Não. Eu vou a Braga, visitar os primos Ozorios. Ainda hei de ir estar na Foz alguns dias. Mas por ora é cedo. Vou a Braga.
Ao romper da manhã, Luiz de Lemos foi á rua Formosa, á alquilaria doRaymundo, alugar umcoupéque o levasse a Braga.
Elle tinha um grande horror instinctivo pela diligencia de Entre-Paredes em especial, e por todas as diligencias em geral. Dizia elle que a diligencia era avalla dos vivos. Uma philosophia como qualquer outra.
A manhã estava deliciosa, fresca e lucida, excellente para jornada. Almoçou na Carriça, tornou a almoçar em Villa Nova de Famalicão, e almoçaria terceira vez em Braga, se não preferisse jantar.
Os primos Ozorios do Campo Novo, encantados com a visita do morgado de Boaças, disseram-lhe que iam para a mesa.
—Vocês ainda jantam? perguntou o morgado.
—Bem vês tu que Braga é uma terra conservadora. Por cá ainda se pensa no jantar e no sr. D. Miguel.
—Pois, meus amigos, eu só almóço, mas posso almoçar tantas vezes quantas fôr preciso. É pois pela terceira vez que vou hoje almoçar.
Sentaram-se á mesa. Alegria e apetite eram de primeira ordem.{146}
—Além de jantar, o que fazem vocês por cá?
—Divertimo-nos.
—Mas como?
—Hoje, por exemplo, temos um baile.
—Um baile! Um baile em Braga é uma coisa tão absurda como uma semana santa em Marrocos. Mas onde é o baile?
—Em casa do Raio.
—Olá! Pois esse baile do Raio é um verdadeiroraiopara mim.
—Por que?
—Porque não trouxe casaca.
—Ó diabo! não trouxeste casaca?! exclamou um dos Ozorios.
—Caso grave! ponderou o outro.
—Trago apenas fato de verão. Eu podia lá imaginar um baile em Braga! Queraiode lembrança!
—Mas ha de arranjar-se uma casaca.
—Sim... uma casaca sempre ha de arranjar-se.
—Se vocês arranjassem isso, teriam cortado o nó gordio.
—Ora espera! lembrou um dos Ozorios. Eu tenho duas casacas.
—Uma para usar e outra para alugar? Magnifico! Alugo-te a segunda por doze vintens.
Os Ozorios riram-se.
—Mas... chapeu? perguntou um dos dois irmãos.
—Vou em cabello.{147}
—Constipas-te.
—Irei de cadeirinha, de carroção ou em maca.
—Manda pedir o cavallo emprestado ao Longuinhos do Bom Jesus do Monte.
—Ou isso. Mas vamos a resolver o caso do chapeu.
—Está resolvido, disse o Ozorio mais velho. Eu tenho umaclaquee um chapeu alto. Tu levas aclaquee eu o chapeu alto.
—Para encheres de pasteis é melhor do que aclaque. Tu não te perdes, maganão!
Jantaram pantagruelicamente, comendo bem e bebendo melhor.
Ás 9 horas davam os tres primos entrada nos salões do commendador Raio, que estavam deslumbrantes de bellezas bracarenses.
Luiz de Lemos valsou, polkou, namorou, com o prestigio que lhe dava a sua lenda de morgado rico de Boaças.
Mas, a meio da noite, lembrou-se de que ainda não tinha fumado.
Encontrou um dos primos.
—Ó tu! onde é que se fuma?
—Ali, respondeu o primo Frederico, indicando-lhe uma pequena sala.
—Bem. Vou fumar. Olha lá, sê prudente: não digas a ninguem que a minha casaca... é tua.
O primo riu-se.
Luiz de Lemos entrou na pequena sala, onde{148}muitos cavalheiros de Braga estavam fumando, incluindo o escrivão de fazenda.
Accendeu o seu charuto, pousou aclaquesobre a mesa, conversou com os conhecidos e os desconhecidos, riu, falou de cavallos e de mulheres, mas como ouvisse annunciar uma valsa, levantou-se, pegou naclaquee dispunha-se a passar ao salão de baile.
Quando elle já tinha sobraçado aclaque, o escrivão de fazenda, que estava de pé, reparando na outraclaqueque tinha ficado sobre a mesa, dirigiu-se ao morgado de Boaças:
—V. ex.ª enganou-se...
—Enganei-me! Como?
—Essaclaquenão é de v. ex.ª.
O morgado olhou fito no escrivão de fazenda, voltou-lhe as costas e dirigiu-se para a porta.
O escrivão de fazenda seguiu-o, e já no corredor, abordou-o:
—Essaclaquenão é de v. ex.ª.
—Não é, não sr., mas que tem o cavalheiro com isso?
—Peço perdão a v. ex.ª, mas ha aqui um pequeno engano...
—Não ha engano nenhum, replicou o morgado. Acha que aclaquenão é minha?
—Parece-me...
—Pois tambem a casaca não é. Ora aqui tem.
E, mal humorado, tornou a voltar-lhe as costas.{149}
Encontrando o primo Frederico no salão, o morgado de Boaças desfechou-lhe com vivacidade:
—Tu és um patife!
—Porque?
—Porque não és capaz de guardar um segredo.
—Que segredo?
—O daclaque.
—Mas que dizes tu?!
—E o da casaca tambem...
—Mas a quem diabo fui eu contar que te emprestei aclaquee a casaca?
—A quem? Ao escrivão de fazenda! E és tolo. Porque, se não désses com a lingua nos dentes, talvez fosse eu que tivesse de pagar a contribuição sumptuaria. Uma casaca em Braga deve ser considerada como objecto de luxo.
N'isto viram aproximar-se o escrivão de fazenda, que se encaminhava a elles.
—Ahi vem o homem! galhofou o morgado. Vem talvez saber qual dos dois ha de collectar.
O escrivão de fazenda aproximou-se attenciosamente de Frederico Ozorio.
—Peço desculpa a v. ex.ª, disse elle, mas a respeito d'este cavalheiro que o trata por primo, deu-se um pequeno engano.
O morgado teve uma sacudidella nervosa:
—É forte embirração! Eu ja disse ao cavalheiro que não houve engano nenhum. Nem a casaca nem aclaquesão minhas.{150}
—Minhas é que são... interveio o Ozorio, querendo deitar agua na fervura.
—Perdão! insistiu o escrivão de fazenda. A casaca será de v. ex.ª, mas aclaqueé minha.
—Tem graça! Fui eu que a emprestei a meu primo.
—Torno a pedir perdão. O primo de v. ex.ª, ainda agora, lá dentro, trocou a suaclaquecom a minha, que tambem estava sobre a mesa.
Foi só então que o engano se desfez, mas, como désse muito que rir aos tres primos, toda a gente quiz saber o que era e toda a gente ficou sabendo em Braga que o morgado de Boaças tinha ido n'aquella noite ao baile do commendador Raio com uma casaca emprestada e umaclaqueque não era sua.
O brazileiro commentou que não havia nada mais facil de acontecer do que uma troca de chapeus. Esta observação não era, aliás, precisa para o caracterisar intellectualmente. Salomão, no seu logar, teria dito a mesma coisa.
D. Christina achou graça ao caso, mas disse, pouco amavelmente para o Taveira, que era de historias de amor que gostava mais.
E o brazileiro observou por sua vez:
—Eu do que gosto mais é de historias de almas do outro mundo. As velhas da minha terra crearam-me com essas historias.
—Pois eu contarei ao sr. Araujo, disse eu, uma historia de almas do outro mundo.{151}
O Vasconcellos interrompeu auctoritariamente:
—Agora não. Isto de historias tambem cansa. Vamos nós inventar outro divertimento?...
—Qual? perguntaram duas ou tres vozes.
—O que eu receio, disse elle, é desagradar á sr.ª D. Christina... Mas lá vai! V. ex.ª aborrecer-se-ia se nós armassemos uma mesa de jogo?
—Ora essa! exclamou o brazileiro. Um berlotesinho?! A Christina péla-se por isso, e eu não desgósto tambem.
Meia hora depois, D. Christina estava contente como o peixe dentro de agua. Batoteava de grande e á... portugueza.Saltavaem todos os valetes ecercavatodas as quinas.
E como os rios correm para o mar, era ella e o brazileiro que estavam com sorte.
Não havia que duvidar. A experiencia era completa, decisiva.
Ó alma batoteira do Muxagata! volta por um instante a este mundo para verificares como a tua Christina de Lamego honra a tua memoria transitando firmemente pelo caminho que tu lhe traçaste em roda de uma mesa de jogo.{152}
{153}
Todas as baterias da nossa curiosidade se assestaram contra um alvo unico: descobrir a historia do supposto casamento da Christina do Muxagata com o brazileiro Araujo.
Felizmente para nós, o bloqueio não durou muito. Foi a propria praça que se rendeu voluntariamente.
Emquanto D. Christina fazia a suatoilettepara o jantar, o brazileiro contava-me no terraço dohotel, com toda a sua ingenuidade bondosa, a historia do seu casamento—revelação a que eu o conduzi mais ou menos habilmente.
Tinha vindo a Portugal havia seis annos para matar saudades da patria e visitar os parentes que viviam em Amares.
Aproveitára a occasião, e fizera algumas excursões tanto no norte do paiz como na Extremadura.{154}
Foi por essa occasião que encontrára D. Christina no Bom Jesus do Monte. Tinha ella enviuvado pela segunda vez recentemente e achava-se entregue a um profundo abatimento moral...
—Então a esposa de v. ex.ª já tinha casado duas vezes? perguntei eu.
—Já. A primeira com o morgado de Muxagata, que pela má cabeça d'elle déra cabo de tudo.
—E a segunda?
—A segunda com outro fidalgo do Marco de Canavezes, que tambem não tinha mais juizo. O amigo sabe decerto qual era a vida gastadora dos antigos morgados.
—Sei muito bem.
—Pois os dois deram cabo de tudo quanto tinham. A Christina estava reduzida ao pouco que lhe deixou o segundo marido.
—E filhos... não teve?
—Não, senhor. Como eu ia dizendo, vi-a no Bom Jesus do Monte. Gostei da senhora, soube que não tinha muitos meios, e falei-lhe em casamento. Ella, comquanto não fosse já nova, era bonita, como ainda se vê. Estava boa para mim, que não era nenhum rapazinho, e de mais a mais doente. Tudo aquillo foi obra de poucos dias. Ella lá tratou de mandar tirar os papeis.
—Quaes papeis? Os banhos?
—Para correr os banhos eram precisas as certidões dos dois casamentos e do obito dos dois maridos. Mas a Christina foi ao Porto, emquanto{155}eu fui a Amares, tambem por causa dos meus papeis, e lá os arranjou. Juntamo-nos depois em Amares, onde eu quiz casar por ser a minha terra. Como resolvesse ficar em Portugal, precisei ir liquidar ao Rio de Janeiro. A Christina, coitadinha! não me quiz deixar ir só; foi tambem. Estivemos lá dezoito mezes, liquidei, e agora por aqui ando sem mais canseira que a de tratar da minha saude. Vivi a principio em Braga, mas os medicos, por Braga ser muito fria, aconselharam-me que viesse viver para Lisboa, por causa do clima.
N'isto chamaram para o jantar.
E eu, francamente, não achei na historia do brazileiro revelação alguma que me surprehendesse—nem mesmo a dospapeisque D. Christina arranjára no Porto. Nada ha tão facil a uma mulher que vae casar com um brazileiro como poder cohonestar o seu passado com duas certidões de casamento... falsas. Quanto ao resto, eu havia architetado a historia do brazileiro. Apenas a minha imaginação tinha mettido mais algunsmaridosno coração de D. Christina. Mas achei natural que ella não fosse mais verdadeira, no que contára ao marido, do que as duas certidões que o contentaram a elle.
Ter-me-ia ella reconhecido? Certamente que sim. Estava, porém, muito tranquilla na posse dos quatro documentos que attestavam o seu passado. Com elles se defenderia, sendo preciso, da{156}inconveniencia de qualquer mau encontro. Tanto se lhe daria, pois, que eu a reconhecesse como não. Ella era a viuva documentada do morgado de Muxagata e do Falcão do Marco. O papel sellado livra de muitos embaraços.
Á mesa do jantar, D. Christina, que todos os dias mudava detoiletteduas e tres vezes, mandou dizer á criada Rosa que lhe trouxesse um lenço.
Veio a criada trazer n'uma bandeja o lenço de finas rendas que tinha esquecido a D. Christina.
E o Leotte, quando viu entrar a rapariga, alternou os seus olhares de guloso entre a brazileira e a criada, parecendo vacillar entre as cerejas frescas que os labios da rapariga imitavam, e o carmim que artificialmente coloria a bocca da brazileira, já um pouco fatigada... de beijar canonicamente tres maridos.
Á noite, o Vasconcellos, que desejava a desforra, e D. Christina, que amava o berlote, queriam começar logo pela jogatina.
O brazileiro, que já tinha tomado pé, sustentou que havia tempo para tudo: acrescentando que eu lhe havia promettido contar uma historia de almas do outro mundo.
—Pois que se contasse a historia, mas uma só, concordaram.
—De mais a mais a minha historia, disse eu, é de amores, para contentar a sr.ª D. Christina; e de almas do outro mundo, para contentar o sr.{157}Araujo. O peor é que talvez pareça um pouco maliciosa...
Fingi-me escrupuloso, comquanto soubesse que os ouvidos de D. Christina não estranhariam a malicia de qualquer narrativa.
—Ora adeus! respondeu o brazileiro rindo. Se fôr preciso, deite um véosinho por cima da historia, e conte sempre. Nós já não somos nenhumas creanças innocentes.
—Pois n'esse caso, ahi vae a historia:
Eu estava á janella, de manhã cedo—seis horas talvez—a comer um bello cacho de uvas brancas. Encostado ao peitoril, ia debicando bago a bago, com um certo prazer de gastronomo, que só me fazem sentir as uvas brancas e doces. Ás vezes alongava os olhos pelo horizonte, que as torres de Mafra recortavam ao longe, esfumando-se como no fundo de um quadro. Em torno de mim havia uma placidez profunda: as arvores e as pedras, companheiras unicas do casal, pareciam adormecidas ainda na frescura cristalina da manhã. A estrada de Mafra, que passava sob as janellas, estirava-se tão solitaria, que as andorinhas saltitavam no macadame, bicando o pó. O caseiro tinha saído com o filho n'uma carroça; a mulher do caseiro accendêra o lume para o almoço, como indicava o fumo que rompia da chaminé.
N'isto, sinto o tilintar longinquo de guizos na estrada. É o tenente Silverio, que vem dar o seu passeio matutino, disse eu com os meus botões.{158}Já lhe conhecia o trotar da egua, que puxava acharrette.
Nas terras pequenas sabe-se tudo: o tenente Silverio andava apaixonado pela Libania, da Murgeira, uma saloia muito animal, de seios turgidos, que pareciam despenhar-se no tanque, quando ella se curvava para lavar.
Era elle, o tenente.
Fez parar acharrettedebaixo da minha janella.
—Olá! gritou. Está, na fórma do costume, comendo as suas uvas.
—Pudesse eu, respondi-lhe, e havia de comel-as todo o anno. Que bellas! Isto de mais a mais é recommendado. Contêem principios alcalinos, que são salutares. E teem um rico assucar, que é nutritivo. Na Allemanha e na Suissa comem-n'as para curar as doenças gastro-intestinaes. É bom, e faz bem.
—Diga antes que gosta muito de uvas.
—Ou isso: gósto muito.
—Visto que já saboreou o seu primeiro almoço, venha d'ahi dar um passeio.
—Aonde?
—Ora essa!
—Á Murgeira, como sempre, não é verdade?
—Como sempre... é um modo de dizer. Já lá não vou ha tres dias.
—Que ausencia! Pois irei. Deixe-me procurar o chapeu.
Tres minutos depois acharrettedo tenente Silverio{159}rodava para a Murgeira pela estrada aberta entre pinheiraes. A egua, no seu trote largo, quebrava o silencio da manhã, guizalhando festivamente.
Iamos bem dispostos, dilatando os pulmões no ar fresco dos pinheiraes, em que já se sentia um gumesinho de brisa do mar, que soprava da Ericeira. Muito agradavel a manhã.
—Isto é bom e faz bem, dizia-me o tenente. São as minhas uvas.
—Perdão, as suas uvas, meu caro tenente, são outras. Vae colhel-as á Murgeira. Muito brancas não são; mas talvez sejam doces...
O tenente riu-se.
Tinhamos saído da estrada de Mafra, e iamos subindo, a passo, para a Murgeira.
Avistava-se o mar, de um azul lacteo, esbranquiçado e sereno.
Fomos subindo: a egua, de cabeça baixa, mettia o largo peito á estrada, puxando acharrette. Já conhecia o caminho, e acho que até já conhecia a Libania.
Chegámos. As creancitas choravam como se tivesse acontecido uma desgraça. Havia algum caso na Murgeira.
—Ora esta! exclamava o tenente. É a primeira vez que vejo chorar n'esta terra!
—Ainda que tarde, as lagrimas chegam sempre, observei eu.
—Isso é sentencioso. Mas eu sou curioso: quero saber o que é.{160}
O tenente apeou-se; eu apeei-me tambem. Na taverna do sitio falava-se muito. Falava-se muito, e não se chorava menos.
Soubemos então o que se tinha passado; morrera o Zé Ratinho.
—Quem era? perguntei.
Deram-nos informações. Zé Ratinho era um rapaz da Murgeira, que se fizera cocheiro dos Gatos. Andára doze annos em Lisboa, batendo, e aprendêra lá a tocar guitarra. Por esta prenda foi que elle se tornou celebre desde Lisboa até Mafra, desde Mafra até á Murgeira. Nas esperas de toiros, nas patuscadas de Friellas e nas noitadas do Dáfundo, Zé Ratinho fazia as delicias dos marialvas e das hespanholas: era um artista para a guitarra.
Fôra em Lisboa que elle ganháraqueixa de peito, disseram-nos. Viera muito doente para a Murgeira, tomar ares patrios. Apesar de doente, entretinha-se á noite com a guitarra, na taverna, tocando para os outros ouvir. Os saloios da Murgeira, seus patricios, consideravam-n'o um Orpheu, um Amphion da guitarra. D'aqui o sentimento geral pela morte d'esse excellente rapaz, que deixava a perder de vista osharmoniosda saloiada patusca.
Todos, rapazes e raparigas, queriam velar o seu cadaver. Tinha funeraes de principe, o Zé Ratinho.
—Acabou-se a guitarra na Murgeira! exclamou{161}um saloio, que acabava de beber dois decilitros saudosamente.
—Vão os senhores lá ver, que elle está catita! exclamou o taverneiro.
Fomos. Casa terrea, pequena, escura: cheia de gente. Quando entrámos, a chorata dos circumstantes augmentou. Depois foi-sesmorzandolentamente: queriam ouvir o que diriamos.
Zé Ratinho estava deitado no caixão. Tinham-lhe vestido o seu melhor fato: calças de bombazina, jaqueta de briche, cinta de lã encarnada, botas de pelle de vacca com floreta. Sem gravata. O barrete pousado sobre o hombro direito.
Á cabeceira, um Christo e duas velas de cêra.
Pendurada n'uma trave, n'uma tristeza inconsolavel, a guitarra.
Uma rapariga, que diziam lá fóra sua namorada, havia entalado nas cordas da guitarra uma dhalia branca.
O tenente Silverio conheceu que tinha mallogrado o passeio. O luto geral abrangia a Libania, cujos olhos chorosos contrastavam com os peitos foliões, saltitantes.
Deixamos a Murgeira a prantear o seu Orpheu. O tenente foi almoçar comigo. Investindo com o linguado frito, falamos do Zé Ratinho.
—Olhe que a lembrança da flor nas cordas da guitarra não deixa de ter certa delicadeza! observei eu.{162}
—Qual historia! chalaçou o tenente. Mas que flor... uma dhalia! É um cumulo de delicadeza saloia. E, rindo, acrescentou: Deite cá mais linguado, que está melhor do que a Libania.
Decorridos tres dias, á mesma hora, passa o tenente Silverio. Encontra-me a comer outro cacho de uvas.
—Venha d'ahi.
—Aquillo ainda ha de estar lutuoso. A morte de um Orpheu pede um triduo de lagrimas.
—Ora adeus! Isso já lhes havia de passar.
—Quem sabe?
—Sei eu.
—Como sabe?
—De sciencia certa.
—N'esse caso vamos lá.
Fomos. Apeámos á porta da taverna. O tenente metteu logo por um atalho para ir ter com a Libania ao lavadoiro. Muito satiro, o tenente. Eu fiquei na taverna a dar dois dedos decavacoao taverneiro.
Ouvi-lhe ainda muitas historias do Zé Ratinho. Uma d'ellas, principalmente, tinha o seu quê de phantastica.
Durante a noite haviam ficado a velar o cadaver os rapazes mais afoitos da Murgeira. Ás duas horas da noite, coube a vez ao Joaquim Prado, um latagão forte como um Castello. Estava elle pensando na triste sorte do Zé Ratinho, e na orphandade irreparavel da sua guitarra,{163}quando de repente principiou a guitarra a tocar um fado muito triste e soluçado.
—Ora pelos modos, acrescentou o taverneiro, era a alma de Zé Ratinho que estava tocando guitarra pela ultima vez.
—Então o Joaquim Prado ouviu isso? Adormeceria elle, e estaria sonhando?...
—Essa é boa! Não ha homem nenhum, por mais afoito que seja, capaz de dormir ao pé de um morto. O Joaquim ouviu mesmo tocar a guitarra, bem acordado que elle estava, e só com dez réis de aguardente que tinha bebido ahi n'esse mesmo logar em que vocemecê se assentou. Poz-se em pé, logo que a guitarra começou a tocar, e não viu ninguem. O Zé Ratinho estava morto e bem morto: não se mexia.
N'isto chegava, com um certo ar dominador, o tenente Silverio.
O taverneiro commentava:
—Cá na Murgeira não é o senhor capaz de tirar da cabeça a ninguem que foi a alma do Zé Ratinho que na propria noite em que elle morreu, por volta das duas horas, esteve tocando guitarra.
—Venha d'ahi, dizia-me o tenente, vamos almoçar.
Subimos para acharrette. Já com as rédeas na mão, o tenente, muito chalaceador, perguntou-me:
—Então os saloios ouviram a alma do Zé Ratinho{164}tocar guitarra, na noite em que elle morreu?!
—Ouviram.
—Pois... quem tocava guitarra era eu.
—Você?!
—Eu, sim. A Libania estava muito triste, e eu vim de Mafra dizer-lhe coisas. Ficou mais alegre. Quando vinha embora, dei as rédeas aoimpedido, e vim tocando guitarra. Mas pensei que elles não tivessem ouvido...
—Jura que isso é verdade?
O tenente olhou para mim:
—Juro.
—Então, decididamente, não era a alma do Zé Ratinho. Ainda bem! porque eu já me sentia disposto a acreditar...
—Tambem eu, se isso tivesse acontecido comigo! observou ingenuamente o brazileiro.
D. Christina, espirito forte, desatou a rir, e como já estivessem sobre a mesa dois baralhos de cartas, foi ella propria que os abriu, dizendo e abancando:
—Vamos a isto, meus senhores.{165}