Loucos os apostolos duma Religião!Tambem vou ser acoimada de louca! Quantas affinidades com elles hão de encontrar-me... E talvez, inconscientemente, a Sociedade acerte. O que é um louco?É o espelho de melhor ou peor crystal, biselado ou lizo duma alma sem artificio a viver desvairamentos. É o absoluto em sinceridade—o que ri, e chora, odeia e ama sem trapaça, indifferente á sociedade que o espreita, o que despe a alma na praça publica sem caridade por si, alheio a quem o vê.Na escala da loucura ha os criminosos-loucos, que dão á sociedade pretexto a queella os enclausure, para melhor os explorar, e ha os outros, os que ella frecha de infamias, emparedando-os de preconceitos, dando-lhes a liberdade de sonharem alto, para que possam ouvir-lhes o sonho, e impedir-lhes que realizem desvairamentos, por vezes geniaes...São os criminosos, os santos,—todos os reduzidos de entendimento, como os que o possuem accrescentado duma sensibilidade incomprehensivel. O mundo ri egualmente da treva dum inferior, como dos supremos desvairados.Os inferiores desconhecem a grande parte da verdade eterna que o sonho contém, que ha, por vezes, na loucura profecias geniaes.Parece que os loucos sonham, quando adormecidos, actos que a sociedade toma por feitos de juizo.Depois ao acordarem abysmam-se do desapontoado dos sonhos...Exactamente o inverso do que succede ao Vulgo. Este delira no somno os grandes feitos e delictos. Uns e outros relegam o que sonharam.Ora o Artista, ou acorde na Obra uma aspiração do Vulgo, ou desvaire fóra do tempo e do espaço em que trabalha, é sempre a creatura que vive na Arte o sonho e sonha na Arte a Vida!Do louco tem o desvairamento, que lhe distende a sensibilidade até á abnegação, oalheamento da conveniencia, a fatalidade do temperamento, agindo livre entre clarões e trevas. Sou a Artista-louca, perdida no cosmorama dos Paizes-Altos da Belleza. Não conheceis estes paizes! São aquelles que o meu genio doente aguarella e o Sentimento repinta e vive.Deslumbro o entendimento na Fé sonhada—a nova Attica do Ocidente.Valho o abraço de dois povos, que se estreitam e vivem as ultimas loucuras confundindo as almas!Sou o Ocidente a alar-se.Como a Grecia attingi oestado sensual. Deliro na ante-camara da Morte o sonho hellenico que vejo para além...Triumpho morrendo.Morrer é simplesmente erguermo-nos. Vou elevar-me, descansar na Altura.Attingi pela Dor o planalto que me vae ser ponto de vôo. Fui a creatura que o Destino arrancou da pureza humilde dos montes, e que, ao chegar á civilização, deslumbrou de torpeza. Aguia nata em ferocidades puras, quiz o luxo mundano domesticar-me para que eu sommasse á ferocidade selvagem a hediondez civilizada!Salvou-me a raça. Vivi o temperamento, as taras, tudo o que era meu, bem meu, em reacção com os outros.Raras alegrias me assaltaram. Tinha de ser:—a Alegria jámais fecundou.Vi chover sobre a minha obra, que era mais do que eu propria, pois que era eu tocada do sobrenatural, petalas de oiro e lama.Prosápia, bens, armas, brasões, tudo revôlto, perdido...Portugal, Hespanha!As armas, os brasões, vós proprios os derrubastes, esquecidos de que tambem eram vossos, principalmente vossos!A Historia ha de gelar no coração das creanças, quando os saxões e os outros, as raças praticas, vierem tentar o Ocidente... Antevejo conflictos entre as futuras searas de adolescentes, sortidas de pequenos demonios dourados, sardentos e gulosos dos meus bens.Deixae-me beijar-vos, oh adolescentes morenos da minha raça,—corpos de sombra e sonho, pelo vosso triumpho!Reviverá na vossa belleza o meu genio—nos Estados que tereis de crear o meu sonho!Eu mesma terçarei armas na vossa lucta.Voltarei, vestida dos vossos corpos de bronze. Sentir-me-eis em vós, como hoje vos sinto em mim!Mas só resurge quem morre. Entreguemo-nos ao Deus latente em nós, que nos dá na Morte o summo poder.Por tudo elle a repartiu, como a signalar que em tudo é latente.O infinitamente grande leva a sua grandeza divina até vestir o infinitamente pequeno.O infinitamente pequeno é Deus procedendo, transformando. A Morte é o genio divino, tocado da treva, a simular aniquilamento...É elle a recolher o material disperso, para modelar e animar novos sonhos. É o esboço de novas formas a apparecer.Bemdigamos o Deus que somos, o Deus que vive em tudo e é Tudo. Amemos a Morte, pois que ella é, definitivamente, Deus.É isto loucura? Sei lá! Talvez sonho...Por meu mal, sonho sempre. Batalho ás noites com phantasmas. A outra noite, foi com phantasmas de Belleza. Assisti a uma refeição nova, a refeição da madrugada, na Villa-Feia.Jehovah, entendeu-se com os do Olympo e a pedido de Apollo, que me convidára, quietou o tempo numa luz branco-cinza. Jupiter emprestou Ganymedes para servir os nectares, o mel, os fructos; Jehovah mandou seraphins, rosas...Os convivas eram Nuno, Apollo, Venus, adolescentes morenos de culpa, que fui resgatar ao inferno catholico; Sebastião, o ephebo-martyr; Edgar—muito discreto e lindono seu nu côr de tocha;—Ruy, abraçado a Nuno, a afogá-lo no mar de luz do seu olhar velludento, verde de vicio;—Helen, feita sereia vegetal, erguendo a cabeça airosa e loira dentre petalas de açucena;—finalmente a Hermaphrodita, a Penedia enorme, que vi espreguiçar-se, mover o peito, as coxas de gran, e levantar-se, suprema, para vir tambem tomar parte na refeição, penetrar-se da essencia, do olor das rosas.O nectar era servido em flores de magnolia e peonias...Começou a refeição; pedi mel. Veio Ganymedes servi-lo; mediu cem violetas do oiro-doce para a copa dum lirio que beijou e correu a trazer-me. Bebi dum trago o lirio-calice da loira resina. Pedi os fructos, as flores da figueira—figos tumidos de carne-vermelha, coberta a seda-amethysta; quiz romãns, damascos, peros de Deus... Sorvi tudo. De repente, ao tomar a terceira peonia de nectar, senti-me entontecida, deliciosa e horrivelmente nauseada!Era o olor das rosas, a essencia do nectar, dos fructos, daquella Carne tocada do genio dos divinos oleiros, o perfume das taças,—tudo a perturbar-me!Evoquei os Deuses e acordei ao grito da sua voz, que era a voz da minha queixa! E, acordada, volvi a pedir-lhes que de novo meremetessem ao sonho, e me asphyxiassem, de vez, pela Imaginação!Queria morrer imaginando, abrupta ou suavemente, mas do mal-de-sonhar...** *O pensamento fixo é partir, morrer.Jámais alguem sentiu,viveuassim a Morte. Esta é a sua Elegia, o derradeiro e mais soffrido dos meus Poemas. É que sou eu em união hypostatica com o Divino Poeta.Não obedece ás formas vulgares do verso. Tem as formas espraiadas da massa da agua em movimento. Resume a forma definitiva da Poesia. Nenhuma alma soffre medida. Menos podia soffrê-la a minha, immensa como o genio que a distende.Eu não poderia contar as sensações intimas da minha tristeza. Quem pode contar as commoções da labareda? Como havia de sujeitar ao metro o infinito de melancholia que sinto agora e dar o espectro da transformação que está a passar-se em mim?Vou morrer. Nem sinto a dor dos que vão desesperados e sem fé, nem a alegria dos que partem de vez á conquista doutros mundos. Sou a acropole do sentimento. Acceito a Morte como um bem. Vou provocá-la comosuccessão logica duma Vida que só pode continuar-se depois da nova provação.Esta provação era fatal... Exulto! Matar é transformar. Vou transformar-me. Quando voltar serei outra.Saudades, levo-as das tristezas que vivi.A tristeza, a nevoa de melancholia que enchem esta hora de partida, dão-me a nostalgia do mundo que fui, de muitas batalhas de dor, agora decididas.A Dor tem o sestro dos maus filhos; aferra-se profundamente aos corações que tortura, e domina-os. Mas ha dores e dores!Nas passadas vivo a Saudade, nas presentes a Morte! Abençôo a Morte que me conduz á nova Vida. E soffro e goso suavemente esta jornada que para tantos é maldita...Morro no outomno. O Destino quiz que fosse com as ultimas esperanças dos primeiros tuberculosos...Tisicos, iremos todos! Quero ir cercada das vossas figuras brancas, puras da doença. Os atalhos hão de mandar flores a acompanhar-nos...Oh! que lindo cortejo. Já as vejo, além, paramentadas! São papoilas-sangue, risos petalados de boas-idas.Iremos já. Tenho ali a mascara que, embebida em Ether, ha de dar-me passagem para a grande Vida. Começo a viver a suprema Vida.Não sou já a «Emparedada»; a sombra immensa que projecto rompeu de vez a espessura que me occultava do Deus latente em mim, do Deus que sou.Que cega estava, que surda fui. Como a Terra, o Mar, tudo é differente!O Mundo, oh que genial mentira! Como o distingo bem, de longe! Eu propria fui o que elle é—Confusão. O que avisto:—palacios de poderosos, columnados de gelo; choupanas de Luz; corações de tritão em peitos de sereia; fios de aranha alando a Terra; a Humildade a chorar sob doceis de granadas; a Humanidade em arestas á mercê do vento, a mergulhar nos pantanos; monstros a florirem amor; e tudo a morrer para viver, a viver para morrer!Já converso as sereias, os tritões, as sombras dos Poetas. Phosphorescencias da agua—oh que mysterios de luz!Quantos espiritos novos! São sátyros estrebuchando amores, na treva; são genios lendo á luz verde dos pyrilampos a vida dos pinheiraes; são levadas chorosas da virtude dos homens e da castidade infame das donzellas; é a onda a trabalhar o granito, a estatuar Belleza; é o vento a ramalhar orações, a petalar a agua, a orchestrar a gargalhadas o Hymno do Desprezo pelas leis da Terra; é a sombra de Wagner, sob o pallio verde-escuro doslaranjaes a apontar as notas altas dos rouxinoes para dar a ultima demão ao Hymno de Amor em que vae cantar o Infinito...São moinhos a moerem bagos de oiro, de que os homens fazem o pão puro—rodas de moinho a beberem agua e a espadanarem leite, o leite que o ribeiro entorna pelas sementeiras e amamenta o linho, as papoilas, e os trigaes!Cada tronco de arvore é uma columna de Vida. Folhas são asas batendo Amor. Flores são tulipas, botões de luz... Luz de Carne!Nem o luar de Granada empresta á noite uma luz como a das flores. É uma luz de opala com cambiantes suaves, luz que reflecte corpos, almas em sonho.Ah! agora, sim! Já vejo, já palpo e goso as figuras que procurava,—as minhas creações!Sinto o sussurro, a melodia gemente da transfusão do que fui no que vou ser, no que já sou...O que ouço é como o murmurio brando de levadas. É Mozart a sonhar... São as Fontes.Oh! figuras sagradas, esculpturas de nevoa, abraçae-me! Assim... Fundamo-nos!Chovam sobre mim petalas de borboleta e asas de rosa. Fui na terra irmã das borboletas, parenta das rosas. Subam até mim columnas de incenso, o riso vermelho das creanças,as ondas de sensualidade innocente que encapellam a Terra.A Artista vae morrer. Distingo o fim da Noite no começo do Dia...Ahi vem a Madrugada. Abençoada seja a Noite, mãe da Madrugada! Bemdito o eterno Dia!Aquellas rocadas de algodão, humidas de Ether, são as nuvens que ha pouco vi passar além, que tenho ali e posso apertar na minha mão.Scenarios e scenarios de pureza! O Mar, o Ceu, a Morte tudo é branco, continuando-se de mim, do meu alvor... Alvor da alma que tudo repassa de Belleza!Toda a Belleza permeio, toda a Belleza sou:—a Nuvem, o Mar, a Dor...Sou o Mar que sóbe em cambraias de nevoa, a Nuvem que desce em veu de madrugadas e perolas de granizo...Bemdito sejas, oh Deus!Vou ser o Ether que me sóbe á nova Vida!Sou a Onda, a Nuvem que passa, e se esbate em Nada,—a razão, o inicio de tudo!Irmãos! vou partir, vou viver! Sou já o Ether, sou a Altura...FIM
Loucos os apostolos duma Religião!
Tambem vou ser acoimada de louca! Quantas affinidades com elles hão de encontrar-me... E talvez, inconscientemente, a Sociedade acerte. O que é um louco?
É o espelho de melhor ou peor crystal, biselado ou lizo duma alma sem artificio a viver desvairamentos. É o absoluto em sinceridade—o que ri, e chora, odeia e ama sem trapaça, indifferente á sociedade que o espreita, o que despe a alma na praça publica sem caridade por si, alheio a quem o vê.
Na escala da loucura ha os criminosos-loucos, que dão á sociedade pretexto a queella os enclausure, para melhor os explorar, e ha os outros, os que ella frecha de infamias, emparedando-os de preconceitos, dando-lhes a liberdade de sonharem alto, para que possam ouvir-lhes o sonho, e impedir-lhes que realizem desvairamentos, por vezes geniaes...
São os criminosos, os santos,—todos os reduzidos de entendimento, como os que o possuem accrescentado duma sensibilidade incomprehensivel. O mundo ri egualmente da treva dum inferior, como dos supremos desvairados.
Os inferiores desconhecem a grande parte da verdade eterna que o sonho contém, que ha, por vezes, na loucura profecias geniaes.
Parece que os loucos sonham, quando adormecidos, actos que a sociedade toma por feitos de juizo.
Depois ao acordarem abysmam-se do desapontoado dos sonhos...
Exactamente o inverso do que succede ao Vulgo. Este delira no somno os grandes feitos e delictos. Uns e outros relegam o que sonharam.
Ora o Artista, ou acorde na Obra uma aspiração do Vulgo, ou desvaire fóra do tempo e do espaço em que trabalha, é sempre a creatura que vive na Arte o sonho e sonha na Arte a Vida!
Do louco tem o desvairamento, que lhe distende a sensibilidade até á abnegação, oalheamento da conveniencia, a fatalidade do temperamento, agindo livre entre clarões e trevas. Sou a Artista-louca, perdida no cosmorama dos Paizes-Altos da Belleza. Não conheceis estes paizes! São aquelles que o meu genio doente aguarella e o Sentimento repinta e vive.
Deslumbro o entendimento na Fé sonhada—a nova Attica do Ocidente.
Valho o abraço de dois povos, que se estreitam e vivem as ultimas loucuras confundindo as almas!
Sou o Ocidente a alar-se.
Como a Grecia attingi oestado sensual. Deliro na ante-camara da Morte o sonho hellenico que vejo para além...
Triumpho morrendo.
Morrer é simplesmente erguermo-nos. Vou elevar-me, descansar na Altura.
Attingi pela Dor o planalto que me vae ser ponto de vôo. Fui a creatura que o Destino arrancou da pureza humilde dos montes, e que, ao chegar á civilização, deslumbrou de torpeza. Aguia nata em ferocidades puras, quiz o luxo mundano domesticar-me para que eu sommasse á ferocidade selvagem a hediondez civilizada!
Salvou-me a raça. Vivi o temperamento, as taras, tudo o que era meu, bem meu, em reacção com os outros.
Raras alegrias me assaltaram. Tinha de ser:—a Alegria jámais fecundou.
Vi chover sobre a minha obra, que era mais do que eu propria, pois que era eu tocada do sobrenatural, petalas de oiro e lama.
Prosápia, bens, armas, brasões, tudo revôlto, perdido...
Portugal, Hespanha!
As armas, os brasões, vós proprios os derrubastes, esquecidos de que tambem eram vossos, principalmente vossos!
A Historia ha de gelar no coração das creanças, quando os saxões e os outros, as raças praticas, vierem tentar o Ocidente... Antevejo conflictos entre as futuras searas de adolescentes, sortidas de pequenos demonios dourados, sardentos e gulosos dos meus bens.
Deixae-me beijar-vos, oh adolescentes morenos da minha raça,—corpos de sombra e sonho, pelo vosso triumpho!
Reviverá na vossa belleza o meu genio—nos Estados que tereis de crear o meu sonho!
Eu mesma terçarei armas na vossa lucta.
Voltarei, vestida dos vossos corpos de bronze. Sentir-me-eis em vós, como hoje vos sinto em mim!
Mas só resurge quem morre. Entreguemo-nos ao Deus latente em nós, que nos dá na Morte o summo poder.
Por tudo elle a repartiu, como a signalar que em tudo é latente.
O infinitamente grande leva a sua grandeza divina até vestir o infinitamente pequeno.
O infinitamente pequeno é Deus procedendo, transformando. A Morte é o genio divino, tocado da treva, a simular aniquilamento...
É elle a recolher o material disperso, para modelar e animar novos sonhos. É o esboço de novas formas a apparecer.
Bemdigamos o Deus que somos, o Deus que vive em tudo e é Tudo. Amemos a Morte, pois que ella é, definitivamente, Deus.
É isto loucura? Sei lá! Talvez sonho...
Por meu mal, sonho sempre. Batalho ás noites com phantasmas. A outra noite, foi com phantasmas de Belleza. Assisti a uma refeição nova, a refeição da madrugada, na Villa-Feia.
Jehovah, entendeu-se com os do Olympo e a pedido de Apollo, que me convidára, quietou o tempo numa luz branco-cinza. Jupiter emprestou Ganymedes para servir os nectares, o mel, os fructos; Jehovah mandou seraphins, rosas...
Os convivas eram Nuno, Apollo, Venus, adolescentes morenos de culpa, que fui resgatar ao inferno catholico; Sebastião, o ephebo-martyr; Edgar—muito discreto e lindono seu nu côr de tocha;—Ruy, abraçado a Nuno, a afogá-lo no mar de luz do seu olhar velludento, verde de vicio;—Helen, feita sereia vegetal, erguendo a cabeça airosa e loira dentre petalas de açucena;—finalmente a Hermaphrodita, a Penedia enorme, que vi espreguiçar-se, mover o peito, as coxas de gran, e levantar-se, suprema, para vir tambem tomar parte na refeição, penetrar-se da essencia, do olor das rosas.
O nectar era servido em flores de magnolia e peonias...
Começou a refeição; pedi mel. Veio Ganymedes servi-lo; mediu cem violetas do oiro-doce para a copa dum lirio que beijou e correu a trazer-me. Bebi dum trago o lirio-calice da loira resina. Pedi os fructos, as flores da figueira—figos tumidos de carne-vermelha, coberta a seda-amethysta; quiz romãns, damascos, peros de Deus... Sorvi tudo. De repente, ao tomar a terceira peonia de nectar, senti-me entontecida, deliciosa e horrivelmente nauseada!
Era o olor das rosas, a essencia do nectar, dos fructos, daquella Carne tocada do genio dos divinos oleiros, o perfume das taças,—tudo a perturbar-me!
Evoquei os Deuses e acordei ao grito da sua voz, que era a voz da minha queixa! E, acordada, volvi a pedir-lhes que de novo meremetessem ao sonho, e me asphyxiassem, de vez, pela Imaginação!
Queria morrer imaginando, abrupta ou suavemente, mas do mal-de-sonhar...
** *
O pensamento fixo é partir, morrer.
Jámais alguem sentiu,viveuassim a Morte. Esta é a sua Elegia, o derradeiro e mais soffrido dos meus Poemas. É que sou eu em união hypostatica com o Divino Poeta.
Não obedece ás formas vulgares do verso. Tem as formas espraiadas da massa da agua em movimento. Resume a forma definitiva da Poesia. Nenhuma alma soffre medida. Menos podia soffrê-la a minha, immensa como o genio que a distende.
Eu não poderia contar as sensações intimas da minha tristeza. Quem pode contar as commoções da labareda? Como havia de sujeitar ao metro o infinito de melancholia que sinto agora e dar o espectro da transformação que está a passar-se em mim?
Vou morrer. Nem sinto a dor dos que vão desesperados e sem fé, nem a alegria dos que partem de vez á conquista doutros mundos. Sou a acropole do sentimento. Acceito a Morte como um bem. Vou provocá-la comosuccessão logica duma Vida que só pode continuar-se depois da nova provação.
Esta provação era fatal... Exulto! Matar é transformar. Vou transformar-me. Quando voltar serei outra.
Saudades, levo-as das tristezas que vivi.
A tristeza, a nevoa de melancholia que enchem esta hora de partida, dão-me a nostalgia do mundo que fui, de muitas batalhas de dor, agora decididas.
A Dor tem o sestro dos maus filhos; aferra-se profundamente aos corações que tortura, e domina-os. Mas ha dores e dores!
Nas passadas vivo a Saudade, nas presentes a Morte! Abençôo a Morte que me conduz á nova Vida. E soffro e goso suavemente esta jornada que para tantos é maldita...
Morro no outomno. O Destino quiz que fosse com as ultimas esperanças dos primeiros tuberculosos...
Tisicos, iremos todos! Quero ir cercada das vossas figuras brancas, puras da doença. Os atalhos hão de mandar flores a acompanhar-nos...
Oh! que lindo cortejo. Já as vejo, além, paramentadas! São papoilas-sangue, risos petalados de boas-idas.
Iremos já. Tenho ali a mascara que, embebida em Ether, ha de dar-me passagem para a grande Vida. Começo a viver a suprema Vida.
Não sou já a «Emparedada»; a sombra immensa que projecto rompeu de vez a espessura que me occultava do Deus latente em mim, do Deus que sou.
Que cega estava, que surda fui. Como a Terra, o Mar, tudo é differente!
O Mundo, oh que genial mentira! Como o distingo bem, de longe! Eu propria fui o que elle é—Confusão. O que avisto:—palacios de poderosos, columnados de gelo; choupanas de Luz; corações de tritão em peitos de sereia; fios de aranha alando a Terra; a Humildade a chorar sob doceis de granadas; a Humanidade em arestas á mercê do vento, a mergulhar nos pantanos; monstros a florirem amor; e tudo a morrer para viver, a viver para morrer!
Já converso as sereias, os tritões, as sombras dos Poetas. Phosphorescencias da agua—oh que mysterios de luz!
Quantos espiritos novos! São sátyros estrebuchando amores, na treva; são genios lendo á luz verde dos pyrilampos a vida dos pinheiraes; são levadas chorosas da virtude dos homens e da castidade infame das donzellas; é a onda a trabalhar o granito, a estatuar Belleza; é o vento a ramalhar orações, a petalar a agua, a orchestrar a gargalhadas o Hymno do Desprezo pelas leis da Terra; é a sombra de Wagner, sob o pallio verde-escuro doslaranjaes a apontar as notas altas dos rouxinoes para dar a ultima demão ao Hymno de Amor em que vae cantar o Infinito...
São moinhos a moerem bagos de oiro, de que os homens fazem o pão puro—rodas de moinho a beberem agua e a espadanarem leite, o leite que o ribeiro entorna pelas sementeiras e amamenta o linho, as papoilas, e os trigaes!
Cada tronco de arvore é uma columna de Vida. Folhas são asas batendo Amor. Flores são tulipas, botões de luz... Luz de Carne!
Nem o luar de Granada empresta á noite uma luz como a das flores. É uma luz de opala com cambiantes suaves, luz que reflecte corpos, almas em sonho.
Ah! agora, sim! Já vejo, já palpo e goso as figuras que procurava,—as minhas creações!
Sinto o sussurro, a melodia gemente da transfusão do que fui no que vou ser, no que já sou...
O que ouço é como o murmurio brando de levadas. É Mozart a sonhar... São as Fontes.
Oh! figuras sagradas, esculpturas de nevoa, abraçae-me! Assim... Fundamo-nos!
Chovam sobre mim petalas de borboleta e asas de rosa. Fui na terra irmã das borboletas, parenta das rosas. Subam até mim columnas de incenso, o riso vermelho das creanças,as ondas de sensualidade innocente que encapellam a Terra.
A Artista vae morrer. Distingo o fim da Noite no começo do Dia...
Ahi vem a Madrugada. Abençoada seja a Noite, mãe da Madrugada! Bemdito o eterno Dia!
Aquellas rocadas de algodão, humidas de Ether, são as nuvens que ha pouco vi passar além, que tenho ali e posso apertar na minha mão.
Scenarios e scenarios de pureza! O Mar, o Ceu, a Morte tudo é branco, continuando-se de mim, do meu alvor... Alvor da alma que tudo repassa de Belleza!
Toda a Belleza permeio, toda a Belleza sou:—a Nuvem, o Mar, a Dor...
Sou o Mar que sóbe em cambraias de nevoa, a Nuvem que desce em veu de madrugadas e perolas de granizo...
Bemdito sejas, oh Deus!
Vou ser o Ether que me sóbe á nova Vida!
Sou a Onda, a Nuvem que passa, e se esbate em Nada,—a razão, o inicio de tudo!
Irmãos! vou partir, vou viver! Sou já o Ether, sou a Altura...
FIM