Aos vinte e seis annos, quando seu pae acabou, estava elle ainda nacompanhia do velho bemfeitor e mestre, ganhando alegremente o seu pão.Fallecido o parente, alguem lhe disse que elle tinha em Villa Nova deFamalicão a casa, boa ou má, de seu avô, que ninguem lhe podia disputar.
Facilmente se habilitou herdeiro de Bento de Araujo e tomou posse do casebre, deshabitado desde 1790. Ãs vezes os mendigos, nas noites quentes, levantavam a aldraba, que era um cavaco de castanho, e albergavam-se no sobrado podre, contando casos horrendos que ali passaram—o parricidio e o roubo. As covas estavam ainda abertas, e o desentulho em monticulos de redor.
Silvestre de S. Martinho, o filho do Faisca, não usava dos paternos appellidos: do pai aproveitára sómente a casa, transigindo com a honra o necessario sem prejuizo seu.
Apossado da casa, deu-lhe um geito para poder habital-a, e pendurou meia duzia de foguetes e bombas reaes á porta. Era habilidoso, principalmente para as bonecas de polvora. Gabava-se de haver inventado o barbeiro a amolar navalhas na roda, e levára á perfeição da indecencia a velha que despedia contra a cara combustivel do barbeiro um repucho de chispas pela parte posterior, tudo com uma graça portugueza que era um estoirar de riso o arraial!
Corria-lhe bem a vida, e já tinha casado com uma rapariga dura e trabalhadeira, quando o descuido de um aprendiz, na ausencia dos patrões, deixou pegar o lume em um feixe de bombas. Houve explosão que sacudiu em estilhas o tecto da casa, e abrasou todas as madeiras. Quando Silvestre voltou com a mulher da romagem da Santa Eufemia, nas terras da Maya, encontrou quatro paredes denegridas, e o interior da casa a fumegar, cheio da brilhante claridade da lua. O aprendiz, carbonizado, estava já na cova.
Tiveram compaixão do pobre fogueteiro os villanovenses. Diziam-lhe que contruisse uma cabana com as esmolas que lhe iam tirar pela freguezia; mas que a fizesse n'outra parte, por que n'aquella casa, onde um filho matára seu pai para o roubar, pezava a maldição de Deus. Um visinho comprava-lhe o terreno da casa amaldiçoada para accrescentar á sua; mas deixava-lhe a pedra que era boa para o fogueteiro edificar n'outra parte. Silvestre acceitou, convencido de que o sangue de seu avô funestára para sempre aquelle theatro do grande crime.
Recebido o terreno de esmola, principiou Silvestre a demolir as paredes da casa queimada. Fazia elle este serviço, com ajuda da mulher, em quanto o carreteiro ia carreando a pedra.
Ãs tres da tarde de um sabbado, o carreteiro, consoante o costume, despegara do serviço; mas Silvestre e a mulher continuaram a desfazer o ultimo lance de parede que lhe restava, com o fim de na proxima segunda feira acabarem o trabalho da demolição. Observára o fogueteiro que este lado da parede quadrilatera era mais grossa um palmo que os outros que formavam o recinto, reintrando para o interior o excedente da grossura. Estava coberta de pasta de barro e caleada como as outras. Divisava-se ainda no barro gretado o risco traçado pelo atrito de qualquer corpo que se encostára á cal ainda fresca.
Por esta raspadura, conjecturou Silvestre que ali devia estar o banco da cama do avô, até porque ouvira dizer que parte do thesouro estivera enterrado debaixo da cama; e elle, quando tomara posse da casa, ainda vira a cova aberta, dois palmos distante d'aquella parede.
—A pedra aqui é mais larga—disse o fogueteiro á mulher.
—Agora é!—emendou ella—o que a faz parecer mais larga é a camada de barro; se não, olha.
E começou a picar ao longo da parede com a extremidade aguda da alavanca, e o barro, esboroando-se e desacamando a pedaços, deixava descobrir a superficie da pedra que não era mais grossa que a outra.
—Dizes bem, é isso—approvou o marido.—Vamos apeando a parede por esse lado, que o barro elle se despegará.
E, dizendo, pegou d'outra alavanca e começou a derribar as capas da parede, em quanto a mulher, para não estar com as mãos debaixo dos braços, ia descaliçar a camada barrenta. Quando atirava rijamente com a ponta da alavanca á parede, notou que o ferro batera e se cravara em páo.
—Aqui ha madeira—disse ella.
—É alguma cascaria que tinha mão no barro—explicou Silvestre.
A mulher repetiu os golpes em diversos pontos na circumferencia de dois palmos, e tirou sempre o mesmo som.
—Parece que bate em vão…—notou ella.
—O quê?!—acudiu o marido, descendo do andaime em que trabalhava.—Bate em vão! que dizes tu?!
—É o que te eu digo… Olha… Ouves?
—Ó mulher!—exclamou elle, cravando-lhe os olhos cheios de palpites que a lingua não ousava formular.
E como n'esse comenos passasse gente, e parasse a olhar para as ruinas, o fogueteiro fez um tregeito á mulher, que ella intendeu, calando-se.
—Ajunta a ferramenta, Maria, e vamos embora que já mal se enxerga—disse elle.
—Lá vai a casa do Bento pedreiro, Deus lhe falle n'alma!—disse o mais ancião dos curiosos.—Que dinheirão aqui esteve n'este pardieiro! Cincoenta e seis mil cruzados! Era o homem mais rico da villa e seu termo, e tanta necessidade passava aquelle alma do diabo, Deus lhe perdôe, para a final o dinheiro ser repartido pela quadrilha do Luiz Meirinho, que tambem o levou berzabum com duas balas que lhe metteram na barriga ali á ponte de S. Thiago!
—São fadarios, tio Simeão!…—disse Silvestre.
—Vossê podia a esta hora estar rico como um porco, se tivesse outra casta de pai…—tornou o velho.
—Assim é; mas não o quiz Deus. Desgraças…
—Ora faça vossê de conta que tinha achado ahi o dinheirame do seu avô!
—Ainda venho a tempo!…
—Pois sim; mas faça de conta que o topava! Vossê que fazia, ó sôrSilvestre?
—Eu sei cá, tio Simeão!
—Foguetes é que vossê não fazia mais! aposto dobrado contra singelo!
—Não fallemos n'isso… Foguetes é que eu heide fazer toda a minha vida, e Deus me dê saude para os fazer.
—Amen; mas vossê, se se pilhava com as tres mil peças, mettia a villa toda n'um chinello, e pintava ahi o diabo a quatro!
—Está enganado! não pintava nada… Comprava uns bemzinhos, e havia de trabalhar n'elles, como trabalho nos foguetes.
—Vem d'ahi, homem—disse Maria já aborrecida das impertinentes perguntas do Simeão que, encostado á sachola, parecia jubilar nas pachorrentas hypotheses, e nas delicias de cossar uma perna com a outra alternadamente.
Simeão foi seu caminho com os outros; e o fogueteiro e a mulher seguiram para casa; mas, assim que as portas e janellas se fecharam na rua, ahi estavam elles outra vez sobre o cascalho, raspando com ferramentas pouco ruidosas a parede no espaço em que o som do vacuo respondia ao toque do ferro.
No termo de curta fadiga, tinham descoberto uma superficie liza de madeira, invasada na parede como a portada de um postigo. Facilmente desencaixilharam a tabua do invasamento de pedra, por que não tinha dobradiças nem outra firmeza além da que lhe dava a espessa camada de barro. Silvestre introduziu a mão, e topou um corpo frio.
—Que achas?—perguntou Maria offegante com as mãos postas.
—É uma panella de ferro…—balbuciou elle.—Ó mulher!… tem mão em mim, que não sei o que me dá pela cabeça!…
—Nossa Senhora!—exclamou ella—Nossa Senhora!…
E, em vez de ter mão no homem, metteu ambos os braços até achar a panella, em quanto Silvestre abria e fechava a bocca em tregeitos de tão estupida felicidade, que só a suprema desgraça os poderá fazer iguaes.
N'isto, a rija mocetona arrancava da lura o peso enorme de ouro; e, cahindo de cocoras com o pote no regaço, exclamou suffocada:
—Ai Jesus! que eu morro de alegria!…
Sivestre apertava o ventre com as mãos. Esta postura não é ridicula nem inverosimil para os que sabem que os intestinos quasi nunca são estranhos ás commoções grandes.
Aos primeiros assomos da seguinte aurora, a parede estava arrazada. Os visinhos ouviram o ruido da assolação, e cuidaram que a derribára um pegão de vento.
Mas, na proxima semana, a obra da casa nova parára. O fogueteiro dizia aos seus bemfeitores que ia mudar de terra, e talvez mudar de vida
Por esse tempo, um fidalgo da côrte de D. João VI mandou vender as suas vastas propriedades na provincia do Minho. Nos arrabaldes de Barcellos demorava a principal das quintas, que havia sido paço senhorial. Chamava-se aHonra de Romariz, e já fôra dote de D. Genébra Trocozende, no seculo XII, casada com D. Fafes Romarigues, filho de D. Egas, que gerara D. Fuas, e tão copiosa e compridamente se geraram uns dos outros que a final degeneraram na pessoa do fidalgo que mandou vender a casa solarenga, para cruzar ricamente uma dançarina sobre os leões rompantes do seu escudo.
Chamava-se Silvestre de S. Martinho o comprador, que contara na mesa do tabellião de Barcellos vinte e cinco mil cruzados em peças de 7$500 réis. Quantos casaes e leiras o filho de Joaquim Faisca poude comprar á volta da Honra de Romariz incorporou-as no cinto de muralha que foi alargando a termos de arredondar a mais vasta e formosa vivenda do coração do Minho.
Em 1826, quando Silvestre já desesperava da fecundidade da esposa, em annos bastante serodios, deu-lhe ella uma menina que se chamou Felizarda. Aos oito annos, a moça, filha unica, e conhecida pela morgadinha de Romariz, já bastante espigada e gorda, levava folgada infancia. Aos dezoito annos, compozeram-se-lhe as feições com proeminencias grandes, mas esbeltas. A fertilidade do peito dizia com a curva tumescente das espaduas. Felizarda tinha uns archejos de cansaço que lhe alindavam o carmim do bom sangue.
Um bacharel formado, que aspirava de longe os olores d'esta flôr de gira-sol, queixando-se da demora que ella posera em chegar a uma festividade de igreja, fez-lhe o seguinte improviso, depois de trabalhar tres dias a rima:
Eu, que sou fogo, não tardo, ella, que é gelo, é que tarda, Se eu, que amo, feliz ardo, Felizarda feliz arda.
Ella deu pulos a rir como se tivesse a critica de mad. Girardin.
Por esse tempo, 1846, Silvestre de S. Martinho estava muito rico, mas muitissimo aborrecido na diluente ociosidade de tantos annos. Ãs vezes, mandava comprar polvora bombardeira, furava canudos, apertava-os com guita alcatroada, e fazia foguetes para se distrahir. Felizarda, bastante entretida com a arte, pedia á mãe que lhe ensinasse a fazer valverdes e bichinhas de rabear.
A sr.^a D. Maria, excellente matrona e mãe, não se enfastiava, como o esposo, por que moirejava sempre na casa e na quinta, fiava ou dobava nas noites grandes com as creadas á lareira, e envergonhava os servos calaceiros batendo as meadas no lavadouro, ou padejando as broas na cosinha.
Mas o marido que, tirante as diversões pyrotechnicas, não fazia nada, andava dispeptico e clorotico, quando teve de optar entre fogueteiro e politico.
Era no tempo da patulea. Silvestre manifestara-se progressista nas bellicosas eleições de 1845 em Barcellos, e sentiu-se invadido pela paixão sociologica por causa do canibalismo dos fuzilamentos de Alvarães. No anno seguinte, influiu no movimento de maio, e manteve-se nas idéas avançadas até outubro em que os agentes da junta do Porto lhe embargaram no Largo da Aguardente, duas cavalgaduras que iam á praia da Foz buscar a mulher e a filha. N'este conflicto, oscillou politicamente entre os irmãos Passos que amamentavam a republica nos seios dessorados da liberdade cachetica, e o padre Casimiro José Vieira, oDefensor das Cinco Chagas, que proclamava D. Miguel I no Bom Jesus do Monte.
Alliciaram-no ao seu partido alguns sectarios da realeza absoluta, que viam desde a ponte de Barcellos a politica europea, e traçavam com as bengallas no Campo das Cruzes as evoluções militares e triumphaes dos exercitos russos. Silvestre não subia n'estas comprehensões tão alto como os seus foguetes de tres respostas, mas intendia que, tendo as coisas de dar volta, não lhe seria máu adoptar o partido vencedor. Offereceu dinheiro ao doutor Candido de Anêlhe e ao advogado Francisco Jeronimo para se enviar áLua.[9]
à sua generosidade respondeu magnanimamente a assembléa realista, condecorando o com a commenda de S. Miguel da Ala. Elle já era Rosa cruz, graduado na hoje extincta viella da Neta, por José Passos. Abriu-se um pleito de liberalidades entre Silvestre e a cabeça visivel de el-rei absoluto. Boa porção das peças intactas do defunctissimoJoiapassaram para o cinturão do aventureiro escocez Macdonnell, e depois para os burnaes dos soldados de caçadores que o espingardearam em Sabroso. Ó fados do dinheiro! Que estremeções não daria na cova o cadaver do Bento pedreiro, se os corvos e os lobos o não tivessem comido na serra!
Extinctas as facções politicas, Silvestre, por insinuações da mulher, entrou a desconfiar que era tolo, e que o sr. D. Miguel não o conhecia. Retirou-se da politica, cheio de desenganos, e ridiculo. Os funccionarios administrativos e judiciaes de Barcellos zombavam d'elle, e noPereodico dos Pobres, umAmigo da verdadeescreveu que o Silvestre de Romariz, no auge da sua dor, fabricavafoguetes de lagrimas. Allusão perfurante que elle soletrou na folha.
A respeito de soletrar, a morgada recebia cartas de um amanuense da camara de Barcellos; mas só abriu sete que ajuntára quando uma costureira lh'as leu. Felizarda creara-se sem lettras, e vivia, a respeito de litteratura, como as raparigas gregas antes de Cadmo, filho de Agenor, introduzir na Grecia o alphabeto phenicio; mas, em compensação, tinha muita flôr nativa e fresca de acres aromas n'aquelle afflante seio, e folgava de ouvir trovas de chula e desafios de cantares em que ás vezes a phrase estava pedindo a intervenção da policia.
Direi do amanuense da camara municipal de Barcellos.
Era um sugeito que perlustrara as regiões da sciencia por toda a extensão doManual Encyclopedicodo sr. Emilio Achylles de Monteverde. Era author de charadas impressas. Só aFelizarda6. Tinha este moço, José Hypolito de nome, immensa fé na briza, no paul, na junça, e no archanjo da poesia de 1840. Os duendes das suas visões nocturnas nas margens do Cavado sangravam-no. Era melancolico e magro como um galgo doente. A sua paixão grande, não fallando na falta de dinheiro, era Felizarda. Ganhava tres tostões na escrivaninha da camara, e devoravam-no aspirações a ter cavallo e carrinho. Entretanto, andava pelas casas a recitar a poesia de Palmeirim:
Que poeta que não era Da linda Ignez o cantor;
ou da Lua de Londres, o
É noite; o astro saudoso Rompe a custo o plumbeo ceo, etc.
E chorava quando os versos toavam funebres.
Felizarda não parecia talhada (sem calemburgo) para este homem; elle, porém, talhara-se para ella. Far-se-hia boi, como Jupiter, para arrebatal-a, bem que os seus instinctos volateis o levassem para cysne, se Felisarda tivesse, além dos proprios, os instinctos um tanto bestiaes de Leda.
Escreveu-lhe sete missivas profuzas e tristes como os sete peccados mortaes. A costureira que as leu debulhava-se em lagrimas, e decorava periodos para responder ás cartas de um furriel do 13 de infanteria. Felisarda ouvia aquellas coisas com a attenção de uma rã que imerge á flôr do lago os olhos espantadiços e escuta um rouxinol. Como as prosas levavam recheio de quadras, assim que a morgada dava tento da rima, espirrava um froixo de riso, tal qual como no lyrismo de Santo Antonio, no theatro de S. Geraldo. Tinha aquelle aleijão! Era—quem sabe?—a preexistencia d'esta enorme gargalhada que hoje atabafa os golphos da poesia subjectiva.
A costureira interpretou a, e respondeu, vestindo a ideia de Felizarda, com palavras innocentes, mas facinorosas em orthographia. O amanuense amava-a deveras: leu a carta, em que era chamadoBemda menina comV; e, dando os pezames ao seu Monteverde, fez votos de educar Felizarda nas quatro partes da grammatica, se um dia conjugassem o verboamar, que só é verdadeiramente regular quando o matrimonio o defeca.
Trocaram-se cartas assiduas. Felizarda começava a ser um pouco séria, pouzeira e semsaborona. Amava. Entre a psyche e aoutraabriram-se as valvulas de communicação. Tinha morbidezas de Ophelia e indigestões por falta de exercicio. Não sahia do mirante que olhava para o caminho do carro. José Hypolito passava por ali aos sabbados de tarde; e, se a solidão era absoluta, perguntava-lhe como passou. E Julieta, debruçada sobre o barandim do miradouro, com a face rubra e o seio ondulante, dizia-lhe que passou bem.
Nas cartas, fallou lhe em matrimonio, o amanuense. Ella respondeu que sim. José Hipolito, esporeado pelo amor, abalançou-se á interpreza de que os amigos o dissuadiam. Pediu-a ao pai, e arrependeu-se. Silvestre perguntou-lhe quem era e quanto tinha. Ouvida a resposta, disse gesticulando um esgar de desprezo:
—Ora adeus… O senhor, se não é tolo, parece-o.
Despediu-o apontando-lhe para a porta. Depois, chamou a filha e perguntou:
—Que diabo é isto? onde conheceste o pelintra que te veio pedir para mulher?
Ella contou ingenuamente o caso, mostrou as cartas, confessou quem lh'as lia, quem lhes respondia, e concluiu:
—Assim como assim, já agora quero casar com elle.
O pai expediu berros cortados de interjeições brutas. A filha fugiu, a soluçar, e não appareceu ao jantar nem á ceia.
E a mãe, a mulher laboriosa que nunca pensára nas soberbÃas implacaveis da riqueza, dizia ao marido:
—Se ella gosta do rapaz, deixa-a casar… Bem me prégava meu pai que não casasse comtigo porque tu eras filho de quem eras. E d'ahi? Casei e nunca me arrependi.
—Queres dizer na tua que dê a minha filha com oitenta mil cruzados a um troca-tintas que não tem casa nem leira nem…
—Tem-no ella, homem. A riqueza chega para os dois. Trata de saber se elle é bom rapaz; e, se fôr, deixa-a cazar que tem vinte annos.
José Hipolito creára protectores esperançados no bom exito da tentativa. Os inimigos politicos de Silvestre de Romariz coadjuvaram-no a tiral a judicialmente.
O juiz prestou se a interrogar a morgada, visto que ella não podia requerer por seu pulso. Suppridas legalmente as formalidades, Felizarda foi depositada em Barcellos, no seio da familia Alvaraens.
Trava-se então a lucta nos tribunaes. O pretensor, mal dirigido pelo seu advogado, responde com retaliações pungentissimas a insultos que o argentario lhe dirige ao seu nascimento obscuro e á sua pobreza. A pugna passara a ser um assanhado pugilato dos dois causidicos.
Um dos membros da familia Alvarães era moço, chamava-se Jose Francisco, e estudava o quinto anno de latim a ver se aprendia o necessario para conego da collegiada barcellense. Tinha quatro reprovações conscienciosas em Braga; mas ao quinto anno já distinguia o verbo do complemento objectivo, e traduzia com poucos erros a Ladainha.
A familia Alvarães era antiga e abastada; contava muitos frades bernardos na prosapia, e um governador em uma praça da Azia, d'onde trouxera navios de especiarias que formaram o casco da riqueza. A casa tinha pedra d'armas, e uma liteira brazonada que antigamente ia a Alcobaça buscar os frades a rusticar nas pescarias do Cavado, e a encher as roscas da caluga balofas pela inercia do claustro.
José Francisco, o estudante, era sanguineo, nedio, com as maçãs do rosto vermelhas, e os olhos enfronhados nas palpebras somnolentas. Felizarda, a noiva depositada, pareceu-lhe bem, ao passo que o amanuense da camara lhe era um antipathico bandalho, desde que em plena praça o enxovalhára perguntando-lhe, no terceiro anno de latim, o accusativo deAsinus. Oppozera-se José Francisco á recepção da morgada para haver de casar com José Hypolito, filho do Manuel Colchoeiro; mas força maior obrigara os Alvarães a protegerem o amanuense.
Ãs vezes, o futuro conego pasmava-se a contemplar Felizarda, e sentia em si as suaves dôres da natureza em parto do primeiro amor. Se ella, a morgada, olhava para elle a fito, produzia-lhe no rosto o effeito do sol que aponta em dia de calma—avermelhava-o até aos globulos das orelhas; e José cossava-se a disfarçar, ou esbofeteava as moscas que lhe passeavam sobre a epiderme oleosa, e faziam titilações incommodas nas fossas nazaes.
A morgada achava-o bonito, e dizia ás irmãs que era pena fazerem-no padre. José, quando soube isto, creou umas esperanças que o tresnoitavam, e tinha as sentimentalidades doloridas de Jocelin, e d'um ou outro clerigo de Barcellos que deixava vingar-se a natureza.
Procurà va José Francisco Alvarães modos de conversar com Silvestre deRomariz, e contava-lhe o que a filha dizia a respeito do Hypolito.Levava á depositada cartas do pai, e lia-lh'as ás escondidas da familia.O amanuense suspeitara-o, e tratava de remover o deposito, allegandosubornos que a lei não facultava.
Ora, n'aquellas confidentes leituras, estabelecera se intimidade bastante entre a morgada e o interprete das lastimas de seu pai. D'uma vez que Felizarda enxugava as lagrimas, ouvindo ler o adeus que o pai enfermo lhe enviava, José Francisco, transportado n'um rapto inconsciente de enthusiasmo, pegou-lhe da mão e disse com ternissima meiguice:
—Não case contra vontade de seu pai… Tenha pena d'elle, que está tão acabadinho…
A morgada poz-se a torcer e a destorcer o seu lenço branco, e a lamber uma lagrima que lhe pruÃa no beiço superior; mas não respondeu.
Alvarães foi contar isto ao velho. Silvestre pegou do processo que o seu advogado lhe enviara, e disse-lhe:
—Faça-me o sr. Josésinho o favor de levar estes autos, e ler a minha filha o que o tal patife, que quer ser seu marido, aqui diz de seu pai; leia-lhe isto, e veja o que ella diz.
O leitor já sabe, por eu lh'o haver dito nas primeiras paginas d'este livrinho, que o indiscreto amanuense consentira que se escrevesse que o pai de Silvestre fôra salteador de estradas, e que o pai de Felizarda exercitara o baixo mester de fogueteiro em Famalicão.
Tudo isto era expendido na tréplica de José Hypolito com grande lardo de zombarias e sarcasmos em estylo piccaresco. A morgada ouviu ler as injurias entoadas com vehemencia por Jose Francisco, que as declamou como se estivesse traduzindo um periodo de Eutropio.
Concluida a leitura, Felizarda, antes que o leitor a interrogasse com os olhos, exclamou:
—Quero ir para casa de meu pai, e hade ser já. O Josésinho vai commigo.Mande dizer a meu pai que me mande a burra.
José foi dar parte á familia da subita resolução da morgada; o depositario foi dar parte ao juiz, e o juiz respondeu que a lei não podia empecer á vontade da depositada. Quando estas altercações chegaram á noticia de José Hypolito, a filha de Silvestre ia já caminho de casa, acompanhada pelo estudante e pelas irmãs.
O pai e a mãe receberam-na nos braços, offegantes de jubilo, a pedir-lhes perdão da sua doudice. Silvestre abraçava José Francisco Alvarães, chamando-lhe o salvador da sua filha e da sua honra. A santa mãe de Felizarda olhava para o estudante com os olhos cheios de riso, e dizia:
—Não queira ser padre, sr. Josésinho… Olhe que o meu homem já disse que se vossa senhoria quizesse a nossa rapariga, que lh'a dava, e eu tambem.
José olhou estupefacto para o velho; Silvestre intendeu o espanto, e disse-lhe:
—Não olhe para mim, que eu não sou o que caso; olhe para a minha filha, e veja o que ella diz. Felizarda, queres casar com o sr. José Francisco?
—Se o pai quizer… tambem eu.—E escondeu o rosto no seio da mãe com umas visagens que pareciam de entremez; mas que eram da maior naturalidade.
As irmãs de José Francisco rodearam-na e beijaram-na soffregamente, em quanto o noivo, alumiado por aquelle improviso e inesperado lampejo de felicidade, achou no coração estas phrazes que balbuciou, abeirando-se da morgada:
—Se a menina casasse com o outro, eu acho que morria de paixão, e mais nunca lh'o disse.
Quando os vi em Braga, no theatro de S. Geraldo, estavam casados havia já vinte e cinco annos. Na casa de Romariz, durante essa temporada, apenas pezaram dias funestos, quando se fecharam as sepulturas de Silvestre e sua mulher.
José Francisco Alvareães era um modelo raro de continencia conjugal. Em Portugal só se conhecem dois exemplares: el-rei D. Affonso IV e elle. As diversões da vida, convencionalmente chamadas prazeres, não perturbaram a suave monotonia de Romaris. D. Felizarda apenas conhecia na arte dramatica o «Santo Antonio» de Braz Martins, e a «Degolação dos innocentes» por onde entrou na vida infame de Herodes. As noites de dezembro aligeiravam-se em Romariz a dormir. Ceavam e digeriam serenamente. Ao pé de um bom estomago coexistiu sempre uma boa alma. Acordavam alegres, para continuar as funcções animaes. Viviam para credito da physiologia: eram duas pessoas que se adoravam e faziam reciprocamente o seu chylo em um só orgão. Tinham um coração, um figado, e um pancreas para os dois. N'esta vida vegetal havia ternuras cupidineas como as das cylindras e acacias florecentes; e, quando extravasavam da orbita physiologica, jogavam a bisca de trez; mas ordinariamente entretinham-se mais com o burro.
De S. Miguel de Seide—julho de 1876.
Notas:
[1] Meu caro doutor Thomaz de Carvalho, lembra-se d'elle ha oito annos, noHotel Gibraltar, já encanecido, mas tão galhardo velho que o invejavam os moços?
[2] «Chico Bellas» era D. Francisco de Castello Branco, irmão do conde de Pombeiro. Foi official de cavallaria, teve vida de amores aventurosa e altissima, morreu em 1862 cancerado, podre de embriaguez e de devassidão. Conheci-o, em 1861, idiota, a babar-se, e a pedir um pataco para genebra. Os seus nobilissimos parentes não poderam nada contra o destino d'este homem, que exercitara o magisterio na esgrima, na gineta e na galanteria bruta e… feliz!
[3] Ecloga III doLima.
[4] Cant. 2.^o est. XXXVI.
[5] Alludia á novella intitulada o Senhor do Paço de Ninães.
[6] Vou condensando estas noticias colhidas em um livro do coronel Francisco de Figueiredo, escriptor coevo dos successos. É um tomo que fórma o 14.^o da obra intituladaTheatro de Manuel de Figueiredo. Este livro raro, malissimamente escripto, é precioso repositorio dos costumes portuguezes do decimo oitavo seculo. A proposito do negociante Araujo, informem-se os curiosos desde pag. 632 até 640.
[7] Em provincia nenhuma, salvante o Minho, ouvi ainda empregar este verboregeitar(derejicere) como quem dizarremessar. Arma que fere de arremesso, em bom portuguez, chamou-se antigamenteregeito. O povo usa o verbo que é excellente e onomathopaico. Os minhotos, que fizeram exame de bachareis, e de instrucção primaria (o que é mais difficil), riem-se quando o gentio analphabeto diz: «regeitou-lheuma pedra.»
[8]O Demonio do ouro.
[9] Os realistas usavam nas suas correspondencias termos convencionaes.Luaera o general em chefe Macdonnell. Este general, quando foi batido pelo conde de Casal em Braga, deixou ali um volumoso diccionario manuscripto, curiosamente elaborado pelos realistas de algum vulto lexicologico, com bastantes documentos que hoje estão esquecidos, e mais tarde a historia não saberá onde procural-os. N'este diccionario cryptographico os vocabulos mais engenhosamente disfarçados são estes:
Inimigos—BESTAS.
Inimigos em movimento—BESTAS DESINQUIETAS.
Inimigos em marcha contra nós—BESTAS DE JORNADA.
Os liberaes, se interceptassem a correspondencia, não suspeitariam decerto que os miguelistas chamassem aos seus adversarios—bestas.
Leia-se acarta dirigida ao cavalheiro José Hume, membro do parlamento sobre o ultimo debate havido na camara dos communs a respeito dos negocios de Portugaletc. Lisboa, 1847.
O traductor e annotador anonymo d'esta obra, a mais noticiosa que temos da revolução chamada daMaria da Fonte, foi Antonio Pereira dos Reis, notavel escriptor politico, fallecido em 1850.
End of Project Gutenberg's Novelas do Minho, by Camilo Castelo Branco