O padre Silvestre investiu no ultimo pedido, dando-lhe a forma de objurgatoria. Para ser mais solemne, começouem tom simples, subindo gradualmente até ao intimativo.
Já via na fronte do Centurião um principio d’arrependimento. O grande Deus ia feril-o com um d’esses raios de divina omnipotencia, como ferira Paulo na estrada de Damasco, como ferira o impio Agostinho, e o proprio Moisés na montanha. Não podia consentir-se que vivesse entre christãos, uma alma peccadora e impenitente. A conversão havia de dar-se a preço da propria morte, porque o Senhor usa de todos os meios, para chamar a si as almas!
O filho do Cancella, perseguido d’ameaças, não se commoveu. Porém, quando o pregador o equiparou aos grandes santos, já parecia amollecido no seu espirito de resistencia. O povo chorava e clamava em altos gritos, o peito enchia-se-lhe de ternura e arrependimento. Talvez fosse melhor acabar com aquillo, prostrar-se por terra, como tinha promettido. O pregador mudou o lenço para a direita e concluiu com voz energica e grave:
—Abre esses olhos peccador! Rende-te Centurião!
—Agora!—intimou o Agrella.
O chefe da guarda romana fixou no pulpito um olhar atrevido. Julgou-se indigno da fama que tinha de valente se obedecesse á voz do Agrella. O vinho dava-lhecoragem e audacia. Tomando a lança ás duas mãos, bateu uma forte pancada no pavimento e respondeu ao pregador:
—Tenho-os bem abertos. Não me rendo! Não e não! Obrigue-me!
Depois d’isto a situação ficou inteiramente perturbada. O padre Silvestre teve uma paragem de surpreza. Não sabia o que aquillo queria dizer. Teria havido algum esquecimento ou engano?! Para que o rapaz percebesse melhor, tornou a pegar no lenço, suspendeu-o no ar e collocou-o á direita. Á voz imprecativa do sacerdote, juntava-se o clamor plangente e formidavel do povo. Pois que! O filho do Cancella tinha duvida em reconhecer o enorme poder da Omnipotencia! em se rojar diante do Senhor dos Senhores, do Rei dos Reis! em reconhecer que o Immaculado Cordeiro veio morrer fragilmente na forma humana, só para nos remir e salvar! Estranha e incomprehensivel cegueira! Empedernido no peccado, devia estar aquelle coração. E pediu-lhe de novo que se rendesse, que attendesse á commovente voz de todas aquellas mulheres que o exhortavam e no meio das quaes estaria sua propria mãe.
As pessoas gradas pareciam irritadissimas. O brazileiro Guimarães lembrou-se de o mandar prender; maso desembargador João Xavier, achou isso improprio do logar. Enviaram o Zé Maximo, que lhe disse com moderação:
—Rende-te, diabo! Olha que o homem já está rouco.
—Deixe-o estar!—respondeu succintamente o Centurião.
Todos se mostravam inquietos. Semelhante cabeçudo, merecia boa doze de páu—opinavam.
O pregador estava esfalfado. A sua voz, já pouco distincta, era coberta pelo alarido que enchia a egreja! Ouviam-se supplicas, ameaças, palavras soltas, gritos, creanças a chorar...
O filho do Cancella, de cada vez se inculcava mais firme, no proposito de se não render. Foram pedir ao pae que lhe impozesse a obediencia; porém o velho, que sempre tivera prosapias, mostrou má vontade de interferir. Opinou que o rapaz se renderia quando entendesse, que o deixassem lá, elle sabia bem do seu papel. Não era a primeira vez.
Tudo parecia perdido. O padre Silvestre, exhausto de forças, furioso contra aquelle maroto, arrancou do peito um grito sublime. Com a colera estampada no rosto, dirigiu-se ao povo, e apontou vivamente para o Centurião clamando:
—Aqui d’El-rei! contra aquelle maroto! Prendam-noque foi elle que matou Nosso Senhor Jesus Christo! Povo! Faz justiça por tuas mãos.
Os das confrarias largaram as tochas e correram em tropel. O chefe dos soldados romanos preparava-se, juncto com os seus homens, para levarem tudo á bordoada. Só então é que o velho Cancella se adeantou, agarrando o filho pelo tronco:
—Eh! Zé. Que diabo é isso! Rende-te que já fizestes a tua figura, home!
Elle então, arrumando a lança para um canto, submetteu-se:
—Como vocemecê pede, vá lá! Se não ia tudo razo!
Depois na sachristia, o Guimarães, furioso, disse-lhe:
—Precisavas que te mettessem um páu, entendes? Culpa tive-a eu em mandar o cantaro de vinho. Não eras tu que fallavas, não.
O abbade, esse, mesmo d’estola, quiz-lhe esmurrar as ventas. O pregador é que lhe agarrou n’um braço, socegando-o:
—Deixa-o. Quem lhe hade pôr uma farda ás costas, sou eu. Lá é que ellas se pagam. Moinante!
O filho do Cancella, ouviu-os com ar sizudo, sem responder. A vista toldou-se-lhe quando o ameaçaram. N’um impeto de colera, arrancou as barbas postiças e arrumando com ellas ao chão, disse sahindo para fóra:
—Ainda um raio me parta se eu tornar a fazer de Centurião! Macacos me mordam, se pozer outra vez isto na cabeça!
E atirou ao meio da herva do adro, o bello capacete prateado, que foi ter a distancia.
O abbade, ainda se chegou á porta dizendo-lhe deante dos homens que alli estavam:
—Ah! bom marmelleiro! Levem d’ahi esse odre de vinho, antes que eu lhe ponha os ossos num feixe.
Em casa do pae, custou muito a socegal-o. Foi preciso deitarem-lhe uma chapoeirada d’agua fria para o acalmar. O somno que dormiu, foi de mais de doze horas!
Fevereiro de 86.
Lá está o padre João, a dormir na sua cadeira de braços, debaixo da fresca lata! Peito ao léo, as abas do amplo casaco de lustrina pendentes, breviario para um lado, lenço para outro, caixa do rapé na mão, o ventre arfando pausadamente... É todos os dias assim, depois de jantar, no tempo dos calores. Para avaliar a tranquilidade de certas almas, é melhor sentir-lhe a respiração suave, do que ler, tudo quanto pensadores e casuistas, tem escripto acerca de moral. E julga-se um homem accordado, o sereno eclesiastico, pois regouga palavras incomprehensiveis! Em que bello paiz de sonhos trabalhará a sua ideia?! Sorri-se, o labio papeja-lhe de contentamento... É que está á borda do rio, a canna de pesca firme, o olho interessado, a respiração silenciosa. Rabea-lheem volta da isca e em breve a morderá, o peixe guloso e estupido. A superficie da agua é serena. A transparencia deixa ver o fundo limoso e, talvez, a truta grande, com a magestade do seu nadar, passe altiva, a distancia.
Ah! magnifico padre João, como estaes evidentemente enganado! Os tremulos e repetidos puxões que vos agitam o corpo, ebrio de goso, não são do peixe a depennicar na isca, são as gallinhas em cata de moscas. Ellas é que vos tiram pelas abas sebentas do casaco de lustrina, querido e obeso, padre João!...
O dia era d’agosto e bem quente. Atmosphera tremula e translucida, como se fora de crystal fundido. No rio, as lavadeiras entoavam canticos religiosos aprendidos com os missionarios e modas profanas colhidas dos cegos que passavam. Nos campos em redor, áquella hora, não havia murmurios do trabalho, pois já tinham acabado as sachas e as mondas. As regas, essas faziam-se de noite. Eram duas da tarde e entram no quinteiro os discipulos do latim. Ao verem o respeitado mestre, tão docemente adormecido, deixam-no em paz e vãogazear para os lados do rio. O porco foi menos condescendente. Tardava-lhe a lavagem e principiou a grunhir em volta do quinteiro, parando com o focinho erguido para a cosinha. Este barulho espertou o excelente ecclesiastico. Primeiro abriu um olho, depois outro, conservando-se alguns minutos em contemplação, mãos crusadas sobre o ventre. Parecia contar detalhadamente os doirados cachos que formavam um docel sobre a sua cabeça! Por fim ergueu o tronco considerando:
—Então não me ia deixando dormir?! Pois não é o meu costume. Ó Luiza!—chamou repetindo tres vezes.
Uma voz de dentro da casa respondeu:
—Não posso lá ir. Estou a arranjar a lavagem. Não ouve o pórco?
—Tem piedade de mim, moça—exhorou o padre João. Tenho esta bocca como um pau velho.
—Tambem, está sempre com seccuras!
Mas a rapariga compadeceu-se. Primeiro que tractasse do porco foi á adega, trouxe uma infusa de vinho, collocou-a desceremoniosamente no chão, juncto do amo que disse:
—Deus t’o pague mulher! Deus t’o pague! Se não fosse isto, nem hoje podia dar lições.
Com sorriso beatifico, pegou na infusa, repimpou-se na cadeira e começouglou, glou, glou... até um final de saciedade, que consistiu n’um prolongado ahhh!...
A creada, voltando com a lavagem, disse:
—Já ahi vieram os estudantes, mas como vocemecê estava de papo p’r’o ar, lá se foram derriçar co’as raparigas p’r’o rio. Não lhe tem respeito nenhum—censurou.
—Que respeito queres tu que me tenham?! Deixa-os lá, esta vida são dois dias. Gostam das moças? Tambem eu já gostei... e ainda gosto—concluiu arregalando olhos bregeiros.
—Um padre velho, sempre falla d’um modo...
—Historias! Velhos são os farrapos. Vae-me chamar esses estudantes. Se não aprendem latim, não serão nada. Latim é a base. Vae-os chamar, anda.
E acabou de emborcar o resto da infusa, com um beber sereno de satisfação. A creada reprehendeu-o:
—Todo elle é vinho. Quando não está, p’ra lá caminha.
—O que, bebedo? grandissima cachorra. É coisa que nunca me viste, mentirosa. Gosto da pinga e de ti; mas não me embebedo com estas coisas.
—De mim! Arreda, que me quero casar.
—Com esse garotaço que te namorisca? Has-de casar sem banhos, nem benção, eu t’o affianço. Vae-me alli chamar os estudantes, anda.
—Vá você, que tenho a massa a aziumar. Se hade tornar a adormecer...
Luiza subiu a escada de pedra para a cosinha. O padre João levantou-se sem resistencia, sahiu o portal e foi pelo carreiro abaixo, com o lenço vermelho a resguardar-lhe a cabeça, do sol. Chegado á margem do rio, lá viu os discipulos brincando com as lavadeiras. Muitas d’ellas levavam a coisa de galhofa; outras enxotavam-nos com pragas. O professor não se encolerisou, apesar de alguns estarem a fumar—o maior de todos os vicios, e que elle odiava do fundo d’alma. Toda aquella alegria e mocidade lhe arejou os sessenta annos. Enamorado da juventude, quedou-se a contemplar o quadro cheio d’animação. Benevolo e risonho, fatiava comsigo mesmo.
—Não querem ver como se arreitam? Ora, ora, já a formiga tem catarrho!...
Levava o lenço ao nariz para enxugar o pingo da distracção. Escondido por detraz d’um choupo, interessava-se na contemplação d’este quadro virgiliano. Absorvia a fundos haustos o ar impregnado de terriveis prazeres,que lhe revolviam os nervos. Recuava quarenta annos, ao tempo das rapasiadas, dos bons acasos, quando apalpava contornos e sentia na approximaçâo da carne, coisas de mil demonios. Talvez que ainda recuasse mais, á famosa edade em que a imaginação trabalha inquieta, creando gozos, adivinhando extasis e vive de imperiosos desejos, que entumescem. A physionomia graciosa do padre João, expandia-se á vista do quadro simples e primitivo—o beiço tremulo revelava o seu interior. A paisagem era encantadora, a corrente da agua arrepiava-se nos seixos; na mente do mestre de latim só podia haver quadros pittorescos de antigos faunos, a rirem juncto de fontes, em florestas edylicas.
—Olha o Esteves—commentava—como repara nas pernas da Clementina! Grandissimo tratante! Talvez não saibas oSum, és, fuie estás ahi com esses olhos. Como já tem malicia! Mas que maliciasinha! mas que maliciasona!
Limpou precipitadamente outro pingo. Humedecia os beiços com a lingua, como o guloso de bellos manjares. Tudo aquillo o interessava. Sentou-se na relva por traz da arvore. Tomou uma abundante pitada, fungada em tres tempos, com todas as precauções para que o não presentissem.
—Ahh!!!...—respirou.
Queria ver onde aquillo chegava. Não podia ser grande coisa, estava muita gente, as mulheres velhas são experientes. Alguma apalpadella, um empurrão, talvez cocegas para fazer cahir as raparigas. Lá adeante, no meio do salgueiral andava a Victoria a estender a roupa e cantava oAfasta,janota,arreda. O padre João via-a pelas costas, o tronco inclinado sobre a relva, as ancas largas, as rijas barrigas das pernas, á mostra. Rapariga saudavel, muito alegre, amplo seio destinado a fecunda maternidade. Disiam que namoriscava o filho do sachristão; mas de quem ella parecia gostar verdadeiramente, era do praticante da botica, que lhe dava fartura de banha de cheiro, para o cabello. Trabalhava distante das outras lavadeiras, no coradouro, e para molhar as teias que lhe estavam confiadas, mettia-se no rio até aos joelhos, atirando agua ás manadas. O sol faiscando sobre a areia do seixal enlanguescia os corpos, estonteava as cabeças. A Victoria desappareceu entre os salgueiros, para os lados onde não havia gente. E pouco depois, o discipulo mais graúdo do Padre João, o Thomaz do mercador, para lá se dirigiu, assobiando disfarçadamente.
—Olhem o moinante! Não querem ver?—rugiu o mestre do latim.
Porem, mais longe, n’uma clareira, a moça, reappareceu.O padre d’alli mesmo se pôz a vigiar, que não houvesse qualquer coisa. O estudante encontrou-se com a lavadeira, quiz effectivamente agarral-a, mas a rapariga esquivou-se-lhe, correndo adeante d’elle, furtando-se por entre troncos d’arvores. O ecclesiastico para ver melhor, levantou-se, seguia-os com prazer, inclinava-se para um lado e para o outro, punha-se nos bicos dos pés.
A Victoria a dar gargalhadas condescendentes, gritava pelas companheiras, ameaçava com um gougo o preseguidor. «E pilha-a.» «E agarra-a...» «Agora... fugiu...» «Lá cahiram ambos...»—ia elle commentando, comforme os cambiantes da lucta.
—O diabo é o Thomaz! Não escolheu mal o patifão—considerou, quando os dois, junto um do outro, conversavam sensatamente.
Mas o aspecto de conciliação perturbou-se. O estudante perseguiu de novo a rapariga que lhe fugia, gritando. A Lindoria ouvindo, correu para o sitio, cheia de fervor beato.
Ralhou, esbracejando descompostamente. A sua gritaria era para denunciar o rapaz, ao longe: «Maroto,metta-se com quem lhe der trela, não ande a desinquietar as almas». Ameaçou o estudante com o pae, com os missionarios, com uma queixa ao professor, com o inferno.
—Ah! tambem não é coisa para tanto—disculpava o sacerdote comsigo. Elle não fez mal nenhum.
Mas Lindoria não era d’este modo de pensar. Como Thomaz e outros companheiros lhe retorquiram com palavras feias, ella enfurecida e descomposta, subiu pelo carreiro, mesmo direita á casa do padre João. E berrava pelo caminho:
—Seus tratantes. Hão de dar grandes padres ou doutores. Padres! Abrenuncio! Eram capazes de dar cabo do reino dos céus. Ah! Vossa Senhoria já ahi vem? É que ouviu esta pouca vergonha!
Tinha dado de frente com o ecclesiastico, que retrocedera no caminho, para fingir que vinha de casa. A Lindoria, presumindo-lhe a ideia da procura dos discipulos, indicou-lhos:
—Estão alli senhor. Tire-lhes a pelle das mãos pelo amor de Deus, pelas cinco chagas, senhor padre João. Olhe que não sabe os marotos que tem!
A figura do mestre de latim, quedou-se respeitavel no alto da ladeira. Com um gesto largo de commando, appontou aos discipulos o caminho da aula.
Vieram todos junctos, como um cardume de peixes. O sacerdote caminhou adeante, sem os esperar, com o lenço vermelho pela cabeça, as abas do casaco afastadas como dois remos. E susteve-se um momento voltando-se para traz, com o fim de os increpar:
—São estas as horas d’aula? Eu ha um rôr de tempo á espera!...
A beata ainda lhe quiz contar tudo, mas o padre João nem a quiz ouvir:
—Não me dás novidade. Conheço-os. Deixa-os por minha conta.
Os estudantes seguiram-no, com semblantes de pouco temor. Já tinham experimentado mais vezes aquella farronca. Eram, quasi sempre, os dias mais serenos e benevolos.
Debaixo da varanda alpendrada, onde o ecclesiastico dava lições de verão, que se iria passar?
O padre João fazia um barulho da breca. Movendo-se com uma presteza desusada, foi ao quarto buscar a palmatoria, para amedrontar. Não se queria ver entre os dentes de Lindoria, que era capaz de lhe inventar a peior fama. Aquellas paredes e aquella figueira, habituadas ás objurgatorias tytanicas de Tito-Livio, aos versos amplos do melodico Virgilio, ás palavras conceituosas do velho Horacio e de Esopo, deviam estar atemorizadas, pela subita colera do professor.
Chegou a parecer iracundo—o sobr’olho carregado, os beiços estendidos, o rosto afogueado. Os rapazes curvados sobre os livros, já se não riam. O padre, abrindo o Virgilio, disse desabridamente:
—Tradusa as Eclogas, senhor Magalhães. O senhor Thomaz emenda. Por cada erro uma palmatoada no primeiro e duas no segundo. Vamos a ver se são tão fortes em analyse, como na bregeirice.
Os mais pequenos, com as grammaticas abertas sobre os joelhos, estavam pallidos! Nunca o tinham visto assim! Respirava-se alli uma atmosphera de terror. O mestre tinha baforadas de colera, batia com a palmatoria sobre a meza, arrumava os livros com impeto. O seu fim era crear em volta de si, um ambiente de respeito.
A consciencia gritava-lhe que não seria bastante punidor; mas estava resolvido a amedrontar a propria consciencia.
Para estabelecer uma intransigencia material entre si e aquelles que ia julgar; para se recolher absolutamente no grave papel de juiz, cobriu o rosto com o Virgilio. Não desejava ver os reus. Nenhum aspecto de humildade ou compuncção o tocaria!
O Thomaz era o melhor dos seus estudantes. Traduzia Virgilio com elegancia, penetrando-lhe as subtilidades litterarias. Foi elle quem principiou a licção e não o Magalhães, como ordenára o professor. O padre João conheceu a manha. Deixou-se enganar, até lhe achou graça. Um ligeiro sorriso (o primeiro na tempestade do seu rosto), abriu-se como uma flor de cacto.As paisagens tepidas e enganosas, d’uma suavidade extensa, principiaram a desenhar-se-lhe deante dos olhos. Tityro e Melibeu philosophavam na sua linguagem culta e suave, como o murmurio dos regatos. A pastora das florestas, idyllicamente á sombra das arvores, dizia do seu peito coisas ternas ao pegureiro amado, que tangia frauta rude, juncto d’um ribeiro. O verso sahia claro, levantando-se n’uma cadencia adormecedora. Havia as messes côr de manteiga, enchendo de riqueza o valle; na encosta estendiam-se rebanhos de cordeiros, que balavam por suas mães. Esta completa abstracção de materialidade, foi gradualmente enternecendo o mestre encolerisado.
Ao fim de poucos minutos, já respirava uma atmosphera de bondade natural; havia descoberto o rosto incauto. Não déra pela transição. Foi acompanhando em voz alta o discipulo que em breve o deixou só, limitando-se a ouvil-o. Pouco depois, o professor estava de pé, no meio da varanda, lendo com enthusiasmo, elevando-se nas maravilhas da comtemplação egoista do poeta! Desapparecera o mestre iracundo, não havia palmatoria. Boquiaberto, deante dos discipulos, exclamava:
—Como isto é bello! Como isto é bello!
Foi-se á caixa do rapé, tomou farta pitada, fungou-a sem rebuço, de pernas escachadas. Cahiu extenuado deprazer, na sua cadeira magistral. O Thomaz, que era velhaco, aproveitou o momento para dizer:
—Não sabe o senhor padre João, o que nós vimos ha boccado?
—Que foi?—perguntou.
—A truta grande, a serenar, encostada á pedra branca!
Tornou-se pallido e extatico! Endireitou-se na cadeira e disse, esforçando-se por se mostrar tranquillo:
—A truta grande, que anda ahi no rio!?
—Vi-a com estes.—insistiu o discipulo. É assim!— designou o comprimento d’um braço.
Estes maliciosos conheciam-lhe o fraco, como toda a gente. Muito mais do que apaixonado amante dos classicos latinos, era um pescador de canna. Esta paixão soturna é que lhe enchia a existencia. Por ella esquecia deveres sacerdotaes, obrigações escholares e a propria comida. Borracha á cinta, um naco de brôa, azeitonas... e lá andava um dia inteiro, pela margem do rio, para baixo e para cima, a cocar. Principalmente se o peixe picava, se enchia o cacifre, o seu gozo era infinito. Só para algumSenhor fóraé que tinham ordem de o chamar, com tres badaladas no sino da torre. Esta ideia d’um moribundo se preparar para ir á presença de Deus, era mais forte. E resmungava ao enrolar a sedela:
—Como é para coisa d’estas, não ha remedio.
N’estes termos, habil foi o estratagema dos discipulos, para se lhe apoderarem do espirito benevolente, e conseguirem o sueto que desejavam.
O caso, apontado pelo Thomaz, era grave. Haviaannos que elle, ao desafio com o morgado da Torre Velha, procuravam a gloria de pescar a famosa truta grande! Era um animal matreiro, raramente se mostrava fóra d’um fundo poço, onde as redes se não arriscavam.
Juncto da pedra branca, só a tinham visto, duas ou tres vezes. A revelação do discipulo fez com que o padre João desconhecesse immediatamente os encantos bucolicos de Virgilio, as pompas litterarias de Tito-Livio. Deante de si, não tinha o criminoso que minutos antes lhe arrancára berros de colera; só via o individuo, que possuia um conhecimento para elle inestimavel.
—Então era a truta grande! Tu vistel-a bem?! Tu conhecel-a?!
—Se vi! Se conheço! Estava a serenar muito junctinha á pedra. Quando vinha á tona algum bichinho a rabear, ella nadava depressa e, zaz, abocava-o, dando um pulo fóra d’agua.
—Oh! com mil demonios!—exclamou.—Oh! minha Virgem Santissima, que lhe vou metter o anzol, mesmo na guela!
E depois um pouco mais sereno, no abatimento produzido por uma onda de gozo considerou:
—Ha quantos annos ando eu atraz d’essa ladra! Odia hoje está quente... Sol de trovoada, é bom p’ra coisa! Que dirá o D. Luiz, quando souber?...
Mostrava nas palavras verdadeira energia de luctador; o seu campo de batalha era aquelle.
De entre muitas cannas, suspensas ao longo da parede da varanda, escolheu a que tinha ponteira mais flexivel e resistente. Da gaveta da sua banca de professor, tirou uma sedela de côr verde-agua.
Calculava tudo para ficar victorioso, n’esta peleja que durava annos. Alli não havia mestre, nem discipulos. Os rapazes davam-lhe conselhos, offereciam-se para ir ás minhocas, e o Thomaz achou muito grossa a sedela:
—És tolo—retorquiu o mestre. Não ves que é uma truta do tamanho d’um savel! Se a apanho, vocês tem feriado tres dias! Como ficará o D. Luiz? Ai! que regalo.
O morgado da Torre Velha era o seu competidor na pesca á linha.
Encontravam-se frequentemente n’este desafio tacito. A cada peixe que um encacifrasse, o outro fazia umcumprimento espalhafatoso, mas odiento. Ambos se julgavam com eguaes direitos, á creação de todo o rio. A truta grande, porém, como um e outro tinham jurado apanhal-a, era motivo de mais grave conflicto. Por causa d’ella tinham feito pesquizas especiaes. Iam de noite, de dia, nas occasiões das cheias para juncto da azenha; porque, de vez emquando, o formoso animal vinha-se alli refrescar, nas aguas correntes.
Estudavam em separado, os estados climatericos, para calcularem o momento proprio de conseguirem o seu fim. Quando a qualquer d’elles parecia opportuno, tomava a canna precipitadamente, e ainda que o jantar estivesse na mesa, abalava para o rio. Muitas foram as desillusões, fadigas e contrariedades; mas tudo venciam com tenacidade heroica. A dormir e acordados tinham momentos de subito terror: cada um via o outro, apparecendo victorioso, com a truta presa do anzol, usando de mil habilidades para a trazer á margem, sem partir a sedela. Porém n’esta occasião o mestre de latim (talvez ainda resto do espirito de rigorismo com que entrára na varanda) entendeu que devia continuar as licções e disse encostando a canna ao canto:
—Vamos primeiro acabar as licções.
Os discipulos entreolharam-se aterrados! Por esta é que elles não esperavam. A lembrança feliz não sortira effeito. Uma risonha invenção, reduzida a nada. O plano de irem roubar n’essa tarde certas uvas doiradas, completamente gorado! Todos os rostos se voltaram para o Thomaz, que estava cabisbaixo e confuso. Porém, neste apuro, foi o sonso do Esteves, que fallou:
—A estas horas, já está por lá o senhor D. Luiz, com a sua canna...
O padre João, deu um pulo na cadeira e perguntou rapidamente:
—O senhor viu-o passar!?
—Não senhor; mas no outro dia pediu ao moleiro que, quando ella por alli apparecesse, o mandasse chamar.
Era quasi tão terminante como se o tivessem lá visto. Seria mais acertado partir immediatamente, antes que o da Torre Velha tivesse denuncia. Tornava-se indispensavel tomar-lhe a deanteira.
—Bem, bem... Essas licções na ponta da lingua para amanhã. E não me vão para o rio, por causa das lavadeiras. Não gosto da lingua da tal Lindoria, que vae por ahi badalar... badalar...
Partiu de canna ao hombro e n’um passo diligente.Deus nobis heac otia fecit—segredava comsigo. Os discipulos fugiam para o outro lado, com medo que ainda lhe desse a tineta, de voltar para traz. Corriam pelos caminhos, davam saltos, guinchos... O Thomaz relembrou-lhes o que disse o padre João, porém elles, não se importaram, continuando a correr e a gritar sem fazerem caso.
Na margem do rio, o sacerdote, armou-se de todos os cuidados para não ser presentido do esperto animal. Ao dirigir-se á pedra branca, os passos eram miudos, evitando as folhas seccas, que gemem debaixo dos pés.
Que enorme prazer de vingança! Iria passar á porta do morgado, com a truta pendente da mão. «Olha lá! rala-te p’ra’hi!»—havia de dizer mentalmente. Nunca houve bandido que espreitasse com mais sagacidade a sua victima.
Já de longe levava a canna prestes, a sedela colhida na mão para a lançar imprevistamente. Estava a pouca distancia, quando estacou, pallido de colera! O D. Luiz, surgíra n’esse momento da porta da azenha, seguindo rio acima com o anzol tambem prompto!
—Olhem o excommungado do barbaças que teve denuncia!—exclamou o ecclesiastico. Bem disseram os rapazes!
O fidalgo, homem edoso, corpulento, tez morena das soalheiras, olhar emprehendedor, tambem o viu e, provavelmente, faria identicas reflexões.
Comprimentaram-se com sorriso desdenhoso e n’esse instante abriu-se entre elles uma lucta colossal.
Estavam quasi a mesma distancia. Approximarem-se atabalhoados era inconveniente. Tanto um, como outro comprehenderam a gravidade do momento. O peixe era um só e decerto não teria a condescendencia de pegar nos dois anzoes ao mesmo tempo. O padre João humildou-se. Fez ao inimigo um signal em que pedia uma tregua, com o fim de parlamentarem. As circumstancias exigíam prudencia e ambos se afastaram da margem, para virem á falla.
O padre disse primeiro:
—Assim não póde ser, morgado. Nem p’ra mim, nem p’ra Vossa Senhoria!
—Que quer você que lh’eu faça? O rio não é grande?
—Mas a truta é uma, e se vamos á porfia escapule-se. Vossa Senhoria sabe que ella está alli.
—Palavra que não! Porque diabo não está você a dar aula aos seus rapazes?!
O sacerdote, zangado comsigo por lhe ter denunciado a truta, não pôde supportar-lhe a censura:
—E porque diabo não está o senhor a dormir a sua sesta! Ora é muito fina!
Estavam furiosos um contra o outro; mas a occasião era inopportuna para se descomporem. N’esse momento, juncto da pedra branca, a superficie do rio enrugou-se, a agua espadanou e um peixe enguliu um insecto que vinha nadando.
—Seria ella?—rugiu o D. Luiz, com vontade de matar o padre.
—Ná...—opinou este fazendo-se forte—Ella ha de fazer mais mossa.
No fundo ambos acreditaram que podia ser. «Maldito sotaina!» «Maldito barbaças!»—insultaram-se mentalmente.
—Bem—disse o padre. Dois ao mesmo tempo é que não póde ser. Quer Vossa Senhoria que se tire á sorte quem ha-de ir?
—Valeu—concordou o fidalgo.
D. Luiz tirou um pataco do bolso e perguntou:
—Cruzes ou cunhos?
—Cruzes que eu sou padre. Agora trapaceie, se lhe parece.
—Não tenho os seus costumes, seu bebedo!—respondeu o fidalgo, mostrando na palma da mão as cruzes da moeda.
E atirando ao ar o pataco com força, viram-no cahir a distancia. Os dois pescadores correram cheios de commoção.
—Cunhos!—gritou o morgado ao ver a papuda efigie do rei D. João VI.
O padre João acceitou resignado a sentença. Encostou a um valado a canna, tirou prodiga pitada da caixa de prata e foi-se sentar n’uma pedra trauteando cantochão, talvez pela mesma razão que tem os condemnados á morte, para pedirem que rufem os tambores, junto do cadafalso. D. Luiz augmentava-lhe o supplicio, caminhando vagarosamente para a margem. Dois annos de pesquizas e cuidados iriam terminar n’aquelle instante, pela victoria do seu adversario? Desappareceria aquelle tropheu de gloria, que lhe dera tantos sonhos enthusiastas? Principiou a cantar alto, desvairado por um sentimento de malevolencia. O da Torre Velha advertiu-o:
—Isso é para espantar, padre João?
Callou-se ficando n’um abatimento triste.
Ia presenciar a sua vergonha. O dia estava magnifico. Com ar de trovoada o peixe pica, que nem mil diabos! E figurava-se-lhe na imaginação a truta grandede guela aberta, aboccando a minhoca do barbaças. Era horrivel e desoladora esta possibilidade!
Mas porque é que o cubiçado peixe não havia de fugir? A maior parte das vezes é o que succede—consolou-se. A elle mesmo não lhe tinha acontecido? Ella a serenar, a serenar, muito quietinha, deante dos seus olhos, nem parecia coisa viva... Procurava o lado de cima, lançava o anzol a distancia para vir nadando pela agua a baixo como um bicho inexperto, e afinal, a truta que para elle era o animal mais intelligente da creação, escapulia-se por entre os penedos, que era um regalo! Quantas vezes isto lhe succedera? Uma infinidade.
Ainda outra consideração:
O morgado não era grande pescador de linha. Ignorava muitos segredos da arte sublime e não possuia todos os petrechos. Teria elle escolhido uma sedela bastante verde-agua para não ser percebida, e bastante forte para resistir aos repellões do valentissimo animal?! A truta é o peixe mais valente do rio, tem uma força que poucos apreciam. Talvez o seu antagonista não soubesse calcular essa rijeza—considerou.
Porém a gravidade do caso parecia ter dado ao D. Luiz uma intelligencia agudissima. Atirou calculadamente o seu anzol e seguia pela margem, com o olho álerta e prompto a dar a pancada, logo que chegasse o momento. O padre João teve vontade de fingir uma dôr, só para o perturbar. A anciedade do seu peito, crescia tumultuariamente, como oceano em furia. Aquella alma bondosa, teve a ideia repugnante de desejar uma apoplexia ao fidalgo! Mas reconhecendo-se criminoso, por este mau pensamento, poz o coração á larga, tornou-se magnanimo e até, mentalmente, pediu a Deus, que deixasse o morgado pescar a truta grande. Mas o da Torre Velha relanceou-lhe um olhar triumphante e o padre João, logo mudou de parecer, rosnando:
—Ah! ladrão! que se ella te foge muito me hei de rir.
O instante verdadeiramente supremo ia chegar. O anzol já se podia calcular perto da pedra branca.
Que infernal chamma abrazava o peito do ecclesiastico!? Poz-se de pé, só para seguir nas minudencias toda a peripecia. O fidalgo, attento e subtil, empregava o maximo da sua intelligencia.
Afinal, sente a pancada! Curva-se a ponteira! O peixe estava preso!
—Ah! grande maroto, que m’a roubaste—exclamou o ecclesiastico.
O instincto obrigou-o a ser generoso. Gritou ao D. Luiz:
—Agora é não a deixar fugir.
—Elle é o deixa—respondeu com orgulho, o da Torre Velha.
Começou a lucta heroica entre o fidalgo e o peixe. O animal era valente, podia quebrar a sedela, se o quizesse tirar sofregamente do rio. Tambem podia acontecer rasgar-se-lhe o beiço ou metter-se debaixo d’alguma lapa, se não tomasse precauções. Para obstar aos inconvenientes era indispensavel cançal-o, com paciencia e perspicacia. Por isso D. Luiz attrahiu-o a um logar conhecido, e alli o deixou rabear, defendendo-lhe o mysterioso poço, onde a truta se podia enredar n’alguma raiz. Puchava-a vagaroso e com delicadesa, consentia-lhe prudentes guinadas para o largo, dava-lhe linha calculadamente.
Ao fim de cinco minutos, tanto o fidalgo como o padre João, reconheceram que o peixe estava prompto. Condescendia, deixava-se ir para onde o levassem, mostrava-se fatigado e manso.
O sacerdote, já resignado, seguia todas as manobras sem rancor.
—Ande que apanhou—disse. Puche-a para perto e deite-lhe a mão debaixo d’agua, se não, ainda a vê por um oculo.
O D. Luiz aproveitou o conselho.
Attrahiu manhosamente o peixe ao sopé do muro, para que lhe ficasse debaixo d’um terrouço. Depois desceu; deitou-se de barriga, tão baixo que as barbas lhe tocavam na agua; introduziu um braço, guiando-se pela sedela; e, quando conheceu que lhe tinha um dedo na guelra, disse victorioso:
—Esta já não foge, padre! Que bruta que ella é!
Retirou o braço da agua, ergueu-se, ficando com o peixe pendente.
—Olhem o que é! Um barbo!... um peixe reles!—exclamou o sacerdote.
D. Luiz da Torre Velha, assim ludibriado pelo acaso, teve a ideia de atirar com o barbo á cara do padre! Porem era uma injustiça—considerou. Que culpa tinha de tudo isto o mestre de latim?! O seu abatimento, gerado na fatal desillusão era patente. Pegou na canna, nasedela, no cacifre, no peixe e... zaz!... atirou tudo ao meio do rio.
—Nunca mais! Póde ter a certeza de que nunca mais volto a isto—affirmou retirando-se.
Abril—85.
Isto passou-se no tempo dos animaes fallantes:
Um velho corvo, tendo de edade perto d’um seculo, n’um dia de muita chuva e vento, veiu, já sem forças, poisar na beira d’um telhado. Este valente da amplidão dos ares, tinha perdido toda a arrogancia do seu porte; encolhido e a tremer não se podia já ter nas pernas. A extremidade amarellada das suas pennas, outr’ora tão negras, mostrava que padecia de velhice e de fome. Ao habitante eterno dos penhascos sombrios, ao motejador das tempestades que assustam os homens, coube-lhe o vir dar o ultimo suspiro da sua longa vida, perto do comedoiro farto e luxuoso d’um vulgarissimo papagaio real. Este, de papo cheio, e aquecido pelo ar tepido da cosinha, ao sentira queda do corpo enfraquecido do corvo, perguntou d’um modo gracejador:
—Que é lá!? Quem passa?
Uma voz quasi soluçante, conservando a meiguice dum peito corajoso, e o vigor do suspiro d’um general moribundo nos campos de batalha, respondeu:
—Gente de paz, amigo. Descanço um momento.
—Olha um corvo!—gritou o papagaio cheio de medo. Aqui d’el-rei que me come! Antonio, acode!
Mas o corvo, com uma voz tranquilla e cheia de bondade, serenou-o:
—Não te assustes... Não tenhas a meu respeito a opinião do povo, que é errada. Sou meigo e infeliz. Tive filhos, casa, uma companheira de muitos annos e tudo isto me roubaram os homens. Durante a minha vida d’um seculo, tenho visto mais barbaridades praticadas pelos corações piedosos, do que todas as que attribuem á minha raça maldita.
O papagaio, ainda receioso, mas cheio de curiosidade perguntou:
—Então não és feroz e cruel como dizem?
—Não. Tenho affectos; no alto dos meus queridos rochedos, muita vez escutei com prazer o canto dos passaros nossos irmãos e a alguns quiz imitar. Amigos meus e meus irmãos viveram entre homens, tornaram-sefamiliares, chegando a comprehender a linguagem que se falla. Eu sempre gostei do ar forte e da liberdade das montanhas. Hoje enfraquecido e cheio de fome fui arrumado para este telhado, pelo vento que toda a vida escarneci. Ha muitos dias que não como, dás-me alguma coisa d’isso que ahi tens?
—Não posso—respondeu o egoista.—O meu arroz mal chega para mim... Tu tambem o não comias. Do que mais gostas, segundo dizem, é de carne podre.
—Que remedio tenho eu, á falta de melhor? É o unico alimento dos infelizes que vivem nas solidões. Comemos tudo... a fome é negra. O teu arroz cheira tão bem... Dá-me um bocadinho? Poucos minutos me restam de vida. Deixa-me ao menos aproveitar da tua comida, isso que tu deitas fóra e desprezas.