DOIS CATURRAS

Conservou-se alguns momentos silencioso e ar dubidativo. Em seguida esclareceu:

—São sortes. Elles vieram morar em frente da minha casa. As filhas d’um visconde que havia na terra, iam pra lá aprender o francez, o piano e a grammatica. Porque aquillo é uma senhora que sabe tudo—repetiucom vaidade. E bem fallante? nunca vi outra! Aquelles janotas iam conversal-a da rua para a janella e ella sota e az a todos. Que regalo de mulher! O delegado que lá estava ao tempo, disse deante de mim que em philosophias, não encontrára senhora como aquella. Vi muitos homens embasbacados a ouvil-a. E que homens! O desembargador João Xavier que era conhecido em toda a parte. Caramba! que mulher tão esperta!—pronunciou batendo uma palmada na coixa. Pena é que tenha a cabeça leve como uma folha secca.

—E vae, todo cheio de enthusiasmo, namorou-se da lisboeta...—presumi.

—Não senhor—esclareceu—nem tal me passava pela lembrança, se não fosse ella. Eu bem via que não era homem para aquillo. Ella é que principiou comigo de volta, a rir-se para mim, a espreitar pela frincha da janella, a fazer-me tagatés... Não sabia o que tudo isto queria dizer, palavra d’honra! Olhava para mim e via que não podia ser. Principiei a andar assim a modo de esquisito, a não saber o que tinha. Um dia diz-me ella, semtirtenemguarte, que eu era um viuvo ainda muito geitoso. Fazem lá ideia! Logo que ouvi tal, d’aquella bocca linda como a maçan camoesa, e com a graça e esprito que ella tinha em todas as coisas, senti cá por dentro taes esfregações, que não fazem umaideia! Caramba! até perdi o comer! Andava assim a modo de tonto, pesava as coisas tão mal na loja, que era uma risota. E então securas? Todo eu era um forno. De noite principalmente passava o tempo a beber agua e em vez de dormir vinha-me prantar á janella, com os olhos pregados na casa onde morava aquelle demonio tentador, que foi a minha desgraça.

—Era uma paixão—conclui.

—E uma paixão furiosa—acrescentou o meu amigo.

—Sei lá que diabo era! Foi uma grande bebedeira. Parece que me tinham dado alguma bruxaria a comer. D’ahi por diante nunca mais dei conta de mim. Não era Lucas Baptista que fallava, era outro homem. Tinha-a sempre diante dos olhos, quer de dia, quer de noite. As santas da egreja, inclusiva Nossa Senhora—Deus me perdoe!—pareciam-me feias em comparação d’ella. Um dia tirei-me dos meus cuidados e pilhando-a a geito na janella disse-lhe: «Uma casa sem uma dona é triste como um campo de milho sem sacho!»

—E ella entendeu-o?

—Sei lá! Deu uma gargalhada e sahiu da janella.Fiquei assim a modo de parvo. Se se tivesse rido de mim, se andasse a fazer chacota, é porque me ia deitar na levada da azenha e nunca mais appareceria. Mas voltou logo depois e com um sério muito sério, pôz o dedo no nariz a dizer-me que lhe não fallasse assim da rua, que lhe podia arranjar alguma fama. Eu então tive um baque no coração e disse de só para só: «Ella quer!» Logo que encontrei modo perguntei-lhe em segredo: «Deseja a menina ser a dona d’esta casa?» Mas quando estas palavras me sahiram da bocca, vi abrirem-se-me debaixo dos pés as chammas do inferno.

—Porque! Ella disse que não?—perguntou o meu amigo.

—Qual! Pois isso é que foi. O demonio da serpente tentadora, com uns olhos d’uma maganice que os senhores não fazem ideia, responde assim, para só eu ouvir: «Isso é com meu tio!» E sae da janella, indo tocar no piano uma modinha de que eu gostava tanto que até me fazia arrepios. Caramba! Aquillo fez-me cá por dentro tal arrepanho, deu-me tanta alma e coração, que desejava ter de meu o mundo inteiro, só para lh’o dar e fazel-a princeza. Podia lá ser! Um velho, um estupido, que só sabia pesar arroz e bacalhau e contractar em gados, casado com aquella senhora, tão bem fallante e tão linda!... Eu só queria que os senhoresconversassem com ella! Desembaraçada e litterata como aquillo não ha. Vá lá o mais poeta dar-lhe mote, sem vir com a cara a um lado! Os paes d’ella eram gente grauda cá de Lisboa e o tal tio, honra lhe seja, deu-lhe educação de espavento. Ainda hoje lhe quero bem só por isso! A tal viscondessa de quem a D. Rozita do major, (era assim que lhe chamavam lá na terra) ensinava as filhas, era uma creada ao pé d’ella. Uma senhora de mão cheia, lá isso valha a verdade.

—O amigo Lucas sabe a historia da nossa mãe Eva e a da maçan que Adão comeu?—perguntei.

—Ouvi bastas vezes explicar isso lá ao abbade. Pois a gente não é de pau, é de carne e osso, caramba! Logo n’esse dia o major entrou-me na loja a comprar charutos. Era assim um home todo arroganças, sempre a retorcer os bigodes e a dar com o chicote nas calças. Ainda bem conservado, talvez uns dez annos mais velho do que eu. Chamei-o para traz d’umas saccas d’assucar, que lhe queria dar duas palavras, em particular. A minha loja era grande como um armazem! Fazia muito negocio e todos os mezes tinha pagamentos de duzentos, quatrocentos e mesmo seiscentos mil réis aos caixeiros do Porto, que iam ás cobranças. Ás vezes havia mais que um pagamento. Bah! nem me quero lembrar! Tudo perdi, por causa d’aquella má mulher, que foi a minha perdição. Nunca mais a tornei a ver, não sei onde diabo se metteu; mas se um dia a encontro, ainda perco a cabeça e chacino-a, como se faz aosporcos. Para mim hoje tanto se me dá da costa d’Africa, de morrer no Limoeiro, ou d’um tiro, como se me dá da primeira camisa que vesti—terminou com desespero.

—Mas o major. O que disse o famoso major?—perguntou interessado o meu amigo.

—Ora... uma lenga, lenga. Principiou macambusio, a retorcer os bigodes... Eu que nunca fui medroso, nem peco, pois muitas vezes venci a tiro os guardas de alfandega na raia, por causa do contrabando, tremia como varas verdes. Se elle me diz que não, espetava uma faca na minha propria barriga. Porém, não disse. Mastigou em secco... mastigou... que era o diabo; grande differença de edades; ella sempre tinha vivido com muita decencia, mas não tinha nada de seu; que eu precisava de outra mulher... E dava com o chicote pelas saccas do assucar, e encolhia os hombros e passeiava d’um lado para o outro, sem atar nem desatar. Este aranzel puchou por mim e disse: «Ó senhor major, eu bem sei que a não mereço; mas se ella, assim mesmo como eu sou, me quizer e se eu tiver meios com que lhe conservar todo o luxo que tem, o senhor não diz que não?»

—Ora, agarrou-lhe com as duas mãos—entendeu o meu companheiro.

—Não é tanto assim! Que não tinha nada com isso. Tinha-a creado; mas não era sua filha. Demais já tinha passado a edade, podia fazer o que quizesse. O que lhe custava era separar-se d’ella.

—Ainda é vivo o major? perguntei.

—Não senhor, morreu d’um ataque, era um grande borrachão. Só o vinho do Porto que elle me bebeu lá da loja?! Ficou-me a dever mais de cem mil réis! Adiante. Por ultimo disse que sim; mas pediu-me quasi a chorar que a tractasse bem, que elle sempre a educára muito mimosa.

—Estava tudo resolvido.

—É verdade, uma infelicidade. A gente não sabe onde as tem armadas. Fomos casar ao Bom-Jesus de Braga e gastei mais de vinte moedas em tudo isso. Foi ella que assim o quiz. O tio major pilhou uma borracheira que chegou a estar de cama! Ao fim de tres dias voltamos para a terra n’um carro fretado ao Franqueira. Pareciamos uns fidalgos. Foi talvez o luxo que a perdeu, coitada, e a mim tambem—considerou com tristeza. Porque ella não era má, os senhores podemacreditar; mas o janotismo deu-lhe volta ao miolo, como acontece a quasi todas as mulheres, para mal dos maridos—concluiu philosophicamente.

—Não foi só isso, talvez—repliquei. Ora confesse, amigo Lucas. O outro era ahi algum rapaz novo e janota...

—Que!... Não senhores—interveio com vivacidade—um gebo como eu! Não me troco! Assim um gordo, de cara espapada e barbicha de cabrito. Não me troco. Essa é que é toda a minha matacão. Se Rosa fosse para onde algum rapaz novo e bem parecido... vá. Sou velho e não me tenho por home que a mereça. Mas para esse bruto com quem ella está! Ainda que eu viva cem annos, não me posso consolar! Que posição tem elle?... (interrogou-se). Uma logita alli para os lados de S. Paulo. Ora abobora!... O bicho mulher não ha ninguem que o entenda!

—Realmente não se percebe bem, a loucura de sua mulher—reflectiu o meu amigo. O senhor tractava-a mal, batia-lhe?

—Eu!? Eu bater-lhe?! O senhor está a caçoar comigo! Só o que queria saber é onde ella desejaria passar, para ir beijar o chão onde pozesse os seus pés. Fazem lá ideia! Aquillo para mim não era uma mulher, era uma santa.

E as lagrimas cahindo-lhe a quatro, Lucas acrescentou:

—Até é uma vergonha, o chorar ainda por aquella ingrata! Não está mais na minha mão.

—Então não comprehendo—insistiu o meu amigo—como depois de o querer para marido, o regeitou.

—Pois eu comprehendo muito bem, com sua licença. A questão é que ella casou comigo, para vir para Lisboa. Depois da bôda não nos demoramos quatro mezes lá na terra. Principiou aquelle demonio a atanazar-me, que não podia viver alli, que o negocio não prestava e como o tal tio já tinha morrido, metteu-me na cabeça, que aqui em Lisboa, eu podia ganhar mais dinheiro. Isto lá me custou, porque eu bem via ser uma asneira. Mas ella tanto fez e eu com este meu fraco por aquella sereia, não tive remedio. Viemos e os primeiros quatro mezes foi uma pandiga. Enguliu-se um conto de reis, em carros, em theatros e com amigos que logo arranjei no hotel da rua da Prata, onde estavamos. Muitos d’esses, hoje, nem me compram uma cautela, só para me não fallarem. No fim d’isto eu que via sumir-seo dinheiro disse-lhe: «Mulher, as libras acabam-se, é preciso arranjar algumas.» Ella então teve a ideia de pôrmos uma loja de capellista, onde ella estivesse a vender, para chamar freguesia. Para chamar freguesia!—exclamou indignado e ironico.—O que eu merecia era com uma moca no toutiço! A freguesia de que ella precisava sei eu! Era com um marmeleiro!

—Então foi ahi que ella...

—Não senhor. O tal gebo conhecemol-o á mesa do hotel e no theatro da rua dos Condes. Á mesa estava o machacaz em frente de nós, sempre a offerecer genebra ou vinho do Porto. Por isso, quando a gente arranjou a loja, que foi alli para a Sé, o janota lampana, não me sahia de lá e era dos melhores freguezes de charutos que a gente tinha. Fazia-se muito amigo e eu que sempre fui um simples, contei-lhe a minha vida e confessei que o negocio não dava para os gastos. No fim d’um anno pouco havia dos cinco contos que trouxera da terra! Pois elle, com um estadão como eu tinha, sempre de grande e á franceza, passeios aos domingos, carros, bailes de mascaras!... E querem os senhores saber?... Foi a desavergonhada (eu a este tempo, sou capaz de jurar sobre umasHoras, como ella ainda não era má mulher!) que me lembrou fallar com o Gonsalves (era o tal!) para elle me aconselhar alguma coisa, em que se ganhasse dinheiro. Fallei n’isso ao carade demonio e logo muito prompto me disse que mettesse o que me restava em negocio de vinhos de Torres, que dava muito. Foi até elle que me arranjou conhecimentos. Por este motivo principiei a andar dias e dias por fóra de casa, por um lado e pelo outro, sempre n’uma fona.

—Ahi é que bate o ponto. O que elle quiz foi afastal-o para longe.

—Pois!... Eu nunca pequei por esperto. Penso que toda a gente é de boa fé, como eu!... N’esta coisa de cauteleiro em que ando, tenho aprendido muito. Hoje nem o mais pintado.

—O negocio de vinho fel-o perder a mulher e o dinheiro—raciocinou o meu amigo.

—Como diz; porque logo que, por uma carta anonyma, vim a desconfiar d’aquella ingrata peguei de vigial-a e para melhor o fazer vendi todo o vinho de repente e com perca grossa. Um dia disse-lhe: «Mulher, tem juizo, porta-te bem, olha que a honra não ha dinheiro que a pague!» Respondeu-me que não fosse tolo e voltou-me as costas. Com o fim de estar perto d’ella, arranjei coisa para ficar em Lisboa. Uns amigos afiançaram-me em algumas casas de commercio, para eu andar a receber dinheiro. Ella ralhou-me por isso e disse que havia de ser grande o meu ganho. Eu respondi:«Para o que tu precisares nunca te hade faltar. Ainda que eu venda o meu corpo ao diabo, terás sempre para os teus alfinetes.» Sabem com o que me veio?: «Eu quero continuar a ir aos theatros e dar os meus passeios. Não hei de estar toda a minha vida mettida n’um buraco.»

—Tinha aspirações, vê-se.

—Tinha o diabo no corpo, é o que ella tinha. Eu não lhe merecia o pago que me deu. Trabalhava como um mouro, só para que ella tivesse tudo. Não havia chuva, não havia vento, não havia calor para mim. Sempre a correr por essas ruas e então que estáfas! Ás duas por tres, cahia-lhe na loja como quem vinha de passagem e sabe Deus se não tinha dado uma carreira de Alcantara até á Sé, só para ver se havia alguma novidade. Os senhores riem-se? É porque não sabem o que isto é. Chegava todo esbaforido, o coração aos pulos no peito, e sempre com aquella mulher deante dos olhos a enganar-me. Não comia, não dormia descançado, um verdadeiro inferno!

—Afinal vê-se que gostava muito d’ella—insinuei.

Respondeu com vivacidade:

—Isso, mesmo cá de dentro. Tinha-me por força dado alguma bruxaria. E que mal me pagou! Já não lhe pedia que me tivesse amor. Bem sei que não podia ser, que sou um velho e um ninguem; mas não devia fazer o que fez. Na noite em que, morto de fome e de frio, entrei em casa depois de ter andado todo o dia n’uma roda viva, e não a encontrei, cahi no chão como uma pedra. Tornei a mim, quando a vela do castiçal estava gasta. A casa em desordem, os bahus e gavetas abertas, como se tivessem andado ladrões! Aquella mulher perdida não se contentou em me deixar, levou tudo quanto havia de bom, e fiquei com a triste camisa do corpo. Chorei mais do que quando morreu minha mãe! Durante tres dias, quasi sem comer, nem beber, corri toda a cidade pelos botequins, pelas casas de pasto e restaurantes, pelos theatros com um revolve carregado a ver se os encontrava. Haviamos de morrertodos tres. A ella tinha vontade de lhe beber o sangue por uma tigela e a elle de lhe fazer a cabeça n’um bolo. Se os encontro havia de me vingar até ao fundo d’alma!

—E ainda gosta d’ella?

—Gosto sim senhor, gosto. Para que hei de dizer que não? É o meu peccado.

Teve novas lagrimas nos olhos, que desejou esconder de nós, voltando-se para a parede.

—Se ella o tornasse a procurar?

—Não me falle n’isso! Ferve-me o sangue! Se um dia a vejo...

—Ah! nunca mais a encontrou?—pergunta o meu amigo.

—Já disse que não senhor. Sei onde mora, porque conheço a casa d’esse excommungado que m’a furtou; mas a ella nunca mais lhe puz os olhos em cima. Pois é admiração! Com este meu modo de vida das cautelas e dos jornaes, corro toda a cidade. Nem nos theatros, nem nos dias de procissão, nem no Passeio. Aquillo é que só vae á missa cedo e não torna a sahir—considerou melancolico.

—E se um dia a encontra?

—Mato-a! mato-a, com toda a certeza!—disse exaltado.

Depois mudando rapidamente de tom concluiu:

—Não mato, não mato... Adeus meus senhores, não me apoquentem.

E distanciou-se quasi suffocado pela dôr.

Março de 85.

Nas serenas tardes de verão, dormida a sésta regulamentar, o dr. Leandro e frei Antonio, costumavam ir dar juntos um passeio. Sempre methodicos e taciturnos sahiam de casa á hora conveniente, para se encontrarem junto da igreja, sem esperarem um pelo outro. A menor falta n’este ponto, um simples minuto de tardança, era caso para recriminações da parte do que chegasse primeiro, recriminações manifestadas em monosyllabos de desgosto e n’uma ou n’outra phrase curta e rapida, atirada para o silencio com pronuncia desdenhosa: «Pegou-lhe bem na somneca», «Ficou abarrotado com o jantar», «Isto foi pinga de mais...» Mas depois seguiam cabisbaixos pela encosta acima, as mãos cruzadas sobre os rins, as bengalas pendentes, e paravam de vez em quando, para tomarum pouco d’ar. Junto da ermida da Senhora do Amparo, d’onde se disfructa uma paizagem restricta e pacificadora, cada um ia-se sentar no seu banco de pedra, á distancia d’alguns metros, como se fossem desconhecidos. E o frei Antonio, homem d’um fundo de bondade mais rancoroso, depois de saborear a primeira pitada, costumava dizer avulsamente, referindo-se a uma collina fronteira:

—Como é bello aquelle monte lá em cima! E é-o por ser unico!...

Leandro, fingindo que não ouvira, monologava:

—Pena é não haver outro monte igual, do lado d’acolá, por causa da symetria!... Seria incomparavelmente mais bello!

Estas palavras, já significavam uma tregua e uma reconciliação. Eram ironias mansas ao fim de muitos annos de argumentos, em viva polemica, esmorraçando mesas, quebrando cadeiras que atiravam ás paredes juntas com apostrophes. Porém nunca cederam, nem uma pollegada, n’este valioso ponto de esthetica que os separava. Frei Antonio sempre partidario daunidade, da simplicidade absoluta, e por extensão de principio do pernão, detestava opar. Tinha orgulho em ser padre, só por causa do celibato. No seu casaco sacerdotal e na ampla batina usava um unico bolso, paran’elle incluir todas as coisas do seu uso—a caixa, as chaves, o lenço vermelho, um pequeno breviario...

E justificava-se:

—Em quanto usei muitos, nunca encontrava o que queria. Agora é só metter a mão e prompto. A caixa?... Aqui. (mostrava-a). O breviario?... Eil-o. As chaves? o lenço?... Tudo, n’um ai.

Exhibia os objectos com o semblante glorioso d’um prestimano. Era agressivo e até insolente para todos que lhe não acceitavam a invenção. Mostrava-se propagandista, loquaz, capcioso, argumentado pelo seu lado.

O dr. Leandro deleitava-se com a opinião diametralmente opposta. Pela unidade e por tudo quanto era impar tinha mais do que desdem, tinha desprezo. Dizia, como phrase de sentença, que a natureza nunca podia ser manca. Para irritar o seu amigo, na presença de muita gente, extasiou-se diante da insignificante igreja de S. Francisco, só porque tinha duas torres iguaes. Fingiu-se enthusiasmado, mostrando um pasmo acintoso e offensivo, e exclamou com os braços abertos:

—Que bello! Olhem como são perfeitamente iguaes! Como é sublime a symetria!

Frei Antonio sorriu amargamente, encolhendo os hombros, e respondeu com mal desvanecido azedume:

—Deus, a suprema perfeição, éUm! Um só!

E espetando o dedo no ar demorou-se com elle, vingadoramente, diante do nariz do doutor, que objectou:

—Mas Jesus Christo, a encarnação do pae, tinha duas naturezas, divina e humana.

O sacerdote enchendo-se de cordura disse-lhe:

—Não gosto de metter n’isto o divino; mas podia responder que sendo tres,—tres!—sublinhou com emphase—as pessoas da Santissima Trindade, essas mesmas se reduzem auma.

—É tolo—ainda acrescentou o outro.—Não sabe que pela conta do marinheiro, as pessoas da Santissima Trindade são dez.

—Que diz você seu hereje!—cresceu o sacerdote indignado.

O doutor explicou tranquillamente:

—Pois não sabe? Olhe. As pessoas da Santissima Trindade são tres; Padre, Filho, Espirito santo—seis; tres pessoas distinctas—nove; um só Deus verdadeiro —dez.

Os circumstantes riram-se; o frade afastou-se trombudo; e, por agora, o advogado ficou victorioso, mostrando-o d’um modo saliente.

Como andavam sempre juntos, de momento a momento se levantavam novas birras. O dr. Leandro, que era magro, pertinaz e acintoso estava sempre a espicaçar o egresso. Nunca o convidava para jantar, sem que o numero de convivas fosse par. Levava-os ao jardim para verem as flores e notava-lhes, sempre com insistencia, que as disposera pelo systema de parelhas (de coices—acrescentava o frade). Se tinha de abrir uma janella procurava logo estabelecer uma corrente d’ar, escancarando outra, o que endiabrava o clerigo, que vivia no terror das constipações. Em tudo se mostrava o rancor d’estes dois irreconciliaveis amigos. Indo no seu habitual passeio, se encontravam alguem a cavallo, o sacerdote aproveitava logo o momento para dizer:

—Bonita egua! Não haverá outra como ella, para a emparelhar?

O dono, se era vaidoso, respondia indubitavelmente:

—Nunca a encontrei. Pois tenho corrido um rôr de feiras!

O sacerdote insuflava n’um sarcasmo mordente:

—É porque não procurou bem. Aqui este senhor era capaz de lh’a arranjar.

—Pois não arranjaste!—duvidava o dono da egua.

O doutor procurou immediatamente a sua desforra. Logo que viuO das perdizes, na sua carruagem puchada pela ostentosa parelha de baios, disse-lhe:

—Ó Pessanha! Se esses teus cavallos fossem differentes era muito melhor, diz aqui o frei Antonio.

—Pelo amor de Deus! não valiam dois patacos! Uma parelha assim, é muito mais cára.

O frade resmungou.

—Variatio deletact, meu fidalgo. D’essa maneira até fazem mal á vista.

E quando se distanciou a carruagem, disse o sacerdote avulsamente:

—O universo é um.

—Os mandamentos da lei de Deus são dez e reduzem-se a dois.

—Já lhe fiz saber que não gosto de metter n’isto o divino, e lembro-lhe que a gente faz cada coisa por sua vez.

O doutor apostrophou-o:

—Quantos olhos tem o senhor na sua cara?!...

—E não via as coisas muito melhor se tivesse um só, na testa por exemplo, como os Cyclopes? Até não havia o perigo de se entortarem.

Leandro insistiu:

—Quantas pernas tem o senhor? quantos braços?

—E por quantas boccas come e diz asneiras o meu amigo! Por quantas gargantas engole?—arremetteu o frade. O que o senhor tem decerto, é dois juizos e nenhum d’elles vale tanto, como o casco d’uma cebola podre.

Estava-se nas vindimas. O advogado ía todos os annos para a Feitosa e acompanhava-o alli durante algum tempo frei Antonio. Era um costume já antigo. Leandro quiz d’esta vez apertar comargumentos materiaesa paciencia do sacerdote. «É preciso provar ao latinista—pensou—que vale mais do que um simples casco de cebola podre, o meu juizo.» Logo que frei Antonio chegou á Feitosa, onde o doutor já o esperava, feriu-o uma novidade nos antigos e sustentados habitos d’aquella casa:—era a existencia de duas mezas de jantar, uma para cada um. O doutor só deu esta explicação:

—O senhor tem o seu systema, eu cá tenho o meu.

E na meza de Leandro havia dois talheres, dois pedaços de pão e duas canecas de vinho. Em frente d’um dos pratos estava uma cadeira, com um travesseiro a fingir de pessoa e esse travesseiro tinha um chapeu na cabeça, um bigode de sedas de cavallo e conservava-se impertigado, n’um sentido de troça.

O sacerdote, teve um riso amarello, fingiu que chasqueava e observou com grandeza de animo:

—Tambem é a unica companhia que merece.

E foi-se sentar á sua meza, que tinha tudo estrictamente para um; mas em quantidade muito resumida, tanto de vinho, como de pão. Depois de se ter sugeitado heroicamente a esta prova durante alguns dias, tomou a resolução de assentar junto de si dois bonecos de palha, pedindo que lhe servissem os seus companheiros.

O doutor, que se não quiz mostrar vencido, levou ainda mais longe a premeditada vingança, ordenando que no quarto onde sempre ambos dormiam, houvesse uma só cama. Frei Antonio, um tanto perturbado, quando á noite viu isto, perguntou á velha Joanna:

—Quem diabo vem a ficar aqui?

—Os senhores ambos. Ora o demo da brincadeira dos homes!

E o advogado accrescentou:

—Em coisa de cama sou pela unidade. As ultimas chuvas tem arrefecido o tempo.

Ora, se havia coisa no mundo á qual o sacerdotepreferisse a morte, era a dormir com outro. Homem gordo, d’um suar facil, impaciente no sonho, gostava de roncar á vontade, de alargar as pernas e deitar os braços de fóra, quando lhe approuvesse. Antes passar a noite no chão, n’uma mangedoura, ou sobre tôjo!... Desde que outro padre, n’uma estalagem de Tras-os-Montes, o atirára da cama ao chão, estando elle a dormir e tendo por essa occasião ferido a testa e o nariz nos cacos d’um objecto que se quebrou, nunca mais acceitou companheiro de dormida.

Leandro sabia que o atacava no ponto mais fraco. O frade disse simplesmente, em tom resoluto:

—P’ra graçola é de mais! Bem sabe que não durmo com outro. Então monto a cavallo e vou-mejá, mesmo de noite, embora.

—Pelo que vejo, a respeito de cama... para dois... duas?!—disse com ironia o doutor, mostrando-lhe a outra que estava n’um quarto proximo.

E como não concluira ainda a sua argumentação pelosmateriaes, quando no dia seguinte, frei Antonio procurava os butes, para ir dizer a missa conventual, a que se compromettera, encontrou sómente um. Sem ainda calcular a significação do acontecimento, veio á porta em palmilhas de meias, e gritou pela frincha que abriu:

—Ó Joanna! O outro bute?

—Pergunte por elle ao senhor doutor.

O ecclesiastico comprehendeu e disse zangado:

—Mau! mau! mau que m’arrenego!

Então Leandro, com ingenuidade fingida, respondeu-lhe do quarto:

—Passou ahi hontem um pobre, descalço d’um pé e dei-lho. O amigo tem na realidade dois pés?

Frei Antonio, com ar apopletico, em mangas de camisa e em palmilhas, o grosso tronco batido pela luz da janella do corredor, retorquiu energicamente:

—Tenho sim senhor e você tem quatro. Ponha cá o bute e deixemo-nos de chalaças. Já tocou ha um pedaço. Se essa gente fica sem missa por causa das suas brincadeiras... quero ver.

Isto passava das marcas. O sacerdote procurou um meio de tirar a desforra. Havia de ir ter-lhe ao bolso, que era aonde doia mais ao sovina do Leandro. NoBracarenseda vespera annunciava-se a proxima chegada, á cidade dos Arcebispos, da actriz Emilia das Neves, tão celebre e tão gabada, que alli ia representar no theatro de S. Geraldo. O padre, encobrindo ruins intentos, convidou o doutor para irem a Braga. O advogado chasqueou-o por esta manifestação de mundanidade, porém o ecclesiastico explicou-se com modo circumspecto:

—Não que ella só representa dramas sacros. Nem o senhor Arcebispo, consentia outra coisa, na sua cidade.

Combinaram-se n’uma apparente harmonia, acceitando ambos este periodo de tregua. O frei Antonio fazia de bolsa. Como era expedito, sagaz e conhecia Braga, o seu amigo facilmente lhe entregou a administração das finanças communs. Porém, mal conhecia oadvogado o que podia dar o rancor d’um frade, que é espicaçado no que elle tem de mais precioso, o appetite. As humilhações, as zangas, a quasi fome d’alguns dias na Feitosa, haviam dado ao rotundo ecclesiastico um faro agudissimo de vingança. Logo na diligencia principiou por comprar tres bilhetes, entregando dois a Leandro que observou seccamente:

—Na verdade eram bem precisos tres logares, attendendo a que o senhor não é um homem, é uma pipa.

Em Braga, no Transmontano, o doutor notou que o dono da hospedaria, um velho coxo e rabugento, que estava sempre a praguejar deante do forno, se ria descompostamente a tudo quanto lhe segredava o seu velho amigo frei Antonio e que dissera depois d’um d’esses colloquios:

—Então afinfa-lhe? Trinca-lhe bem e entorna-lhe melhor? Vae valido.

E tambem percebeu que o sacerdote accrescentára:

—Tudo á farta e contas separadas.

Porém Leandro não se deu por achado. Alongou os beiços, sorriu com esforço e á mesa onde estavam tres talheres, mostrou uma apparencia calma e de coragem.

Por certo que identicas advertencias haviam sido feitas ao Miguel, um creado bebedo e feio, que jogava abatota com os hospedes, pois que esse Miguel, ao segredo do frade retroquiu olhando de soslaio para Leandro:

—S’tá dito! Que pandigos!

E apesar da resolução em que o doutor estava de se mostrar digno e conveniente até ao fim, não pôde deixar de se sentir estrangulado pela indignação, quando viu que o seu amigo lhe comprára dois bilhetes para o theatro. Isto não tinha geito nenhum, era atirar dinheiro pela janella sem necessidade! Na hospedaria, fechado dentro do seu quarto, que estava preparado para duas pessoas, quando elle era só um, exclamou voltado para o tecto:

—Este padre é o demonio! Mau raio, se lhe não espeto uma faca n’aquelle bandulho!

Minutos depois veio pelo corredor frei Antonio que disse, fallando pelo buraco da fechadura:

—Adeus Leandros, boas noites.

E logo em seguida, o Miguel acrescentou com a sua voz avinhada:

—Com bem passem, senhoresdoutores.

O advogado que já estava na cama e com a luz apagada, ressonou forte, para não responder. No dia seguinte levantou-se cedo, com o fim de ir sósinho almoçar debaixo da Arcada. Mas frei Antonio, que o espiava,seguiu-o de perto, entrando logo depois d’elle e mandando vir para tres. Leandro ao sair a porta do botequim, pronunciou de si para si:

—Isto acaba hoje! Deixa estar que hoje acaba!

Tinha, porém, urgente necessidade de mandar fazer uma roupa de panno preto—sobrecasaca, calça direita, collete de ceremonia com uma só ordem de botões; fazenda boa que lhe durasse o resto de vida, que servisse para visitas e festas. Frei Antonio conhecia na rua do Souto um mercador de confiança; o doutor era menos pratico na cidade e por isso não teve remedio senão entregar-se-lhe. Pareceu-lhe que n’este particular não podia haver novidade. Foram ambos, ao lado um do outro, silenciosos e escandalisados.

Em quanto um mestre deatraz da Sétomava as medidas, fallou-se de politica... em deputados... e o negociante, homem discreto, de barba em serrilha opinou:

—Boa asneira! Esfalfa-se a gente para os mandar p’ra essa Lisboa e lá não fazem mais do que andar na pandiga, com moçoilas e em treatos. Tributos sãode cada vez maiores! No tempo do senhor D. Miguel...

O alfaiate, absolutista sanguineo, parou subitamente e disse n’uma arremetida, olhando por cima dos oculos, com a medida suspensa da mão:

—E acraditam, que o rei legitimo, não ha de vir pôr fóra do seu reino esta cambada?!

Todos concordaram em que havia de vir, menos o doutor que já lhe tinha perdido as esperanças e se fizera liberal.

Quando voltaram á terra, Leandro teve uma viva polemica com frei Antonio, por causa d’aquellas asneiras fóra de casa. Não era por gastar mais ou menos uma moeda, porém embirrava com tanta tolice deante de desconhecidos. O frade respondeu-lhe que bom gado era porcos, levou-o de troça e continuaram nos seus passeios e nas suas caturrices habituaes.

Quinze dias depois, o advogado recebeu pela diligencia de Braga duas encommendas. Abriu a primeira e n’ella encontrou a roupa que mandára fazer. Vinha tudo nos termos e a seu contento. Vestiu-a para ver selhe estava bem e a velha Joanna que elle chamou para dar parecer, disse que estava mesmo um cravo, e recordou-lhe os seus tempos de rapaz, quando elle vinha de Coimbra e era de todos o mais janota. Fôra n’esse tempo que... Ella era creada da mãe de Leandro, uma boa senhora, temente a Deus, confessando-se a miudo e reprehendendo sempre os atrevimentos e brincadeiras do filho com as moças!... Havia 40 annos que Joanna alli estava e ainda na memoria se lhe avivavam facilmente todos os quadros ridentes da mocidade!...

—Mas a outra encommenda?—lembrou.

—É verdade—disse o doutor—isto não é para mim. Ha de haver engano.

Mas pegou n’ella, remirou-a por todos os lados, apalpou-a, cheirou-a para advinhar o que seria... e nada! Pela terceira ou quarta vez releu o subscripto, que era do mesmo talho de lettra da do negociante que lhe remettia a sua roupa e com os mesmos dizeres.

—Só se frei Antonio tambem encommendou alguma coisa e que m’a mandassem para eu lhe entregar—considerou com o embrulho suspenso nas duas mãos.

Para satisfazer a curiosidade de Joanna, sempre foi desatando os barbantes, com precauções e cautelas, na convicção de que era coisa que lhe não pertencia. Encontrououtra roupa, perfeitamente egual á sua. Não podia presumir brincadeira tão pesada do seu amigo, e, como elle morava perto, mandou-o chamar.

—Sabe para quem é esta coisa?—perguntou serenamente.

—Eu! Como posso advinhar?!

—Nada de brincadeiras—avisou. Será para si?

—Não gasto d’esses luxos. Nem eu cabia dentro d’este pé de meia—retorquiu ironicamente o frade, suspendendo as calças no ar.

—Mas com mil demonios!—interroga colericamente o doutor. Sabe ou não sabe?! Responda.

O frade respondeu com todo o socego:

—É provavel que seja para si. Em Braga, ninguem ignora que o senhor é dois!

O doutor adiantando-se, poz-lhe diante dos olhos um punho cerrado.

—Sabe o que eu ignorava?—gritou. É que o senhor fosse um pedaço d’asno como é!... Que o arrebento, seu odre!

O frade escandalisado, escachou as pernas e apresentando-lhe de frente o seu valente tronco, oppoz-se-lhe com vehemencia:

—Ameaçar-me! olhe que o leva um milhão de demonios, seu cabrito esfolado!

E saiu nobremente da sala. Durante boa meia duzia d’annos, conservaram-se inimigos e sem se fallarem. Porém depois reconciliaram-se n’um jantar de boda, onde ambos se emborracharam até á ternura das recordações, e d’alli ao fim da vida, continuaram a sustentar as suas theorias e a dar os seus passeios habituaes.

As de Refuinho foram as ultimas a chegar. Por causa do ar da noite, traziam as cabeças envolvidas em muitos chailes e só deixavam um buraquinho para espreitar o creado, que ia adeante com o lampião. D. Michaela, ao recebel-as no cimo da escada, logo ralhou com as meninas por causa do agasalho excessivo. Nem pareciam raparigas novas, tantas eram as cautelas que tomavam. D. Maria justificou as sobrinhas. Fora ella quem aconselhara taes cuidados, por causa das possiveis dôres de dentes. Só quem nunca soffreu d’ellas é que pode fallar! Quanto a si, explicou, tossindo muito, com o seu modo resignado e soffredor:

—Oh! filha! Sempre te ando com uma gosma!...

Logo que entraram na sala, todos vieram comprimental-as. As da Torre Velha conduziram as primasjunto do candieiro, para lhes mostrarem o retrato do irmão, que era militar e estudava em Lisboa. Tinham recebido pelo ultimo correio, essa bella photographia d’um rapagão em pé, apoiado negligentemente na espada e a barretina sobre umaconsole. Assentára praça em cavallaria por inclinação: todos os presentes se lembravam, de como era um demonio em pequeno, percorrendo o quinteiro em todos os sentidos, montado n’uma canna! A carta escripta ás irmãs, era-o n’um luxuoso papel cor de tremoço cosido e perfumada d’almiscar. Dizia maravilhas das opulencias da capital, dos seus palacios, dos theatros e das formosas mulheres que passeavam em carruagens descobertas, para serem admiradas.

—Isso já por lá tem uma duzia de namoros—disse frei Ignacio, espreitando por entre as cabeças das meninas.

Mas uma das da Torre Velha, confidente do militar nos seus primeiros amôres, defendeu-o:

—Quem, o Zésinho?! Não é d’esses!

E encarou Clotilde de Refuinho, que baixou timidamente os olhos, conservando-se muito tempo triste, encostada á mesa.

Os parceiros do rancoroso voltarete, enremissados da semana precedente, estavam soffregos sobre o jogo.O desembargador João Xavier, para os desculpar por se não levantarem, disse de longe, com a auctoridade d’um marido, que esteve para ser de D. Maria, quarenta annos antes:

—Ó minha prima. Deus lh’as dê muito boas. Dispenso cumprimentos. Esta remissa de quinze entradas tenho-a atravessada aqui.


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