The Project Gutenberg eBook ofNovos contosThis ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.Title: Novos contosAuthor: Bento MorenoRelease date: August 17, 2020 [eBook #62954]Most recently updated: October 18, 2024Language: PortugueseCredits: Produced by Rita Farinha and the Online DistributedProofreading Team at https://www.pgdp.net (This book wasproduced from scanned images of public domain materialfrom the Google Books project.)*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK NOVOS CONTOS ***
This ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online atwww.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook.
Title: Novos contosAuthor: Bento MorenoRelease date: August 17, 2020 [eBook #62954]Most recently updated: October 18, 2024Language: PortugueseCredits: Produced by Rita Farinha and the Online DistributedProofreading Team at https://www.pgdp.net (This book wasproduced from scanned images of public domain materialfrom the Google Books project.)
Title: Novos contos
Author: Bento Moreno
Author: Bento Moreno
Release date: August 17, 2020 [eBook #62954]Most recently updated: October 18, 2024
Language: Portuguese
Credits: Produced by Rita Farinha and the Online DistributedProofreading Team at https://www.pgdp.net (This book wasproduced from scanned images of public domain materialfrom the Google Books project.)
*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK NOVOS CONTOS ***
COMEDIA DO CAMPO
LISBOATypographia de Adolpho, Modesto & C.ªRua Nova do Loureiro, 25 a 431887
4.º vol. daCOMEDIA DO CAMPO
NOVOS CONTOSDEBENTO MORENO
La plupart des drames sont dans les idées que nous formons des choses. Les événements qui nous paraissent dramatiques ne sont que les sujets que notre âme convertit en tragédie ou en comédie, au gré de notre caractère.H. DE BALZAC—Modeste Mignon.
La plupart des drames sont dans les idées que nous formons des choses. Les événements qui nous paraissent dramatiques ne sont que les sujets que notre âme convertit en tragédie ou en comédie, au gré de notre caractère.H. DE BALZAC—Modeste Mignon.
La plupart des drames sont dans les idées que nous formons des choses. Les événements qui nous paraissent dramatiques ne sont que les sujets que notre âme convertit en tragédie ou en comédie, au gré de notre caractère.
H. DE BALZAC—Modeste Mignon.
EDITORESTAVARES CARDOSO & IRMÃO5, Largo do Camões, 61887
OBRAS DO MESMO AUCTORPUBLICADAS PELOS EDITORES DAVID CORAZZI E TAVARES CARDOSO & IRMÃO
Estava na convalescença d’um typho. Não teria doze annos, mas na minha imaginação representa-se ainda nitidamente esse longo periodo de febre e de terriveis visões. Apesar de debil e quasi enfesado resisti heroicamente ao soffrimento e á molestia. Sempre de costas na cama, passava o tempo a contar e recontar as tabuas do tecto e a fileira de cachos dependurados ao longo da parede branca. Sentia-me embebido em estupidez; as perguntas que me faziam, ácerca do meu estado, do sabor dos remedios e do apetite, ficavam sem resposta. Olhava para todos sem comprehender o que diziam, ou, pelo menos, sem ter os meios de exprimir tudo quanto de violento e de extraordinario se passava em todo o meu corpo. Era como um empastamento geral da minha carne, uma liquifaçãodo meu cerebro, a ausencia de mim mesmo para sentir. Até as dores que soffria, tendo um resto de consciencia para saber que se passavam em mim, attribuia-as mais facilmente a outro corpo. O meu interior era o de uma enorme fornalha; o proprio halito parecia-me de labaredas brancas, formadas de ar incandescente. As minhas sensações reduziam-se a uma sede permanente, que se não podia mitigar. Por mais que me humedecessem a lingua, nem por um instante m’a podiam tornar molle e flexivel: era uma lingua de papagaio, que seria facil quebrar como se fôra um caco. Ainda me recordo de quanto me custava a supportal-a na bocca e de ter, por vezes, desejos de a arrancar.
Mas depois fui melhorando. A volta das sensações ordinarias fazia-se uma a uma, como pombos escorraçados d’um pombal. Era um renascimento gradual, e noto que appareceram primeiro as sensações mais elementares, aquellas em que o homem tem menos imperio. Todos os dias a febre decrescia, reconquistava um pouco do viver antigo, como se eu tivesse feito uma viagem ao chimerico paiz das sombras, e de lá voltasse por um comprido corredor de muitas legoas, approximando-me instante a instante da benefica luz do sol, que se visse brilhar ao fundo, cá n’este mundo vulgar que todos habitamos. Entrei por fim em convalescença. Ofacultativo consentiu que me levantasse todos os dias um nadita. Já podia ir fazendo tentativas de chupar a minha aza de frango. O enjôo da comida ainda era grande, por isso o meu desgosto era enorme. Reconhecendo-me melhorado não estava nas condicções das outras pessoas...
No emtanto a minha alegria e satisfação voltaram com o franco apetite. Tudo era pouco para mim, não havia coisa que me satisfizesse e era preciso que me ralhassem para não ser tão guloso, que me podia fazer mal. Até não queria que os outros comessem ao pé de mim; porque isso me dava inveja, e até raiva, ficando a reparar com olhos avaros e insaciaveis. O medico argumentava que o meu estomago devia estar fraco, que não supportaria sem damno grandes quantidades; mas eu sentia-me como uma grande planta, que lançasse por toda a parte as suas ambiciosas raizes, para se sustentar á custa da seiva que pertencia ás outras e roubar-lh’a com o poder absorvente de uma enorme bomba. A comida de predilecção n’essa minha convalescença eram as boas sardinhas de Vigo, cabeçudas e grandes, que os gallegos iam vender á minha terra. Á distancia de 26 annos, ainda hoje sinto no paladar o sabor d’essa incomparavel comida.
A chuva d’esse aspero mez de dezembro era frigidissima,o vento assobiava pelas frinchas das portas. Como já podia andar por toda a casa ia de vez em quando ao mirante, olhar para os montes que estão ao norte, e contemplava-os todos cobertos de neve, como se fossem pyramides collossaes, formadas d’assucar.
Mas a chuva e o vento que soprava d’aquelle lado obrigavam-me a descer; pois que a janella não era guarnecida de vidraça. N’uma d’essas occasiões até, a saraiva me veio bater na cara e eu, com medo de recahir, fui-me logo sentar ao lume, que estava vivo, imponente, abrangendo grandiosamente em labaredas, os potes de ferro que estavam ao redor.
A nossa cozinha era comprida, terrea e de telha vã. A lareira, grande, coberta pelo enorme e phantastico chapeu da chaminé, muito farta de lenha—podia aquecer uma duzia de pessoas á vontade. Na vespera do sarrabulho ou na noite da consoada, essa cozinha tomava o aspecto glorioso d’um templo em festa. Havia maior numero de potes; as labaredas melhor sustentadas enroscavam-se umas nas outras sempre na mesma altura, como parafusos sem fim. Era manifesta e patente a alegria, a satisfação, o contentamento que este bom fogo produzia em todos, principalmente quando as castanhas estoiravam debaixo das brazas e sabendo-se que estava perto a enfusa de vinho.
Mas quando desci apressadamente do mirante, batido no rosto pela saraiva e com o tetrico medo de recahir, a cosinha estava solitaria e lugubre. Era dia ordinario, o lume bem acceso, o pote da ceia gorgolhava com a fervura, os gatos e os cães, fraternalmente misturados, enroscavam-se do lado do forno. Fui-me sentar ao meu canto, contando estar ali até á reza. Lá fóra das portas era quasi escuro, a chuva e o vento passavam ruidosamente sobre o telhado, produzindo ressonancia dentro da chaminé. Todo este barulho exterior e material tornava mais sensivel a minha solidão. Sabia que minha avó, estava á janella na dupla occupação de rezar as suas contas e de vigiar se os visinhos traziam sardinhas da praça, que era para tambem as mandar comprar. Porém o rom-rom dos gatos, o arfar do lume, o ralho da fervura e o sussurro do vento formavam um ambiente caracteristico de solidão ao qual se veio juntar a nota sentimental e lugubre do toque das trindades. A torre da egreja era sobranceira á cosinha e as nove badaladas cahiram-me espaçadamente no cerebro imprimindo uma sensação gemebunda e prolongada. Apezar da viva chamma do lume ser propria para desfazer tristezas, sentia sobre mim o lendario pezo da noite, com todo o seu imprevisto de sombras. E a enorme chaminé, negra de ferrugem, abria sobremim um espaço indefinido, d’uma amplitude amedrontadora. Diante dos meus olhos, em correnteza, estavam pendurados os salpicões e eu contava-os machinalmente até á minha chouricinha e á de meu irmão, que estavam juntas, á esquerda. Fui pouco a pouco cahindo n’um longo esquecimento, fui perdendo a consciencia, a ponto de quasi se extinguir o meu ser.
Provavelmente o calor benefico do lume concorria para o entorpecimento. Já quando o sino acabou de tocar as «ave marias» eu voejava n’uma atmosphera de sensações vagas, como suspenso no meio do espaço. A cadencia das badaladas deu-me o impulso ondulatorio que me atirou por desconhecidas regiões, fóra de toda a contingencia. Um pingo d’agua cahia a compasso da torneira da cosinha e o som tristonho parecido com o gemer d’ave, feria-me levemente o ouvido como se fôra o desfallecer d’uma d’essas musicas ideaes, que só existem na região do azul. O estrepito do vento tambem se distanciára de mim, ouvia-o dilatado e longinquo, com a doçura e encanto do som d’um pinheiral. Estava envolvido, tapetado d’uma substancia isoladora que me fazia perceber attenuadas todas as sensações. O meu pensar vago e indeciso, traduzia esta especie de anniquilamento das minhas forças physicas e a perda das minhas idéas pessoaes. Reconhecia-me consubstanciado n’este mundo novo e abstracto, balouçando-men’uma amplitude infinita como a da morte. Cá na minha, eu já não pertencia ao numero dos vivos apesar da memoria me reproduzir claramente toda a realidade material que eu gosára e soffrera, durante os annos da convivencia terrestre. Confesso que tive saudades do que fôra. Gostava da vida, mesmo simples e humilde como sempre a passára. Viver por viver e para viver, é que me enthusiasmava e não as altas posições da fortuna e da gloria. Todo o homem tem dentro em si tantos meios de ser feliz, que não saber aproveital-os é signal de desequilibrio e doença. Por isso, a idéa de ser um morto não me alegrava e, bem pelo contrario, principiei a apavorar-me á maneira que percebia que isto era sério. Deixar assim de repente, sem uma despedida, a vida terrena, na qual eu ia sonhadoramente gosando a minha obscuridade, lá me parecia duro. E sem enterro, sem chôro de parentes, sem nenhuma pompa funebre... como é que eu tinha morrido? Depois, independente da questão do céu e do inferno, aquillo lá pelo outro mundo não é satisfatorio. Antes de entrar nas regiões da perpetua ventura ou do infinito castigo eu não via senão caras tremendas, que nada tinham de commum com as expressões minhas conhecidas. Os que riam era com esgares terrificantes, boccas arrepanhadas e olhos de fogo que me faziam medo;os que choravam abriam taes guelas, e figuravam-se-me tão pavorosas as suas cabelleiras formadas de florestas, que me senti gelado, não podendo sequer encaral-os.
Não me faziam mal, não se approximavam de mim; mas eram desagradáveis companheiros na sua impavidez sinistra. Tambem, lá por esses espaços, que levianamente se chamam sideraes, eu não encontrava senão precipicios, abysmos sem fim, montanhas cujos pincaros a minha vista não podia alcançar. Por cima da cabeça tudo eram nuvens encastelladas e carrancudas, que deviam conter fogo e tempestades para myriades de seculos. Um raio de sol palpitante rompeu n’um momento esta espessura; mas isso, maiores saudades me fez, por me lembrar com entranhado amor tudo quanto tinha perdido de carinhoso e bom. Nunca senti como n’esse instante o preço da vida. A epopeia grandiosa da eternidade, attrahia-me muito pouco, não seduzia, com as suas magnificencias, a imaginação simples da creança. Por isso a minha anciedade, a minha tortura cresceu progressivamente. Nunca mais voltaria a gosar a tranquilla convivencia do rio, dos montes, das campinas e dos penhascos?!... O canto dos passaros, as paizagens floridas, o melancholico luar do outono, a exhuberancia da primavera, os gosos familiares, as festas,as vindimas, as amizades... tudo teria acabado para mim?!
Que tristesa, que amargura, que saudades me torturavam! As lagrimas cahiam-me em fio, sentia-me soluçar, a minha admiração pelos sublimes coros celestiaes, diminuia d’um modo consideravel. E tamanha era esta saudade e esta dôr que nem o aspecto patente do fogo da querida lareira, dos potes a ferver, dos salpicões pendurados diante dos meus olhos, me dava a precisa tranquilidade e resignação. Não me lembro mesmo se cheguei a considerar estas visões enganosas, como perfidos meios de transacção, para eu me habituar á outra vida. O meu desespero só fazia augmentar, sentia pungentissimamente quanto perdi. A minha chouricinha, que estava ali em frente de mim, já eu não a poderia saborear, em quanto que meu irmão, que era um vivo, havia de comer as duas e talvez muito regalado.
Principiava a reconhecer-me fatigado, exhausto de forças e ambicionava um momento de repouso. Visto estar morto, a tormentosa viagem atravez dos espaços infinitos havia de acabar. Decerto era este o pavoroso caminho da eternidade, que teria no fim o ceu ou o inferno. Bem sei que logo para começo podia ser o purgatorio, como logar de purificação; mas declaro francamente que esta transigencia nos soffrimentos não mefoi muito consoladora. Talvez pelo receio de ter a vida cheia de peccados, julguei mais provavel não vir a ser um dos eternos habitantes do paraizo!... Estaria mais satisfeito, se o meu destino estivesse no ceu—atmosphera ideal, mais pura que o diamante, de cor mais serena que a perola, logar onde não ha noite, nem sombra, onde os cantos são perpetuos, como é perpetua e renovada de instante a instante a floração d’aquella primavera sem fim. No entretanto, se me fora licito ter uma opinião, haveria declarado preferir a todas as sublimidades ideaes, o continuar na terra contingente, com todos os seus males, desgostos e contratempos. Porem já que me achava no outro mundo desejava antes o paraizo do que o inferno, ou mesmo o purgatorio. Infelizmente este horrendo caminho que seguia, com a velocidade d’um cyclone, não me dava esperanças de me levar á patria eternamente luminosa e bella. O ultimo precipicio em que estava era d’um horrendo incomparavel. Por todos os lados a treva sem limites, e para o fundo um inconcebivel funil por onde ia resvalando!
Como no terrivel naufragio do conto de Poe, no qual todos os destroços eram engulidos pelo redemoinho infernal do Maelstrom, assim o meu corpo, o meu cerebro, o meu pensamento soffriam as torturas d’um movimento concentrico. Sentia que de instante a instante meapertavam mais e mais as paredes d’esta nova prisão. Descendo sempre estava cruelmente atormentado e os meus olhos cheios de pavor não percebiam a menor restea de luz. A minha existencia conhecia-a sómente pela dor d’uma perna onde cravára com desespero as proprias unhas. A superficie interna do funil era lisa a ponto de lhe não perceber o contacto.
Os circulos que eu descrevia eram cada vez menores, a ponto de para o fim redemoinhar em volta de mim mesmo, como se houvera um eixo material, servindo de ponto fixo. Evidentemente estava a chegar ao meu pavoroso e tetrico fim! Uma sensação de frio penetrava-me até á medula dos ossos, apesar de que, por uma inexplicavel contradicção, conservava no meu corpo viva reminiscencia do meu calor natural e procurava concentrar-me, aconchegar-me, metter-me por assim dizer, para dentro de mim mesmo.
Veio uma onda de calor que me lambeu a cara... Talvez o desmoronamento da pilha d’achas que formavam a fogueira. Esta sensação, de certo agradavel em outras circumstancias, poz-me em grande terror; pois que mais me confirmou na ideia da proximidade do inferno. Lá ia eu cahir n’esse fogo perpetuo, que tão horrendo antevira nas descripções dos missionarios! E apesar do pavor, irritava-me esta evidente injustiçad’um poder sobrenatural. Que peccados teriam commettido os meus doze annos, para merecerem tão severa punição? Já não tinha lagrimas, sentia-me anniquillado e sem força para me oppor. O meu incomparavel infortunio, não se limitava a perder o gozo da vida terrena, que tanto amava. E transigia covardemente: Se, ao menos, fosse trocar o mundo, a familia, os brinquedos, a caça aos pardaes, a pesca aos barbos, a minha chouricinha... pelo reino do ceu, vá lá. Não teria ganho, mas vá lá. Porem abandonar todas estas coisas sympathicas e ter para todo o sempre de gritar entre chammas, com o diabo a espicaçar-me e monstros horrendos a deitarem-me perpetuamente pelas guelas chumbo derretido, breu e azeite a ferver!... era o que eu não podia levar á paciencia. A grande afflicção em que me vi deu-me ainda um momento de revolta, que resultou d’uma onda de sangue novo que se me espalhou no cerebro. Por mais que esquadrinhasse na consciencia, por mais que posesse aberto e claro o meu passado insignificante, não me sentia merecedor de tão formidavel pena! Resolvi interpor recurso. Deus é infinitamente misericordioso e de certo me ouvirá—pensei. Alem de que eu tinha sobejos motivos para assim proceder, attendendo ao modo excessivamente escuro como correra o meu processo. Não me lembravade ter apparecido na sua divina presença; não vira aquellas venerandas e compridas barbas, brancas como espuma do mar; não me recordava dos coros dos anjos e das virgens, nem das incomparaveis bellezas da celestial habitação... Quem sabe se eu ia para o inferno por engano! Quem me dizia não ser eu victima de manobras d’algum verdadeiro condemnado que tivesse tido artes de se trocar por mim?! A minha perturbada intelligencia comprehendia esta possibilidade. Por tanto—resolvi—levantemos um clamor bem alto, uma supplica formidavel, que alargando-se por este funil em que me acho, suba aos ouvidos justiceiros do bom Deus, grande e omnipotente. A convicção da minha innocencia, dava-me força para tamanha ousadia. E tomei enorme folego, enchi o peito d’ar, concentrei em mim todas as energias da terra. Da minha garganta sahiu um estridente brado que se dilatou pelos espaços! Ao mesmo tempo fugi pela cozinha fóra e fui-me agarrar a minha avó, que resava as suas contas encostada á janella. Contei-lhe toda a minha afflicção e os tormentos mentaes em que me vira. Ella reconheceu logo, bem como depois o confirmou um sacerdote nosso amigo, que este facto devia ser tomado como um aviso do ceu. Apesar da minha pouca edade, este toque divino, mostrava claramente que eu andava em peccado mortal. Uma confissãogeral de todo o meu negro passado era urgente. Os esconjuros deviam completar esta obra de limpeza espiritual. Procedeu-se por esta forma e os exorcismos foram resados por um padre gallego, que era homem eminente em escorraçar demonios.
Janeiro de 86.
(A Valentina de Lucena)
Entardecia. Como o brilho do sol desaparecera, uma illuminação egual ameigava a paisagem. Os ultimos soutos de castanheiros transmontanos, pareciam nodoas de relva nas encostas dos montes. A escuridade cahia lentamente sobre os povoados, como um tenue orvalho. A physionomia das terras, em especial dos arvoredos, principiava a ser minhota. Havia mais d’uma hora que a carruagem rodava por uma estrada em declive. Disse-me o cocheiro, que algumas casas e uma egreja agglomeradas n’um valle, na margem direita do Tamega, formavam a povoação de Ribeira de Pena. Montanhas severas e apocalypticas emmolduravam este bocadinho de campo, no qual eu principiava a reconhecer a paisagem querida dos meus primeiros annos.
Vinha só e sentia-me triste sem motivo. O continuado e monotono barulho da carruagem, o assobio dolente e vago do cocheiro, a amortecedora luz do crepusculo infiltrando-se por entre as penedias das encostas, os renques d’arvores do valle tinham-me lançado n’um estado de inconsciente melancolia. Já cançado da jornada, ainda me faltavam muitas horas para chegar ao Arco, logar onde ficaria essa noite. N’um estado intermedio ao somno e á vigilia, as ideias perpassavam-me no cerebro, umas vezes, como nuvens transparentes e macias recordando momentos d’agradavel convivencia; outras vezes, encastelladas e escuras, como são as ideias proprias d’aquelles que vão perdendo o contente palpitar da mocidade!... Oh! minha encantadora e modesta infancia, eu que sou um dos homens que mais tem rido, dize-me tu se já algum dia fui alegre, despreocupadamente alegre!...
Á ponta da noite, no momento em que á luz indecisa, os objectos tem adquirido um esfumado que os avoluma, a carruagem parou á porta d’uma taberna para se desaguarem os cavallos. Os meus nervos foramchamados á realidade com energia. N’um banco de pedra, d’esses toscos e muito usuaes que se encontram juncto das habitações dos camponeses minhotos, estava sentado um velhinho magro, tendo ao lado um saquito enfiado n’um páu e uma pequena almotolia d’azeite presa á cintura por uma correia. O seu rosto sumido era gracioso e terno como o d’uma creança; o sorriso natural, que lhe resaltava da expressão, parecia sahir d’um berço.
Havia o quer que fosse de inconsciente e ethereo, de amoravel e bondoso, no rosto d’esse pobresinho. Ali ninguem o conhecia; mas elle olhava para todos com uma attenção familiar e intima. Um porco atrevido roçava-se-lhe pelas calças, roncava-lhe junto á cara e elle afastava-o com humildade e carinho, dizendo-lhe até palavras de conselho. De certo os seus nervos delicados se encommodavam com aquelle grunhir insolente; mas nem por isso se mostrava menos attencioso, para com o bruto. Fallava a todos tão suave e brandamente que a sua voz semelhava um murmurio e uma consolação á cabeceira d’um enfermo. O seu olhar, d’uma tranquillidade de justo, prolongava-se pelo espaço infinito, quando olhava para o ceu. Os cabellos brancos, enquadrando-lhe o rosto pacifico, eram limpos, finos e fluctuantes como floccos de neve, tinham atransparencia do nimbo dos sanctos. Tocou-me aquella bondade, aquelle ar compadecido e altivo. Pareceu-me um pedinte e olhei-o com attenção antes de o interrogar. Elle sorria-se para mim, com a expressão d’uma pessoa que conversa junto d’uma lareira aldeã, quando a fogueira crepita e o vento uiva victoriosamente sobre o telhado. Sentia-me attrahido para elle e então perguntei-lhe mesmo de dentro da carruagem:
—Vocemecê vem de longe?
Parecera-me que sim. Os pés tinha-os doridos, talvez d’uma longa caminhada. Estava alli a descançar. A dona da taberna disse que o não conhecia e que não era das redondezas. O velhito, como eu lhe fallei, levantou-se sorrindo e approximou-se. E n’um tom de mysterio, para que mais ninguem o ouvisse, segredou-me:
—Se venho de longe? De muito longe. Nem eu mesmo o sei.
Tomei estas palavras como de soffrimento resignado e tive piedade.
Não sabia d’onde vinha, estava alquebrado pelo cansaço e não encarecia as suas dores para me pedir esmola! Conheci-lhe pela expressão dolorida do semblante, quando pôz os pés no chão para me vir fallar, que andára muitas leguas a pé. Talvez para ir ver uma filha enferma! talvez para exprimir outro grandeaffecto que lhe restasse no coração! Tantas terras percorrera, que até a sua memoria enfraquecida pela edade não retivera os nomes! Ter-se-hia perdido no caminho?...
Insisti com modos de incredulo:
—Essa é boa! Então não sabe d’onde vem?
Olhou-me com ar sereno e firme como de quem tinha dicto uma coisa perfeitamente exacta.
—Não senhor. Ninguem sabe!...—segredou-me com extrema reserva.
E acrescentou sorrindo intelligentemente:
—A mim ninguem me conhece; mas eu conheço todo o mundo. Bem sei quem o senhor é... É o senhor conde. Ah! cuidava que não sabia?...
No rosto do pobresito appareceu uma aurora de triumpho. Para lh’a sustentar perguntei muito baixo:
—Mas como advinhou? Quem foi que lh’o disse?
A enormidade do seu poder reconheci-a no desdem superior com que me olhou. Continha lá dentro infinitos thesouros de sabedoria e perspicacia, á qual não resistiam os insondaveis mysterios do amplo ceu. Quem era eu, um misero conde, diante d’aquella omnipotencia que considerava o globo terraqueo como uma insignificante bolinha de pão?! Na minha tristesa e confusão devia-se reconhecer que o comprehendi; pois que o velhinho, para me consolar acrescentou:
—Eu sei tudo, advinho tudo. Se não digo d’onde venho é porque ando por todo o mundo. Agora ahi vou eu para Hespanha ver se componhoaquilloe se acabo com todas essas questões que por lá vejo. Levo aqui—designou o saquito—os papeis e livros necessarios para dar luz e felicidadea todos—sublinhou.
Entristeceu-me ver tamanho valor e convicção reunidos n’um corpo assim fragil. Pedi-lhe com interesse e bons modos que me deixasse examinar os seus thesouros. Accedeu da melhor vontade abrindo primeiro o sacco d’estopa, dentro do qual estava um de panno preto, contendo ainda outro de chita de ramagens. O cocheiro e a dona da taberna aproximaram-se ironicamente para disfrutarem o pobre; mas elle, com um verdadeiro olhar altivo e nobre, afastou-os significando, que taes segredos não eram para espiritos grosseiros e motejadores. A meu pedido os indiscretos retiraram-se e por fim o pobresito mostrou-me envolvidos em farrapos e bem ligados com fitas de cores e cordeis, tres velhos alfarrabios em lingua hespanhola e algumas folhas manuscriptas, d’uma lettra amarella e inintelligivel. Pelo meio havia folhas seccas de castanheiro, algumas flores mirradas e pequeninos ramos d’alecrim. Examinei com escrupulosa attenção estas preciosidades, dando-lhes grande valor! Elle seguiu todos os meus gestose movimentos faciaes com olho sagaz e aspecto orgulhoso. Quando lhe entreguei as suas preciosas reliquias, encarecendo-lhas elle concluiu:
—Já o senhor conde vê que não é ninguem ao pé de mim.
—Oh! de certo!...
E depois que já tinha guardado os seus livros e papeis inestimaveis perguntei-lhe:
—Mas como vem de muito longe deve trazer fome. Quer que lhe dê alguma coisa?
Sem altivez respondeu:
—É da lei acceitar sempre a esmola. Fome não tenho. Ando por aqui ha um rôr de seculos e nunca senti fome.
E com um sorriso delicioso, como quem faz uma revelação:
—Isso é para vocês que são d’este mundo. Para mim não, que não sou de cá.
—Ah! vocemecê não é de cá?
—Eu sim!...
E sorriu-se da minha estupidez, da minha falta de comprehensão, abrangendo n’um infinito olhar toda a amplitude da terra ao ceu! Habitava essas regiões ideaes e interminaveis do azul, suspenso na serena ondulação do ar, e bafejado da poeira brilhante da luz. Aexpressão humilde e conformada do seu rosto, a grandesa e compaixão que lhe resaltava da voz fraca e singela, o seu triumphante sorriso de tranquillidade... convenceram-me de que este velhinho resumia em si uma entidade poderosa. Quem julgará elle representar n’este mundo?—perguntei a mim mesmo. Talvez algum sancto milagroso, algum lobis-homem das lendas, algum bruxo afamado entre o povo!... A convicção da sua immaterialidade e do seu immenso poder reconhecia-se que a tinha, pelo tom desdenhoso e superior com que se referia a tudo que o cercava. D’elle só veriam sahir protecção e bondade:—os beneficios que um acto rudimentar do seu querer podia espalhar sobre a terra eram incalculaveis. Um simples designio da sua vontade tornaria os homens eternamente felizes ou desgraçados. Não comia, não se cançava, não havia ponto na terra d’onde tivesse partido ou que devesse occupar...—o mundo, o ceu, os espaços inconcebiveis eram a séde da sua ubiquidade. Nem a dôr, nem o falivel o tocava. A misera fraquesa humana não a sentia, a contingencia do globo merecia-lhe um pensamento compadecido. Sereno e grande vivia no seu reino especial!...
Qual seria pois, o personagem imaginario que este velho magro, de rosto sumido, alegre, bondoso, expressãode soberba e de compadecido, julgava representar? Perguntei-lh’o com a premeditada cautela que elle empregava nas suas palavras:
—Então quem é vocemecê?
—Pois ainda não advinhou?! Olha bem para mim creatura!... Nosso Senhor Jesus Christo!
E fixando-me com tremenda piedade concluiu:
—Ando aqui para os salvar a todos.
Dei-lhe uma esmola. O pobresito retirou-se serenamente, depois de me recommendar:
—Agora caluda, por causa d’esta gente. São hereges, não acreditam.
Janeiro de 85.
Logo que expirou o cunhado, José Domingues cahiu n’um scismar atormentado. Só elle comprehendia a grande desgraça que n’esse dia entrára na casa de sua irmã, pobre mãe de cinco filhos, que tinha para os sustentar, unicamente uma roca. Lembrou-se de os trazer todos para onde a si; mas como poderiam viver tantas pessoas com duas pipas de vinho e um carro de pão? A pensar n’isto se consumia o pobre José Domingues, e aquelles olhos cegos desde tenra infancia, estavam grossos como punhos de tanto que tinham chorado. Até perdera o gosto á rebeca, prenda que seu tio frade lhe deixára, juntamente com as territas de que vivia. A comida entrava-lhe na bocca só á força, depois de muito o apoquentarem. Como toda a gente o estimava em Guardiam, iam alli pela eira pessoasconversar com elle, dando-lhe consolações e conselhos, coisas de pouca valia, pois não produsiam alimento para os sobrinhos. O seu amigo Miguel Tinta, trouxe o violão uma noite, para lhe acompanhar a rebeca; porem o cego é que não estava para tocar.
—Que queres, não posso. Tenho aqui um peso de seiscentas arrobas—rematou arrepanhando o coração.
Mas como algumas raparigas, com o fim caridoso de o tirarem d’aquelle malucar, lhe pediram insistentemente, José Domingues tocou umas musicas tristes, muito populares e queridas d’aquella gente. Foi n’esta occasião, que o Miguel, sentindo o cerebro illuminado por uma ideia, disse com enthusiasmo:
—Ouve lá. E se nós fossemos por ahi abaixo ambos! Não se ganharia alguma coisa?
Todas as pessoas presentes acreditaram que sim e applaudiram com estrepito a lembrança. Só o rabequista não tinha grande fé, pois disse:
—O que, a tocar? Uh!...
—Hade haver muito quem vos queira ouvir. Tentar fortuna é sempre bom prophetisou emphaticamente Zé Maximo, o barbeiro.
Resolveram-no logo alli. Os dois mais interessados planearam a coisa detalhadamente, mencionando as terras que percorreriam e as musicas que haviam de escolher.Uma manhã de primavera, partiram com o sol rubro no horisonte. Andaram por fóra alguns mezes e quando voltaram vinham satisfeitos, porque traziam um bom par de moedas na algibeira. Foi uma alegria para aquella gente, mormente para José Domingues, que ao entregar o dinheiro á irmã pulava de contente, com os sobrinhos todos em volta a agarrarem-se-lhe ás pernas. No forte das suas expansões, o cego, planeava uma vida d’abundancia: queria que se comprasse um porco para matar n’esse anno e mais um bácoro, para o seguinte.
—N’esta casa!—com seiscentos diabos!—hade tornar a haver salgadeira e fumeiro, como antigamente—affirmou.
Foi este o começo da vida de tocador de rebeca, que tão popular fez o cego de Guardiam, em toda a provincia do Minho.
O seu nome chegou mesmo á cidade do Porto. Quem fallasse noceguinhodesignava logo José Domingues. A expressão persuasiva e bondosa do seu rosto tornava-o attrahente e querido. Ou tocando a chorosa rebeca, ou a cantar modas alegres, ou a gracejar com as raparigas, era sempre comedido e delicado; por forma a ser cubiçada a sua presença. De todos os cegos pedintes e trovadores, só elle gosava de verdadeira sympathia. Chamavam-no a muitas casas para o ouvir e, alem da paga, offereciam-lhe vinho e marmelada. Tambem elle não se parecia com nenhum d’esses tocadores de sanfona, lamorientos e porcos. Sempre limpinho:—vestido de briche; camisa lavada; botas de cano, toscas e fortes; a mão apoiada no hombro do companheiro; o extincto olhar voltado para o sol; assim percorria a provincia. Tinha o seu orgulho d’artista e de pequeno proprietario—nunca exaltou ou fingiu miserias e necessidades para provocar compaixão. Acceitava o que lhe dessem, fosse muito fosse pouco, agradecendotudo com um sorriso. O que ambiccionava principalmente era que o escutassem com religião e amor. Se havia pelas janellas senhoras formosas, em quem presumisse melhor comprehensão da musica, o Miguel advertia-o; pois que n’essas circumstancias, o arco de José Domingues, tinha movimentos expressivos, alma enthusiasta, e coração de poeta.
Que ideia faria elle da formosura!...
Fora tão cedo, logo no começo da infancia, que perdera a vista!... As suas recordações não podiam deixar de ser pedaços de mundo dispersos, mal definidos, impressões fugitivas, como as da luz no pôr do sol. Comtudo na viva e larga imaginação, era certo que lhe esvoaçavam encantadoras imagens. A meiguice do sorriso, a bravura da expressão em certos momentos, fazem-no presumir. Quando acreditava que a sua alma, a sua rebeca, estava fazendo palpitar algum coração de mulher, o rosto bexigoso e feio, animava-se-lhe triumphantemente, como uma aurora. Parecia que tinha um resplendor, que respirava n’um circulo de luz propria.
É porque elle instinctivamente calculava que áquella expanção de sensibilidade que lhe vibrava nos proprios nervos, corresponderiam outros efluvios em nervos mais delicados. E a potente voz da arte embravecia-lhe a natureza cheia de candura, transformando o humilde cego, n’um ente dominador e altivo. A proximidade da mulher, a sua inflexão meiga e dolente, amansava d’um modo absoluto, qualquer aspereza d’este homem, que nunca lhe pudera calcular a pureza das linhas. Talvez isto fosse por conhecer a dolorosa historia de seu tio frade, que morto aos septenta annos, conservára até á ultima, o amor d’uma imagem extincta, evocando-a aos sons da mesma rebeca, que José Domingues tocava!
Esse tio egresso fôra o seu educador e o seu amigo. Homem de viver em si, conhecendo a musica e as lettras, ensinara-o a tocar, e transmittira-lhe a alma que possuia. A doce affabilidade de convivencia com esse bom velho, introduzira-lhe no coração sentimentos preciosos de humildade. Despresar os bens terrenos, para se confortar nos gozos interiores, fôra o que esse obscuro evangelista sempre lhe aconselhára, como meio de se oppor á desgraça e soffrer com valor as agruras do mundo. Por isso, elle acceitou em toda a conformidade, esta vida de tocador ambulante, por mais que ella fossecontraria, ao seu quietismo aldeão. Ainda assim tinha a impellil-o n’este vagabundear de terra em terra, o seu caracter impressionavel d’artista. O fanatismo com que todos o ouviam em Guardiam, em Refuinho e n’outros logares, por vezes lhe levantára as ambições e sonhára com publico mais numeroso e selecto. Porem nunca pensára em sahir da sua aldeia, e do adro da egreja, onde nos domingos, depois da missa conventual, até o abbade parava a ouvil-o.A donzella abandonada, oMarinheiroe oCão fieleram algumas das poucas cantigas que n’esse tempo conhecia. Exprimia-as com tal sentimento e candura, que era frequente perceber-se o chôro d’algum coração de rapariga enamorada e sensivel, que encontrava nas palavras da canção qualquer lembrança pungente. Então o José Domingues, que era galhofeiro dizia:
—Quem diabo está ahi a fungar, a rir-se da minha rabeca? Anda cá menina que elles não te entendem!...
E beijava-a repetidas vezes, balouçando-a contra o seio, acariciando-a como terna mãe acaricia um filho. Isto dava sempre bom effeito, alegrava os ouvintes, tornava-os communicativos e contentes. Para que todos bailassem, o cego, tocava-lhes aCanninha verde, aMaria Cachucha, oAfasta janota, arreda, e os rapazes acercavam-se das raparigas, formando logo a roda.
Se o Carvalhosa presenciava, nunca deixou de dizer com sorriso de consentimento e um dedo no ar:
—Moços! juizo, ouviram? Muito juizinho.
Agora que andava de terra em terra, a força de sympathia e attracção do José Domingues dilatou-se por muita gente. A sua pequena estatura, a magresa do corpo, a expressão terna, o olhar fixo e indefinido sempre voltado para a luz, a delicadesa natural e a suavidade das suas fallas, a inspiração muitas vezes caudalosa e atormentada da sua rabeca... tudo se fixou na imaginação collectiva, com traços vigorosos e duradoiros. Elle é que levava pelo mundo a sua fama. Todas as terras o estimavam e queriam a ponto de se fallar com antecedencia da vinda do cego de Guardiam, que tinha epocas determinadas e fixas, para os diversos pontos da provincia. Se tardava uma semana, isso era logo motivo de reparo. Preoccupavam-se com a ideia de que estivesse doente e nem queriam suppor que tivesse morrido. O seu apparecimento era considerado como o das aves cantoras na primavera, que preannunciam os bons dias e as flores. Por isso era recebido com verdadeirasatisfação este portador de novas canções e, principalmente as raparigas do povo, saudavam-no com alegria expontanea e sincera. Parava a conversar com pessoas de diversas cathegorias, e sempre lhes narrava coisas novas em que os interessava pela simplicidade da sua palavra.
Estas jornadas, pelos ensombrados caminhos da provincia, começava-as no principio d’abril, quando os pampanos rebentam e parecem olhos de satyros a rir de todo o mundo. O inverno passava-o em casa, junto do lar crepitante, no meio dos sobrinhos, que lhe enchiam a alma de gosos paternaes. Havia magustos com estoiros de castanhas e o bom rascante, colhido nas videiras que lhe legara o tio frade. Havia a matança do porco e a consoada, que eram festas salutares e bulhentas. A neve embranquecia os montes sobranceiros, a rispida nortada esfuziava, ás lufadas, pelo valle. Era preciso cada qual acercar-se da fogueira para assim ludibriar a furia dos elementos, que zombeteavam cá fora. José Domingues com a sua modestia bem provida do necessario, dizia aos sobrinhos, quando tinham medo do trovão:
—Deixa lá, é a musica do pae do ceu.
—Gosto mais da rabeca do tio Zé. A musica do pae do ceu, não presta—observou um de oito annos.
—É zabumba—considerou philosophicamente outro de menos edade.
A primavera fazia-o sahir de Guardiam acompanhado do Miguel. Tinham um jumento para levar o vestuario e o presigo dos primeiros dias. Durante as chuvas, como os pintasilgos, tinha a voz amortecida. Só a fragancia do ar tepido e balsamico o fazia cantor. Sentia, como os que tem bons olhos, que a natureza se subtilisava para a festa grande da creação. No fermentar estrondoso das sementes que rebentam, estava a sua paisagem florida. As canções d’esta epoca, oRegadinho, oPintalhãoeram vivas, travessas e maliciosas. As do outono eram melancolicas, arrastadas e dolentes, sentindo-se no arco da sua rabeca certa preguiça, e o sentimento das vozes ternas, que vem de longe pelas corgas dos montes. Havia n’esses cantos, notas flutuantes que pareciam folhas amarellentas vagueando no ar, impellidas pelo rigido nordeste. Se na volta d’um caminho percebia alguma cantiga sahida de pinheiral rumuroso, parava escutando e, ás vezes, rebentavam-lhe lagrimas. Aproximava-se o tempo de recolher a casa, ás consolações da familia. Lá voltava a Guardiam coma imaginação cheia de lembranças alegres. No logar era festivamente celebrada a sua volta e, rindo e chorando, José Domingues abraçava com effusão e verdadeiro prazer todos que se lhe approximavam. Dançava, pulava, atirava o chapeu ao ar, como uma creança!
É que se sentia entre corações d’amigos.