Corri a Italia toda: vi bem a minha patria. Entretanto a menina ia crescendo. Que espertesa que revelou desde os primeiros annos! O seu gosto era estar a bulir nas cordas da harpa. E o caso é que ás vezes, acaso ou não, combinava sons. Lembrei-me de que a menina podia aprender musica. Seria o seu dote. Bem precisava ella d'algum. Tinha nascido tão pobre, que me considerava seu avô, a mim, um musico ambulante! Com oito mezes d'aprendizagem era um gosto ouvil-a! Parecia impossivel! Dispensei-me de tocar, porque as mãosinhas da menina eram um prodigio! Bastavam ellas para fazer a colheita que era sempre abundante. Comprei roupa á menina; trazia-a uma princesasinha. Verdade é que sempre de luto. Todo o meu fim era obrigal-a a perguntar-me porque vestia de preto. Queria gravar-lhe bem na memoria os soffrimentos de seus paes, que extraordinarios foram em verdade. E se fores tu, Augusta, que leias este papel, e não teu pae, como muitas vezes acredito que serás, mais uma vez te peço que conserves sempre viva em teu coração a memoria d'esses dois grandes{182}desgraçados, que mais o foram por tua causa. Mas que talento o d'essa criança! Ainda outro dia, em Pariz, um rapaz esculptor pediu o meu consentimento para nos modelar a ambos em gesso. Não foi por minha causa, não. Eu não tenho orgulho senão de ser avô da menina... Avô! Sim, pelo coração não posso deixar de o ser. O verdadeiro avô não lhe quereria mais. Mas o tal esculptor encantou-se com a menina. Quem se não ha de encantar? Modelou-a. Foi a primeira estatua levantada em honra da pequenina harpista. A mim modelou-me de certo pelo contraste. Deu-lhe graça vêr a cabeça d'um velho ao pé do rosto d'uma criança. E que formoso rosto,sangue di Christo! Como eu gostei de ver a menina assim retratada! Mal diria eu que um mez depois havia de soar a hora de me separar d'ella. Não me custa deixar o mundo, onde se soffre tanto; custa-me deixal-a a ella, porque a amo muito. Não quero, porém, ser ingrato para com Deus. Grande mercê me fez em me não levar quando a menina era mais pequenina. Egora sinto-me sem forças. Ha muitos dias que estou doente. Não tenho querido acamar para não entristecer a menina. Mas hoje, a tal ponto receio por mim, que vou mandar chamar o meu velho conhecido Giovanni para lhe fazer as minhas ultimas disposições.Dizem todas respeito á menina.Giovanni ficará depositario d'ella, que é o meu thesouro. Giovanni é preguiçoso, mas um verdadeiro homem de bem. Muitas vezes tive occasião de o reconhecer. Eu não podia fazer melhor eleição. A minha harpa, que lego á menina, ganhará para os dois, e Giovanni será incapaz de guardar para si o que pertencer á menina.Morro n'esta certeza. Giovanni é mais fiel do que um cão.Estão, pois, saldadas as minhas contas com o mundo, com asignorae osignor. Fiz quanto pude, e me mandava o coração. Da justica de Deus não me arreceio. Deus bem vê a minha alma.Torno a repetir que escrevo este documento para que Augusta melhor comprehenda um dia como eu a amei, ou para que seu pae, se Deus o resuscitar, porque em verdade o supponho morto, veja que não trahi a confiança que depositou n'um desconhecido. Se eu morresse em Napoles, quereria ser enterrado{183}ao pé dasignora. Não fui o seu guarda em vida? Continuaria a sel-o depois de morto. Como de certo morro aqui, porque a minha doença é grave, apenas tenho a pedir que rezem umPadre Nossopela minha alma, quando abrirem este documento, que fica em poder de Giovanni.Fechado em Londres aos 25 de novembro de 1815:PIETRO.{184}XXIEpilogoEstava escripto no livro dos destinos que não houvesse felicidade completa para Graça Strech. Encontrava o coração da filha como verdejante oasis no immenso deserto que a morte de Rosina lhe estendia deante dos olhos. Era uma gota d'agua para matar uma sêde d'amor que o requeimou durante sete annos; um só raio de sol que se coava á negridão em que o destino o havia enclausurado; uma unica flôr a alegrar o caminho interposto á velhice precoce e á valla que o esperava algures.Entre lagrimas e sorrisos apertou contra o coração esphacelado o corpinho flexivel da criança; tinha a filha nos braços e sentia nas mãos a friagem da terra que cobria a campa da mãe; irradiava-lhe uma aurora contra o rosto, e os clarões cambiantes espelhavam-se no pranto que lhe sulcava as faces.Devia remoçar, e sentia-se velho.Parecia abrir-se-lhe a porta do paraizo e, em vez de transpôl-a, pedia á criança que o acompanhasse ao cemiterio de Napoles, onde Rosina jazia.Giovanni julgou importuna a sua presença, e balbuciou soluçando umas palavras de despedida.Graça Strech travou-lhe da mão e disse:—Giovanni, tu eras o guarda de minha filha; sê agora o companheiro da filha e do pae.Giovanni correu a beijar a menina com lagrimas d'alegria nos olhos; era quasi o cão a festejar o dono.Partiram.Ao passar em Pariz, Graça Strech foi com a criança procurar o esculptor Maubert. Entrou noateliere disse ao artista:—Aqui tem o original do seu busto, senhor: é minha filha. Falta o nobre Pietro: roubou-o a morte. Eu não quiz atravessar a França sem lhe vir agradecer{185}o serviço que me prestou. Não encontraria minha filha, se o senhor me não ensinasse o caminho. Que Deus lhe torne em alegrias o que a mim me deu em consolação. O senhor receberá o premio da sua benevolencia para commigo lá onde os bons e os desgraçados são remunerados condignamente.Seguiram para Italia. Graça Strech estava ancioso de chegar a Napoles, onde se demoraram oito dias, visitando de manhã e de tarde oCampo Santo. O que elle confidenciou junto á lousa de Rosina Regnau ninguem o ouviu, nem é dado avental-o, porque ha dôres que só se comprehendem quando se experimentam. Os labios do pae, ajoelhado á beira da campa, ciciavam de todas as vezes palavras inintelligiveis; a filha, ajoelhada ao pé do pae, tinha as mãos postas, e denotava doloroso recolhimento. Não rezava, porque ninguem a tinha ensinado a rezar. A falta das mães é tamanha que até Deus a sente! Giovanni completava o grupo, posto o joelho em terra, e alternando olhares respeitosos entre o pae, a filha e a campa.Ao cabo d'oito dias a menina mostrava-se doente. Graça Strech tremeu da tristeza da criança, e perguntou-lhe o que tinha.—Faz-me medo estar no cemiterio! respondeu Augusta chorando.—Tens razão, filha, disse Graça Strech. Mas o que havemos nós de fazer agora no mundo todos trez?—Eu toco a minha harpa, tornou com vivacidade a pequenita. O papá toque a sua guitarra. Giovanni vae comnosco.Graça Strech não teve animo de recusar.—Voltemos então a França, alvitrou elle. Eu vi a sepultura de tua mãe; quero agora vêr o seu berço. Iremos ás Ardennas.—Mas as Ardennas não são tão tristes como o cemiterio, pois não? perguntou ingenuamente Augusta.—Não são, filha, não são. Para tua mãe eram o paraizo d'onde eu a expulsei.Foram musicando. Notavam-se entre todos osvirtuosi, além da maguada sympathia que filha e pae inspiravam, pela melancolia do seu repertorio. A guitarra d'elle e a harpa d'ella falavam a linguagem da saudade. Se o publico as ouvisse noCampo Santode Napoles, á beira d'um cómoro, devia comprehendel-as.{186}Estiveram nas Ardennas, onde os camponezes sahiam em ranchos a ouvil-os. Alguns d'elles, vendo o guitarrista esquecido a olhar para o cimo das montanhas, com o braço paralysado, diziam entre si:—Aquelle homem não tem a razão clara!Passando-se depois a Pariz, encetaram o viver errante dos passaros. Graça Strech tirava do amor com que idolatrava a filha as forças com que vivia, e tinha desvairamentos nervosos se se demorava a contemplar-lhe as faces pallidas, da meiga pallidez da irmã, e os olhos fundos e brilhantes.Quedava-se a olhar n'ella com a fronte banhada de suor frio.—O papá gosta tanto de me vêr! exclamava a menina ao mesmo passo carinhosa e amedrontada da sombria physionomia do pae.—Gosto, filha. É que eu sou pae e desgraçado! Se tu morresses, enlouquecia.—Eu não morro. O papá não diga isso, que me faz medo. Deixe-se de estar a pensar, papá! atalhava a menina. Ó Giovanni, traz a harpa; não estou contente senão quando a tenho ao pé de mim! O papá não ralhe, porque eu sou muito sua amiga tambem.Decorreram os annos. O botão de rosa fez-se flôr. Flôr melancolica como as que pendem aos sarcophagos.Graça Strech procurava suavisar quanto lhe era possivel a sua continua peregrinação. A menina, tomada de febril impaciencia, dizia ao pae que havia de morrer no caminho tocando harpa. E acrescentava:—Bem diz o papá: nós somos como os passaros. Elles tambem só parecem alegres quando voam!No inverno de 1824—tinha Augusta quatorze annos—começou a soffrer do peito.Estavam de novo em Londres.Augusta queixava-se de dôres vagas; e tossia.—Fujamos de Londres! disse Graça Strech fitando a filha com atormentado semblante.Em França os soffrimentos continuaram, se bem que a menina, para não desalentar o pae, procurasse animar-se d'uma alegria que por bastante transparente deixava entrever o disfarce.Seguiram para Italia. Enflorava-se a formosa do Mediterraneo com as galas da primavera de 1825.{187}Caminho de Florença nos ultimos dias de março, colhera-os ao entardecer a tempestade no caminho. Tiveram de estugar o passo para recolher-se no albergue de Pistoja. A menina chegou anciada, e afogueada das faces. Deitou-se logo. O pae, atordoado como ebrio, não a desamparou em toda a noite. Pela manhã, Giovanni foi poisar a harpa ao pé do catre. Augusta reprehendeu-o. Disse que no dia seguinte tocaria. Veiu o outro dia, vieram muitos, e a menina nem queria erguer-se nem ver a sua harpa.—Então já não és como os passaros? perguntou o pae com voz que mal podia romper através das lagrimas.Augusta viu chorar o pae, e disse para Giovanni:—Os passaros tambem cantam no ninho: vai buscar a harpa.Tirou alguns sons, e não pôde continuar.D'ahi a trez dias chamou de novo Giovanni e disse-lhe:—Hoje estou boa; vae buscar a harpa.O pae quiz illudir-se ainda: sorriu.A menina vibrou as primeiras modulações e deixou pender os braços.Acudiu o pae a chamal-a. Não respondeu. Giovanni agitou-a docemente e conheceu que estava morta.A avesinha não pôde completar o seu cantico de despedida.Desde essa hora Graça Strech affigurava-se idiota. Unicamente pareceu illuminar-se-lhe por instantes a razão quando disse a Giovanni:—Meu bom amigo, meu fiel amigo, não tenho mais que te dar: péga n'essa harpa e deixa-me viver em paz. Adeus, até á hora do resgate.Giovanni quiz falar. Elle não consentiu; afastou-o com um gesto.E deixou-se ficar dois dias com a cabeça apoiada nas mãos.Levavam-lhe de comer: recusava.O dono do albergue entrou a inquietar-se e acabou por ir a Florença avisar o consul portuguez. Chamado Graça Strech ao consulado, muito laconicamente respondeu ás perguntas que lhe fizeram. O consul reputou a sua tristeza nostalgia, aggravada pela impossibilidade de se transportar á patria. Deu-lhe um passaporte para Portugal. Graça Strech nem agradeceu{188}nem rejeitou. Ao outro dia foi o consul a bordo para o recommendar ao capitão. Faltava Graça Strech. Mandou procural-o ao albergue. Encontraram-n'o sentado com a cabeça firmada nas mãos. Deixou-se conduzir ao navio. Subiu á coberta, e sentou-se n'um banco, na mesma posição. O navio largou; elle não ergueu os olhos.Passados mezes via-se nas ruas do Porto um estranho homem; andava arrimado a um bordão, porque coxeava. Alguem, por caridade, o vestira: trazia sobrecasaca abotoada e chapeu alto amolgado. Realçava sobre esta pobreza a medalha de prata da guerra peninsular em competencia com um annel de ouro que brilhava na mão esquerda. Como o vissem apanhar do chão pontas de cigarros, e manipular um longo rolo de tabaco, perguntavam-lhe por que não vendia o annel.Respondia sempre:—Porque este annel tem mysterio.E, surdo a outras perguntas, começava tangendo maviosamente a guitarra que trazia sobraçada. Se alguem lhe dava esmola, recebia-a; jámais a implorou. Decorridos mais alguns mezes appareceu acompanhado por um cão, e de tal modo se estimavam, cão e homem, que o cão parecia escutar attento o guitarrista, e o guitarrista defendia energicamente o seu companheiro quando era açulado pelo rapazio.Onde encontrára o guitarrista o cão?É que o primeiro tivera de pedir hospitalidade ao segundo.N'um quintal da rua das Fontainhas, logo á entrada, descendo do Jardim de S. Lazaro, ha ainda hoje um casebre, que n'esse tempo pertencia a duas pobres mulheres, donas do cão. Ali piedosamente receberam o guitarrista, que na primeira noite de hospedagem fôra mordido pelo animal, que dava pelo nome deJanota, e se rebellara contra todos os affagos do hospede. Indignou-se o guitarrista da feresa do seu companheiro, e lembrou-se d'um facto semelhante que em Portugal occorrera durante a primeira invasão franceza. Em Abrantes, em 1807, um official portuguez poupou a vida de Junot; sem embargo, fôra, dias depois, fuzilado, não sei a que pretexto, por ordem do mesmo Junot.O guitarrista, applicando ao caso esta recordação{189}da sua mocidade, começou a dar ao cão o nome do general francez.Ao cabo d'algum tempo de convivencia, o nome não tinha razão de ser, porque homem e cão viviam em boa camaradagem; todavia subsistiu. As proprias donas do casebre se habituaram a dizerJunotem vez deJanota. Em tamanha pobresa permaneceu o guitarrista até novembro de 1857, epoca em que o meu amigo, o sr. Antonio Martins Leorne, teve casualmente occasião de falar-lhe.Passava na Batalha quando o guitarrista, sentado nas escadas da egreja de Santo Ildefonso, estava sendo chasqueado por trez estudantes do seminario episcopal. Movido de indignação, subiu as escadas, e ameaçou os seminaristas com denuncial-os ao prelado. Os rapazes debandaram amedrontados, e o guitarrista levantou-se para agradecer ao sr. Leorne. Pelas breves palavras que trocaram, conheceu este cavalheiro que estava ali um lucido espirito e um nobre coração esmagados pela desgraça. Tanto bastou para começar a protejel-o, até que no mez de novembro d'esse anno conseguiu que fosse admittido no hospital dos Entrevados de Cima de Villa. O guitarrista acceitou reconhecido. Mas, quando lhe foi imposta a condição de usar o vestuario dos asylados, reagiu tenazmente. Só puderam convencel-o a transigir repetidas instancias do sr. Leorne.Durante a sua estada no hospital de Cima de Villa, grato á protecção recebida, abriu-se em frequentes confidencias com o seu protector. Algumas vezes lhe escreveu, assignando-se Graça Strech, se bem que os registos de admissão e obito o nomeiem Conceição Graça.Bem póde ser que o infeliz, talvez por melindre que nos não é dado perscrutar, negasse ao escripturario o verdadeiro appellido de sua familia, e facilmente se comprehende que o registo de obito foi modelado pelo registo de entrada no hospital.O leitor, antes de eu ter denunciado o nome do estranho guitarrista, já o havia conhecido de certo, confrontando-o com a personagem que apparece nas primeiras paginas d'este livro, e achando-os em tudo semelhantes.Graça Strech falleceu no hospital dos Entrevados de Cima de Villa a 20 de maio de 1850. Antes de expirar,{190}entregou ao seu protector, que lhe assistiu aos ultimos momentos, a medalha da guerra peninsular, com que fôra condecorado, e que o sr. Leorne ainda hoje possue[15]. O annel mysterioso, por expressa recommendação do moribundo, desceu com o cadaver á sepultura. Outra piedosa pessoa, a quem o sr. Leorne revelára as qualidades e soffrimentos de Graça Strech, se encarregou de fazer-lhe os funeraes na capella do Prado do Repouso, reservando para si a guitarra que elle por tão longos annos dedilhára.Aqui podia terminar a biographia de José Maria da Graça Strech, mas, para que fique mais completa, concluiremos copiando textualmenle as unicas palavras que até hoje falavam d'elle:João José Duarte Machado, capellão director do cemiterio do Prado do Repouso, n'esta cidade do Porto:«Certifico que no livro quarto do registo dos obitos e enterramentos dos adultos, a folhas trezentas setenta e sete, verso, se acha o assento seguinte:«José Maria da Conceição Graça, filho de Francisco Pinto Graça, e de Maria da Gloria, natural do Porto, edade sessenta e seis annos, estado solteiro, profissão mendigo, morador que foi no Hospital de Cima de Villa, dos Entrevados, falleceu de molestia não denominada pelas nove horas da noute do dia vinte de maio de mil oitocentos cincoenta e nove; depois de se lhe rezarem os responsos do costume foi sepultado pelas oito horas da noute do dia vinte e um do dito mez n'este cemiterio publico—Prado do Repouso—no canteiro numero tres, sepultura dois mil trezentos e seis, de que se fez este termo que assigno com o reverendo capellão. Eu Antonio José Antunes Barbosa, director, o subscrevi.Antonio José Antunes Barbosa, director.Francisco Alves da Soledade, capellão.«Não contém mais o dito assento, ao qual me reporto. Porto e Cemiterio do Prado do Repouso, nove de setembro de mil oitocentos setenta e tres.«JOÃOJOSÉDUARTEMACHADO.»«Capellão director.»FIM[15]Em 1873.
Corri a Italia toda: vi bem a minha patria. Entretanto a menina ia crescendo. Que espertesa que revelou desde os primeiros annos! O seu gosto era estar a bulir nas cordas da harpa. E o caso é que ás vezes, acaso ou não, combinava sons. Lembrei-me de que a menina podia aprender musica. Seria o seu dote. Bem precisava ella d'algum. Tinha nascido tão pobre, que me considerava seu avô, a mim, um musico ambulante! Com oito mezes d'aprendizagem era um gosto ouvil-a! Parecia impossivel! Dispensei-me de tocar, porque as mãosinhas da menina eram um prodigio! Bastavam ellas para fazer a colheita que era sempre abundante. Comprei roupa á menina; trazia-a uma princesasinha. Verdade é que sempre de luto. Todo o meu fim era obrigal-a a perguntar-me porque vestia de preto. Queria gravar-lhe bem na memoria os soffrimentos de seus paes, que extraordinarios foram em verdade. E se fores tu, Augusta, que leias este papel, e não teu pae, como muitas vezes acredito que serás, mais uma vez te peço que conserves sempre viva em teu coração a memoria d'esses dois grandes{182}desgraçados, que mais o foram por tua causa. Mas que talento o d'essa criança! Ainda outro dia, em Pariz, um rapaz esculptor pediu o meu consentimento para nos modelar a ambos em gesso. Não foi por minha causa, não. Eu não tenho orgulho senão de ser avô da menina... Avô! Sim, pelo coração não posso deixar de o ser. O verdadeiro avô não lhe quereria mais. Mas o tal esculptor encantou-se com a menina. Quem se não ha de encantar? Modelou-a. Foi a primeira estatua levantada em honra da pequenina harpista. A mim modelou-me de certo pelo contraste. Deu-lhe graça vêr a cabeça d'um velho ao pé do rosto d'uma criança. E que formoso rosto,sangue di Christo! Como eu gostei de ver a menina assim retratada! Mal diria eu que um mez depois havia de soar a hora de me separar d'ella. Não me custa deixar o mundo, onde se soffre tanto; custa-me deixal-a a ella, porque a amo muito. Não quero, porém, ser ingrato para com Deus. Grande mercê me fez em me não levar quando a menina era mais pequenina. Egora sinto-me sem forças. Ha muitos dias que estou doente. Não tenho querido acamar para não entristecer a menina. Mas hoje, a tal ponto receio por mim, que vou mandar chamar o meu velho conhecido Giovanni para lhe fazer as minhas ultimas disposições.
Dizem todas respeito á menina.
Giovanni ficará depositario d'ella, que é o meu thesouro. Giovanni é preguiçoso, mas um verdadeiro homem de bem. Muitas vezes tive occasião de o reconhecer. Eu não podia fazer melhor eleição. A minha harpa, que lego á menina, ganhará para os dois, e Giovanni será incapaz de guardar para si o que pertencer á menina.
Morro n'esta certeza. Giovanni é mais fiel do que um cão.
Estão, pois, saldadas as minhas contas com o mundo, com asignorae osignor. Fiz quanto pude, e me mandava o coração. Da justica de Deus não me arreceio. Deus bem vê a minha alma.
Torno a repetir que escrevo este documento para que Augusta melhor comprehenda um dia como eu a amei, ou para que seu pae, se Deus o resuscitar, porque em verdade o supponho morto, veja que não trahi a confiança que depositou n'um desconhecido. Se eu morresse em Napoles, quereria ser enterrado{183}ao pé dasignora. Não fui o seu guarda em vida? Continuaria a sel-o depois de morto. Como de certo morro aqui, porque a minha doença é grave, apenas tenho a pedir que rezem umPadre Nossopela minha alma, quando abrirem este documento, que fica em poder de Giovanni.
Fechado em Londres aos 25 de novembro de 1815:
PIETRO.{184}
Estava escripto no livro dos destinos que não houvesse felicidade completa para Graça Strech. Encontrava o coração da filha como verdejante oasis no immenso deserto que a morte de Rosina lhe estendia deante dos olhos. Era uma gota d'agua para matar uma sêde d'amor que o requeimou durante sete annos; um só raio de sol que se coava á negridão em que o destino o havia enclausurado; uma unica flôr a alegrar o caminho interposto á velhice precoce e á valla que o esperava algures.
Entre lagrimas e sorrisos apertou contra o coração esphacelado o corpinho flexivel da criança; tinha a filha nos braços e sentia nas mãos a friagem da terra que cobria a campa da mãe; irradiava-lhe uma aurora contra o rosto, e os clarões cambiantes espelhavam-se no pranto que lhe sulcava as faces.
Devia remoçar, e sentia-se velho.
Parecia abrir-se-lhe a porta do paraizo e, em vez de transpôl-a, pedia á criança que o acompanhasse ao cemiterio de Napoles, onde Rosina jazia.
Giovanni julgou importuna a sua presença, e balbuciou soluçando umas palavras de despedida.
Graça Strech travou-lhe da mão e disse:
—Giovanni, tu eras o guarda de minha filha; sê agora o companheiro da filha e do pae.
Giovanni correu a beijar a menina com lagrimas d'alegria nos olhos; era quasi o cão a festejar o dono.
Partiram.
Ao passar em Pariz, Graça Strech foi com a criança procurar o esculptor Maubert. Entrou noateliere disse ao artista:
—Aqui tem o original do seu busto, senhor: é minha filha. Falta o nobre Pietro: roubou-o a morte. Eu não quiz atravessar a França sem lhe vir agradecer{185}o serviço que me prestou. Não encontraria minha filha, se o senhor me não ensinasse o caminho. Que Deus lhe torne em alegrias o que a mim me deu em consolação. O senhor receberá o premio da sua benevolencia para commigo lá onde os bons e os desgraçados são remunerados condignamente.
Seguiram para Italia. Graça Strech estava ancioso de chegar a Napoles, onde se demoraram oito dias, visitando de manhã e de tarde oCampo Santo. O que elle confidenciou junto á lousa de Rosina Regnau ninguem o ouviu, nem é dado avental-o, porque ha dôres que só se comprehendem quando se experimentam. Os labios do pae, ajoelhado á beira da campa, ciciavam de todas as vezes palavras inintelligiveis; a filha, ajoelhada ao pé do pae, tinha as mãos postas, e denotava doloroso recolhimento. Não rezava, porque ninguem a tinha ensinado a rezar. A falta das mães é tamanha que até Deus a sente! Giovanni completava o grupo, posto o joelho em terra, e alternando olhares respeitosos entre o pae, a filha e a campa.
Ao cabo d'oito dias a menina mostrava-se doente. Graça Strech tremeu da tristeza da criança, e perguntou-lhe o que tinha.
—Faz-me medo estar no cemiterio! respondeu Augusta chorando.
—Tens razão, filha, disse Graça Strech. Mas o que havemos nós de fazer agora no mundo todos trez?
—Eu toco a minha harpa, tornou com vivacidade a pequenita. O papá toque a sua guitarra. Giovanni vae comnosco.
Graça Strech não teve animo de recusar.
—Voltemos então a França, alvitrou elle. Eu vi a sepultura de tua mãe; quero agora vêr o seu berço. Iremos ás Ardennas.
—Mas as Ardennas não são tão tristes como o cemiterio, pois não? perguntou ingenuamente Augusta.
—Não são, filha, não são. Para tua mãe eram o paraizo d'onde eu a expulsei.
Foram musicando. Notavam-se entre todos osvirtuosi, além da maguada sympathia que filha e pae inspiravam, pela melancolia do seu repertorio. A guitarra d'elle e a harpa d'ella falavam a linguagem da saudade. Se o publico as ouvisse noCampo Santode Napoles, á beira d'um cómoro, devia comprehendel-as.{186}Estiveram nas Ardennas, onde os camponezes sahiam em ranchos a ouvil-os. Alguns d'elles, vendo o guitarrista esquecido a olhar para o cimo das montanhas, com o braço paralysado, diziam entre si:
—Aquelle homem não tem a razão clara!
Passando-se depois a Pariz, encetaram o viver errante dos passaros. Graça Strech tirava do amor com que idolatrava a filha as forças com que vivia, e tinha desvairamentos nervosos se se demorava a contemplar-lhe as faces pallidas, da meiga pallidez da irmã, e os olhos fundos e brilhantes.
Quedava-se a olhar n'ella com a fronte banhada de suor frio.
—O papá gosta tanto de me vêr! exclamava a menina ao mesmo passo carinhosa e amedrontada da sombria physionomia do pae.
—Gosto, filha. É que eu sou pae e desgraçado! Se tu morresses, enlouquecia.
—Eu não morro. O papá não diga isso, que me faz medo. Deixe-se de estar a pensar, papá! atalhava a menina. Ó Giovanni, traz a harpa; não estou contente senão quando a tenho ao pé de mim! O papá não ralhe, porque eu sou muito sua amiga tambem.
Decorreram os annos. O botão de rosa fez-se flôr. Flôr melancolica como as que pendem aos sarcophagos.
Graça Strech procurava suavisar quanto lhe era possivel a sua continua peregrinação. A menina, tomada de febril impaciencia, dizia ao pae que havia de morrer no caminho tocando harpa. E acrescentava:
—Bem diz o papá: nós somos como os passaros. Elles tambem só parecem alegres quando voam!
No inverno de 1824—tinha Augusta quatorze annos—começou a soffrer do peito.
Estavam de novo em Londres.
Augusta queixava-se de dôres vagas; e tossia.
—Fujamos de Londres! disse Graça Strech fitando a filha com atormentado semblante.
Em França os soffrimentos continuaram, se bem que a menina, para não desalentar o pae, procurasse animar-se d'uma alegria que por bastante transparente deixava entrever o disfarce.
Seguiram para Italia. Enflorava-se a formosa do Mediterraneo com as galas da primavera de 1825.{187}
Caminho de Florença nos ultimos dias de março, colhera-os ao entardecer a tempestade no caminho. Tiveram de estugar o passo para recolher-se no albergue de Pistoja. A menina chegou anciada, e afogueada das faces. Deitou-se logo. O pae, atordoado como ebrio, não a desamparou em toda a noite. Pela manhã, Giovanni foi poisar a harpa ao pé do catre. Augusta reprehendeu-o. Disse que no dia seguinte tocaria. Veiu o outro dia, vieram muitos, e a menina nem queria erguer-se nem ver a sua harpa.
—Então já não és como os passaros? perguntou o pae com voz que mal podia romper através das lagrimas.
Augusta viu chorar o pae, e disse para Giovanni:
—Os passaros tambem cantam no ninho: vai buscar a harpa.
Tirou alguns sons, e não pôde continuar.
D'ahi a trez dias chamou de novo Giovanni e disse-lhe:
—Hoje estou boa; vae buscar a harpa.
O pae quiz illudir-se ainda: sorriu.
A menina vibrou as primeiras modulações e deixou pender os braços.
Acudiu o pae a chamal-a. Não respondeu. Giovanni agitou-a docemente e conheceu que estava morta.
A avesinha não pôde completar o seu cantico de despedida.
Desde essa hora Graça Strech affigurava-se idiota. Unicamente pareceu illuminar-se-lhe por instantes a razão quando disse a Giovanni:
—Meu bom amigo, meu fiel amigo, não tenho mais que te dar: péga n'essa harpa e deixa-me viver em paz. Adeus, até á hora do resgate.
Giovanni quiz falar. Elle não consentiu; afastou-o com um gesto.
E deixou-se ficar dois dias com a cabeça apoiada nas mãos.
Levavam-lhe de comer: recusava.
O dono do albergue entrou a inquietar-se e acabou por ir a Florença avisar o consul portuguez. Chamado Graça Strech ao consulado, muito laconicamente respondeu ás perguntas que lhe fizeram. O consul reputou a sua tristeza nostalgia, aggravada pela impossibilidade de se transportar á patria. Deu-lhe um passaporte para Portugal. Graça Strech nem agradeceu{188}nem rejeitou. Ao outro dia foi o consul a bordo para o recommendar ao capitão. Faltava Graça Strech. Mandou procural-o ao albergue. Encontraram-n'o sentado com a cabeça firmada nas mãos. Deixou-se conduzir ao navio. Subiu á coberta, e sentou-se n'um banco, na mesma posição. O navio largou; elle não ergueu os olhos.
Passados mezes via-se nas ruas do Porto um estranho homem; andava arrimado a um bordão, porque coxeava. Alguem, por caridade, o vestira: trazia sobrecasaca abotoada e chapeu alto amolgado. Realçava sobre esta pobreza a medalha de prata da guerra peninsular em competencia com um annel de ouro que brilhava na mão esquerda. Como o vissem apanhar do chão pontas de cigarros, e manipular um longo rolo de tabaco, perguntavam-lhe por que não vendia o annel.
Respondia sempre:
—Porque este annel tem mysterio.
E, surdo a outras perguntas, começava tangendo maviosamente a guitarra que trazia sobraçada. Se alguem lhe dava esmola, recebia-a; jámais a implorou. Decorridos mais alguns mezes appareceu acompanhado por um cão, e de tal modo se estimavam, cão e homem, que o cão parecia escutar attento o guitarrista, e o guitarrista defendia energicamente o seu companheiro quando era açulado pelo rapazio.
Onde encontrára o guitarrista o cão?
É que o primeiro tivera de pedir hospitalidade ao segundo.
N'um quintal da rua das Fontainhas, logo á entrada, descendo do Jardim de S. Lazaro, ha ainda hoje um casebre, que n'esse tempo pertencia a duas pobres mulheres, donas do cão. Ali piedosamente receberam o guitarrista, que na primeira noite de hospedagem fôra mordido pelo animal, que dava pelo nome deJanota, e se rebellara contra todos os affagos do hospede. Indignou-se o guitarrista da feresa do seu companheiro, e lembrou-se d'um facto semelhante que em Portugal occorrera durante a primeira invasão franceza. Em Abrantes, em 1807, um official portuguez poupou a vida de Junot; sem embargo, fôra, dias depois, fuzilado, não sei a que pretexto, por ordem do mesmo Junot.
O guitarrista, applicando ao caso esta recordação{189}da sua mocidade, começou a dar ao cão o nome do general francez.
Ao cabo d'algum tempo de convivencia, o nome não tinha razão de ser, porque homem e cão viviam em boa camaradagem; todavia subsistiu. As proprias donas do casebre se habituaram a dizerJunotem vez deJanota. Em tamanha pobresa permaneceu o guitarrista até novembro de 1857, epoca em que o meu amigo, o sr. Antonio Martins Leorne, teve casualmente occasião de falar-lhe.
Passava na Batalha quando o guitarrista, sentado nas escadas da egreja de Santo Ildefonso, estava sendo chasqueado por trez estudantes do seminario episcopal. Movido de indignação, subiu as escadas, e ameaçou os seminaristas com denuncial-os ao prelado. Os rapazes debandaram amedrontados, e o guitarrista levantou-se para agradecer ao sr. Leorne. Pelas breves palavras que trocaram, conheceu este cavalheiro que estava ali um lucido espirito e um nobre coração esmagados pela desgraça. Tanto bastou para começar a protejel-o, até que no mez de novembro d'esse anno conseguiu que fosse admittido no hospital dos Entrevados de Cima de Villa. O guitarrista acceitou reconhecido. Mas, quando lhe foi imposta a condição de usar o vestuario dos asylados, reagiu tenazmente. Só puderam convencel-o a transigir repetidas instancias do sr. Leorne.
Durante a sua estada no hospital de Cima de Villa, grato á protecção recebida, abriu-se em frequentes confidencias com o seu protector. Algumas vezes lhe escreveu, assignando-se Graça Strech, se bem que os registos de admissão e obito o nomeiem Conceição Graça.
Bem póde ser que o infeliz, talvez por melindre que nos não é dado perscrutar, negasse ao escripturario o verdadeiro appellido de sua familia, e facilmente se comprehende que o registo de obito foi modelado pelo registo de entrada no hospital.
O leitor, antes de eu ter denunciado o nome do estranho guitarrista, já o havia conhecido de certo, confrontando-o com a personagem que apparece nas primeiras paginas d'este livro, e achando-os em tudo semelhantes.
Graça Strech falleceu no hospital dos Entrevados de Cima de Villa a 20 de maio de 1850. Antes de expirar,{190}entregou ao seu protector, que lhe assistiu aos ultimos momentos, a medalha da guerra peninsular, com que fôra condecorado, e que o sr. Leorne ainda hoje possue[15]. O annel mysterioso, por expressa recommendação do moribundo, desceu com o cadaver á sepultura. Outra piedosa pessoa, a quem o sr. Leorne revelára as qualidades e soffrimentos de Graça Strech, se encarregou de fazer-lhe os funeraes na capella do Prado do Repouso, reservando para si a guitarra que elle por tão longos annos dedilhára.
Aqui podia terminar a biographia de José Maria da Graça Strech, mas, para que fique mais completa, concluiremos copiando textualmenle as unicas palavras que até hoje falavam d'elle:
João José Duarte Machado, capellão director do cemiterio do Prado do Repouso, n'esta cidade do Porto:
«Certifico que no livro quarto do registo dos obitos e enterramentos dos adultos, a folhas trezentas setenta e sete, verso, se acha o assento seguinte:
«José Maria da Conceição Graça, filho de Francisco Pinto Graça, e de Maria da Gloria, natural do Porto, edade sessenta e seis annos, estado solteiro, profissão mendigo, morador que foi no Hospital de Cima de Villa, dos Entrevados, falleceu de molestia não denominada pelas nove horas da noute do dia vinte de maio de mil oitocentos cincoenta e nove; depois de se lhe rezarem os responsos do costume foi sepultado pelas oito horas da noute do dia vinte e um do dito mez n'este cemiterio publico—Prado do Repouso—no canteiro numero tres, sepultura dois mil trezentos e seis, de que se fez este termo que assigno com o reverendo capellão. Eu Antonio José Antunes Barbosa, director, o subscrevi.Antonio José Antunes Barbosa, director.Francisco Alves da Soledade, capellão.
«Não contém mais o dito assento, ao qual me reporto. Porto e Cemiterio do Prado do Repouso, nove de setembro de mil oitocentos setenta e tres.
«JOÃOJOSÉDUARTEMACHADO.»
«Capellão director.»
FIM
[15]Em 1873.
[15]Em 1873.