SCENA IX

SCENA IXBarnabé e LiborioBARNABÉ(vendo Liborio) Olha o Liborio!... (á parte) que veio aqui fazer este typo?LIBORIOO meu parceiro do quino!...BARNABÉO grande pandego por aqui?LIBORIO(á parte) E eu que ainda hontem estive a jogar com elle... Isto vae transtornar a patranha...BARNABÉEntão que feliz acaso o trouxe aqui a minha casa?LIBORIOA sua caza?... É celebre coisa! Eu não sabia que o amigo Barnabé era o pae da menina... Muito gôsto em o conhecer...BARNABÉAinda me não explicou o mais importante.LIBORIOAcabo de ter o prazer de communicar a sua filha uma tristissima noticia...BARNABÉSim? então que foi?LIBORIO(querendo sahir) Não... Já bastará... dispenso obis... Ella cá lh'o contará...BARNABÉ(sustendo-o) Snr. Liborio, eu sou pae... ouviu?LIBORIO(á parte) A pequena é encantadora, e não será máo sondar o pae... (alto) O senhor conhece o Macario?BARNABÉMuito... de mais.LIBORIOVim annunciar-lhe que elle morreu.BARNABÉ(com jubilo) Que me diz?LIBORIO(admirado) Gosta?BARNABÉ(reconsiderando-se) Não... pobre moço... Sem duvida, deploro esse caso palpitante! mas em fim (alegremente) faz-me conta.LIBORIOSim? Faz-lhe conta?BARNABÉÉ o que eu lhe digo. Elle ia casar com a pequena... Consenti com muito custo. Não gostava do homem, eu; e persuado-me que minha filha se daria mal com elle. Por tanto, como individuo, lamento-o; como pae, exulto.LIBORIO(á parte) Isto vae bem, vae bem... mas então é inutil que eu o convença de que... (alto) Snr. Barnabé... (Leva-o para a esquerda)Psiu... Macario está de perfeita saude.BARNABÉO Macario que morreu?LIBORIONão é isso... não morreu...BARNABÉIsso máo é!...LIBORIOAhi vae o inigma em duas palavras. Macario fez á sua filha juramentos que não quer cumprir, percebe?BARNABÉDiga o resto.LIBORIOE para fugir á vingança, pediu-me que viesse dar parte da sua morte.BARNABÉÉ um caso bonito e extraordinario, esse...LIBORIOEu fiz um relatorio em regra... um duelo em Braga, etc., etc., etc.BARNABÉElla havia de fazer ahi o diabo!... Ella não lhe bateu, hein?LIBORIONão; mas soluçou, desmaiou, escabujou... Oh! soberba creatura na sua angustia!BARNABÉEstá alli uma linda viuva, não acha?LIBORIOA final quer que eu vá com ella a Braga.BARNABÉO senhor?LIBORIOEu e mais o senhor. Quer que vamos os trez.BARNABÉEntão desconfia da pêta?LIBORIONão, senhor. Quer ir vingar a morte do noivo.BARNABÉToma!LIBORIOE exige que eu lhe diga o nome do assassino; e como até esta data o unico assassino de Macario sou eu...SCENA XOs mesmos e Itelvina,que vinha entrando pela direita, e, ao ouvir a ultima phrase, se esconde.ITELVINA(á parte) Que disse elle?LIBORIOAgora, já o meu amigo entende a minha atrapalhação...ITELVINA(á parte) A sua atrapalhação!...BARNABÉPorque lhe não disse um nome qualquer?LIBORIONão me occorreu essa idéa...ITELVINA(á parte) Que mysterio é este?LIBORIOJá vê em que entalas eu me acho... A cada instante, quasi que me estendia... Que colicas eu rapei! Eu não queria de modo algum que ella soubesse que...ITELVINA(á parte) Que horrores eu estou adivinhando!BARNABÉSoubesse o quê?LIBORIOJogo franco. Macario fallou-me de sua filha n'uns termos que espicassaram a minha curiosidade...BARNABÉCom effeito... espicassaram-no os termos...LIBORIOMeu amigo, sympathiso com esta menina original...ITELVINA(á parte) Hein?LIBORIOÉ o que lhe digo... Amo as plantas exoticas... Gosto d'estes licores capitosos de fabrica estrangeira, e regeito os charopes amelaçados da fabrica nacional.BARNABÉEm summa, o senhor gosta de minha filha...LIBORIODeveras.ITELVINA(á parte) Elle ama-me!... que horror!BARNABÉQuerido Liborio! (á parte) Elle é rico... (alto) O seu pedido faz-me muita honra... mas...LIBORIORecusa?BARNABÉAcceito. (Dão-se as mãos).ITELVINA(á parte) Que revelação!BARNABÉMas o essencial é conquistar a vontade d'ella... Uma feliz lembrança! vamos partir todos para Braga...LIBORIOParece-lhe?...BARNABÉ(gracejando) O senhor não se arrisca a encontrar o assassino de Macario, pois não?LIBORIO(rindo) É muito provavel que não...BARNABÉVocês viajam juntos; e em quanto finge que faz indagações, vae lhe fazendo a côrte.LIBORIOÉ isso, perfeitamente.BARNABÉEu vou tambem... bem me custa; mas em fim não ha conveniencias a guardar quando se trata do futuro de uma filha.LIBORIOMil graças, snr. Barnabé.BARNABÉVenha commigo ao meu quarto, e ajuda-me a fazer a mala.LIBORIOCom muito prazer! Estou contentissimo!BARNABÉE então eu! Vi-me livre do Macario! Que bem fez o senhor em matar esse bigorrilha! (Entram pela esquerda)SCENA XIItelvina(só) Elle! foi elle o assassino de Macario! E meu pae sabia-o! e ambos elles querem que eu caze!... Mas que paiz é este... este Portugal... este mundo onde o assassino cubiça a noiva da victima! E pude conter-me! E não avancei para elle como uma leôa, como a pantera ferida! Oh! mas elle torna, e então... Não, não é com um golpe de punhal que elle hade morrer! Para crimes monstruosos é necessario vinganças excepcionaes! Hade morrer não a golpes de punhal, mas a picadellas de alfinete! Elle ama-me!... ama-me!... quer esposar-me!... por que não? por que não? Pois não é justo que o seu nome e a sua honra me pertençam? (ironica) Ah! com que jubilo eu não proferirei deante do sacerdote, o ditososim, a doce renuncia de mim toda! Nunca uma noiva apaixonada, mais ternamente, nunca uma solteirona de 35 annos terá proferido essesimcom maior exultação! Ah! parece-me que me estou vendo e ouvindo quando o padre me disser: «Recebe como esposo o snr. Liborio?» e eu com a coroa de virgem na fronte e a raiva no coração e a injuria nos labios e os olhos em terra, responderei «sim,sim, sim!» Ó meu Macario, conta com uma vingança desconhecida na Europa! uma vingança mexicana! Ah! lá da mansão celeste, tua derradeira morada, ver-me-has com ufania!... Vem gente... é elle!... Cala-te, meu coração!... Sorride meus labios! Silencio, minhas saudades! É forçoso! é forçoso!... (Senta-se junto ao piano).SCENA XIILiborio, Barnabé, ItelvinaBARNABÉ(fóra) Confio-lh'a; mas não lhe dê grandes abalos. (Entra pela esquerda com Liborio).LIBORIO(com uma grande mala) Peza que tem diabo!BARNABÉPeza, peza... Obrigado... Eu é que já não posso com isso.LIBORIO(vendo Itelvina, baixo a Barnabé) Cá está ella... Álerta!BARNABÉJusto... Façamos caras dolorosas. (Avança e pára) Cuidei que ella estava arranjando as malas...LIBORIO(baixo) Está a pensar n'elle...BARNABÉ(aproximando-se em tom maguado) Itelvina, Itel...ITELVINAQuem me chama?BARNABÉNinguem... isto é, sou eu, teu pae. (Aponta para Liborio e faz com que ella o veja com a mala). Estamos promptos para partir...ITELVINA(como se não entendesse) Partir não entendo...BARNABÉNão entendes? boa!... O snr. Liborio contou-me...ITELVINAEntão já sabe?BARNABÉSim, sei. Que se lhe ha de fazer? A Parca é inflexivel!ITELVINAE o papá tem grande pena, não tem?BARNABÉE que pena! aqui tens a prova... ali está a mala... Resigno-me a ir a Braga, auxiliar-te nas tuas indagaçoens.ITELVINAQuaes indagaçoens?BARNABÉEntão nós não vamos procurar o assassino de...ITELVINA(erguendo-se de golpe) O assassino de Macario?... (Avança para Liborio, que sustenta sempre a mala, e recua deante do olhar d'ella) O senhor que tem? que tem o snr. Liborio?LIBORIOEu?... nada...ITELVINAPensei que estava atarantado...LIBORIOUm pouco, com esta mala...ITELVINA(á parte) O remorso estrangula-o!... (alto) O senhor era amigo d'elle, não era? muito amigo d'elle, pois não?BARNABÉEstá bom, está bom... tem muito tempo de conversar na jornada...ITELVINAQual jornada?BARNABÉPois nós não vamos a Braga?ITELVINAFazer o quê?BARNABÉMas o snr. Liborio não me disse que tu...ITELVINAAh! sim... no primeiro momento, queria... pensava mas mudei de tenção... Não vamos.LIBORIO(deixando cahir a mala) Hein?BARNABÉBoa vae ella!ITELVINADe que serve procurar esse feliz contendor... O duelo é um jogo d'azar... e a minha vingança não se submette ao acaso... (Passa para a direita)BARNABÉApoiada! tens muita rasão! isso é que é ter juiso! (A Liborio) Está applacada!... Bravo!LIBORIO(á parte) É o arco da velha a annunciar trovoada.SCENA XIIIOs mesmos e SebastianaSEBASTIANA(entrando pelo fundo) Está o almôço na meza.ITELVINAPõe mais um talher.BARNABÉTrez talheres?ITELVINAPois então, meu pae! não ha nada mais natural... O snr. Liborio, que chegou de Braga, e que veio prestar-nos um serviço, não duvidará acceitar...LIBORIOEu... mas... (á parte) Bem disse eu que era o arco da velha... (alto) com muito prazer.ITELVINAO seu braço, snr. Liborio. (Liborio offerece-lh'o e sobem).SEBASTIANA(á parte) Este será tambem um noivo?BARNABÉ(á parte) Que mudança ella fez!ITELVINA(para o pae) (Parando á porta do fundo) Então, meu pae? Vem? está a pensar no Macario, ou no assassino de Macario? Vamos almoçar. (Sahem).BARNABÉ(pensativo) Máo! máo! Bem dizia o Liborio... O arco da velha vae dar muita chuva... (Segue-os).FIM DO 1.º ACTOACTO SEGUNDOQuarto de dormir. Ao fundo, um leito cujos cortinados, pendentes de um docel, estão meio-cerrados. Um pouco áquem uma porta que abre para um gabinete detoilette. Á direita, no primeiro plano, uma janella fechada com cortinas estore. No fundo, á direita do leito, a porta da entrada. Á direita, no 3.º plano, uma porta de communicação para o quarto de Itelvina. Á direita, na frente, uma meza. Á esquerda uma jardineira sobre a qual está uma caixa de charutos, phosphoros, e um barrete de veludo. Ao pé da jardineira, sobre uma cadeira, uma camizola. Á direita, uma cadeira de estofo sobre a qual estão as calças de Liborio. Ao pé uma bota e um chinelo. Á cabeceira do leito, uma bispoteira. Cadeiras de estofo, quadros, etc. Uma lanterna de furta-fogo sobre a jardineira.SCENA IItelvina, (só) Liborio, (no leito meio occulto)(Ao correr do panno, a scena está alumiada pela lanterna, deixando na penumbra o leito. Quando corre o panno, Itelvina, erguida ao fundo sobre uma cadeira, pendura uma das botas de Liborio n'um painel; depois desce, pega da lanterna,examina a bota, e diz:) Bem... está como se quer... d'um bello effeito! Mas, se elle não visse... Ah! tenho aqui linha... (Põe a lanterna sobre a meza, e sacando da algibeira um novello de linha torna a subir á cadeira, prende a extremidade da linha á bota; e descendo, traça com o fio no taboado uma linha que vae até á meza sobre a qual põe o novello; ahi pega d'um bocado de gis, senta-se e escreve sobre a meza, fallando em voz alta.) «Seguir o fio». (Ergue-se, e vae ao pé do leito). Acordaria elle?... não. (Ouve-se resonar ao fundo) Elle resona, o miseravel resona! Condemnei-o a passar as oito primeiras noites de casado em uma completa solidão, e elle resona indifferente á minha auzencia! Antes assim!... Hoje entramos na nova crize, a crize das pequenas mizerias, as picadellas dos alfinetes antes das punhaladas... Vejamos se me lembrou tudo. (Senta-se á meza, e lê em uma carteira á luz da lanterna). «Despregar por tres lados os cortinados do leito para que lhe cáiam sobre o nariz.» Isso está feito e bem me custou...(Lendo:) «Furar os charutos». Já furei. «Polvilhar de pimenta o bonnet.» Já tem. «Coser os lenços ás algibeiras». Estão cosidos. «Esconder um dos chinelos e uma das botas; adiantar a pendula e atrazar o relogio; deixar-lhe só um tostão no porte-monnaie, e cortar os elasticos dos suspensorios». Está tudo feito. (Lendo:)Acordal-o de sobresalto para lhe causar um grande estonteamento». É o que se vae fazer. (Ergue-se e dirige-se com a lanterna para a porta da direita). Ah! Liborio, assassino de Macario, o céo é justo, e a hora da vingança soou! (Proferindo esta phrase, tira da algibeira uma pistola; dita a ultima palavra, dá um tiro e sahe fechando sobre si a porta. Completa escuridão.)SCENA IILiborio(só) Ui! isto que foi? Que é isto? (Espreita por entre as cortinas). Entre quem é! Quem está ahi? Não é ninguem... quem foi que me acordou? Parece que ouvi um tiro ou um espirro enorme, não sei bem o que foi... Estaria eu a sonhar? Ninguem aqui vem espirrar de noite no meu quarto, e mais sou casado, casado ha oito dias! Tudo está em repouso, excepto a minha imaginação. Isto que horas serão? As cortinas estão fechadas... não se vê boia... escuro como um prego... Felizmente o meu relogio é de repetição (Toca na mola do relogio pendurado no espaldar do leito, e ouve 4 horas). Quatro horas! ainda quatro horas! Ah! as noites solitarias!... como são eternas! Vamos vêr se se adormece... (Deita-se, a pendula dá horas,e elle conta-as em voz alta, erguendo a cabeça a cada nova pancada). Uma, duas, tres, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez... Dez horas! Como dez horas! E o meu relogio que só dá quatro... (Assenta-se na cama) E são ambos do mesmo relojoeiro! Mas, se ja fôssem dez horas, eu devia estar a pé. Principiemos por abrir os cortinados. (Puxa pelas cortinas que cahem e o embrulham) Que é isto, com dez raios de diabos... Larguem-me, larguem-me!... Larguem-me o quê?! Grande besta que eu sou! Ninguem me prende... são os cortinados que eu agarro... que me agarram a mim. (Ao desembaraçar-se das cortinas cahe da cama ao chão) Que trapalhada é esta! o dia principia mal... Vou correr as cortinas e os stores. Não gosto da escuridão. (Abre: é dia claro) É dia claro! A pendula tinha rasão. Toca a vestir depressa. (Pega das calças e vae vestil-as atraz do fauteuil; calça um chinelo e procura o outro) Onde estará o outro sapato? Não me apparece senão este... Parece-me obra do diabo isto! Vou calçar as botas. (Depois de calçar uma) Onde está a outra? Como é isto de achar só um chinelo e uma bota? Seria a Sebastiana? Ella ficou de me chamar ás nove horas, e entraria sem eu dar fé... mas para que fim me levaria só uma bota? (Trata de cruzar um suspensorio que quebra) Irra! agora são os suspensorios! (Aperta o outro, enraivado) Que inferno este! (Quebra o outro) Lá vão ambos!(Atira-os ao chão) A fivela estará direita? está... segura-se... Valha-nos isso. (Procurando) O meu bonet? Está acolá... (cobre-se) A camisola? está aqui... (veste-a). Agora, vou procurar... (suspende-se) Mas se ainda é cedo... (espirra) que raio de cheiro a pimenta! Se a Sebastiana tivesse vindo, acordava-me como eu lhe ordenei... Não serão ainda nove horas? Receio de ir acordar... Vou fumar um charuto. (Pega de um charuto e phosphoro) O fumar de manhan aclara-me as ideas. Santo Deus, como é incommodo passear com uma bota e um chinelo! (Assenta-se á esquerda do gueridon) Em quanto Sebastiana não vem, recapitulemos os meus infortunios fumando um delicioso havano... (espirra) Que é o que cheira aqui tanto a pimenta? (Pretende accender o charuto) Era meia noite. Itelvina pertencia-me ao cabo de trez mezes de scenas exquisitas; ella tinha proferido, de manhan, com uma voz energica osimencantador que me dava sobre ella direitos senhoriaes absolutos. Dançava-se no salão amarello, e havia uma hora que eu amaldiçoava os relogios (Não podendo accender o charuto atira-o ao fogão e vae buscar outro) que me pareciam todos parados. Annunciára-se finalmente a ultima quadrilha, os dançantes começavam a cancanizar-se um pouquito... (espirra) D'onde virá este cheiro a pimenta? Minha mulher dançava com o tabellião, e parecia muito emocionada...Eu attribuia a mim esta emoção que o tabellião não justificava de modo nenhum... Em fim, sôa a meia noute. (Ergue-se). Ouve-se um grito agudissimo... Corro e exclamo... (Atira fóra o segundo charuto) Que é o que tem estes charutos? (Pega n'um terceiro)... e exclamo: Céos! minha mulher! Itelvina estava desmaiada. Tinha torcido um pé quando polkava com o tabellião; e eis-me aqui, á meia noute, a primeira das minhas nupcias, á procura d'um indireita. A final, topo um; e cuidando que á meia hora depois da meia noite, tinha direito a examinar o estorcegão do pé da minha esposa, entro com a faculdade algebrista até ao seu leito de dôr. (Accende o terceiro charuto) Baldada esperança! Nega-se-me obstinadamente este primeiro favor, e sou obrigado a esperar n'um quarto proximo, com o papá Barnabé, a sahida do doutor que, depois de um quarto d'hora de angustias, veio em fim declarar-nos que uma forte distensão dos ligamentos, uma contracção terrivel da articulação, reteriam minha mulher quinze dias de cama; e com effeito, depois... T'arrenego, diabo! este charuto está rôto! E os outros? (Examina a caixa) Estão todos estripados! (espirra) Com toda a certeza, tenho pimenta nas ventas! (Tira o bonnet) Ah! aqui está a pimenteira! É possivel!... como é isto? Sebastiana mette a pimenta no meu bonnet... (atira-o fóra) para opreservar do bicho... hade ser isso, mas ella é idiota!... (espirra) Que é do meu lenço? Está cosido! Cozeram-me o lenço á algibeira, como aos rapasinhos de escola... Ah! isto é um cumulo! (Puxa por um cordão de campainha proximo á cheminé) Não me importa acordar toda a gente! (sacode a campainha).SEBASTIANA(fóra) Lá vae, lá vae, senhor!LIBORIOVamos a esclarecer isto tudo...BARNABÉ(fóra) Que banzé é este?LIBORIOO sôgro... sôgro de mão cheia... (gesto ironico. Barnabé e Sebastiana entram pelo fundo).SCENA IIISebastiana, Liborio, BarnabéSEBASTIANAO senhor está doente?BARNABÉSerá preciso chamar os bombeiros?LIBORIO(a Sebastiana) Vem cá... e responde.SEBASTIANAQuem, eu?BARNABÉQue tem o meu genro?LIBORIOPassados cinco minutos, tem-me ás suas ordens. (a Sebastiana) Vem cá... Que horas são?BARNABÉEntão foi para saber que horas eram...LIBORIOSnr. Barnabé, não é comsigo que eu fallo. (a Sebastiana) Quantas horas são?SEBASTIANAOito e meia, senhor.LIBORIOPor que é então que o meu relogio tem quatro e a pendula dá dez e meia?SEBASTIANAEu sei cá! pergunte-o ao relojoeiro.BARNABÉElla tem rasão; o seu officio não é esse. Ella de pendulas não percebe nada.LIBORIOEspera um pouco. (a Sebastiana) Por que metteste pimenta no meu bonnet?SEBASTIANAEu?! que metti eu?BARNABÉSim... isso lá da pimenta é com ella... Responde sobre a pimenta, rapariga!LIBORIOPor que furaste os meus charutos?SEBASTIANAEu furei os seus charutos!...BARNABÉElla furou os charutos?... Tu furaste... (a Sebastiana)LIBORIOPor que me coseste os lenços ás algibeiras?SEBASTIANAOlha que espiga!BARNABÉPois tu coses os lenços?...SEBASTIANAIsso é falso, senhor!...LIBORIO(mostrando) Estão cosidos ou não estão cosidos?SEBASTIANAEu cá não fui.LIBORIOE os cortinados do leito... e os chinelos que deviam estar aos pés da cama...BARNABÉNos seus pés, quer dizer o meu genro.LIBORIOMeu sogro, queira amordaçar o seu espiritoque me está arreliando. (a Sebastiana) Em fim, responde, explica-te.SEBASTIANANão percebo patavina.BARNABÉE dois.LIBORIONão percebem que se está aqui representando uma magica de pessimo gosto... uma diabrura de auctores anonymos...BARNABÉNão está má essa! O senhor disfructa-nos!SEBASTIANAÉ lá possivel a diabrura! cruzes, canhoto!LIBORIODesde esta manhan estou sendo uma almofada em que mão desconhecida espeta alfinetes... Notem isto... Aqui está uma bota. Pergunto eu: onde está a outra? Aqui está um chinelo; e o outro onde está?SEBASTIANA(procurando) Eu procuro... (Aproxima-se da meza e vendo o que está escripto) Esperem lá!... (Lendo) «Seguir o fio.»LIBORIO(approximando-se) Seguir o fio?!BARNABÉ(o mesmo) Então sigamos o fio. (Seguem os tres o fio da linha. Sebastiana á frente vae innovelando o fio. Barnabé atraz) Onde vae isto parar? (Vão indo até chegar á parede) A linha aqui, trepa! (Levantam as cabeças).SEBASTIANA(vendo a bota) Olha!BARNABÉÉ ella!LIBORIOA minha bota!BARNABÉA sua bota!SEBASTIANAÉ verdade, a bota!LIBORIO(passando para a direita) Quem a pendurou acolá?SEBASTIANA(tirando a bota para baixo) Eu não fui.BARNABÉMenos eu.LIBORIOPor consequencia...SEBASTIANAO snr. Liborio tem estado a mangar comnosco... Isto é uma chalaça... não ha que vêr...LIBORIOHein?BARNABÉ(rindo) O meu genro hade ser sempre um pandego...SEBASTIANAQuiz-nos impingir esta comedia.LIBORIOIrra! Foste tu; olha que te ponho no olho da rua!...SEBASTIANAOh senhor!...BARNABÉComo imagina o senhor que esta rapariga...LIBORIOSe não foi ella... foi o senhor.BARNABÉMeu genro!... ousar desconfiar que um antigo negociante...LIBORIOTem razao... seria espirito de mais para um antigo negociante... Mas o certo é que nós aqui não sômos senão trez. Minha mulher não póde ser, porque está de cama com um pé torcido.BARNABÉA respeito d'isso, parece que ella está melhor do pé... O senhor sabe que ella está melhor do pé...LIBORIOComo eu que sei?BARNABÉEu ouvi o meu genro esta noite abrir a porta do quarto d'ella.LIBORIOEu?BARNABÉE que balburdia o senhor fez!...LIBORIOEu?BARNABÉSe não receasse ser indiscreto, vinha cá abaixo.LIBORIOO senhor está doudo! Eu não sahi d'aqui!BARNABÉOra, deixe-se d'isso...SEBASTIANA(reflectindo) Achei o que é... Já sei...LIBORIO(vivamente) Achaste quem é que manga comigo?SEBASTIANAÉ o senhor mesmo.LIBORIOEu?BARNABÉElle? dize lá...SEBASTIANA(a Barnabé) Eu tive um primo que fazia o mesmo... levantava-se de noite...BARNABÉUm somnambulo! Ella tem razão... O snr. Liborio é somnambulo.SEBASTIANAÉ isso, é isso, somnambulo...LIBORIOEu somnambulo!... está bem!... fico sciente!...SEBASTIANAÉ que o senhor não se lembra do que fez. Uma noite, meu primo, entrou pelo meu quartodentro, e abraçou-me; e eu como sabia que é um perigo acordar os somnambulos, nada lhe disse, e elle ao outro dia não se lembrava de nada.LIBORIOÉ lá possivel que fôsse eu!...BARNABÉEntão quem havia de ser?LIBORIOÉ assim... é--está tudo bem explicado... mas será dificil fazer-me crer que eu a dormir rompesse os meus charutos, que deitasse pimenta no meu bonnet e cozesse os meus lenços.BARNABÉAqui estou eu que fui somnambulo quando era pequeno, e escrevia os traslados a dormir...LIBORIO(á parte) Estou inquieto... (Alto) Meu sôgro, e tambem tu, Sebastiana, peço-lhes que não digam nada do acontecido a minha mulher.SEBASTIANAEu cá por mim...BARNABÉFique na certeza...LIBORIO(scismando) De mais a mais, eu não sei cozer... Como é possivel que eu soubesse cozer a dormir?...SEBASTIANAÓ meu senhor, o meu primo só sabia abraçar-me quando estava a dormir... Chama-se a isso vista dobrada.LIBORIO(á parte) Este caso faz-me desconfiar...SCENA IVOs mesmos e ItelvinaITELVINA(fóra) Quem me acode, quem me acode!BARNABÉMinha filha!SEBASTIANASenhora!... (Todos se dirigem para a porta da direita que se abre para dar passagem a Itelvina que entra em toilette de noute com a perna direita ligada encostando-se á parede).ITELVINASocorram-me... uma cadeira... amparem-me... (Liborio e Barnabé pegam em Itelvina em quanto Sebastiana puxa a cadeira para o centro da scena).BARNABÉPois tu ergueste-te?LIBORIOEntão isso como vae? melhorzinha?ITELVINAPelo contrario... cada vez peor.LIBORIOEra melhor ter tocado a campainha.ITELVINA(deixando-se cahir no fauteuil) Ai! devagar, devagar... Sebastiana, um banquinho...LIBORIO(chegando-lh'o) Aqui está... venha uma almofada... (Sebastiana traz a travesseirinha que elle colloca sobre o banquinho; depois quer pegar na perna da mulher) Com licença...ITELVINANão lhe toque... Ai! a menor pressão... (pondo a perna sobre o banco) Ai!... como eu estou!... (Sebastiana tem passado para a direita).BARNABÉPara que te ergueste tu?ITELVINAEu estava melhor... quiz experimentar... E, depois que me levantei, achei-me tão boa, que pensei poder vir até cá; mas receio bem ter aggravado o mal...LIBORIO(á parte) Vamos bem!... o casamento está para demora... O meu matrimonio está pendente d'um pé desnocado... Se isto não fôr pé de cantiga, fico toda vida a fazer pé de alferes a minha mulher coixa.BARNABÉ(que tem estado a conversar com a filha) Fizeste muito mal em te levantares... Eu não posso demorar-me por que tenho de fallar com o José Francisco Braga que me quer ceder a quinta da Carriça... E, como não pude arranjar a de S. Mamede de Infesta, vou-me lá.ITELVINAEntão o pae quer deixar-nos? Muda de casa?LIBORIOÓ meu sôgro!... (á parte) Não seria máo...BARNABÉSôgro... precisamente... um sôgro entre uns casados que se adoram, é incommodo... é emprasador...ITELVINAOra...LIBORIOOra... (á parte) Diz muito bem...BARNABÉE, n'esse caso, resolvi... com muito pezar... com muita saudade... ir viver sósinho...o que me hade custar muito... na aldeia... É um sacrificio... vou victimar-me á felicidade dos meus filhos... E além d'isso, está no meu gosto... a meditação... divagar solitario no seio da natureza...ITELVINAEntão não o demoramos, meu pae; mas esperamo'l-o para o almoço.BARNABÉNão será possivel... Tenciono almoçar no botequim... Não gosto de almoçar de garfo; prefiro o meu café com leite, uma torrada, e oPrimeiro de Janeiroque é tudo leve.ITELVINAPlena liberdade...BARNABÉLiberdade... liberdade...! E, se tu agora peorasses...ITELVINANão... eu sinto-me melhor... Sebastiana ficará ao pé de mim, e se fôr preciso, o Liborio vae chamar o medico.BARNABÉE eu não me demorarei muito tempo... Se o José Francisco lá estiver, antes do meio dia volto a casa... Vou tratar depressa este negocio... Então é verdade que estás melhorsinha?ITELVINASim... n'este momento quasi que não soffro.BARNABÉEntão vou acabar com isto... Meu genro, aqui lh'a entrego...LIBORIOVá descançado, meu sôgro.BARNABÉ(abraçando Itelvina) Até logo, minha Lili... Vou-me já safando, por que, se fôsses a peor, teria de ficar, e fazia-me desarranjo. (Sahe pelo fundo).LIBORIO(acompanhando-o) Arrange lá os seus negocios e não se apresse...SCENA VItelvina, Sebastiana e LiborioITELVINA(á parte) Vou em fim saber o resultado das minhas primeiras picadellas de alfinete.LIBORIO(voltando de bom rosto para junto de sua mulher) A senhora aqui... na minha alcôva... Que surpreza!ITELVINAOra esta! O senhor traz uma bota e um chinelo?!LIBORIOFoi a Sebastiana que...SEBASTIANAEu? E elle a dar-lhe...LIBORIOOu eu... É muito possivel que fôsse eu... Eu tenho padecido tanto depois do nosso casamento... que posso estar doudo... (Ergue-se).ITELVINA(á parte) É possivel que elle se persuada...SEBASTIANA(ao pé do leito) Ora esta! as cortinas estão rasgadas! quer vêr?LIBORIOÉ isso, é isso; fui eu... Quando me erguia, puxei pelos cortinados, ezás!... é preciso chamar o estofador.ITELVINA(á parte) Está persuadido que foi elle...LIBORIO(á parte) Ella acredita que eu sou somnambulo!...SEBASTIANA(arrumando) Este quarto está n'uma felga...LIBORIO(á parte) A mulher é capaz de ficar... Detestavel creatura!ITELVINA(olhando para a pendula) São onze horas?LIBORIO(á parte) Ai! já onze!SEBASTIANANão, minha senhora, só são nove horas... Eu não sei como isto seja! A pendula do senhor adianta-se, e o relogio atraza-se.LIBORIOComo será isso? entende-se bem... é muito simples... Sou eu que desmancho tudo... Como heide eu andar direito, se o pé torto de minha mulher não me sáe do espirito?!ITELVINAPobre Liborio! (á parte) Elle será tão estupido? (Alto a Sebastiana, mostrando-lhe os suspensorios que estão no chão) Sebastiana, levanta isso.SEBASTIANA(erguendo os suspensorios) O senhor estragou assim os seus suspensorios?LIBORIOÉ verdade, é verdade... Foi de proposito.ITELVINADe proposito?LIBORIOEncommodavam-me. (á parte) A creada já me inoja...ITELVINA(á parte) Como elle é tão philosopho, dobrarei a doze...LIBORIO(a Sebastiana) Sebastiana...SEBASTIANASenhor.LIBORIOSeria bom tratar do almoço.SEBASTIANASim, meu senhor; mas, se a senhora precisar de mim?LIBORIOSe precisar, chamo-te... Faze um almoço ligeiro, refrigerante. (Sebastiana tem passado para a direita).ITELVINAEu tinha dado as ordens; mas, se as não approva...LIBORIOEu? tudo o que a minha esposa quizer é o que eu quero... Sebastiana, vae preparar o almoço que a senhora ordenou.SEBASTIANASim, meu senhor. (Sae pelo fundo).

(vendo Liborio) Olha o Liborio!... (á parte) que veio aqui fazer este typo?

O meu parceiro do quino!...

O grande pandego por aqui?

(á parte) E eu que ainda hontem estive a jogar com elle... Isto vae transtornar a patranha...

Então que feliz acaso o trouxe aqui a minha casa?

A sua caza?... É celebre coisa! Eu não sabia que o amigo Barnabé era o pae da menina... Muito gôsto em o conhecer...

Ainda me não explicou o mais importante.

Acabo de ter o prazer de communicar a sua filha uma tristissima noticia...

Sim? então que foi?

(querendo sahir) Não... Já bastará... dispenso obis... Ella cá lh'o contará...

(sustendo-o) Snr. Liborio, eu sou pae... ouviu?

(á parte) A pequena é encantadora, e não será máo sondar o pae... (alto) O senhor conhece o Macario?

Muito... de mais.

Vim annunciar-lhe que elle morreu.

(com jubilo) Que me diz?

(admirado) Gosta?

(reconsiderando-se) Não... pobre moço... Sem duvida, deploro esse caso palpitante! mas em fim (alegremente) faz-me conta.

Sim? Faz-lhe conta?

É o que eu lhe digo. Elle ia casar com a pequena... Consenti com muito custo. Não gostava do homem, eu; e persuado-me que minha filha se daria mal com elle. Por tanto, como individuo, lamento-o; como pae, exulto.

(á parte) Isto vae bem, vae bem... mas então é inutil que eu o convença de que... (alto) Snr. Barnabé... (Leva-o para a esquerda)Psiu... Macario está de perfeita saude.

O Macario que morreu?

Não é isso... não morreu...

Isso máo é!...

Ahi vae o inigma em duas palavras. Macario fez á sua filha juramentos que não quer cumprir, percebe?

Diga o resto.

E para fugir á vingança, pediu-me que viesse dar parte da sua morte.

É um caso bonito e extraordinario, esse...

Eu fiz um relatorio em regra... um duelo em Braga, etc., etc., etc.

Ella havia de fazer ahi o diabo!... Ella não lhe bateu, hein?

Não; mas soluçou, desmaiou, escabujou... Oh! soberba creatura na sua angustia!

Está alli uma linda viuva, não acha?

A final quer que eu vá com ella a Braga.

O senhor?

Eu e mais o senhor. Quer que vamos os trez.

Então desconfia da pêta?

Não, senhor. Quer ir vingar a morte do noivo.

Toma!

E exige que eu lhe diga o nome do assassino; e como até esta data o unico assassino de Macario sou eu...

(á parte) Que disse elle?

Agora, já o meu amigo entende a minha atrapalhação...

(á parte) A sua atrapalhação!...

Porque lhe não disse um nome qualquer?

Não me occorreu essa idéa...

(á parte) Que mysterio é este?

Já vê em que entalas eu me acho... A cada instante, quasi que me estendia... Que colicas eu rapei! Eu não queria de modo algum que ella soubesse que...

(á parte) Que horrores eu estou adivinhando!

Soubesse o quê?

Jogo franco. Macario fallou-me de sua filha n'uns termos que espicassaram a minha curiosidade...

Com effeito... espicassaram-no os termos...

Meu amigo, sympathiso com esta menina original...

(á parte) Hein?

É o que lhe digo... Amo as plantas exoticas... Gosto d'estes licores capitosos de fabrica estrangeira, e regeito os charopes amelaçados da fabrica nacional.

Em summa, o senhor gosta de minha filha...

Deveras.

(á parte) Elle ama-me!... que horror!

Querido Liborio! (á parte) Elle é rico... (alto) O seu pedido faz-me muita honra... mas...

Recusa?

Acceito. (Dão-se as mãos).

(á parte) Que revelação!

Mas o essencial é conquistar a vontade d'ella... Uma feliz lembrança! vamos partir todos para Braga...

Parece-lhe?...

(gracejando) O senhor não se arrisca a encontrar o assassino de Macario, pois não?

(rindo) É muito provavel que não...

Vocês viajam juntos; e em quanto finge que faz indagações, vae lhe fazendo a côrte.

É isso, perfeitamente.

Eu vou tambem... bem me custa; mas em fim não ha conveniencias a guardar quando se trata do futuro de uma filha.

Mil graças, snr. Barnabé.

Venha commigo ao meu quarto, e ajuda-me a fazer a mala.

Com muito prazer! Estou contentissimo!

E então eu! Vi-me livre do Macario! Que bem fez o senhor em matar esse bigorrilha! (Entram pela esquerda)

(só) Elle! foi elle o assassino de Macario! E meu pae sabia-o! e ambos elles querem que eu caze!... Mas que paiz é este... este Portugal... este mundo onde o assassino cubiça a noiva da victima! E pude conter-me! E não avancei para elle como uma leôa, como a pantera ferida! Oh! mas elle torna, e então... Não, não é com um golpe de punhal que elle hade morrer! Para crimes monstruosos é necessario vinganças excepcionaes! Hade morrer não a golpes de punhal, mas a picadellas de alfinete! Elle ama-me!... ama-me!... quer esposar-me!... por que não? por que não? Pois não é justo que o seu nome e a sua honra me pertençam? (ironica) Ah! com que jubilo eu não proferirei deante do sacerdote, o ditososim, a doce renuncia de mim toda! Nunca uma noiva apaixonada, mais ternamente, nunca uma solteirona de 35 annos terá proferido essesimcom maior exultação! Ah! parece-me que me estou vendo e ouvindo quando o padre me disser: «Recebe como esposo o snr. Liborio?» e eu com a coroa de virgem na fronte e a raiva no coração e a injuria nos labios e os olhos em terra, responderei «sim,sim, sim!» Ó meu Macario, conta com uma vingança desconhecida na Europa! uma vingança mexicana! Ah! lá da mansão celeste, tua derradeira morada, ver-me-has com ufania!... Vem gente... é elle!... Cala-te, meu coração!... Sorride meus labios! Silencio, minhas saudades! É forçoso! é forçoso!... (Senta-se junto ao piano).

(fóra) Confio-lh'a; mas não lhe dê grandes abalos. (Entra pela esquerda com Liborio).

(com uma grande mala) Peza que tem diabo!

Peza, peza... Obrigado... Eu é que já não posso com isso.

(vendo Itelvina, baixo a Barnabé) Cá está ella... Álerta!

Justo... Façamos caras dolorosas. (Avança e pára) Cuidei que ella estava arranjando as malas...

(baixo) Está a pensar n'elle...

(aproximando-se em tom maguado) Itelvina, Itel...

Quem me chama?

Ninguem... isto é, sou eu, teu pae. (Aponta para Liborio e faz com que ella o veja com a mala). Estamos promptos para partir...

(como se não entendesse) Partir não entendo...

Não entendes? boa!... O snr. Liborio contou-me...

Então já sabe?

Sim, sei. Que se lhe ha de fazer? A Parca é inflexivel!

E o papá tem grande pena, não tem?

E que pena! aqui tens a prova... ali está a mala... Resigno-me a ir a Braga, auxiliar-te nas tuas indagaçoens.

Quaes indagaçoens?

Então nós não vamos procurar o assassino de...

(erguendo-se de golpe) O assassino de Macario?... (Avança para Liborio, que sustenta sempre a mala, e recua deante do olhar d'ella) O senhor que tem? que tem o snr. Liborio?

Eu?... nada...

Pensei que estava atarantado...

Um pouco, com esta mala...

(á parte) O remorso estrangula-o!... (alto) O senhor era amigo d'elle, não era? muito amigo d'elle, pois não?

Está bom, está bom... tem muito tempo de conversar na jornada...

Qual jornada?

Pois nós não vamos a Braga?

Fazer o quê?

Mas o snr. Liborio não me disse que tu...

Ah! sim... no primeiro momento, queria... pensava mas mudei de tenção... Não vamos.

(deixando cahir a mala) Hein?

Boa vae ella!

De que serve procurar esse feliz contendor... O duelo é um jogo d'azar... e a minha vingança não se submette ao acaso... (Passa para a direita)

Apoiada! tens muita rasão! isso é que é ter juiso! (A Liborio) Está applacada!... Bravo!

(á parte) É o arco da velha a annunciar trovoada.

(entrando pelo fundo) Está o almôço na meza.

Põe mais um talher.

Trez talheres?

Pois então, meu pae! não ha nada mais natural... O snr. Liborio, que chegou de Braga, e que veio prestar-nos um serviço, não duvidará acceitar...

Eu... mas... (á parte) Bem disse eu que era o arco da velha... (alto) com muito prazer.

O seu braço, snr. Liborio. (Liborio offerece-lh'o e sobem).

(á parte) Este será tambem um noivo?

(á parte) Que mudança ella fez!

(para o pae) (Parando á porta do fundo) Então, meu pae? Vem? está a pensar no Macario, ou no assassino de Macario? Vamos almoçar. (Sahem).

(pensativo) Máo! máo! Bem dizia o Liborio... O arco da velha vae dar muita chuva... (Segue-os).

Quarto de dormir. Ao fundo, um leito cujos cortinados, pendentes de um docel, estão meio-cerrados. Um pouco áquem uma porta que abre para um gabinete detoilette. Á direita, no primeiro plano, uma janella fechada com cortinas estore. No fundo, á direita do leito, a porta da entrada. Á direita, no 3.º plano, uma porta de communicação para o quarto de Itelvina. Á direita, na frente, uma meza. Á esquerda uma jardineira sobre a qual está uma caixa de charutos, phosphoros, e um barrete de veludo. Ao pé da jardineira, sobre uma cadeira, uma camizola. Á direita, uma cadeira de estofo sobre a qual estão as calças de Liborio. Ao pé uma bota e um chinelo. Á cabeceira do leito, uma bispoteira. Cadeiras de estofo, quadros, etc. Uma lanterna de furta-fogo sobre a jardineira.

(Ao correr do panno, a scena está alumiada pela lanterna, deixando na penumbra o leito. Quando corre o panno, Itelvina, erguida ao fundo sobre uma cadeira, pendura uma das botas de Liborio n'um painel; depois desce, pega da lanterna,examina a bota, e diz:) Bem... está como se quer... d'um bello effeito! Mas, se elle não visse... Ah! tenho aqui linha... (Põe a lanterna sobre a meza, e sacando da algibeira um novello de linha torna a subir á cadeira, prende a extremidade da linha á bota; e descendo, traça com o fio no taboado uma linha que vae até á meza sobre a qual põe o novello; ahi pega d'um bocado de gis, senta-se e escreve sobre a meza, fallando em voz alta.) «Seguir o fio». (Ergue-se, e vae ao pé do leito). Acordaria elle?... não. (Ouve-se resonar ao fundo) Elle resona, o miseravel resona! Condemnei-o a passar as oito primeiras noites de casado em uma completa solidão, e elle resona indifferente á minha auzencia! Antes assim!... Hoje entramos na nova crize, a crize das pequenas mizerias, as picadellas dos alfinetes antes das punhaladas... Vejamos se me lembrou tudo. (Senta-se á meza, e lê em uma carteira á luz da lanterna). «Despregar por tres lados os cortinados do leito para que lhe cáiam sobre o nariz.» Isso está feito e bem me custou...(Lendo:) «Furar os charutos». Já furei. «Polvilhar de pimenta o bonnet.» Já tem. «Coser os lenços ás algibeiras». Estão cosidos. «Esconder um dos chinelos e uma das botas; adiantar a pendula e atrazar o relogio; deixar-lhe só um tostão no porte-monnaie, e cortar os elasticos dos suspensorios». Está tudo feito. (Lendo:)Acordal-o de sobresalto para lhe causar um grande estonteamento». É o que se vae fazer. (Ergue-se e dirige-se com a lanterna para a porta da direita). Ah! Liborio, assassino de Macario, o céo é justo, e a hora da vingança soou! (Proferindo esta phrase, tira da algibeira uma pistola; dita a ultima palavra, dá um tiro e sahe fechando sobre si a porta. Completa escuridão.)

(só) Ui! isto que foi? Que é isto? (Espreita por entre as cortinas). Entre quem é! Quem está ahi? Não é ninguem... quem foi que me acordou? Parece que ouvi um tiro ou um espirro enorme, não sei bem o que foi... Estaria eu a sonhar? Ninguem aqui vem espirrar de noite no meu quarto, e mais sou casado, casado ha oito dias! Tudo está em repouso, excepto a minha imaginação. Isto que horas serão? As cortinas estão fechadas... não se vê boia... escuro como um prego... Felizmente o meu relogio é de repetição (Toca na mola do relogio pendurado no espaldar do leito, e ouve 4 horas). Quatro horas! ainda quatro horas! Ah! as noites solitarias!... como são eternas! Vamos vêr se se adormece... (Deita-se, a pendula dá horas,e elle conta-as em voz alta, erguendo a cabeça a cada nova pancada). Uma, duas, tres, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez... Dez horas! Como dez horas! E o meu relogio que só dá quatro... (Assenta-se na cama) E são ambos do mesmo relojoeiro! Mas, se ja fôssem dez horas, eu devia estar a pé. Principiemos por abrir os cortinados. (Puxa pelas cortinas que cahem e o embrulham) Que é isto, com dez raios de diabos... Larguem-me, larguem-me!... Larguem-me o quê?! Grande besta que eu sou! Ninguem me prende... são os cortinados que eu agarro... que me agarram a mim. (Ao desembaraçar-se das cortinas cahe da cama ao chão) Que trapalhada é esta! o dia principia mal... Vou correr as cortinas e os stores. Não gosto da escuridão. (Abre: é dia claro) É dia claro! A pendula tinha rasão. Toca a vestir depressa. (Pega das calças e vae vestil-as atraz do fauteuil; calça um chinelo e procura o outro) Onde estará o outro sapato? Não me apparece senão este... Parece-me obra do diabo isto! Vou calçar as botas. (Depois de calçar uma) Onde está a outra? Como é isto de achar só um chinelo e uma bota? Seria a Sebastiana? Ella ficou de me chamar ás nove horas, e entraria sem eu dar fé... mas para que fim me levaria só uma bota? (Trata de cruzar um suspensorio que quebra) Irra! agora são os suspensorios! (Aperta o outro, enraivado) Que inferno este! (Quebra o outro) Lá vão ambos!(Atira-os ao chão) A fivela estará direita? está... segura-se... Valha-nos isso. (Procurando) O meu bonet? Está acolá... (cobre-se) A camisola? está aqui... (veste-a). Agora, vou procurar... (suspende-se) Mas se ainda é cedo... (espirra) que raio de cheiro a pimenta! Se a Sebastiana tivesse vindo, acordava-me como eu lhe ordenei... Não serão ainda nove horas? Receio de ir acordar... Vou fumar um charuto. (Pega de um charuto e phosphoro) O fumar de manhan aclara-me as ideas. Santo Deus, como é incommodo passear com uma bota e um chinelo! (Assenta-se á esquerda do gueridon) Em quanto Sebastiana não vem, recapitulemos os meus infortunios fumando um delicioso havano... (espirra) Que é o que cheira aqui tanto a pimenta? (Pretende accender o charuto) Era meia noite. Itelvina pertencia-me ao cabo de trez mezes de scenas exquisitas; ella tinha proferido, de manhan, com uma voz energica osimencantador que me dava sobre ella direitos senhoriaes absolutos. Dançava-se no salão amarello, e havia uma hora que eu amaldiçoava os relogios (Não podendo accender o charuto atira-o ao fogão e vae buscar outro) que me pareciam todos parados. Annunciára-se finalmente a ultima quadrilha, os dançantes começavam a cancanizar-se um pouquito... (espirra) D'onde virá este cheiro a pimenta? Minha mulher dançava com o tabellião, e parecia muito emocionada...Eu attribuia a mim esta emoção que o tabellião não justificava de modo nenhum... Em fim, sôa a meia noute. (Ergue-se). Ouve-se um grito agudissimo... Corro e exclamo... (Atira fóra o segundo charuto) Que é o que tem estes charutos? (Pega n'um terceiro)... e exclamo: Céos! minha mulher! Itelvina estava desmaiada. Tinha torcido um pé quando polkava com o tabellião; e eis-me aqui, á meia noute, a primeira das minhas nupcias, á procura d'um indireita. A final, topo um; e cuidando que á meia hora depois da meia noite, tinha direito a examinar o estorcegão do pé da minha esposa, entro com a faculdade algebrista até ao seu leito de dôr. (Accende o terceiro charuto) Baldada esperança! Nega-se-me obstinadamente este primeiro favor, e sou obrigado a esperar n'um quarto proximo, com o papá Barnabé, a sahida do doutor que, depois de um quarto d'hora de angustias, veio em fim declarar-nos que uma forte distensão dos ligamentos, uma contracção terrivel da articulação, reteriam minha mulher quinze dias de cama; e com effeito, depois... T'arrenego, diabo! este charuto está rôto! E os outros? (Examina a caixa) Estão todos estripados! (espirra) Com toda a certeza, tenho pimenta nas ventas! (Tira o bonnet) Ah! aqui está a pimenteira! É possivel!... como é isto? Sebastiana mette a pimenta no meu bonnet... (atira-o fóra) para opreservar do bicho... hade ser isso, mas ella é idiota!... (espirra) Que é do meu lenço? Está cosido! Cozeram-me o lenço á algibeira, como aos rapasinhos de escola... Ah! isto é um cumulo! (Puxa por um cordão de campainha proximo á cheminé) Não me importa acordar toda a gente! (sacode a campainha).

(fóra) Lá vae, lá vae, senhor!

Vamos a esclarecer isto tudo...

(fóra) Que banzé é este?

O sôgro... sôgro de mão cheia... (gesto ironico. Barnabé e Sebastiana entram pelo fundo).

O senhor está doente?

Será preciso chamar os bombeiros?

(a Sebastiana) Vem cá... e responde.

Quem, eu?

Que tem o meu genro?

Passados cinco minutos, tem-me ás suas ordens. (a Sebastiana) Vem cá... Que horas são?

Então foi para saber que horas eram...

Snr. Barnabé, não é comsigo que eu fallo. (a Sebastiana) Quantas horas são?

Oito e meia, senhor.

Por que é então que o meu relogio tem quatro e a pendula dá dez e meia?

Eu sei cá! pergunte-o ao relojoeiro.

Ella tem rasão; o seu officio não é esse. Ella de pendulas não percebe nada.

Espera um pouco. (a Sebastiana) Por que metteste pimenta no meu bonnet?

Eu?! que metti eu?

Sim... isso lá da pimenta é com ella... Responde sobre a pimenta, rapariga!

Por que furaste os meus charutos?

Eu furei os seus charutos!...

Ella furou os charutos?... Tu furaste... (a Sebastiana)

Por que me coseste os lenços ás algibeiras?

Olha que espiga!

Pois tu coses os lenços?...

Isso é falso, senhor!...

(mostrando) Estão cosidos ou não estão cosidos?

Eu cá não fui.

E os cortinados do leito... e os chinelos que deviam estar aos pés da cama...

Nos seus pés, quer dizer o meu genro.

Meu sogro, queira amordaçar o seu espiritoque me está arreliando. (a Sebastiana) Em fim, responde, explica-te.

Não percebo patavina.

E dois.

Não percebem que se está aqui representando uma magica de pessimo gosto... uma diabrura de auctores anonymos...

Não está má essa! O senhor disfructa-nos!

É lá possivel a diabrura! cruzes, canhoto!

Desde esta manhan estou sendo uma almofada em que mão desconhecida espeta alfinetes... Notem isto... Aqui está uma bota. Pergunto eu: onde está a outra? Aqui está um chinelo; e o outro onde está?

(procurando) Eu procuro... (Aproxima-se da meza e vendo o que está escripto) Esperem lá!... (Lendo) «Seguir o fio.»

(approximando-se) Seguir o fio?!

(o mesmo) Então sigamos o fio. (Seguem os tres o fio da linha. Sebastiana á frente vae innovelando o fio. Barnabé atraz) Onde vae isto parar? (Vão indo até chegar á parede) A linha aqui, trepa! (Levantam as cabeças).

(vendo a bota) Olha!

É ella!

A minha bota!

A sua bota!

É verdade, a bota!

(passando para a direita) Quem a pendurou acolá?

(tirando a bota para baixo) Eu não fui.

Menos eu.

Por consequencia...

O snr. Liborio tem estado a mangar comnosco... Isto é uma chalaça... não ha que vêr...

Hein?

(rindo) O meu genro hade ser sempre um pandego...

Quiz-nos impingir esta comedia.

Irra! Foste tu; olha que te ponho no olho da rua!...

Oh senhor!...

Como imagina o senhor que esta rapariga...

Se não foi ella... foi o senhor.

Meu genro!... ousar desconfiar que um antigo negociante...

Tem razao... seria espirito de mais para um antigo negociante... Mas o certo é que nós aqui não sômos senão trez. Minha mulher não póde ser, porque está de cama com um pé torcido.

A respeito d'isso, parece que ella está melhor do pé... O senhor sabe que ella está melhor do pé...

Como eu que sei?

Eu ouvi o meu genro esta noite abrir a porta do quarto d'ella.

Eu?

E que balburdia o senhor fez!...

Eu?

Se não receasse ser indiscreto, vinha cá abaixo.

O senhor está doudo! Eu não sahi d'aqui!

Ora, deixe-se d'isso...

(reflectindo) Achei o que é... Já sei...

(vivamente) Achaste quem é que manga comigo?

É o senhor mesmo.

Eu?

Elle? dize lá...

(a Barnabé) Eu tive um primo que fazia o mesmo... levantava-se de noite...

Um somnambulo! Ella tem razão... O snr. Liborio é somnambulo.

É isso, é isso, somnambulo...

Eu somnambulo!... está bem!... fico sciente!...

É que o senhor não se lembra do que fez. Uma noite, meu primo, entrou pelo meu quartodentro, e abraçou-me; e eu como sabia que é um perigo acordar os somnambulos, nada lhe disse, e elle ao outro dia não se lembrava de nada.

É lá possivel que fôsse eu!...

Então quem havia de ser?

É assim... é--está tudo bem explicado... mas será dificil fazer-me crer que eu a dormir rompesse os meus charutos, que deitasse pimenta no meu bonnet e cozesse os meus lenços.

Aqui estou eu que fui somnambulo quando era pequeno, e escrevia os traslados a dormir...

(á parte) Estou inquieto... (Alto) Meu sôgro, e tambem tu, Sebastiana, peço-lhes que não digam nada do acontecido a minha mulher.

Eu cá por mim...

Fique na certeza...

(scismando) De mais a mais, eu não sei cozer... Como é possivel que eu soubesse cozer a dormir?...

Ó meu senhor, o meu primo só sabia abraçar-me quando estava a dormir... Chama-se a isso vista dobrada.

(á parte) Este caso faz-me desconfiar...

(fóra) Quem me acode, quem me acode!

Minha filha!

Senhora!... (Todos se dirigem para a porta da direita que se abre para dar passagem a Itelvina que entra em toilette de noute com a perna direita ligada encostando-se á parede).

Socorram-me... uma cadeira... amparem-me... (Liborio e Barnabé pegam em Itelvina em quanto Sebastiana puxa a cadeira para o centro da scena).

Pois tu ergueste-te?

Então isso como vae? melhorzinha?

Pelo contrario... cada vez peor.

Era melhor ter tocado a campainha.

(deixando-se cahir no fauteuil) Ai! devagar, devagar... Sebastiana, um banquinho...

(chegando-lh'o) Aqui está... venha uma almofada... (Sebastiana traz a travesseirinha que elle colloca sobre o banquinho; depois quer pegar na perna da mulher) Com licença...

Não lhe toque... Ai! a menor pressão... (pondo a perna sobre o banco) Ai!... como eu estou!... (Sebastiana tem passado para a direita).

Para que te ergueste tu?

Eu estava melhor... quiz experimentar... E, depois que me levantei, achei-me tão boa, que pensei poder vir até cá; mas receio bem ter aggravado o mal...

(á parte) Vamos bem!... o casamento está para demora... O meu matrimonio está pendente d'um pé desnocado... Se isto não fôr pé de cantiga, fico toda vida a fazer pé de alferes a minha mulher coixa.

(que tem estado a conversar com a filha) Fizeste muito mal em te levantares... Eu não posso demorar-me por que tenho de fallar com o José Francisco Braga que me quer ceder a quinta da Carriça... E, como não pude arranjar a de S. Mamede de Infesta, vou-me lá.

Então o pae quer deixar-nos? Muda de casa?

Ó meu sôgro!... (á parte) Não seria máo...

Sôgro... precisamente... um sôgro entre uns casados que se adoram, é incommodo... é emprasador...

Ora...

Ora... (á parte) Diz muito bem...

E, n'esse caso, resolvi... com muito pezar... com muita saudade... ir viver sósinho...o que me hade custar muito... na aldeia... É um sacrificio... vou victimar-me á felicidade dos meus filhos... E além d'isso, está no meu gosto... a meditação... divagar solitario no seio da natureza...

Então não o demoramos, meu pae; mas esperamo'l-o para o almoço.

Não será possivel... Tenciono almoçar no botequim... Não gosto de almoçar de garfo; prefiro o meu café com leite, uma torrada, e oPrimeiro de Janeiroque é tudo leve.

Plena liberdade...

Liberdade... liberdade...! E, se tu agora peorasses...

Não... eu sinto-me melhor... Sebastiana ficará ao pé de mim, e se fôr preciso, o Liborio vae chamar o medico.

E eu não me demorarei muito tempo... Se o José Francisco lá estiver, antes do meio dia volto a casa... Vou tratar depressa este negocio... Então é verdade que estás melhorsinha?

Sim... n'este momento quasi que não soffro.

Então vou acabar com isto... Meu genro, aqui lh'a entrego...

Vá descançado, meu sôgro.

(abraçando Itelvina) Até logo, minha Lili... Vou-me já safando, por que, se fôsses a peor, teria de ficar, e fazia-me desarranjo. (Sahe pelo fundo).

(acompanhando-o) Arrange lá os seus negocios e não se apresse...

(á parte) Vou em fim saber o resultado das minhas primeiras picadellas de alfinete.

(voltando de bom rosto para junto de sua mulher) A senhora aqui... na minha alcôva... Que surpreza!

Ora esta! O senhor traz uma bota e um chinelo?!

Foi a Sebastiana que...

Eu? E elle a dar-lhe...

Ou eu... É muito possivel que fôsse eu... Eu tenho padecido tanto depois do nosso casamento... que posso estar doudo... (Ergue-se).

(á parte) É possivel que elle se persuada...

(ao pé do leito) Ora esta! as cortinas estão rasgadas! quer vêr?

É isso, é isso; fui eu... Quando me erguia, puxei pelos cortinados, ezás!... é preciso chamar o estofador.

(á parte) Está persuadido que foi elle...

(á parte) Ella acredita que eu sou somnambulo!...

(arrumando) Este quarto está n'uma felga...

(á parte) A mulher é capaz de ficar... Detestavel creatura!

(olhando para a pendula) São onze horas?

(á parte) Ai! já onze!

Não, minha senhora, só são nove horas... Eu não sei como isto seja! A pendula do senhor adianta-se, e o relogio atraza-se.

Como será isso? entende-se bem... é muito simples... Sou eu que desmancho tudo... Como heide eu andar direito, se o pé torto de minha mulher não me sáe do espirito?!

Pobre Liborio! (á parte) Elle será tão estupido? (Alto a Sebastiana, mostrando-lhe os suspensorios que estão no chão) Sebastiana, levanta isso.

(erguendo os suspensorios) O senhor estragou assim os seus suspensorios?

É verdade, é verdade... Foi de proposito.

De proposito?

Encommodavam-me. (á parte) A creada já me inoja...

(á parte) Como elle é tão philosopho, dobrarei a doze...

(a Sebastiana) Sebastiana...

Senhor.

Seria bom tratar do almoço.

Sim, meu senhor; mas, se a senhora precisar de mim?

Se precisar, chamo-te... Faze um almoço ligeiro, refrigerante. (Sebastiana tem passado para a direita).

Eu tinha dado as ordens; mas, se as não approva...

Eu? tudo o que a minha esposa quizer é o que eu quero... Sebastiana, vae preparar o almoço que a senhora ordenou.

Sim, meu senhor. (Sae pelo fundo).


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