IVOutros amores

No dia immediato ao das bodas, o saudoso vigario fôra passar a tarde com sua irmã, que o viera esperar com o marido ao rochedo da Crasta.

Ao entardecer, quando o padre se despedia, chegou um portador da residencia com uma carta para Peregrina.

—Para mim?!—exclamou ella duvidosa.

—E letra da sr.ª D. Christina—disse padre João.

—Ella está lá—acrescentou o portador.

—Ella quem?—acudiu Peregrina.

—A fidalga, que escreveu a carta.

—Que novidade é esta?!—disse o vigario, abrindo e lendo.

—Lê alto, meu irmão!—disse Peregrina impaciente.

E o padre continuou a ler mentalmente, dobrou a carta, embolçou-a na sotaina, e disse ao portador:

—Vai indo, que eu lá vou ter.

E, depois que o criado sahiu, murmurou com mui entranhada mágoa:

—Eu presagiei esta desgraça!

—Desgraça!—exclamou Peregrina.—Que é, meu João?

O padre, voltado a Ladislau, disse:

—A senhora, que escreve a minha irmã, é a filha mais nova de meu padrinho e bemfeitor. Lê tu, Ladislau, e minha irmã que ouça.

Ladislau leu:

«Peregrina.Pela carta de teu irmão ao papá sabiamos que ias casar; mas não cuidei que fosse tão depressa. Cheguei aqui a buscar o amparo de teu irmão e o teu. Felizmente estaes perto, e sei que vireis em meu soccorro. Eu venho fugida, e commigo vém o homem que amo, e a quem meu pai me negou, sem compaixão das minhas lagrimas. Vimos rogar a teu bom irmão que nos receba, e legitime a nossa união. A pobreza não nos aterra. Logo que estejamos casados, teremos força do céu para supportarmos todos os trabalhos. Vem, se podes, com teu irmão para me ajudares a vencel o, se elle resistir ao sagrado dever de nos abençoar este amor, que não deve ser a nossa perdição. Tua amigaChristina.»

—E vaes casal-os não é verdade?—exclamou a commovida senhora.

—Não é verdade—respondeu friamente o sacerdote.

—Como?!—tornou Peregrina—não os casas?

—Não. A filha desobediente não acha onde quer um ministro do Evangelho que lhe galardoe a rebellião contra seu pai. A lei de Deus diz:honrarás teu pai e tua mãi: a lei ecclesiastica diz ao cura d’almas:não casarása menor sem consentimento de quem a governa, ou ordem superior do teu prelado. Eu vou sahir.

—Eu tambem vou... disse Peregrina.

—Não vaes—replicou o vigario.—Estás ao lado de teu marido, e Christina apparece-te ao lado d’um homem que... não lhe é nada.

Peregrina baixou os olhos, e Ladislau disse:

—Tu ficas; eu é que vou. Manda apparelhar a egua, que a filha do teu bemfeitor virá commigo.

A esposa lançou-se-lhe nos braços, e exclamou:

—Tu vaes buscar a infeliz menina?

—Pois se ella é infeliz!... murmurou Ladislau.

E sahiram.

Christina estava á janella do sobrado da residencia quando o vigario e o cunhado chegaram.

Era noite muito escura.

—Estás ahi, Peregrina?—perguntou ella.

—Não está, minha senhora—respondeu o padre.—Está o marido de minha irmã.

A secura d’esta resposta intimidou Christina. E, receosa, voltando-se a um moço de boa presença, disse: «Enganei-me, Casimiro; o padre não nos recebe.»

O vigario entrou na saleta, seguido de Ladislau. Cortejou com mui respeitosa reverencia a filha do seu bemfeitor, e levemente o cavalheiro, a quem chamou Casimiro Bettencourt. Depois disse:

—Vi a carta que v. ex.ª escreveu a minha irmã. Peregrina não veio, por ser inteiramente inutil a sua vinda. Eu não posso sem authorisação canonica e civil ligar matrimonialmente v. ex.ª com este senhor.

—Eu vinha tão confiada na sua bondade...—disse Christina, retrahindo os soluços sem reter as lagrimas.

—Em minha consciencia—tornou o vigario—digo queo mais prudente e urgente acto n’este desgraçado successo é casarem-se; mas eu não posso fazel-o...

—E então—atalhou Casimiro Bettancourt—um sacerdote do Christo assim nos abandona, como quem diz: «sêde criminosos e infames á vossa vontade...»

—Não, senhor. O sacerdote de Christo faz, n’estes casos, o que faria qualquer homem de boas entranhas. Irei pedir ao sr. Ruy de Nellas consentimento para salvar sua filha da continuação do crime e da infamia.

—Meu pai é inexoravel!—acudiu Christina.

—Não pode ser—disse Ladislau.—Um homem, que amparou e educou dous filhos desvalidos d’um seu cazeiro, não póde ser impiedoso com sua filha. Minha senhora, peço licença para interpor o meu parecer n’uma questão em que minha mulher não é estranha, e eu tambem não posso sêl-o. Ella não veio; mas encarregou-me de vir aqui offerecer-lhe nossa casa; e, tão certa está de que v. ex.ª nos honra em aceital-a, que já vim preparado para a conducção de v. ex.ª.

—Pois heide eu ir!...—exclamou Christina, encarando anciada em Casimiro.

—O sr. Casimiro fica sendo meu hospede—respondeu o vigario.

—Separados!—bradou ella rompendo contra todos os estorvos do pudor, e abraçando-se em Casimiro.

—Não!—clamou elle.—Christina, sacode os teus sapatos fóra d’esta porta, e vamos ao nosso destino.

—O aggravo não me fere, que o não mereço, senhor!—disse placidamente o vigario.—Eu convido o sr. Casimiro a ser meu hospede, em quanto se solicita a licença do pai d’esta senhora. Se lhes é dolorosa esta separação temporaria, Deus permittirá que os retornos de contentamento a façam esquecer. Soffram alguns diaspara merecerem o premio. Eu não posso implorar o perdão para a desobediencia, allegando que os fugitivos permanecem em criminosa união. Ha o recurso da mentira; mas eu não sei mentir. Despeçam-se para um dia, que breve virá, se Deus nos ouvir. O sr. Casimiro, que me applicou as palavras de Jesus aos apostolos, mostra que lê e sabe os livros da religião. Seja, pois, religioso: peça comnosco ao Senhor que lhe despache em bem o seu requerimento.

Casimiro apertou a mão de Christina, e disse:

—Vai, e esperemos.

—E esperemos—acrescentou o padre—por que, a baldarem-se os nossos bons intentos, quem lhes ha de empecer ajuntarem-se? O mundo, quando vê dous desgraçados, deixa-os passar, e vinga-se. Se o mundo é justo, não o direi eu: vingança justa creio que não ha nenhuma ahi. O inverso da caridade é a vingança. Tenham valor, que, se o não tem são mais fracos, desconfiam do poder de Deus, e da sua propria fidelidade um a outro.

—Adeus! balbuciou Christina, suffocada de suspiros. Casimiro beijou-lhe a mão, dobrou o joelho, e disse:

—Se te fiz desgraçada, perdôa-me.

Ladislau, debulhado em lagrimas, abraçou Casimiro, e exclamou:

—Sou seu amigo! O senhor ama deveras esta menina!

—Eu sei que se amam!—disse o vigario—por isso serei parte, quanto em mim couber, na sua boa fortuna.

—E eu não?!—disse com vehemencia o de Villa Cova.

—Tu tambem, meu irmão. Ajudar-me-has com os teusconselhos, por que no teu coração tenro está a sabedoria dos virtuosos, que te educaram.

—Não fomos infelizes, Christina!—clamou Casimiro.—Aqui estão comnosco duas generosas almas. Vai, minha amiga!

—Venha—disse Ladislau—que minha mulher está pedindo a Deus que vamos.

Já não choravam ao separarem-se.

Cumpre narrar, o mais breve que ser possa os antecedentes d’esta fuga.

De uma familia pobre de Pinhel sahira em 1814 um mancebo a assentar praça no regimento de cavallaria de Bragança, onde serviu até furriel. De Bragança passou para Lisboa em 1815. Aqui seguiu os postos até que fez a campanha do cerco do Porto, já major do exercito sitiante, e ahi morreu na ultima batalha. Este militar era pai de Casimiro Bettancourt.

Casimiro sabia que nascera em Lisboa em 1816, e não conhecia sua mãi. Com referencia ao seu nascimento, apenas possuia a pagina de uma velha carteira, que dizia: «Meu filho Casimiro nasceu em 15 de janeiro de 1816: foi baptisado em S. Domingos de Santarem, aos 22 do mesmo mez. Foi creado no Cartacho, d’onde sahiu em 1820. Entrou no collegio dos Nobres em 1825. Tenho pago todas as prestações até hoje 31 de dezembro de 1830.» Em nenhum outro caderno de apontamentos encontrou indicios de sua mãi; nem das muitas cartas que seu pai deixou esquecidas n’um bahu de folha, pôde colligir quaes pertencessem a sua mãi. As que tinham data eram quasi todas muito posteriores ao seu nascimento. Apenas duas assignadas com a inicial E, posto que sem data, queria e conjecturava elleque fossem de sua mãi: este querer fundava-se um pouco em vaidade, e muito em presagio, como depois se verá.

Morto o pai, e transvertida a ordem politica, claro é que o joven alumno do collegio dos Nobres havia de sahir entre dezeseis e dezesete annos de idade, desvalido, desconhecido, e indifferente a toda a gente. Dos sabidos amigos de seu pai uns tinham morrido, outros emigrado, e outros esmolavam.

Sabia Casimiro que seu pae nascera em Pinhel, e se correspondia com sua irmã, a largos espaços. Achou cartas assignadas por uma Marianna de Bettencourt. Escreveu, ao acaso, á senhora d’aquelle nome, ou ao nome d’aquella senhora. Responderam-lhe que sua tia tinha fallecido em 1832. A pessoa, porém, que respondia, era o viuvo, carpinteiro de seu officio, bom homem que lhe offerecia sua casa, e metade de suas sopas.

Obrigado a optar entre a fome e as sopas do artista, Casimiro foi para Pinhel, auxiliado pela esmola de um condiscipulo, filho de um brigadeiro liberal, camarada do finado major antes de 1828.

O artista redobrou de trabalho para não obrigar o sobrinho de sua mulher a pegar da serra e da enxó. Comprava-lhe vestido á feição de que usavam os moços remediados, e esperava que seu compadre Ruy de Nellas—padrinho d’um filho que mandára para o Brazil, quinze annos antes—cedo ou tarde conseguisse algum decente emprego para Casimiro.

O fidalgo admittia á sua casa e presença o moço, em attenção ao pai, que morrera fiel á justa causa, como honrado e bravo. As filhas do fidalgo achavam-n’o distincto, delicado, bem fallante, e divertido, quando a tristeza, a dolorosa introversão o deixavam dissimular contentamento, que o pobre, a bem dizer, nunca sentiu deveras.Ruy de Nellas mostrava desejos de lhe abrir a carreira da independencia. Aos dezenove annos, Casimiro pensava em ser soldado; o fidalgo, porém, queria que elle fosse padre com um patrimonio fantastico, e o carpinteiro inclinava-se ao generoso parecer de seu compadre.

Sacerdote é que não! Casimiro amava Christina, Chistina ia chorar com elle; e sabia em que sombras de arvores, ou margens de ribeiras o moço ia chorar.

E ella ia, tremendo de medo e paixão, e a pedir resguardo ás azas dos anjos, buscal-o onde elle estivesse. Tremia, mas não corava de pejo. As flôres que viam, invejavam-lhe a pureza. Arquejava-lhe o seio cançado de retrahir-se: cuidava a doce creatura que o espirar alto a denunciava. Era o offegar d’aquelle seio como o da avesinha anciada, que busca, de fronde em fronde, o ninho que lhe desfizeram. De longe o antevia pelos olhos da alma. As lagrimas tem seu odor: só lh’o não presentem os que as deixam gotejar sem misericordia, sem dó.

E quem havia de ter pena do sobrinho do carpinteiro a não ser ella; que o intendera ao primeiro instante de ser amada, e ao mesmo raio ardente se queimára, e, se o timorato moço esmorecia de medo e pejo, era quem o acoroçoava e levantava do seu abatimento?

Exceptuada a cumplice d’este enorme crime—o enormissimo crime de erguer homem pobre olhos affectuosos á filha d’um Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo—o restante do mundo seria contra elle, se podesse adivinhal-o.

Adivinhava-o o padre João Ferreira, quando voltou de tomar as ultimas ordens. A Casimiro disse:

—Subjugue o coração emquanto é tempo. Tenha sempre deante de seus olhos os beneficios que deve ao sr.Ruy. Recompensar-lh’os com desgostos será crueza e indignidade.

Casimiro não respondeu. O amor, aos dezoito annos, quando assim é surprehendido, não sabe mentir.

A Christina disse o padre:

—A maior prova de estima, que v. ex.ª póde dar a Casimiro, é desvial-o de si. Dos dous hade ser elle o mais desgraçado. Na sua idade, menina, o amor é sempre uma creancice, e como criancice se esquece quando é contrariado; porém, a primeira affeição do moço póde ser a ultima e volver em desgraça irremediavel.

—Quem sabe?—disse Christina com pueril audacia e destemor.

—Eu não sei senão que v. ex.ª está amando um homem que seu pae repulsará de casa, logo que desconfiar de tão estranhas intelligencias. A menina será perdoada como inocente, e elle perseguido e castigado como villão. Como penso que assim vem a acontecer, entendo que o seu amor será funesto ao pobre orfão. Seria querer-lhe muito desenganal-o.

Observou padre João que as duas cegas creaturas, depois do aviso, praticavam como se, em vez da censura, recebessem louvores. Buscavam-se mais, escondiam-se mais, e, de dia para dia, pareciam ir declarando a toda a gente o seu amor, como se contassem com o apoio do fidalgo.

Ruy de Nellas chamou o padre e disse-lhe:

—Ó afilhado, tu não desconfias de nada?

—A qual respeito, meu padrinho?

—Que minha filha Christina olha o Casimiro de um certo modo?

—Póde ser que v. ex.ª se não tenha enganado. Eusupponho que se estimam; e meu padrinho não podia embaraçal-os de se estimarem.

—Essa não me parece tua!—exclamou o fidalgo.—Não posso embaraçal-os?! Então quem é que póde?

—Ninguem, meu padrinho: o tempo é que corrige estes defeitos do coração humano. Deixe v. ex. em silencio a suspeita que eu tomo a meu cuidado o descanço de v. ex.ª.

—Nada de pannos quentes!—bradou Ruy de Nellas. Casimiro vai ser posto fóra d’esta casa, e talvez de Pinhel. É assim que elle me paga? É-me bem feito! muito bem feito! Não seja eu tolo de estar aqui de braços abertos para receber desgraçados, que afinal...

Padre João esperou que seu padrinho desabafasse a sua ira, e disse com humilde e pacato animo:

—Sou eu um dos desgraçados que v. ex.ª recebeu nos braços abertos para todos: o que posso dar em troca de tantos beneficios é a lealdade do meu coração, o meu leal aviso em coisa tão melindrosa. Se v. ex.ª perseguir Casimiro, a sr.ª D. Christina, se já o ama como creio que sim, amal-o-ha mais depois. Conheço de fundamento a indole d’esta menina, e algum tanto a de Casimiro. Este moço tem espiritos de condição muito altiva, que se revoltam contra a baixeza em que o lançou a desfortuna. Por vezes me tem fallado do seu futuro com uns raptos de visionario, que me fariam rir, se me não compadecessem. Presagiam-se brilhantes destinos, e esquece-se de que o honrado carpinteiro está a suar para que elle se não avilte no trabalho incompativel com as suas imaginações. Em quanto á sr.ª D. Christina, é minha opinião que esta menina desobedece ao raciocinio, e á força, se lh’a imposerem. Sabe v. ex.ª que, de todas as suas filhas, esta foi a mais remissa em aprender o poucoque sabe, sobejando-lhe talento para muito. Observei que uma palavra aspera m’a afugentava por oito dias, e transtornava todo o anterior aproveitamento. Argumentando d’estas coisas simples, por analogia, todas me levam a crer que o emprego de providencias energicas dará mau resultado.

—Qual?!—atalhou o fidalgo.

—Uma fuga, uma vergonha.

—Tu pensas isso, João?!

—Ousaria eu dizer a meu padrinho o contrario do que penso?!

—E os ferrolhos dos conventos para que se fizeram?

—Para as freiras estarem seguras da inviolabilidade de suas pessoas.

—E para as filhas rebeldes.

—A rebellião continua nos conventos, a rebellião do espirito, contra a qual não prevalecem os ferrolhos.

—Veremos.

—Seria acêrto não experimentar, meu padrinho.

—Então que queres tu que eu faça?: Deverei cazar minha filha com o sobrinho do carpinteiro?

—Não, senhor. Penso que v. ex.ª, simulando inteiro desconhecimento do que se passa, deve favorecer Casimiro para que siga a vida militar que deseja.

—Agora! agora que elle ousou pôr olhos em minha filha! o ingrato! pois não! Vou mesmo agora estabelecer-lhe mesada em Coimbra ou Lisboa para elle se formar em mathematica, e namorar-me de lá a filha! Estavam bem avisados os pais, se tivessem de mandar a Coimbra os maltrapilhos que lhes requestam as filhas! Não haveria ahi aprendiz de sapateiro, que se não fizesse galan das herdeiras ricas! Ora, sr. padre João Ferreira, outro officio! Não sei em que livros e em que terras tufoste estudar e experimentar semelhantes desconchavos. Eu consultarei o meu travesseiro...

—Deus responda ás suas consultas, meu padrinho—disse o padre, quando o fidalgo lhe voltou as costas.

No dia seguinte, ás cinco horas da manhã, já o fidalgo estava a pé, e abria subtilmente a janella do seu quarto sobre o jardim cujo muramento partia com a rua. Viu elle Christina sahir ao terreiro pela porta da cozinha, atravessar as aleas de amoreiras, destrancar um postigo de communicação com a estrada, e debruçar-se no peitoril. Desceu Ruy de Nellas, de manso, ao jardim, e ia já em meio, quando a filha deu tento da espionagem. Soltou um ai; mas de turvada que ficou, nem aviso deu a Casimiro. O pai apertou o passo, correu impetuosamente ao postigo, e viu o moço quieto, e sereno como se a surpreza fosse um gracejo de futuro sogro, que se entretem a fazer foscas ao futuro genro, muito do seu agrado.

Não assim Christina, que, passado o momento do spasmo, dobrou o joelho e balbuciou:

—Meu pai, eu é que sou a culpada!

Não attendeu, nem acaso ouviu estas vozes o fidalgo. Inclinou-se á estrada, e exclamou:

—Vá lá contar a seu tio carpinteiro a maneira como vossa mercê pagou a hospitalidade, que lhe dei! E não me torne a rondar a casa, que não vá algum dos meus criados apalpar-lhe as orelhas!

Fechou-se o postigo com estrondo. Aquellas palavras continuaram a martellar nos ouvidos do moço, que levava as mãos á cabeça, como para as não ouvir. Pensou em se matar, como toda a gente, alguma vez, excepto os bons christãos, os felizes, e os tolos, que não são christãosnem felizes, nem precisam ser senão tolos para viverem e até sobreviverem a si proprios.

Caminhou ás cégas por uns trilhos de cabras, que se aplanavam n’uma chã, arborisada de sôbros, onde padre João regularmente amanhecia com os seus livros de theologia moral ou historia ecclesiastica.

—Casimiro viu-o, correu a elle, e exclamou:

—Valha-nos!

O padre reçebeu-o nos braços e ouviu acontecido.

—O remedio virá do ceu—disse elle.—Não sei que lhe faça, a não querer receber-me um conselho. Espere, soffra, conforte-se, ore, e humilhe-se: não sei que mais lhe diga.

Casimiro Bettancourt, ao anoutecer d’esse dia, adormecera com a face encostada a uma pedra: era a lethargia da fome, da fadiga, e da desesperação.

Não orára.

Ruy de Nellas, contente do feito, mas não seguro ainda, scismava na escolha do convento em que devia encerrar Christina, quando o padre João Ferreira chegou de dizer missa. Chamado a dar seu voto, o sacerdote respondeu que obedecia, mas não aconselhava; que iria onde s. ex.ª o mandasse negociar a reclusão de D. Christina, mas declinava de si o minimo de responsabilidade em uma violencia, sobre inutil, perigosa.

Excitado pela colera, o fidalgo foi de encontro á prudencia do padre com termos rudes; mas a humildade do servo paciente despontou-lhe as iras, e introverteu-lh’as no seio em arrependimento. Ruy quasi lhe supplicou o seu voto. Padre João repetiu o que dissera, e contou a situação em que deixara Casimiro Bettancourt. Outra vez se irou o fidalgo, ouvindo o tom lastimoso com que o padre fallava do filho do major; porém, não sabemos dizer porquê, marejaram-se-lhes de lagrimas os olhos, quando o clerigo disse:

—Agora vou ver se encontro o desgraçado ahi pelaserra, que não vá elle tentar contra a vida, e, matando-se, legar a v. ex.ª uma tristeza pezada de mais para seus annos e sua nobre alma.

Sahiu o padre, e, ao anoitecer, encontrou Casimiro deitado na terra humida, com a cabeça na pedra, e o rosto chammejante de febre. Agitou-o, ergueu-o, amparou-lhe os passos, até o trazer á estrada, e d’ahi quasi em braços a casa do carpinteiro.

Conversaram até altas horas da noite. Casimiro ouviu as ultimas palavras do padre, e disse:

—Farei a sua vontade.

A vontade de padre João era que elle sahisse de Pinhel, e fosse a Bragança assentar praça. A resistencia de Casimiro fôra pertinaz, até ao derradeiro golpe, que o padre lhe descarregou, dizendo que a demora d’elle em Pinhel seria a causa á clausura de Christina. Casimiro sentou-se no catre, embebeu o suor frio da face na dobra do lençol, e exclamou:

—Irei.

E foi cinco dias depois, caminho de Bragança; mas, ao fim do primeiro dia de jornada, adoeceu perigosamente. O sangue refervido no peito principiava a vulcanizar-lhe a cabeça. Deram-lhe uma enxerga, n’uma taverna de Escalhão, e um padre que, em virtude de o ter confessado e ungido, pôde saber que o viandante era de Pinhel e se chamava Casimiro Bettancourt.

O carpinteiro ergueu mão do trabalho, embolçou as economias do seu mealheiro, e foi caminho de Escalhão. O anjo do amor estava á cabeceira do enfermo repellindo a morte. O coração repuchára a si a onda escaldante de sangue, que banhara o cerebro, e espedaçava-se para deixar resurgir a rasão. O artista esteve nove dias e nove noites ao lado de seu sobrinho. Quando se lhe acabaramos escassos recursos, que levára, empenhou a cruz de prata, que trazia ao peito; e pediu primeiro ao Crucificado que lhe désse a vida do sobrinho de sua mulher.

Ao decimo dia, o carpinteiro construiu uma camilha n’um carro de lavoura, e Casimiro, convalescente, foi transportado a Pinhel.

Ruy de Nellas e suas filhas, tirante Christina, passeavam n’uma alameda fóra da povoação, quando o carro chegou. O carpinteiro, que caminhava lentamente apoz o carro, descobriu-se, á vista do fidalgo, e disse:

—Guarde Deus a v. ex.ª, sr. compadre.

—Que levas ahi, Antonio?—disse o fidalgo.

—É meu sobrinho.

—Teu sobrinho?—Disseram-me que tinha ido assentar praça. Querem ver que elle foi ferido em alguma batalha?

—O sr. compadre está a mangar com os pobres!... respondeu o carpinteiro com um sorriso mais de pungir que propriamente a injuria.

N’este lanço, Casimiro Bettancourt affastou a ourella da manta, que formava o pavilhão do carro, pôz fóra o rosto macerado, e disse:

—Sr. Ruy de Nellas, quem me feriu na batalha foi a espada da honra. Agora vou eu travar uma batalha com o orgulho de v. ex.ª: veremos quem é o vencido.

—Ora, sôr Casimiro!—replicou o fidalgo galhofando sarcasticamente—as suas ameaças tem muita graça... passe muito bem.

E proseguiu no passeio, chibatando, com ares de Tarquinio ou Pombal, as florinhas que se abriam por entre o ervaçal que arrelvava a alameda.

—Chama lá os bois, moço!—disse o artista ao carreiro.

Christina encerrada voluntariamente em seu quarto, nem de suas irmãs era já bem vista. As outras senhoras, como izemptas e intactas de coração, conservavam os espiritos excelsamente afidalgados, e levavam muito a mal que sua irmã as quizesse aquinhoar no desdouro de um casamento desegual. O fidalgo obrigára Christina, nos primeiros dias, a tomar o seu lugar na meza commum; como visse, porém, que ella escandalisava a familia com suas lagrimas ordenou que lhe levassem as criadas os alimentos ao quarto. E assim se finava a pobre menina, desconsolada da voz humana, e descrida da misericordia divina.

Peregrina, a sua confidente, a sua alegria, tinha ido com o irmão para S. Julião da Serra. Queria escrever-lhe: mas que portador ousaria levar-lhe a carta? Pensava em fugir para ella; mas com quem, com que recursos? A não ser ella, quem faria chegar ás mãos de Casimiro as suas cartas, o adeus sùpremo de sua alma, ao arrancar da vida? Respondia-lhe o calado pavor da soledade ao afflictivo interrogatorio, em que se debatia, e já por fim, desesperava.

Havia na caza um criado moço, que Casimiro Bettancourt ensinára a lêr nas horas feriadas dos domingos. Nunca os dous namorados fiaram d’elle segredos seus; mas o muchacho, que era atravessado, adivinhava o que não via, e espreitava para examinar se tinha adivinhado.

Soube elle que o seu mestre de leitura chegára doente n’um carro, viu que o fidalgo e as meninas andavam a passeio, foi de corrida a caza, bateu de mansinho á porta do quarto de Christina, e disse-lhe pelo espelho da fechadura:

—Fidalga, o sr. Casimiro chegou agora doente n’um carro.

Christina espediu um grito, e abriu a porta.

—Vem cá!—disse ella ao rapasito, que se ia escapulindo.—Que disseste? Viste o sr. Casimiro?

—Vi-o descer do carro nos braços do tio Antonio carpinteiro. Vem amarello como uma cidra.

—Tu és nosso amigo, José?—perguntou ella offegante.

—Sou, sim, senhora.

—Levas-lhe um bilhete?

—Dê-o cá, fidalga.

—Espera, que eu vou escrevêl-o... O melhor é tu ires esperar no pateo, que eu lanço-t’o da janella, que não vá ver-te alguem aqui no corredor.

O mocinho esperou um quarto de hora, e levou a carta a Casimiro, que respondeu logo.

Este rapaz de nove annos faz lembrar o mosquito que matou o leão, e o braço fundibulario que derribou o gigante. Ahi estão a vigilancia e omnipotencia de Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo, senhor solarengo mais velho da Beira Alta, anniquilladas pela intervenção do pegureiro, que o senhor feudal nunca distinguia dos carneiros que apascentava!

O effeito das primeiras cartas foi uma transfiguração maravilhosa no semblante de Christina e Casimiro. Já ella punha as mãos e ajoelhava a orar: é certo que, pelo ordinario, attribuimos ao demonio o mal acintoso, que o mundo nos faz, e agradecemos a Deus o bem casual ou intencional que nos faz o mundo. Tudo isto redunda em elogio de Deus e nosso.

Ruy entrou pensativo em casa, dizendo entre si: «Mal fiz em a não metter no convento; mas ainda não é tarde.»

Mandou vir á sua presença os creados e creadas, exceptoo José-pastor, como lhe chamavam. O rapasito ainda não gosava honras de creado appellavel para assumpto grave. Declarou o fidalgo que faria entrar n’uma cadeia o servo ou serva, que levasse ou trouxesse cartas entre sua filha e Casimiro. Os creados innocentes e impeccaveis n’esta materia—por isso que zelavam a fidalguia do seu amo contra o plebeismo do sobrinho de mestre Antonio—juraram de espreitar os passos de Casimiro, e, em testemunho de sua probidade, offereceram-se a quebrar-lhe as costellas, sendo necessario.

Ruy de Nellas despediu-os satisfeito, e disse entre si: «Tanto faz tel-a fechada em casa, como no convento. Parece-me até que está mais segura aqui.»

José-pastor ouviu a creadagem na cosinha discorrer ácerca da recommendação do fidalgo, e fez que não intendia. D’ahi a pouco, andava elle no pateo a escrever com um pau carbonisado o seu nome nas lages pollidas, e de vez em quando olhava, por debaixo do avental de saragoça, contra a janella de Christina.

Viram-se. E elle escreveu a palavracarta, olhando de revez e indicativamente para a menina. Fez ella um gesto de intelligencia, e elle aspou a primeira palavra com os pés, e escreveu n’outra lage:telhado. Outro signal de comprehensão, e logo outra palavra:torre, e depoistrapeira.

Queria isto dizer que elle ia ao postigo de uma especie de pombal, que lá chamavamtorre; que lançava de lá a carta ao telhado; e que fosse Christina á trapeira, superior ao seu quarto, e colhesse a carta.

Sahiu-se excellentemente com a traça, e até sobreexcedeu o programma; porque a menina, recebendo uma, atirou outra carta á base da torre, e o rapasinho, que era optimo volatim em esgalhos de arvores, pendurou-sepelos pés no banzo do postigo, e com um troço de uma aguilhada de seu uso pastoril arpoou o papel. Estas habilidades é que Casimiro Bettancourt lhe não havia ensinado com as primeiras lettras. Se a instrucção primaria lh’as desenvolveu, isso é materia para mais dilatadas e opportunas pesquizas.

Aligeirando o alcance d’estes successos, até ao ponto em que os deixamos na vigairaria de S. Julião da Serra, direi que a fuga estava pactuada desde as primeiras cartas, que se trocaram. As apostillas subsequentes versavam sobre qual caminho e destino convinha seguir. Casimiro lembrava-se do condiscipulo de collegio a quem devia o favor de dinheiro com que jornadeára de Lisboa a Pinhel. Presumia elle que, se fugissem para Lisboa, e procurassem aquelle amigo, achariam protector para alcançar-se um emprego. Mas um fio de espada lhe cortava por alma e coração, quando a nevoa negra da pobreza se lhe punha diante da esplendida aurora do seu dia feliz. Quem lhes daria meios para caminharem até Lisboa?

Como adivinhando esta pergunta, Christina propunha que fossem a S. Julião da Serra, casassem lá, e pedissem ao padre João recursos para fugirem á perseguição, até que Deus lhes acudisse.

N’estes dias revesados de alegrias e amarguras, para elles, que já tinham aprasado o da fugida, o carpinteiro recebeu carta do filho, estabelecido no Brazil, e o primeiro donativo de dinheiro. Quando Casimiro viu ouro em mãos de seu tio, apertou o artista ao seio, e disse-lhe com os olhos cheios de esperança e lagrimas:

—Empreste-me parte d’esse dinheiro, que é o preço da minha felicidade.

—Se é o preço da tua felicidade, ahi o tens todo—respondeu o carpinteiro, lançando as peças sobre a meza.

—Menos de metade me basta—replicou Bettancourt.

—Pois toma d’aqui o que quizeres; mas conta-me o que vaes fazer.

Casimiro, temeroso da probidade de seu tio, nunca lhe havia revelado o plano do rapto. Prudente receio era o seu. Mestre Antonio, bem que estomagado das soberbas de seu compadre, não consentiria que seu sobrinho o vingasse por semelhante meio. A ida de seu filho para o Brazil devia-se em parte á generosidade do padrinho, que lhe déra enxoval e algum do dinheiro da passagem. O mesmo fidalgo o ajudára a comprar o fato de Casimiro, sem querer que o moço soubesse a obrigação em que ficava. Mestre Antonio, além d’isto, reprovava o ousio de seu sobrinho em inquietar uma menina talhada para marido de outra linhagem e haveres. Não dominava ainda n’aquella epocha a aristocracia das artes, inchada hoje com uns descomedimentos de orgulho, que prevalecem propriamente sobre os da aristocracia de nascimento; de modo que a gente sisuda lastima que o artista não seja bem creado para sustentar o seu real valor, sem andar a todas as horas, de arremettida contra as distincções herdadas. Agora, importuna a philaucia do artista; logo anoja a humilhação a que se desce.

Cingindo-me ao ponto: Casimiro reteve ainda o seu segredo, sophismando-o d’est’arte:

—Eu vou continuar em Coimbra ou Lisboa o meu curso de mathematicas para seguir a vida militar mais vantajosamente. Bem sei que este dinheiro a pouco chega; mas espero achar, sem baixeza, recursos em mim proprio para me alimentar. Ensinarei particularmente o que sei, e com o pequeno salario me irei remindo.

—Se é isso, Casimiro—redarguiu mestre Antonio—leva o dinheiro todo, que eu tanto faço com elle como sem elle. Assim como assim, duzentos mil réis não me quitam de trabalho. Gosto bem de te ver botado ao caminho da vida. Vai, moço; que o mundo é p’rós homens. Teu pai sahiu d’aqui com duas camisas n’uma trouxa, sentou praça, e morreu major na flôr da idade: teria quarenta annos. Se não morre, e o seu partido vinga, podia acabar general. Tira-te d’aqui d’esta aldeia, homem! Tu tens lá umas ideias que precisam de terras grandes. Vai-te á vida que eu cá estou com o meu pouco para te acudir nas necessidades. Logo que teu primo mande mais dinheiro, lá irá ter onde estiveres. Se um dia tiveres de teu, e eu já não poder com o machado, então me irás pagando como poderes.

Casimiro debulhava-se em lagrimas, abraçado ao carpinteiro, que embebia as suas no canhão da jaqueta de saragoça remendada nos cotovellos. Aquella jaqueta deshonrar-se-ia grandemente se a puzessem á beira de muitas fardas batidas a ouro e coalhadas de veneras!

Era como picar de remorso o doer-se de Casimiro. Mentir assim aquelle velho tão bom, tão franco, tão desprendido, tão pobre!

Não importa! A sua paixão absolve-o já; o homem honrado e illudido absolvel-o-ha depois.

Tinha, pois, Casimiro dinheiro para a fuga; d’isto avisou Christina; a menina, porém, instava pelo casamento em S. Julião da Serra, e o moço, de vontade e coração, condescendia, e desejava assim tão abrasadamente como ella.

Ruy de Nellas encontrou o carpinteiro, e não lhe fallou, nem respondeu á saudação com um gesto sequer.

—Porque está de mal commigo, sr. compadre?!—perguntou o operario com magoada submissão.

—Porque és um ingrato!—bradou o fidalgo.

—Ingrato, senhor! Nemja isso! Deus me não ajude, se eu sou ingrato a v. exª!

—Tens ahi teu sobrinho, que deu um pontapé no seu bemfeitor, e causou a desgraça de minha filha, e a tristeza de minha casa!

—Meu sobrinho, sr. compadre, fez mal, é verdade; mas o mal está remediado. Meu sobrinho vai-se embora por estes dias. Vai para Lisboa continuar os seus estudos. Leva duzentos mil réis que eu recebi do meu filho e afilhado de v. ex.ª, e por lá ficará até se fazer homem como meu cunhado.

Ruy de Nellas deu um grande suspiro de desabafo, e disse:

—Fallas-me verdade?

—Como quem se confessa, fidalgo.

—Então compadre, o dito por não dito. Se eu soubesse que elle estava ainda em tua casa, por falta de meios, o dinheiro dava-t’o eu, sem elle o saber. Quando é que vai?

—Estão-se fazendo umas camisas, e, o mais tardar no fim da semana, vai com Deus.

N’este dia á noute, Ruy disse a uma das filhas:

—Vai ao quarto de tua irmã, e diz-lhe com bons modos que venha tomar chá comnosco. A tempestade está a passar: é preciso que a trateis, como d’antes, d’aqui por diante.

Christina, maravilhada da brandura de sua irmã, desceu á sala, e beijou a mão paternal, que se lhe offerecia com affavel sorriso.

Tomou chá trocou leves palavras com suas irmãs, evolveu ao seu quarto, onde desvelou a noute, scismando na transfiguração de seu pai.

A horas de almoço, passou Ruy de Nellas no corredor contiguo ao quarto de Christina, e disse-lhe tocando na porta:

—Vai o almoço para a meza, menina.

Christina estremeceu, e sumiu entre os cobertores a carta, que estava escrevendo, cujo periodo mais importante era assim:

«....... Como penso que terei liberdade de descer ao jardim ao fim da tarde, sahirei pela porta da quinta, que abre para a estrada. Se me enganar, então ámanhã te avisarei........................................ ................................................... ...................................................

Não se enganára.

O caricioso pai sahiu com ella e suas irmãs a passear depois do almoço. Amimou-a, depois de jantar, brindando-a com um vestido de tafetá azul para festa dos annos da morgada. Ao fim da tarde viram-n’a sahir ao jardim, e a mais abelhuda das irmãs disse:

—Papá, olhe que a Christina vai só...

—Deixal-a ir. Coitada! o inverno já lhe desfolhou as rosas que ella ha um mez ainda regava!... Vai ver as suas plantas... Pobre filha, que pena me faz vêl-a tão abatida!...

Christina demorava-se e o vento assobiava, impellindo contra a janella borrifos de chuva.

—Vossa irmã, já está no seu quarto?! Vão ver.

As meninas alvoroçadas vieram dizer que no quarto não estava ella nem a capa.

—Pois não viram que ella saiu de capa ao jardim?—reflectiu o pai.—Vamos ao jardim, que ella deve láestar abrigada da chuva... ou (ajuntou elle no silencio de seu coração) escondida a chorar... pobre menina!

Espreitaram todos os escuros do arvoredo, chamando-a a brados. O fidalgo, esporeado por diabolica suspeita, correu á porta do carro, e achou-a aberta.

—Fugiu!—exclamou elle. Os criados que saiam todos por essas estradas, e... que o matem!

E os criados sahiram todos na ideia... de o matarem!

Até o José-pastor lá ia na chusma, clamando que queria tambem matar o ladrão da fidalga, e teimava que via as pegadas da menina lá por uns caminhos onde ninguem via cousa nenhuma!

A estas horas, Christina e Casimiro transmontavam o cabeço da primeira serra, que descia para umas gargantas intransitaveis.

Na ante-vespera, palmilhara Casimiro o terreno menos trilhado, e orientara-se cabalmente da direcção que devia seguir até assomar á serra visinha de S. Julião.

Os servos iam e vinham por estradas reaes, atalhos e mais desfrequentados caminhos. Ninguem déra noticia dos fugitivos, excepto um guardador de cabras, o qual disséra ter visto n’uma chã, passarem um senhor, vestido á cidade, e uma senhora assim a modo de fidalga, e depois os vira entrar á estrada de Trancoso. Estas novas quem as colheu foi o José-pastor, o velhaco! Elle não viu guardador nenhum de cabras: inventou-o, sem que ninguem lhe encommendasse a fabula. O que elle queria era attrahir as pesquizas para o lado opposto de S. Julião da Serra. Serviçal até alli!

Quando, ao quarto dia de baldadas buscas, os criados mais pimpões se abalaram para Trancoso armados até aos dentes, Ruy de Nellas foi procurado por sujeito desconhecido. Entrando á presença do fidalgo, e interrogado sobre quem era, disse:

—Sou um lavrador da freguezia de S. Julião da Serra.

—Onde está vigario meu afilhado padre João Ferreira?

—Sim, senhor.

—Como está elle!

—Doente de cama.

—Coitado! E Peregrina? Conhece a irmã do vigario?

—É minha mulher.

—Ah! sim? quanto folgo! Já cá sabiamos que ella casára bem.

—Estimo-a muito, que é digna d’isso.

—E vm.ᶜᵉ creio que é lavrador abastado...

—Graças a Deus, tenho mais que o necessario...

—Queira sentar-se. Esqueceu-me de o mandar sentar, com a satisfação de ver o marido da nossa Peregrina...Satisfação, digo eu!... Vão por cá muitissimas afflicções, senhor... como é a sua graça?

Ladislau, criado de v. ex.ª

—Muitas afflicções, sr. Ladislau! Cahiu em minha casa um raio!... Deus... não sei que mal lhe fiz! Eu, que faço o bem que posso, que dou tudo quanto me sobeja aos pobres, que eduquei minhas filhas na religião de meus avós, estou aqui esmagado por uma vergonha, que me está cavando a cova!... Quando ha sete annos me morreu minha mulher, pedi a Deus a morte: oxalá que elle me tivesse ouvido!... Logo, em seguida, morreu o meu unico filho varão. Resisti ainda. Depois vi cahir o Senhor D. Miguel do throno á miseria da proscripção, e fiquei ainda em pé. Agora... agora... esta punhalada corta-me o ultimo fio! Nos tres infortunios passados, o Senhor Deus dos afflictos collocou a meu lado um dos seus apostolos, que me amparou, e me fechou as chagas com o balsamo da religião.Era um frade da sua freguezia, creio eu: Fr. Braz Militão do convento de Vinhaes. Morreu o santo, que passou tres noutes á cabeceira do meu leito, quando enviuvei. Elle tinha experimentado a minha dôr, porque vestira o habito de frade mendicante, quando Deus lhe chamou sua mulher...

—Esse frade era meu pai—disse Ladislau.

—Seu pai!—exclamou o fidalgo, erguendo-se a abraçal-o.—Pois o marido de Peregrina é filho d’aquelle predestinado, a quem eu recorro ainda nas minhas angustias?

—E eu recorrerei tambem para que meu bom pai alcance do Senhor o socego de v. ex.ª

—Desculpe-me, que eu estou todo absorvido pela minha magua! Ainda não fiz senão carpir-me; porém o sr. Ladislau calculará, quando fôr pai, a natureza da minha dor... Que motivo o traz a esta casa?

—O seu infortunio, sr. Ruy.

—Pois sabia que minha filha fugiu? Já lá chegou a noticia? Foi sua mulher que o mandou saber a atroz verdade? É certo, é horrivelmente certo que essa desgraçada fugiu ha cinco dias, e todas as diligencias em procural-a com o infame raptor se tem baldado!

—A sr.ª D. Christina está em minha casa—atalhou Ladislau.

Ruy de Nellas aproximou-se, quasi rosto a rosto, de Ladislau, e exclamou:

—Que diz?! em sua casa? com elle?

—Não, sr. Ruy. Em casa do filho de fr. Braz Militão não se agasalham amantes fugitivos, salvo se elles forem tão desgraçados que não tenham pão nem tecto. Em minha casa está unicamente a filha de v. ex.ª; em casa do vigario está Casimiro Bettancourt.

—E meu afilhado—interrompeu iroso o fidalgo—consente que se recolha em sua casa o roubador de minha filha, da filha de Ruy de Nellas, a quem elle deve tudo o que é?!

—Lamento,—disse Ladislau—que meu cunhado aqui não esteja para dignamente responder a v. ex.ª. Eu não tenho a virtude nem as expressões santas, persuasivas, e affectuosas do afilhado de v. ex.ª. Estou aqui, porque a doença ha tres dias o tem a elle na cama: apressei-me a vir para que o padre, despresando a enfermidade, não viesse por este mau tempo arriscar a vida. As intenções, todavia, de meu cunhado, acolhendo em sua casa Casimiro Bettancourt, são obvias e justas. Os dous, desgraçados pela cegueira do amor, foram pedir ao sacerdote a benção matrimonial; o sacerdote não podia abençoal-os sem consentimento de v. ex.ª, e não podia tambem abandonal-os sem faltar á caridade que professa, á sua propria consciencia, e ao que deve ao sr. Ruy de Nellas. Abrir mão d’elles, na situação em que os viu, o mesmo seria declarar-lhes que não ha divina nem humana misericordia. Elles iriam porta fóra desconfiados da virtude do ministro de Deus, em que tinham posto sua esperança, e julgar-se-iam desquites de serem ou procurarem ser virtuosos...

—Bem!—atalhou Ruy, a que vem o senhor?

—Implorar a v. ex.ª consentimento...

—Para se casarem?

—Sim, senhor.

—Sabe o que pede? o sr. Ladislau sabe o que pede?!—bradou o fidalgo com os olhos afuzilando ira e gestos descompostos.

—Sei que peço, segundo meu cunhado diz, o unico remedio de tal desgraça.

—Seu cunhado é um parvo!—rebradou o velho, batendo rijamente com o punho fechado sobre a meza.—Repito: seu cunhado é um parvo, e não tem desculpa nenhuma, porque sabe quem é o pai de Christina, e quem são os parentes d’esse ninguem que roubou minha filha. Não lhe disse elle que Casimiro é sobrinho d’um carpinteiro?

—Sim, senhor, disse.

—E então? Parece-lhe que é bem arranjado o casamento do sobrinho do carpinteiro com a filha de Ruy de Nellas? Responda!... Que pena eu tenho que, em lugar do senhor, não estivesse ahi o padre, a ver que me respondia!...

—Parece-me que o padre responderia a v. ex.ª que a sr.ª D. Christina...

—Diga, diga!

—Casada com o sobrinho do carpinteiro está mais honrada que na situação em que se acha agora.

—Quer isso dizer que da parte do mariola é muito grande favor casar-me com a filha!?

—Não, sr. Ruy; eu não quiz dizer semelhante cousa; não vim aqui offender v. ex.ª.

—Pois então?... A vontade do meu amigo padre (replicou o fidalgo, sorrindo á palavraamigo) é que eu admitta em minha casa os noivos?

—Não lhe ouvi isso. O que elle unicamente pede é a certeza de que v. ex.ª lhe levará a bem que elle os case, embora o seu consentimento não seja escripto.

—Prohibo-o expressamente de os casar, sob pena de eu o fazer sahir da igreja, e metter em processo!

—Que quer, por tanto, v. ex.ª que faça sua filha?—redarguiu Ladislau com os olhos humidos de lagrimas de desanimação—Que ha de ella fazer?

—Entrar n’um convento, chorar o seu crime, e morrer lá, é o que eu quero. A elle hei de perseguil-o até ao inferno! hei de mettêl-o n’uma masmorra, e impontal-o para as Pedras-negras.

Ladislau recolheu-se breves instantes, e sahiu de si, dizendo com grande impeto de pranto:

—Se aqui estivesse frei Braz de Villa Cova, que diria, n’este ponto, o bom christão a v. ex.ª? Eu creio, senhor, que meu pai diria: «Perdão, e misericordia. A neta dos reis de Judá, Maria, mãi de Jesus, foi eleita pelo Eterno esposa d’um operario: era carpinteiro o pai putativo do Redemptor dos homens.»

—Não me pregue sermões!—interrompeu Ruy de Nellas, cujas convicções, no tocante ao casamento da Virgem Maria, eram muito pela rama. O fidalgo acreditava que uma sua tia freira bernarda em Lisboa tinha oração infusa, e, em seus extasis, se erguia sobre a terra quatro covados; acreditava que S. Thiago e S. Jorge vieram em pessoa combater e vencer pelos portuguezes; acreditava outro sim que a morte e vinda de D. Sebastião era por ora cousa duvidosa, porém o casamento da filha dos reis de Israel com um carpinteiro custava-lhe a tragar!

—Não me pregue sermões!—dissera, pois, Ruy de Nellas, e proseguiu:—Seu pai, se aqui estivesse, iria sem que eu lh’o pedisse, procurar essa mulher perdida, e convertêl-a a Deus, levando-a a um convento, e obrigando-a a ver bem a sua vergonha para que nunca mais se amostrasse a olhos do mundo. Seu pai, sr. Ladislau, de certo me não viria dizer que premiasse a desobediencia de minha filha, e a petulancia do farropilha, que m’a roubou, casando-os. Boa maneira de os castigar, não tem duvida nenhuma! O resultado de tão funesto exemploseria as outras minhas filhas fugirem-me com os miseraveis que as seduzissem! Se a religião mandasse ou aconselhasse tal, ai da ordem social, que então direitos de pai e obediencia de filhas tudo andaria transtornado! Não, senhor! frei Braz Militão não podia, de modo nenhum, ser o patrono de tamanho crime!

—Que quer, pois, v. ex.ª que se faça?—disse Ladislau com os olhos já enchutos, e um tom de voz, que denotava outra condição de espirito.

—Já disse: ella, convento; elle, se poder fugir, que me fuja; mas já e depressa, quando não a justiça fila-o.

—Creio que a sr.ª D. Christina não entrará em convento, nem Casimiro fugirá sem ella.

—Veremos! Eu vou mandar homens a S. Julião da Serra!

—Fará v. ex.ª mal. Na minha terra nunca entraram homens de braço armado, excepto os francezes, que incendiaram as casas por não encontrarem alguem. As nossas defezas e resguardo são as serras. Eu conduzirei a filha de v. ex.ª onde não possa a violencia alcançal-a. Ella fiou-se em mim, acceitou a minha casa, hei de defendel-a. A não poder vêl-a esposa do homem que ama, não serei eu que vá perfidamente arrancal-a ao seu destino, bom ou mau, Deus sabe qual será. Calar-me seria uma perfidia. Volto, pois, com o coração de lucto, e direi a meu cunhado que v. ex.ª lhe prohibe remediar a desventura da sr.ª D. Christina.

—Mas diga-me cá!—acudiu de golpe o velho.—Se eu consentisse no casamento, que se seguia? Minha filha voltava a Pinhel com o marido?

—Não, senhor.

—Pois então?

—Lá sabem o seu intento. A Pinhel não voltarão.

—Mas quem os sustenta, depois?

—Serei eu, se elles quizerem.

—Bello começo de vida! Vai viver minha filha ás sopas da...

Conteve-se Ruy; mas Ladislau, adivinhando-o concluiu a phrase:

—Ás sopas da serva de v. ex.ª... Minha mulher tanto se considera ainda uma creada de v. ex.ª que recebe como a maior das honras ter á sua meza a sr.ª D. Christina, e servil-a como creada.

—Perdôe-me, atalhou Ruy commovido, perdôe-me, que a minha dôr faz-me mau; que eu não o sou, meu amigo! Sua mulher nunca foi minha creada. Sentei-a á minha meza, e vesti-a como minhas filhas. Nunca me arrependi, e queria não me arrepender nunca. Faça o sr. com que ella resolva Christina a esquecer esse homem, e a fazer me a vontade. Póde ser que o tempo venha a gastar o odio, que tenho a essa perdida, e a tire do convento. É o maior serviço, que podem fazer-lhe, dissuadil-a. Façam com que Casimiro saia de Portugal: que vá para o Brazil ou para o inferno, que eu não lhe faço mal. Tenho dito, sr. Ladislau, a este respeito.

—Minha mulher não ousa dar taes conselhos á sr.ª D. Christina, nem eu a minha mulher. Em fim, sr. Ruy, ouça v. ex.ª o que vou fazer. Acompanharei sua filha ao lugar onde a encontrei; lá, onde a espera Casimiro Bettancourt, direi a ambos: «Fiz o que pude, pedi com lagrimas, pedi com razões: tudo se mallogrou. Agora se meu cunhado os não quer ou não póde casar, sigam sua vida, vão mostrar-se por esse mundo deshonrados, e digam que, se a deshonra os affasta das pessoas de bem, é por que esta infeliz menina tem um pai, que antes aquer assim.» É o que farei e direi, sr. Ruy de Nellas; mas antes d’isto, ainda me resta um esforço. Pedirei á alma de meu pai que lhe toque o animo; e, de joelhos e mãos erguidas, ainda uma vez, supplico a v. ex.ª que dê consentimento para que sua filha seja honesta!

Disse Ladislau as ultimas palavras ajoelhado.

O fidalgo contou, passados annos, que, em lugar de Ladislau, vira, como em sombra, fr. Braz Militão. Ha segredos de Deus; porém, bem póde ser que o caso, a dar-se, fosse mera visualidade do velho. Fosse ou não, Ruy de Nellas inclinou-se a levantar Ladislau de sua postura humilde, e disse:

—Valha-me Deus!

Passeou, de uma parede a outra, repetidas vezes, o salão, emquanto o moço arquejante lhe estava como bebendo a resposta dos beiços convulsivos. A final, parou o velho, em meio da sala, levou as mãos ás fontes, e, sacudindo vertiginosamente os braços, exclamou:

—Casem! mas que eu os não veja mais!

E sentou-se, prostrado.

—Beijo as mãos de v. ex.ª—disse Ladislau, retirando-se com alvoroço tal de alegria que a sua vontade era distancear-se depressa, receoso do arrependimento.

Arrependimento que por um cabello, pouco depois, ia dando de si um feito vil!

Ruy de Nellas ergueu-se de golpe, já quando o moço tinha sahido, e esporeava a galope desapoderado a mula, estrada fóra.

Chegou ainda a gritar pelos creados, cujo maior numero tinha ido para Trancoso. Era seu intento envial-os a S. Julião da Serra, infractores da palavra de seu amo.

N’este lanço, estropearam no pateo dous cavallos: ocavalleiro era D. Sueiro de Aguilar Vito de Alarcão Parma d’Eça, fidalgo de Miranda, com o seu lacaio.

Este sujeito, além d’aquelle nome, que só por si é uma fortuna, nascera primeiro que seus irmãos, na maior casa d’aquelles contornos de Miranda. Barbedos e Alarcões tinham começado, pouco mais ou menos, com o genero humano. Estas duas familias, em franqueza intima e modesta, diziam que o primeiro sangue de Lisboa—da Lisboa de sangue azul, intende-se—era um regato da fonte caudal, represada n’elles, ahi pela fundação dos reinados de Leão e Castella.

Desde muito que Ruy de Nellas meditava em casar a filha morgada com D. Sueiro de Aguilar, e n’isso trabalhára, com intervenção da parentella.

Eil-o ahi está agora o almejado genro a pedir-lhe a filha, e eil-o vem a ponto de estorvar que o sogro se deshonre, violando a palavra dada, com desdouros dos reis de Leão e Castella, seus avós.

Trocados os termos ceremoniosos, D. Sueiro perguntou pelas primas.

Entraram cinco meninas meia hora depois.

—E a prima Christina?—perguntou elle.

—Está na Guarda, em companhia da tia Mafalda Portugal—tartamudeou Ruy.

—Sinto—disse D. Sueiro—porque, vindo eu pedir a mão da prima Guiomar para mim, sou encarregado de pedir a prima Christina para meu irmão Alexandre.

—Céus!—exclamou para dentro de si o fidalgo, e as meninas encararam-se mutuamente.

—Fallaremos ácerca de Christina—disse Ruy, expedindo um gemido rouco.

E declinou a prática sobre trivialidades, até horas de jantar.

D. Alexandre, academico do primeiro anno na Universidade, tinha visto sua prima na feira de Vizeu, um anno antes. Escrevera-lhe, mediante os bons officios de sua tia D. Beatriz de Albuquerque. Não respondera Christina senão termos agradecidos á escolha, posto que incondescendentes. Assim mesmo, D. Alexandre de Aguilar recalcitrou, sem melhor exito. D. Sueiro, porém, tomou a peito levar a noiva ao irmão.

Contou-se o incidente que prende com o porvir d’esta historia.

O apparecimento de Ladislau Tiberio no alto da serra, que se arqueia sobre a casa de Villa Cova, foi saudado com o agitar de dous lenços brancos. O moço, segundo convenção feita, apeou, cortou uma haste de castanheiro, arvorou n’ella o seu lenço, e floreando-o de cima da cavalgadura, deu-se pressa na descida.

Quando tal viram, Christina, a rir e a chorar, lançou-se aos braços de Peregrina, e foram ambas ajoelhar diante do oratorio. Como a alegria as não deixava exprimir palavra, era-lhes preciso fallar em silencio com Deus.

Meia hora depois, entrava no quinteiro Ladislau, e as duas senhoras, arrebatadas como se a boa nova igualmente as deliciasse ambas, correram a ouvir a confirmação do que disséra a bandeira branca.

—É certo?—exclamou Christina.

—É certo, minha senhora.

—Deixa-me ir um criado a S. Julião dar parte a Casimiro?—tornou ella.

—Vamos logo todos; mas, se v. ex.ª quer, mande o criado já.

—Então não: vamos todos... quero eu dar-lhe a nova. E meu pai está bom? e minhas irmãs?

—Não vi suas irmãs; seu pai está inquieto; mas, como tem bom coração, Deus o socegará.

Abraçaram-se outra vez as duas amigas, e Ladislau, entre risonho e lagrimoso, gosava o não menor quinhão de sua alegria.

Fez-se logo noute, e esperaram que nascesse a lua para sahirem ao ingreme e despedrado caminho da igreja.

Por volta das dez horas, chegaram á lapa da Crasta, no viso da serra interposta, e lobrigaram um vulto.

—É elle!—exclamou Christina, lançando-se da egua.—É meu marido!

Casimiro Bettancourt correu ao encontro d’ella, e murmurou:

—Que dizes, Christina?

—O pai consentiu!—disse ella abafada pela commoção.

E Casimiro, desprendendo-se dos braços de Christina, foi cingir com o peito o sereno Ladislau, que ficara segurando as redeas da egua.

—Meu salvador!—exclamou o moço.

—Seu amigo, como amigo de todos os infelizes que amam!—disse Ladislau e ajuntou logo:

—O senhor que está aqui é que meu cunhado melhorou.

—O sr. vigario veio confessar um moribundo na aldeia, que está ao fundo da serra, e eu, com licençad’elle, vim até aqui para ver o fumo da casa de Villa Cova.

—Bem!—tornou Ladislau.—Vamos.

—Eu vou a pé—disse Christina—dá-me o teu braço, Casimiro.

—Ámanhã—atalhou Ladislau—ámanhã se encostará ao braço de seu marido, minha senhora.

Christina córou; e Casimiro tomou as redeas da egua para ella saltar ao albardão.

Ouviu-se um prolongado assobio como o dos caçadores em montados: era o vigario que chamava o hospede. Casimiro respondeu, e Peregrina, puchando do peito, quanto pôde, a voz, gritou:

—Cá vamos todos.

E, como todos rissem do agudissimo falsete da jubilosa Peregrina, o vigario percebeu logo a impaciente felicidade que não pôde esperar pelo dia seguinte.

E subiu a ladeira até encontrar o grupo.

—Abençoou Deus a tua resolução, já vejo!—disse padre João Ferreira ao cunhado.

—Abençoou: pódes tu abençoal-os, meu irmão.

E os dous ficaram alguns passos atrazados, para irem conversando sobre os successos de Pinhel, e os futuros em que os noivos não pensavam, nem era generoso dizerem-lh’os.

Ninguem dormiu, n’aquella noite, na residencia de S. Julião. O vigario sahiu, ante-manhã, a solicitar licença do arcipreste para casar os contrahentes sob sua responsabilidade sem o previo pregão de banhos. Obtida, voltou á egreja, e ouviu de confissão os desposados; e, em seguida á ceremonia da communhão, ligou-os, abençoou-os e disse-lhes:

—Ficam sendo os dous uma só alma para as alegriase para as provações. Deus voltará a sua face divina d’aquelle dos dous que attribuir ao outro o seu infortunio; e nós, os amigos de ambos, verteremos lagrimas de sangue se os virmos infelizes, infelizes á mingua de conformidade e fortaleza. Deus os tenha de sua mão.

Celebrado o matrimonio, almoçaram na residencia, e sahiram para Villa Cova, onde Brazia, azafamada com o jantar, e duplamente ditosa com o segundo casamento, dava ares de não ter o miolo fixo, no dizer dos outros creados.

A felicidade d’este dia não tem historia: ou se a tem, conte-a o leitor que a experimentou. Mas o meu leitor, casado por paixão, precisamente foi obrigado a attender aos comprimentos de amigos e parentes, uns a louvarem-lhe a noiva, outros a louvarem-n’o a si, estes a brindarem-n’o com vinho, aquelles a perguntarem-lhe pelo dote da mulher: barafunda esta que o não deixou sentir a sua felicidade.

Ora, na casa de Villa Cova, á mesa nupcial, além dos noivos, estavam o vigario, os donos da casa, o carpinteiro de Pinhel, e a velha Brazia. Os noivos repetiram em miudos a historia dos seus amores, os medos, as tristezas, os jubilos, o intenderem-se com a linguagem pactuada das flores. N’este ponto, Brazia ria muito e dizia que os namorados eram o peccado. As espertezas de José-pastor foram contadas por Christina com amostras do bem que queria ao rapasinho. Pediu ella ao marido que se não esquecesse nunca do muito que lhe deviam, e lembrou-se de o mandar estudar para padre se algum dia fosse remediada de bens de fortuna.

—Hade sahir bom padre!—atalhou a ridentissima velha.—Se assim souber espreitar as ciladas do cão tinhoso, muitas almas hade ganhar p’ra Deus!

Com estas e outras festejadas palestras passaram o dia. Ao escurecer, tornou o vigario á sua igreja, com promessa de voltar no dia seguinte, a fim de se conversarem cousas muito importantes.

E nós vamos já ao ponto d’estas conversações decorridas á sombra d’uns altos castanheiros, que pareciam ter alli ficado da idade de ouro para darem testemunho de um feito d’outras eras.

—Diz tu o que tens a dizer, Ladislau—estas palavras proferiu o vigario, logo que as duas senhoras se assentaram na grossa e retorcida raiz d’um castanheiro, e Casimiro á beira d’ellas.

Ladislau voltou-se para seu cunhado e disse:

—Porque não has de ser tu?

—Quem melhor exprime a idéa é quem dignamente a concebeu.

—Pois fallarei—tornou o moço: deteve-se breve espaço, e disse—o sr. Casimiro Bettancourt recebeu educação e tem espiritos que não são para vida aldean, e d’esta aldeia a mais desacompanhada e triste que ser póde. Isto é bom para mim, que nasci cá, e por todas essas pedras e arvores tenho cobrado um affecto de solitario, que todo outro viver se me affigura intoleravel. Que fará o sr. Casimiro, passados estes primeiros dias, em tal solidão? Perguntará a si mesmo: «Que faço eu aqui? Em que empregarei as minhas forças? Porque molde talharei o meu futuro?» Quando assim se interrogar, a resposta será uma melancolica indecisão, com vêr cerrados os caminhos para onde o animo o impelle. Vamos vêr se podemos abril-os para pouparmos o nosso Casimiro á desconsolação de cruzar os braços e dizer: «não sei!» O nosso amigo contou-me que, no collegio,estudava mathematicas, para o fim de seguir a carreira das armas.

—É verdade—disse Casimiro.

—Pergunto eu se lhe agrada recomeçar ou continuar os seus estudos, e ser militar.

—Desejava-o, tenho-o desejado sempre; mas a vida militar desprotegida é má; e, nas minhas circumstancias, o estudar foi e é impossivel agora.

—Não é. O meu amigo assenta praça, e requer licença para estudar em Lisboa, Porto, ou Coimbra. Tenho estas informações de meu cunhado. Eu offereço-lhe os meios precisos para se alimentar com sua senhora em qualquer das cidades que escolher, e assim se habilita para alguma vez me pagar o adiantamento que fôr preciso.

—Mas o meu dote...—interrompeu Christina, com fidalgo animo.

—Não se falla no seu dote—retorquiu Ladislau.—O sr. Ruy de Nellas deu o consentimento; mas não dá dote.

—O dote de minha mãi...—tornou ella.

—V. ex.ª não pede dote nenhum: eu disse a seu pai que a sustentação de sua filha e marido não corriam á obrigação d’elle. Está desobrigado o sr. Ruy de Nellas. Em resumo, o sr. Casimiro quer ser homem, quer a sua independencia, quer empregar dignamente as faculdades, que Deus não dá para ocios ou desperdicios. Resolve-se a abraçar a minha lembrança?

—De toda a vontade, e com o mais reconhecido coração. Diz-me uma voz intima que eu poderei desempenhar-me.

—Tambem a mim m’o diz—ajuntou Ladislau.

—Desempenham-se todos os que trabalham—ajuntouo vigario.—O principal estimulo que o sr. Casimiro leva para o seu engrandecimento é querer mostrar a seu sôgro que se fez homem.


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