XVIO julgamento

«Vai ao quartel de cavalleria a Alcantara, e entrega o bilhete, que vai dentro d’esta, á pessoa que lá diz por fóra...»

«Vai ao quartel de cavalleria a Alcantara, e entrega o bilhete, que vai dentro d’esta, á pessoa que lá diz por fóra...»

—Eu—interrompeu-se Brites atacada de modestia—não tenho muito geito para notar cartas; mas o que a gente quer é que nos entendam.

—Vai muito bem—disse Eugenia.

—Pois ponha lá:

«Toma conta que a não vás entregar a outra pessoa; e da resposta que houver escreve-me para Torres Novas. Sem mais enfado, tracta d’isto como coisa de muita... de muita...»

—Ponha lá a menina uma palavra, que diga... sim... que diga que é cousa de muita aquella.

—De muita consideração.

—Isso mesmo.

Eugenia sobrescritou á sr.ª Apollinaria dos Martyres, na calçada dos Barbadinhos, n.º 21—quinto andar á esquerda.

A irmã de Ruy de Nellas abraçou-se na ama de sua mãi, e clamou:

—Cuidei que estava mais desamparada. Ha almas boas em toda a parte, louvado seja o Altissimo!

—Amen—respondeu christãmente a sr.ª Brites, e foi á cosinha, onde o bolieiro estava jantando para voltar com a caleça ao fim da tarde.

—Vm.ᶜᵉ faz-me o favor de entregar em Lisboa uma carta á minha sobrinha? Aqui vae o nome e a rua. Se lhe não custa...—disse a velha.

—Não me custa nada, tia Brites; mas dobre-me a porção de vinho.

—Ahi vai, homem. Beba; mas não desatreme, nem me perca a minha cartinha.

—Fique certa, que de hoje a tres dias por estas horas, já está nas mãos da dita supplicanta. Diz ella tudo pelo claro nas costas?

—Vai tudo pelo claro.

—Então, metta-m’a ahi no bolso da jaqueta, e carregue-me o copo.

Foi a carta entregue á sr. Apollinaria, e o bilhete ao alferes de cavalleria, o qual, segundo veridicas informações da engommadeira da rua dos Barbadinhos, chorou, e vasou as algibeiras nas mãos tolerantes da sr.ª Apollinaria.

Escreveu o alferes uma longa carta a D. Eugenia. Principiava contando a descarga de dous tiros inuteis que lhe déram. Disse não conhecer as pessoas, que lhe atiraram, por virem rebuçadas, e estar ainda a limpar a manhã. Contou que o não feriram; mas suppunha elle ter sido mais certeiro na pontaria. Acrescentava que ia ser removido para Bragança, por intrigas e influencia dos irmãos de Eugenia; e declarava-se, a final tão desgraçado e desprovido de recursos, que não podia ir arrebatal-a das mãos da sua cruel familia, sem desertar, e collocar-se na precisão de ir perecer de miseria com ella em reino estrangeiro. Pedia-lhe, em summa de tudo, animo, e esperança.

Leu Eugenia a carta com profundo desgosto.

«Não me terá elle amor?!»—disse ella entre si.

Viu-a chorar a devotada Brites, e pediu-lhe o favor de lhe ler a carta. Quiz ouvil-a segunda e terceira vez. Consolidou as suas convicções com uma pitada e disse:

—Esse rapaz, quem quer que elle seja, tem tino na cabeça, e pensa bem. A menina por que chora?

—Nem sequer falla em vir vêr-me!...

—Pois se o pobre homem vai de marcha lá para cascos de rolhas, como quer a fidalga que elle deserte ás bandeiras, e venha aqui? E depois? que seria d’elle? e a sorte da minha flor do céu, era muito melhor!?...

Pudéram muito com D. Eugenia as razões de Brites, e mais ainda a promessa de tomar a velha á sua conta a correspondencia segura entre Bragança e Torres Novas.

Era chegado o momento de uma confidencia, que tem sido o balsamo de piedade em coração de pais lacerados, pela ira e pela deshonra: não será muito que o leitor, invocado a julgal-o O BEM E O MAL d’esta serie de biographias, dê sua piedade á desventura culpada, assim como tem dado suas bençãos á virtude sem nodoa. Ha crimes repulsivos; o engenho mais abalisado, a philosophia mais bem fingida, sob capa de verdade, tenta em balde mover-nos á compaixão do delinquente, em quanto o retalhar do remorso o não fez delir com lagrimas o stygma que a moral lhe assignalou: outros crimes, porém, são de si, e por vontade divina, sympathicos não direi; mas, se a ré se pranteia, e se olha em seu seio, e exclama: «Ó meu Deus! hei de eu espedaçar em respeito ao mundo este filho, que é o meu amor e o meu opprobrio?... hei de eu abafar o grito da minha consciencia e coração, para que o mundo me veja um rosto limpo, um rosto lavado no sangue do meu filho?...» Quando a mulher assim falla a Deus, a misericordia divina dá-lhe um anteparo contra as injurias do mundo; e o mundo, se lhe adivinha as dôres, e o mimo d’aquella paixão, á qual só falta um sacramento para ser santa, o mundo perdoa-lhe, embora a repulse do contacto das almas candidas, das suas filhas, das suas esposas, das suas irmãs, que Deus permitta não humilhem com maiores desprezos a desgraçada que é mãi.

É, pois, chegado o momento da confidencia. Quem a recebe é a consternada velha, que vira nascer a mãi d’aquella menina. Até áquelle momento, Brites estivera longe de imaginar um erro n’aquelles amores: julgava-os na sua maxima pureza. Descem lagrimas nas rugas dos oitenta annos, lagrimas de bom agouro, que deixam mais livre o accesso á piedade. Eugenia cuida que o revelar-seaos irmãos lhe dará um esposo, lhe será redempção de ignominia.

—Não, minha infeliz senhora, não!—exclama a velha.

E conta-lhe tres identicas e desventurosas historias, que ella presenciou em sessenta annos de serviço n’aquella familia: tres mulheres sepultadas em conventos, onde nunca entrou raio de contricção nem conforto.

O alferes sabe em Bragança as agonias de Eugenia, e sente n’alma o estylete excruciante da expiação. Nenhuma morte sustenta o parallello com as flagellações de seis mezes, soffridas a tantas leguas de distancia.

Eugenia recebe o ar e a luz pela janella do seu quarto unicamente. Teme-se da observação das creadas, que lhe espiam os passos, em suspeitarem de Brites. A velhinha tudo provê e prevê; mas, a intervallos quer morrer, antevendo as agonias da hora improrogavel, da hora em que o grito de afflicção rompe atravez das mãos da vergonha, que tentam suffocal-o.

Era no mez de dezembro de 1816.

O alferes lançou-se aos pés do general da provincia de Traz-os-Montes, que demorava em Bragança n’essa occasião. Abre-lhe sua alma, em torrentes de pranto. O velho general chora, e diz:

—Tenho rigorosas recommendações a seu respeito; mas vá, peça-me licença para ir ver sua familia. Dou-lh’a por quinze dias. Vá, embora eu tenha de soffrer.

O alferes vestiu habitos paisanos e desceu a Torres Novas. Alli vestiu-se de mendigo, simulou uma paralisia de braços, e pediu gasalhado em Recaldim. Trocou ligeiras palavras com Brites, e não viu Eugenia. Voltou á albergaria do commendador algumas noutes. Os creados contemplavam-n’o, e diziam:

—Tão novo e tolhido de braços!

As creadas accrescentavam:

—E não havia de ser feio!

Na noute de quinze de janeiro, por volta de onze horas, abriu-se a porta da albergaria, entrou Brites com a face alagada de suor e lagrimas. O alferes formou entre os braços com as dobras da capa de mendigo uma caminha de farrapos, recebeu um menino, e sahiu. A duzentos passos estava o leal camarada do official, com um cavallo á redea. O alferes cavalgou, o auxiliar saltou á anca do cavallo, e partiram.

Em Torres Novas alimentaram o recemnascido. Proseguiram até Santarem, onde foi baptisado sete dias depois. Alli veio uma ama do Cartaxo, e o levou comsigo.

Estava a expirar a licença. O alferes entrou no quartel, á ultima hora, e beijou as mãos do general, dizendo:

—Dei-lhe o nome de v. ex.ª. Ahi me fica a memoria da sua commiseração, general!

D. Eugenia de Nellas, dous mezes depois d’estes successos, recebia uma carta de seu irmão Vasco, participando-lhe que ia casar com uma titular brazileira, agraciada pelo sr. D. João VI, e convidava sua irmã a acompanhal-o á côrte do Rio de Janeiro.

D. Eugenia respondeu que queria viver e morrer no seu desterro de Recaldim.

«Bem sei—replicou Vasco.—Bem sei...—Brevemente, se quizeres salvar o amante, mudarás de resolução.»

«Bem sei—replicou Vasco.—Bem sei...—Brevemente, se quizeres salvar o amante, mudarás de resolução.»

Decorreram alguns mezes. Instaura-se processo a Gomes Freire de Andrade. São presos os cumplices da conspiração,e os suspeitos cumplices. O alferes é chamado a Lisboa, e recolhido ao castello de S. Jorge, como indiciado nos planos subversivos do general Freire de Andrade. São os Lucenas que tramam a bem agourada perdição do alferes.

Eugenia é avisada do encarceramento do alferes.

A faca apontada ao peito da timida senhora é um dillema: se ella persiste em ficar, o alferes morrerá; se vai para o Brazil, o réu absolvido.

Eugenia vai para o Brasil, o alferes, sem saber porque o accusam, nem porque o absolvem, sahe do castello e entra nas fileiras.

Ruy de Nellas, acantoado sempre no seu solar de Pinhel recebera a infausta nova da queda de sua irmã. Respondendo a Vasco, disse: «Não tenho irmã, nunca me fallem n’essa mulher. Fizeram bem não me dizer o nome do insultador de nossa familia, se é que elle tem nome.»

Saltemos a 1820. D. Eugenia é o assombro dos salões do Rio de Janeiro. Reviçam-lhe todas as graças; a da melancolia realça-lh’as, melancolia que dava a entender que o anjo, lembrado do céu, tinha saudades.

Vasco é-lhe odioso. A casa do irmão atormenta-a como um ergastulo. Perdeu esperanças de voltar á patria, e aspira a ver no céu o esposo de sua alma.

De repente, como que as esperanças lhe morrem, e a querida dos fidalgos brazilienses desce os olhos sobre a terra.

Vê um conde que fôra de Portugal com o principe regente, e a requesta de joelhos. E vai ella, levanta com a sua mão o homem que ha de resgatal-a do dominiodo irmão, e sahe condessa de Asinhoso da casa abominada.

No redemoinho das festas, a condessa parece estar sempre em contemplação d’um tumulo. E o marido mais a adora assim; e ella, de lhe ver o amor atravez das lagrimas, enchuga-lh’as e pede a Deus um novo coração para seu marido.

Nunca mais seus labios responderam a Vasco; e, ao terceiro dia de casada, disse ao conde:

—Meu amigo, a presença de meu irmão n’esta casa é como a do algoz da minha felicidade, e da tua, se posso dar-t’a.

O conde de Asinhoso ouvia sua mulher, e obedecia com jubilosa escravidão.

Gonçalo de Nellas havia morrido em 1819. D. Frederico Pain de Lucena morreu em 1820, legando os seus bens ao sobrinho vivo; Vasco, em viagem para a patria, morreu de febres.

A condessa enviuvou em 1833. Cuidou em liquidar os seus copiosos haveres, e voltar a Portugal.

Uma delirante esperança vinha com ella. Rica, livre, com a alma inteira no seu passado amor!

Desembarcou em Lisboa por junho de 1834. Reinava D. Pedro IV.

Mandou indagar do alferes de 1817 aos seus camaradas anteriores á scisão politica. Responderam-lhe que tinha morrido na guerra.

Ergueu ella então as mãos e disse:

—Ó meu Deus: merecia eu tamanho castigo?!

Mandou ainda perguntar por um filho do militar que morrera. Ninguem deu novas de tal filho. O espirito publico batia as azas ainda no ambiente de fogo e ninguemcurava saber onde podia existir o filho d’um official que morrera rebelde.

Foi então que a condessa d’Asinhoso, aterrada da sua soledade, escreveu a Ruy de Nellas, pedindo-lhe a sua estima, e uma filha que lhe fosse companhia.

O irmão não lhe respondeu.

Esta é a historia triste da senhora cujo valimento Ruy de Nellas vai pedir a favor de seu genro.

Qual é o valimento da condessa em Lisboa? É o prestigio da riqueza, e da belleza ainda.

Quarenta e seis annos, com trinta de amarguras e ainda formosa! É que ha mulheres de tamanha alma, que primeiro o fel da desgraça ha de enchel-a antes que o corpo se alquebre.

Das masmorras de 1793 sahiam formosissimas mulheres para a Guilhotina.

A mulher de Luiz XVI tinha pequena alma, sonhára vinganças mesquinhas, e por isso lhe encaneceram os cabellos n’uma hora.

Madame Roland, a scismadora de revoluções uteis, ia formosa no seu carro de morte.

Carlota Corday illuminou-se de formosura mystica ao vêr-se espelhada no aço do alfange.

Ao cabo de cincoenta dias estava o processo prompto para entrar em julgamento. Dominava em Coimbra a opinião de ser inevitavelmente condemnado Casimiro de Bettancourt. A innocencia que algumas pessoas apregoavam, era em geral recebida, a riso, como um paradoxo.

A alma de Christina confrangia-se, e os labios sorriam ainda. Era ella só quem ainda simulava esperanças; mas que supplicios surdos lhe custava dissimulação!

Ladislau e o vigario em vão queriam imital-a. A sua tristeza era como as trevas do cego que não se allumiam ao tremor convulso da palpebra. Queriam esperançar-se e de toda a parte lhes soava como irremediavel a sentença. Rosnava-se em compra de jurados: não era preciso arguir ao suborno a condemnação. Casimiro estava sem defeza: o seu silencio impressionava favoravelmente as almas distinctas; o vulgacho, porém, que haviade julgar das provas, daria importancia nulla á mudez do réu. Os protectores de D. Alexandre eram os mais graudos fidalgos de Coimbra e cercanias. Por Casimiro Bettancourt ninguem pedia. O padre e o cunhado, reduziam-se a promover o andamento rapido do processo, pagando liberalmente as despezas e actividade do procurador. Isto era bastante; mas faltava muito.

Ruy de Nellas affligia-se a cada nova carta desanimadora que recebia; entretanto, a solução favoravel em Lisboa era um respiradouro para elle e para os poucos amigos do preso.

Designado o dia do julgamento, o pai de Christina escreveu a sua irmã, contando-lhe os pormenores do casamento da filha, as desventuras do genro, a sua innocencia no crime assacado, a indefeza pertinaz em que se pozera, o mysterio do homicidio, a certeza de que o silencio de Casimiro Bettancourt era um heroismo de honra, talvez novo. Rematava pedindo á condessa de Asinhoso, que patrocinasse em Lisboa sua sobrinha, que era mãe e esposa extremosa.

Na ante-vespera da audiencia, travaram desordem uma malta de academicos richosos com as patrulhas nocturnas. Alguns estudantes retiraram feridos, e invocaram Guilherme Lira, em nome da honra academica. O chefe da Sociedade da Manta respondeu que n’uma das proximas noutes, seria vingada a academia.

No dia immediato entrou Guilherme no escriptorio de um tabellião, e pediu meia folha de papel sellado. Assignou-se no fundo da lauda, e fez que o notario lhe reconhecesse a assignatura.

Recolheu a casa, e deteve-se algum espaço, escrevendo no branco da folha assignada e reconhecida. Fechou em fórma de officio, lacrou, e escreveu algumas palavrasno involucro. Depois fez algumas cartas: uma subscriptada a D. Joaquina Soares de Lira, sua mãi, residente em Evora; outra a sua irmã, casada em Extremoz; e ainda uma terceira brevissima, dirigida a uma senhora, que tinha o segredo da ferocidade d’aquelle homem. Terminava assim: «Não te cito para o céu nem para o inferno. Chamo-te diante do teu proprio remorso. Viste-me um anjo aos dezoito annos; e fizeste de mim isto que sou. Não te accuso: lá tens dentro d’alma o teu algoz. É tempo de acabar.»

Deitou a carta na caixa postal, e foi á cadeia, segundo o seu costume quotidiano, vêr Casimiro. Eram quatro horas da tarde. Estava o jantar na meza. Guilherme sentou-se ao lado de Christina, e comeu com appetencia. De uma vez inclinou-se ao ouvido da senhora e disse-lhe:

—Ámanhã já v. ex.ª janta em sua casa com seu marido...

Christina soltou um brado de alegria.

—Que é?!—inquiriram todos.

Guilherme fitou-a e descahiu as palpebras.

Era impôr-lhe silencio, e ella abafou a revelação, que lhe crispava nervosamente os labios, e arquejava o seio.

Esperaram, brevemente a resposta com anciedade. Christina fitou os olhos supplicantes no academico, e elle, erguendo-se, disse:

—Póde fallar, minha senhora, d’aqui a instantes.

E abraçou Casimiro, beijando-o nas faces ambas; abraçou Christina osculando-lhe a fronte; apertou affectuosamente as mãos de Peregrina, Ladislau e padre João; affagou as duas creancinhas, e sahiu de golpe.

Casimiro chamou-o com vehemencia, e elle não voltou.

Referiu Christina o que lhe ouvira. Casimiro concentrou-se, pensou alguns minutos, e disse:

—Não mentiu. Ámanhã jantaremos em liberdade.

Pediram-lhe o sentido das palavras do academico.

Bettancourt respondeu:

—Ámanhã.

Notaram todos que a tarde e noute d’aquelle dia foram as mais tristes horas de Casimiro na sua prisão de dous mezes. E, comtudo, Christina escondia o seu contentamento.

Eram dez horas da noute, quando Casimiro ouviu grande grita e o estrondo de alguns tiros. Estava já sósinho, passeando febrilmente na saleta, e disse entre si:

—É agora.

O alarido e o tiroteio continuaram.

Collou o ouvido ás portadas da janella, e ouviu dizer na rua:

—Mataram o Lira.

Meia hora depois recahiu tudo em silencio quebrado pelas passadas das patrulhas em tresdobro. E o carcereiro bateu de manso á porta de Casimiro, e disse:

—Dorme?

—Não. Póde entrar.

—Vou contar-lhe o que vai. O seu amigo Lira espancou as patrulhas, que encontrou desde o bairro alto até á rua do Coruche. A Sociedade da Manta appareceu em armas, atacou reforço, que sahiu do quartel. Quando ia retirando para o Monte Arroio a estudantada debaixo de fogo, o Lira ficou atraz, sem arma nenhuma, a não ser o varapau de choupa que mettia a peito dos soldados. Tinha elle recuado até ás grades de Santa Cruz, quando cahiu morto com uma bala atravessada de fonte a fonte. Meu filho vem de observar. Faz dó ver umhomem tão valente assim morto como se mata qualquer poltrão!...

—Obrigado á sua noticia.

—O sr. ficou triste devéras!—tornou o carcereiro—Tem razão, que elle era seu amigo d’uma vez!... Boas noites, sr. Bettancourt. Ámanhã é o dia da grande batalha, espero em Deus que...

O carcereiro tão certo estava da condemnação, que não ousou concluir a phrase da esperança em Deus.

Mal se abriram as portas da cadeia, entraram Christina e os amigos a contarem o successo. A justiça ia tomar conta do espolio do morto. Coimbra estava agitada de terror. Esperava-se grande lucta da academia com a tropa no acto do enterro de Guilherme. Suppunha o padre que se não abrisse o tribunal, para obviar o azo da desordem. Contou Ladislau que o estudante, na vespera, tinha ido reconhecer a sua assignatura a um tabellião. Christina, que tudo sabia, esperava que seu marido fosse salvo por uma declaração de Guilherme. Eram, porém, nove horas, e não apparecia alvará de soltura, nem contra ordem de julgamento.

Ás dez horas chegou o official de juizo para acompanhar o réu ao tribunal.

Logo á sahida do carcere, ouviu Casimiro dizer:

—É preciso ir acabando com os assassinos. Um já lá vai: este não tarda; os outros hão de ir quando lhes chegar a vez.

Quem tão sisudamente discreteava era o cidadão honesto da Couraça dos Apostolos, em cuja cabeça Guilherme deixára um signal inutil para a morigeração da pessoa.

Sentou-se Casimiro no banco dos réus. Christina, Peregrina, o padre e Ladislau ficaram fóra da teia. D. Alexandrede Aguilar, como parte, sentára-se entre o seu advogado e o representante do ministerio publico. Na acareação de author e réu, perguntado o primeiro se reconhecia em Casimiro Bettancourt o sujeito que espancára, o fidalgo respondeu:

—Não podia ser outro.

—Pergunto a v. ex.ª se é aquelle e não se podia ser outro—replicou o juiz.

—É aquelle.

Sahiram a depor as testemunhas de accusação. Eram concordes em dizer que viram entrar na casa do réo o sujeito que matára um homem, e deixára outro estendido. Recordaram todas as precedentes aggressões que o réu fizera contra o author, já no botequim da rua Larga, já na ponte. O cidadão honesto sobreexcedeu a má vontade das demais testemunhas, dizendo que o réu era sujeito de tão máus costumes que roubára uma filha a um fidalgo seu bemfeitor, e com a filha roubára as joias da familia.

—Esse infame está a mentir!—exclamou Christina.

Casimiro voltou-se para o lado onde estava sua mulher, e encarou-a fito, com severo olhar.

O juiz disse:

—A senhora não pode aqui fallar.

—O que ella diz não se escreve—accrescentou a faceta testemunha, sorrindo do alto da sua probidade.

—Querello da testemunha—disse o advogado do réu.

—Eu não querello da testemunha—emendou Casimiro.

—Em tempo competente resolverão—admoestou o juiz.

Convergiram todos os olhares sobre Casimiro.

Um dos jurados disse:

—Eu já não condemno aquelle homem!

—Porquê?!—perguntou o visinho.

—Aquelle homem está innocente ou é doudo.

—Qual doudo? aquillo é um grande farcista! Elle não querella da testemunha, porque sabe que roubou as joias.

Terminou o depoimento de accusação por parte do author e do ministerio publico.

Esperava-se por testemunhas de defeza: o escrivão disse que não estavam inscriptas nenhumas.

—É doudo ou não?—disse o jurado bem intencionado.

—Qual doudo? replicou o outro.—É tão patife que não tem quem o defenda.

Ia levantar-se o patrono de D. Alexandre, quando o administrador do concelho entrou na sala do tribunal, e entregou ao advogado do réo uma carta em fórma de officio.

O orador, que já tinha dito: «Srs. jurados!» suspendeu-se.

O patrono do réo leu uma meia folha de papel, e disse, em pé, com os cabellos hirtos:

—Sr. doutor juiz de direito, v. ex.ª me dirá se o debate deve continuar, depois de ler a declaração que remetto á consideração de v. ex.ª.

Machinalmente ergueram-se todos, auditorio, e jurados.

O juiz leu mentalmente, e passou o papel ao delegado. Trocaram breves palavras, e deram ao official de justiça o papel.

—Leia o sr. advogado do réo—disse o juiz.—Eu por mim intendo que terminou o debate.

—Sou de egual parecer!—ajuntou o ministerio publico.

O advogado de Casimiro, limpando as camarinhas do suor, leu com voz tremente de alegria e commoção d’alma:

«Declaro eu Guilherme de Noronha e Lira, estudante do 5.º anno de direito, que fui eu quem matou, na noute de 16 de janeiro do corrente anno de 1840, um creado de D. Alexandre de Aguilar, e empreguei os meios de matar tambem o amo. Não tinha contra algum d’elles motivo de odio pessoal; mas, como inimigo jurado de poltrões covardes, e sabendo eu que elles espreitavam ensejo de matar Casimiro de Bettancourt, mancebo tão honrado como valente, protestei livral-o de tão miseraveis inimigos, atacando-os sósinho e sem mais arma que um páu de choupa, no momento em que elles tinham arrombado a porta de Casimiro para o irem matar entre sua mulher e sua filhinha d’um anno. Declaro mais que fui eu quem afugentou a companhia, postada ás portas de Casimiro na intenção de o arrancar ás garras da justiça; mas o meu amigo não quiz fugir, assegurando-me que se havia de salvar sem pôr em risco a minha segurança. E por tanto, resolvido a acabar com a vida, poucas horas antes de me deixar matar, faço esta declaração, e peço a Casimiro Bettancourt perdão de o ter infelicitado, quando cuidava que o beneficiava com o meu zêlo guardador da sua preciosa vida. Peço tambem perdão da inexplicavel fraqueza que me tolheu de eu ter feito esta declaração desde o momento que o meu amigo entrou no carcere. Eu sei que elle me perdoou; mas volto as minhas supplicas para a esposa attribulada, que tantas vezes, com um sorriso de amiga, devia execrar o causador das suas calamidades! Faço esta declaraçãodebaixo dos olhos de Deus, e juro pela virtude de minha mãi que é verdade o que digo, e será infame quem me não acreditar. Coimbra 19 de março de 1840.Guilherme de Noronha e Lira».

«Declaro eu Guilherme de Noronha e Lira, estudante do 5.º anno de direito, que fui eu quem matou, na noute de 16 de janeiro do corrente anno de 1840, um creado de D. Alexandre de Aguilar, e empreguei os meios de matar tambem o amo. Não tinha contra algum d’elles motivo de odio pessoal; mas, como inimigo jurado de poltrões covardes, e sabendo eu que elles espreitavam ensejo de matar Casimiro de Bettancourt, mancebo tão honrado como valente, protestei livral-o de tão miseraveis inimigos, atacando-os sósinho e sem mais arma que um páu de choupa, no momento em que elles tinham arrombado a porta de Casimiro para o irem matar entre sua mulher e sua filhinha d’um anno. Declaro mais que fui eu quem afugentou a companhia, postada ás portas de Casimiro na intenção de o arrancar ás garras da justiça; mas o meu amigo não quiz fugir, assegurando-me que se havia de salvar sem pôr em risco a minha segurança. E por tanto, resolvido a acabar com a vida, poucas horas antes de me deixar matar, faço esta declaração, e peço a Casimiro Bettancourt perdão de o ter infelicitado, quando cuidava que o beneficiava com o meu zêlo guardador da sua preciosa vida. Peço tambem perdão da inexplicavel fraqueza que me tolheu de eu ter feito esta declaração desde o momento que o meu amigo entrou no carcere. Eu sei que elle me perdoou; mas volto as minhas supplicas para a esposa attribulada, que tantas vezes, com um sorriso de amiga, devia execrar o causador das suas calamidades! Faço esta declaraçãodebaixo dos olhos de Deus, e juro pela virtude de minha mãi que é verdade o que digo, e será infame quem me não acreditar. Coimbra 19 de março de 1840.Guilherme de Noronha e Lira».

D. Christina perdêra o alento nos braços de Peregrina. Muitos academicos romperam de salto a teia, e vieram parar no meio da sala. O advogado do réu, esquecido das praxes, foi abraçar o cliente, que parecia dar levemente conta da agitação do auditorio, e applicava o ouvido aos soluços da esposa. Os jurados limpavam as lagrimas, excepto um que tinha recebido uns vinte mil réis de D. Alexandre. O fidalgo-autor acachapara-se de modo, que parecia querer sumir-se debaixo da meza. O seu advogado lia a declaração, e carecia de coragem para impugnar-lhe a validade. O juiz dizia ao delegado:

—Deviamos esperar isto, ou cousa semelhante. Este homem, sem provar nada, tinha provado a sua innocencia.

E o delegado confirmava:

—Eu espero a minha vez de abraçal-o!

O cidadão honesto da Couraça dos Apostolos ia a sahir, quando Casimiro, que parecia absorto, disse:

—Sr. juiz, peço a v. ex.ª a graça de ordenar áquella testemunha, que se demore um instante.

—Quer querellar!—bradou o patrono.

—Não quero querellar—acudiu Casimiro, desabotoando uma carteira, d’onde tirou um papel, e accrescentou:

—Disse a testemunha que eu roubára as joias da familia de minha mulher. A testemunha faltou á verdade. Peço licença para ler, e offerecer ao exame das pessoas, que me escutam, a seguinte declaração de meu sogro«Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo, de Pinhel, declaro que minha filha Christina Elisiaria não subtrahiu de minha casa valor algum, nem os seus proprios vestidos e adresses, quando fugiu para casar com Casimiro Bettancourt. E por isto ser verdade, mui espontaneamente, e com juramento aos Santos Evangelhos o declaro agora e sempre. Pinhel 22 de abril de 1839.Ruy de Nellas, etc.»

—Meu sogro está vivo para confirmar esta declaração.

—Confirmo!—bradou uma voz d’entre as turbas comprimidas na teia. E logo um gentil ancião de veneraveis cans, e nobre aspeito, com as faces arregoadas de lagrimas, entrou na clareira que a multidão lhe abria, e chegou á beira de Casimiro, e repetiu com a voz quebrada de soluços:

—Confirmo! confirmo! honrado moço, meu filho amado!

E abraçou-se n’elle, e logo na filha, que se lhe lançou aos pés, e em Ladislau e no padre, e na irmã, e em todos quantos vinham com olhos humidos, porque alli quantos choravam, e choravam todos, elle adoptava como amigos, como quinhoeiros da sua alegria!

Que momentos aquelles! Aquelle jubilo febril não matou, porque era santo, porque a Providencia divina se comprazia em contemplal-o!

Ia a turbulenta comitiva, que seguiu até casa de Bettancourt. A faisca electrica de enthusiasmo, recebida nos lances do tribunal, conflagrou animos juvenis, em bellicoso arrebatamento contra a policia e a tropa; por maneira que, as duas familias levavam um prestito de centenares de mancebos, urrando vivas á academia, e morras aos futricas e aos soldados. Casimiro parou algumas vezes no intuito de arengar aos moços; porém, a cada palavra conciliadora respondia o fremir de muitas vozes, a pedirem sangue e vingança?

—Parecem-me canibaes!—dizia Ruy de Nellas ao vigario.—Esta rapaziada não tem quem a governe!? Pobres pais e mãis!

Conseguiram entrar em casa, e accommodar os pequenitos, que vinham chorando de medrosos da vozeria, Mafalda nos braços do avô, e o filho de Ladislau nos do padre João.

Casimiro sahiu á janella a dizer expressões de reconhecimentoque a turba desattendia, clamando sempre vingança, e pedindo ao academico que tomasse o commando dos estudantes para vingar a morte do valente que o defendera a elle.

Por entre os amotinados circulavam pessoas de respeito, pacificando os animos, ou enganando-os para mais azado lanço. A custo, porém se dispersaram, comprommettidos a reunirem-se no sahimento de Guilherme Lira.

Aquietou-se a rua.

O velho sentou-se entre a filha e o genro, lançando-lhes os braços em volta do pescoço. Alegremente conversou, ora queixando-se de não o terem muitas vezes importunado com rogos de perdão, ora promettendo-lhes em dobro a amisade, que lhes não déra mais cedo.

—Nada de Coimbra—dizia elle a Bettancourt—Vamos para Pinhel, que tu não tens necessidade de ser official com tanto trabalho. A legitima de tua mulher vai augmentando, sou eu que a tomo a juros; e, emquanto eu viver, estareis em casa, sem dispender do vosso. É preciso pagarem se as dividas de dinheiro, que as de amor nunca se pagam. Este Ladislau é um grande moço, é o pai no rosto e no coração. Este padre João sei eu bem o que elle é; creou-se debaixo das minhas telhas, e ha de vir a ser bispo, se a virtude é qualidade para ser bispo. Em quanto á cachorra da Peregrina, esta, se não fosse do Ladislau, havia de casar commigo, que está guapa, esbelta, e uma perfeita dama. Vocês riem-se? Talvez pensem que se eu quizesse dar madrasta á minha Christina, andaria muito tempo a farejar nas boas familias da provincia!... Ora agora, tu, Casimiro, deixa-te de mathematicas, faz te lavrador, toma á tua conta os cazeiros da nossa casa, melhora-me os bens livresquanto pudéres, bemfeitorias e mais bemfeitorias nos prasos de nomeação, que eu quero deixar o menos que possa ser ao D. Sueiro, áquelle vil enroupado em habitos fidalgos. São uns lacaios todos, desde o morgado até D. Alexandre, e a minha Guiomar lá se fez com elles, que nem já se dignou escrever-me no dia dos meus annos! Deixai-a commigo... Vamos a saber: vocês não jantam? O contentamento é boa iguaria; mas vejam sempre se me guizam o contentamento com umas batatas e umas fatias de presunto. Vocês comem o contentamento, e eu o resto.

Sahiu Ladislau a tomar o jantar no Paço do Conde, visto que em casa ninguem atinava a saber onde estavam as panelas.

Entretanto, continuou o infatigavel fidalgo:

—Vou logo escrever a minha irmã, a contar-lhe o succedido. Tenho vontade de a vêr; não queria morrer sem a vêr! Foi para Lisboa aos treze annos: era um lyrio de brancura, e galanteria. Nunca mais a vi... Velha não póde estar, que eu levo-lhe vinte annos de vantagem... Bella vantagem, não tem duvida!... Talvez a convide a vir passar comnosco em Pinhel alguma temporada; mas ella sahe lá de Lisboa! Disse-me um deputado que a condessa vive lá no ultimo fausto, e é visitada por tudo que tem um nome grande na aristocracia e na politica. Será ella constitucional? Isso lá me custa; mas, em fim, o marido era-o; e justo é que ella herde as convicções de quem herdou seiscentos mil cruzados em dinheiro, que os vinculos foram a quem tocaram. Fez uma asneira minha irmã em enviuvar sem filhos.

Ninguem lhe cortava a jovial parlenda ao velho, até que chegou Ladislau com dous moços carregados de vitualhas.Á excepção de Ruy de Nellas, os convivas debicaram levemente as iguarias. Casimiro comêra regularmente no dia em que fôra preso; e, solto, entretinha-se a repartir o prato entre os pequenos. Não parecia ser a satisfação da alma que lhe tornava fastidioso o alimento; pelo contrario, revia-lhe o semblante uma extraordinaria melancholia.

É que o moço via diante de si continuamente a imagem de Guilherme, que, vinte e quatro horas antes, tinha dito a Christina: «Ámanhã já v. ex.ª janta em casa com seu marido.» E abstinha-se de revelar a sua mágoa para não compungir a esposa e amigos, que tão alegres estavam, e perdoavelmente esquecidos do commensal do dia anterior, áquella hora amortalhado!

Era já proposito de Casimiro sahir da Universidade, e ir buscar sua vida em qualquer parte ou mistér. Aquelle anno era o segundo já perdido. Entrou-se da certeza que a desgraça lhe atravancava o caminho das sciencias. Elle amava o estudo, deleitava-se nas asperidões da mathematica, e ia desatar-se para sempre e saudosissimo dos seus livros, das suas oito horas de estudo, da sua banqueta de pinho pintada, e de toda aquella pobreza limpa, que as mãos de sua mulher transformavam em jaspes, mognos, razes e ouro.

O convite de ir para Pinhel, com o sogro, seu amigo, entrar no goso das honras da illustre familia, ostentar a benemerencia da sua probidade, regendo a avultada casa, vingar-se assim pacificamente dos de Miranda, nenhum d’estes incitamentos lhe descontava nas dôres. Será paradoxal o dizer que Bettancourt mais se queria refugiar no casal de Villa Cova com sua mulher e filha, e antes de melhor rosto acceitaria o seu prato á meza de Ladislau? Pois é uma sublime verdade esta! Casimiro olhavaem Ladislau, no vigario, e sua irmã, e dizia-se: «Ó meus amigos, a minha dôr inconsolavel será deixar-vos. Eu hei de fugir sempre para as vossas serras, em quanto tiver vida para me lembrar o que fostes para mim e minha mulher nos dias de desamparo!»

—Cuidei que te vinha trazer mais alegria, Casimiro—dizia o fidalgo.

—V. ex.ª desculpe a minha tristeza—responde Casimiro—Enterra-se hoje um meu amigo.

—Pois sim, bem sei que deves ter pena do rapaz; comtudo, cada coisa tem seu logar. Conversa com a gente, abre um riso n’esse rosto, e faz que eu me não persuada que sou aqui de mais para a tua satisfação.

Casimiro levou aos labios a mão do velho, e disse:

—V. ex.ª está gracejando; mas ainda assim, magoa-me. Eu poderia esperar muitas melhorias á minha sorte, que ainda hontem era desgraçadissima no dizer do mundo; porém, a vinda de v. ex.ª com tão amoravel perdão, tamanho bem é que nem eu sonhava. V. ex.ª dirá se eu...

—Não me dês sempreexcellencia, Casimiro; chama-me alguma vez pai, se queres que eu te chame filho.

Beijou-lhe de novo a mão, em quanto Christina, tomando o maior quinhão do contentamento d’aquella adopção paternal, abraçou-se ao pescoço do velho, e acariciou-o infantilmente.

Ao anoitecer, Casimiro pediu licença para sahir.

—Onde vaes?—acudiu Ruy de Nellas.

—Vou acompanhar o cadaver de Guilherme Lira.

Encararam-se mutuamente, e voz nenhuma contrariou a piedade do amigo.

Ladislau, tomando licença de sua mulher, seguiu ocompadre. O vigario ficou em companhia de Ruy e das senhoras.

Christina, ao despedir-se do esposo, no patamar da escada, disse-lhe em modelação supplicante:

—E se houver desordem?...

—Eu farei que haja paz, minha filha.

—Então vaes na idéa de te envolveres na desordem?

—Não, filha, vou na ideia de evital-a. Limpa as lagrimas, Christina, não appareças assim diante de teu pai, que me accusará de duro para ti. Bem sabes que sagrado dever eu vou cumprir, minha filha.

Sahiram.

Raro academico faltou ao sahimento do cadaver. As alas negras moviam-se vagarosas, tristes e com os olhos em terra. Ao lampejar das tochas rebrilhavam muitas lagrimas.

Guilherme Lira morrera propugnando pelos brios academicos, diziam: era um engano. Guilherme morrera, suicidando-se. É verdade que, no correr de quatro annos, mão terrorista pesára sobre a gente coimbran, avêssa aos academicos, de cujo pão vivem. Soldados e verdeaes respeitavam a batina, porque Guilherme Lira vestia uma. Sobravam razões de gratidão áquelle desgraçado; mas o seu morrer, o derradeiro arrojo, não era já valentia; fôra um ir metter o peito ás espingardas que o abocavam.

Foi o cadaver lançado á cova. N’este acto, Casimiro sahiu de entre a multidão que rodeava a sepultura, e lançou sobre o cadaver a primeira pá de terra. Depois cruzando as mãos sobre o peito, e sem desfitar os olhos da cabeça empannada e ensanguentada do morto, disse:

—«Alli está a mocidade e a força; alli está um mancebo que deixou mãi n’este mundo; n’isto parou o grandealento d’onde os infortunios da vida desviaram as torrentes dos influxos do céu. Este homem seria um anjo do bem, se melhores condições da mocidade o não houvessem saturado de odio contra o mundo. Eu sei a historia d’esta existencia perdida, senhores. Este moço era bom; derramou inutilmente os balsamos do coração; achou-se vasio de amor; e repletou-se de peçonha e odio. Cansou-lhe a coragem para a resignação; sobreveio-lhe o delirio da vingança, vingança cega, sêde voraz de sangue; mas observai, senhores, que a tentação nem sempre venceu o instincto do céu com que fôra dotado este moço. Aquelle homem teve tantos amigos, tantos que, entre vós, um só não ha que se peje de mostrar as lagrimas. As minhas seria vergonhoso que se não vissem: eu hei de choral-as longo tempo... Vós sabeis que as portas do carcere se me abriram hoje, porque esta sepultura vai ser fechada. E eu, na presença de centenaros de testemunhas, e por aquella redemptora cruz, vos juro que acceitaria a minha prisão perpetua em troca da vida d’este homem, que era vosso, assim como tinha sido meu defensor...»

—Vingança! vingança!—bradaram algumas vozes de estudantes, que agitavam os gorros, e as tochas.

Espectaculo para terror era aquelle em volta de um cadaver!

E o brado, conglobado de mil brados, respondeu:

—Vingança!

Casimiro ergueu a mão, pedindo silencio, e exclamou:

—Paz! paz! é que eu vos peço, em nome de vossas mãis, em nome das cans do velho pai, que espera amparar-se em vosso braço! em nome de vossas irmãs que fiam do vosso auxilio o seu futuro! em nome dasalmas candidas que vos sorriem ao coração dias de maior felicidade! Paz vos peço eu, meus amigos, apontando-vos este moço que está por aquelles labios frios contando o que é a desordem, o que é a guerra, o que é desencaminhar-se um homem da estrada, onde ha espinhos, para tomar pela estrada onde ha abysmos. Que util lição, que excellente preceptor não está sendo este cadaver! Lembrai-vos, senhores, que este moço tem mãi.

Entrai com o espirito no coração das vossas. Avaliai o amargor das lagrimas que verterá cada uma das santas do amor, se um de vós cahir n’aquell’outra sepultura. Consenti que eu falle n’este instante pelo brado de todas, e vos peça o que ellas supplicantes a cada um de vós pedem: «Paz, meu filho!»

Callou-se Casimiro. Respondeu o ciciar da respiração alta do immoto auditorio. Retirou-se elle da margem da cova, e caminhou triste por entre a multidão, que deixára pender o braço sobre a arma escondida sob a capa. D’ahi a pouco, os academicos debandavam em grupos, e o silencio d’aquella sepultura estendeu-se pela face da cidade.

Ao sahir do cemiterio viu Casimiro diante de si a esposa, o sogro, o vigario e Peregrina.

—Viemos ouvir-te, filho—disse commovido o velho.

—É superior á nossa admiração, sr. Casimiro!—disse o vigario.

—Eu sou apenas superior aos maus pela virtude de os lastimar—respondeu Casimiro, dando o braço ao sogro, cuja sensibilidade lhe quebrantava as forças.

Desde logo, a pedido de Ruy de Nellas, começaram as senhoras os aprestos para a jornada no dia immediato á tarde. O velho futurava o rompimento de alguma revolução academica, a intervenção pacificadora de Casimiro,e a fortuita desgraça de ser empenhado pela honra a coadjuvar o partido dos estudantes.

A esta hora, meia noute seria, D. Alexandre de Aguilar, infamado, despresado, e solitario na sua angustia, esvasiava garrafas de cognac, no intento de aturdir-se e responder com a gargalhada do ebrio ao grito da vergonha. Os deploraveis perdidos, que se valem d’esta triaga, parece que a si proprios se estão castigando com mais crueza do que poderia castigal-os a justiça humana. Noute alta, o ébrio batia com a cabeça nas vidraças de sua janella, farpava a face nas arestas dos vidros, e rugia imprecações contra Deus. As patrulhas acummulavam-se á sua porta, e gargalhavam das estupidas objurgatorias do moço. Acudiam os academicos visinhos, e bradavam-lhe:

—Calla-te ahi, miseravel; afoga-te em cognac; não appareças mais á luz do sol; mas calla-te, besta, que, para seres fera, só te falta a bravura.

O tumulento fitava o ouvido, e respondia com roucos insultos requintados em obscenidades de alcouce.

De madrugada, o neto dos Parmas d’Eça acordou de frio que tinha o peito ensopado no proprio vomito.

Sentou-se, circumvagando os olhos espavoridos por sobre a desordem que o rodeava. Ergueu-se cambaleando, recahiu n’uma poltrona, escondeu o rosto entre as mãos, e chorou.

Oh! aquellas lagrimas é que não eram infames.

O desgraçado lembrou-se que, cinco annos antes, tinha mãi, e que a prophetica senhora muitas vezes lhe dissera: «Presagia-me o coração que has de ser desgraçado, meu filho.»

—Porque?—perguntava elle.

—Porque tens dezesete annos; sahiste hontem do collegio e já hoje escarneces a religião de teus pais. Assim tão cedo deixaste estragar o coração!... D’aqui a annos, nem por amor do teu nome, nem por calculo, serás honrado!

E, cinco annos depois, e só então, lhe lembraram as palavras de sua mãi!... Era o seu anjo da guarda que as recebera então, e agora lh’as offerecia á memoria, como lenimento unico d’aquella funda ulcera do descredito, desgraça, e infamia.

Na noute d’esse dia, D. Alexandre desappareceu de Coimbra, foi caminho de Lisboa, d’ahi pediu sua legitima a D.Sueiro e sahiu de Portugal. Ha vinte e tres annos que foi, e não voltou.

Ás duas horas da madrugada do dia seguinte ao das scenas descriptas no anterior capitulo, chegou á porta da hospedaria, chamada doPaço do Conde, uma carruagem, tirada por duas parelhas. Abertas as portas, apeou uma senhora, dando a mão a um padre velho que descera primeiro, e logo a creada. O padre, respondendo á pergunta do creado do hotel, disse que a senhora condessa de Asinhoso tomaria um caldo de gallinha, e voltou a receber as ordens de s. ex.ª

—Pergunte padre Francisco—disse ella—se hoje foi o julgamento de um academico chamado Casimiro de Bettancourt.

O padre foi cumprir, dizendo entre si: «que importa á senhora condessa o julgamento do academico, chamado Casimiro de Bettancourt? Pois será para assistir á audiencia que ella vem a Coimbra com viagens forçadas?!»

Volveu o padre, dizendo:

—É uma historia interessante, que parece novella, a tal do academico, senhora condessa. Em resumo, conta o estalajadeiro que, estando para ser julgado o reu, e forçosamente condemnado, appareceu a declaração d’outro academico, que mataram antes de hontem, confessando-se o matador. Em consequencia do quê, o tal Bettancourt foi posto em liberdade.

—Graças, graças, meu Deus!—exclamou a condessa ajoelhando.

O padre empedreniu-se, e encarou na creada tambem estupefacta: nenhum ousava tugir um monossyllabo.

Ergueu-se a condessa, e enviou de novo o capellão a pedir ao dono do hotel a bondade de fallar com ella por alguns minutos.

O estalajadeiro vestiu a casaca, esperou na sala a senhora condessa.

Interrogou-o ella ácerca de todas as miudezas concernentes á soltura de Bettancourt. O informador relatou-as todas, desde as severas lições que o academico dera a D. Alexandre, até ao lindo discurso, dizia elle, que o amigo de Guilherme Lira improvisára á beira da sepultura: e n’uma especie de apostilla á narrativa contou a esquecida circumstancia de ter irrompido inesperadamente pelo tribunal dentro o fidalgo, sogro do estudante.

—Pois elle está em Coimbra?!—interrompeu vivamente a condessa.

—Vi-o eu, minha senhora! É um velho bonito! basta vêl-o para se dizer: «aquelle é um fidalgo dos antigos tempos!»

—Sabe onde mora Casimiro Bettancourt?

—Sei, minha senhora.

—De manhã tem a bondade de me guiar a casa d’elle?

—Pois não, senhora condessa?

O capellão, cujo quarto era sob o pavimento dos aposentos da condessa, apesar de contuso e moido dos solavancos da carruagem pelas barrocas da estrada real de 1840, não poude adormecer, ouvindo até á madrugada os passos da illustre dama, e o abrir e fechar de portas d’uma janella. Certo fôra que a condessa nem sequer encostára a face ás almofadas do leito, e, de quarto em quarto de hora, ia impaciente abrir a janella e ver se rompia a alva.

Assim que aclarou o céu, já a senhora despertou a creada para lhe dar do bahú outros vestidos e ornatos.

Ao nascer do sol, estava s. ex.ª vestida a rigor de viuva opulenta: modestia elegante, pompa meio velada pela côr escura do estofo.

O egresso, que perdera a esperança de adormecer, levantou-se, e foi á antecamara receber as ordens da condessa. Sahiu ella a dizer-lhe que tomaria uma chavena de café, e ás nove horas sahiria acompanhada de sua reverendissima.

Sua reverendissima, vendo-a assim adereçada, consentiu que o demonio da maledicencia lhe encavalgasse o espirito: «Dar-se-ha caso, dizia elle comsigo, que a condessa esteja namorada d’esse Bettancourt? Querem ver que esta senhora, aos quarenta e seis annos, tresvaliou, e vai destruir o bom nome que está gosando?? Mas não!—monologou elle, tornando sobre si—Vai-te espirito aleivoso que me tentas! Aqui anda segredo que eu vou saber logo! Esta senhora é o typo da honestidade, e o modelo das viuvas honradas.

Ás nove horas sahiu a condessa, com o seu capellão e o estalajadeiro.

Chegaram defronte da pequena casa da Couraça dos Apostolos.

—É aqui—disse o guia.

—Obrigada. Póde ir, que eu demoro-me.

Subiu a dama a declivosa escadinha, e bateu á porta do topo. O capellão seguiu-a, gemendo.

Abriu uma creada a porta.

—Posso fallar ao sr. Ruy de Nellas?—disse a condessa.

Foi a creada á saleta em que as duas familias estavam almoçando, e noticiou que era uma senhora ricamente vestida a perguntar pelo sr. Ruy de Nellas.

—Quem póde ser?!—reflectiu o fidalgo.

—Abre o meu quarto de estudo, e diz á senhora que entre—disse Casimiro.

Quando a creada sahia da saleta, já a condessa estava á entrada, dizendo:

—Não sou de ceremonias, vou entrando, porque já conheci a voz do mano Ruy.

Levantaram-se todos. O velho abriu os braços, e ficou de braços abertos, e bocca tambem aberta.

A condessa chegou-se ao alcance do abraço, e disse:

—Parece que o mano duvida...

Duvido...—balbuciou elle—pela mesma razão que não devia duvidar... Tu tens vinte e cinco annos, Eugenia! Estás como te vi sahir de Pinhel!

—Cuidei que lisonjas eram desusadas entre irmãos, Ruy!... Pois eu dir-te-hei que estás bastante alcançado. A vida de provincia é menos salutar do que dizem as pessoas que envelhecem na corte. Senta-te, Ruy, e dá-me uma chavena do teu café.

—Tu aqui, mana!... tu aqui!...—voltava o fidalgo—Deixa-me convencer bem de que estou acordado! Quem é aquelle senhor?...

—É o meu capellão.

—Sente-se, sr. padre capellão, sente-se.

—Qual d’estas meninas é a tua filha?—perguntou a condessa.

—É esta, aqui tens a minha Christina.

A condessa beijou-a, abraçou-a, e mandou-a sentar.

—Este é meu genro—continuou o velho apresentando-lh’o.

Casimiro deu um passo, e curvou reverentemente a cabeça.

—Este é que é o sr. Casimiro Bettancourt?—disse a condessa apertando-lhe a mão.

E a mão ardia, tremia, e apertava extraordinariamente.

—As outras pessoas,—concluiu Ruy—são filhos do meu coração: aquella é a minha Peregrina, e aquelle o meu padre João. Lembras-te, Eugenia, do José Ferreira da Rochousa, nosso caseiro?

—Lembro.

—Pois são filhos d’elle que eu herdei. Aquell’outro, que alli vês, é Ladislau, marido de Peregrina.

—E estas duas creancinhas?

—Uma é minha neta e tua sobrinha, primogenita e unica de Christina, a outra é filha de Ladislau.

A condessa, ouvindo o irmão, a cada instante relanceava os olhos a Bettancourt, unico da comitiva, que ficára de pé, no intento de servir a hospeda, e dar a sua cadeira ao capellão.

—Senta-te, Casimiro—disse o velho—Aqui tens, Eugenia, o meu orgulho, a minha gloria, o meu Casimirosem mancha de culpa, com a sua honra illibada! Não foi preciso appellarmos para Lisboa. A justiça de Deus veio mais cedo do que a esperavamos. Eu te conto como isso foi...

—Sei tudo—atalhou a irmã—Já me informaram na hospedaria.

—Mas como estás tu aqui, mana?—tornou Ruy—Vinhas munida, talvez, de cartas para alcançares a absolvição de teu sobrinho em Coimbra?

—Não, Ruy—tartamudeou a condessa.

—Então que palpite foi esse de te botares ao caminho, sem saberes a decisão do julgamento?!

—Dizes bem, Ruy... foi um palpite...

—Bem hajas tu que vieste dar o remate á nossa satisfação! Agora vais comnosco para Pinhel, não é assim?

—Irei. E hoje janto comvosco.

—Isso estava sabido!... pois então?!

A condessa disse a padre Francisco:

—Póde ir, e descansar á sua vontade, padre capellão, que eu passo aqui o dia. Queira dar esta parte á creada.

Sahiu o padre, e todos passaram ao quarto de estudo de Casimiro, que era a parte mais alegre e arejada da casa.

—Estou entre amigos!—disse com um profundo suspiro a condessa—É a primeira vez na minha vida que digo isto!

Ruy comprehendeu a irmã, relembrou a mocidade dolorosa de Eugenia, e fez um gesto compassivo, e outro que significára: «Não lembremos o que lá vai.»

Porém, Casimiro, impressionado d’aquellas palavras disse respeitosamente:

—As felicidades de v. ex.ª não devem ter sido invejaveis!... Em volta da riqueza, da formosura, e de um nome distincto costumam reunir-se muitos amigos... ou, pelo menos, muitos que o parecem...

A condessa encarou n’elle com penetrantes olhos, e disse:

—Lastima-me, não é verdade?

—Minha senhora—balbuciou Casimiro—peço perdão... não quiz dizer que lastimava v. ex.ª... Quaesquer que tenham sido suas magoas, a sua elevada posição não consente que eu me condôa...

—Está bom, está bom—atalhou Ruy—não se falla aqui em magoas, nem dó, nem lastimas! Este meu Casimiro tem uma propensão para discursos tristes, que nunca vi!... Olha que hontem á noute, mana, o que elle disse á beira da sepultura do Guilherme, ia arrancar ao fundo do coração as lagrimas de quem nunca tivesse chorado!

—É porque eu dava o exemplo, chorando, sr.ª condessa—ajuntou Casimiro.

—E deve ter chorado muito!—disse ella.

—Pouco, minha senhora. Sou um homem muito resignado, ou muito forte. A mim as grandes angustias levemente me abalam. Algumas vezes tenho chorado por cousas insignificantes. Posso ver a olhos enxutos morrer minha filha, e não poderei ouvir sem lagrimas o piar de uma ave, a quem mataram os filhos no ninho. Isto será deformidade de organisação; mas dureza de alma não é, minha senhora... Meditando na minha indole, vim a considerar que para mim o incentivo das lagrimas é uma certa poesia funebre e maviosa, sensação que eu não sei d’outro modo definir; ao passo que as desditas positivas, cerradas e suffocantes regelam-me a alma.

—Elle ahi está a fugir para a tristeza!—interrompeu o fidalgo.

—Deixa-o fallar, mano...—pediu a condessa.

—S. ex.ª tem rasão...—disse Bettancourt eu sou incorrigivel e tenho contagio. Aqui está a minha Christina absorvida tambem na sua meditação...

—Não—acudiu Christina—eu estava a pensar com alegria nas tuas tristezas passadas, meu Casimiro.

—E todos com o passado ás voltas!—clamou Ruy—Fallem no presente, descubram o futuro, e não me afflijam, que vai aqui tudo raso! Querem ver que a minha Eugenia tambem é melancolica? Em pequena eras muito, menina! O teu gosto eram sombras de arvores, fontes, ver o céu de noute... Aqui estou eu tambem a fugir para traz trinta e tantos annos! Bem diz o Casimiro que a sua scisma é pegadiça!...

—Mas olha, mano, deixa-me conversar com o teu genro, que o passado te aborreça...

—O que eu observo, Eugenia, é que tu sympathisas grandemente com elle!...

—Porque não!?

—Beijo as mãos de v. ex.ª—disse Casimiro.

—Isso quando se diz, faz-se.

—O quê, senhora condessa?

—Disse que me beijava as mãos... então... beije.

Casimiro inclinou-se, e beijou de leve a mão da dama, que lhe apertou vertiginosamente a d’elle.

Este visivel estremecimento impressionou Christina e Peregrina, que se encararam de um modo que podia ser duvidar do bom senso da condessa.

—Vamos conversar, sr. Casimiro—disse Eugenia—Queira sentar-se ao meu lado. Meu mano já me disseque o sr. era filho de um militar, que morreu no cêrco do Porto.

—Sim, minha senhora, sou filho de Duarte Bettancourt.

—Conheceu seu pai? Onde estava quando elle morreu?

—Conheci meu pai. Vi-o em 1830 pela ultima vez. Estava eu no collegio dos Nobres, quando elle morreu.

—Sabe em que anno nasceu?

—Sei-o dos proprios apontamentos de meu pai.

—Escriptos por elle mesmo?

—Sim, minha senhora.

—Dá-me licença que os veja?

—Por que não, sr.ª condessa? Aqui está a velha carteira de meu pai...

A condessa tomou da mão de Casimiro, com sofrega ancia, a carteira, que folheou.

—Onde é?—disse ella convulsiva.

—Aqui, minha senhora—respondeu Casimiro indicando-lhe a pagina, que a condessa leu:

Meu filho Casimiro nasceu em 15 de janeiro de 1816. Foi baptisado em S. Domingos de Santarem aos 22 do mesmo mez. Foi creado no Cartaxo d’onde sahiu em 1820...

A condessa murmurava ainda; mas não lia o restante da nota. Fechou a carteira, e voltou-a nas mãos, remirando-a. Depois, pregou os olhos no rosto de Casimiro, e permaneceu n’este spasmo alguns minutos, até que muito do fundo do seio lhe sahiu um grito estridente, e uma explosão de lagrimas em que a luz da vista parecia innevoar-se.

—V. ex.ª soffre!...—disse Casimiro.

E acercaram-se todos da condessa, que, tomando a mão de Bettancourt, ergueu-se de impeto e disse-lhe:

—Leve-me a uma janella... dê-me ar, e uma gotta d’agua.

—São nervos!—observou Ruy—É da casa, que é abafada... Abram todas as janellas... Queres tu descer ao quintal? Vai com ella, Casimiro... Vamos todos.

—Estou melhor—atalhou D. Eugenia—Já respirei...

—Costumam dar-te estes accessos, mana?

—Costumam...

Sentou-se de novo, reparando na carteira, e outra vez se lhe tingiu de escarlate febril o rosto.

—Mysterio!—disse o vigario ao ouvido do cunhado.

—Que cuidas?!—perguntou Ladislau...

—Esperemos.

A condessa affastou das fontes os cabellos empastados de suor, e disse cortando as palavras de suspensões, que pareciam o abafar de mão estranha na garganta:

—Casimiro esteve no collegio dos Nobres até...

—Até 1834, minha senhora—respondeu o filho do major.

—E depois...

—Como perdi meu pai, fui a Pinhel procurar amparo de parentes pobres.

—E nunca viu no «Diario do Governo» um annuncio perguntando se existia um filho do major Duarte Bettancourt?

—A Pinhel nunca chegou esse jornal—disse Casimiro—E quem se interessava em saber se eu existia?

—Quem?...

—Sim, minha senhora.

—Era eu.

—V. ex.ª!—acudiu Casimiro com assombro.

—Com que fim eras tu, Eugenia?—perguntou o fidalgo.

A condessa fitou a vista incendiada no irmão; e disse:

—Com o fim de saber se existia... meu filho!

Assim devia ficar uma familia de Pompeia, de subito, empedrada na invasão da lava fulminante. Uns a outros, com olhos pavidos, pareciam pedir o claro sentido d’aquellas palavras.

Casimiro sentiu lavaredas no seio e descerrou os labios á expedição do lume. Estrondeavam-lhe no encephalo umas allucinações de ebrio. Dos olhos de sua mãi afuzilavam umas como frechas que lhe cortavam de lampejos o curto espaço de ar intermedio. Para os outros, ha só o termo «estupefacção» que os descreva. A condessa oscillava outra vez assoberbada pela commoção nervosa; já se não sustinha, com as mãos apoiadas nas costas da cadeira. Levantou-as, estendeu os braços como a pedir amparo. Encontrou o seio de Casimiro, e n’elle inclinou a face, exclamando:

—Meu filho!...

Mas isto tudo é um sonho!—disse Ruy de Nellas, levando as mãos ás fontes.

Casimiro ajoelhou com a mãi nos braços. As duas senhoras, sem segura consciencia do que faziam, foram amparar a condessa. O vigario pôz as mãos em attitude de quem ora. Ladislau cruzou os braços no peito contemplando o grupo.

De subito, Casimiro afastou um pouco a face, contemplou o rosto pallido da condessa, beijou-a na fronte e disse:

—Tenho mãi, meu Deus!... Eu sabia que a tinha, e havia de encontral-a!...

Então, chorou, a torrentes!

Se não chorasse enlouquecia.


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